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1/9/2020
By/Por:
Bernardo Oliveira
1. Atração e Retração

É comum iniciar uma análise sobre a questão negra e a representação afrodescendente no Cinema Brasileiro elencando, primeiramente, um conjunto de filmes associados ao Cinema Novo: Aruanda (Linduarte Noronha,1959-1960); Barravento (Glauber Rocha, 1962); Cinco Vezes Favela (Carlos Diegues, Leon Hirszman, Marcos Farias, Miguel Borges e Joaquim Pedro de Andrade, 1962); Bahia de todos os santos (Trigueirinho Neto, 1961); A grande feira (Roberto Pires, 1961); Ganga Zumba (Carlos Diegues, 1964). Podemos desalinhar essa clivagem oferecendo uma visão expandida, mencionando também dois filmes que fogem aos estereótipos comuns e às representações subalternas ou paternalistas do negro no cinema brasileiro. Mais próximo de uma linguagem passível de ser considerada “cinemanovista”, Compasso de Espera (Antunes Filho, 1973) se relaciona a um segundo momento, comprometido com temáticas urbanas e contradições restritas à classe média presentes em filmes como O Desafio (Paulo César Saraceni, 1965) e Bebel, garota propaganda (Maurice Capovilla, 1968). Já Alma no Olho (Zózimo Bulbul, 1973), primeiro filme do diretor negro brasileiro Zózimo Bulbul, realizado a partir das sobras de negativo de Compasso de Espera, distancia-se do Cinema Novo e busca sua força no jazz de John Coltrane e em elementos de performance e do Cinema Underground norte-americano. Zózimo Bulbul é ator no primeiro e diretor do segundo, o que faz com que esses dois filmes formem uma espécie de díptico e mantenham entre si uma relação umbilical. Inspirado no livro de Eldridge Cleaver Soul on Ice (1968),1 a obra inaugural de Bulbul nasce, portanto, no contexto do Cinema Novo, demarcando, logo no seu início, um distanciamento ambíguo, uma oscilação que atravessará a obra do diretor tanto do ponto de vista estético quanto político. À inflexão cinemanovista que se desenha a partir dos anos 60, os filmes de Antunes Filho e Bulbul assinalam proximidade e distanciamento simultâneos do primado cinemanovista.

Apesar das críticas que possam ser endereçadas às representações do negro nos filmes do Cinema Novo, o pesquisador Noel dos Santos Carvalho aponta como o movimento operou como um marcador histórico importante para uma mudança de atitude em relação às representações do Negro:

O Cinema Novo colocou o negro no centro da cena rompendo e condenando os estereótipos difundidos pela chanchada, Vera Cruz e adjacências. Seu anti-racismo se baseou na: 1) condenação dos estereótipos raciais; 2) na ignorância à idéia de raça e a sua submissão à categoria mais geral de povo; 3) na tematização de aspectos da história, religiosidade e cultura do negro. (…) No entanto, o que queremos reter aqui é a mudança de atitude, a ruptura que significou um conjunto de filmes que tiraram o negro dos papéis estereotipados tradicionais, colocando-os como protagonistas das histórias.2

O emprego do cinema como ferramenta de pensamento e prática política antirracista marca a aproximação, enquanto a forma e a abordagem dos filmes, particularmente associados à questão negra, parece afastar Bulbul do Cinema Novo. Em 1982, em meio aos meandros obscuros das políticas ligadas à Embrafilme,3 Bulbul lançou críticas duras em direção a Cacá Diegues e a Walter Lima Jr, chegando a recusar um papel para trabalhar em Chico Rei (Walter Lima Jr., 1985), pois considerava que “historicamente é terrível”, uma “coisa pasteurizada” destinada a exibição “na telinha da Globo”.4 Uma insatisfação com a representação do negro, mas também com o tipo de experiência cinematográfica, que Zózimo considerava pasteurizada, desprovida de invenção.

A questão se adensa. Anos mais tarde, Bulbul registra na epígrafe de seu primeiro longa-metragem, Abolição (Zózimo Bulbul, 1988), uma dedicatória controversa a dois nomes do Cinema Novo, Glauber Rocha e Leon Hirszman. Controversa porque, em seu retorno ao Brasil após auto-exílio na Europa,5 podia-se afirmar que conservava-se aquela relação inicial de atração e retração entre o cinema de Bulbul e o Cinema Novo. De modo que, hoje, parece mais proveitoso evocar o cineasta que operou um trabalho de seleção de possibilidades formais e temáticas, submetida a um jogo experimental que nenhum cineasta do Cinema Novo teve ferramentas para realizar. Esta relação parece nos oferecer uma via interpretativa interessante para abordar o quanto Abolição é alienígena tanto em relação ao documentário brasileiro, quanto ao Cinema Novo e até mesmo em relação à própria obra de Bulbul. Sob o prisma das relações entre cinema, negritude e racismo no Brasil, identifica-se em Abolição uma espécie de campo de força que se sustenta por si mesmo, indicando que, entre integrar-se ou não aos movimentos hegemônicos, Zózimo seguiu seu próprio caminho.

2. Cinema Atlântico

Pelo modo como lida não apenas com o constructo cinematográfico, como também por sua dimensão técnica e estética específica, que Abolição, único longa produzido e dirigido por Bulbul, extrapola o valor documental e se propõe a desenvolver uma experiência singular. Para além de uma relação de atração-retração com o Cinema Novo, Abolição parece se articular a um outro conjunto de filmes que constituem modo específicos de tratar as relações entre a ficção e o documentário. Abolição se organiza a partir de registros, algumas encenações, entrevistas e imagens de arquivo, visando expor a articulação oportunista entre a farsa histórica da Abolição a realidade de negras e negros no Brasil contemporâneo. Visto hoje, mais de 30 anos de sua aparição, Abolição se parece menos com “um programa ampliado de Alma no Olho”6 do que com uma experiência a ser tomada em ressonância com esses filmes. Gosto de pensar que Abolição pode ser considerado um filme “Atlântico”, isto é, um filme construído a partir de estratégias arquitetadas para fazer emergir um cosmos de relações e associações livres. Filmes como A Idade da Terra (Glauber Rocha, 1981), Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, 1984), Ôrí (Raquel Gerber, 1989), O Fio da Memória (Eduardo Coutinho, 1991) e Abolição. Cinema Atlântico, qual seja, cinema de travessia, cinema atravessado pela temática colonial/racial de forma simultaneamente direta e indireta, objetiva e subjetiva. Constitui-se como miríade de signos em movimento, atravessando eras e fatos históricos, através de um referencial abrangente e dilatado, uma polifonia audiologovisual embutida na própria forma do filme.

O filme não foi recebido em suas características mais originais por cineastas, pesquisadores e mesmo pelo público negro, que, a bem da verdade, não costuma ter acesso aos cinemas brasileiros. Em um ensaio sobre Bulbul (2012), o pesquisador Noel dos Santos Carvalho reforça a percepção de que o experimentalismo de Abolição não teria alcançado o efeito desejado, constituindo-se como “um inventário de falas, performances e discursos sobre a Abolição, o que explica em parte sua irregularidade, repetições e excessos.” Carvalho também afirma que “do ponto de vista da estrutura narrativa é o mais didático dos filmes anteriores, o que contribui para a sua irregularidade” e completa: “Abolição com os seus 150 minutos de projeção não teve grande aceitação entre o público. Nem mesmo entre a população negra. Ficou restrito a um pequeno círculo de intelectuais e ativistas do movimento negro.” Em seu ensaio Esboço para uma História do Negro no Cinema Brasileiro"7 Carvalho ressalta a presença da equipe técnica, formada quase que exclusivamente por negras e negros (com exceção da fotografia experimental de Miguel Rio Branco e da montagem precisa de Severino Dadá), observando que “o que vemos está mediado pelo olhar dessa equipe. Assim, não se trata apenas de contar a história do negro no Brasil, mas de um ponto de vista negro sobre a história.” Em ambos os casos, parece consenso que as eventuais qualidades se concentram no plano simbólico, isto é, fora do filme, seja pelo esforço inicial — a tentativa de problematizar a "Abolição" a partir de um olhar negro —, seja pela representatividade da composição étnica de seus quadros técnicos. A seguir proponho algumas ideias a partir da construção interna do filme, no sentido de afirmá-lo como o corolário de uma trajetória singular no cinema brasileiro.

3. Material e Tratamento

Em uma entrevista dada a Peter Hessli em fevereiro de 1994, o fotógrafo norte-americano Arthur Jafa faz uma distinção muito particular entre material e tratamento. Na ausência da possibilidades de produzir a partir de seu próprio material, a criatividade afrodiaspórica se afirmou através de novos usos, apropriações e modificações profundas dos materiais disponíveis: “muita da nossa criatividade se fundiu em torno da noção de tratamento, isto é, transformando dados materiais de alguma maneira significativa. (…)” Ao contrário da fotografia e da pintura, em que a imagem, enquanto produção material, é o ponto de chegada, a imagem produzida pelo cinema é apenas um ponto de partida. O acesso aos equipamentos e aos materiais capazes de produzir filmes é ainda mais inacessível para as populações negras, de modo que se pode perceber que sua apropriação também se diferencia a partir dos traços mais sutis. O caso mencionado por Jafa é exemplar: John Coltrane deslocando My Favorite Things de seu campo original, para, através de um tratamento particular, criar fissuras e aberturas antes impensáveis. “A criatividade afro-americana foi moldada pelas circunstâncias específicas em que os negros se viram; geralmente não fomos capazes de especificar os materiais que nos foram dados para trabalhar.” O que faz com que “Abolição” se afigure como um caso de extrema excepcionalidade é que, ao contrário de seu primeiro filme, realizado a partir de negativos que sobraram de “Compasso de espera”, do “cinema de arquivo” cubano de Nicolas Landrián e Santiago Álvarez ou do próprio Jafa, é que o filme parece se dirigir nos dois sentidos: na produção e na abordagem, perfazendo um domínio completo de criação e modificação sobre o material e o tratamento expressivo. Material e tratamento produzidos simultaneamente, ao lado da equipe negra, extrapolam a carga simbólica de um domínio, de um controle do modo de produção, e indicam decisões estéticas conscientes.

Para além dessa característica, o cinema em Abolição é “atlântico” pelo seu caráter de cosmicidade. A narrativa linear e a representação panfletária da realidade cedem espaço para um campo de atravessamentos no qual Bulbul articula depoimentos, registros e fotografias. Escapando da linearidade do storytelling e incorporando uma organização de cunho não-linear, Bulbul teve a oportunidade de pensar o filme a partir de outros tratamentos expressivos, organizando-o como uma amplidão desprovida de centralidade, valorizando a oralidade, a planificação em transe, depoimentos dramatizados, a montagem rítmica e a presença, a captação da energia local. Sob esse aspecto, não basta dizer que “Abolição” encerra um olhar negro sobre sua própria história, pois a história para o desterritorializado nunca é um fim, mas um meio, uma estratégia que se lança sempre para o porvir, para a sobrevivência em contexto adverso. Estratégia com qual objetivo? Abrir as condições de possibilidade para a vida no presente. Este me parece ser o sentido mais potente para o termo “ancestralidade”: a capacidade de contar sua própria história investido de força suficiente para saber também desmontá-la e recontá-la, visando a elaboração de uma historicidade singular. Não falamos, portanto, de uma negritude ausente e idealizada, tampouco de um movimento de resistência integrado e coeso, mas que se desfia na equivocidade da presença e dos conflitos. O olhar de um homem negro envolvido por uma cosmicidade negra e não-negra que o envolve, e com a qual ele negocia sua própria existência.

4. “Como teria sido o dia 14 de maio de 1888?”

Os minutos iniciais do filme são cruciais para compreender o seu movimento e desenvolvimento. A cartela contendo a posição temporal manifesta a marca da irreverência crítica: 12 de maio, o dia anterior à assinatura da Lei Áurea. Mais à frente, outra cartela anuncia: 14 de maio de 1888. Em texto sobre o filme, Bulbul teria perguntado: “como teria sido o dia 14 de maio de 1888?” O jogo com as datas desloca o eixo histórico da Abolição enquanto grande evento, favorecendo a percepção das causas e consequências para o presente brutal e incompreensível que se encontra fora do compasso da história. A cada imagem que é mostrada nos primeiros minutos de filme, ouvimos o estalar do obturador soando como se fosse um chicote. Nas vozes de Clementina de Jesus, Tia Doca e Geraldo filme, inicia-se o Canto I do álbum O Canto dos Escravos (1982), que integra o repertório de canções de trabalho recolhidas pelo filólogo Aires da Mata Machado Filho no fim dos anos 20 do século passado, em São João da Chapada, município de Diamantina, Minas Gerais. O obturador-chicote marca a passagem de uma imagem a outra, entre pinturas e fotografias que retratam as mazelas da escravidão, ora na cabeça do ritmo, ora de maneira sincopada. Há evidentemente uma ambiguidade entre o sentido crítico e a abertura para uma perspectiva paródica que permite criar um paralelo entre o obturador e o chicote, sinalizando que estamos diante de uma abertura improvável para pensar o problema racial no Brasil.

Finalmente, uma terceira cartela indica: dia 13 de maio. “Dia de branco”, uma expressão racista que se costumava utilizar no Brasil para dizer que é dia de trabalhar. A cidade está sob uma forte tempestade, enquanto a equipe chega ao Paço Imperial no Rio de Janeiro, local da filmagem. O iluminador, um jovem negro, prepara a luz. Os bastidores são iluminados, mas o corte não nos leva para algum depoimento ou justificativa. Somos remetidos diretamente para as imagens da Congada8 entrando na igreja com seus estandartes. Esse caráter às vezes elípticos, às vezes atravessado por associações livres ou desprovido de encadeamento explicativo, atravessará todo o filme. As variações no ritmo da montagem e da iluminação interna dos planos denota uma forma muito livre de pensar o momento do registro e sua montagem. Todos os depoimentos e falas sugerem uma encenação dramática, ao contrário de uma das duas encenações do filme, a assinatura da Lei Áurea. Pela aparência arqui-falsa, esta sequência nos remete a percepção de que o decreto de libertação dos escravos fora justamente uma farsa. A entonação propositalmente apalermada de Camila Amado, atriz que representa a Princesa Isabel, contrasta com a sequência seguinte, um longo registro de um desfile de carnaval no Sambódromo,9 alternando com trechos hilários da princesa em delírio na sacada do palácio. Entre a representação da Princesa que acreditava em seu papel histórico determinante e, cem anos depois, a expressão complexa do carnaval na avenida, vigora um sentimento inominável entre a beleza, o mal estar e a ironia. No carnaval carioca, os corpos negros tocam, dançam, cantam e trabalham empurrando os carros alegóricos.10

A sequência das dedicatórias são curiosas: “ao mestre Glauber Rocha”, a Leon Hirszman e "ao cineasta negro Hermínio de Oliveira". Em seguida, uma menção ao Movimento Negro Unificado (MNU) por sobre as imagens de foliões saindo do Sambódromo para a Central do Brasil, local onde a população costuma pegar o trem para acessar tanto os bairros da Zona Norte e Oeste do Rio de Janeiro, como também os municípios da Baixada Fluminense — neste momento, é possível perceber o grande sambista carioca Catoni entre os transeuntes. Dos sons harmoniosos e corpos dançantes investidos na batucada carnavalesca, rumamos para a Central, para dentro dos trens que levam os foliões negros e negras para suas casas no subúrbio carioca. Corta para um Teatro de bonecos para crianças, que falam abertamente sobre racismo. As cenas da Barca Rio-Niterói lotada são embaladas por uma trilha sonora sintetizadores à moda do Krautrock. Operários e engraxates negros, um cachorro caga, uma mulher trabalha, entramos pela sua casa. Um bebê, uma certidão de nascimento datada de 1868 e, de repente, topamos com a impressionante entrevista de Seu Manoel, ex-escravo que, do alto de seus 120 anos, concedeu o depoimento a seguir:11 "Hoje estamos na amargura, não ganhávamos dinheiro mas tínhamos satisfação. A comida era outra e todos ficavam satisfeitos."

O tom de ironia sutil se instala quando ocorre o corte entre o final do depoimento de João de Orleans e Bragança, neto da Princesa Isabel, e a equipe de técnicos negros e negras que saem às pressas do Paço Imperial com os equipamentos nas mãos. Na sequência, Maria Beatriz do Nascimento desfaz as certezas oficiais da Família Real, mostrando como o pacto político que resultou na Abolição da Escravatura acabou por precarizar a vida da população negra, pois na passagem da Monarquia para a República, “os negros deixaram de obedecer aos senhores e passaram a ser controlados pelo Estado”. Joel Rufino sentado no meio-fio, na idílica Pedra do Sal, reduto inaugural do samba urbano carioca. Bulbul e seu montador, Severino Dadá, operam uma montagem eisensteiniana, alternando o depoimento agudo de Rufino com imagens das ondas do mar batendo nas pedras. O tratamento sonoro parece deixar o som da cidade e da trilha sonora vazar, partilhando espaço sonoro com o depoimento. Joel Rufino apresenta Tia Carmem como baluarte da Praça Onze, localizada no Rio de Janeiro, local que no início do século passado era conhecido como "Pequena África". Irrompe o depoimento da escritora Thereza Santos afirmando que, após a Abolição, a vida da mulher negra piorou.

O filme retoma a questão da expressão social do samba urbano a partir do registro de uma roda de sambistas oriundos de Escolas de Samba como Estácio, Mangueira, Portela, entre outras. Distancia-se do Cinema Novo porque faz outras perguntas. Relaciona-se com a História do Brasil de uma maneira paródica em relação aos ditames sociológicos, aproximando-se, por exemplo, de um cineasta como Frederick Wiseman, no sentido de que usa o cinema para apreender a realidade captando não somente as informações objetivas, como também seus aspectos fragmentários e provisórios. Esses deslocamentos aparentemente aleatórios, acentuam a polifonia e abrem espaço para que Bulbul mantenha uma relação vazada e ambígua, ora ressaltando sua presença, ora partilhando espaço com o espectador, a equipe e os personagens. Não se trata somente do "olhar negro" ou simplesmente do olhar de Bulbul; ele capta com o filme uma realidade que extrapola a subjetividade, organizando por campos de ação: campo de modulações, de atravessamentos, de fragmentos, de corte-e-ritmo e campo simbólico, relativo aos cartazes e às palavras que por vezes são mostradas na tela.

5. O Transe Atlântico

Em Abolição, Bulbul institui campos que modulam através e a partir demodificações sutis de temática, signos e elementos. Sobre esse aspecto, o casodo samba e das várias formas sob as quais se apresenta parece exemplar. Há oscampos em modo de travessia, marcado por atravessamentos: cruzamentos daquestão central com outras “presenças”, fragmentos e detalhes que irrompem edesestabilizam: a presença indígena, a população nordestina,12 e até mesmo de população branca, apontando para uma tridimensionalização do olhar negro, isto é, a abertura para uma assimilação cosmológica e social mais aberta do aquela permitida pelas estruturas de poder hegemônico. Há um campo fragmentário, incompleto, costurado por participações fulgurantes. Este campo é marcado por uma utilização muito particular do talking head, plasmada sobre a forma como a câmera contracena com o depoente: a presença teatralmente desanimada de Benedita da Silva; Lélia Gonzalez falando, gesticulando, iluminada pelo sol. O Bispo Dom Helder analisando criticamente as imagens embranquecidas das praias cariocas com Jards Macalé ao fundo, cantando Rio sem tom, canção que compôs criticando o fato de Tom Jobim ter vendido uma música para a Coca-Cola13 Talvez por carregar a herança do marxismo ortodoxo, contrário às religiões, é preciso notar que Zózimo concedeu pouquíssimo espaço para as religiões afrobrasileiras, priorizando a estranheza do depoimento de Dom Hélder. Ainda assim, é preciosa a entrevista com Mãe Filhinha, fundadora do Terreiro IIê Axé Itayle,14 em Cachoeira, na Bahia.

Alguns críticos e pesquisadores atribuem ao filme a característica de ser repetitivo. Penso que essa repetição se apresenta como um artifício necessário na construção do filme, organizado pela modulações entrecruzadas de temas e tratamentos. Há um traço de uma repetição que, assim como a ausência de narração, pode ser encarada enquanto decisão estética. E que, como em A Idade da Terra, a repetição opera no sentido do transe, da alucinação. Repetir para alucinar. A repetição propicia o transe Atlântico. O consenso em torno da expressão glauberiana enquanto alegoria pode ser desdobrada em formas muito particulares de exploração da stásis dinâmica, da progressão estática que busca marcar o jogo entre forças antagônicas, indicando que, no caso do racismo brasileiro, tudo se transforma para manter o jogo tal e qual. Como complemento a esse campo, há a palavra escrita, os cartazes, as palavras de ordem, a cartela como forma de retificação disjuntiva do plano.

Um momento particularmente sombrio é o anti-depoimento do antropólogo Gilberto Freyre, autor do clássico estudo Casa-Grande& Senzala.15 Impossibilitado de falar por motivos de saúde, Freyre foi representado por seu filho, que limitou-se a repetir platitudes do discurso freyre ano acerca da valorização do elemento "afro negro" (em suas palavras). O movimento de câmera saindo da sala lentamente, como que indicando uma retirada da sala, um abandono, reforçada pela iluminação estourada. Outros momentos particularmente interessantes: a presença do político comunista brasileiro Luís Carlos Prestes indica uma motivação pelo inesperado, ao reservar, de saída, espaço para a fala de um líder político branco. O sociólogo e jornalista negro Muniz Sodré anda pelos corredores da Universidade Federal  do Rio de Janeiro — cabe observar o quão estranha é para o Brasil de 1988 a cena de negros frequentando corredores de uma Universidade… Francisco Lucrécio e Correa Leite narram a fundação da Frente Negra16  na década de 30. Há uma menção especial à Revolta da Chibata (1910) através dos depoimentos do historiador Edmar Morel sobre a luta do marinheiro João Cândido e, depois, o depoimento da filha de João Cândido.18 Dois poetas repentistas17 improvisam versos sobre a Abolição na história do Brasil. A viúva do poeta e agitador cultural negro Solano Trindade reclama do apagamento da memória do esposo. Abdias do Nascimento nos fala sobre sua experiência com o Teatro Experimental do Negro.19 Semelhante a Kanye West, que culpa os negros pela escravidão, Agnaldo Timóteo insiste na ideia de que, em primeiro lugar, o próprio negro precisa mudar sua mentalidade. Nei Lopes na escadaria tomando uma cerveja com fundo musical do saxofonista Paulo Moura contrasta com a São Paulo nordestina, espremida entre a miséria, a propaganda e a comercialização da vida. Na sequência, Zózimo expôs imagens da violência do Regime Militar de 1964 sobre os corpos negros. Ao contrário da característica reflexiva que geralmente se atribui ao filme, Abolição não se limita a expressar a visão do autor. Simultaneamente através e ao largo da presença de Bulbul, instaura-se um cinema “alma-coletiva” que, ancorado ao painel difuso de presenças, parece assumir que algo sempre lhe escapa, sempre lhe escapará.

6. A Festa Acabou

O preço que se paga no Brasil por ser negro é imenso. A trajetória de Zózimo Bulbul no cinema brasileiro está conectada a um esforço pessoal por firmar tanto um espaço de produção próprio, como consolidar meios expressivos ligados à ideia de uma cinematografia negra. A generosidade da estética Atlântica de Zózimo Bulbul contrasta às vezes com uma certa tendência coletiva ao enaltecimento das palavras de ordem, dos mandamentos básicos e diretos. Quando o negro foge ao script e às expectativas dos grupos minoritários, da sociedade, e até mesmo de seus brothers and sistas, a caminhada se torna ainda mais pedregosa. Albert Ayler, John Coltrane, Itamar Assumpção que o digam… É longa a lista de negros que não foram compreendidos nem pelo próprio movimento negro, porque não correspondiam àquilo que a comunidade considerava pertinente. Esses negros fora das expectativas são intempestivos. O nome de Bulbul se inscreve nesse rol de artistas e, nesse sentido, Abolição pode ter sido um grande balde de água fria nas expectativas dos que acompanhavam seu trabalho. Para o bem e para o mal, o filme dobra a aposta na experimentação coletiva como forma de sobrevivência, ainda que seu final não seja necessariamente otimista.

Entremeada por imagens do lixo nas ruas e do luxo nas casas de espetáculo, Grande Otelo convoca a "força-tarefa" da negritude brasileira: "ninguém aboliu nada e hoje é ainda pior, pois hoje negros e brancos são escravos." Na sequência, crianças de rua negras impressionam pela clareza de seu discurso político: "Até hoje somos escravos, sem trabalho, sem hospital, sem escola..." Exacerba-se o simbolismo trágico. O crescendo indica que o final se aproxima, justamente quando o boneco mamulengo anuncia: "E assim, senhoras e senhores, acabamos de apresentar a tragicomédia em vários atos, sem nunca ter um final! A Abolição da Escravatura no Brasil. Ou em linguagem vulgar: os negros que vão pra puta que os pariu.” Uma cartela anuncia o fim: "a festa acabou". A câmera mira a Central do Brasil, desce lentamente por trás das grades do Campo de Santana. A última cena é a visão da Central intermediada por barras de ferro, materializando, sob a forma de um movimento de câmera, o aprisionamento mútuo e a dialética rarefeita da opressão.

1. Publicado no Brasil em 1971 como Alma no Exílio.

2. Carvalho, 2005

3. A Embrafilme foi a principal produtora do cinema brasileiro desde a concepção da empresa, em 1969, até sua implosão, em 1990. A Embrafilme ofereceu um certo nível de infraestrutura e ajudou a forjar um novo interesse do público pelo cinema brasileiro, apesar de o mercado ser dominado por estúdios estrangeiros. No entanto, suas práticas também foram alvo de críticas por parte de cineastas, que a acusavam de priorizar determinados filmes, ao mesmo tempo em que atrasava o lançamento comercial de outros.

4. A Rede Globo é a maior rede de televisão do Brasil e o maior conglomerado de mídia da América Latina.

5. Carvalho, 2005

6. Ibid.

7. Rascunho para uma História do Negro no Cinema Brasileiro, tradução livre, 2005.

8. Um cortejo popular de rua, com canto e dança, que reencena a coroação de um rei no Congo.

9. Uma grande estrutura no Rio de Janeiro onde acontecem os desfiles das escolas de samba durante o carnaval.

10. Veículos altos, projetados de acordo com o tema do desfile daquele ano.

11. A República foi instaurada em 15 de novembro de 1889.

12. Pessoas do Nordeste do Brasil são historicamente alvo de preconceito por parte das regiões mais ricas do país, especialmente o Sul e o Sudeste.

13. A música era Águas de Março, que apareceu com nova letra em muitos comerciais de TV da Coca Cola durante a década de 1980.

14. Terreiros são as casas em que se pratica a religião do candomblé.

15. Publicado em inglês com o título The Masters and the Slaves.

16. A Frente Negra Brasileira foi o primeiro partido político negro no Brasil.

17. A Revolta da Chibata foi um motim naval que ocorreu no Rio de Janeiro em novembro de 1910. Foi uma resposta às frequentes chibatadas aplicadas em marinheiros negros por oficiais brancos da Marinha. A revolta foi liderada por João Cândido Felisberto.

18. O repente é um tipo de poesia improvisada, típica do Nordeste.

19. O Teatro Experimental do Negro foi uma companhia teatral fundada em 1944 e encerrada em 1961.

REFERENCES

CARVALHO, Noel dos Santos. “Esboço para uma história do negro no cinema Brasileiro”. In: De, Jeferson. Dogma feijoada, o cinema negro brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005.

_____. O Produtor e Cineasta Zózimo Bulbul — O Inventor do Cinema Negro Brasileiro. Revista Crioula (USP), v. 12, p. 1-21, 2012.

DAVID, Marcell Carrasco. Abolição: escavações e memórias sobre o Cinema Negro de Zózimo Bulbul. Dissertação de Mestrado, PUC-Rio, 2020.

JAFA, Arthur. “The Notion of Treatment: Black Aesthetics and Film”. In Pearl Bowser, Jane Gaines and Charles Musser (eds.): Oscar Micheaux and His Circle, Bloomington: Indiana University Press, 2001, pp. 11-17.

1. Atração e Retração

É comum iniciar uma análise sobre a questão negra e a representação afrodescendente no Cinema Brasileiro elencando, primeiramente, um conjunto de filmes associados ao Cinema Novo: Aruanda (Linduarte Noronha,1959-1960); Barravento (Glauber Rocha, 1962); Cinco Vezes Favela (Carlos Diegues, Leon Hirszman, Marcos Farias, Miguel Borges e Joaquim Pedro de Andrade, 1962); Bahia de todos os santos (Trigueirinho Neto, 1961); A grande feira (Roberto Pires, 1961); Ganga Zumba (Carlos Diegues, 1964). Podemos desalinhar essa clivagem oferecendo uma visão expandida, mencionando também dois filmes que fogem aos estereótipos comuns e às representações subalternas ou paternalistas do negro no cinema brasileiro. Mais próximo de uma linguagem passível de ser considerada “cinemanovista”, Compasso de Espera (Antunes Filho, 1973) se relaciona a um segundo momento, comprometido com temáticas urbanas e contradições restritas à classe média presentes em filmes como O Desafio (Paulo César Saraceni, 1965) e Bebel, garota propaganda (Maurice Capovilla, 1968). Já Alma no Olho (Zózimo Bulbul, 1973), primeiro filme do diretor negro brasileiro Zózimo Bulbul, realizado a partir das sobras de negativo de Compasso de Espera, distancia-se do Cinema Novo e busca sua força no jazz de John Coltrane e em elementos de performance e do Cinema Underground norte-americano. Zózimo Bulbul é ator no primeiro e diretor do segundo, o que faz com que esses dois filmes formem uma espécie de díptico e mantenham entre si uma relação umbilical. Inspirado no livro de Eldridge Cleaver Soul on Ice (1968),1 a obra inaugural de Bulbul nasce, portanto, no contexto do Cinema Novo, demarcando, logo no seu início, um distanciamento ambíguo, uma oscilação que atravessará a obra do diretor tanto do ponto de vista estético quanto político. À inflexão cinemanovista que se desenha a partir dos anos 60, os filmes de Antunes Filho e Bulbul assinalam proximidade e distanciamento simultâneos do primado cinemanovista.

Apesar das críticas que possam ser endereçadas às representações do negro nos filmes do Cinema Novo, o pesquisador Noel dos Santos Carvalho aponta como o movimento operou como um marcador histórico importante para uma mudança de atitude em relação às representações do Negro:

O Cinema Novo colocou o negro no centro da cena rompendo e condenando os estereótipos difundidos pela chanchada, Vera Cruz e adjacências. Seu anti-racismo se baseou na: 1) condenação dos estereótipos raciais; 2) na ignorância à idéia de raça e a sua submissão à categoria mais geral de povo; 3) na tematização de aspectos da história, religiosidade e cultura do negro. (…) No entanto, o que queremos reter aqui é a mudança de atitude, a ruptura que significou um conjunto de filmes que tiraram o negro dos papéis estereotipados tradicionais, colocando-os como protagonistas das histórias.2

O emprego do cinema como ferramenta de pensamento e prática política antirracista marca a aproximação, enquanto a forma e a abordagem dos filmes, particularmente associados à questão negra, parece afastar Bulbul do Cinema Novo. Em 1982, em meio aos meandros obscuros das políticas ligadas à Embrafilme,3 Bulbul lançou críticas duras em direção a Cacá Diegues e a Walter Lima Jr, chegando a recusar um papel para trabalhar em Chico Rei (Walter Lima Jr., 1985), pois considerava que “historicamente é terrível”, uma “coisa pasteurizada” destinada a exibição “na telinha da Globo”.4 Uma insatisfação com a representação do negro, mas também com o tipo de experiência cinematográfica, que Zózimo considerava pasteurizada, desprovida de invenção.

A questão se adensa. Anos mais tarde, Bulbul registra na epígrafe de seu primeiro longa-metragem, Abolição (Zózimo Bulbul, 1988), uma dedicatória controversa a dois nomes do Cinema Novo, Glauber Rocha e Leon Hirszman. Controversa porque, em seu retorno ao Brasil após auto-exílio na Europa,5 podia-se afirmar que conservava-se aquela relação inicial de atração e retração entre o cinema de Bulbul e o Cinema Novo. De modo que, hoje, parece mais proveitoso evocar o cineasta que operou um trabalho de seleção de possibilidades formais e temáticas, submetida a um jogo experimental que nenhum cineasta do Cinema Novo teve ferramentas para realizar. Esta relação parece nos oferecer uma via interpretativa interessante para abordar o quanto Abolição é alienígena tanto em relação ao documentário brasileiro, quanto ao Cinema Novo e até mesmo em relação à própria obra de Bulbul. Sob o prisma das relações entre cinema, negritude e racismo no Brasil, identifica-se em Abolição uma espécie de campo de força que se sustenta por si mesmo, indicando que, entre integrar-se ou não aos movimentos hegemônicos, Zózimo seguiu seu próprio caminho.

2. Cinema Atlântico

Pelo modo como lida não apenas com o constructo cinematográfico, como também por sua dimensão técnica e estética específica, que Abolição, único longa produzido e dirigido por Bulbul, extrapola o valor documental e se propõe a desenvolver uma experiência singular. Para além de uma relação de atração-retração com o Cinema Novo, Abolição parece se articular a um outro conjunto de filmes que constituem modo específicos de tratar as relações entre a ficção e o documentário. Abolição se organiza a partir de registros, algumas encenações, entrevistas e imagens de arquivo, visando expor a articulação oportunista entre a farsa histórica da Abolição a realidade de negras e negros no Brasil contemporâneo. Visto hoje, mais de 30 anos de sua aparição, Abolição se parece menos com “um programa ampliado de Alma no Olho”6 do que com uma experiência a ser tomada em ressonância com esses filmes. Gosto de pensar que Abolição pode ser considerado um filme “Atlântico”, isto é, um filme construído a partir de estratégias arquitetadas para fazer emergir um cosmos de relações e associações livres. Filmes como A Idade da Terra (Glauber Rocha, 1981), Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, 1984), Ôrí (Raquel Gerber, 1989), O Fio da Memória (Eduardo Coutinho, 1991) e Abolição. Cinema Atlântico, qual seja, cinema de travessia, cinema atravessado pela temática colonial/racial de forma simultaneamente direta e indireta, objetiva e subjetiva. Constitui-se como miríade de signos em movimento, atravessando eras e fatos históricos, através de um referencial abrangente e dilatado, uma polifonia audiologovisual embutida na própria forma do filme.

O filme não foi recebido em suas características mais originais por cineastas, pesquisadores e mesmo pelo público negro, que, a bem da verdade, não costuma ter acesso aos cinemas brasileiros. Em um ensaio sobre Bulbul (2012), o pesquisador Noel dos Santos Carvalho reforça a percepção de que o experimentalismo de Abolição não teria alcançado o efeito desejado, constituindo-se como “um inventário de falas, performances e discursos sobre a Abolição, o que explica em parte sua irregularidade, repetições e excessos.” Carvalho também afirma que “do ponto de vista da estrutura narrativa é o mais didático dos filmes anteriores, o que contribui para a sua irregularidade” e completa: “Abolição com os seus 150 minutos de projeção não teve grande aceitação entre o público. Nem mesmo entre a população negra. Ficou restrito a um pequeno círculo de intelectuais e ativistas do movimento negro.” Em seu ensaio Esboço para uma História do Negro no Cinema Brasileiro"7 Carvalho ressalta a presença da equipe técnica, formada quase que exclusivamente por negras e negros (com exceção da fotografia experimental de Miguel Rio Branco e da montagem precisa de Severino Dadá), observando que “o que vemos está mediado pelo olhar dessa equipe. Assim, não se trata apenas de contar a história do negro no Brasil, mas de um ponto de vista negro sobre a história.” Em ambos os casos, parece consenso que as eventuais qualidades se concentram no plano simbólico, isto é, fora do filme, seja pelo esforço inicial — a tentativa de problematizar a "Abolição" a partir de um olhar negro —, seja pela representatividade da composição étnica de seus quadros técnicos. A seguir proponho algumas ideias a partir da construção interna do filme, no sentido de afirmá-lo como o corolário de uma trajetória singular no cinema brasileiro.

3. Material e Tratamento

Em uma entrevista dada a Peter Hessli em fevereiro de 1994, o fotógrafo norte-americano Arthur Jafa faz uma distinção muito particular entre material e tratamento. Na ausência da possibilidades de produzir a partir de seu próprio material, a criatividade afrodiaspórica se afirmou através de novos usos, apropriações e modificações profundas dos materiais disponíveis: “muita da nossa criatividade se fundiu em torno da noção de tratamento, isto é, transformando dados materiais de alguma maneira significativa. (…)” Ao contrário da fotografia e da pintura, em que a imagem, enquanto produção material, é o ponto de chegada, a imagem produzida pelo cinema é apenas um ponto de partida. O acesso aos equipamentos e aos materiais capazes de produzir filmes é ainda mais inacessível para as populações negras, de modo que se pode perceber que sua apropriação também se diferencia a partir dos traços mais sutis. O caso mencionado por Jafa é exemplar: John Coltrane deslocando My Favorite Things de seu campo original, para, através de um tratamento particular, criar fissuras e aberturas antes impensáveis. “A criatividade afro-americana foi moldada pelas circunstâncias específicas em que os negros se viram; geralmente não fomos capazes de especificar os materiais que nos foram dados para trabalhar.” O que faz com que “Abolição” se afigure como um caso de extrema excepcionalidade é que, ao contrário de seu primeiro filme, realizado a partir de negativos que sobraram de “Compasso de espera”, do “cinema de arquivo” cubano de Nicolas Landrián e Santiago Álvarez ou do próprio Jafa, é que o filme parece se dirigir nos dois sentidos: na produção e na abordagem, perfazendo um domínio completo de criação e modificação sobre o material e o tratamento expressivo. Material e tratamento produzidos simultaneamente, ao lado da equipe negra, extrapolam a carga simbólica de um domínio, de um controle do modo de produção, e indicam decisões estéticas conscientes.

Para além dessa característica, o cinema em Abolição é “atlântico” pelo seu caráter de cosmicidade. A narrativa linear e a representação panfletária da realidade cedem espaço para um campo de atravessamentos no qual Bulbul articula depoimentos, registros e fotografias. Escapando da linearidade do storytelling e incorporando uma organização de cunho não-linear, Bulbul teve a oportunidade de pensar o filme a partir de outros tratamentos expressivos, organizando-o como uma amplidão desprovida de centralidade, valorizando a oralidade, a planificação em transe, depoimentos dramatizados, a montagem rítmica e a presença, a captação da energia local. Sob esse aspecto, não basta dizer que “Abolição” encerra um olhar negro sobre sua própria história, pois a história para o desterritorializado nunca é um fim, mas um meio, uma estratégia que se lança sempre para o porvir, para a sobrevivência em contexto adverso. Estratégia com qual objetivo? Abrir as condições de possibilidade para a vida no presente. Este me parece ser o sentido mais potente para o termo “ancestralidade”: a capacidade de contar sua própria história investido de força suficiente para saber também desmontá-la e recontá-la, visando a elaboração de uma historicidade singular. Não falamos, portanto, de uma negritude ausente e idealizada, tampouco de um movimento de resistência integrado e coeso, mas que se desfia na equivocidade da presença e dos conflitos. O olhar de um homem negro envolvido por uma cosmicidade negra e não-negra que o envolve, e com a qual ele negocia sua própria existência.

4. “Como teria sido o dia 14 de maio de 1888?”

Os minutos iniciais do filme são cruciais para compreender o seu movimento e desenvolvimento. A cartela contendo a posição temporal manifesta a marca da irreverência crítica: 12 de maio, o dia anterior à assinatura da Lei Áurea. Mais à frente, outra cartela anuncia: 14 de maio de 1888. Em texto sobre o filme, Bulbul teria perguntado: “como teria sido o dia 14 de maio de 1888?” O jogo com as datas desloca o eixo histórico da Abolição enquanto grande evento, favorecendo a percepção das causas e consequências para o presente brutal e incompreensível que se encontra fora do compasso da história. A cada imagem que é mostrada nos primeiros minutos de filme, ouvimos o estalar do obturador soando como se fosse um chicote. Nas vozes de Clementina de Jesus, Tia Doca e Geraldo filme, inicia-se o Canto I do álbum O Canto dos Escravos (1982), que integra o repertório de canções de trabalho recolhidas pelo filólogo Aires da Mata Machado Filho no fim dos anos 20 do século passado, em São João da Chapada, município de Diamantina, Minas Gerais. O obturador-chicote marca a passagem de uma imagem a outra, entre pinturas e fotografias que retratam as mazelas da escravidão, ora na cabeça do ritmo, ora de maneira sincopada. Há evidentemente uma ambiguidade entre o sentido crítico e a abertura para uma perspectiva paródica que permite criar um paralelo entre o obturador e o chicote, sinalizando que estamos diante de uma abertura improvável para pensar o problema racial no Brasil.

Finalmente, uma terceira cartela indica: dia 13 de maio. “Dia de branco”, uma expressão racista que se costumava utilizar no Brasil para dizer que é dia de trabalhar. A cidade está sob uma forte tempestade, enquanto a equipe chega ao Paço Imperial no Rio de Janeiro, local da filmagem. O iluminador, um jovem negro, prepara a luz. Os bastidores são iluminados, mas o corte não nos leva para algum depoimento ou justificativa. Somos remetidos diretamente para as imagens da Congada8 entrando na igreja com seus estandartes. Esse caráter às vezes elípticos, às vezes atravessado por associações livres ou desprovido de encadeamento explicativo, atravessará todo o filme. As variações no ritmo da montagem e da iluminação interna dos planos denota uma forma muito livre de pensar o momento do registro e sua montagem. Todos os depoimentos e falas sugerem uma encenação dramática, ao contrário de uma das duas encenações do filme, a assinatura da Lei Áurea. Pela aparência arqui-falsa, esta sequência nos remete a percepção de que o decreto de libertação dos escravos fora justamente uma farsa. A entonação propositalmente apalermada de Camila Amado, atriz que representa a Princesa Isabel, contrasta com a sequência seguinte, um longo registro de um desfile de carnaval no Sambódromo,9 alternando com trechos hilários da princesa em delírio na sacada do palácio. Entre a representação da Princesa que acreditava em seu papel histórico determinante e, cem anos depois, a expressão complexa do carnaval na avenida, vigora um sentimento inominável entre a beleza, o mal estar e a ironia. No carnaval carioca, os corpos negros tocam, dançam, cantam e trabalham empurrando os carros alegóricos.10

A sequência das dedicatórias são curiosas: “ao mestre Glauber Rocha”, a Leon Hirszman e "ao cineasta negro Hermínio de Oliveira". Em seguida, uma menção ao Movimento Negro Unificado (MNU) por sobre as imagens de foliões saindo do Sambódromo para a Central do Brasil, local onde a população costuma pegar o trem para acessar tanto os bairros da Zona Norte e Oeste do Rio de Janeiro, como também os municípios da Baixada Fluminense — neste momento, é possível perceber o grande sambista carioca Catoni entre os transeuntes. Dos sons harmoniosos e corpos dançantes investidos na batucada carnavalesca, rumamos para a Central, para dentro dos trens que levam os foliões negros e negras para suas casas no subúrbio carioca. Corta para um Teatro de bonecos para crianças, que falam abertamente sobre racismo. As cenas da Barca Rio-Niterói lotada são embaladas por uma trilha sonora sintetizadores à moda do Krautrock. Operários e engraxates negros, um cachorro caga, uma mulher trabalha, entramos pela sua casa. Um bebê, uma certidão de nascimento datada de 1868 e, de repente, topamos com a impressionante entrevista de Seu Manoel, ex-escravo que, do alto de seus 120 anos, concedeu o depoimento a seguir:11 "Hoje estamos na amargura, não ganhávamos dinheiro mas tínhamos satisfação. A comida era outra e todos ficavam satisfeitos."

O tom de ironia sutil se instala quando ocorre o corte entre o final do depoimento de João de Orleans e Bragança, neto da Princesa Isabel, e a equipe de técnicos negros e negras que saem às pressas do Paço Imperial com os equipamentos nas mãos. Na sequência, Maria Beatriz do Nascimento desfaz as certezas oficiais da Família Real, mostrando como o pacto político que resultou na Abolição da Escravatura acabou por precarizar a vida da população negra, pois na passagem da Monarquia para a República, “os negros deixaram de obedecer aos senhores e passaram a ser controlados pelo Estado”. Joel Rufino sentado no meio-fio, na idílica Pedra do Sal, reduto inaugural do samba urbano carioca. Bulbul e seu montador, Severino Dadá, operam uma montagem eisensteiniana, alternando o depoimento agudo de Rufino com imagens das ondas do mar batendo nas pedras. O tratamento sonoro parece deixar o som da cidade e da trilha sonora vazar, partilhando espaço sonoro com o depoimento. Joel Rufino apresenta Tia Carmem como baluarte da Praça Onze, localizada no Rio de Janeiro, local que no início do século passado era conhecido como "Pequena África". Irrompe o depoimento da escritora Thereza Santos afirmando que, após a Abolição, a vida da mulher negra piorou.

O filme retoma a questão da expressão social do samba urbano a partir do registro de uma roda de sambistas oriundos de Escolas de Samba como Estácio, Mangueira, Portela, entre outras. Distancia-se do Cinema Novo porque faz outras perguntas. Relaciona-se com a História do Brasil de uma maneira paródica em relação aos ditames sociológicos, aproximando-se, por exemplo, de um cineasta como Frederick Wiseman, no sentido de que usa o cinema para apreender a realidade captando não somente as informações objetivas, como também seus aspectos fragmentários e provisórios. Esses deslocamentos aparentemente aleatórios, acentuam a polifonia e abrem espaço para que Bulbul mantenha uma relação vazada e ambígua, ora ressaltando sua presença, ora partilhando espaço com o espectador, a equipe e os personagens. Não se trata somente do "olhar negro" ou simplesmente do olhar de Bulbul; ele capta com o filme uma realidade que extrapola a subjetividade, organizando por campos de ação: campo de modulações, de atravessamentos, de fragmentos, de corte-e-ritmo e campo simbólico, relativo aos cartazes e às palavras que por vezes são mostradas na tela.

5. O Transe Atlântico

Em Abolição, Bulbul institui campos que modulam através e a partir demodificações sutis de temática, signos e elementos. Sobre esse aspecto, o casodo samba e das várias formas sob as quais se apresenta parece exemplar. Há oscampos em modo de travessia, marcado por atravessamentos: cruzamentos daquestão central com outras “presenças”, fragmentos e detalhes que irrompem edesestabilizam: a presença indígena, a população nordestina,12 e até mesmo de população branca, apontando para uma tridimensionalização do olhar negro, isto é, a abertura para uma assimilação cosmológica e social mais aberta do aquela permitida pelas estruturas de poder hegemônico. Há um campo fragmentário, incompleto, costurado por participações fulgurantes. Este campo é marcado por uma utilização muito particular do talking head, plasmada sobre a forma como a câmera contracena com o depoente: a presença teatralmente desanimada de Benedita da Silva; Lélia Gonzalez falando, gesticulando, iluminada pelo sol. O Bispo Dom Helder analisando criticamente as imagens embranquecidas das praias cariocas com Jards Macalé ao fundo, cantando Rio sem tom, canção que compôs criticando o fato de Tom Jobim ter vendido uma música para a Coca-Cola13 Talvez por carregar a herança do marxismo ortodoxo, contrário às religiões, é preciso notar que Zózimo concedeu pouquíssimo espaço para as religiões afrobrasileiras, priorizando a estranheza do depoimento de Dom Hélder. Ainda assim, é preciosa a entrevista com Mãe Filhinha, fundadora do Terreiro IIê Axé Itayle,14 em Cachoeira, na Bahia.

Alguns críticos e pesquisadores atribuem ao filme a característica de ser repetitivo. Penso que essa repetição se apresenta como um artifício necessário na construção do filme, organizado pela modulações entrecruzadas de temas e tratamentos. Há um traço de uma repetição que, assim como a ausência de narração, pode ser encarada enquanto decisão estética. E que, como em A Idade da Terra, a repetição opera no sentido do transe, da alucinação. Repetir para alucinar. A repetição propicia o transe Atlântico. O consenso em torno da expressão glauberiana enquanto alegoria pode ser desdobrada em formas muito particulares de exploração da stásis dinâmica, da progressão estática que busca marcar o jogo entre forças antagônicas, indicando que, no caso do racismo brasileiro, tudo se transforma para manter o jogo tal e qual. Como complemento a esse campo, há a palavra escrita, os cartazes, as palavras de ordem, a cartela como forma de retificação disjuntiva do plano.

Um momento particularmente sombrio é o anti-depoimento do antropólogo Gilberto Freyre, autor do clássico estudo Casa-Grande& Senzala.15 Impossibilitado de falar por motivos de saúde, Freyre foi representado por seu filho, que limitou-se a repetir platitudes do discurso freyre ano acerca da valorização do elemento "afro negro" (em suas palavras). O movimento de câmera saindo da sala lentamente, como que indicando uma retirada da sala, um abandono, reforçada pela iluminação estourada. Outros momentos particularmente interessantes: a presença do político comunista brasileiro Luís Carlos Prestes indica uma motivação pelo inesperado, ao reservar, de saída, espaço para a fala de um líder político branco. O sociólogo e jornalista negro Muniz Sodré anda pelos corredores da Universidade Federal  do Rio de Janeiro — cabe observar o quão estranha é para o Brasil de 1988 a cena de negros frequentando corredores de uma Universidade… Francisco Lucrécio e Correa Leite narram a fundação da Frente Negra16  na década de 30. Há uma menção especial à Revolta da Chibata (1910) através dos depoimentos do historiador Edmar Morel sobre a luta do marinheiro João Cândido e, depois, o depoimento da filha de João Cândido.18 Dois poetas repentistas17 improvisam versos sobre a Abolição na história do Brasil. A viúva do poeta e agitador cultural negro Solano Trindade reclama do apagamento da memória do esposo. Abdias do Nascimento nos fala sobre sua experiência com o Teatro Experimental do Negro.19 Semelhante a Kanye West, que culpa os negros pela escravidão, Agnaldo Timóteo insiste na ideia de que, em primeiro lugar, o próprio negro precisa mudar sua mentalidade. Nei Lopes na escadaria tomando uma cerveja com fundo musical do saxofonista Paulo Moura contrasta com a São Paulo nordestina, espremida entre a miséria, a propaganda e a comercialização da vida. Na sequência, Zózimo expôs imagens da violência do Regime Militar de 1964 sobre os corpos negros. Ao contrário da característica reflexiva que geralmente se atribui ao filme, Abolição não se limita a expressar a visão do autor. Simultaneamente através e ao largo da presença de Bulbul, instaura-se um cinema “alma-coletiva” que, ancorado ao painel difuso de presenças, parece assumir que algo sempre lhe escapa, sempre lhe escapará.

6. A Festa Acabou

O preço que se paga no Brasil por ser negro é imenso. A trajetória de Zózimo Bulbul no cinema brasileiro está conectada a um esforço pessoal por firmar tanto um espaço de produção próprio, como consolidar meios expressivos ligados à ideia de uma cinematografia negra. A generosidade da estética Atlântica de Zózimo Bulbul contrasta às vezes com uma certa tendência coletiva ao enaltecimento das palavras de ordem, dos mandamentos básicos e diretos. Quando o negro foge ao script e às expectativas dos grupos minoritários, da sociedade, e até mesmo de seus brothers and sistas, a caminhada se torna ainda mais pedregosa. Albert Ayler, John Coltrane, Itamar Assumpção que o digam… É longa a lista de negros que não foram compreendidos nem pelo próprio movimento negro, porque não correspondiam àquilo que a comunidade considerava pertinente. Esses negros fora das expectativas são intempestivos. O nome de Bulbul se inscreve nesse rol de artistas e, nesse sentido, Abolição pode ter sido um grande balde de água fria nas expectativas dos que acompanhavam seu trabalho. Para o bem e para o mal, o filme dobra a aposta na experimentação coletiva como forma de sobrevivência, ainda que seu final não seja necessariamente otimista.

Entremeada por imagens do lixo nas ruas e do luxo nas casas de espetáculo, Grande Otelo convoca a "força-tarefa" da negritude brasileira: "ninguém aboliu nada e hoje é ainda pior, pois hoje negros e brancos são escravos." Na sequência, crianças de rua negras impressionam pela clareza de seu discurso político: "Até hoje somos escravos, sem trabalho, sem hospital, sem escola..." Exacerba-se o simbolismo trágico. O crescendo indica que o final se aproxima, justamente quando o boneco mamulengo anuncia: "E assim, senhoras e senhores, acabamos de apresentar a tragicomédia em vários atos, sem nunca ter um final! A Abolição da Escravatura no Brasil. Ou em linguagem vulgar: os negros que vão pra puta que os pariu.” Uma cartela anuncia o fim: "a festa acabou". A câmera mira a Central do Brasil, desce lentamente por trás das grades do Campo de Santana. A última cena é a visão da Central intermediada por barras de ferro, materializando, sob a forma de um movimento de câmera, o aprisionamento mútuo e a dialética rarefeita da opressão.

1. Publicado no Brasil em 1971 como Alma no Exílio.

2. Carvalho, 2005

3. A Embrafilme foi a principal produtora do cinema brasileiro desde a concepção da empresa, em 1969, até sua implosão, em 1990. A Embrafilme ofereceu um certo nível de infraestrutura e ajudou a forjar um novo interesse do público pelo cinema brasileiro, apesar de o mercado ser dominado por estúdios estrangeiros. No entanto, suas práticas também foram alvo de críticas por parte de cineastas, que a acusavam de priorizar determinados filmes, ao mesmo tempo em que atrasava o lançamento comercial de outros.

4. A Rede Globo é a maior rede de televisão do Brasil e o maior conglomerado de mídia da América Latina.

5. Carvalho, 2005

6. Ibid.

7. Rascunho para uma História do Negro no Cinema Brasileiro, tradução livre, 2005.

8. Um cortejo popular de rua, com canto e dança, que reencena a coroação de um rei no Congo.

9. Uma grande estrutura no Rio de Janeiro onde acontecem os desfiles das escolas de samba durante o carnaval.

10. Veículos altos, projetados de acordo com o tema do desfile daquele ano.

11. A República foi instaurada em 15 de novembro de 1889.

12. Pessoas do Nordeste do Brasil são historicamente alvo de preconceito por parte das regiões mais ricas do país, especialmente o Sul e o Sudeste.

13. A música era Águas de Março, que apareceu com nova letra em muitos comerciais de TV da Coca Cola durante a década de 1980.

14. Terreiros são as casas em que se pratica a religião do candomblé.

15. Publicado em inglês com o título The Masters and the Slaves.

16. A Frente Negra Brasileira foi o primeiro partido político negro no Brasil.

17. A Revolta da Chibata foi um motim naval que ocorreu no Rio de Janeiro em novembro de 1910. Foi uma resposta às frequentes chibatadas aplicadas em marinheiros negros por oficiais brancos da Marinha. A revolta foi liderada por João Cândido Felisberto.

18. O repente é um tipo de poesia improvisada, típica do Nordeste.

19. O Teatro Experimental do Negro foi uma companhia teatral fundada em 1944 e encerrada em 1961.

REFERENCES

CARVALHO, Noel dos Santos. “Esboço para uma história do negro no cinema Brasileiro”. In: De, Jeferson. Dogma feijoada, o cinema negro brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005.

_____. O Produtor e Cineasta Zózimo Bulbul — O Inventor do Cinema Negro Brasileiro. Revista Crioula (USP), v. 12, p. 1-21, 2012.

DAVID, Marcell Carrasco. Abolição: escavações e memórias sobre o Cinema Negro de Zózimo Bulbul. Dissertação de Mestrado, PUC-Rio, 2020.

JAFA, Arthur. “The Notion of Treatment: Black Aesthetics and Film”. In Pearl Bowser, Jane Gaines and Charles Musser (eds.): Oscar Micheaux and His Circle, Bloomington: Indiana University Press, 2001, pp. 11-17.

1. Attraction and Retraction

Usually, we would begin an analysis of black representation in Brazilian cinema by listing a group of films associated with the Cinema Novo movement: Aruanda (Linduarte Noronha, 1960), The Turning Wind (Barravento, Glauber Rocha, 1962), Five Times Favela (Cinco vezes favela, Carlos Diegues, Leon Hirszman, Marcos Farias, Miguel Borges and Joaquim Pedro de Andrade, 1962), Bahia of All Saints (Bahia de todos os santos, Trigueirinho Neto, 1961), The Big Market (A grande feira, Roberto Pires, 1961), Ganga Zumba (Carlos Diegues, 1964). One can disrupt this corpus by offering an expanded view, mentioning two films that do not adhere to the stereotypical, paternalistic or submissive portrayals of black people often found throughout Brazilian cinema. Closer to the filmic language of Cinema Novo, we have Compasso de Espera (Marking Time, Antunes Filho, 1972). Compasso is linked to the movement's second phase where urban themes and the contradictions of the middle class are present in films such as The Dare (O Desafio, Paulo César Saraceni, 1965) and Bebel, Advertisement Girl (Bebel, garota propaganda, Maurice Capovilla, 1968). Soul in the Eye (Alma no Olho, Zózimo Bulbul, 1973), on the other hand, the first film by black filmmaker Zózimo Bulbul (made with leftover film stock from Compasso de Espera), distances itself from the Cinema Novo films, finding its strength in John Coltrane’s jazz and performance elements. Zózimo Bulbul stars in Compasso and directs Soul, so these films form a diptych via an umbilical relationship. Inspired by Eldridge Cleaver’s book Soul on Ice (1968),1Soul in the Eye is Bulbul’s seminal work. It was made in the context of Cinema Novo but marks itself right from the start with an ambiguous distancing, an oscillation which would accompany the filmmaker throughout his oeuvre, both aesthetically and politically. Consequently, the films of Antunes Filho and Bulbul are simultaneously close and distant from the priorities that the Cinema Novo movement had delineated in the 1960s.

Despite eventual criticism towards black representation in the films of the Cinema Novo movement, Noel dos Santos Carvalho points out that the movement marked an important change of attitude in that respect:

Cinema Novo put black people front and center, away from the stereotypes spread in the past by the chanchadas, the films of the Vera Cruz Company and such. Its anti-racism was based on: 1) condemning racial stereotypes; 2) ignoring the concept of race in favor of the generalistic concept of people; 3) dealing with aspects of black history, religiosity and culture. (...) However, we want to emphasize the change of attitude, the disruption represented by a group of films that took black people away from stereotypical roles and made them the protagonists of their own stories.2

Applying cinema as a tool for thought and anti-racist political practice marks the common ground among Cinema Novo films. However, when considering the form and approach of the films, particularly those associated with black matters, Bulbul’s films appear distant from the Cinema Novo movement. In 1982, amid obscure transactions by Embrafilme,3 Bulbul harshly criticized Carlos Diegues and Walter Lima Jr., and even turned down an offer to work on King Chico (Chico Rei, Walter Lima Jr., 1985), because he considered it “historically abhorrent”, and “mild”, made to be shown “on Globo”.4 He opposed the film’s representation of black people but also the kind of filmic experience it provided, which to Zózimo was innocuous and lacking invention.

The plot thickens. Years later, in the epigraph of his first feature film, Abolition (Abolição, 1988), Bulbul inserts a dedication to two members of the Cinema Novo movement, Glauber Rocha and Leon Hirszman. It was a controversial move because, upon returning to Brazil after a self-imposed exile in Europe,5 it was noticeable how his relationship of attraction-retraction to Cinema Novo remained intact. In fact, today, it seems more accurate to evoke Bulbul as the filmmaker who worked with forms and themes that required an experimental style that no other Cinema Novo filmmaker had the tools to create. This dichotomy offers us a way to determine just how much of an alien Abolition is, be it in relation to Brazilian documentaries, to Cinema Novo or even to Bulbul’s own oeuvre. When considering the relations between cinema, Blackness and racism in Brazil, we identify in Abolition a sort of forcefield which indicates that, rather than integrating or not integrating hegemonic movements, Zózimo chose to follow his own path.

2. Atlantic Cinema

Abolition deals with filmic language within a specific technical and aesthetic dimension by extrapolating its documentary values and proposing a singular experience. Abolition is therefore linked to a group of films that deal with the relationship between documentary and fiction. It is organized in registers, interviews, archive footage and staged scenes in order to expose the opportunistic articulation between the historical lie of the abolition of slavery and the lived reality of black people in contemporary Brazil. Today, more than thirty years after its debut, Abolition seems less like “an expanded Alma no Olho”6 and more like an experience which resonates with these formally exploratory documentary and fiction works. It can accordingly be seen as an “Atlantic” film, i.e., a film made to bring forth a cosmos of free associations. Other examples include films such as The Age of Earth (A Idade da Terra, Glauber Rocha, 1980), Twenty Years Later (Cabra Marcado para Morrer, Eduardo Coutinho, 1984), Ôrí (Raquel Gerber, 1989), and The Thread of Memory (O Fio da Memória, Eduardo Coutinho, 1991). Atlantic Cinema is a cinema of crossing, a cinema pervaded by colonial and racial themes that are at the same time direct and indirect, objective and subjective. Atlantic Cinema contains a myriad of signs in movement through historical ages and facts, with a broad and dilated referential, in an audio-logo-visual polyphony embedded in the film’s form.

The film, with its unique approach, was not well-received by black filmmakers, black researchers or the black public — who, frankly, don’t usually have access to movie theaters. In a later essay on Bulbul, Noel dos Santos Carvalho reinforces the perception that Abolition’s experimentalism could not accomplish its intended effect, as it constituted “an inventory of speeches, performances and lectures regarding the abolition of slavery, which in part accounts for its irregular nature, its repetitions and excesses”. Carvalho also points out that “from the perspective of narrative structure, it’s the most didactic of these films, which adds to its irregular nature” and he adds: “Abolition, with a running time of 150 minutes, couldn't find acceptance from the audience. Not even among the black population. It was restricted to a small circle of intellectuals and activists of the black movement”. In his essay “Esboço para uma História do Negro no Cinema Brasileiro"7 Carvalho calls attention to the fact that the crew of the film was composed almost exclusively of black men and women (the exceptions being Miguel Rio Branco with his experimental cinematography and Severino Dadá with his precise editing), noting that “what we see is mediated by the gaze of this crew. So, it’s not only about telling the history of black people in Brazil, but having a black perspective of history”. In both cases, there seems to be a consensus that the eventual qualities of the film are present on a purely symbolic level, i.e., “out” of the film itself, whether due to the initial effort to try and problematize the abolition of slavery from a black gaze, or due to the representation of the ethnic composition of the crew. Ahead, I will propose some ideas based on the internal structure of the film, to affirm it as a major representation of Atlantic Cinema, the group of films that have formed a singular trajectory in Brazilian film.

3. Material and Treatment

In an interview with Peter Hessli in February 1994, American cinematographer Arthur Jafa makes a distinction between material and treatment. Not being able to choose the material with which to work, African diasporic creativity, self-affirmed by finding new uses, appropriates and deeply transforms the materials at hand: “So a lot of our creativity coalesced around the notion of treatment, that is, transforming in some meaningful fashion, given materials. (...)” Unlike photography and painting, in which the image, as a material product, is the point of arrival, the image produced by cinema is merely a point of departure. The equipment and materials needed to make a film are even more inaccessible to black populations, and so when black people appropriate it, it’s noticeable in very subtle ways. Jafa gives this example: John Coltrane taking My Favorite Things away from its original territory and, with a particular treatment, creating openings which were unthinkable until then, “African-American creativity has been shaped by the specific circumstances Black people found themselves in; we weren’t generally able to dictate the materials we were given to work with”. What makes Abolition extremely exceptional is that, unlike Bulbul’s first film, made with leftover film from Compasso de Espera, unlike the Cuban “archive cinema” of Nicolas Landrián and Santiago Álvarez or even Jafa himself, this film seems to be controlled both ways: in the style of its production and approach, there is a complete ownership of the creation and transformation of the material and the treatment. Said material and this treatment, coupled with the choice of a predominately black crew, indicate conscious aesthetic choices.

Besides all this, Abolition holds its place in the realm of “Atlantic Cinema” for the cosmic quality it possesses. In the film, a linear narrative and a propagandistic representation of reality give way to a field in which Bulbul articulates interviews, archive recordings and photos. Organized in a non-linear way, the film is an ample space without a center, a work in favor of orality, a trancelike sequence of shots, staged interviews, rhythmic editing and local energy. Abolition cannot be simply reduced to a film that features a black gaze on black history, because history for the diasporic is never an ends but a means, a strategy always aimed at the future, for survival in a tough environment. This strategy has one purpose: to make life in the present possible. This seems to me to be he most potent definition of “ancestry”: the ability to tell one’s own history with enough power to break it apart and retell it, to build a singular historicity. So, this is not about an absent or idealized blackness, nor an integrated and coherent resistance movement which unravels in the light of mistakes and conflict. This is about a black man’s gaze encompassed by a black and non-black cosmos which involves him and with which he negotiates his very existence.

4. “What about May 14th, 1888?”

The opening minutes of Abolition are crucial to understanding the way the film moves and develops. An intertitle with an historical marker exemplifies critical irreverence: May 12th, the day before the signing of the Lei Áurea, the documentation of Brazil’s official abolition of slavery. Further ahead, another intertitle: May 14th, 1888. In a text about the film, Bulbul asks: “how was May 14th, 1888?” Playing around with the dates moves the historical axis from the abolition as key event, in favor of relating its causes and consequences to the brutal, incomprehensible present, far from the grasp of history. Every image in the opening of the film is accompanied by the sound of the shutter cracking like a whip. We hear the voices of Clementina de Jesus, Tia Doca and Geraldo Filme singing "Canto I", from the 1982 album O Canto dos Escravos, part of the repertoire of work songs collected by philologist Aires da Mata Machado Filho in the late 1920s, in São João da Chapada, Diamantina, Minas Gerais. The shutter/whip accentuates each change of image — ultimately amassing a collection of photos and paintings that depict the horrors of slavery — in cuts that sometimes follow the rhythm perfectly and other times in a syncopated manner. The association between the shutter and the whip is meant to be in understood critically, signaling new and unexpected ways to think about racial issues in Brazil.

Finally, a third intertitle indicates: May 13th. “Dia de branco” (“day of the white [person]”), a once-common racist saying that was used to refer to the days of the work week in Brazil. A storm hits the city as the Abolition film crew arrives at the Imperial Palace, in Rio de Janeiro, where the shooting will take place. The key grip, a young black man, sets up a light. The lights are for the behind the scenes, there is no interview or any other reason for them. The film then proceeds to show a Congada8 coming into a church with banners. This elliptical manner of free associations, without explicit reason, is a prevalent structural element of the whole film. The variations in rhythm of editing and the interior lighting in the shot indicates a free conception of film form. All of the interviews in the film suggest a dramatic staging, contrary to the historical staging of the signing of the Lei Áurea. The über-fake feeling of this fictional signing of the Lei Áurea conveys to us that the law that freed the slaves was all an act. The purposefully idiotic intonation of actress Camila Amado, playing Princess Isabel, contrasts with the following scene, a long Carnaval parade in the Sambódromo,9 intercut with hilarious shots of the delirious Princess screaming from the balcony of her palace. From the portrayal of the colonial Princess who believed she was playing a key historical role, to the complex expression of Carnaval one hundred years later, an uncertain feeling stands out - something between beauty, discomfort and irony. In the Carnaval of Rio, Black bodies play instruments, dance, sing and work by pushing allegorical vehicles in the procession.10

The sequence of dedications which come soon after is peculiar: “to the master Glauber Rocha”, to Leon Hirszman and "to black filmmaker Hermínio de Oliveira", followed by a mention of the Movimento Negro Unificado (Unified Black Movement) over the images of carnavalgoers leaving the Sambódromo and heading to the Central do Brasil station. This station is where people usually take the train to the Zona Norte and Zona Oeste neighborhoods, as well as to the municipalities in Baixada Fluminense. At this moment in the film, we spot the great samba composer Catoni among the passerbys. We leave the harmonious sounds and dancing bodies of the Carnaval for the Central do Brasil station, and then move into the trains that take the black carnivalgoers to their homes in the Rio suburbs. Cut to a puppet theater show for children which deals directly with racism. Then, shots of the crowded Rio-Niterói ferry feature a synthesizer-heavy soundtrack reminiscent of Krautrock. Black construction workers and shoeshiners, a dog taking a dump, a woman at work, as we go into her house. A baby, a birth certificate dated 1868, and, then we stumble upon an impressive interview with Mr. Manoel, a former slave who, at 120 years of age, gives the following statement: “today we live in bitterness, we didn’t get paid but we had satisfaction. We were satisfied with the food, everyone was satisfied”.

A tone of subtle irony can be detected when we cut from the interview with the grandson of Princess Isabel, João de Orleans e Bragança, to the crew of black technicians with their equipment in hand leaving the Imperial Palace in a hurry. Then, with a single statement, Maria Beatriz do Nascimento dismantles the official truths of the Royal family by demonstrating how the political pact which culminated in the abolition of slavery threw the lives of the black population into precariousness. The passage from a Monarchy to a Republic:11 “black people stopped obeying their masters and started being controlled by the State”.

Joel Rufino sitting on a curb on the idyllic Pedra do Sal, the original stronghold of Rio’s urban samba. Bulbul and his editor, Severino Dadá, make use of an Eisensteinian montage, intercutting the Rufino interview with shots of waves hitting rocks. The sound design allows the urban soundscape and the musical soundtrack to coexist within the interview. Joel Rufino presents Aunt Carmen as a bastion of the Praça Onze, a location in Rio which at the start of the 20th century was known as Little Africa. Writer and actress Thereza Santos makes the assertion, while standing in a storm, that after the abolition the living conditions of black women grew worse.

Abolition, in effect, sets itself far from Cinema Novo by posing a different set of questions. The film relates to Brazilian history by parodying its sociological rules, and its style is similar to that of Frederick Wiseman’s in its use of cinema to apprehend reality by capturing objective information as well as fragmentary and temporary aspects. Such seemingly random displacements accentuate the polyphony and allow for an ambiguous relationship, either emphasizing Bulbul’s very presence, or sharing a space with the spectator, the crew, and the characters. It is not just about black gaze or Bulbul’s gaze; he captures a reality in the film that extrapolates subjectivity, organizing it by fields of action: modulation, intersections, fragments, rhythm and cutting, symbols, posters and words shown on screen.

5. Atlantic Trance

In Abolition, Bulbul allows for sections of the film to modulate through and from subtle changes in themes, signs and elements. One example of this is the samba and the various forms in which it is presented. There are sections in crossing, marked by intersections of the central issue with other “presences”, fragments and details which make it unstable: Native Brazilians, Northeasterners,12 and even white people, aiming at a tridimensional black gaze, i.e., opening up to a cosmological and sociological assimilation that is broader than what white hegemony allows. There is a fragmented and incomplete field intercut by shining presences. This field is marked by a very peculiar use of talking heads, shaped by the interaction of the camera with the interviewee: the theatrically beat-down presence of Benedita da Silva; Lélia Gonzalez talking and gesticulating in the sunlight. The bishop Dom Hélder Câmara providing a critical analysis of beaches overflowing with white bodies while Jards Macalé sings Rio sem tom, a song he wrote to criticize the fact that Tom Jobim had sold a song to Coca-Cola.13 Perhaps due to the influence of orthodox Marxism, Zózimo noticeably devoted very little time to Afro-Brazilian religions, favoring Dom Hélder’s strange interview. Even so, there is a precious interview with Mãe Filhinha, the founder of the IIê Axé Itayle terreiro14, in Cachoeira, Bahia.

Some critics and researchers have commented that Abolition is repetitive. I think this repetition is a necessary asset in the film’s structure, organized by intertwining themes and treatments. There is a trace of repetition which, like the absence of a narrator, can be understood as an aesthetic choice. And, like in The Age of the Earth, the repetition aims to provoke a state of trance, of hallucination. To repeat in order to hallucinate. Repetition brings forth the Atlantic trance. The consensus regarding Glauberian expression as an allegory begets very particular ways of exploring dynamic stasis, the static progression of the dispute between antagonistic forces, which indicates that, when it comes to Brazilian racism, everything is transformed in order to keep the status quo intact. As a complement to that field, there is the written word, posters, watchwords, and intertitles to rectify and break open the shots.

A particularly dark moment in the film is that of the anti-interview with anthropologist Gilberto Freyre, author of the classic study Casa Grande & Senzala.15 Unable to speak due to his poor health condition, Freyre is represented by hisson, who limits himself to repeating platitudes from Freyre’s work regarding the value of the “afroblack” element (his words). The camera moves slowly out of the room, as if to indicate an abandonment, which is reinforced by the underexposed cinematography. Other particularly interesting moments: the presence of communist politician Luís Carlos Prestes just twenty minutes into the film indicates a movement towards the unexpected, as it allows for a white political leader to speak in its first few minutes. Black sociologist and journalist Muniz Sodré walks through the corridors of the Federal University of Rio de Janeiro (I have to note how weird it is to see black people inside a Brazilian university in 1988). Francisco Lucrécio and Correia Leite tell the story of how the Frente Negra16  was founded in the 1930s. The Revolt of the Lash gets a special mention in the interviews of historian Edmar Morel and of the daughter of João Cândido.17 Two repentistas18 sing about the Abolition and the situation of black people in the history of Brazil.The widow of black poet and cultural agitator Solano Trindade complains that her husband’s memory is being erased. Abdias do Nascimento, a playwright, activist and politician, talks about his experience with the Black Experimental Theater.19 Reminiscent of Kanye West, a current icon who has blamed black people for slavery, singer Agnaldo Timóteo insists that first and foremost black people have to change their mentality. Composer Nei Lopes drinks beer while Paulo Moura plays his saxophone, in contrast with the part of São Paulo which is inhabited by people from the Northeast, cornered between misery and the commodification of life itself. Then, Zózimo exposes the violence of the Military Regime on black bodies. Despite the reflexive tone usually attributed to this film, Abolição doesn’t only express the vision of its author. Simultaneously close and away from Bulbul, a cinema with a collective soul is born, in a panel of diffuse presences, always elusive.

6. The Party is Over

The price paid for being black in Brazil is huge. Zózimo Bulbul’s trajectory in Brazilian cinema is linked to a personal effort to conquer his own ground to work in, and to make it possible for a black filmography to arise. The generosity of Bulbul’s Atlantic aesthetics is contrasted at times by a collective tendency to reinforce militant watchwords and the demand for basic rights. When a black person fails to correspond to what minority groups, society and even his brothers and sistas expect of him, his walk is even harder. Just ask Albert Ayler, John Coltrane or Itamar Assumpção. The list of black men and women who were misunderstood by the black movement because they failed to follow what the community considered appropriate is a long one. These black people are usually unlucky. Bulbul’s name is on that list, and so Abolition might have been a huge disappointment to those who followed his work. Either way, the film bets on collective experimentalism as a way to survive, even though it doesn’t end on an optimistic note.

Amid images of streets filled with trash and the luxury of show houses, Grande Otelo calls on the black “taskforce”: “Nothing was ever abolished and today we have it even worse, because now black and white people are slaves.” Next, black street children impress us with their direct, political discourse: “We are still slaves. No work, no healthcare, no education…” The tragic symbolism is exacerbated. These crescendo signals the end is near, just as the mamulengo doll announces: “And thus, ladies and gentlemen, we end our tragicomedy in various acts, without ever reaching the ending! The abolition of slavery in Brazil. Or, to put it bluntly: black people can go fuck themselves.” An intertitle announces the ending: “the party is over”. The camera is pointed at the Central do Brasil station, then moves slowly down behind the grates of Campo de Santana. The last shot is the Central do Brasil station seen from behind iron bars, materializing, with the camera movement, the mutual imprisonment and the thin dialectics of oppression.

1. Published in Brazil in 1971 under the title Alma no Exílio.

2. Carvalho, 2005

3. Embrafilme is the main producer of Brazilian films since the company’s conception in 1969 until its implosion in 1990. Embrafilme provided a certain level of infrastructure and helped forge a new public interest in Brazilian cinema despite the fact that the market was dominated by foreign studios. However, Embrafilme’s practices were also met with criticism from filmmakers who made the accusation that they prioritized certain films while delaying the commercial release of others.

4. Rede Globo is Brazil’s largest TV network and the largest media conglomerate in Latin America.

5. Carvalho, 2005

6. Ibid.

7. Draft for a History of Black People in Brazilian Cinema, translated freely, 2005.

8. A popular street procession with song and dance that reenacts the coronation of a king in Congo.

9. A large construction in Rio de Janeiro where the samba school parades take place during Carnaval.

10. Tall vehicles designed in accordance with the theme of that year’s parade.

11. The Republic was installed on November 15th, 1889.

12. People from the Northeast of Brazil are historically subjected to prejudice from the richer regions of Brazil. Especially the South and Southeast.

13. The song was Águas de Março, which was used with new lyrics in many Coca-Cola TV spots during the 1980s.

14. Terreiros are the houses in which the Candomblé religion is practiced.

15. Published in English under the title The Masters and the Slaves.

16. Frente Negra Brasileira, or Brazilian Black Front, was the first black political party in Brazil.

17. The Revolt of the Lash (Revolta da Chibata) was a naval mutiny which took place in Rio de Janeiro in November, 1910. It was a response to the frequent whipping of black sailors by white naval officers. The Revolt was led by João Cândido Felisberto.

18. Repente is a kind of improvised poetry typical of the Northeast.

19. Teatro Experimental do Negro was a theater company founded in 1944 and ended in 1961.

REFERENCES

CARVALHO, Noel dos Santos. “Esboço para uma história do negro no cinema Brasileiro”. In: De, Jeferson. Dogma feijoada, o cinema negro brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005.

_____. O Produtor e Cineasta Zózimo Bulbul — O Inventor do Cinema Negro Brasileiro. Revista Crioula (USP), v. 12, p. 1-21, 2012.

DAVID, Marcell Carrasco. Abolição: escavações e memórias sobre o Cinema Negro de Zózimo Bulbul. Dissertação de Mestrado, PUC-Rio, 2020.

JAFA, Arthur. “The Notion of Treatment: Black Aesthetics and Film”. In Pearl Bowser, Jane Gaines and Charles Musser (eds.): Oscar Micheaux and His Circle, Bloomington: Indiana University Press, 2001, pp. 11-17.

1. Attraction and Retraction

Usually, we would begin an analysis of black representation in Brazilian cinema by listing a group of films associated with the Cinema Novo movement: Aruanda (Linduarte Noronha, 1960), The Turning Wind (Barravento, Glauber Rocha, 1962), Five Times Favela (Cinco vezes favela, Carlos Diegues, Leon Hirszman, Marcos Farias, Miguel Borges and Joaquim Pedro de Andrade, 1962), Bahia of All Saints (Bahia de todos os santos, Trigueirinho Neto, 1961), The Big Market (A grande feira, Roberto Pires, 1961), Ganga Zumba (Carlos Diegues, 1964). One can disrupt this corpus by offering an expanded view, mentioning two films that do not adhere to the stereotypical, paternalistic or submissive portrayals of black people often found throughout Brazilian cinema. Closer to the filmic language of Cinema Novo, we have Compasso de Espera (Marking Time, Antunes Filho, 1972). Compasso is linked to the movement's second phase where urban themes and the contradictions of the middle class are present in films such as The Dare (O Desafio, Paulo César Saraceni, 1965) and Bebel, Advertisement Girl (Bebel, garota propaganda, Maurice Capovilla, 1968). Soul in the Eye (Alma no Olho, Zózimo Bulbul, 1973), on the other hand, the first film by black filmmaker Zózimo Bulbul (made with leftover film stock from Compasso de Espera), distances itself from the Cinema Novo films, finding its strength in John Coltrane’s jazz and performance elements. Zózimo Bulbul stars in Compasso and directs Soul, so these films form a diptych via an umbilical relationship. Inspired by Eldridge Cleaver’s book Soul on Ice (1968),1Soul in the Eye is Bulbul’s seminal work. It was made in the context of Cinema Novo but marks itself right from the start with an ambiguous distancing, an oscillation which would accompany the filmmaker throughout his oeuvre, both aesthetically and politically. Consequently, the films of Antunes Filho and Bulbul are simultaneously close and distant from the priorities that the Cinema Novo movement had delineated in the 1960s.

Despite eventual criticism towards black representation in the films of the Cinema Novo movement, Noel dos Santos Carvalho points out that the movement marked an important change of attitude in that respect:

Cinema Novo put black people front and center, away from the stereotypes spread in the past by the chanchadas, the films of the Vera Cruz Company and such. Its anti-racism was based on: 1) condemning racial stereotypes; 2) ignoring the concept of race in favor of the generalistic concept of people; 3) dealing with aspects of black history, religiosity and culture. (...) However, we want to emphasize the change of attitude, the disruption represented by a group of films that took black people away from stereotypical roles and made them the protagonists of their own stories.2

Applying cinema as a tool for thought and anti-racist political practice marks the common ground among Cinema Novo films. However, when considering the form and approach of the films, particularly those associated with black matters, Bulbul’s films appear distant from the Cinema Novo movement. In 1982, amid obscure transactions by Embrafilme,3 Bulbul harshly criticized Carlos Diegues and Walter Lima Jr., and even turned down an offer to work on King Chico (Chico Rei, Walter Lima Jr., 1985), because he considered it “historically abhorrent”, and “mild”, made to be shown “on Globo”.4 He opposed the film’s representation of black people but also the kind of filmic experience it provided, which to Zózimo was innocuous and lacking invention.

The plot thickens. Years later, in the epigraph of his first feature film, Abolition (Abolição, 1988), Bulbul inserts a dedication to two members of the Cinema Novo movement, Glauber Rocha and Leon Hirszman. It was a controversial move because, upon returning to Brazil after a self-imposed exile in Europe,5 it was noticeable how his relationship of attraction-retraction to Cinema Novo remained intact. In fact, today, it seems more accurate to evoke Bulbul as the filmmaker who worked with forms and themes that required an experimental style that no other Cinema Novo filmmaker had the tools to create. This dichotomy offers us a way to determine just how much of an alien Abolition is, be it in relation to Brazilian documentaries, to Cinema Novo or even to Bulbul’s own oeuvre. When considering the relations between cinema, Blackness and racism in Brazil, we identify in Abolition a sort of forcefield which indicates that, rather than integrating or not integrating hegemonic movements, Zózimo chose to follow his own path.

2. Atlantic Cinema

Abolition deals with filmic language within a specific technical and aesthetic dimension by extrapolating its documentary values and proposing a singular experience. Abolition is therefore linked to a group of films that deal with the relationship between documentary and fiction. It is organized in registers, interviews, archive footage and staged scenes in order to expose the opportunistic articulation between the historical lie of the abolition of slavery and the lived reality of black people in contemporary Brazil. Today, more than thirty years after its debut, Abolition seems less like “an expanded Alma no Olho”6 and more like an experience which resonates with these formally exploratory documentary and fiction works. It can accordingly be seen as an “Atlantic” film, i.e., a film made to bring forth a cosmos of free associations. Other examples include films such as The Age of Earth (A Idade da Terra, Glauber Rocha, 1980), Twenty Years Later (Cabra Marcado para Morrer, Eduardo Coutinho, 1984), Ôrí (Raquel Gerber, 1989), and The Thread of Memory (O Fio da Memória, Eduardo Coutinho, 1991). Atlantic Cinema is a cinema of crossing, a cinema pervaded by colonial and racial themes that are at the same time direct and indirect, objective and subjective. Atlantic Cinema contains a myriad of signs in movement through historical ages and facts, with a broad and dilated referential, in an audio-logo-visual polyphony embedded in the film’s form.

The film, with its unique approach, was not well-received by black filmmakers, black researchers or the black public — who, frankly, don’t usually have access to movie theaters. In a later essay on Bulbul, Noel dos Santos Carvalho reinforces the perception that Abolition’s experimentalism could not accomplish its intended effect, as it constituted “an inventory of speeches, performances and lectures regarding the abolition of slavery, which in part accounts for its irregular nature, its repetitions and excesses”. Carvalho also points out that “from the perspective of narrative structure, it’s the most didactic of these films, which adds to its irregular nature” and he adds: “Abolition, with a running time of 150 minutes, couldn't find acceptance from the audience. Not even among the black population. It was restricted to a small circle of intellectuals and activists of the black movement”. In his essay “Esboço para uma História do Negro no Cinema Brasileiro"7 Carvalho calls attention to the fact that the crew of the film was composed almost exclusively of black men and women (the exceptions being Miguel Rio Branco with his experimental cinematography and Severino Dadá with his precise editing), noting that “what we see is mediated by the gaze of this crew. So, it’s not only about telling the history of black people in Brazil, but having a black perspective of history”. In both cases, there seems to be a consensus that the eventual qualities of the film are present on a purely symbolic level, i.e., “out” of the film itself, whether due to the initial effort to try and problematize the abolition of slavery from a black gaze, or due to the representation of the ethnic composition of the crew. Ahead, I will propose some ideas based on the internal structure of the film, to affirm it as a major representation of Atlantic Cinema, the group of films that have formed a singular trajectory in Brazilian film.

3. Material and Treatment

In an interview with Peter Hessli in February 1994, American cinematographer Arthur Jafa makes a distinction between material and treatment. Not being able to choose the material with which to work, African diasporic creativity, self-affirmed by finding new uses, appropriates and deeply transforms the materials at hand: “So a lot of our creativity coalesced around the notion of treatment, that is, transforming in some meaningful fashion, given materials. (...)” Unlike photography and painting, in which the image, as a material product, is the point of arrival, the image produced by cinema is merely a point of departure. The equipment and materials needed to make a film are even more inaccessible to black populations, and so when black people appropriate it, it’s noticeable in very subtle ways. Jafa gives this example: John Coltrane taking My Favorite Things away from its original territory and, with a particular treatment, creating openings which were unthinkable until then, “African-American creativity has been shaped by the specific circumstances Black people found themselves in; we weren’t generally able to dictate the materials we were given to work with”. What makes Abolition extremely exceptional is that, unlike Bulbul’s first film, made with leftover film from Compasso de Espera, unlike the Cuban “archive cinema” of Nicolas Landrián and Santiago Álvarez or even Jafa himself, this film seems to be controlled both ways: in the style of its production and approach, there is a complete ownership of the creation and transformation of the material and the treatment. Said material and this treatment, coupled with the choice of a predominately black crew, indicate conscious aesthetic choices.

Besides all this, Abolition holds its place in the realm of “Atlantic Cinema” for the cosmic quality it possesses. In the film, a linear narrative and a propagandistic representation of reality give way to a field in which Bulbul articulates interviews, archive recordings and photos. Organized in a non-linear way, the film is an ample space without a center, a work in favor of orality, a trancelike sequence of shots, staged interviews, rhythmic editing and local energy. Abolition cannot be simply reduced to a film that features a black gaze on black history, because history for the diasporic is never an ends but a means, a strategy always aimed at the future, for survival in a tough environment. This strategy has one purpose: to make life in the present possible. This seems to me to be he most potent definition of “ancestry”: the ability to tell one’s own history with enough power to break it apart and retell it, to build a singular historicity. So, this is not about an absent or idealized blackness, nor an integrated and coherent resistance movement which unravels in the light of mistakes and conflict. This is about a black man’s gaze encompassed by a black and non-black cosmos which involves him and with which he negotiates his very existence.

4. “What about May 14th, 1888?”

The opening minutes of Abolition are crucial to understanding the way the film moves and develops. An intertitle with an historical marker exemplifies critical irreverence: May 12th, the day before the signing of the Lei Áurea, the documentation of Brazil’s official abolition of slavery. Further ahead, another intertitle: May 14th, 1888. In a text about the film, Bulbul asks: “how was May 14th, 1888?” Playing around with the dates moves the historical axis from the abolition as key event, in favor of relating its causes and consequences to the brutal, incomprehensible present, far from the grasp of history. Every image in the opening of the film is accompanied by the sound of the shutter cracking like a whip. We hear the voices of Clementina de Jesus, Tia Doca and Geraldo Filme singing "Canto I", from the 1982 album O Canto dos Escravos, part of the repertoire of work songs collected by philologist Aires da Mata Machado Filho in the late 1920s, in São João da Chapada, Diamantina, Minas Gerais. The shutter/whip accentuates each change of image — ultimately amassing a collection of photos and paintings that depict the horrors of slavery — in cuts that sometimes follow the rhythm perfectly and other times in a syncopated manner. The association between the shutter and the whip is meant to be in understood critically, signaling new and unexpected ways to think about racial issues in Brazil.

Finally, a third intertitle indicates: May 13th. “Dia de branco” (“day of the white [person]”), a once-common racist saying that was used to refer to the days of the work week in Brazil. A storm hits the city as the Abolition film crew arrives at the Imperial Palace, in Rio de Janeiro, where the shooting will take place. The key grip, a young black man, sets up a light. The lights are for the behind the scenes, there is no interview or any other reason for them. The film then proceeds to show a Congada8 coming into a church with banners. This elliptical manner of free associations, without explicit reason, is a prevalent structural element of the whole film. The variations in rhythm of editing and the interior lighting in the shot indicates a free conception of film form. All of the interviews in the film suggest a dramatic staging, contrary to the historical staging of the signing of the Lei Áurea. The über-fake feeling of this fictional signing of the Lei Áurea conveys to us that the law that freed the slaves was all an act. The purposefully idiotic intonation of actress Camila Amado, playing Princess Isabel, contrasts with the following scene, a long Carnaval parade in the Sambódromo,9 intercut with hilarious shots of the delirious Princess screaming from the balcony of her palace. From the portrayal of the colonial Princess who believed she was playing a key historical role, to the complex expression of Carnaval one hundred years later, an uncertain feeling stands out - something between beauty, discomfort and irony. In the Carnaval of Rio, Black bodies play instruments, dance, sing and work by pushing allegorical vehicles in the procession.10

The sequence of dedications which come soon after is peculiar: “to the master Glauber Rocha”, to Leon Hirszman and "to black filmmaker Hermínio de Oliveira", followed by a mention of the Movimento Negro Unificado (Unified Black Movement) over the images of carnavalgoers leaving the Sambódromo and heading to the Central do Brasil station. This station is where people usually take the train to the Zona Norte and Zona Oeste neighborhoods, as well as to the municipalities in Baixada Fluminense. At this moment in the film, we spot the great samba composer Catoni among the passerbys. We leave the harmonious sounds and dancing bodies of the Carnaval for the Central do Brasil station, and then move into the trains that take the black carnivalgoers to their homes in the Rio suburbs. Cut to a puppet theater show for children which deals directly with racism. Then, shots of the crowded Rio-Niterói ferry feature a synthesizer-heavy soundtrack reminiscent of Krautrock. Black construction workers and shoeshiners, a dog taking a dump, a woman at work, as we go into her house. A baby, a birth certificate dated 1868, and, then we stumble upon an impressive interview with Mr. Manoel, a former slave who, at 120 years of age, gives the following statement: “today we live in bitterness, we didn’t get paid but we had satisfaction. We were satisfied with the food, everyone was satisfied”.

A tone of subtle irony can be detected when we cut from the interview with the grandson of Princess Isabel, João de Orleans e Bragança, to the crew of black technicians with their equipment in hand leaving the Imperial Palace in a hurry. Then, with a single statement, Maria Beatriz do Nascimento dismantles the official truths of the Royal family by demonstrating how the political pact which culminated in the abolition of slavery threw the lives of the black population into precariousness. The passage from a Monarchy to a Republic:11 “black people stopped obeying their masters and started being controlled by the State”.

Joel Rufino sitting on a curb on the idyllic Pedra do Sal, the original stronghold of Rio’s urban samba. Bulbul and his editor, Severino Dadá, make use of an Eisensteinian montage, intercutting the Rufino interview with shots of waves hitting rocks. The sound design allows the urban soundscape and the musical soundtrack to coexist within the interview. Joel Rufino presents Aunt Carmen as a bastion of the Praça Onze, a location in Rio which at the start of the 20th century was known as Little Africa. Writer and actress Thereza Santos makes the assertion, while standing in a storm, that after the abolition the living conditions of black women grew worse.

Abolition, in effect, sets itself far from Cinema Novo by posing a different set of questions. The film relates to Brazilian history by parodying its sociological rules, and its style is similar to that of Frederick Wiseman’s in its use of cinema to apprehend reality by capturing objective information as well as fragmentary and temporary aspects. Such seemingly random displacements accentuate the polyphony and allow for an ambiguous relationship, either emphasizing Bulbul’s very presence, or sharing a space with the spectator, the crew, and the characters. It is not just about black gaze or Bulbul’s gaze; he captures a reality in the film that extrapolates subjectivity, organizing it by fields of action: modulation, intersections, fragments, rhythm and cutting, symbols, posters and words shown on screen.

5. Atlantic Trance

In Abolition, Bulbul allows for sections of the film to modulate through and from subtle changes in themes, signs and elements. One example of this is the samba and the various forms in which it is presented. There are sections in crossing, marked by intersections of the central issue with other “presences”, fragments and details which make it unstable: Native Brazilians, Northeasterners,12 and even white people, aiming at a tridimensional black gaze, i.e., opening up to a cosmological and sociological assimilation that is broader than what white hegemony allows. There is a fragmented and incomplete field intercut by shining presences. This field is marked by a very peculiar use of talking heads, shaped by the interaction of the camera with the interviewee: the theatrically beat-down presence of Benedita da Silva; Lélia Gonzalez talking and gesticulating in the sunlight. The bishop Dom Hélder Câmara providing a critical analysis of beaches overflowing with white bodies while Jards Macalé sings Rio sem tom, a song he wrote to criticize the fact that Tom Jobim had sold a song to Coca-Cola.13 Perhaps due to the influence of orthodox Marxism, Zózimo noticeably devoted very little time to Afro-Brazilian religions, favoring Dom Hélder’s strange interview. Even so, there is a precious interview with Mãe Filhinha, the founder of the IIê Axé Itayle terreiro14, in Cachoeira, Bahia.

Some critics and researchers have commented that Abolition is repetitive. I think this repetition is a necessary asset in the film’s structure, organized by intertwining themes and treatments. There is a trace of repetition which, like the absence of a narrator, can be understood as an aesthetic choice. And, like in The Age of the Earth, the repetition aims to provoke a state of trance, of hallucination. To repeat in order to hallucinate. Repetition brings forth the Atlantic trance. The consensus regarding Glauberian expression as an allegory begets very particular ways of exploring dynamic stasis, the static progression of the dispute between antagonistic forces, which indicates that, when it comes to Brazilian racism, everything is transformed in order to keep the status quo intact. As a complement to that field, there is the written word, posters, watchwords, and intertitles to rectify and break open the shots.

A particularly dark moment in the film is that of the anti-interview with anthropologist Gilberto Freyre, author of the classic study Casa Grande & Senzala.15 Unable to speak due to his poor health condition, Freyre is represented by hisson, who limits himself to repeating platitudes from Freyre’s work regarding the value of the “afroblack” element (his words). The camera moves slowly out of the room, as if to indicate an abandonment, which is reinforced by the underexposed cinematography. Other particularly interesting moments: the presence of communist politician Luís Carlos Prestes just twenty minutes into the film indicates a movement towards the unexpected, as it allows for a white political leader to speak in its first few minutes. Black sociologist and journalist Muniz Sodré walks through the corridors of the Federal University of Rio de Janeiro (I have to note how weird it is to see black people inside a Brazilian university in 1988). Francisco Lucrécio and Correia Leite tell the story of how the Frente Negra16  was founded in the 1930s. The Revolt of the Lash gets a special mention in the interviews of historian Edmar Morel and of the daughter of João Cândido.17 Two repentistas18 sing about the Abolition and the situation of black people in the history of Brazil.The widow of black poet and cultural agitator Solano Trindade complains that her husband’s memory is being erased. Abdias do Nascimento, a playwright, activist and politician, talks about his experience with the Black Experimental Theater.19 Reminiscent of Kanye West, a current icon who has blamed black people for slavery, singer Agnaldo Timóteo insists that first and foremost black people have to change their mentality. Composer Nei Lopes drinks beer while Paulo Moura plays his saxophone, in contrast with the part of São Paulo which is inhabited by people from the Northeast, cornered between misery and the commodification of life itself. Then, Zózimo exposes the violence of the Military Regime on black bodies. Despite the reflexive tone usually attributed to this film, Abolição doesn’t only express the vision of its author. Simultaneously close and away from Bulbul, a cinema with a collective soul is born, in a panel of diffuse presences, always elusive.

6. The Party is Over

The price paid for being black in Brazil is huge. Zózimo Bulbul’s trajectory in Brazilian cinema is linked to a personal effort to conquer his own ground to work in, and to make it possible for a black filmography to arise. The generosity of Bulbul’s Atlantic aesthetics is contrasted at times by a collective tendency to reinforce militant watchwords and the demand for basic rights. When a black person fails to correspond to what minority groups, society and even his brothers and sistas expect of him, his walk is even harder. Just ask Albert Ayler, John Coltrane or Itamar Assumpção. The list of black men and women who were misunderstood by the black movement because they failed to follow what the community considered appropriate is a long one. These black people are usually unlucky. Bulbul’s name is on that list, and so Abolition might have been a huge disappointment to those who followed his work. Either way, the film bets on collective experimentalism as a way to survive, even though it doesn’t end on an optimistic note.

Amid images of streets filled with trash and the luxury of show houses, Grande Otelo calls on the black “taskforce”: “Nothing was ever abolished and today we have it even worse, because now black and white people are slaves.” Next, black street children impress us with their direct, political discourse: “We are still slaves. No work, no healthcare, no education…” The tragic symbolism is exacerbated. These crescendo signals the end is near, just as the mamulengo doll announces: “And thus, ladies and gentlemen, we end our tragicomedy in various acts, without ever reaching the ending! The abolition of slavery in Brazil. Or, to put it bluntly: black people can go fuck themselves.” An intertitle announces the ending: “the party is over”. The camera is pointed at the Central do Brasil station, then moves slowly down behind the grates of Campo de Santana. The last shot is the Central do Brasil station seen from behind iron bars, materializing, with the camera movement, the mutual imprisonment and the thin dialectics of oppression.

1. Published in Brazil in 1971 under the title Alma no Exílio.

2. Carvalho, 2005

3. Embrafilme is the main producer of Brazilian films since the company’s conception in 1969 until its implosion in 1990. Embrafilme provided a certain level of infrastructure and helped forge a new public interest in Brazilian cinema despite the fact that the market was dominated by foreign studios. However, Embrafilme’s practices were also met with criticism from filmmakers who made the accusation that they prioritized certain films while delaying the commercial release of others.

4. Rede Globo is Brazil’s largest TV network and the largest media conglomerate in Latin America.

5. Carvalho, 2005

6. Ibid.

7. Draft for a History of Black People in Brazilian Cinema, translated freely, 2005.

8. A popular street procession with song and dance that reenacts the coronation of a king in Congo.

9. A large construction in Rio de Janeiro where the samba school parades take place during Carnaval.

10. Tall vehicles designed in accordance with the theme of that year’s parade.

11. The Republic was installed on November 15th, 1889.

12. People from the Northeast of Brazil are historically subjected to prejudice from the richer regions of Brazil. Especially the South and Southeast.

13. The song was Águas de Março, which was used with new lyrics in many Coca-Cola TV spots during the 1980s.

14. Terreiros are the houses in which the Candomblé religion is practiced.

15. Published in English under the title The Masters and the Slaves.

16. Frente Negra Brasileira, or Brazilian Black Front, was the first black political party in Brazil.

17. The Revolt of the Lash (Revolta da Chibata) was a naval mutiny which took place in Rio de Janeiro in November, 1910. It was a response to the frequent whipping of black sailors by white naval officers. The Revolt was led by João Cândido Felisberto.

18. Repente is a kind of improvised poetry typical of the Northeast.

19. Teatro Experimental do Negro was a theater company founded in 1944 and ended in 1961.

REFERENCES

CARVALHO, Noel dos Santos. “Esboço para uma história do negro no cinema Brasileiro”. In: De, Jeferson. Dogma feijoada, o cinema negro brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005.

_____. O Produtor e Cineasta Zózimo Bulbul — O Inventor do Cinema Negro Brasileiro. Revista Crioula (USP), v. 12, p. 1-21, 2012.

DAVID, Marcell Carrasco. Abolição: escavações e memórias sobre o Cinema Negro de Zózimo Bulbul. Dissertação de Mestrado, PUC-Rio, 2020.

JAFA, Arthur. “The Notion of Treatment: Black Aesthetics and Film”. In Pearl Bowser, Jane Gaines and Charles Musser (eds.): Oscar Micheaux and His Circle, Bloomington: Indiana University Press, 2001, pp. 11-17.