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24/8/2020
By/Por:
Eric Barroso

Não deve surpreender que, no Brasil, assim como na maioria dos países historicamente chamados de “subdesenvolvidos”, a questão da memória cultural e do acesso à história, tal como ditados pelo arquivo, seja muito mais precária do que para quem aborda o tema a partir da relativa riqueza dos Estados Unidos ou da Europa. Há muito mais lacunas, apagamentos e interstícios para os quais pedaços da cultura brasileira podem cair com uma frequência muito maior, condição que é ao mesmo tempo de determinação política e de incapacidade física. Quanto a esse segundo fator, basta lembrar que a Atlântida Cinematográfica — o estúdio brasileiro responsável pela maioria dos filmes de chanchada — teve de queimar suas cópias em nitrato da era de ouro dos anos 40 e 50 depois que novas cópias de segurança foram feitas, por medo de que o estúdio inteiro pegasse fogo devido à combinação de película de nitrato e calor tropical. Portanto, para um arquivista brasileiro — ou seu equivalente do lado da produção, o cineasta de found footage — a tarefa de sequer dar os primeiros passos rumo à reunião de documentos para o seu trabalho é árdua e certamente será marcada por muitas frustrações, a menos que o tema em questão tenha um espólio excepcionalmente bem cuidado.

Assim, trabalhadores culturais brasileiros encontram seu trabalho determinado sob o signo da fragmentação, e vemos que o trabalho mais instigante é aquele que ostenta essa marca como motivo de orgulho e usa sua forma para refletir suas inconsistências materiais. Carlos Adriano trabalha com os arquivos cinematográficos do Brasil há mais de vinte anos, criando filmes que ao mesmo tempo preservam e projetam as lacunas e outras formas de falta que ele encontra quando se depara com seções até então não documentadas do passado do Brasil.

Cinelimite: Você pode descrever como encontrou originalmente a figura de Vassourinha? Como cineasta de found footage, você estava buscando ativamente um novo tema para explorar ou Vassourinha entrou na sua vida de uma forma mais inesperada?

Carlos Adriano: Pode-se dizer que, até o meu longa documental Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), aqueles dos meus filmes que lidam com found footage ou material de arquivo compartilham uma marca comum e essencial: todos são sobre temas desconhecidos, esquecidos ou perdidos da cultura brasileira (e seus materiais remanescentes). Por exemplo: Remainiscences (1994-1997) é sobre a suposta primeira filmagem do Brasil (registrada em 1897); Militancy (2001-2002) é sobre a lanterna mágica do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) é sobre o único filme feito pelo escritor Monteiro Lobato (assim como a única gravação de áudio de sua voz); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) é sobre os filmes inacabados do poeta Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) é sobre um filme de mutoscópio (1901) que apresenta o inventor e aviador brasileiro Santos Dumont. Então Vassourinha é um tema coerente, de uma perspectiva “retrospectiva”. Pessoalmente, eu gostava muito dele como um cantor original, alguém que faz parte de uma tradição “discreta”, que inclui Orlando Silva (na sua primeira fase), Mário Reis, Roberto Silva e João Gilberto. Essa tradição comumente apresenta um tipo de canto próximo da palavra falada, um “canto falado” ("spoken song"). Eu tinha o disco de Vassourinha muito antes da ideia de fazer o filme. De certa forma, o filme é uma espécie de tributo de fã. Além disso, a tragédia da vida de Vassourinha — morrer aos 19 anos de uma doença rara—é uma questão relacionada a outro eixo do meu trabalho cinematográfico (mortalidade, morte e vida). Também me interessava a extrema raridade do tema — um artista sobre o qual restou muito pouca informação e documentação. Vassourinha entrou na minha vida tão inesperadamente quanto todas as boas fortunas, por um acaso amoroso.

CL: Ao saber mais sobre Vassourinha e decidir fazer um filme sobre ele, como você iniciou o processo de reunir o imenso número de fotografias, sons, recortes de jornal, partituras e até registros financeiros que podem ser encontrados em A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Esses registros foram apresentados a você dentro de um único arquivo ou você passou por um longo processo de pesquisa em inúmeros lugares para rastrear esse material? Conte para nós como foi esse processo de coleta.

CA: O grande ponto de partida está encapsulado no loop que eu montei a partir de duas palavras da canção da Emília no início do filme: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). Eu comecei com quase nada, apenas alguns trechos e pistas. Depois de uma investigação extensa (e intensa) — em algum lugar entre a arqueologia e o trabalho de detetive — eu e Bernardo Vorobow (coprodutor e meu companheiro de vida de longa data)1 conduzimos pesquisa em toda fonte possível, até conseguirmos dois álbuns pessoais de recortes de jornal reunidos pelo próprio Vassourinha. Um deles me foi dado generosamente por Alberto Helena Junior, um grande fã e importante estudioso de Vassourinha; o outro álbum eu obtive do que restou da família do cantor: um irmão adotivo. Todos os seis discos de 78 rpm gravados por Vassourinha que foram usados no filme para filmagem e gravação (todo o som do filme veio desses discos) pertencem à coleção privada de Miécio Caffé.2 A coleção de Miécio Caffé estava, naquele momento, depositada no Museu da Imagem e do Som (São Paulo). Tive a sorte de conhecer pessoalmente Raul Duarte, o produtor/diretor de rádio que contratou Vassourinha para cantar na Rádio Record, e de conversar com um médico que tratou Vassourinha durante sua última internação. O próprio caminho do processo de pesquisa ditou a estrutura do filme: uma enorme quantidade de informação sobre alguém sobre quem as pessoas não sabiam quase nada. Fragmentos, espectros, restos — a matéria de que a vida é feita. O processo de coleta é, de certa forma, metaforizado na sequência final no cemitério: a busca pelo túmulo dele foi como a busca pelas informações sobre sua vida-obra.

CL: Você acha que o intercâmbio cultural entre dois ou mais países poderia incitar o governo brasileiro a perceber o valor das suas próprias obras nacionais? Você acha que uma grande iniciativa no exterior, manifestada em grandes retrospectivas ou em prêmios mais prestigiosos sendo dados a filmes brasileiros, poderia ser o catalisador para que o governo no Brasil finalmente perceba que precisa financiar a Cinemateca Brasileira e que precisa finalmente apoiar a indústria do cinema e seus trabalhadores culturais de maneira respeitosa e solidária?

CA: Eu acho que esse sentimento de testemunhar um “renascimento” ou uma “redefinição” de um ícone esquecido é natural, já que um dos propósitos do filme é fazer Vassourinha viver de novo, “simplesmente” como ele é. Como o filme é um gesto de amor (um labor de vida, um labor de amor), esse sentimento vem da tela e vai em direção ao rosto do espectador ouvinte. Talvez não seja tão preciso dizer que Vassourinha é desconhecido, porque no tempo dele ele era muito famoso. Ele caiu no esquecimento depois, após sua morte, no pós. Em português, a palavra “olvido” (esquecimento) é próxima de “ouvido” (orelha), e essa é uma senha que eu tentei trabalhar formalmente, como uma forma de operação estética: representar os limites entre o esquecimento e o resgate desse esquecimento por meio do ato de ouvir a voz desse artista. Mas a voz dele caiu num vazio, então eu senti que a minha “missão” (em termos do meu respeito a esse ser humano e à sua arte) era prestar o mais alto tributo: criar um verdadeiro diálogo. Eu tive a sorte de conseguir reunir aquela enorme quantidade de documentação histórica sobre alguém sobre quem “ninguém sabia nada”. O filme trabalha em torno dos limites da legibilidade, a fronteira entre ler e entender. E foi exatamente essa contradição — o fato de existirem muitos documentos sobre uma figura elusiva — que costurou e fortaleceu a força do filme. O fato de que “esses documentos nem aparecem na tela por tempo suficiente para que o espectador consiga lê-los completamente” foi uma escolha operacional que eu fiz para “traduzir” o signo e o mito de Vassourinha. O melhor testemunho que eu poderia fornecer (além do melhor e mais sincero tributo à arte de Vassourinha) era “deixar esses materiais históricos falarem por si” — mas articulados por ferramentas próprias do meio cinematográfico, no que diz respeito ao seu poder de construir (e desconstruir) associações por meio da musa suprema do cinema, a montagem (“edição” seria uma palavra que não faz justiça ao trabalho em si). Minha tarefa humilde foi de natureza [Walter] benjaminiana: reunir esse saco de trapos e sugerir uma constelação coerente.

CL: Dos cinco filmes que você fez e que lidam com histórias culturais esquecidas do Brasil, este é o único que trata exclusivamente de um músico. Como o trabalho de garimpar os arquivos de um sambista diferiu daquele dos seus filmes que se concentram na história do cinema? Ou há uma metodologia recorrente na sua abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência?

CA: Eu não tenho muita certeza se há alguma diferença — do meu ponto de vista da operação cinematográfica — entre trabalhar sobre o arquivo de um sambista e trabalhar sobre o arquivo de um artista de outro meio (literatura, fotografia, caricatura). Porque o cinema é “meu”, é o meu modo operacional de trabalho; quando eu trabalho sobre a obra de um artista, eu tento entender e traduzir seus elementos essenciais para o meu vocabulário (a minha linguagem pessoal do cinema), para estar em sintonia com o seu clima artístico. Como você pode ler em um dos recortes de jornal, Vassourinha interpretou “De Babado”, uma canção escrita por Noel Rosa e João Mina, e gravada por Noel Rosa e Marília Batista em 1936. Esse disco aparece em uma sequência de Santoscope = Dumontage — e, claro, eu tenho essa conexão em mente. O primeiro álbum (33 rpm) lançado com todos os seis sambas gravados por Vassourinha, no fim dos anos 60, teve sua capa desenhada por Miécio Caffé, um famoso (mas que também caiu no esquecimento) caricaturista e colecionador de música, e toneladas de cantores brasileiros iam folhear a coleção privada de discos antigos de 78 rpm de Miécio para pesquisar e estudar. Para citar apenas dois: Chico Buarque e João Gilberto — as lendárias releituras de sambas brasileiros feitas por João Gilberto não seriam possíveis sem a coleção de Miécio Caffé. Em 2003, eu fiz o filme e, para esse filme, Caetano Veloso fez uma nova gravação de um samba menos conhecido, “A Voz do Povo”, originalmente composto por Malfitano e Frasão e gravado por Orlando Silva em 1941. Veloso chamou o samba de um manifesto para o meu trabalho no cinema. Sim, há uma metodologia recorrente na minha abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência, para citar o título do meu filme sobre os filmes inacabados de Pignatari — note que eu implico um jogo entre « existência » e « resistência », que configuram um par-chave em jogo.

Precisamos tentar oferecer acesso ao cinema brasileiro da melhor forma possível, porque as pessoas precisam saber que esses tesouros existem. Se elas não tiverem esse acesso básico, os filmes serão ignorados e perderão seu valor para o público. Precisamos impedir isso e dar uma virada completa de 180 graus na política no que diz respeito ao acesso.

CL: A história dos arquivos culturais no Brasil é repleta de histórias de perda, tragédia e negligência. No entanto, também é possível ver essa história como um relato ocasional de triunfo, já que a vontade de alguns indivíduos conseguiu preservar a memória cultural brasileira até os dias de hoje. Seus esforços nos permitiram extrair novas ideias de obras históricas da arte brasileira no nosso momento presente.

Como cineasta de found footage, muitas das suas obras lidam com as memórias culturais esquecidas do passado do Brasil. Você pode falar sobre como a história e os esforços passados de preservação cultural no Brasil impactaram o seu trabalho? Por que, na sua visão, figuras tão importantes como Vassourinha foram (antes) esquecidas?

CA: Há uma trajetória de pesquisa acadêmica na minha vida. Eu me formei na escola de cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP – Universidade de São Paulo (ECA-USP). Tenho meu mestrado e meu doutorado (2008) na mesma USP, ambos orientados pelo Prof. Ismail Xavier. Além disso, fiz dois pós-doutorados, um em Artes (na Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP, 2014), supervisionado pelo Prof. Arlindo Machado, e um em Cinema (na USP, 2017), supervisionado pelo Prof. Cristian Borges. Para o meu doutorado e o meu pós-doutorado na PUC-SP, tive bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e, para o meu pós-doutorado na USP, tive uma bolsa da CAPES. Essa longa e entediante citação de currículo serve apenas para mostrar o quão seriamente eu levo a pesquisa acadêmica e como, ao longo da minha vida, esferas de estudo e de arquivamento informaram a minha trajetória. Eu também trabalhei na Cinemateca Brasileira de 1986 a 1999.

Talvez eu possa responder à sua primeira pergunta com um exemplo de um estudo de caso. Minha pesquisa de doutorado (que abriu caminho para a produção de dois filmes sobre Santos Dumont) foi baseada em um objeto desconhecido da Coleção Santos Dumont do Museu Paulista da USP (também conhecido como Museu do Ipiranga). Era um objeto não identificado em termos de ano e origem de produção, sua natureza técnica, e até mesmo o nome que lhe foi atribuído estava errado e era enganoso — mas ele estava lá, no arquivo. Depois de seguir um caminho de pesquisa semelhante ao que foi perseguido em Vassourinha, eu identifiquei que se tratava de um hub de mutoscópio, produzido em 1901 pelo ramo britânico da American Mutoscope & Biograph Company, provavelmente filmado por William K.L. Dickson, e, em seguida, rastreei sua história arquivística. A última frase da sua pergunta exigiria uma explicação grande demais, então eu me arriscaria a dizer, de forma breve, que eu acho que o Brasil historicamente tem uma tradição consistente de tratar mal e pior seus melhores filhos e filhas, principalmente no campo da cultura.

CL: CL: Em Vassourinha, há momentos em que a trilha sonora começa e para, como se um disco de 78 rpm estivesse pulando. Isso muitas vezes é acompanhado, na faixa de imagem, por um efeito de flicker. Sabendo das suas afinidades com outros cineastas de found footage, como Ken Jacobs, como você vê esse efeito de flicker operando em relação ao seu uso em outros contextos globais, e há algo no arquivo brasileiro, e na vida de Vassourinha, que tenha te levado a usar esse efeito?

CA: Eu só poderia falar do meu uso pessoal do flicker (que, claro, está enraizado numa tradição do cinema de vanguarda), um recurso que eu uso bastante nos meus filmes. Em Santoscope = Dumontage, o flicker é um dispositivo do cinema estrutural extraído do próprio aparelho de mutoscópio que hospedava o filme original de 1901 sobre Santos Dumont com o qual eu trabalhei. No caso de Vassourinha, o flicker tem um papel um pouco análogo ao que eu usei em Remainiscences: no sentido de lacunas, lapsos, elos perdidos, abismos perdidos, o vazio. Mas em Vassourinha há um excedente: o flicker como uma instância de consciência, como um momento em que o obturador rapidamente obliterra a imagem para fazê-la ressoar no tempo; então o flicker é um elemento constituinte do tecido da história de Vassourinha (que foi rasgado em pedaços), mas também é um dispositivo para entender essa história. Há até uma rima formal com a condição da sua negritude, no sentido do que é ocultado ou apagado. É como se o flicker fosse um correspondente à “imagem dialética” de Walter Benjamin, aquele momento breve e elusivo em que as associações faiscam para além do tempo histórico. Eu gosto muito da noção benjaminiana de história, tanto como lixo e ruínas quanto como o ponto de vista dos perdedores. Naturalmente, em um país periférico como o Brasil — que sempre abusou de suas instituições encarregadas da preservação de sua memória cultural, e que tem um longo e sombrio passado de apagar e reprimir suas figuras (enraizado na sua história com a escravidão) — o flicker alcança um poder alegórico profundo (e eu uso esse termo tal como Ismail Xavier o definiu tão bem em seu livro seminal Alegorias do Subdesenvolvimento) de um modo, em certa medida, muito além das maravilhas formais do flicker de Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad e outros.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, além de ser uma obra de arte investida no gesto de ressurreição, também serve, mesmo não projetado como um rolo de celuloide, como um verdadeiro repositório de imagens e documentação relacionadas a Vassourinha — um arquivo em si. O que você pensa disso e como você sente que o material histórico se transforma quando passa de um meio para outro?

CA: Definitivamente, o filme Vassourinha é uma peça de arte analógica — ele foi pensado e feito como um filme em 35mm. E eu prezo sobretudo o conceito de “filme infinito”, de Hollis Frampton, em seu ensaio de meta-história, que eu “traduzi” na minha tese de doutorado para o domínio do found footage. Minha tese de doutorado ainda não foi publicada como livro, mas você pode consultá-la no banco de teses da Universidade de São Paulo, e eu publiquei um ensaio baseado nela na revista Anais do Museu Paulista. Eu peguei todos os documentos de Vassourinha que consegui encontrar e os reuni como “quadros” de um filme infinito — todos os materiais são matéria de poesia cinematográfica. Eu lamento que você não consiga exibir o filme no seu formato original de 35mm. Eu fiz algumas viradas disruptivas com o celuloide que só se realizam plenamente em forma fílmica. A “ressurreição” que você menciona é realizada no (e por meio do) próprio celuloide. Além do flicker, eu usei véus, aqueles quadros misteriosos que não são devidamente expostos no obturador da câmera. Com exceção da sequência final, filmada em locação no cenário do cemitério onde Vassourinha está enterrado, o filme foi filmado com uma máquina de animação Oxberry. Um dos maiores elogios, do qual eu mais me orgulho, é sobre o meu estilo de montagem: mesmo quando monto numa ilha digital, o meu trabalho é tributário da moviola. No sentido de passar do meio da história para o meio do cinema, eu diria que a transformação ocorre no campo da poesia. Eu tomo a palavra aqui no sentido de poética, o método de estrutura, uma questão de forma, uma maneira de moldar materiais e pensamentos. E eu diria que historiadores como Walter Benjamin, Aby Warburg e Hayden White contribuíram para libertar o documento, para que ele possa ser reapropriado pelos artistas.

CL: Historiadores importantes do cinema brasileiro, como Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959) e Paulo Emílio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, escrito nos anos 60, mas publicado pela primeira vez em 1986), foram obrigados a buscar fragmentos do passado e a desenterrar notas de rodapé da história para pintar um quadro de eras cinematográficas passadas para as gerações de então e para as futuras. Em que medida uma obra como Vassourinha segue essa trajetória de pesquisa histórica e, na sua visão, de que modo ela se desvia dela?

CA: Trabalhar com fragmentos — com os restos, com os pequenos detalhes no rodapé da página — é uma atitude professada pela École dos Annales e por historiadores como Benjamin e Warburg. Os historiadores de cinema que você mencionou trabalharam a partir de um ponto de vista periférico, em que questões de subdesenvolvimento eram muito presentes no Brasil, e foram informados pela experiência tardia da modernidade no Brasil. Eles certamente conjuraram um corpo de trabalho fundamental e forneceram referências para qualquer pessoa interessada na aventura de investigar o passado do cinema brasileiro. Eu acho que Vassourinha faz parte dessa tradição que você mencionou no sentido de uma pesquisa profunda sobre raízes profundamente nacionais, como se a questão da identidade nacional fosse uma questão crucial e definidora, e uma espécie de adesão a temas populares do modo defendido pelo Modernismo brasileiro (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). Os elementos da cultura popular foram tomados como uma senha para uma revelação do Brasil aos próprios brasileiros. No que diz respeito a Vicente de Paula Araújo, o meu método de pesquisa é, em certa medida, parecido com o dele, compartilhando o mergulho profundo nas fontes primárias de materiais de referência. No que diz respeito a Paulo Emílio, a minha mente opera dentro do mesmo quadro que a dele: uma espécie de investigação sociológica sobre o fato humano. Acho que Vassourinha se desvia dessa tradição na medida em que assume radicalmente uma noção de meta-história poética, no sentido de que não é obrigado a esclarecer nem concluir nada no que diz respeito a um projeto nacional definido em termos de teleologia e de uma grande síntese. Eu valorizo as lacunas, os lapsos, a inconclusividade misteriosa; a pesquisa séria não serve a nenhum tipo de “redenção” do nosso orgulho — as obras e os artistas compõem uma constelação em movimento (em movimento; emocional).

CL: No seu ensaio "Reapropriação de arquivo e imantação de afeto", você traz, a partir do conceito de “Cinema Infinito” de Hollis Frampton, o ideal de um “Arquivo Infinito”. O conceito decorre da relação do cinema com a era digital e da capacidade interminável de “reciclar digitalmente os começos do cinema”. Em outro momento, referindo-se à noção de Leitfossil em Aby Warburg e Georges Didi-Huberman, você afirma que “na minha câmara de maravilhas, não existe arquivo morto; apenas arquivos vivos, adormecidos em suas formas”.

Tanto a noção de um “Arquivo Infinito” quanto a negação de um arquivo morto parecem desconsiderar, à primeira vista, o estado aparentemente finito do arquivamento que se impôs às instituições brasileiras por décadas. No entanto, num segundo olhar, pode-se perceber que você não está negando a realidade de que existem fins no arquivo, mas está expandindo as maneiras pelas quais esses fins podem ser usados na era digital — as imagens podem ser reproduzidas infinitamente numa variedade de formas, formatos e expressões.

Você pode comentar essa interpretação das suas ideias? E como a noção de “Arquivo Infinito” pode ser vista sob a particular guisa da situação arquivística brasileira?

CA: Na minha tese de doutorado e em artigos posteriores publicados em revistas acadêmicas, eu transferi (e transformei) a noção de Frampton para o domínio do found footage. Eu acho que isso é uma contribuição original aos estudos de cinema, essa montagem conceitual que eu faço entre Benjamin, Frampton e Warburg (entre muitas outras noções teóricas, culturais e históricas). Avançar para o contexto geográfico e sociopolítico-econômico de um país como o Brasil exigiria um esforço e uma extensão de argumento que eu não sou capaz de realizar no breve contexto desta entrevista. Evidentemente, à primeira vista, as próprias dificuldades econômicas trazem outros parâmetros para a questão: como pensar a sobrevivência das imagens (como depositárias da memória nacional) se a própria sobrevivência do arquivo (como instituição desse dever) é atormentada por riscos à sua contingência material? Por outro lado, a condição brasileira tem características únicas e originais que a distinguem de outros países: nossa formação colonial, nossa situação periférica, nossa modernidade conservadora, nossa desigualdade social escandalosa e a força artística e intelectual de várias gerações que responderam a esses desafios. Precisamos lembrar que o celuloide é feito também de matéria orgânica e, portanto, sujeito à decomposição, assim como nós. Precisamos ter em mente que o que sobreviveu até o nosso tempo dos poemas de Safo são apenas fragmentos de seus versos, e a beleza da sua poesia é em parte a beleza dessa qualidade de escassez. Paradoxalmente, eu imaginaria que a própria noção de “arquivo infinito”, quando aplicada ao Brasil, implicaria um cinema finito, a própria finitude do cinema, sua fragilidade material e intrínseca, sua condição “humana”.

CL: Como você bem sabe, o mais importante arquivo de filmes do Brasil, a Cinemateca Brasileira, está agora atravessando uma nova crise em que todo o seu acervo corre risco de ser destruído. O momento atual evoca na nossa mente um episódio à la Além da Imaginação, em que um cineasta de found footage acorda e descobre que já não existe mais found footage para ser encontrado. Embora o seu trabalho certamente tenha apresentado found footage que foi obtido para além dos muros de uma instituição arquivística, não se pode negar que essas instituições são repositórios de obras culturais que ainda permanecem escondidas do olhar público. Em primeiro lugar, você pode comentar a negligência histórica do governo brasileiro em investir adequadamente na preservação da memória cultural brasileira? Por fim, você pode comentar o que esse cenário potencialmente distópico evoca para você em relação ao seu corpo de trabalho, aos aspirantes a cineastas de found footage e ao futuro do found footage no Brasil?

CA: Estamos vivendo atualmente tempos sombrios e terríveis no Brasil, e muitas instituições públicas relacionadas à cultura (e à educação) estão sob ameaça, em diferentes níveis, graus e circunstâncias, como a Casa de Rui Barbosa e a Cinemateca Brasileira. Esta última é o nosso arquivo de filmes mais reconhecido, mas existem outros, menores, espalhados por cidades do país, dois dos quais são particularmente merecedores da nossa atenção e respeito, por possuírem grandes acervos e realizarem um trabalho de pesquisa notável e bom: a Cinemateca do MAM (Museu de Arte Moderna) e o Arquivo Nacional (ambos no Rio de Janeiro). No caso da Cinemateca Brasileira, assim como desses outros arquivos, há um problema que vem acontecendo há anos e é uma questão complexa — o que está acontecendo agora é de grande urgência, porque afeta questões básicas de manutenção do próprio arquivo (além dos salários da equipe técnica, a crise atual afeta serviços de fornecimento de energia elétrica, o que ameaça a refrigeração e a segurança). A tragédia do incêndio no Museu Nacional (Rio de Janeiro) em 2018 serve como metáfora para a falta de compromisso público com a memória e o patrimônio nacionais: a negligência transforma a memória em cinzas. O episódio patético do governo brasileiro (literalmente) tomar as chaves da Cinemateca, junto ao incêndio do Museu Nacional, é por si só uma imagem simbólica poderosa. Claro, como cineasta de found footage, eu tenho um engajamento com o arquivamento de filmes e acho que não foi mera coincidência eu ter sido convidado a fazer o filme oficial da celebração do centenário de Paulo Emílio Salles Gomes (Festejo Muito Pessoal, 2016). Pessoalmente, eu sempre trabalhei com estilhaços, sobras, restos, fragmentos incompletos; materiais perdidos, negligenciados e esquecidos. Portanto, eu estou acostumado a trabalhar na escassez e na pobreza. Eu sempre tenho em mente o adágio de que “sempre pode ser pior”, o que talvez não alivie muitas ansiedades sobre o futuro. Os versos “carpe diem” de Horácio nos ajudam a encarar nossas fraquezas e incertezas, que agora são muito maiores com a crise da COVID-19.

CL: Parte do espanto ao assistir a Vassourinha é o fato de ser tão raro ver obras desveladas do arquivo que destaquem as vidas de artistas negros importantes do passado. De certa forma, o filme projeta o papel que os arquivos deveriam estar cumprindo na sociedade contemporânea — isto é, para além de apenas preservar materiais, recuperar e apresentar existências e narrativas até então reprimidas. Na sua visão, por que levou quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha no seu filme? E, como você mesmo já trabalhou como arquivista no passado, o que você acha que futuros arquivistas podem aprender com o filme? O que, de fato, é mais importante salvar para as gerações futuras?

CA: Para mim é muito difícil dizer “por que [levou] quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha”… Seria tentador, e seria uma falácia também, dizer que Vassourinha estava ansioso para me encontrar, que sua arte e seu ofício estavam esperando pelo meu gesto… Eu não sei por que demorou tanto tempo… Pode-se pensar em razões sociais, já que ele era um garoto negro de uma família pobre e não teve tempo suficiente para construir uma fama que perdurasse. Por outro lado, temos muitos casos de grandes artistas em diferentes áreas artísticas que foram esquecidos. [O cinema de found footage é] uma maneira muito pessoal (beirando o loucamente idiossincrática) de lidar com artefatos históricos, uma forma criativa de trabalhar com a história, não apenas no sentido de salvar os restos, mas de trazê-los de volta à vida e mantê-los vivos. A história servindo para fazer vibrar a história de Vassourinha. Eu me considero um cineasta muito materialista, no sentido de que eu valorizo sobretudo os materiais raros e crus de que a história é feita. Acho que se pode sentir, de um modo muito palpável, uma materialidade sensual que meus filmes colocam na tela. Além dos próprios materiais (os “restos”), acho que também é muito importante preservar o sabor do tempo — o zeitgeist — em que se vive. E isso é uma ordem de alquimia: lembrar a obra de Duchamp “Ar de Paris”. De fato, como cineasta comunista, o que seria realmente “mais importante salvar para as gerações futuras” é a própria vida — as vidas de tantos artistas (e pensadores) que nos inspiram e nos fazem florescer. Mas isso está muito longe da utopia; tentar derrotar a morte… Como colocou André Bazin, o cinema carrega um complexo de múmia.

CL: Por fim, desde o lançamento de A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, houve um novo ressurgimento de interesse na vida de Vassourinha. Vários músicos famosos regravaram suas canções e há rumores de que um longa-metragem sobre sua vida está em desenvolvimento. Você vê algo disso como parte do legado e do impacto que o seu filme teve? Relacionado a isso, qual você acha que é a probabilidade de existirem centenas de outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos: talentos inimitáveis, históricos e, na maioria das vezes, negros e marginalizados, cujos legados nunca chegaram ao povo do Brasil para além do seu tempo?

CA: Como o homem mais humilde e mais modesto que eu sou, devo reconhecer que o meu filme definitivamente e certamente teve um impacto de “trazer” Vassourinha “de volta à vida”. Eu odiaria parecer pretensioso, mas é um fato: eu contribuí para tornar Vassourinha mais conhecido e mais apreciado. O meu filme foi capa dos dois principais jornais de São Paulo (na primeira página dos cadernos culturais), que são os principais do Brasil. Eu não me compararia ao status que alguns dão a Ezra Pound, como sendo o re-inventor do provençal para os tempos modernos, um poeta que abraça um trabalho de tradução e crítica; mas é quase isso…de certa forma, eu “inventeI” Vassourinha para os tempos contemporâneos, e eu tenho orgulho de que isso tenha sido feito dentro de um modo de cinema de vanguarda. Depois que o meu filme foi lançado, Caetano Veloso (que já conhecia os meus filmes naquela época) me procurou sobre um projeto proposto por Paula Lavigne (sua esposa e empresária) de relançar os discos originais de Vassourinha junto com um conjunto de Caetano e Chico Buarque interpretando novas versões do repertório de Vassourinha. O meu filme seria uma peça-chave nesse projeto, em shows e em um possível lançamento de DVD junto com o CD; infelizmente isso não foi adiante por algum motivo, talvez porque uma gravadora tenha decidido, em vez disso, lançar apressadamente as canções de Vassourinha. Com certeza existem “outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos”: durante a minha pesquisa para fazer o filme Vassourinha, eu mesmo encontrei uma espécie de Vassourinha feminino quase no mesmo estilo—chapéu de palha, samba sincopado—não tão famosa no seu tempo quanto Vassourinha, atuando de meados dos anos 1930 a meados dos anos 1940 e, depois, completamente esquecida pelo público. Eu só consegui encontrar seis gravações em 78 rpm da sua voz-canto (metade de toda a discografia de Vassourinha). Eu adoraria fazer um filme sobre ela, mas já se passaram 22 anos e eu ainda não o fiz…uma companheira de Vassourinha, em moda e estilo musical, a voz dela permaneceu, de fato, perdida para um vazio mais profundo.

1. Bernardo Vorobow (1946–2009), além de ter sido parceiro de Adriano até sua morte, em 2009, atuou como diretor e programador da Sociedade Amigos da Cinemateca (1970–75); coordenador e programador de cinema no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (1972–76); fundador, diretor e programador do Departamento de Cinema do Museu da Imagem e do Som (MIS, São Paulo, 1975–85); bem como fundador, diretor e programador do Departamento de Difusão e Programação da Cinemateca Brasileira (1982–99), atuando depois como programador até 2009.

2. Miécio Caffé seria o tema do filme de Adriano de 2003, A Caffé com Miécio.

Não deve surpreender que, no Brasil, assim como na maioria dos países historicamente chamados de “subdesenvolvidos”, a questão da memória cultural e do acesso à história, tal como ditados pelo arquivo, seja muito mais precária do que para quem aborda o tema a partir da relativa riqueza dos Estados Unidos ou da Europa. Há muito mais lacunas, apagamentos e interstícios para os quais pedaços da cultura brasileira podem cair com uma frequência muito maior, condição que é ao mesmo tempo de determinação política e de incapacidade física. Quanto a esse segundo fator, basta lembrar que a Atlântida Cinematográfica — o estúdio brasileiro responsável pela maioria dos filmes de chanchada — teve de queimar suas cópias em nitrato da era de ouro dos anos 40 e 50 depois que novas cópias de segurança foram feitas, por medo de que o estúdio inteiro pegasse fogo devido à combinação de película de nitrato e calor tropical. Portanto, para um arquivista brasileiro — ou seu equivalente do lado da produção, o cineasta de found footage — a tarefa de sequer dar os primeiros passos rumo à reunião de documentos para o seu trabalho é árdua e certamente será marcada por muitas frustrações, a menos que o tema em questão tenha um espólio excepcionalmente bem cuidado.

Assim, trabalhadores culturais brasileiros encontram seu trabalho determinado sob o signo da fragmentação, e vemos que o trabalho mais instigante é aquele que ostenta essa marca como motivo de orgulho e usa sua forma para refletir suas inconsistências materiais. Carlos Adriano trabalha com os arquivos cinematográficos do Brasil há mais de vinte anos, criando filmes que ao mesmo tempo preservam e projetam as lacunas e outras formas de falta que ele encontra quando se depara com seções até então não documentadas do passado do Brasil.

Cinelimite: Você pode descrever como encontrou originalmente a figura de Vassourinha? Como cineasta de found footage, você estava buscando ativamente um novo tema para explorar ou Vassourinha entrou na sua vida de uma forma mais inesperada?

Carlos Adriano: Pode-se dizer que, até o meu longa documental Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), aqueles dos meus filmes que lidam com found footage ou material de arquivo compartilham uma marca comum e essencial: todos são sobre temas desconhecidos, esquecidos ou perdidos da cultura brasileira (e seus materiais remanescentes). Por exemplo: Remainiscences (1994-1997) é sobre a suposta primeira filmagem do Brasil (registrada em 1897); Militancy (2001-2002) é sobre a lanterna mágica do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) é sobre o único filme feito pelo escritor Monteiro Lobato (assim como a única gravação de áudio de sua voz); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) é sobre os filmes inacabados do poeta Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) é sobre um filme de mutoscópio (1901) que apresenta o inventor e aviador brasileiro Santos Dumont. Então Vassourinha é um tema coerente, de uma perspectiva “retrospectiva”. Pessoalmente, eu gostava muito dele como um cantor original, alguém que faz parte de uma tradição “discreta”, que inclui Orlando Silva (na sua primeira fase), Mário Reis, Roberto Silva e João Gilberto. Essa tradição comumente apresenta um tipo de canto próximo da palavra falada, um “canto falado” ("spoken song"). Eu tinha o disco de Vassourinha muito antes da ideia de fazer o filme. De certa forma, o filme é uma espécie de tributo de fã. Além disso, a tragédia da vida de Vassourinha — morrer aos 19 anos de uma doença rara—é uma questão relacionada a outro eixo do meu trabalho cinematográfico (mortalidade, morte e vida). Também me interessava a extrema raridade do tema — um artista sobre o qual restou muito pouca informação e documentação. Vassourinha entrou na minha vida tão inesperadamente quanto todas as boas fortunas, por um acaso amoroso.

CL: Ao saber mais sobre Vassourinha e decidir fazer um filme sobre ele, como você iniciou o processo de reunir o imenso número de fotografias, sons, recortes de jornal, partituras e até registros financeiros que podem ser encontrados em A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Esses registros foram apresentados a você dentro de um único arquivo ou você passou por um longo processo de pesquisa em inúmeros lugares para rastrear esse material? Conte para nós como foi esse processo de coleta.

CA: O grande ponto de partida está encapsulado no loop que eu montei a partir de duas palavras da canção da Emília no início do filme: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). Eu comecei com quase nada, apenas alguns trechos e pistas. Depois de uma investigação extensa (e intensa) — em algum lugar entre a arqueologia e o trabalho de detetive — eu e Bernardo Vorobow (coprodutor e meu companheiro de vida de longa data)1 conduzimos pesquisa em toda fonte possível, até conseguirmos dois álbuns pessoais de recortes de jornal reunidos pelo próprio Vassourinha. Um deles me foi dado generosamente por Alberto Helena Junior, um grande fã e importante estudioso de Vassourinha; o outro álbum eu obtive do que restou da família do cantor: um irmão adotivo. Todos os seis discos de 78 rpm gravados por Vassourinha que foram usados no filme para filmagem e gravação (todo o som do filme veio desses discos) pertencem à coleção privada de Miécio Caffé.2 A coleção de Miécio Caffé estava, naquele momento, depositada no Museu da Imagem e do Som (São Paulo). Tive a sorte de conhecer pessoalmente Raul Duarte, o produtor/diretor de rádio que contratou Vassourinha para cantar na Rádio Record, e de conversar com um médico que tratou Vassourinha durante sua última internação. O próprio caminho do processo de pesquisa ditou a estrutura do filme: uma enorme quantidade de informação sobre alguém sobre quem as pessoas não sabiam quase nada. Fragmentos, espectros, restos — a matéria de que a vida é feita. O processo de coleta é, de certa forma, metaforizado na sequência final no cemitério: a busca pelo túmulo dele foi como a busca pelas informações sobre sua vida-obra.

CL: Você acha que o intercâmbio cultural entre dois ou mais países poderia incitar o governo brasileiro a perceber o valor das suas próprias obras nacionais? Você acha que uma grande iniciativa no exterior, manifestada em grandes retrospectivas ou em prêmios mais prestigiosos sendo dados a filmes brasileiros, poderia ser o catalisador para que o governo no Brasil finalmente perceba que precisa financiar a Cinemateca Brasileira e que precisa finalmente apoiar a indústria do cinema e seus trabalhadores culturais de maneira respeitosa e solidária?

CA: Eu acho que esse sentimento de testemunhar um “renascimento” ou uma “redefinição” de um ícone esquecido é natural, já que um dos propósitos do filme é fazer Vassourinha viver de novo, “simplesmente” como ele é. Como o filme é um gesto de amor (um labor de vida, um labor de amor), esse sentimento vem da tela e vai em direção ao rosto do espectador ouvinte. Talvez não seja tão preciso dizer que Vassourinha é desconhecido, porque no tempo dele ele era muito famoso. Ele caiu no esquecimento depois, após sua morte, no pós. Em português, a palavra “olvido” (esquecimento) é próxima de “ouvido” (orelha), e essa é uma senha que eu tentei trabalhar formalmente, como uma forma de operação estética: representar os limites entre o esquecimento e o resgate desse esquecimento por meio do ato de ouvir a voz desse artista. Mas a voz dele caiu num vazio, então eu senti que a minha “missão” (em termos do meu respeito a esse ser humano e à sua arte) era prestar o mais alto tributo: criar um verdadeiro diálogo. Eu tive a sorte de conseguir reunir aquela enorme quantidade de documentação histórica sobre alguém sobre quem “ninguém sabia nada”. O filme trabalha em torno dos limites da legibilidade, a fronteira entre ler e entender. E foi exatamente essa contradição — o fato de existirem muitos documentos sobre uma figura elusiva — que costurou e fortaleceu a força do filme. O fato de que “esses documentos nem aparecem na tela por tempo suficiente para que o espectador consiga lê-los completamente” foi uma escolha operacional que eu fiz para “traduzir” o signo e o mito de Vassourinha. O melhor testemunho que eu poderia fornecer (além do melhor e mais sincero tributo à arte de Vassourinha) era “deixar esses materiais históricos falarem por si” — mas articulados por ferramentas próprias do meio cinematográfico, no que diz respeito ao seu poder de construir (e desconstruir) associações por meio da musa suprema do cinema, a montagem (“edição” seria uma palavra que não faz justiça ao trabalho em si). Minha tarefa humilde foi de natureza [Walter] benjaminiana: reunir esse saco de trapos e sugerir uma constelação coerente.

CL: Dos cinco filmes que você fez e que lidam com histórias culturais esquecidas do Brasil, este é o único que trata exclusivamente de um músico. Como o trabalho de garimpar os arquivos de um sambista diferiu daquele dos seus filmes que se concentram na história do cinema? Ou há uma metodologia recorrente na sua abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência?

CA: Eu não tenho muita certeza se há alguma diferença — do meu ponto de vista da operação cinematográfica — entre trabalhar sobre o arquivo de um sambista e trabalhar sobre o arquivo de um artista de outro meio (literatura, fotografia, caricatura). Porque o cinema é “meu”, é o meu modo operacional de trabalho; quando eu trabalho sobre a obra de um artista, eu tento entender e traduzir seus elementos essenciais para o meu vocabulário (a minha linguagem pessoal do cinema), para estar em sintonia com o seu clima artístico. Como você pode ler em um dos recortes de jornal, Vassourinha interpretou “De Babado”, uma canção escrita por Noel Rosa e João Mina, e gravada por Noel Rosa e Marília Batista em 1936. Esse disco aparece em uma sequência de Santoscope = Dumontage — e, claro, eu tenho essa conexão em mente. O primeiro álbum (33 rpm) lançado com todos os seis sambas gravados por Vassourinha, no fim dos anos 60, teve sua capa desenhada por Miécio Caffé, um famoso (mas que também caiu no esquecimento) caricaturista e colecionador de música, e toneladas de cantores brasileiros iam folhear a coleção privada de discos antigos de 78 rpm de Miécio para pesquisar e estudar. Para citar apenas dois: Chico Buarque e João Gilberto — as lendárias releituras de sambas brasileiros feitas por João Gilberto não seriam possíveis sem a coleção de Miécio Caffé. Em 2003, eu fiz o filme e, para esse filme, Caetano Veloso fez uma nova gravação de um samba menos conhecido, “A Voz do Povo”, originalmente composto por Malfitano e Frasão e gravado por Orlando Silva em 1941. Veloso chamou o samba de um manifesto para o meu trabalho no cinema. Sim, há uma metodologia recorrente na minha abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência, para citar o título do meu filme sobre os filmes inacabados de Pignatari — note que eu implico um jogo entre « existência » e « resistência », que configuram um par-chave em jogo.

Precisamos tentar oferecer acesso ao cinema brasileiro da melhor forma possível, porque as pessoas precisam saber que esses tesouros existem. Se elas não tiverem esse acesso básico, os filmes serão ignorados e perderão seu valor para o público. Precisamos impedir isso e dar uma virada completa de 180 graus na política no que diz respeito ao acesso.

CL: A história dos arquivos culturais no Brasil é repleta de histórias de perda, tragédia e negligência. No entanto, também é possível ver essa história como um relato ocasional de triunfo, já que a vontade de alguns indivíduos conseguiu preservar a memória cultural brasileira até os dias de hoje. Seus esforços nos permitiram extrair novas ideias de obras históricas da arte brasileira no nosso momento presente.

Como cineasta de found footage, muitas das suas obras lidam com as memórias culturais esquecidas do passado do Brasil. Você pode falar sobre como a história e os esforços passados de preservação cultural no Brasil impactaram o seu trabalho? Por que, na sua visão, figuras tão importantes como Vassourinha foram (antes) esquecidas?

CA: Há uma trajetória de pesquisa acadêmica na minha vida. Eu me formei na escola de cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP – Universidade de São Paulo (ECA-USP). Tenho meu mestrado e meu doutorado (2008) na mesma USP, ambos orientados pelo Prof. Ismail Xavier. Além disso, fiz dois pós-doutorados, um em Artes (na Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP, 2014), supervisionado pelo Prof. Arlindo Machado, e um em Cinema (na USP, 2017), supervisionado pelo Prof. Cristian Borges. Para o meu doutorado e o meu pós-doutorado na PUC-SP, tive bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e, para o meu pós-doutorado na USP, tive uma bolsa da CAPES. Essa longa e entediante citação de currículo serve apenas para mostrar o quão seriamente eu levo a pesquisa acadêmica e como, ao longo da minha vida, esferas de estudo e de arquivamento informaram a minha trajetória. Eu também trabalhei na Cinemateca Brasileira de 1986 a 1999.

Talvez eu possa responder à sua primeira pergunta com um exemplo de um estudo de caso. Minha pesquisa de doutorado (que abriu caminho para a produção de dois filmes sobre Santos Dumont) foi baseada em um objeto desconhecido da Coleção Santos Dumont do Museu Paulista da USP (também conhecido como Museu do Ipiranga). Era um objeto não identificado em termos de ano e origem de produção, sua natureza técnica, e até mesmo o nome que lhe foi atribuído estava errado e era enganoso — mas ele estava lá, no arquivo. Depois de seguir um caminho de pesquisa semelhante ao que foi perseguido em Vassourinha, eu identifiquei que se tratava de um hub de mutoscópio, produzido em 1901 pelo ramo britânico da American Mutoscope & Biograph Company, provavelmente filmado por William K.L. Dickson, e, em seguida, rastreei sua história arquivística. A última frase da sua pergunta exigiria uma explicação grande demais, então eu me arriscaria a dizer, de forma breve, que eu acho que o Brasil historicamente tem uma tradição consistente de tratar mal e pior seus melhores filhos e filhas, principalmente no campo da cultura.

CL: CL: Em Vassourinha, há momentos em que a trilha sonora começa e para, como se um disco de 78 rpm estivesse pulando. Isso muitas vezes é acompanhado, na faixa de imagem, por um efeito de flicker. Sabendo das suas afinidades com outros cineastas de found footage, como Ken Jacobs, como você vê esse efeito de flicker operando em relação ao seu uso em outros contextos globais, e há algo no arquivo brasileiro, e na vida de Vassourinha, que tenha te levado a usar esse efeito?

CA: Eu só poderia falar do meu uso pessoal do flicker (que, claro, está enraizado numa tradição do cinema de vanguarda), um recurso que eu uso bastante nos meus filmes. Em Santoscope = Dumontage, o flicker é um dispositivo do cinema estrutural extraído do próprio aparelho de mutoscópio que hospedava o filme original de 1901 sobre Santos Dumont com o qual eu trabalhei. No caso de Vassourinha, o flicker tem um papel um pouco análogo ao que eu usei em Remainiscences: no sentido de lacunas, lapsos, elos perdidos, abismos perdidos, o vazio. Mas em Vassourinha há um excedente: o flicker como uma instância de consciência, como um momento em que o obturador rapidamente obliterra a imagem para fazê-la ressoar no tempo; então o flicker é um elemento constituinte do tecido da história de Vassourinha (que foi rasgado em pedaços), mas também é um dispositivo para entender essa história. Há até uma rima formal com a condição da sua negritude, no sentido do que é ocultado ou apagado. É como se o flicker fosse um correspondente à “imagem dialética” de Walter Benjamin, aquele momento breve e elusivo em que as associações faiscam para além do tempo histórico. Eu gosto muito da noção benjaminiana de história, tanto como lixo e ruínas quanto como o ponto de vista dos perdedores. Naturalmente, em um país periférico como o Brasil — que sempre abusou de suas instituições encarregadas da preservação de sua memória cultural, e que tem um longo e sombrio passado de apagar e reprimir suas figuras (enraizado na sua história com a escravidão) — o flicker alcança um poder alegórico profundo (e eu uso esse termo tal como Ismail Xavier o definiu tão bem em seu livro seminal Alegorias do Subdesenvolvimento) de um modo, em certa medida, muito além das maravilhas formais do flicker de Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad e outros.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, além de ser uma obra de arte investida no gesto de ressurreição, também serve, mesmo não projetado como um rolo de celuloide, como um verdadeiro repositório de imagens e documentação relacionadas a Vassourinha — um arquivo em si. O que você pensa disso e como você sente que o material histórico se transforma quando passa de um meio para outro?

CA: Definitivamente, o filme Vassourinha é uma peça de arte analógica — ele foi pensado e feito como um filme em 35mm. E eu prezo sobretudo o conceito de “filme infinito”, de Hollis Frampton, em seu ensaio de meta-história, que eu “traduzi” na minha tese de doutorado para o domínio do found footage. Minha tese de doutorado ainda não foi publicada como livro, mas você pode consultá-la no banco de teses da Universidade de São Paulo, e eu publiquei um ensaio baseado nela na revista Anais do Museu Paulista. Eu peguei todos os documentos de Vassourinha que consegui encontrar e os reuni como “quadros” de um filme infinito — todos os materiais são matéria de poesia cinematográfica. Eu lamento que você não consiga exibir o filme no seu formato original de 35mm. Eu fiz algumas viradas disruptivas com o celuloide que só se realizam plenamente em forma fílmica. A “ressurreição” que você menciona é realizada no (e por meio do) próprio celuloide. Além do flicker, eu usei véus, aqueles quadros misteriosos que não são devidamente expostos no obturador da câmera. Com exceção da sequência final, filmada em locação no cenário do cemitério onde Vassourinha está enterrado, o filme foi filmado com uma máquina de animação Oxberry. Um dos maiores elogios, do qual eu mais me orgulho, é sobre o meu estilo de montagem: mesmo quando monto numa ilha digital, o meu trabalho é tributário da moviola. No sentido de passar do meio da história para o meio do cinema, eu diria que a transformação ocorre no campo da poesia. Eu tomo a palavra aqui no sentido de poética, o método de estrutura, uma questão de forma, uma maneira de moldar materiais e pensamentos. E eu diria que historiadores como Walter Benjamin, Aby Warburg e Hayden White contribuíram para libertar o documento, para que ele possa ser reapropriado pelos artistas.

CL: Historiadores importantes do cinema brasileiro, como Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959) e Paulo Emílio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, escrito nos anos 60, mas publicado pela primeira vez em 1986), foram obrigados a buscar fragmentos do passado e a desenterrar notas de rodapé da história para pintar um quadro de eras cinematográficas passadas para as gerações de então e para as futuras. Em que medida uma obra como Vassourinha segue essa trajetória de pesquisa histórica e, na sua visão, de que modo ela se desvia dela?

CA: Trabalhar com fragmentos — com os restos, com os pequenos detalhes no rodapé da página — é uma atitude professada pela École dos Annales e por historiadores como Benjamin e Warburg. Os historiadores de cinema que você mencionou trabalharam a partir de um ponto de vista periférico, em que questões de subdesenvolvimento eram muito presentes no Brasil, e foram informados pela experiência tardia da modernidade no Brasil. Eles certamente conjuraram um corpo de trabalho fundamental e forneceram referências para qualquer pessoa interessada na aventura de investigar o passado do cinema brasileiro. Eu acho que Vassourinha faz parte dessa tradição que você mencionou no sentido de uma pesquisa profunda sobre raízes profundamente nacionais, como se a questão da identidade nacional fosse uma questão crucial e definidora, e uma espécie de adesão a temas populares do modo defendido pelo Modernismo brasileiro (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). Os elementos da cultura popular foram tomados como uma senha para uma revelação do Brasil aos próprios brasileiros. No que diz respeito a Vicente de Paula Araújo, o meu método de pesquisa é, em certa medida, parecido com o dele, compartilhando o mergulho profundo nas fontes primárias de materiais de referência. No que diz respeito a Paulo Emílio, a minha mente opera dentro do mesmo quadro que a dele: uma espécie de investigação sociológica sobre o fato humano. Acho que Vassourinha se desvia dessa tradição na medida em que assume radicalmente uma noção de meta-história poética, no sentido de que não é obrigado a esclarecer nem concluir nada no que diz respeito a um projeto nacional definido em termos de teleologia e de uma grande síntese. Eu valorizo as lacunas, os lapsos, a inconclusividade misteriosa; a pesquisa séria não serve a nenhum tipo de “redenção” do nosso orgulho — as obras e os artistas compõem uma constelação em movimento (em movimento; emocional).

CL: No seu ensaio "Reapropriação de arquivo e imantação de afeto", você traz, a partir do conceito de “Cinema Infinito” de Hollis Frampton, o ideal de um “Arquivo Infinito”. O conceito decorre da relação do cinema com a era digital e da capacidade interminável de “reciclar digitalmente os começos do cinema”. Em outro momento, referindo-se à noção de Leitfossil em Aby Warburg e Georges Didi-Huberman, você afirma que “na minha câmara de maravilhas, não existe arquivo morto; apenas arquivos vivos, adormecidos em suas formas”.

Tanto a noção de um “Arquivo Infinito” quanto a negação de um arquivo morto parecem desconsiderar, à primeira vista, o estado aparentemente finito do arquivamento que se impôs às instituições brasileiras por décadas. No entanto, num segundo olhar, pode-se perceber que você não está negando a realidade de que existem fins no arquivo, mas está expandindo as maneiras pelas quais esses fins podem ser usados na era digital — as imagens podem ser reproduzidas infinitamente numa variedade de formas, formatos e expressões.

Você pode comentar essa interpretação das suas ideias? E como a noção de “Arquivo Infinito” pode ser vista sob a particular guisa da situação arquivística brasileira?

CA: Na minha tese de doutorado e em artigos posteriores publicados em revistas acadêmicas, eu transferi (e transformei) a noção de Frampton para o domínio do found footage. Eu acho que isso é uma contribuição original aos estudos de cinema, essa montagem conceitual que eu faço entre Benjamin, Frampton e Warburg (entre muitas outras noções teóricas, culturais e históricas). Avançar para o contexto geográfico e sociopolítico-econômico de um país como o Brasil exigiria um esforço e uma extensão de argumento que eu não sou capaz de realizar no breve contexto desta entrevista. Evidentemente, à primeira vista, as próprias dificuldades econômicas trazem outros parâmetros para a questão: como pensar a sobrevivência das imagens (como depositárias da memória nacional) se a própria sobrevivência do arquivo (como instituição desse dever) é atormentada por riscos à sua contingência material? Por outro lado, a condição brasileira tem características únicas e originais que a distinguem de outros países: nossa formação colonial, nossa situação periférica, nossa modernidade conservadora, nossa desigualdade social escandalosa e a força artística e intelectual de várias gerações que responderam a esses desafios. Precisamos lembrar que o celuloide é feito também de matéria orgânica e, portanto, sujeito à decomposição, assim como nós. Precisamos ter em mente que o que sobreviveu até o nosso tempo dos poemas de Safo são apenas fragmentos de seus versos, e a beleza da sua poesia é em parte a beleza dessa qualidade de escassez. Paradoxalmente, eu imaginaria que a própria noção de “arquivo infinito”, quando aplicada ao Brasil, implicaria um cinema finito, a própria finitude do cinema, sua fragilidade material e intrínseca, sua condição “humana”.

CL: Como você bem sabe, o mais importante arquivo de filmes do Brasil, a Cinemateca Brasileira, está agora atravessando uma nova crise em que todo o seu acervo corre risco de ser destruído. O momento atual evoca na nossa mente um episódio à la Além da Imaginação, em que um cineasta de found footage acorda e descobre que já não existe mais found footage para ser encontrado. Embora o seu trabalho certamente tenha apresentado found footage que foi obtido para além dos muros de uma instituição arquivística, não se pode negar que essas instituições são repositórios de obras culturais que ainda permanecem escondidas do olhar público. Em primeiro lugar, você pode comentar a negligência histórica do governo brasileiro em investir adequadamente na preservação da memória cultural brasileira? Por fim, você pode comentar o que esse cenário potencialmente distópico evoca para você em relação ao seu corpo de trabalho, aos aspirantes a cineastas de found footage e ao futuro do found footage no Brasil?

CA: Estamos vivendo atualmente tempos sombrios e terríveis no Brasil, e muitas instituições públicas relacionadas à cultura (e à educação) estão sob ameaça, em diferentes níveis, graus e circunstâncias, como a Casa de Rui Barbosa e a Cinemateca Brasileira. Esta última é o nosso arquivo de filmes mais reconhecido, mas existem outros, menores, espalhados por cidades do país, dois dos quais são particularmente merecedores da nossa atenção e respeito, por possuírem grandes acervos e realizarem um trabalho de pesquisa notável e bom: a Cinemateca do MAM (Museu de Arte Moderna) e o Arquivo Nacional (ambos no Rio de Janeiro). No caso da Cinemateca Brasileira, assim como desses outros arquivos, há um problema que vem acontecendo há anos e é uma questão complexa — o que está acontecendo agora é de grande urgência, porque afeta questões básicas de manutenção do próprio arquivo (além dos salários da equipe técnica, a crise atual afeta serviços de fornecimento de energia elétrica, o que ameaça a refrigeração e a segurança). A tragédia do incêndio no Museu Nacional (Rio de Janeiro) em 2018 serve como metáfora para a falta de compromisso público com a memória e o patrimônio nacionais: a negligência transforma a memória em cinzas. O episódio patético do governo brasileiro (literalmente) tomar as chaves da Cinemateca, junto ao incêndio do Museu Nacional, é por si só uma imagem simbólica poderosa. Claro, como cineasta de found footage, eu tenho um engajamento com o arquivamento de filmes e acho que não foi mera coincidência eu ter sido convidado a fazer o filme oficial da celebração do centenário de Paulo Emílio Salles Gomes (Festejo Muito Pessoal, 2016). Pessoalmente, eu sempre trabalhei com estilhaços, sobras, restos, fragmentos incompletos; materiais perdidos, negligenciados e esquecidos. Portanto, eu estou acostumado a trabalhar na escassez e na pobreza. Eu sempre tenho em mente o adágio de que “sempre pode ser pior”, o que talvez não alivie muitas ansiedades sobre o futuro. Os versos “carpe diem” de Horácio nos ajudam a encarar nossas fraquezas e incertezas, que agora são muito maiores com a crise da COVID-19.

CL: Parte do espanto ao assistir a Vassourinha é o fato de ser tão raro ver obras desveladas do arquivo que destaquem as vidas de artistas negros importantes do passado. De certa forma, o filme projeta o papel que os arquivos deveriam estar cumprindo na sociedade contemporânea — isto é, para além de apenas preservar materiais, recuperar e apresentar existências e narrativas até então reprimidas. Na sua visão, por que levou quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha no seu filme? E, como você mesmo já trabalhou como arquivista no passado, o que você acha que futuros arquivistas podem aprender com o filme? O que, de fato, é mais importante salvar para as gerações futuras?

CA: Para mim é muito difícil dizer “por que [levou] quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha”… Seria tentador, e seria uma falácia também, dizer que Vassourinha estava ansioso para me encontrar, que sua arte e seu ofício estavam esperando pelo meu gesto… Eu não sei por que demorou tanto tempo… Pode-se pensar em razões sociais, já que ele era um garoto negro de uma família pobre e não teve tempo suficiente para construir uma fama que perdurasse. Por outro lado, temos muitos casos de grandes artistas em diferentes áreas artísticas que foram esquecidos. [O cinema de found footage é] uma maneira muito pessoal (beirando o loucamente idiossincrática) de lidar com artefatos históricos, uma forma criativa de trabalhar com a história, não apenas no sentido de salvar os restos, mas de trazê-los de volta à vida e mantê-los vivos. A história servindo para fazer vibrar a história de Vassourinha. Eu me considero um cineasta muito materialista, no sentido de que eu valorizo sobretudo os materiais raros e crus de que a história é feita. Acho que se pode sentir, de um modo muito palpável, uma materialidade sensual que meus filmes colocam na tela. Além dos próprios materiais (os “restos”), acho que também é muito importante preservar o sabor do tempo — o zeitgeist — em que se vive. E isso é uma ordem de alquimia: lembrar a obra de Duchamp “Ar de Paris”. De fato, como cineasta comunista, o que seria realmente “mais importante salvar para as gerações futuras” é a própria vida — as vidas de tantos artistas (e pensadores) que nos inspiram e nos fazem florescer. Mas isso está muito longe da utopia; tentar derrotar a morte… Como colocou André Bazin, o cinema carrega um complexo de múmia.

CL: Por fim, desde o lançamento de A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, houve um novo ressurgimento de interesse na vida de Vassourinha. Vários músicos famosos regravaram suas canções e há rumores de que um longa-metragem sobre sua vida está em desenvolvimento. Você vê algo disso como parte do legado e do impacto que o seu filme teve? Relacionado a isso, qual você acha que é a probabilidade de existirem centenas de outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos: talentos inimitáveis, históricos e, na maioria das vezes, negros e marginalizados, cujos legados nunca chegaram ao povo do Brasil para além do seu tempo?

CA: Como o homem mais humilde e mais modesto que eu sou, devo reconhecer que o meu filme definitivamente e certamente teve um impacto de “trazer” Vassourinha “de volta à vida”. Eu odiaria parecer pretensioso, mas é um fato: eu contribuí para tornar Vassourinha mais conhecido e mais apreciado. O meu filme foi capa dos dois principais jornais de São Paulo (na primeira página dos cadernos culturais), que são os principais do Brasil. Eu não me compararia ao status que alguns dão a Ezra Pound, como sendo o re-inventor do provençal para os tempos modernos, um poeta que abraça um trabalho de tradução e crítica; mas é quase isso…de certa forma, eu “inventeI” Vassourinha para os tempos contemporâneos, e eu tenho orgulho de que isso tenha sido feito dentro de um modo de cinema de vanguarda. Depois que o meu filme foi lançado, Caetano Veloso (que já conhecia os meus filmes naquela época) me procurou sobre um projeto proposto por Paula Lavigne (sua esposa e empresária) de relançar os discos originais de Vassourinha junto com um conjunto de Caetano e Chico Buarque interpretando novas versões do repertório de Vassourinha. O meu filme seria uma peça-chave nesse projeto, em shows e em um possível lançamento de DVD junto com o CD; infelizmente isso não foi adiante por algum motivo, talvez porque uma gravadora tenha decidido, em vez disso, lançar apressadamente as canções de Vassourinha. Com certeza existem “outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos”: durante a minha pesquisa para fazer o filme Vassourinha, eu mesmo encontrei uma espécie de Vassourinha feminino quase no mesmo estilo—chapéu de palha, samba sincopado—não tão famosa no seu tempo quanto Vassourinha, atuando de meados dos anos 1930 a meados dos anos 1940 e, depois, completamente esquecida pelo público. Eu só consegui encontrar seis gravações em 78 rpm da sua voz-canto (metade de toda a discografia de Vassourinha). Eu adoraria fazer um filme sobre ela, mas já se passaram 22 anos e eu ainda não o fiz…uma companheira de Vassourinha, em moda e estilo musical, a voz dela permaneceu, de fato, perdida para um vazio mais profundo.

1. Bernardo Vorobow (1946–2009), além de ter sido parceiro de Adriano até sua morte, em 2009, atuou como diretor e programador da Sociedade Amigos da Cinemateca (1970–75); coordenador e programador de cinema no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (1972–76); fundador, diretor e programador do Departamento de Cinema do Museu da Imagem e do Som (MIS, São Paulo, 1975–85); bem como fundador, diretor e programador do Departamento de Difusão e Programação da Cinemateca Brasileira (1982–99), atuando depois como programador até 2009.

2. Miécio Caffé seria o tema do filme de Adriano de 2003, A Caffé com Miécio.

It should come as no surprise that in Brazil, as in most historically so-called “underdeveloped” countries, the question of cultural memory and access to history as dictated by the archive is far more precarious than one approaching the subject from the relative wealth of the United States or Europe. There are far more gaps, erasures, and interstices for pieces of Brazilian culture to fall into with a much higher frequency, which is a condition both of political determination and physical incapability. On this second factor, one need only be pointed to the fact that Atlântida Cinematográfica — the Brazilian film studio responsible for the majority of chanchada films—had to burn its nitrate prints from the golden era of the 40s and 50s after new safety film copies were made, for fear of the entire studio burning down due to the combination of nitrate film and tropical heat. Therefore, for a Brazilian archivist — or their counterpart on the side of production, the found footage filmmaker —the task of even taking the first steps toward the gathering of documents for their work is an arduous one sure to be met with many frustrations, barring a situation where one’s subject has an exceptionally well-kept estate.

Thus Brazilian cultural workers find their labor to be determined under the sign of fragmentation, and we find the most compelling work to be that which wears this mark as one of pride and uses its form to reflect its material inconsistencies. Carlos Adriano has worked with Brazil’s cinematic archives for over twenty years, creating films that both preserve and project the gaps and other forms of lack that he encounters when faced with the heretofore undocumented sections of Brazil’s past.

Cinelimite: Can you describe how you originally came upon the figure of Vassourinha? As a found-footage filmmaker, were you actively searching for a new topic to explore, or did Vassourinha come into your life in a more unexpected way?

Carlos Adriano: One can say that, until my feature documentary Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), those of my films which deal with found footage or archive material share a common and essential mark: they are all about unknown, forgotten or lost subjects of Brazilian culture (and their remaining materials). For example: Remainiscences (1994-1997) is about the supposed first film footage of Brazil (registered in 1897); Militancy (2001-2002) is about the magic lantern by photographer Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) is about the only film made by writer Monteiro Lobato (as well as the only audio recording of his voice); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) is about the unfinished films by poet Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) is about a mutoscope film (1901) featuring Brazilian inventor and aviator Santos Dumont. So Vassourinha is a coherent subject, from a “retrospective” perspective. Personally, I was very fond of him as an original singer, one who takes part in a “low-key” tradition which includes Orlando Silva (in his first phase), Mário Reis, Roberto Silva and João Gilberto. This tradition would commonly feature a kind of singing close to the spoken words, a “canto falado” ("spoken song"). I had Vassourinha’s record long before the idea of making the film. In a way, the film is a sort of fan’s tribute. Besides, the tragedy of Vassourinha’s life—that of dying at the young age of 19 from a rare disease—is a matter relating to another axis of my film work (mortality, death, and life). Also, the extreme rarity of the subject—an artist about whom very little information and documentation was left—was an interest as well. Vassourinha came into my life as unexpectedly as all good fortunes, by a loving chance.

CL: Upon learning more about Vassourinha, and deciding to make a film about him, how did you begin the process of putting together the immense number of photographs, sounds, newspaper clippings, music sheets and even financial records that can be found within A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Were these records presented to you within a single archive or did you undergo a long research process throughout numerous places to track this material down? Take us through what this collection process was like.

CA: The great starting point is encapsulated in the loop I edited from the two words of the Emília song at the beginning of the film: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). I started with almost nothing, only a few clips and clues. After an extensive (and intense) inquiry—somewhere between archaeology and detective work—I and Bernardo Vorobow (co-producer and my life long companion)1 conducted research across every possible source, until we got two personal albums of news clippings gathered by Vassourinha himself. One of them was given to me generously by Alberto Helena Junior, a big fan and high scholar of Vassourinha; the other album I got from what remained of the singer’s family: a foster brother. All six 78 rpm records recorded by Vassourinha which were used in the film for shooting and recording (all sound in the film came from those discs) belong to the Miécio Caffé private collection.2 The Miécio Caffé collection was at that time deposited at Museu da Imagem e do Som (São Paulo). I was fortunate to meet Raul Duarte in person, the radio producer/director who hired Vassourinha to sing for Radio Record, and to talk to a doctor who treated Vassourinha during his last hospitalization. The very path of the research process dictated the film’s structure: a huge amount of information about someone whom people knew almost nothing about. Shards, specters, remains – the matter life is composed of. The collection process is, in a way, metaphorized in the end sequence at the cemetery: the search for his grave was like the search for his life-work information.

CL: Do you think that cultural exchange between two or more countries could incite the Brazilian government to realize the value of their own national works? Do you think a major initiative abroad, manifested in large retrospectives or more prestigious awards being given to Brazilian films, that these could be the catalyst to make the government in Brazil finally realize that they need to fund the Cinemateca Brasileira and that they need to finally support the film industry and its cultural workers in a respectful and supportive way?

CA: I think that this sense of witnessing a “re-birth” or a “re-defining” of a forgotten icon is natural, as one of the film’s purposes is to make Vassourinha alive again, “simply” as it is. As the film is a gesture of love (a labor of life, a labor of love), this feeling comes forward from the screen and toward the face of the viewer/listener. Maybe it is not so accurate to say that Vassourinha is unknown, because during his time he was very famous. He fell into oblivion afterwards, after his death, aftermath. In Portuguese, the word "olvido" (oblivion) is akin to "ouvido" (ear), and this is a password I tried to work formally, as a way of aesthetic operation: representing the limits between forgetfulness and the rescuing of this forgetfulness through the act of hearing this artist's voice. But his voice fell into a void; so I felt that my “mission” (in terms of my respect to this human being and his art) was to pay the highest tribute: to create a true dialogue. I was fortunate enough to be able to gather that huge amount of historical documentation about somebody who “nobody knew anything about”. The film works around the limits of legibility, the border between reading and understanding. And it was exactly this contradiction — the fact that there existed plenty of documents about an elusive figure — which sutured together and fortified strength of the film. The fact that “these documents do not even appear on the screen for a long enough period of time for the viewer to fully read them” was an operational choice I made in order to “translate” the sign and the myth of Vassourinha. The best testimony I would be able to provide (besides the best and most sincere tribute to Vassourinha’s art) was to “let these historical materials do the talking themselves” – but articulated by proper tools of the cinematic medium, as far as its power to construct (and deconstruct) associations by the means of cinema’s supreme muse of montage (“editing” would be a word that does not give justice to the work itself). My humble task was of a [Walter] Benjaminian nature: to gather this bag of rags and suggest a coherent constellation.

CL: Of the five films you have made which deal with forgotten cultural histories of Brazil, this is the only one that deals exclusively with a musician. How did the work of sifting through the archives of a sambista differ from those of your films which focus on cinematic history? Or is there a reoccurring methodology in your approach towards bringing archival materials into re-existence?

CA: I am not quite sure if there is any difference – from my point of view of the filmmaking-operation – between working upon an archive of a sambista and working upon the archive an artist of a different medium (literature, photography, caricature). Because film is “mine”, my operational mode of work; when I work on an artist’s oeuvre, I try to understand and translate their bare essentials to my vocabulary (my personal film language), to be in tune to their artistic mood. As you can read in one of the news clips, Vassourinha performed “De Babado”, a song written by Noel Rosa and João Mina, and recorded by Noel Rosa e Marília Batista in 1936. This record appears in a sequence of Santoscope = Dumontage – and of course I bear in mind that connection. The first record album (33 rpm) released with all the six sambas recorded by Vassourinha in the late 60s had its cover designed by Miécio Caffé, a famous (but also fallen into oblivion) caricaturist and music collector and tons of Brazilians singers came to browse the private collection of old 78 rpm records of Miécio to research and study. To cite just two: Chico Buarque and João Gilberto — the legendary re-interpretations of Brazilian sambas by João Gilberto would not be possible without the collection of Miécio Caffé. In 2003, I made the film A Caffé with Miécio and for that film Caetano Veloso made a new recording of a lesser-known samba, “A Voz do Povo”, originally composed by Malfitano and Frasão and recorded by Orlando Silva in 1941. Veloso called the samba a manifesto for my cinema work. Yes, there is a reoccurring methodology in my approach towards bringing archival materials into re-existance, to quote the title of my film about Pignatari’s unfinished films – note that I imply a play between « existence » and « resistance », which configure a key pair into play.

We need to try to provide access to Brazilian cinema in the best way possible, because people need to know that these treasures exist. If they can’t have this basic access, the films will become ignored and lose their value to the public. We must prevent this and make a complete 180 degree turn in policy when it comes to access.

CL: The history of cultural archives in Brazil is filled with stories of loss, tragedy, and neglect. However, one could also view this story as an occasional tale of triumph, as the will of a few individuals succeeded in preserving Brazilian cultural memory up until this day. Their efforts have allowed us to glean new ideas from historical works of Brazilian art in our present moment.

As a found-footage filmmaker, many of your works deal with the forgotten cultural memories of Brazil’s past. Can you speak to how the history and past efforts of Brazilian cultural preservation has impacted your work? Why, in your mind, have such important figures such as Vassourinha been (previously) forgotten?

CA: There is a trajectory of academic research in my life. I graduated from film school of Escola de Comunicações e Artes da USP – University of São Paulo (ECA-USP). I have my master degree and my PhD (2008) at the same USP, both advised by Prof. Ismail Xavier. Besides this, I did two Post Doctorals, one in the Arts (at Pontifical Catholic University – PUC-SP, 2014) supervised by Prof. Arlindo Machado, and one in Film (at USP, 2017) supervised by Prof. Cristian Borges. For my PhD and my Post-Doctoral at PUC-SP I had fellowships from Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) and for my Post-Doctoral at USP I had a fellowship from CAPES. That long and boring CV quote is just meant to show how serious I take scholarly research and how, throughout my life, spheres of study and archiving informed my trajectory. I have also worked at the Cinemateca Brasileira from 1986 to 1999.  

Perhaps I could reply to your first question with an example from a case study. My PhD research (which made the way for the production of two films about Santos Dumont) was based on an unknown object of the Santos Dumont Collection of Museu Paulista da USP (aka Museu do Ipiranga). It was an unidentified object in terms of year and origin of production, its technical nature, and even its attributed name was wrong and misleading – but it was there, in the archive. After taking a research path alike the one pursued in Vassourinha’s, I identified that it was a mutoscope hub, produced in 1901 by the British branch of American Mutoscope & Biograph Company, probably shot by William K.L. Dickson, and subsequently tracked its archival history. The last sentence of your question requires too large of an explanation, so I would hazard a risk of saying in short that I think Brazil historically has a consistent tradition of treating badly and worst its best sons and daughters, mainly in the realm of culture.  

CL: In Vassourinha, there are moments in which the soundtrack starts and stops, as if a 78 rpm record is skipping. This is often accompanied on the image track by a flicker effect. Knowing your affinities to other found footage filmmakers such as Ken Jacobs, how do you see this flicker effect operating in relation to its use in other global contexts, and is there something about the Brazilian archive, and the life of Vassourinha, that drove you to use said effect

CA: I could only talk about my personal use of the flicker (which is, of course, rooted in a tradition of avant-garde film), a feature that I use a lot in my films. In Santoscope = Dumontage, the flicker is a structural-film device extracted from the mutoscope apparatus itself that hosted the original 1901 film about Santos Dumont which I worked on. In the case of Vassourinha, the flicker has a role a little bit analogous to the one I used in Remainiscences: in the sense of gaps, lapses, missing links, lost abysses, the void. But in Vassourinha there is a surplus: the flicker as an instance of consciousness, as a moment when the shutter quickly obliterates the image to make it resonate in time; so the flicker is a constituent element of the fabric tissue of Vassourinha's history (which has been torn to pieces), but it is also a device for understanding this history. There is even a formal rhyme with the condition of his Blackness, in the sense of what is concealed or erased. It is as if the flicker was a correspondent to Walter Benjamin's “dialectical image”, that brief and elusive moment when associations sparkle beyond historical time. I really like the Benjaminian notion of history, both as waste and ruins and as the viewpoint of the losers. Naturally, in a peripheral country like Brazil — which has always abused its institutions tasked with the preservation of its cultural memory, and which has a long and dark past of erasing and repressing its figures(rooted in its history with slavery) — the flicker reaches an profound allegorical power (and I use this term as Ismail Xavier so well defined it in his seminal book Allegories of Underdevelopment) in a way, far beyond the formal flicker wonders of Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad and others.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, in addition to being a work of art invested in the gesture of resurrection, also serves, even unprojected as a roll of celluloid, as a veritable repository of images and documentation relating to Vassourinha – an archive in itself. What do you make of this and how do you feel the historical material transforms when it passes from one medium to another?

CA: Definitely, Vassourinha film is an analog piece of art – it was thought and made as a 35mm film. And I treasure most the concept of “infinite film” by Hollis Frampton, in his meta-history essay, which I “translated” in my PhD thesis to the domain of found footage. My PhD piece has not been published as a book yet, but you can browse it at the University of São Paulo’s thesis database and I published an essay based on it in the journal Anais do Museu Paulista. I took all the documents of Vassourinha I could find and gathered them as “frames” of an infinity film – all materials are matter of film poetry. I regret that you are not able to screen the film in its original format of 35mm. I made some disruptive turns with the celluloid that are only fully accomplished in film form. The “resurrection” you mention is taken in (and made by means of) the celluloid itself. Besides the flickering, I used veils, those mysterious frames which are not properly exposed in the camera shutter. Except for the final sequence, shot on location in the set of the cemetery where Vassourinha is buried, the film was shot with an Oxberry animation machine. One of the highest praises of which I am most proud is about my style of editing: even when editing in a digital suite, my work is tributary to the moviola. In the sense of passing from the medium of history to the medium of film, I would say that the transformation occurs in the realm of poetry. I take the word here to mean poetics, the method of structure, a matter of form, a way of shaping materials and thoughts. And I would say that historians like Walter Benjamin, Aby Warburg and Hayden White have contributed to let the document free, to be reappropriated by the artists.

CL: Important Brazilian Cinema historians such as Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959), and Paulo Emilio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, written in the 60s, but first published in 1986) were forced to search for fragments of the past and to uncover footnotes of history in order to paint a picture of bygone cinematic eras for then-present and future generations. To what extent does a work such as Vassourinha follow within that trajectory of historical research, and how in your mind does it deviate from it?

CA: To work with fragments – with the remains, with the small details at the bottom of the page –  is an attitude professed by the École dos Annales and historians like Benjamin and Warburg. The film historians you mentioned worked from a peripheral point of view, where issues of underdevelopment were very present in Brazil, and they were informed by the delayed experience of modernity in Brazil. They definitely conjured up a key body of work and provided references for anybody else interested in the adventure of investigating the Brazilian film past. I think Vassourinha is part of this tradition you mentioned in the sense of a deep research on profoundly national roots, as if the issue of national identity was a crucial and defining issue, and a kind of adhesion to popular subjects in the way defended by Brazilian Modernism (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). The elements from popular culture were taken as a password for a revelation of Brazil to Brazilians themselves. As far as Paula Araújo is concerned, my research method is somewhat like his, sharing the deep dive into the primary sources of reference materials. As far as Paulo Emílio is concerned, my mind operates within the same framework as his: a sort of sociological inquiry about the human fact. I think that Vassourinha deviates from this tradition insofar as it radically assumes a notion of a poetic metahistory, in the sense that it is not obliged to clarify nor conclude anything as far as a national project is defined in terms of teleology and a big synthesis. I treasure the gaps, the lapses, the mysterious inconclusiveness; the serious research does not serve to any sort of “redemption” of our pride – the works and the artists compose a moving (in-motion; emotional) constellation.

CL: In your essay “Found Footage and Magnetization of Affection” you bring forth from Hollis Frampton’s concept of “Infinite Cinema” the ideal of an “Infinite Archive”. The concept stems from cinema’s relationship to the digital age, and the endless ability to “digitally recycle cinema’s beginnings”. Elsewhere, referring to Aby Warburg and Georges Didi-Huberman’s notion of the Leitfossil, you claim that “In my wonder-room, there is no such thing as a dead archive; just living archives, asleep in their forms”.

Both the notion of an “Infinite Archive” and the denial of a dead archive seem to disregard, at first glance, the seemingly finite state of archiving that has approached Brazil’s institutions for decades now. However, at a second glance, one might realize that you’re not denying the reality that there are ends within the archive, but you’re expanding on the ways in which those ends can be used within the digital age – The footage can be reproduced infinitively in an array of shapes, forms, and expressions.

Can you comment on this interpretation of your ideas? And how can the notion of “Infinite Archive” be looked at under the particular guise of the Brazilian archival situation?

CA: In my PhD thesis and in subsequent articles published in academic journals, I transferred (and transformed) Frampton’s notion to the domain of found footage. I think it is an original contribution to film studies, this conceptual montage that I do between Benjamin, Frampton and Warburg (among many other theoretical, cultural and historical notions). Moving into the geographical and socio-political-economic context of a country like Brazil would require an effort and an extension of argument that I am not capable of in the brief context of this interview. Evidently, at a first glance, the economic difficulties themselves bring other parameters to the question: how to think about the survival of images (as depositories of national memory) if the very survival of the archive (as an institution of that duty) is plagued by risks to its material contingency? On the other hand, the Brazilian condition has unique and original characteristics that distinguish it from other countries: our colonial formation, our peripheral situation, our conservative modernity, our outrageous social inequality, and the artistic and intellectual strength of several generations that have responded to these challenges. We must be reminded that film celluloid is made also of organic material, therefore subject to decay, just as we are. We must bear in mind that what survived until our time of Sappho’s poems are just fragments of her verses, and the beauty of her poetry is in part the beauty of this quality of scarcity. Paradoxically, I would imagine that the very notion of “infinite archive”, when applied to Brazil, would imply a finite cinema, the very finitude of cinema, its material and intrinsic fragility, its “human” condition.

CL: As you well know, Brazil’s most important film archive, the Cinemateca Brasileira, is now going through a new crisis in which its entire collection is at risk of being destroyed. The current moment evokes in our minds a Twilight Zone-esque episode in which a found footage filmmaker wakes up to learn that there is no longer any found-footage to be found. While your work has certainly featured found footage that has been sourced beyond the walls of an archival institution, one cannot deny that these institutions are repositories for cultural works that still remain hidden from the public eye. Firstly, can you comment on the long-standing neglect of the Brazilian government to properly invest in preserving Brazilian cultural memory? Lastly, can you comment on what this potentially dystopic scenario evokes for you in relation to your body of work, aspiring found footage filmmakers, and the future of found footage filmmaking in Brazil?

CA: We are currently living under dark and terrible times in Brazil, and many public institutions related to culture (and education) are under threat, at different levels, degrees and circumstances, such as Casa de Rui Barbosa and Cinemateca Brasileira. The latter is our most recognized film archive but there are others, smaller ones, spread across cities in the country, two of which are particularly deserving of our attention and respect, possessing great collections and doing notable, good research work: Cinemateca do MAM (Modern Art Museum) and Arquivo Nacional (both in Rio de Janeiro). In the case of the Cinematic Brasileira, as well as these other archives, there is a problem that has been going on for years and it is a complex issue – what is happening now is of great urgency, because it affects basic issues of maintenance of the archive itself (in addition to the salaries of the technical staff, the current crisis affects services of electrical supply, which threats refrigeration and security). The tragedy of the fire at the Museu Nacional (Rio de Janeiro) in 2018 is as a metaphor for the lack of public commitment to national memory and heritage: the neglect turns memory into ashes. The pathetic episode of Brazilian Government (literally) taking the Cinemateca’s keys, along with that of the Museu Nacional’s fire, is a powerful symbolic image in itself. Of course, as a found-footage filmmaker I have an engagement with film archiving and I think it was not a sheer coincidence that I was commissioned to make the official film of the celebration of Paulo Emílio Salles Gomes’ centenary (A Very Personal Celebration, 2016). Personally, I have always worked with shards, leftovers, remains, incomplete fragments; lost, neglected and forgotten materials. Therefore, I am used to working in scarcity and poverty. I always keep in mind the adage that "it can always be worse", which may not ease many anxieties about the future. Horace’s “carpe diem” verses help us to face our weaknesses and uncertainties, which are much bigger now with the COVID-19 crisis.

CL: Part of the astonishment in watching Vassourinha is the fact that it is so rare to see works unveiled from the archive that highlights the lives on important Black artists from the past. In a way, the film projects the role that archives should be fulling in modern-day society – that is, beyond just preserving materials, recovering and presenting heretofore repressed existences and narratives. In your mind, why did it take nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha in your film? And as you yourself have worked as an archivist in the past, what do you think future archivists can learn from the film? What really is most important to save for future generations?

CA: For me it is far hard to say “why [it took] nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha”… It would be tempting, and it would be a fallacy as well, to say that Vassourinha was looking forward to meet me, his art & craft was waiting for my gesture…I don’t know why it took so much time… One can think of social reasons, as he was a black boy from a poor family and he didn’t have enough time to build a fame which would endure. On the other hand, we have lots of cases of great artists in different artistic areas who were forgotten. [Found footage filmmaking is] a very personal (verging on crazily idiosyncratic) way to deal with historical artifacts, a creative form to work on history, not only in terms of salvaging the remains but to bring them back to life and to keep them alive. History serving to vibrate Vassourinha’s story. I consider myself a very materialist film maker, in the sense that I treasure most the rare and bare materials that history is made of. I think one can feel in a very palpable way a sensual materiality that my films place onto the screen. Besides the very materials themselves (the “remains”), I think it is most important as well to preserve the flavor of time – the zeitgeist – in which one lives. And that is an order of alchemy: remember Duchamp’s work “Air of Paris”. In fact, as a communist filmmaker, what would be really “most important to save for future generations” is life itself – the lives of so many artists (and thinkers) who inspire us and make us thrive. But that is far from utopia; to try to defeat death… As André Bazin put it, cinema holds a mummy complex.

CL: Lastly, since the release of A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha there has been a new resurgence of interest in Vassourinha’s life. Numerous famous musicians have covered his songs and there are rumors that a feature length film about his life is in the works. Do you view any of this as part of the legacy and impact that your film had? Relatedly, what do you think the likelihood is that there are hundreds of other potential Vassourinhas repressed within the archives: inimitable, historical, and most commonly Black marginalized talents whose legacies have never reached the people of Brazil beyond their time?

CA: As the most humble and the most modest man I am, I should acknowledge that my film definitely and surely had an impact of “bringing” Vassourinha “back to life”. I would hate to look pretentious, but it is a fact: I did contribute to make Vassourinha more well-known and more appreciated. My film went on front covers of the two main newspapers in São Paulo (first page of cultural supplements) which are the main ones in Brazil. I would not compare myself to the status some give Ezra Pound, as being the re-inventor of Provençal to modern times, a poet who embraces a work of translation and criticism; but it is almost that…in a way, I did “invent” Vassourinha for contemporary times, and I am proud that it was made within an avant-garde mode of film. After my film was released, Caetano Veloso (who had already known my films at that time) approached me about a project proposed by Paula Lavigne (his wife and manager) of re-releasing Vassourinha’s original records along with a set of Caetano and Chico Buarque performing new versions of Vassourinha’s repertoire. My film was to be a key piece in that project, in concerts and in a possible DVD release along with the CD; unfortunately that did not go further for some reason, maybe because a label decided instead to hastily release Vassourinha’s songs. Surely there are “other potential Vassourinhas repressed within the archives”: during my research for making the Vassourinha film, I myself found a kind of female Vassourinha almost in the same style–straw hat, syncopated samba–not so famous at her time like Vassourinha, performing from the mid-1930s to the mid-1940s, then completely forgotten by the public. I could find only six 78rpm recordings of her chant-voice (half of Vassoruinha’s entire discography). I would love to make a film about her, but 22 years have already passed by and I have not made it yet…a companion to Vassourinha, in fashion and musical style, her voice has remained indeed lost to a deeper void.

1. Bernardo Vorobow (1946-2009), in addition to being Adriano’s partner until his death in 2009, served as director and programmer of the Society of Cinematheque Friends (Sociedade Amigos da Cinemateca, 1970–75); the film coordinator and programmer at the Museum of Contemporary Art at the University of São Paulo (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1972–76); founder, director, and programmer of the Film Department at the Museum of Image and Sound (Museu da Imagem e do Som, São Paulo, 1975–85); as well as founder, director, and programmer of the Diffusion and Program Department of the Brazilian Cinematheque (Cinemateca Brasileira, 1982–99), then programmer until 2009.

2. Miécio Caffé would be the subject of Adriano’s 2003 film A Caffé with Miécio.

It should come as no surprise that in Brazil, as in most historically so-called “underdeveloped” countries, the question of cultural memory and access to history as dictated by the archive is far more precarious than one approaching the subject from the relative wealth of the United States or Europe. There are far more gaps, erasures, and interstices for pieces of Brazilian culture to fall into with a much higher frequency, which is a condition both of political determination and physical incapability. On this second factor, one need only be pointed to the fact that Atlântida Cinematográfica — the Brazilian film studio responsible for the majority of chanchada films—had to burn its nitrate prints from the golden era of the 40s and 50s after new safety film copies were made, for fear of the entire studio burning down due to the combination of nitrate film and tropical heat. Therefore, for a Brazilian archivist — or their counterpart on the side of production, the found footage filmmaker —the task of even taking the first steps toward the gathering of documents for their work is an arduous one sure to be met with many frustrations, barring a situation where one’s subject has an exceptionally well-kept estate.

Thus Brazilian cultural workers find their labor to be determined under the sign of fragmentation, and we find the most compelling work to be that which wears this mark as one of pride and uses its form to reflect its material inconsistencies. Carlos Adriano has worked with Brazil’s cinematic archives for over twenty years, creating films that both preserve and project the gaps and other forms of lack that he encounters when faced with the heretofore undocumented sections of Brazil’s past.

Cinelimite: Can you describe how you originally came upon the figure of Vassourinha? As a found-footage filmmaker, were you actively searching for a new topic to explore, or did Vassourinha come into your life in a more unexpected way?

Carlos Adriano: One can say that, until my feature documentary Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), those of my films which deal with found footage or archive material share a common and essential mark: they are all about unknown, forgotten or lost subjects of Brazilian culture (and their remaining materials). For example: Remainiscences (1994-1997) is about the supposed first film footage of Brazil (registered in 1897); Militancy (2001-2002) is about the magic lantern by photographer Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) is about the only film made by writer Monteiro Lobato (as well as the only audio recording of his voice); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) is about the unfinished films by poet Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) is about a mutoscope film (1901) featuring Brazilian inventor and aviator Santos Dumont. So Vassourinha is a coherent subject, from a “retrospective” perspective. Personally, I was very fond of him as an original singer, one who takes part in a “low-key” tradition which includes Orlando Silva (in his first phase), Mário Reis, Roberto Silva and João Gilberto. This tradition would commonly feature a kind of singing close to the spoken words, a “canto falado” ("spoken song"). I had Vassourinha’s record long before the idea of making the film. In a way, the film is a sort of fan’s tribute. Besides, the tragedy of Vassourinha’s life—that of dying at the young age of 19 from a rare disease—is a matter relating to another axis of my film work (mortality, death, and life). Also, the extreme rarity of the subject—an artist about whom very little information and documentation was left—was an interest as well. Vassourinha came into my life as unexpectedly as all good fortunes, by a loving chance.

CL: Upon learning more about Vassourinha, and deciding to make a film about him, how did you begin the process of putting together the immense number of photographs, sounds, newspaper clippings, music sheets and even financial records that can be found within A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Were these records presented to you within a single archive or did you undergo a long research process throughout numerous places to track this material down? Take us through what this collection process was like.

CA: The great starting point is encapsulated in the loop I edited from the two words of the Emília song at the beginning of the film: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). I started with almost nothing, only a few clips and clues. After an extensive (and intense) inquiry—somewhere between archaeology and detective work—I and Bernardo Vorobow (co-producer and my life long companion)1 conducted research across every possible source, until we got two personal albums of news clippings gathered by Vassourinha himself. One of them was given to me generously by Alberto Helena Junior, a big fan and high scholar of Vassourinha; the other album I got from what remained of the singer’s family: a foster brother. All six 78 rpm records recorded by Vassourinha which were used in the film for shooting and recording (all sound in the film came from those discs) belong to the Miécio Caffé private collection.2 The Miécio Caffé collection was at that time deposited at Museu da Imagem e do Som (São Paulo). I was fortunate to meet Raul Duarte in person, the radio producer/director who hired Vassourinha to sing for Radio Record, and to talk to a doctor who treated Vassourinha during his last hospitalization. The very path of the research process dictated the film’s structure: a huge amount of information about someone whom people knew almost nothing about. Shards, specters, remains – the matter life is composed of. The collection process is, in a way, metaphorized in the end sequence at the cemetery: the search for his grave was like the search for his life-work information.

CL: Do you think that cultural exchange between two or more countries could incite the Brazilian government to realize the value of their own national works? Do you think a major initiative abroad, manifested in large retrospectives or more prestigious awards being given to Brazilian films, that these could be the catalyst to make the government in Brazil finally realize that they need to fund the Cinemateca Brasileira and that they need to finally support the film industry and its cultural workers in a respectful and supportive way?

CA: I think that this sense of witnessing a “re-birth” or a “re-defining” of a forgotten icon is natural, as one of the film’s purposes is to make Vassourinha alive again, “simply” as it is. As the film is a gesture of love (a labor of life, a labor of love), this feeling comes forward from the screen and toward the face of the viewer/listener. Maybe it is not so accurate to say that Vassourinha is unknown, because during his time he was very famous. He fell into oblivion afterwards, after his death, aftermath. In Portuguese, the word "olvido" (oblivion) is akin to "ouvido" (ear), and this is a password I tried to work formally, as a way of aesthetic operation: representing the limits between forgetfulness and the rescuing of this forgetfulness through the act of hearing this artist's voice. But his voice fell into a void; so I felt that my “mission” (in terms of my respect to this human being and his art) was to pay the highest tribute: to create a true dialogue. I was fortunate enough to be able to gather that huge amount of historical documentation about somebody who “nobody knew anything about”. The film works around the limits of legibility, the border between reading and understanding. And it was exactly this contradiction — the fact that there existed plenty of documents about an elusive figure — which sutured together and fortified strength of the film. The fact that “these documents do not even appear on the screen for a long enough period of time for the viewer to fully read them” was an operational choice I made in order to “translate” the sign and the myth of Vassourinha. The best testimony I would be able to provide (besides the best and most sincere tribute to Vassourinha’s art) was to “let these historical materials do the talking themselves” – but articulated by proper tools of the cinematic medium, as far as its power to construct (and deconstruct) associations by the means of cinema’s supreme muse of montage (“editing” would be a word that does not give justice to the work itself). My humble task was of a [Walter] Benjaminian nature: to gather this bag of rags and suggest a coherent constellation.

CL: Of the five films you have made which deal with forgotten cultural histories of Brazil, this is the only one that deals exclusively with a musician. How did the work of sifting through the archives of a sambista differ from those of your films which focus on cinematic history? Or is there a reoccurring methodology in your approach towards bringing archival materials into re-existence?

CA: I am not quite sure if there is any difference – from my point of view of the filmmaking-operation – between working upon an archive of a sambista and working upon the archive an artist of a different medium (literature, photography, caricature). Because film is “mine”, my operational mode of work; when I work on an artist’s oeuvre, I try to understand and translate their bare essentials to my vocabulary (my personal film language), to be in tune to their artistic mood. As you can read in one of the news clips, Vassourinha performed “De Babado”, a song written by Noel Rosa and João Mina, and recorded by Noel Rosa e Marília Batista in 1936. This record appears in a sequence of Santoscope = Dumontage – and of course I bear in mind that connection. The first record album (33 rpm) released with all the six sambas recorded by Vassourinha in the late 60s had its cover designed by Miécio Caffé, a famous (but also fallen into oblivion) caricaturist and music collector and tons of Brazilians singers came to browse the private collection of old 78 rpm records of Miécio to research and study. To cite just two: Chico Buarque and João Gilberto — the legendary re-interpretations of Brazilian sambas by João Gilberto would not be possible without the collection of Miécio Caffé. In 2003, I made the film A Caffé with Miécio and for that film Caetano Veloso made a new recording of a lesser-known samba, “A Voz do Povo”, originally composed by Malfitano and Frasão and recorded by Orlando Silva in 1941. Veloso called the samba a manifesto for my cinema work. Yes, there is a reoccurring methodology in my approach towards bringing archival materials into re-existance, to quote the title of my film about Pignatari’s unfinished films – note that I imply a play between « existence » and « resistance », which configure a key pair into play.

We need to try to provide access to Brazilian cinema in the best way possible, because people need to know that these treasures exist. If they can’t have this basic access, the films will become ignored and lose their value to the public. We must prevent this and make a complete 180 degree turn in policy when it comes to access.

CL: The history of cultural archives in Brazil is filled with stories of loss, tragedy, and neglect. However, one could also view this story as an occasional tale of triumph, as the will of a few individuals succeeded in preserving Brazilian cultural memory up until this day. Their efforts have allowed us to glean new ideas from historical works of Brazilian art in our present moment.

As a found-footage filmmaker, many of your works deal with the forgotten cultural memories of Brazil’s past. Can you speak to how the history and past efforts of Brazilian cultural preservation has impacted your work? Why, in your mind, have such important figures such as Vassourinha been (previously) forgotten?

CA: There is a trajectory of academic research in my life. I graduated from film school of Escola de Comunicações e Artes da USP – University of São Paulo (ECA-USP). I have my master degree and my PhD (2008) at the same USP, both advised by Prof. Ismail Xavier. Besides this, I did two Post Doctorals, one in the Arts (at Pontifical Catholic University – PUC-SP, 2014) supervised by Prof. Arlindo Machado, and one in Film (at USP, 2017) supervised by Prof. Cristian Borges. For my PhD and my Post-Doctoral at PUC-SP I had fellowships from Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) and for my Post-Doctoral at USP I had a fellowship from CAPES. That long and boring CV quote is just meant to show how serious I take scholarly research and how, throughout my life, spheres of study and archiving informed my trajectory. I have also worked at the Cinemateca Brasileira from 1986 to 1999.  

Perhaps I could reply to your first question with an example from a case study. My PhD research (which made the way for the production of two films about Santos Dumont) was based on an unknown object of the Santos Dumont Collection of Museu Paulista da USP (aka Museu do Ipiranga). It was an unidentified object in terms of year and origin of production, its technical nature, and even its attributed name was wrong and misleading – but it was there, in the archive. After taking a research path alike the one pursued in Vassourinha’s, I identified that it was a mutoscope hub, produced in 1901 by the British branch of American Mutoscope & Biograph Company, probably shot by William K.L. Dickson, and subsequently tracked its archival history. The last sentence of your question requires too large of an explanation, so I would hazard a risk of saying in short that I think Brazil historically has a consistent tradition of treating badly and worst its best sons and daughters, mainly in the realm of culture.  

CL: In Vassourinha, there are moments in which the soundtrack starts and stops, as if a 78 rpm record is skipping. This is often accompanied on the image track by a flicker effect. Knowing your affinities to other found footage filmmakers such as Ken Jacobs, how do you see this flicker effect operating in relation to its use in other global contexts, and is there something about the Brazilian archive, and the life of Vassourinha, that drove you to use said effect

CA: I could only talk about my personal use of the flicker (which is, of course, rooted in a tradition of avant-garde film), a feature that I use a lot in my films. In Santoscope = Dumontage, the flicker is a structural-film device extracted from the mutoscope apparatus itself that hosted the original 1901 film about Santos Dumont which I worked on. In the case of Vassourinha, the flicker has a role a little bit analogous to the one I used in Remainiscences: in the sense of gaps, lapses, missing links, lost abysses, the void. But in Vassourinha there is a surplus: the flicker as an instance of consciousness, as a moment when the shutter quickly obliterates the image to make it resonate in time; so the flicker is a constituent element of the fabric tissue of Vassourinha's history (which has been torn to pieces), but it is also a device for understanding this history. There is even a formal rhyme with the condition of his Blackness, in the sense of what is concealed or erased. It is as if the flicker was a correspondent to Walter Benjamin's “dialectical image”, that brief and elusive moment when associations sparkle beyond historical time. I really like the Benjaminian notion of history, both as waste and ruins and as the viewpoint of the losers. Naturally, in a peripheral country like Brazil — which has always abused its institutions tasked with the preservation of its cultural memory, and which has a long and dark past of erasing and repressing its figures(rooted in its history with slavery) — the flicker reaches an profound allegorical power (and I use this term as Ismail Xavier so well defined it in his seminal book Allegories of Underdevelopment) in a way, far beyond the formal flicker wonders of Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad and others.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, in addition to being a work of art invested in the gesture of resurrection, also serves, even unprojected as a roll of celluloid, as a veritable repository of images and documentation relating to Vassourinha – an archive in itself. What do you make of this and how do you feel the historical material transforms when it passes from one medium to another?

CA: Definitely, Vassourinha film is an analog piece of art – it was thought and made as a 35mm film. And I treasure most the concept of “infinite film” by Hollis Frampton, in his meta-history essay, which I “translated” in my PhD thesis to the domain of found footage. My PhD piece has not been published as a book yet, but you can browse it at the University of São Paulo’s thesis database and I published an essay based on it in the journal Anais do Museu Paulista. I took all the documents of Vassourinha I could find and gathered them as “frames” of an infinity film – all materials are matter of film poetry. I regret that you are not able to screen the film in its original format of 35mm. I made some disruptive turns with the celluloid that are only fully accomplished in film form. The “resurrection” you mention is taken in (and made by means of) the celluloid itself. Besides the flickering, I used veils, those mysterious frames which are not properly exposed in the camera shutter. Except for the final sequence, shot on location in the set of the cemetery where Vassourinha is buried, the film was shot with an Oxberry animation machine. One of the highest praises of which I am most proud is about my style of editing: even when editing in a digital suite, my work is tributary to the moviola. In the sense of passing from the medium of history to the medium of film, I would say that the transformation occurs in the realm of poetry. I take the word here to mean poetics, the method of structure, a matter of form, a way of shaping materials and thoughts. And I would say that historians like Walter Benjamin, Aby Warburg and Hayden White have contributed to let the document free, to be reappropriated by the artists.

CL: Important Brazilian Cinema historians such as Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959), and Paulo Emilio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, written in the 60s, but first published in 1986) were forced to search for fragments of the past and to uncover footnotes of history in order to paint a picture of bygone cinematic eras for then-present and future generations. To what extent does a work such as Vassourinha follow within that trajectory of historical research, and how in your mind does it deviate from it?

CA: To work with fragments – with the remains, with the small details at the bottom of the page –  is an attitude professed by the École dos Annales and historians like Benjamin and Warburg. The film historians you mentioned worked from a peripheral point of view, where issues of underdevelopment were very present in Brazil, and they were informed by the delayed experience of modernity in Brazil. They definitely conjured up a key body of work and provided references for anybody else interested in the adventure of investigating the Brazilian film past. I think Vassourinha is part of this tradition you mentioned in the sense of a deep research on profoundly national roots, as if the issue of national identity was a crucial and defining issue, and a kind of adhesion to popular subjects in the way defended by Brazilian Modernism (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). The elements from popular culture were taken as a password for a revelation of Brazil to Brazilians themselves. As far as Paula Araújo is concerned, my research method is somewhat like his, sharing the deep dive into the primary sources of reference materials. As far as Paulo Emílio is concerned, my mind operates within the same framework as his: a sort of sociological inquiry about the human fact. I think that Vassourinha deviates from this tradition insofar as it radically assumes a notion of a poetic metahistory, in the sense that it is not obliged to clarify nor conclude anything as far as a national project is defined in terms of teleology and a big synthesis. I treasure the gaps, the lapses, the mysterious inconclusiveness; the serious research does not serve to any sort of “redemption” of our pride – the works and the artists compose a moving (in-motion; emotional) constellation.

CL: In your essay “Found Footage and Magnetization of Affection” you bring forth from Hollis Frampton’s concept of “Infinite Cinema” the ideal of an “Infinite Archive”. The concept stems from cinema’s relationship to the digital age, and the endless ability to “digitally recycle cinema’s beginnings”. Elsewhere, referring to Aby Warburg and Georges Didi-Huberman’s notion of the Leitfossil, you claim that “In my wonder-room, there is no such thing as a dead archive; just living archives, asleep in their forms”.

Both the notion of an “Infinite Archive” and the denial of a dead archive seem to disregard, at first glance, the seemingly finite state of archiving that has approached Brazil’s institutions for decades now. However, at a second glance, one might realize that you’re not denying the reality that there are ends within the archive, but you’re expanding on the ways in which those ends can be used within the digital age – The footage can be reproduced infinitively in an array of shapes, forms, and expressions.

Can you comment on this interpretation of your ideas? And how can the notion of “Infinite Archive” be looked at under the particular guise of the Brazilian archival situation?

CA: In my PhD thesis and in subsequent articles published in academic journals, I transferred (and transformed) Frampton’s notion to the domain of found footage. I think it is an original contribution to film studies, this conceptual montage that I do between Benjamin, Frampton and Warburg (among many other theoretical, cultural and historical notions). Moving into the geographical and socio-political-economic context of a country like Brazil would require an effort and an extension of argument that I am not capable of in the brief context of this interview. Evidently, at a first glance, the economic difficulties themselves bring other parameters to the question: how to think about the survival of images (as depositories of national memory) if the very survival of the archive (as an institution of that duty) is plagued by risks to its material contingency? On the other hand, the Brazilian condition has unique and original characteristics that distinguish it from other countries: our colonial formation, our peripheral situation, our conservative modernity, our outrageous social inequality, and the artistic and intellectual strength of several generations that have responded to these challenges. We must be reminded that film celluloid is made also of organic material, therefore subject to decay, just as we are. We must bear in mind that what survived until our time of Sappho’s poems are just fragments of her verses, and the beauty of her poetry is in part the beauty of this quality of scarcity. Paradoxically, I would imagine that the very notion of “infinite archive”, when applied to Brazil, would imply a finite cinema, the very finitude of cinema, its material and intrinsic fragility, its “human” condition.

CL: As you well know, Brazil’s most important film archive, the Cinemateca Brasileira, is now going through a new crisis in which its entire collection is at risk of being destroyed. The current moment evokes in our minds a Twilight Zone-esque episode in which a found footage filmmaker wakes up to learn that there is no longer any found-footage to be found. While your work has certainly featured found footage that has been sourced beyond the walls of an archival institution, one cannot deny that these institutions are repositories for cultural works that still remain hidden from the public eye. Firstly, can you comment on the long-standing neglect of the Brazilian government to properly invest in preserving Brazilian cultural memory? Lastly, can you comment on what this potentially dystopic scenario evokes for you in relation to your body of work, aspiring found footage filmmakers, and the future of found footage filmmaking in Brazil?

CA: We are currently living under dark and terrible times in Brazil, and many public institutions related to culture (and education) are under threat, at different levels, degrees and circumstances, such as Casa de Rui Barbosa and Cinemateca Brasileira. The latter is our most recognized film archive but there are others, smaller ones, spread across cities in the country, two of which are particularly deserving of our attention and respect, possessing great collections and doing notable, good research work: Cinemateca do MAM (Modern Art Museum) and Arquivo Nacional (both in Rio de Janeiro). In the case of the Cinematic Brasileira, as well as these other archives, there is a problem that has been going on for years and it is a complex issue – what is happening now is of great urgency, because it affects basic issues of maintenance of the archive itself (in addition to the salaries of the technical staff, the current crisis affects services of electrical supply, which threats refrigeration and security). The tragedy of the fire at the Museu Nacional (Rio de Janeiro) in 2018 is as a metaphor for the lack of public commitment to national memory and heritage: the neglect turns memory into ashes. The pathetic episode of Brazilian Government (literally) taking the Cinemateca’s keys, along with that of the Museu Nacional’s fire, is a powerful symbolic image in itself. Of course, as a found-footage filmmaker I have an engagement with film archiving and I think it was not a sheer coincidence that I was commissioned to make the official film of the celebration of Paulo Emílio Salles Gomes’ centenary (A Very Personal Celebration, 2016). Personally, I have always worked with shards, leftovers, remains, incomplete fragments; lost, neglected and forgotten materials. Therefore, I am used to working in scarcity and poverty. I always keep in mind the adage that "it can always be worse", which may not ease many anxieties about the future. Horace’s “carpe diem” verses help us to face our weaknesses and uncertainties, which are much bigger now with the COVID-19 crisis.

CL: Part of the astonishment in watching Vassourinha is the fact that it is so rare to see works unveiled from the archive that highlights the lives on important Black artists from the past. In a way, the film projects the role that archives should be fulling in modern-day society – that is, beyond just preserving materials, recovering and presenting heretofore repressed existences and narratives. In your mind, why did it take nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha in your film? And as you yourself have worked as an archivist in the past, what do you think future archivists can learn from the film? What really is most important to save for future generations?

CA: For me it is far hard to say “why [it took] nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha”… It would be tempting, and it would be a fallacy as well, to say that Vassourinha was looking forward to meet me, his art & craft was waiting for my gesture…I don’t know why it took so much time… One can think of social reasons, as he was a black boy from a poor family and he didn’t have enough time to build a fame which would endure. On the other hand, we have lots of cases of great artists in different artistic areas who were forgotten. [Found footage filmmaking is] a very personal (verging on crazily idiosyncratic) way to deal with historical artifacts, a creative form to work on history, not only in terms of salvaging the remains but to bring them back to life and to keep them alive. History serving to vibrate Vassourinha’s story. I consider myself a very materialist film maker, in the sense that I treasure most the rare and bare materials that history is made of. I think one can feel in a very palpable way a sensual materiality that my films place onto the screen. Besides the very materials themselves (the “remains”), I think it is most important as well to preserve the flavor of time – the zeitgeist – in which one lives. And that is an order of alchemy: remember Duchamp’s work “Air of Paris”. In fact, as a communist filmmaker, what would be really “most important to save for future generations” is life itself – the lives of so many artists (and thinkers) who inspire us and make us thrive. But that is far from utopia; to try to defeat death… As André Bazin put it, cinema holds a mummy complex.

CL: Lastly, since the release of A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha there has been a new resurgence of interest in Vassourinha’s life. Numerous famous musicians have covered his songs and there are rumors that a feature length film about his life is in the works. Do you view any of this as part of the legacy and impact that your film had? Relatedly, what do you think the likelihood is that there are hundreds of other potential Vassourinhas repressed within the archives: inimitable, historical, and most commonly Black marginalized talents whose legacies have never reached the people of Brazil beyond their time?

CA: As the most humble and the most modest man I am, I should acknowledge that my film definitely and surely had an impact of “bringing” Vassourinha “back to life”. I would hate to look pretentious, but it is a fact: I did contribute to make Vassourinha more well-known and more appreciated. My film went on front covers of the two main newspapers in São Paulo (first page of cultural supplements) which are the main ones in Brazil. I would not compare myself to the status some give Ezra Pound, as being the re-inventor of Provençal to modern times, a poet who embraces a work of translation and criticism; but it is almost that…in a way, I did “invent” Vassourinha for contemporary times, and I am proud that it was made within an avant-garde mode of film. After my film was released, Caetano Veloso (who had already known my films at that time) approached me about a project proposed by Paula Lavigne (his wife and manager) of re-releasing Vassourinha’s original records along with a set of Caetano and Chico Buarque performing new versions of Vassourinha’s repertoire. My film was to be a key piece in that project, in concerts and in a possible DVD release along with the CD; unfortunately that did not go further for some reason, maybe because a label decided instead to hastily release Vassourinha’s songs. Surely there are “other potential Vassourinhas repressed within the archives”: during my research for making the Vassourinha film, I myself found a kind of female Vassourinha almost in the same style–straw hat, syncopated samba–not so famous at her time like Vassourinha, performing from the mid-1930s to the mid-1940s, then completely forgotten by the public. I could find only six 78rpm recordings of her chant-voice (half of Vassoruinha’s entire discography). I would love to make a film about her, but 22 years have already passed by and I have not made it yet…a companion to Vassourinha, in fashion and musical style, her voice has remained indeed lost to a deeper void.

1. Bernardo Vorobow (1946-2009), in addition to being Adriano’s partner until his death in 2009, served as director and programmer of the Society of Cinematheque Friends (Sociedade Amigos da Cinemateca, 1970–75); the film coordinator and programmer at the Museum of Contemporary Art at the University of São Paulo (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1972–76); founder, director, and programmer of the Film Department at the Museum of Image and Sound (Museu da Imagem e do Som, São Paulo, 1975–85); as well as founder, director, and programmer of the Diffusion and Program Department of the Brazilian Cinematheque (Cinemateca Brasileira, 1982–99), then programmer until 2009.

2. Miécio Caffé would be the subject of Adriano’s 2003 film A Caffé with Miécio.

PT/ENG
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24/8/2020
By/Por:
Eric Barroso

Não deve surpreender que, no Brasil, assim como na maioria dos países historicamente chamados de “subdesenvolvidos”, a questão da memória cultural e do acesso à história, tal como ditados pelo arquivo, seja muito mais precária do que para quem aborda o tema a partir da relativa riqueza dos Estados Unidos ou da Europa. Há muito mais lacunas, apagamentos e interstícios para os quais pedaços da cultura brasileira podem cair com uma frequência muito maior, condição que é ao mesmo tempo de determinação política e de incapacidade física. Quanto a esse segundo fator, basta lembrar que a Atlântida Cinematográfica — o estúdio brasileiro responsável pela maioria dos filmes de chanchada — teve de queimar suas cópias em nitrato da era de ouro dos anos 40 e 50 depois que novas cópias de segurança foram feitas, por medo de que o estúdio inteiro pegasse fogo devido à combinação de película de nitrato e calor tropical. Portanto, para um arquivista brasileiro — ou seu equivalente do lado da produção, o cineasta de found footage — a tarefa de sequer dar os primeiros passos rumo à reunião de documentos para o seu trabalho é árdua e certamente será marcada por muitas frustrações, a menos que o tema em questão tenha um espólio excepcionalmente bem cuidado.

Assim, trabalhadores culturais brasileiros encontram seu trabalho determinado sob o signo da fragmentação, e vemos que o trabalho mais instigante é aquele que ostenta essa marca como motivo de orgulho e usa sua forma para refletir suas inconsistências materiais. Carlos Adriano trabalha com os arquivos cinematográficos do Brasil há mais de vinte anos, criando filmes que ao mesmo tempo preservam e projetam as lacunas e outras formas de falta que ele encontra quando se depara com seções até então não documentadas do passado do Brasil.

Cinelimite: Você pode descrever como encontrou originalmente a figura de Vassourinha? Como cineasta de found footage, você estava buscando ativamente um novo tema para explorar ou Vassourinha entrou na sua vida de uma forma mais inesperada?

Carlos Adriano: Pode-se dizer que, até o meu longa documental Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), aqueles dos meus filmes que lidam com found footage ou material de arquivo compartilham uma marca comum e essencial: todos são sobre temas desconhecidos, esquecidos ou perdidos da cultura brasileira (e seus materiais remanescentes). Por exemplo: Remainiscences (1994-1997) é sobre a suposta primeira filmagem do Brasil (registrada em 1897); Militancy (2001-2002) é sobre a lanterna mágica do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) é sobre o único filme feito pelo escritor Monteiro Lobato (assim como a única gravação de áudio de sua voz); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) é sobre os filmes inacabados do poeta Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) é sobre um filme de mutoscópio (1901) que apresenta o inventor e aviador brasileiro Santos Dumont. Então Vassourinha é um tema coerente, de uma perspectiva “retrospectiva”. Pessoalmente, eu gostava muito dele como um cantor original, alguém que faz parte de uma tradição “discreta”, que inclui Orlando Silva (na sua primeira fase), Mário Reis, Roberto Silva e João Gilberto. Essa tradição comumente apresenta um tipo de canto próximo da palavra falada, um “canto falado” ("spoken song"). Eu tinha o disco de Vassourinha muito antes da ideia de fazer o filme. De certa forma, o filme é uma espécie de tributo de fã. Além disso, a tragédia da vida de Vassourinha — morrer aos 19 anos de uma doença rara—é uma questão relacionada a outro eixo do meu trabalho cinematográfico (mortalidade, morte e vida). Também me interessava a extrema raridade do tema — um artista sobre o qual restou muito pouca informação e documentação. Vassourinha entrou na minha vida tão inesperadamente quanto todas as boas fortunas, por um acaso amoroso.

CL: Ao saber mais sobre Vassourinha e decidir fazer um filme sobre ele, como você iniciou o processo de reunir o imenso número de fotografias, sons, recortes de jornal, partituras e até registros financeiros que podem ser encontrados em A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Esses registros foram apresentados a você dentro de um único arquivo ou você passou por um longo processo de pesquisa em inúmeros lugares para rastrear esse material? Conte para nós como foi esse processo de coleta.

CA: O grande ponto de partida está encapsulado no loop que eu montei a partir de duas palavras da canção da Emília no início do filme: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). Eu comecei com quase nada, apenas alguns trechos e pistas. Depois de uma investigação extensa (e intensa) — em algum lugar entre a arqueologia e o trabalho de detetive — eu e Bernardo Vorobow (coprodutor e meu companheiro de vida de longa data)1 conduzimos pesquisa em toda fonte possível, até conseguirmos dois álbuns pessoais de recortes de jornal reunidos pelo próprio Vassourinha. Um deles me foi dado generosamente por Alberto Helena Junior, um grande fã e importante estudioso de Vassourinha; o outro álbum eu obtive do que restou da família do cantor: um irmão adotivo. Todos os seis discos de 78 rpm gravados por Vassourinha que foram usados no filme para filmagem e gravação (todo o som do filme veio desses discos) pertencem à coleção privada de Miécio Caffé.2 A coleção de Miécio Caffé estava, naquele momento, depositada no Museu da Imagem e do Som (São Paulo). Tive a sorte de conhecer pessoalmente Raul Duarte, o produtor/diretor de rádio que contratou Vassourinha para cantar na Rádio Record, e de conversar com um médico que tratou Vassourinha durante sua última internação. O próprio caminho do processo de pesquisa ditou a estrutura do filme: uma enorme quantidade de informação sobre alguém sobre quem as pessoas não sabiam quase nada. Fragmentos, espectros, restos — a matéria de que a vida é feita. O processo de coleta é, de certa forma, metaforizado na sequência final no cemitério: a busca pelo túmulo dele foi como a busca pelas informações sobre sua vida-obra.

CL: Você acha que o intercâmbio cultural entre dois ou mais países poderia incitar o governo brasileiro a perceber o valor das suas próprias obras nacionais? Você acha que uma grande iniciativa no exterior, manifestada em grandes retrospectivas ou em prêmios mais prestigiosos sendo dados a filmes brasileiros, poderia ser o catalisador para que o governo no Brasil finalmente perceba que precisa financiar a Cinemateca Brasileira e que precisa finalmente apoiar a indústria do cinema e seus trabalhadores culturais de maneira respeitosa e solidária?

CA: Eu acho que esse sentimento de testemunhar um “renascimento” ou uma “redefinição” de um ícone esquecido é natural, já que um dos propósitos do filme é fazer Vassourinha viver de novo, “simplesmente” como ele é. Como o filme é um gesto de amor (um labor de vida, um labor de amor), esse sentimento vem da tela e vai em direção ao rosto do espectador ouvinte. Talvez não seja tão preciso dizer que Vassourinha é desconhecido, porque no tempo dele ele era muito famoso. Ele caiu no esquecimento depois, após sua morte, no pós. Em português, a palavra “olvido” (esquecimento) é próxima de “ouvido” (orelha), e essa é uma senha que eu tentei trabalhar formalmente, como uma forma de operação estética: representar os limites entre o esquecimento e o resgate desse esquecimento por meio do ato de ouvir a voz desse artista. Mas a voz dele caiu num vazio, então eu senti que a minha “missão” (em termos do meu respeito a esse ser humano e à sua arte) era prestar o mais alto tributo: criar um verdadeiro diálogo. Eu tive a sorte de conseguir reunir aquela enorme quantidade de documentação histórica sobre alguém sobre quem “ninguém sabia nada”. O filme trabalha em torno dos limites da legibilidade, a fronteira entre ler e entender. E foi exatamente essa contradição — o fato de existirem muitos documentos sobre uma figura elusiva — que costurou e fortaleceu a força do filme. O fato de que “esses documentos nem aparecem na tela por tempo suficiente para que o espectador consiga lê-los completamente” foi uma escolha operacional que eu fiz para “traduzir” o signo e o mito de Vassourinha. O melhor testemunho que eu poderia fornecer (além do melhor e mais sincero tributo à arte de Vassourinha) era “deixar esses materiais históricos falarem por si” — mas articulados por ferramentas próprias do meio cinematográfico, no que diz respeito ao seu poder de construir (e desconstruir) associações por meio da musa suprema do cinema, a montagem (“edição” seria uma palavra que não faz justiça ao trabalho em si). Minha tarefa humilde foi de natureza [Walter] benjaminiana: reunir esse saco de trapos e sugerir uma constelação coerente.

CL: Dos cinco filmes que você fez e que lidam com histórias culturais esquecidas do Brasil, este é o único que trata exclusivamente de um músico. Como o trabalho de garimpar os arquivos de um sambista diferiu daquele dos seus filmes que se concentram na história do cinema? Ou há uma metodologia recorrente na sua abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência?

CA: Eu não tenho muita certeza se há alguma diferença — do meu ponto de vista da operação cinematográfica — entre trabalhar sobre o arquivo de um sambista e trabalhar sobre o arquivo de um artista de outro meio (literatura, fotografia, caricatura). Porque o cinema é “meu”, é o meu modo operacional de trabalho; quando eu trabalho sobre a obra de um artista, eu tento entender e traduzir seus elementos essenciais para o meu vocabulário (a minha linguagem pessoal do cinema), para estar em sintonia com o seu clima artístico. Como você pode ler em um dos recortes de jornal, Vassourinha interpretou “De Babado”, uma canção escrita por Noel Rosa e João Mina, e gravada por Noel Rosa e Marília Batista em 1936. Esse disco aparece em uma sequência de Santoscope = Dumontage — e, claro, eu tenho essa conexão em mente. O primeiro álbum (33 rpm) lançado com todos os seis sambas gravados por Vassourinha, no fim dos anos 60, teve sua capa desenhada por Miécio Caffé, um famoso (mas que também caiu no esquecimento) caricaturista e colecionador de música, e toneladas de cantores brasileiros iam folhear a coleção privada de discos antigos de 78 rpm de Miécio para pesquisar e estudar. Para citar apenas dois: Chico Buarque e João Gilberto — as lendárias releituras de sambas brasileiros feitas por João Gilberto não seriam possíveis sem a coleção de Miécio Caffé. Em 2003, eu fiz o filme e, para esse filme, Caetano Veloso fez uma nova gravação de um samba menos conhecido, “A Voz do Povo”, originalmente composto por Malfitano e Frasão e gravado por Orlando Silva em 1941. Veloso chamou o samba de um manifesto para o meu trabalho no cinema. Sim, há uma metodologia recorrente na minha abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência, para citar o título do meu filme sobre os filmes inacabados de Pignatari — note que eu implico um jogo entre « existência » e « resistência », que configuram um par-chave em jogo.

Precisamos tentar oferecer acesso ao cinema brasileiro da melhor forma possível, porque as pessoas precisam saber que esses tesouros existem. Se elas não tiverem esse acesso básico, os filmes serão ignorados e perderão seu valor para o público. Precisamos impedir isso e dar uma virada completa de 180 graus na política no que diz respeito ao acesso.

CL: A história dos arquivos culturais no Brasil é repleta de histórias de perda, tragédia e negligência. No entanto, também é possível ver essa história como um relato ocasional de triunfo, já que a vontade de alguns indivíduos conseguiu preservar a memória cultural brasileira até os dias de hoje. Seus esforços nos permitiram extrair novas ideias de obras históricas da arte brasileira no nosso momento presente.

Como cineasta de found footage, muitas das suas obras lidam com as memórias culturais esquecidas do passado do Brasil. Você pode falar sobre como a história e os esforços passados de preservação cultural no Brasil impactaram o seu trabalho? Por que, na sua visão, figuras tão importantes como Vassourinha foram (antes) esquecidas?

CA: Há uma trajetória de pesquisa acadêmica na minha vida. Eu me formei na escola de cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP – Universidade de São Paulo (ECA-USP). Tenho meu mestrado e meu doutorado (2008) na mesma USP, ambos orientados pelo Prof. Ismail Xavier. Além disso, fiz dois pós-doutorados, um em Artes (na Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP, 2014), supervisionado pelo Prof. Arlindo Machado, e um em Cinema (na USP, 2017), supervisionado pelo Prof. Cristian Borges. Para o meu doutorado e o meu pós-doutorado na PUC-SP, tive bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e, para o meu pós-doutorado na USP, tive uma bolsa da CAPES. Essa longa e entediante citação de currículo serve apenas para mostrar o quão seriamente eu levo a pesquisa acadêmica e como, ao longo da minha vida, esferas de estudo e de arquivamento informaram a minha trajetória. Eu também trabalhei na Cinemateca Brasileira de 1986 a 1999.

Talvez eu possa responder à sua primeira pergunta com um exemplo de um estudo de caso. Minha pesquisa de doutorado (que abriu caminho para a produção de dois filmes sobre Santos Dumont) foi baseada em um objeto desconhecido da Coleção Santos Dumont do Museu Paulista da USP (também conhecido como Museu do Ipiranga). Era um objeto não identificado em termos de ano e origem de produção, sua natureza técnica, e até mesmo o nome que lhe foi atribuído estava errado e era enganoso — mas ele estava lá, no arquivo. Depois de seguir um caminho de pesquisa semelhante ao que foi perseguido em Vassourinha, eu identifiquei que se tratava de um hub de mutoscópio, produzido em 1901 pelo ramo britânico da American Mutoscope & Biograph Company, provavelmente filmado por William K.L. Dickson, e, em seguida, rastreei sua história arquivística. A última frase da sua pergunta exigiria uma explicação grande demais, então eu me arriscaria a dizer, de forma breve, que eu acho que o Brasil historicamente tem uma tradição consistente de tratar mal e pior seus melhores filhos e filhas, principalmente no campo da cultura.

CL: CL: Em Vassourinha, há momentos em que a trilha sonora começa e para, como se um disco de 78 rpm estivesse pulando. Isso muitas vezes é acompanhado, na faixa de imagem, por um efeito de flicker. Sabendo das suas afinidades com outros cineastas de found footage, como Ken Jacobs, como você vê esse efeito de flicker operando em relação ao seu uso em outros contextos globais, e há algo no arquivo brasileiro, e na vida de Vassourinha, que tenha te levado a usar esse efeito?

CA: Eu só poderia falar do meu uso pessoal do flicker (que, claro, está enraizado numa tradição do cinema de vanguarda), um recurso que eu uso bastante nos meus filmes. Em Santoscope = Dumontage, o flicker é um dispositivo do cinema estrutural extraído do próprio aparelho de mutoscópio que hospedava o filme original de 1901 sobre Santos Dumont com o qual eu trabalhei. No caso de Vassourinha, o flicker tem um papel um pouco análogo ao que eu usei em Remainiscences: no sentido de lacunas, lapsos, elos perdidos, abismos perdidos, o vazio. Mas em Vassourinha há um excedente: o flicker como uma instância de consciência, como um momento em que o obturador rapidamente obliterra a imagem para fazê-la ressoar no tempo; então o flicker é um elemento constituinte do tecido da história de Vassourinha (que foi rasgado em pedaços), mas também é um dispositivo para entender essa história. Há até uma rima formal com a condição da sua negritude, no sentido do que é ocultado ou apagado. É como se o flicker fosse um correspondente à “imagem dialética” de Walter Benjamin, aquele momento breve e elusivo em que as associações faiscam para além do tempo histórico. Eu gosto muito da noção benjaminiana de história, tanto como lixo e ruínas quanto como o ponto de vista dos perdedores. Naturalmente, em um país periférico como o Brasil — que sempre abusou de suas instituições encarregadas da preservação de sua memória cultural, e que tem um longo e sombrio passado de apagar e reprimir suas figuras (enraizado na sua história com a escravidão) — o flicker alcança um poder alegórico profundo (e eu uso esse termo tal como Ismail Xavier o definiu tão bem em seu livro seminal Alegorias do Subdesenvolvimento) de um modo, em certa medida, muito além das maravilhas formais do flicker de Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad e outros.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, além de ser uma obra de arte investida no gesto de ressurreição, também serve, mesmo não projetado como um rolo de celuloide, como um verdadeiro repositório de imagens e documentação relacionadas a Vassourinha — um arquivo em si. O que você pensa disso e como você sente que o material histórico se transforma quando passa de um meio para outro?

CA: Definitivamente, o filme Vassourinha é uma peça de arte analógica — ele foi pensado e feito como um filme em 35mm. E eu prezo sobretudo o conceito de “filme infinito”, de Hollis Frampton, em seu ensaio de meta-história, que eu “traduzi” na minha tese de doutorado para o domínio do found footage. Minha tese de doutorado ainda não foi publicada como livro, mas você pode consultá-la no banco de teses da Universidade de São Paulo, e eu publiquei um ensaio baseado nela na revista Anais do Museu Paulista. Eu peguei todos os documentos de Vassourinha que consegui encontrar e os reuni como “quadros” de um filme infinito — todos os materiais são matéria de poesia cinematográfica. Eu lamento que você não consiga exibir o filme no seu formato original de 35mm. Eu fiz algumas viradas disruptivas com o celuloide que só se realizam plenamente em forma fílmica. A “ressurreição” que você menciona é realizada no (e por meio do) próprio celuloide. Além do flicker, eu usei véus, aqueles quadros misteriosos que não são devidamente expostos no obturador da câmera. Com exceção da sequência final, filmada em locação no cenário do cemitério onde Vassourinha está enterrado, o filme foi filmado com uma máquina de animação Oxberry. Um dos maiores elogios, do qual eu mais me orgulho, é sobre o meu estilo de montagem: mesmo quando monto numa ilha digital, o meu trabalho é tributário da moviola. No sentido de passar do meio da história para o meio do cinema, eu diria que a transformação ocorre no campo da poesia. Eu tomo a palavra aqui no sentido de poética, o método de estrutura, uma questão de forma, uma maneira de moldar materiais e pensamentos. E eu diria que historiadores como Walter Benjamin, Aby Warburg e Hayden White contribuíram para libertar o documento, para que ele possa ser reapropriado pelos artistas.

CL: Historiadores importantes do cinema brasileiro, como Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959) e Paulo Emílio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, escrito nos anos 60, mas publicado pela primeira vez em 1986), foram obrigados a buscar fragmentos do passado e a desenterrar notas de rodapé da história para pintar um quadro de eras cinematográficas passadas para as gerações de então e para as futuras. Em que medida uma obra como Vassourinha segue essa trajetória de pesquisa histórica e, na sua visão, de que modo ela se desvia dela?

CA: Trabalhar com fragmentos — com os restos, com os pequenos detalhes no rodapé da página — é uma atitude professada pela École dos Annales e por historiadores como Benjamin e Warburg. Os historiadores de cinema que você mencionou trabalharam a partir de um ponto de vista periférico, em que questões de subdesenvolvimento eram muito presentes no Brasil, e foram informados pela experiência tardia da modernidade no Brasil. Eles certamente conjuraram um corpo de trabalho fundamental e forneceram referências para qualquer pessoa interessada na aventura de investigar o passado do cinema brasileiro. Eu acho que Vassourinha faz parte dessa tradição que você mencionou no sentido de uma pesquisa profunda sobre raízes profundamente nacionais, como se a questão da identidade nacional fosse uma questão crucial e definidora, e uma espécie de adesão a temas populares do modo defendido pelo Modernismo brasileiro (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). Os elementos da cultura popular foram tomados como uma senha para uma revelação do Brasil aos próprios brasileiros. No que diz respeito a Vicente de Paula Araújo, o meu método de pesquisa é, em certa medida, parecido com o dele, compartilhando o mergulho profundo nas fontes primárias de materiais de referência. No que diz respeito a Paulo Emílio, a minha mente opera dentro do mesmo quadro que a dele: uma espécie de investigação sociológica sobre o fato humano. Acho que Vassourinha se desvia dessa tradição na medida em que assume radicalmente uma noção de meta-história poética, no sentido de que não é obrigado a esclarecer nem concluir nada no que diz respeito a um projeto nacional definido em termos de teleologia e de uma grande síntese. Eu valorizo as lacunas, os lapsos, a inconclusividade misteriosa; a pesquisa séria não serve a nenhum tipo de “redenção” do nosso orgulho — as obras e os artistas compõem uma constelação em movimento (em movimento; emocional).

CL: No seu ensaio "Reapropriação de arquivo e imantação de afeto", você traz, a partir do conceito de “Cinema Infinito” de Hollis Frampton, o ideal de um “Arquivo Infinito”. O conceito decorre da relação do cinema com a era digital e da capacidade interminável de “reciclar digitalmente os começos do cinema”. Em outro momento, referindo-se à noção de Leitfossil em Aby Warburg e Georges Didi-Huberman, você afirma que “na minha câmara de maravilhas, não existe arquivo morto; apenas arquivos vivos, adormecidos em suas formas”.

Tanto a noção de um “Arquivo Infinito” quanto a negação de um arquivo morto parecem desconsiderar, à primeira vista, o estado aparentemente finito do arquivamento que se impôs às instituições brasileiras por décadas. No entanto, num segundo olhar, pode-se perceber que você não está negando a realidade de que existem fins no arquivo, mas está expandindo as maneiras pelas quais esses fins podem ser usados na era digital — as imagens podem ser reproduzidas infinitamente numa variedade de formas, formatos e expressões.

Você pode comentar essa interpretação das suas ideias? E como a noção de “Arquivo Infinito” pode ser vista sob a particular guisa da situação arquivística brasileira?

CA: Na minha tese de doutorado e em artigos posteriores publicados em revistas acadêmicas, eu transferi (e transformei) a noção de Frampton para o domínio do found footage. Eu acho que isso é uma contribuição original aos estudos de cinema, essa montagem conceitual que eu faço entre Benjamin, Frampton e Warburg (entre muitas outras noções teóricas, culturais e históricas). Avançar para o contexto geográfico e sociopolítico-econômico de um país como o Brasil exigiria um esforço e uma extensão de argumento que eu não sou capaz de realizar no breve contexto desta entrevista. Evidentemente, à primeira vista, as próprias dificuldades econômicas trazem outros parâmetros para a questão: como pensar a sobrevivência das imagens (como depositárias da memória nacional) se a própria sobrevivência do arquivo (como instituição desse dever) é atormentada por riscos à sua contingência material? Por outro lado, a condição brasileira tem características únicas e originais que a distinguem de outros países: nossa formação colonial, nossa situação periférica, nossa modernidade conservadora, nossa desigualdade social escandalosa e a força artística e intelectual de várias gerações que responderam a esses desafios. Precisamos lembrar que o celuloide é feito também de matéria orgânica e, portanto, sujeito à decomposição, assim como nós. Precisamos ter em mente que o que sobreviveu até o nosso tempo dos poemas de Safo são apenas fragmentos de seus versos, e a beleza da sua poesia é em parte a beleza dessa qualidade de escassez. Paradoxalmente, eu imaginaria que a própria noção de “arquivo infinito”, quando aplicada ao Brasil, implicaria um cinema finito, a própria finitude do cinema, sua fragilidade material e intrínseca, sua condição “humana”.

CL: Como você bem sabe, o mais importante arquivo de filmes do Brasil, a Cinemateca Brasileira, está agora atravessando uma nova crise em que todo o seu acervo corre risco de ser destruído. O momento atual evoca na nossa mente um episódio à la Além da Imaginação, em que um cineasta de found footage acorda e descobre que já não existe mais found footage para ser encontrado. Embora o seu trabalho certamente tenha apresentado found footage que foi obtido para além dos muros de uma instituição arquivística, não se pode negar que essas instituições são repositórios de obras culturais que ainda permanecem escondidas do olhar público. Em primeiro lugar, você pode comentar a negligência histórica do governo brasileiro em investir adequadamente na preservação da memória cultural brasileira? Por fim, você pode comentar o que esse cenário potencialmente distópico evoca para você em relação ao seu corpo de trabalho, aos aspirantes a cineastas de found footage e ao futuro do found footage no Brasil?

CA: Estamos vivendo atualmente tempos sombrios e terríveis no Brasil, e muitas instituições públicas relacionadas à cultura (e à educação) estão sob ameaça, em diferentes níveis, graus e circunstâncias, como a Casa de Rui Barbosa e a Cinemateca Brasileira. Esta última é o nosso arquivo de filmes mais reconhecido, mas existem outros, menores, espalhados por cidades do país, dois dos quais são particularmente merecedores da nossa atenção e respeito, por possuírem grandes acervos e realizarem um trabalho de pesquisa notável e bom: a Cinemateca do MAM (Museu de Arte Moderna) e o Arquivo Nacional (ambos no Rio de Janeiro). No caso da Cinemateca Brasileira, assim como desses outros arquivos, há um problema que vem acontecendo há anos e é uma questão complexa — o que está acontecendo agora é de grande urgência, porque afeta questões básicas de manutenção do próprio arquivo (além dos salários da equipe técnica, a crise atual afeta serviços de fornecimento de energia elétrica, o que ameaça a refrigeração e a segurança). A tragédia do incêndio no Museu Nacional (Rio de Janeiro) em 2018 serve como metáfora para a falta de compromisso público com a memória e o patrimônio nacionais: a negligência transforma a memória em cinzas. O episódio patético do governo brasileiro (literalmente) tomar as chaves da Cinemateca, junto ao incêndio do Museu Nacional, é por si só uma imagem simbólica poderosa. Claro, como cineasta de found footage, eu tenho um engajamento com o arquivamento de filmes e acho que não foi mera coincidência eu ter sido convidado a fazer o filme oficial da celebração do centenário de Paulo Emílio Salles Gomes (Festejo Muito Pessoal, 2016). Pessoalmente, eu sempre trabalhei com estilhaços, sobras, restos, fragmentos incompletos; materiais perdidos, negligenciados e esquecidos. Portanto, eu estou acostumado a trabalhar na escassez e na pobreza. Eu sempre tenho em mente o adágio de que “sempre pode ser pior”, o que talvez não alivie muitas ansiedades sobre o futuro. Os versos “carpe diem” de Horácio nos ajudam a encarar nossas fraquezas e incertezas, que agora são muito maiores com a crise da COVID-19.

CL: Parte do espanto ao assistir a Vassourinha é o fato de ser tão raro ver obras desveladas do arquivo que destaquem as vidas de artistas negros importantes do passado. De certa forma, o filme projeta o papel que os arquivos deveriam estar cumprindo na sociedade contemporânea — isto é, para além de apenas preservar materiais, recuperar e apresentar existências e narrativas até então reprimidas. Na sua visão, por que levou quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha no seu filme? E, como você mesmo já trabalhou como arquivista no passado, o que você acha que futuros arquivistas podem aprender com o filme? O que, de fato, é mais importante salvar para as gerações futuras?

CA: Para mim é muito difícil dizer “por que [levou] quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha”… Seria tentador, e seria uma falácia também, dizer que Vassourinha estava ansioso para me encontrar, que sua arte e seu ofício estavam esperando pelo meu gesto… Eu não sei por que demorou tanto tempo… Pode-se pensar em razões sociais, já que ele era um garoto negro de uma família pobre e não teve tempo suficiente para construir uma fama que perdurasse. Por outro lado, temos muitos casos de grandes artistas em diferentes áreas artísticas que foram esquecidos. [O cinema de found footage é] uma maneira muito pessoal (beirando o loucamente idiossincrática) de lidar com artefatos históricos, uma forma criativa de trabalhar com a história, não apenas no sentido de salvar os restos, mas de trazê-los de volta à vida e mantê-los vivos. A história servindo para fazer vibrar a história de Vassourinha. Eu me considero um cineasta muito materialista, no sentido de que eu valorizo sobretudo os materiais raros e crus de que a história é feita. Acho que se pode sentir, de um modo muito palpável, uma materialidade sensual que meus filmes colocam na tela. Além dos próprios materiais (os “restos”), acho que também é muito importante preservar o sabor do tempo — o zeitgeist — em que se vive. E isso é uma ordem de alquimia: lembrar a obra de Duchamp “Ar de Paris”. De fato, como cineasta comunista, o que seria realmente “mais importante salvar para as gerações futuras” é a própria vida — as vidas de tantos artistas (e pensadores) que nos inspiram e nos fazem florescer. Mas isso está muito longe da utopia; tentar derrotar a morte… Como colocou André Bazin, o cinema carrega um complexo de múmia.

CL: Por fim, desde o lançamento de A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, houve um novo ressurgimento de interesse na vida de Vassourinha. Vários músicos famosos regravaram suas canções e há rumores de que um longa-metragem sobre sua vida está em desenvolvimento. Você vê algo disso como parte do legado e do impacto que o seu filme teve? Relacionado a isso, qual você acha que é a probabilidade de existirem centenas de outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos: talentos inimitáveis, históricos e, na maioria das vezes, negros e marginalizados, cujos legados nunca chegaram ao povo do Brasil para além do seu tempo?

CA: Como o homem mais humilde e mais modesto que eu sou, devo reconhecer que o meu filme definitivamente e certamente teve um impacto de “trazer” Vassourinha “de volta à vida”. Eu odiaria parecer pretensioso, mas é um fato: eu contribuí para tornar Vassourinha mais conhecido e mais apreciado. O meu filme foi capa dos dois principais jornais de São Paulo (na primeira página dos cadernos culturais), que são os principais do Brasil. Eu não me compararia ao status que alguns dão a Ezra Pound, como sendo o re-inventor do provençal para os tempos modernos, um poeta que abraça um trabalho de tradução e crítica; mas é quase isso…de certa forma, eu “inventeI” Vassourinha para os tempos contemporâneos, e eu tenho orgulho de que isso tenha sido feito dentro de um modo de cinema de vanguarda. Depois que o meu filme foi lançado, Caetano Veloso (que já conhecia os meus filmes naquela época) me procurou sobre um projeto proposto por Paula Lavigne (sua esposa e empresária) de relançar os discos originais de Vassourinha junto com um conjunto de Caetano e Chico Buarque interpretando novas versões do repertório de Vassourinha. O meu filme seria uma peça-chave nesse projeto, em shows e em um possível lançamento de DVD junto com o CD; infelizmente isso não foi adiante por algum motivo, talvez porque uma gravadora tenha decidido, em vez disso, lançar apressadamente as canções de Vassourinha. Com certeza existem “outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos”: durante a minha pesquisa para fazer o filme Vassourinha, eu mesmo encontrei uma espécie de Vassourinha feminino quase no mesmo estilo—chapéu de palha, samba sincopado—não tão famosa no seu tempo quanto Vassourinha, atuando de meados dos anos 1930 a meados dos anos 1940 e, depois, completamente esquecida pelo público. Eu só consegui encontrar seis gravações em 78 rpm da sua voz-canto (metade de toda a discografia de Vassourinha). Eu adoraria fazer um filme sobre ela, mas já se passaram 22 anos e eu ainda não o fiz…uma companheira de Vassourinha, em moda e estilo musical, a voz dela permaneceu, de fato, perdida para um vazio mais profundo.

1. Bernardo Vorobow (1946–2009), além de ter sido parceiro de Adriano até sua morte, em 2009, atuou como diretor e programador da Sociedade Amigos da Cinemateca (1970–75); coordenador e programador de cinema no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (1972–76); fundador, diretor e programador do Departamento de Cinema do Museu da Imagem e do Som (MIS, São Paulo, 1975–85); bem como fundador, diretor e programador do Departamento de Difusão e Programação da Cinemateca Brasileira (1982–99), atuando depois como programador até 2009.

2. Miécio Caffé seria o tema do filme de Adriano de 2003, A Caffé com Miécio.

Não deve surpreender que, no Brasil, assim como na maioria dos países historicamente chamados de “subdesenvolvidos”, a questão da memória cultural e do acesso à história, tal como ditados pelo arquivo, seja muito mais precária do que para quem aborda o tema a partir da relativa riqueza dos Estados Unidos ou da Europa. Há muito mais lacunas, apagamentos e interstícios para os quais pedaços da cultura brasileira podem cair com uma frequência muito maior, condição que é ao mesmo tempo de determinação política e de incapacidade física. Quanto a esse segundo fator, basta lembrar que a Atlântida Cinematográfica — o estúdio brasileiro responsável pela maioria dos filmes de chanchada — teve de queimar suas cópias em nitrato da era de ouro dos anos 40 e 50 depois que novas cópias de segurança foram feitas, por medo de que o estúdio inteiro pegasse fogo devido à combinação de película de nitrato e calor tropical. Portanto, para um arquivista brasileiro — ou seu equivalente do lado da produção, o cineasta de found footage — a tarefa de sequer dar os primeiros passos rumo à reunião de documentos para o seu trabalho é árdua e certamente será marcada por muitas frustrações, a menos que o tema em questão tenha um espólio excepcionalmente bem cuidado.

Assim, trabalhadores culturais brasileiros encontram seu trabalho determinado sob o signo da fragmentação, e vemos que o trabalho mais instigante é aquele que ostenta essa marca como motivo de orgulho e usa sua forma para refletir suas inconsistências materiais. Carlos Adriano trabalha com os arquivos cinematográficos do Brasil há mais de vinte anos, criando filmes que ao mesmo tempo preservam e projetam as lacunas e outras formas de falta que ele encontra quando se depara com seções até então não documentadas do passado do Brasil.

Cinelimite: Você pode descrever como encontrou originalmente a figura de Vassourinha? Como cineasta de found footage, você estava buscando ativamente um novo tema para explorar ou Vassourinha entrou na sua vida de uma forma mais inesperada?

Carlos Adriano: Pode-se dizer que, até o meu longa documental Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), aqueles dos meus filmes que lidam com found footage ou material de arquivo compartilham uma marca comum e essencial: todos são sobre temas desconhecidos, esquecidos ou perdidos da cultura brasileira (e seus materiais remanescentes). Por exemplo: Remainiscences (1994-1997) é sobre a suposta primeira filmagem do Brasil (registrada em 1897); Militancy (2001-2002) é sobre a lanterna mágica do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) é sobre o único filme feito pelo escritor Monteiro Lobato (assim como a única gravação de áudio de sua voz); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) é sobre os filmes inacabados do poeta Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) é sobre um filme de mutoscópio (1901) que apresenta o inventor e aviador brasileiro Santos Dumont. Então Vassourinha é um tema coerente, de uma perspectiva “retrospectiva”. Pessoalmente, eu gostava muito dele como um cantor original, alguém que faz parte de uma tradição “discreta”, que inclui Orlando Silva (na sua primeira fase), Mário Reis, Roberto Silva e João Gilberto. Essa tradição comumente apresenta um tipo de canto próximo da palavra falada, um “canto falado” ("spoken song"). Eu tinha o disco de Vassourinha muito antes da ideia de fazer o filme. De certa forma, o filme é uma espécie de tributo de fã. Além disso, a tragédia da vida de Vassourinha — morrer aos 19 anos de uma doença rara—é uma questão relacionada a outro eixo do meu trabalho cinematográfico (mortalidade, morte e vida). Também me interessava a extrema raridade do tema — um artista sobre o qual restou muito pouca informação e documentação. Vassourinha entrou na minha vida tão inesperadamente quanto todas as boas fortunas, por um acaso amoroso.

CL: Ao saber mais sobre Vassourinha e decidir fazer um filme sobre ele, como você iniciou o processo de reunir o imenso número de fotografias, sons, recortes de jornal, partituras e até registros financeiros que podem ser encontrados em A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Esses registros foram apresentados a você dentro de um único arquivo ou você passou por um longo processo de pesquisa em inúmeros lugares para rastrear esse material? Conte para nós como foi esse processo de coleta.

CA: O grande ponto de partida está encapsulado no loop que eu montei a partir de duas palavras da canção da Emília no início do filme: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). Eu comecei com quase nada, apenas alguns trechos e pistas. Depois de uma investigação extensa (e intensa) — em algum lugar entre a arqueologia e o trabalho de detetive — eu e Bernardo Vorobow (coprodutor e meu companheiro de vida de longa data)1 conduzimos pesquisa em toda fonte possível, até conseguirmos dois álbuns pessoais de recortes de jornal reunidos pelo próprio Vassourinha. Um deles me foi dado generosamente por Alberto Helena Junior, um grande fã e importante estudioso de Vassourinha; o outro álbum eu obtive do que restou da família do cantor: um irmão adotivo. Todos os seis discos de 78 rpm gravados por Vassourinha que foram usados no filme para filmagem e gravação (todo o som do filme veio desses discos) pertencem à coleção privada de Miécio Caffé.2 A coleção de Miécio Caffé estava, naquele momento, depositada no Museu da Imagem e do Som (São Paulo). Tive a sorte de conhecer pessoalmente Raul Duarte, o produtor/diretor de rádio que contratou Vassourinha para cantar na Rádio Record, e de conversar com um médico que tratou Vassourinha durante sua última internação. O próprio caminho do processo de pesquisa ditou a estrutura do filme: uma enorme quantidade de informação sobre alguém sobre quem as pessoas não sabiam quase nada. Fragmentos, espectros, restos — a matéria de que a vida é feita. O processo de coleta é, de certa forma, metaforizado na sequência final no cemitério: a busca pelo túmulo dele foi como a busca pelas informações sobre sua vida-obra.

CL: Você acha que o intercâmbio cultural entre dois ou mais países poderia incitar o governo brasileiro a perceber o valor das suas próprias obras nacionais? Você acha que uma grande iniciativa no exterior, manifestada em grandes retrospectivas ou em prêmios mais prestigiosos sendo dados a filmes brasileiros, poderia ser o catalisador para que o governo no Brasil finalmente perceba que precisa financiar a Cinemateca Brasileira e que precisa finalmente apoiar a indústria do cinema e seus trabalhadores culturais de maneira respeitosa e solidária?

CA: Eu acho que esse sentimento de testemunhar um “renascimento” ou uma “redefinição” de um ícone esquecido é natural, já que um dos propósitos do filme é fazer Vassourinha viver de novo, “simplesmente” como ele é. Como o filme é um gesto de amor (um labor de vida, um labor de amor), esse sentimento vem da tela e vai em direção ao rosto do espectador ouvinte. Talvez não seja tão preciso dizer que Vassourinha é desconhecido, porque no tempo dele ele era muito famoso. Ele caiu no esquecimento depois, após sua morte, no pós. Em português, a palavra “olvido” (esquecimento) é próxima de “ouvido” (orelha), e essa é uma senha que eu tentei trabalhar formalmente, como uma forma de operação estética: representar os limites entre o esquecimento e o resgate desse esquecimento por meio do ato de ouvir a voz desse artista. Mas a voz dele caiu num vazio, então eu senti que a minha “missão” (em termos do meu respeito a esse ser humano e à sua arte) era prestar o mais alto tributo: criar um verdadeiro diálogo. Eu tive a sorte de conseguir reunir aquela enorme quantidade de documentação histórica sobre alguém sobre quem “ninguém sabia nada”. O filme trabalha em torno dos limites da legibilidade, a fronteira entre ler e entender. E foi exatamente essa contradição — o fato de existirem muitos documentos sobre uma figura elusiva — que costurou e fortaleceu a força do filme. O fato de que “esses documentos nem aparecem na tela por tempo suficiente para que o espectador consiga lê-los completamente” foi uma escolha operacional que eu fiz para “traduzir” o signo e o mito de Vassourinha. O melhor testemunho que eu poderia fornecer (além do melhor e mais sincero tributo à arte de Vassourinha) era “deixar esses materiais históricos falarem por si” — mas articulados por ferramentas próprias do meio cinematográfico, no que diz respeito ao seu poder de construir (e desconstruir) associações por meio da musa suprema do cinema, a montagem (“edição” seria uma palavra que não faz justiça ao trabalho em si). Minha tarefa humilde foi de natureza [Walter] benjaminiana: reunir esse saco de trapos e sugerir uma constelação coerente.

CL: Dos cinco filmes que você fez e que lidam com histórias culturais esquecidas do Brasil, este é o único que trata exclusivamente de um músico. Como o trabalho de garimpar os arquivos de um sambista diferiu daquele dos seus filmes que se concentram na história do cinema? Ou há uma metodologia recorrente na sua abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência?

CA: Eu não tenho muita certeza se há alguma diferença — do meu ponto de vista da operação cinematográfica — entre trabalhar sobre o arquivo de um sambista e trabalhar sobre o arquivo de um artista de outro meio (literatura, fotografia, caricatura). Porque o cinema é “meu”, é o meu modo operacional de trabalho; quando eu trabalho sobre a obra de um artista, eu tento entender e traduzir seus elementos essenciais para o meu vocabulário (a minha linguagem pessoal do cinema), para estar em sintonia com o seu clima artístico. Como você pode ler em um dos recortes de jornal, Vassourinha interpretou “De Babado”, uma canção escrita por Noel Rosa e João Mina, e gravada por Noel Rosa e Marília Batista em 1936. Esse disco aparece em uma sequência de Santoscope = Dumontage — e, claro, eu tenho essa conexão em mente. O primeiro álbum (33 rpm) lançado com todos os seis sambas gravados por Vassourinha, no fim dos anos 60, teve sua capa desenhada por Miécio Caffé, um famoso (mas que também caiu no esquecimento) caricaturista e colecionador de música, e toneladas de cantores brasileiros iam folhear a coleção privada de discos antigos de 78 rpm de Miécio para pesquisar e estudar. Para citar apenas dois: Chico Buarque e João Gilberto — as lendárias releituras de sambas brasileiros feitas por João Gilberto não seriam possíveis sem a coleção de Miécio Caffé. Em 2003, eu fiz o filme e, para esse filme, Caetano Veloso fez uma nova gravação de um samba menos conhecido, “A Voz do Povo”, originalmente composto por Malfitano e Frasão e gravado por Orlando Silva em 1941. Veloso chamou o samba de um manifesto para o meu trabalho no cinema. Sim, há uma metodologia recorrente na minha abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência, para citar o título do meu filme sobre os filmes inacabados de Pignatari — note que eu implico um jogo entre « existência » e « resistência », que configuram um par-chave em jogo.

Precisamos tentar oferecer acesso ao cinema brasileiro da melhor forma possível, porque as pessoas precisam saber que esses tesouros existem. Se elas não tiverem esse acesso básico, os filmes serão ignorados e perderão seu valor para o público. Precisamos impedir isso e dar uma virada completa de 180 graus na política no que diz respeito ao acesso.

CL: A história dos arquivos culturais no Brasil é repleta de histórias de perda, tragédia e negligência. No entanto, também é possível ver essa história como um relato ocasional de triunfo, já que a vontade de alguns indivíduos conseguiu preservar a memória cultural brasileira até os dias de hoje. Seus esforços nos permitiram extrair novas ideias de obras históricas da arte brasileira no nosso momento presente.

Como cineasta de found footage, muitas das suas obras lidam com as memórias culturais esquecidas do passado do Brasil. Você pode falar sobre como a história e os esforços passados de preservação cultural no Brasil impactaram o seu trabalho? Por que, na sua visão, figuras tão importantes como Vassourinha foram (antes) esquecidas?

CA: Há uma trajetória de pesquisa acadêmica na minha vida. Eu me formei na escola de cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP – Universidade de São Paulo (ECA-USP). Tenho meu mestrado e meu doutorado (2008) na mesma USP, ambos orientados pelo Prof. Ismail Xavier. Além disso, fiz dois pós-doutorados, um em Artes (na Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP, 2014), supervisionado pelo Prof. Arlindo Machado, e um em Cinema (na USP, 2017), supervisionado pelo Prof. Cristian Borges. Para o meu doutorado e o meu pós-doutorado na PUC-SP, tive bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e, para o meu pós-doutorado na USP, tive uma bolsa da CAPES. Essa longa e entediante citação de currículo serve apenas para mostrar o quão seriamente eu levo a pesquisa acadêmica e como, ao longo da minha vida, esferas de estudo e de arquivamento informaram a minha trajetória. Eu também trabalhei na Cinemateca Brasileira de 1986 a 1999.

Talvez eu possa responder à sua primeira pergunta com um exemplo de um estudo de caso. Minha pesquisa de doutorado (que abriu caminho para a produção de dois filmes sobre Santos Dumont) foi baseada em um objeto desconhecido da Coleção Santos Dumont do Museu Paulista da USP (também conhecido como Museu do Ipiranga). Era um objeto não identificado em termos de ano e origem de produção, sua natureza técnica, e até mesmo o nome que lhe foi atribuído estava errado e era enganoso — mas ele estava lá, no arquivo. Depois de seguir um caminho de pesquisa semelhante ao que foi perseguido em Vassourinha, eu identifiquei que se tratava de um hub de mutoscópio, produzido em 1901 pelo ramo britânico da American Mutoscope & Biograph Company, provavelmente filmado por William K.L. Dickson, e, em seguida, rastreei sua história arquivística. A última frase da sua pergunta exigiria uma explicação grande demais, então eu me arriscaria a dizer, de forma breve, que eu acho que o Brasil historicamente tem uma tradição consistente de tratar mal e pior seus melhores filhos e filhas, principalmente no campo da cultura.

CL: CL: Em Vassourinha, há momentos em que a trilha sonora começa e para, como se um disco de 78 rpm estivesse pulando. Isso muitas vezes é acompanhado, na faixa de imagem, por um efeito de flicker. Sabendo das suas afinidades com outros cineastas de found footage, como Ken Jacobs, como você vê esse efeito de flicker operando em relação ao seu uso em outros contextos globais, e há algo no arquivo brasileiro, e na vida de Vassourinha, que tenha te levado a usar esse efeito?

CA: Eu só poderia falar do meu uso pessoal do flicker (que, claro, está enraizado numa tradição do cinema de vanguarda), um recurso que eu uso bastante nos meus filmes. Em Santoscope = Dumontage, o flicker é um dispositivo do cinema estrutural extraído do próprio aparelho de mutoscópio que hospedava o filme original de 1901 sobre Santos Dumont com o qual eu trabalhei. No caso de Vassourinha, o flicker tem um papel um pouco análogo ao que eu usei em Remainiscences: no sentido de lacunas, lapsos, elos perdidos, abismos perdidos, o vazio. Mas em Vassourinha há um excedente: o flicker como uma instância de consciência, como um momento em que o obturador rapidamente obliterra a imagem para fazê-la ressoar no tempo; então o flicker é um elemento constituinte do tecido da história de Vassourinha (que foi rasgado em pedaços), mas também é um dispositivo para entender essa história. Há até uma rima formal com a condição da sua negritude, no sentido do que é ocultado ou apagado. É como se o flicker fosse um correspondente à “imagem dialética” de Walter Benjamin, aquele momento breve e elusivo em que as associações faiscam para além do tempo histórico. Eu gosto muito da noção benjaminiana de história, tanto como lixo e ruínas quanto como o ponto de vista dos perdedores. Naturalmente, em um país periférico como o Brasil — que sempre abusou de suas instituições encarregadas da preservação de sua memória cultural, e que tem um longo e sombrio passado de apagar e reprimir suas figuras (enraizado na sua história com a escravidão) — o flicker alcança um poder alegórico profundo (e eu uso esse termo tal como Ismail Xavier o definiu tão bem em seu livro seminal Alegorias do Subdesenvolvimento) de um modo, em certa medida, muito além das maravilhas formais do flicker de Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad e outros.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, além de ser uma obra de arte investida no gesto de ressurreição, também serve, mesmo não projetado como um rolo de celuloide, como um verdadeiro repositório de imagens e documentação relacionadas a Vassourinha — um arquivo em si. O que você pensa disso e como você sente que o material histórico se transforma quando passa de um meio para outro?

CA: Definitivamente, o filme Vassourinha é uma peça de arte analógica — ele foi pensado e feito como um filme em 35mm. E eu prezo sobretudo o conceito de “filme infinito”, de Hollis Frampton, em seu ensaio de meta-história, que eu “traduzi” na minha tese de doutorado para o domínio do found footage. Minha tese de doutorado ainda não foi publicada como livro, mas você pode consultá-la no banco de teses da Universidade de São Paulo, e eu publiquei um ensaio baseado nela na revista Anais do Museu Paulista. Eu peguei todos os documentos de Vassourinha que consegui encontrar e os reuni como “quadros” de um filme infinito — todos os materiais são matéria de poesia cinematográfica. Eu lamento que você não consiga exibir o filme no seu formato original de 35mm. Eu fiz algumas viradas disruptivas com o celuloide que só se realizam plenamente em forma fílmica. A “ressurreição” que você menciona é realizada no (e por meio do) próprio celuloide. Além do flicker, eu usei véus, aqueles quadros misteriosos que não são devidamente expostos no obturador da câmera. Com exceção da sequência final, filmada em locação no cenário do cemitério onde Vassourinha está enterrado, o filme foi filmado com uma máquina de animação Oxberry. Um dos maiores elogios, do qual eu mais me orgulho, é sobre o meu estilo de montagem: mesmo quando monto numa ilha digital, o meu trabalho é tributário da moviola. No sentido de passar do meio da história para o meio do cinema, eu diria que a transformação ocorre no campo da poesia. Eu tomo a palavra aqui no sentido de poética, o método de estrutura, uma questão de forma, uma maneira de moldar materiais e pensamentos. E eu diria que historiadores como Walter Benjamin, Aby Warburg e Hayden White contribuíram para libertar o documento, para que ele possa ser reapropriado pelos artistas.

CL: Historiadores importantes do cinema brasileiro, como Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959) e Paulo Emílio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, escrito nos anos 60, mas publicado pela primeira vez em 1986), foram obrigados a buscar fragmentos do passado e a desenterrar notas de rodapé da história para pintar um quadro de eras cinematográficas passadas para as gerações de então e para as futuras. Em que medida uma obra como Vassourinha segue essa trajetória de pesquisa histórica e, na sua visão, de que modo ela se desvia dela?

CA: Trabalhar com fragmentos — com os restos, com os pequenos detalhes no rodapé da página — é uma atitude professada pela École dos Annales e por historiadores como Benjamin e Warburg. Os historiadores de cinema que você mencionou trabalharam a partir de um ponto de vista periférico, em que questões de subdesenvolvimento eram muito presentes no Brasil, e foram informados pela experiência tardia da modernidade no Brasil. Eles certamente conjuraram um corpo de trabalho fundamental e forneceram referências para qualquer pessoa interessada na aventura de investigar o passado do cinema brasileiro. Eu acho que Vassourinha faz parte dessa tradição que você mencionou no sentido de uma pesquisa profunda sobre raízes profundamente nacionais, como se a questão da identidade nacional fosse uma questão crucial e definidora, e uma espécie de adesão a temas populares do modo defendido pelo Modernismo brasileiro (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). Os elementos da cultura popular foram tomados como uma senha para uma revelação do Brasil aos próprios brasileiros. No que diz respeito a Vicente de Paula Araújo, o meu método de pesquisa é, em certa medida, parecido com o dele, compartilhando o mergulho profundo nas fontes primárias de materiais de referência. No que diz respeito a Paulo Emílio, a minha mente opera dentro do mesmo quadro que a dele: uma espécie de investigação sociológica sobre o fato humano. Acho que Vassourinha se desvia dessa tradição na medida em que assume radicalmente uma noção de meta-história poética, no sentido de que não é obrigado a esclarecer nem concluir nada no que diz respeito a um projeto nacional definido em termos de teleologia e de uma grande síntese. Eu valorizo as lacunas, os lapsos, a inconclusividade misteriosa; a pesquisa séria não serve a nenhum tipo de “redenção” do nosso orgulho — as obras e os artistas compõem uma constelação em movimento (em movimento; emocional).

CL: No seu ensaio "Reapropriação de arquivo e imantação de afeto", você traz, a partir do conceito de “Cinema Infinito” de Hollis Frampton, o ideal de um “Arquivo Infinito”. O conceito decorre da relação do cinema com a era digital e da capacidade interminável de “reciclar digitalmente os começos do cinema”. Em outro momento, referindo-se à noção de Leitfossil em Aby Warburg e Georges Didi-Huberman, você afirma que “na minha câmara de maravilhas, não existe arquivo morto; apenas arquivos vivos, adormecidos em suas formas”.

Tanto a noção de um “Arquivo Infinito” quanto a negação de um arquivo morto parecem desconsiderar, à primeira vista, o estado aparentemente finito do arquivamento que se impôs às instituições brasileiras por décadas. No entanto, num segundo olhar, pode-se perceber que você não está negando a realidade de que existem fins no arquivo, mas está expandindo as maneiras pelas quais esses fins podem ser usados na era digital — as imagens podem ser reproduzidas infinitamente numa variedade de formas, formatos e expressões.

Você pode comentar essa interpretação das suas ideias? E como a noção de “Arquivo Infinito” pode ser vista sob a particular guisa da situação arquivística brasileira?

CA: Na minha tese de doutorado e em artigos posteriores publicados em revistas acadêmicas, eu transferi (e transformei) a noção de Frampton para o domínio do found footage. Eu acho que isso é uma contribuição original aos estudos de cinema, essa montagem conceitual que eu faço entre Benjamin, Frampton e Warburg (entre muitas outras noções teóricas, culturais e históricas). Avançar para o contexto geográfico e sociopolítico-econômico de um país como o Brasil exigiria um esforço e uma extensão de argumento que eu não sou capaz de realizar no breve contexto desta entrevista. Evidentemente, à primeira vista, as próprias dificuldades econômicas trazem outros parâmetros para a questão: como pensar a sobrevivência das imagens (como depositárias da memória nacional) se a própria sobrevivência do arquivo (como instituição desse dever) é atormentada por riscos à sua contingência material? Por outro lado, a condição brasileira tem características únicas e originais que a distinguem de outros países: nossa formação colonial, nossa situação periférica, nossa modernidade conservadora, nossa desigualdade social escandalosa e a força artística e intelectual de várias gerações que responderam a esses desafios. Precisamos lembrar que o celuloide é feito também de matéria orgânica e, portanto, sujeito à decomposição, assim como nós. Precisamos ter em mente que o que sobreviveu até o nosso tempo dos poemas de Safo são apenas fragmentos de seus versos, e a beleza da sua poesia é em parte a beleza dessa qualidade de escassez. Paradoxalmente, eu imaginaria que a própria noção de “arquivo infinito”, quando aplicada ao Brasil, implicaria um cinema finito, a própria finitude do cinema, sua fragilidade material e intrínseca, sua condição “humana”.

CL: Como você bem sabe, o mais importante arquivo de filmes do Brasil, a Cinemateca Brasileira, está agora atravessando uma nova crise em que todo o seu acervo corre risco de ser destruído. O momento atual evoca na nossa mente um episódio à la Além da Imaginação, em que um cineasta de found footage acorda e descobre que já não existe mais found footage para ser encontrado. Embora o seu trabalho certamente tenha apresentado found footage que foi obtido para além dos muros de uma instituição arquivística, não se pode negar que essas instituições são repositórios de obras culturais que ainda permanecem escondidas do olhar público. Em primeiro lugar, você pode comentar a negligência histórica do governo brasileiro em investir adequadamente na preservação da memória cultural brasileira? Por fim, você pode comentar o que esse cenário potencialmente distópico evoca para você em relação ao seu corpo de trabalho, aos aspirantes a cineastas de found footage e ao futuro do found footage no Brasil?

CA: Estamos vivendo atualmente tempos sombrios e terríveis no Brasil, e muitas instituições públicas relacionadas à cultura (e à educação) estão sob ameaça, em diferentes níveis, graus e circunstâncias, como a Casa de Rui Barbosa e a Cinemateca Brasileira. Esta última é o nosso arquivo de filmes mais reconhecido, mas existem outros, menores, espalhados por cidades do país, dois dos quais são particularmente merecedores da nossa atenção e respeito, por possuírem grandes acervos e realizarem um trabalho de pesquisa notável e bom: a Cinemateca do MAM (Museu de Arte Moderna) e o Arquivo Nacional (ambos no Rio de Janeiro). No caso da Cinemateca Brasileira, assim como desses outros arquivos, há um problema que vem acontecendo há anos e é uma questão complexa — o que está acontecendo agora é de grande urgência, porque afeta questões básicas de manutenção do próprio arquivo (além dos salários da equipe técnica, a crise atual afeta serviços de fornecimento de energia elétrica, o que ameaça a refrigeração e a segurança). A tragédia do incêndio no Museu Nacional (Rio de Janeiro) em 2018 serve como metáfora para a falta de compromisso público com a memória e o patrimônio nacionais: a negligência transforma a memória em cinzas. O episódio patético do governo brasileiro (literalmente) tomar as chaves da Cinemateca, junto ao incêndio do Museu Nacional, é por si só uma imagem simbólica poderosa. Claro, como cineasta de found footage, eu tenho um engajamento com o arquivamento de filmes e acho que não foi mera coincidência eu ter sido convidado a fazer o filme oficial da celebração do centenário de Paulo Emílio Salles Gomes (Festejo Muito Pessoal, 2016). Pessoalmente, eu sempre trabalhei com estilhaços, sobras, restos, fragmentos incompletos; materiais perdidos, negligenciados e esquecidos. Portanto, eu estou acostumado a trabalhar na escassez e na pobreza. Eu sempre tenho em mente o adágio de que “sempre pode ser pior”, o que talvez não alivie muitas ansiedades sobre o futuro. Os versos “carpe diem” de Horácio nos ajudam a encarar nossas fraquezas e incertezas, que agora são muito maiores com a crise da COVID-19.

CL: Parte do espanto ao assistir a Vassourinha é o fato de ser tão raro ver obras desveladas do arquivo que destaquem as vidas de artistas negros importantes do passado. De certa forma, o filme projeta o papel que os arquivos deveriam estar cumprindo na sociedade contemporânea — isto é, para além de apenas preservar materiais, recuperar e apresentar existências e narrativas até então reprimidas. Na sua visão, por que levou quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha no seu filme? E, como você mesmo já trabalhou como arquivista no passado, o que você acha que futuros arquivistas podem aprender com o filme? O que, de fato, é mais importante salvar para as gerações futuras?

CA: Para mim é muito difícil dizer “por que [levou] quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha”… Seria tentador, e seria uma falácia também, dizer que Vassourinha estava ansioso para me encontrar, que sua arte e seu ofício estavam esperando pelo meu gesto… Eu não sei por que demorou tanto tempo… Pode-se pensar em razões sociais, já que ele era um garoto negro de uma família pobre e não teve tempo suficiente para construir uma fama que perdurasse. Por outro lado, temos muitos casos de grandes artistas em diferentes áreas artísticas que foram esquecidos. [O cinema de found footage é] uma maneira muito pessoal (beirando o loucamente idiossincrática) de lidar com artefatos históricos, uma forma criativa de trabalhar com a história, não apenas no sentido de salvar os restos, mas de trazê-los de volta à vida e mantê-los vivos. A história servindo para fazer vibrar a história de Vassourinha. Eu me considero um cineasta muito materialista, no sentido de que eu valorizo sobretudo os materiais raros e crus de que a história é feita. Acho que se pode sentir, de um modo muito palpável, uma materialidade sensual que meus filmes colocam na tela. Além dos próprios materiais (os “restos”), acho que também é muito importante preservar o sabor do tempo — o zeitgeist — em que se vive. E isso é uma ordem de alquimia: lembrar a obra de Duchamp “Ar de Paris”. De fato, como cineasta comunista, o que seria realmente “mais importante salvar para as gerações futuras” é a própria vida — as vidas de tantos artistas (e pensadores) que nos inspiram e nos fazem florescer. Mas isso está muito longe da utopia; tentar derrotar a morte… Como colocou André Bazin, o cinema carrega um complexo de múmia.

CL: Por fim, desde o lançamento de A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, houve um novo ressurgimento de interesse na vida de Vassourinha. Vários músicos famosos regravaram suas canções e há rumores de que um longa-metragem sobre sua vida está em desenvolvimento. Você vê algo disso como parte do legado e do impacto que o seu filme teve? Relacionado a isso, qual você acha que é a probabilidade de existirem centenas de outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos: talentos inimitáveis, históricos e, na maioria das vezes, negros e marginalizados, cujos legados nunca chegaram ao povo do Brasil para além do seu tempo?

CA: Como o homem mais humilde e mais modesto que eu sou, devo reconhecer que o meu filme definitivamente e certamente teve um impacto de “trazer” Vassourinha “de volta à vida”. Eu odiaria parecer pretensioso, mas é um fato: eu contribuí para tornar Vassourinha mais conhecido e mais apreciado. O meu filme foi capa dos dois principais jornais de São Paulo (na primeira página dos cadernos culturais), que são os principais do Brasil. Eu não me compararia ao status que alguns dão a Ezra Pound, como sendo o re-inventor do provençal para os tempos modernos, um poeta que abraça um trabalho de tradução e crítica; mas é quase isso…de certa forma, eu “inventeI” Vassourinha para os tempos contemporâneos, e eu tenho orgulho de que isso tenha sido feito dentro de um modo de cinema de vanguarda. Depois que o meu filme foi lançado, Caetano Veloso (que já conhecia os meus filmes naquela época) me procurou sobre um projeto proposto por Paula Lavigne (sua esposa e empresária) de relançar os discos originais de Vassourinha junto com um conjunto de Caetano e Chico Buarque interpretando novas versões do repertório de Vassourinha. O meu filme seria uma peça-chave nesse projeto, em shows e em um possível lançamento de DVD junto com o CD; infelizmente isso não foi adiante por algum motivo, talvez porque uma gravadora tenha decidido, em vez disso, lançar apressadamente as canções de Vassourinha. Com certeza existem “outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos”: durante a minha pesquisa para fazer o filme Vassourinha, eu mesmo encontrei uma espécie de Vassourinha feminino quase no mesmo estilo—chapéu de palha, samba sincopado—não tão famosa no seu tempo quanto Vassourinha, atuando de meados dos anos 1930 a meados dos anos 1940 e, depois, completamente esquecida pelo público. Eu só consegui encontrar seis gravações em 78 rpm da sua voz-canto (metade de toda a discografia de Vassourinha). Eu adoraria fazer um filme sobre ela, mas já se passaram 22 anos e eu ainda não o fiz…uma companheira de Vassourinha, em moda e estilo musical, a voz dela permaneceu, de fato, perdida para um vazio mais profundo.

1. Bernardo Vorobow (1946–2009), além de ter sido parceiro de Adriano até sua morte, em 2009, atuou como diretor e programador da Sociedade Amigos da Cinemateca (1970–75); coordenador e programador de cinema no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (1972–76); fundador, diretor e programador do Departamento de Cinema do Museu da Imagem e do Som (MIS, São Paulo, 1975–85); bem como fundador, diretor e programador do Departamento de Difusão e Programação da Cinemateca Brasileira (1982–99), atuando depois como programador até 2009.

2. Miécio Caffé seria o tema do filme de Adriano de 2003, A Caffé com Miécio.

It should come as no surprise that in Brazil, as in most historically so-called “underdeveloped” countries, the question of cultural memory and access to history as dictated by the archive is far more precarious than one approaching the subject from the relative wealth of the United States or Europe. There are far more gaps, erasures, and interstices for pieces of Brazilian culture to fall into with a much higher frequency, which is a condition both of political determination and physical incapability. On this second factor, one need only be pointed to the fact that Atlântida Cinematográfica — the Brazilian film studio responsible for the majority of chanchada films—had to burn its nitrate prints from the golden era of the 40s and 50s after new safety film copies were made, for fear of the entire studio burning down due to the combination of nitrate film and tropical heat. Therefore, for a Brazilian archivist — or their counterpart on the side of production, the found footage filmmaker —the task of even taking the first steps toward the gathering of documents for their work is an arduous one sure to be met with many frustrations, barring a situation where one’s subject has an exceptionally well-kept estate.

Thus Brazilian cultural workers find their labor to be determined under the sign of fragmentation, and we find the most compelling work to be that which wears this mark as one of pride and uses its form to reflect its material inconsistencies. Carlos Adriano has worked with Brazil’s cinematic archives for over twenty years, creating films that both preserve and project the gaps and other forms of lack that he encounters when faced with the heretofore undocumented sections of Brazil’s past.

Cinelimite: Can you describe how you originally came upon the figure of Vassourinha? As a found-footage filmmaker, were you actively searching for a new topic to explore, or did Vassourinha come into your life in a more unexpected way?

Carlos Adriano: One can say that, until my feature documentary Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), those of my films which deal with found footage or archive material share a common and essential mark: they are all about unknown, forgotten or lost subjects of Brazilian culture (and their remaining materials). For example: Remainiscences (1994-1997) is about the supposed first film footage of Brazil (registered in 1897); Militancy (2001-2002) is about the magic lantern by photographer Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) is about the only film made by writer Monteiro Lobato (as well as the only audio recording of his voice); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) is about the unfinished films by poet Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) is about a mutoscope film (1901) featuring Brazilian inventor and aviator Santos Dumont. So Vassourinha is a coherent subject, from a “retrospective” perspective. Personally, I was very fond of him as an original singer, one who takes part in a “low-key” tradition which includes Orlando Silva (in his first phase), Mário Reis, Roberto Silva and João Gilberto. This tradition would commonly feature a kind of singing close to the spoken words, a “canto falado” ("spoken song"). I had Vassourinha’s record long before the idea of making the film. In a way, the film is a sort of fan’s tribute. Besides, the tragedy of Vassourinha’s life—that of dying at the young age of 19 from a rare disease—is a matter relating to another axis of my film work (mortality, death, and life). Also, the extreme rarity of the subject—an artist about whom very little information and documentation was left—was an interest as well. Vassourinha came into my life as unexpectedly as all good fortunes, by a loving chance.

CL: Upon learning more about Vassourinha, and deciding to make a film about him, how did you begin the process of putting together the immense number of photographs, sounds, newspaper clippings, music sheets and even financial records that can be found within A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Were these records presented to you within a single archive or did you undergo a long research process throughout numerous places to track this material down? Take us through what this collection process was like.

CA: The great starting point is encapsulated in the loop I edited from the two words of the Emília song at the beginning of the film: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). I started with almost nothing, only a few clips and clues. After an extensive (and intense) inquiry—somewhere between archaeology and detective work—I and Bernardo Vorobow (co-producer and my life long companion)1 conducted research across every possible source, until we got two personal albums of news clippings gathered by Vassourinha himself. One of them was given to me generously by Alberto Helena Junior, a big fan and high scholar of Vassourinha; the other album I got from what remained of the singer’s family: a foster brother. All six 78 rpm records recorded by Vassourinha which were used in the film for shooting and recording (all sound in the film came from those discs) belong to the Miécio Caffé private collection.2 The Miécio Caffé collection was at that time deposited at Museu da Imagem e do Som (São Paulo). I was fortunate to meet Raul Duarte in person, the radio producer/director who hired Vassourinha to sing for Radio Record, and to talk to a doctor who treated Vassourinha during his last hospitalization. The very path of the research process dictated the film’s structure: a huge amount of information about someone whom people knew almost nothing about. Shards, specters, remains – the matter life is composed of. The collection process is, in a way, metaphorized in the end sequence at the cemetery: the search for his grave was like the search for his life-work information.

CL: Do you think that cultural exchange between two or more countries could incite the Brazilian government to realize the value of their own national works? Do you think a major initiative abroad, manifested in large retrospectives or more prestigious awards being given to Brazilian films, that these could be the catalyst to make the government in Brazil finally realize that they need to fund the Cinemateca Brasileira and that they need to finally support the film industry and its cultural workers in a respectful and supportive way?

CA: I think that this sense of witnessing a “re-birth” or a “re-defining” of a forgotten icon is natural, as one of the film’s purposes is to make Vassourinha alive again, “simply” as it is. As the film is a gesture of love (a labor of life, a labor of love), this feeling comes forward from the screen and toward the face of the viewer/listener. Maybe it is not so accurate to say that Vassourinha is unknown, because during his time he was very famous. He fell into oblivion afterwards, after his death, aftermath. In Portuguese, the word "olvido" (oblivion) is akin to "ouvido" (ear), and this is a password I tried to work formally, as a way of aesthetic operation: representing the limits between forgetfulness and the rescuing of this forgetfulness through the act of hearing this artist's voice. But his voice fell into a void; so I felt that my “mission” (in terms of my respect to this human being and his art) was to pay the highest tribute: to create a true dialogue. I was fortunate enough to be able to gather that huge amount of historical documentation about somebody who “nobody knew anything about”. The film works around the limits of legibility, the border between reading and understanding. And it was exactly this contradiction — the fact that there existed plenty of documents about an elusive figure — which sutured together and fortified strength of the film. The fact that “these documents do not even appear on the screen for a long enough period of time for the viewer to fully read them” was an operational choice I made in order to “translate” the sign and the myth of Vassourinha. The best testimony I would be able to provide (besides the best and most sincere tribute to Vassourinha’s art) was to “let these historical materials do the talking themselves” – but articulated by proper tools of the cinematic medium, as far as its power to construct (and deconstruct) associations by the means of cinema’s supreme muse of montage (“editing” would be a word that does not give justice to the work itself). My humble task was of a [Walter] Benjaminian nature: to gather this bag of rags and suggest a coherent constellation.

CL: Of the five films you have made which deal with forgotten cultural histories of Brazil, this is the only one that deals exclusively with a musician. How did the work of sifting through the archives of a sambista differ from those of your films which focus on cinematic history? Or is there a reoccurring methodology in your approach towards bringing archival materials into re-existence?

CA: I am not quite sure if there is any difference – from my point of view of the filmmaking-operation – between working upon an archive of a sambista and working upon the archive an artist of a different medium (literature, photography, caricature). Because film is “mine”, my operational mode of work; when I work on an artist’s oeuvre, I try to understand and translate their bare essentials to my vocabulary (my personal film language), to be in tune to their artistic mood. As you can read in one of the news clips, Vassourinha performed “De Babado”, a song written by Noel Rosa and João Mina, and recorded by Noel Rosa e Marília Batista in 1936. This record appears in a sequence of Santoscope = Dumontage – and of course I bear in mind that connection. The first record album (33 rpm) released with all the six sambas recorded by Vassourinha in the late 60s had its cover designed by Miécio Caffé, a famous (but also fallen into oblivion) caricaturist and music collector and tons of Brazilians singers came to browse the private collection of old 78 rpm records of Miécio to research and study. To cite just two: Chico Buarque and João Gilberto — the legendary re-interpretations of Brazilian sambas by João Gilberto would not be possible without the collection of Miécio Caffé. In 2003, I made the film A Caffé with Miécio and for that film Caetano Veloso made a new recording of a lesser-known samba, “A Voz do Povo”, originally composed by Malfitano and Frasão and recorded by Orlando Silva in 1941. Veloso called the samba a manifesto for my cinema work. Yes, there is a reoccurring methodology in my approach towards bringing archival materials into re-existance, to quote the title of my film about Pignatari’s unfinished films – note that I imply a play between « existence » and « resistance », which configure a key pair into play.

We need to try to provide access to Brazilian cinema in the best way possible, because people need to know that these treasures exist. If they can’t have this basic access, the films will become ignored and lose their value to the public. We must prevent this and make a complete 180 degree turn in policy when it comes to access.

CL: The history of cultural archives in Brazil is filled with stories of loss, tragedy, and neglect. However, one could also view this story as an occasional tale of triumph, as the will of a few individuals succeeded in preserving Brazilian cultural memory up until this day. Their efforts have allowed us to glean new ideas from historical works of Brazilian art in our present moment.

As a found-footage filmmaker, many of your works deal with the forgotten cultural memories of Brazil’s past. Can you speak to how the history and past efforts of Brazilian cultural preservation has impacted your work? Why, in your mind, have such important figures such as Vassourinha been (previously) forgotten?

CA: There is a trajectory of academic research in my life. I graduated from film school of Escola de Comunicações e Artes da USP – University of São Paulo (ECA-USP). I have my master degree and my PhD (2008) at the same USP, both advised by Prof. Ismail Xavier. Besides this, I did two Post Doctorals, one in the Arts (at Pontifical Catholic University – PUC-SP, 2014) supervised by Prof. Arlindo Machado, and one in Film (at USP, 2017) supervised by Prof. Cristian Borges. For my PhD and my Post-Doctoral at PUC-SP I had fellowships from Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) and for my Post-Doctoral at USP I had a fellowship from CAPES. That long and boring CV quote is just meant to show how serious I take scholarly research and how, throughout my life, spheres of study and archiving informed my trajectory. I have also worked at the Cinemateca Brasileira from 1986 to 1999.  

Perhaps I could reply to your first question with an example from a case study. My PhD research (which made the way for the production of two films about Santos Dumont) was based on an unknown object of the Santos Dumont Collection of Museu Paulista da USP (aka Museu do Ipiranga). It was an unidentified object in terms of year and origin of production, its technical nature, and even its attributed name was wrong and misleading – but it was there, in the archive. After taking a research path alike the one pursued in Vassourinha’s, I identified that it was a mutoscope hub, produced in 1901 by the British branch of American Mutoscope & Biograph Company, probably shot by William K.L. Dickson, and subsequently tracked its archival history. The last sentence of your question requires too large of an explanation, so I would hazard a risk of saying in short that I think Brazil historically has a consistent tradition of treating badly and worst its best sons and daughters, mainly in the realm of culture.  

CL: In Vassourinha, there are moments in which the soundtrack starts and stops, as if a 78 rpm record is skipping. This is often accompanied on the image track by a flicker effect. Knowing your affinities to other found footage filmmakers such as Ken Jacobs, how do you see this flicker effect operating in relation to its use in other global contexts, and is there something about the Brazilian archive, and the life of Vassourinha, that drove you to use said effect

CA: I could only talk about my personal use of the flicker (which is, of course, rooted in a tradition of avant-garde film), a feature that I use a lot in my films. In Santoscope = Dumontage, the flicker is a structural-film device extracted from the mutoscope apparatus itself that hosted the original 1901 film about Santos Dumont which I worked on. In the case of Vassourinha, the flicker has a role a little bit analogous to the one I used in Remainiscences: in the sense of gaps, lapses, missing links, lost abysses, the void. But in Vassourinha there is a surplus: the flicker as an instance of consciousness, as a moment when the shutter quickly obliterates the image to make it resonate in time; so the flicker is a constituent element of the fabric tissue of Vassourinha's history (which has been torn to pieces), but it is also a device for understanding this history. There is even a formal rhyme with the condition of his Blackness, in the sense of what is concealed or erased. It is as if the flicker was a correspondent to Walter Benjamin's “dialectical image”, that brief and elusive moment when associations sparkle beyond historical time. I really like the Benjaminian notion of history, both as waste and ruins and as the viewpoint of the losers. Naturally, in a peripheral country like Brazil — which has always abused its institutions tasked with the preservation of its cultural memory, and which has a long and dark past of erasing and repressing its figures(rooted in its history with slavery) — the flicker reaches an profound allegorical power (and I use this term as Ismail Xavier so well defined it in his seminal book Allegories of Underdevelopment) in a way, far beyond the formal flicker wonders of Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad and others.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, in addition to being a work of art invested in the gesture of resurrection, also serves, even unprojected as a roll of celluloid, as a veritable repository of images and documentation relating to Vassourinha – an archive in itself. What do you make of this and how do you feel the historical material transforms when it passes from one medium to another?

CA: Definitely, Vassourinha film is an analog piece of art – it was thought and made as a 35mm film. And I treasure most the concept of “infinite film” by Hollis Frampton, in his meta-history essay, which I “translated” in my PhD thesis to the domain of found footage. My PhD piece has not been published as a book yet, but you can browse it at the University of São Paulo’s thesis database and I published an essay based on it in the journal Anais do Museu Paulista. I took all the documents of Vassourinha I could find and gathered them as “frames” of an infinity film – all materials are matter of film poetry. I regret that you are not able to screen the film in its original format of 35mm. I made some disruptive turns with the celluloid that are only fully accomplished in film form. The “resurrection” you mention is taken in (and made by means of) the celluloid itself. Besides the flickering, I used veils, those mysterious frames which are not properly exposed in the camera shutter. Except for the final sequence, shot on location in the set of the cemetery where Vassourinha is buried, the film was shot with an Oxberry animation machine. One of the highest praises of which I am most proud is about my style of editing: even when editing in a digital suite, my work is tributary to the moviola. In the sense of passing from the medium of history to the medium of film, I would say that the transformation occurs in the realm of poetry. I take the word here to mean poetics, the method of structure, a matter of form, a way of shaping materials and thoughts. And I would say that historians like Walter Benjamin, Aby Warburg and Hayden White have contributed to let the document free, to be reappropriated by the artists.

CL: Important Brazilian Cinema historians such as Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959), and Paulo Emilio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, written in the 60s, but first published in 1986) were forced to search for fragments of the past and to uncover footnotes of history in order to paint a picture of bygone cinematic eras for then-present and future generations. To what extent does a work such as Vassourinha follow within that trajectory of historical research, and how in your mind does it deviate from it?

CA: To work with fragments – with the remains, with the small details at the bottom of the page –  is an attitude professed by the École dos Annales and historians like Benjamin and Warburg. The film historians you mentioned worked from a peripheral point of view, where issues of underdevelopment were very present in Brazil, and they were informed by the delayed experience of modernity in Brazil. They definitely conjured up a key body of work and provided references for anybody else interested in the adventure of investigating the Brazilian film past. I think Vassourinha is part of this tradition you mentioned in the sense of a deep research on profoundly national roots, as if the issue of national identity was a crucial and defining issue, and a kind of adhesion to popular subjects in the way defended by Brazilian Modernism (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). The elements from popular culture were taken as a password for a revelation of Brazil to Brazilians themselves. As far as Paula Araújo is concerned, my research method is somewhat like his, sharing the deep dive into the primary sources of reference materials. As far as Paulo Emílio is concerned, my mind operates within the same framework as his: a sort of sociological inquiry about the human fact. I think that Vassourinha deviates from this tradition insofar as it radically assumes a notion of a poetic metahistory, in the sense that it is not obliged to clarify nor conclude anything as far as a national project is defined in terms of teleology and a big synthesis. I treasure the gaps, the lapses, the mysterious inconclusiveness; the serious research does not serve to any sort of “redemption” of our pride – the works and the artists compose a moving (in-motion; emotional) constellation.

CL: In your essay “Found Footage and Magnetization of Affection” you bring forth from Hollis Frampton’s concept of “Infinite Cinema” the ideal of an “Infinite Archive”. The concept stems from cinema’s relationship to the digital age, and the endless ability to “digitally recycle cinema’s beginnings”. Elsewhere, referring to Aby Warburg and Georges Didi-Huberman’s notion of the Leitfossil, you claim that “In my wonder-room, there is no such thing as a dead archive; just living archives, asleep in their forms”.

Both the notion of an “Infinite Archive” and the denial of a dead archive seem to disregard, at first glance, the seemingly finite state of archiving that has approached Brazil’s institutions for decades now. However, at a second glance, one might realize that you’re not denying the reality that there are ends within the archive, but you’re expanding on the ways in which those ends can be used within the digital age – The footage can be reproduced infinitively in an array of shapes, forms, and expressions.

Can you comment on this interpretation of your ideas? And how can the notion of “Infinite Archive” be looked at under the particular guise of the Brazilian archival situation?

CA: In my PhD thesis and in subsequent articles published in academic journals, I transferred (and transformed) Frampton’s notion to the domain of found footage. I think it is an original contribution to film studies, this conceptual montage that I do between Benjamin, Frampton and Warburg (among many other theoretical, cultural and historical notions). Moving into the geographical and socio-political-economic context of a country like Brazil would require an effort and an extension of argument that I am not capable of in the brief context of this interview. Evidently, at a first glance, the economic difficulties themselves bring other parameters to the question: how to think about the survival of images (as depositories of national memory) if the very survival of the archive (as an institution of that duty) is plagued by risks to its material contingency? On the other hand, the Brazilian condition has unique and original characteristics that distinguish it from other countries: our colonial formation, our peripheral situation, our conservative modernity, our outrageous social inequality, and the artistic and intellectual strength of several generations that have responded to these challenges. We must be reminded that film celluloid is made also of organic material, therefore subject to decay, just as we are. We must bear in mind that what survived until our time of Sappho’s poems are just fragments of her verses, and the beauty of her poetry is in part the beauty of this quality of scarcity. Paradoxically, I would imagine that the very notion of “infinite archive”, when applied to Brazil, would imply a finite cinema, the very finitude of cinema, its material and intrinsic fragility, its “human” condition.

CL: As you well know, Brazil’s most important film archive, the Cinemateca Brasileira, is now going through a new crisis in which its entire collection is at risk of being destroyed. The current moment evokes in our minds a Twilight Zone-esque episode in which a found footage filmmaker wakes up to learn that there is no longer any found-footage to be found. While your work has certainly featured found footage that has been sourced beyond the walls of an archival institution, one cannot deny that these institutions are repositories for cultural works that still remain hidden from the public eye. Firstly, can you comment on the long-standing neglect of the Brazilian government to properly invest in preserving Brazilian cultural memory? Lastly, can you comment on what this potentially dystopic scenario evokes for you in relation to your body of work, aspiring found footage filmmakers, and the future of found footage filmmaking in Brazil?

CA: We are currently living under dark and terrible times in Brazil, and many public institutions related to culture (and education) are under threat, at different levels, degrees and circumstances, such as Casa de Rui Barbosa and Cinemateca Brasileira. The latter is our most recognized film archive but there are others, smaller ones, spread across cities in the country, two of which are particularly deserving of our attention and respect, possessing great collections and doing notable, good research work: Cinemateca do MAM (Modern Art Museum) and Arquivo Nacional (both in Rio de Janeiro). In the case of the Cinematic Brasileira, as well as these other archives, there is a problem that has been going on for years and it is a complex issue – what is happening now is of great urgency, because it affects basic issues of maintenance of the archive itself (in addition to the salaries of the technical staff, the current crisis affects services of electrical supply, which threats refrigeration and security). The tragedy of the fire at the Museu Nacional (Rio de Janeiro) in 2018 is as a metaphor for the lack of public commitment to national memory and heritage: the neglect turns memory into ashes. The pathetic episode of Brazilian Government (literally) taking the Cinemateca’s keys, along with that of the Museu Nacional’s fire, is a powerful symbolic image in itself. Of course, as a found-footage filmmaker I have an engagement with film archiving and I think it was not a sheer coincidence that I was commissioned to make the official film of the celebration of Paulo Emílio Salles Gomes’ centenary (A Very Personal Celebration, 2016). Personally, I have always worked with shards, leftovers, remains, incomplete fragments; lost, neglected and forgotten materials. Therefore, I am used to working in scarcity and poverty. I always keep in mind the adage that "it can always be worse", which may not ease many anxieties about the future. Horace’s “carpe diem” verses help us to face our weaknesses and uncertainties, which are much bigger now with the COVID-19 crisis.

CL: Part of the astonishment in watching Vassourinha is the fact that it is so rare to see works unveiled from the archive that highlights the lives on important Black artists from the past. In a way, the film projects the role that archives should be fulling in modern-day society – that is, beyond just preserving materials, recovering and presenting heretofore repressed existences and narratives. In your mind, why did it take nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha in your film? And as you yourself have worked as an archivist in the past, what do you think future archivists can learn from the film? What really is most important to save for future generations?

CA: For me it is far hard to say “why [it took] nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha”… It would be tempting, and it would be a fallacy as well, to say that Vassourinha was looking forward to meet me, his art & craft was waiting for my gesture…I don’t know why it took so much time… One can think of social reasons, as he was a black boy from a poor family and he didn’t have enough time to build a fame which would endure. On the other hand, we have lots of cases of great artists in different artistic areas who were forgotten. [Found footage filmmaking is] a very personal (verging on crazily idiosyncratic) way to deal with historical artifacts, a creative form to work on history, not only in terms of salvaging the remains but to bring them back to life and to keep them alive. History serving to vibrate Vassourinha’s story. I consider myself a very materialist film maker, in the sense that I treasure most the rare and bare materials that history is made of. I think one can feel in a very palpable way a sensual materiality that my films place onto the screen. Besides the very materials themselves (the “remains”), I think it is most important as well to preserve the flavor of time – the zeitgeist – in which one lives. And that is an order of alchemy: remember Duchamp’s work “Air of Paris”. In fact, as a communist filmmaker, what would be really “most important to save for future generations” is life itself – the lives of so many artists (and thinkers) who inspire us and make us thrive. But that is far from utopia; to try to defeat death… As André Bazin put it, cinema holds a mummy complex.

CL: Lastly, since the release of A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha there has been a new resurgence of interest in Vassourinha’s life. Numerous famous musicians have covered his songs and there are rumors that a feature length film about his life is in the works. Do you view any of this as part of the legacy and impact that your film had? Relatedly, what do you think the likelihood is that there are hundreds of other potential Vassourinhas repressed within the archives: inimitable, historical, and most commonly Black marginalized talents whose legacies have never reached the people of Brazil beyond their time?

CA: As the most humble and the most modest man I am, I should acknowledge that my film definitely and surely had an impact of “bringing” Vassourinha “back to life”. I would hate to look pretentious, but it is a fact: I did contribute to make Vassourinha more well-known and more appreciated. My film went on front covers of the two main newspapers in São Paulo (first page of cultural supplements) which are the main ones in Brazil. I would not compare myself to the status some give Ezra Pound, as being the re-inventor of Provençal to modern times, a poet who embraces a work of translation and criticism; but it is almost that…in a way, I did “invent” Vassourinha for contemporary times, and I am proud that it was made within an avant-garde mode of film. After my film was released, Caetano Veloso (who had already known my films at that time) approached me about a project proposed by Paula Lavigne (his wife and manager) of re-releasing Vassourinha’s original records along with a set of Caetano and Chico Buarque performing new versions of Vassourinha’s repertoire. My film was to be a key piece in that project, in concerts and in a possible DVD release along with the CD; unfortunately that did not go further for some reason, maybe because a label decided instead to hastily release Vassourinha’s songs. Surely there are “other potential Vassourinhas repressed within the archives”: during my research for making the Vassourinha film, I myself found a kind of female Vassourinha almost in the same style–straw hat, syncopated samba–not so famous at her time like Vassourinha, performing from the mid-1930s to the mid-1940s, then completely forgotten by the public. I could find only six 78rpm recordings of her chant-voice (half of Vassoruinha’s entire discography). I would love to make a film about her, but 22 years have already passed by and I have not made it yet…a companion to Vassourinha, in fashion and musical style, her voice has remained indeed lost to a deeper void.

1. Bernardo Vorobow (1946-2009), in addition to being Adriano’s partner until his death in 2009, served as director and programmer of the Society of Cinematheque Friends (Sociedade Amigos da Cinemateca, 1970–75); the film coordinator and programmer at the Museum of Contemporary Art at the University of São Paulo (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1972–76); founder, director, and programmer of the Film Department at the Museum of Image and Sound (Museu da Imagem e do Som, São Paulo, 1975–85); as well as founder, director, and programmer of the Diffusion and Program Department of the Brazilian Cinematheque (Cinemateca Brasileira, 1982–99), then programmer until 2009.

2. Miécio Caffé would be the subject of Adriano’s 2003 film A Caffé with Miécio.

It should come as no surprise that in Brazil, as in most historically so-called “underdeveloped” countries, the question of cultural memory and access to history as dictated by the archive is far more precarious than one approaching the subject from the relative wealth of the United States or Europe. There are far more gaps, erasures, and interstices for pieces of Brazilian culture to fall into with a much higher frequency, which is a condition both of political determination and physical incapability. On this second factor, one need only be pointed to the fact that Atlântida Cinematográfica — the Brazilian film studio responsible for the majority of chanchada films—had to burn its nitrate prints from the golden era of the 40s and 50s after new safety film copies were made, for fear of the entire studio burning down due to the combination of nitrate film and tropical heat. Therefore, for a Brazilian archivist — or their counterpart on the side of production, the found footage filmmaker —the task of even taking the first steps toward the gathering of documents for their work is an arduous one sure to be met with many frustrations, barring a situation where one’s subject has an exceptionally well-kept estate.

Thus Brazilian cultural workers find their labor to be determined under the sign of fragmentation, and we find the most compelling work to be that which wears this mark as one of pride and uses its form to reflect its material inconsistencies. Carlos Adriano has worked with Brazil’s cinematic archives for over twenty years, creating films that both preserve and project the gaps and other forms of lack that he encounters when faced with the heretofore undocumented sections of Brazil’s past.

Cinelimite: Can you describe how you originally came upon the figure of Vassourinha? As a found-footage filmmaker, were you actively searching for a new topic to explore, or did Vassourinha come into your life in a more unexpected way?

Carlos Adriano: One can say that, until my feature documentary Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), those of my films which deal with found footage or archive material share a common and essential mark: they are all about unknown, forgotten or lost subjects of Brazilian culture (and their remaining materials). For example: Remainiscences (1994-1997) is about the supposed first film footage of Brazil (registered in 1897); Militancy (2001-2002) is about the magic lantern by photographer Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) is about the only film made by writer Monteiro Lobato (as well as the only audio recording of his voice); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) is about the unfinished films by poet Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) is about a mutoscope film (1901) featuring Brazilian inventor and aviator Santos Dumont. So Vassourinha is a coherent subject, from a “retrospective” perspective. Personally, I was very fond of him as an original singer, one who takes part in a “low-key” tradition which includes Orlando Silva (in his first phase), Mário Reis, Roberto Silva and João Gilberto. This tradition would commonly feature a kind of singing close to the spoken words, a “canto falado” ("spoken song"). I had Vassourinha’s record long before the idea of making the film. In a way, the film is a sort of fan’s tribute. Besides, the tragedy of Vassourinha’s life—that of dying at the young age of 19 from a rare disease—is a matter relating to another axis of my film work (mortality, death, and life). Also, the extreme rarity of the subject—an artist about whom very little information and documentation was left—was an interest as well. Vassourinha came into my life as unexpectedly as all good fortunes, by a loving chance.

CL: Upon learning more about Vassourinha, and deciding to make a film about him, how did you begin the process of putting together the immense number of photographs, sounds, newspaper clippings, music sheets and even financial records that can be found within A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Were these records presented to you within a single archive or did you undergo a long research process throughout numerous places to track this material down? Take us through what this collection process was like.

CA: The great starting point is encapsulated in the loop I edited from the two words of the Emília song at the beginning of the film: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). I started with almost nothing, only a few clips and clues. After an extensive (and intense) inquiry—somewhere between archaeology and detective work—I and Bernardo Vorobow (co-producer and my life long companion)1 conducted research across every possible source, until we got two personal albums of news clippings gathered by Vassourinha himself. One of them was given to me generously by Alberto Helena Junior, a big fan and high scholar of Vassourinha; the other album I got from what remained of the singer’s family: a foster brother. All six 78 rpm records recorded by Vassourinha which were used in the film for shooting and recording (all sound in the film came from those discs) belong to the Miécio Caffé private collection.2 The Miécio Caffé collection was at that time deposited at Museu da Imagem e do Som (São Paulo). I was fortunate to meet Raul Duarte in person, the radio producer/director who hired Vassourinha to sing for Radio Record, and to talk to a doctor who treated Vassourinha during his last hospitalization. The very path of the research process dictated the film’s structure: a huge amount of information about someone whom people knew almost nothing about. Shards, specters, remains – the matter life is composed of. The collection process is, in a way, metaphorized in the end sequence at the cemetery: the search for his grave was like the search for his life-work information.

CL: Do you think that cultural exchange between two or more countries could incite the Brazilian government to realize the value of their own national works? Do you think a major initiative abroad, manifested in large retrospectives or more prestigious awards being given to Brazilian films, that these could be the catalyst to make the government in Brazil finally realize that they need to fund the Cinemateca Brasileira and that they need to finally support the film industry and its cultural workers in a respectful and supportive way?

CA: I think that this sense of witnessing a “re-birth” or a “re-defining” of a forgotten icon is natural, as one of the film’s purposes is to make Vassourinha alive again, “simply” as it is. As the film is a gesture of love (a labor of life, a labor of love), this feeling comes forward from the screen and toward the face of the viewer/listener. Maybe it is not so accurate to say that Vassourinha is unknown, because during his time he was very famous. He fell into oblivion afterwards, after his death, aftermath. In Portuguese, the word "olvido" (oblivion) is akin to "ouvido" (ear), and this is a password I tried to work formally, as a way of aesthetic operation: representing the limits between forgetfulness and the rescuing of this forgetfulness through the act of hearing this artist's voice. But his voice fell into a void; so I felt that my “mission” (in terms of my respect to this human being and his art) was to pay the highest tribute: to create a true dialogue. I was fortunate enough to be able to gather that huge amount of historical documentation about somebody who “nobody knew anything about”. The film works around the limits of legibility, the border between reading and understanding. And it was exactly this contradiction — the fact that there existed plenty of documents about an elusive figure — which sutured together and fortified strength of the film. The fact that “these documents do not even appear on the screen for a long enough period of time for the viewer to fully read them” was an operational choice I made in order to “translate” the sign and the myth of Vassourinha. The best testimony I would be able to provide (besides the best and most sincere tribute to Vassourinha’s art) was to “let these historical materials do the talking themselves” – but articulated by proper tools of the cinematic medium, as far as its power to construct (and deconstruct) associations by the means of cinema’s supreme muse of montage (“editing” would be a word that does not give justice to the work itself). My humble task was of a [Walter] Benjaminian nature: to gather this bag of rags and suggest a coherent constellation.

CL: Of the five films you have made which deal with forgotten cultural histories of Brazil, this is the only one that deals exclusively with a musician. How did the work of sifting through the archives of a sambista differ from those of your films which focus on cinematic history? Or is there a reoccurring methodology in your approach towards bringing archival materials into re-existence?

CA: I am not quite sure if there is any difference – from my point of view of the filmmaking-operation – between working upon an archive of a sambista and working upon the archive an artist of a different medium (literature, photography, caricature). Because film is “mine”, my operational mode of work; when I work on an artist’s oeuvre, I try to understand and translate their bare essentials to my vocabulary (my personal film language), to be in tune to their artistic mood. As you can read in one of the news clips, Vassourinha performed “De Babado”, a song written by Noel Rosa and João Mina, and recorded by Noel Rosa e Marília Batista in 1936. This record appears in a sequence of Santoscope = Dumontage – and of course I bear in mind that connection. The first record album (33 rpm) released with all the six sambas recorded by Vassourinha in the late 60s had its cover designed by Miécio Caffé, a famous (but also fallen into oblivion) caricaturist and music collector and tons of Brazilians singers came to browse the private collection of old 78 rpm records of Miécio to research and study. To cite just two: Chico Buarque and João Gilberto — the legendary re-interpretations of Brazilian sambas by João Gilberto would not be possible without the collection of Miécio Caffé. In 2003, I made the film A Caffé with Miécio and for that film Caetano Veloso made a new recording of a lesser-known samba, “A Voz do Povo”, originally composed by Malfitano and Frasão and recorded by Orlando Silva in 1941. Veloso called the samba a manifesto for my cinema work. Yes, there is a reoccurring methodology in my approach towards bringing archival materials into re-existance, to quote the title of my film about Pignatari’s unfinished films – note that I imply a play between « existence » and « resistance », which configure a key pair into play.

We need to try to provide access to Brazilian cinema in the best way possible, because people need to know that these treasures exist. If they can’t have this basic access, the films will become ignored and lose their value to the public. We must prevent this and make a complete 180 degree turn in policy when it comes to access.

CL: The history of cultural archives in Brazil is filled with stories of loss, tragedy, and neglect. However, one could also view this story as an occasional tale of triumph, as the will of a few individuals succeeded in preserving Brazilian cultural memory up until this day. Their efforts have allowed us to glean new ideas from historical works of Brazilian art in our present moment.

As a found-footage filmmaker, many of your works deal with the forgotten cultural memories of Brazil’s past. Can you speak to how the history and past efforts of Brazilian cultural preservation has impacted your work? Why, in your mind, have such important figures such as Vassourinha been (previously) forgotten?

CA: There is a trajectory of academic research in my life. I graduated from film school of Escola de Comunicações e Artes da USP – University of São Paulo (ECA-USP). I have my master degree and my PhD (2008) at the same USP, both advised by Prof. Ismail Xavier. Besides this, I did two Post Doctorals, one in the Arts (at Pontifical Catholic University – PUC-SP, 2014) supervised by Prof. Arlindo Machado, and one in Film (at USP, 2017) supervised by Prof. Cristian Borges. For my PhD and my Post-Doctoral at PUC-SP I had fellowships from Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) and for my Post-Doctoral at USP I had a fellowship from CAPES. That long and boring CV quote is just meant to show how serious I take scholarly research and how, throughout my life, spheres of study and archiving informed my trajectory. I have also worked at the Cinemateca Brasileira from 1986 to 1999.  

Perhaps I could reply to your first question with an example from a case study. My PhD research (which made the way for the production of two films about Santos Dumont) was based on an unknown object of the Santos Dumont Collection of Museu Paulista da USP (aka Museu do Ipiranga). It was an unidentified object in terms of year and origin of production, its technical nature, and even its attributed name was wrong and misleading – but it was there, in the archive. After taking a research path alike the one pursued in Vassourinha’s, I identified that it was a mutoscope hub, produced in 1901 by the British branch of American Mutoscope & Biograph Company, probably shot by William K.L. Dickson, and subsequently tracked its archival history. The last sentence of your question requires too large of an explanation, so I would hazard a risk of saying in short that I think Brazil historically has a consistent tradition of treating badly and worst its best sons and daughters, mainly in the realm of culture.  

CL: In Vassourinha, there are moments in which the soundtrack starts and stops, as if a 78 rpm record is skipping. This is often accompanied on the image track by a flicker effect. Knowing your affinities to other found footage filmmakers such as Ken Jacobs, how do you see this flicker effect operating in relation to its use in other global contexts, and is there something about the Brazilian archive, and the life of Vassourinha, that drove you to use said effect

CA: I could only talk about my personal use of the flicker (which is, of course, rooted in a tradition of avant-garde film), a feature that I use a lot in my films. In Santoscope = Dumontage, the flicker is a structural-film device extracted from the mutoscope apparatus itself that hosted the original 1901 film about Santos Dumont which I worked on. In the case of Vassourinha, the flicker has a role a little bit analogous to the one I used in Remainiscences: in the sense of gaps, lapses, missing links, lost abysses, the void. But in Vassourinha there is a surplus: the flicker as an instance of consciousness, as a moment when the shutter quickly obliterates the image to make it resonate in time; so the flicker is a constituent element of the fabric tissue of Vassourinha's history (which has been torn to pieces), but it is also a device for understanding this history. There is even a formal rhyme with the condition of his Blackness, in the sense of what is concealed or erased. It is as if the flicker was a correspondent to Walter Benjamin's “dialectical image”, that brief and elusive moment when associations sparkle beyond historical time. I really like the Benjaminian notion of history, both as waste and ruins and as the viewpoint of the losers. Naturally, in a peripheral country like Brazil — which has always abused its institutions tasked with the preservation of its cultural memory, and which has a long and dark past of erasing and repressing its figures(rooted in its history with slavery) — the flicker reaches an profound allegorical power (and I use this term as Ismail Xavier so well defined it in his seminal book Allegories of Underdevelopment) in a way, far beyond the formal flicker wonders of Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad and others.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, in addition to being a work of art invested in the gesture of resurrection, also serves, even unprojected as a roll of celluloid, as a veritable repository of images and documentation relating to Vassourinha – an archive in itself. What do you make of this and how do you feel the historical material transforms when it passes from one medium to another?

CA: Definitely, Vassourinha film is an analog piece of art – it was thought and made as a 35mm film. And I treasure most the concept of “infinite film” by Hollis Frampton, in his meta-history essay, which I “translated” in my PhD thesis to the domain of found footage. My PhD piece has not been published as a book yet, but you can browse it at the University of São Paulo’s thesis database and I published an essay based on it in the journal Anais do Museu Paulista. I took all the documents of Vassourinha I could find and gathered them as “frames” of an infinity film – all materials are matter of film poetry. I regret that you are not able to screen the film in its original format of 35mm. I made some disruptive turns with the celluloid that are only fully accomplished in film form. The “resurrection” you mention is taken in (and made by means of) the celluloid itself. Besides the flickering, I used veils, those mysterious frames which are not properly exposed in the camera shutter. Except for the final sequence, shot on location in the set of the cemetery where Vassourinha is buried, the film was shot with an Oxberry animation machine. One of the highest praises of which I am most proud is about my style of editing: even when editing in a digital suite, my work is tributary to the moviola. In the sense of passing from the medium of history to the medium of film, I would say that the transformation occurs in the realm of poetry. I take the word here to mean poetics, the method of structure, a matter of form, a way of shaping materials and thoughts. And I would say that historians like Walter Benjamin, Aby Warburg and Hayden White have contributed to let the document free, to be reappropriated by the artists.

CL: Important Brazilian Cinema historians such as Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959), and Paulo Emilio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, written in the 60s, but first published in 1986) were forced to search for fragments of the past and to uncover footnotes of history in order to paint a picture of bygone cinematic eras for then-present and future generations. To what extent does a work such as Vassourinha follow within that trajectory of historical research, and how in your mind does it deviate from it?

CA: To work with fragments – with the remains, with the small details at the bottom of the page –  is an attitude professed by the École dos Annales and historians like Benjamin and Warburg. The film historians you mentioned worked from a peripheral point of view, where issues of underdevelopment were very present in Brazil, and they were informed by the delayed experience of modernity in Brazil. They definitely conjured up a key body of work and provided references for anybody else interested in the adventure of investigating the Brazilian film past. I think Vassourinha is part of this tradition you mentioned in the sense of a deep research on profoundly national roots, as if the issue of national identity was a crucial and defining issue, and a kind of adhesion to popular subjects in the way defended by Brazilian Modernism (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). The elements from popular culture were taken as a password for a revelation of Brazil to Brazilians themselves. As far as Paula Araújo is concerned, my research method is somewhat like his, sharing the deep dive into the primary sources of reference materials. As far as Paulo Emílio is concerned, my mind operates within the same framework as his: a sort of sociological inquiry about the human fact. I think that Vassourinha deviates from this tradition insofar as it radically assumes a notion of a poetic metahistory, in the sense that it is not obliged to clarify nor conclude anything as far as a national project is defined in terms of teleology and a big synthesis. I treasure the gaps, the lapses, the mysterious inconclusiveness; the serious research does not serve to any sort of “redemption” of our pride – the works and the artists compose a moving (in-motion; emotional) constellation.

CL: In your essay “Found Footage and Magnetization of Affection” you bring forth from Hollis Frampton’s concept of “Infinite Cinema” the ideal of an “Infinite Archive”. The concept stems from cinema’s relationship to the digital age, and the endless ability to “digitally recycle cinema’s beginnings”. Elsewhere, referring to Aby Warburg and Georges Didi-Huberman’s notion of the Leitfossil, you claim that “In my wonder-room, there is no such thing as a dead archive; just living archives, asleep in their forms”.

Both the notion of an “Infinite Archive” and the denial of a dead archive seem to disregard, at first glance, the seemingly finite state of archiving that has approached Brazil’s institutions for decades now. However, at a second glance, one might realize that you’re not denying the reality that there are ends within the archive, but you’re expanding on the ways in which those ends can be used within the digital age – The footage can be reproduced infinitively in an array of shapes, forms, and expressions.

Can you comment on this interpretation of your ideas? And how can the notion of “Infinite Archive” be looked at under the particular guise of the Brazilian archival situation?

CA: In my PhD thesis and in subsequent articles published in academic journals, I transferred (and transformed) Frampton’s notion to the domain of found footage. I think it is an original contribution to film studies, this conceptual montage that I do between Benjamin, Frampton and Warburg (among many other theoretical, cultural and historical notions). Moving into the geographical and socio-political-economic context of a country like Brazil would require an effort and an extension of argument that I am not capable of in the brief context of this interview. Evidently, at a first glance, the economic difficulties themselves bring other parameters to the question: how to think about the survival of images (as depositories of national memory) if the very survival of the archive (as an institution of that duty) is plagued by risks to its material contingency? On the other hand, the Brazilian condition has unique and original characteristics that distinguish it from other countries: our colonial formation, our peripheral situation, our conservative modernity, our outrageous social inequality, and the artistic and intellectual strength of several generations that have responded to these challenges. We must be reminded that film celluloid is made also of organic material, therefore subject to decay, just as we are. We must bear in mind that what survived until our time of Sappho’s poems are just fragments of her verses, and the beauty of her poetry is in part the beauty of this quality of scarcity. Paradoxically, I would imagine that the very notion of “infinite archive”, when applied to Brazil, would imply a finite cinema, the very finitude of cinema, its material and intrinsic fragility, its “human” condition.

CL: As you well know, Brazil’s most important film archive, the Cinemateca Brasileira, is now going through a new crisis in which its entire collection is at risk of being destroyed. The current moment evokes in our minds a Twilight Zone-esque episode in which a found footage filmmaker wakes up to learn that there is no longer any found-footage to be found. While your work has certainly featured found footage that has been sourced beyond the walls of an archival institution, one cannot deny that these institutions are repositories for cultural works that still remain hidden from the public eye. Firstly, can you comment on the long-standing neglect of the Brazilian government to properly invest in preserving Brazilian cultural memory? Lastly, can you comment on what this potentially dystopic scenario evokes for you in relation to your body of work, aspiring found footage filmmakers, and the future of found footage filmmaking in Brazil?

CA: We are currently living under dark and terrible times in Brazil, and many public institutions related to culture (and education) are under threat, at different levels, degrees and circumstances, such as Casa de Rui Barbosa and Cinemateca Brasileira. The latter is our most recognized film archive but there are others, smaller ones, spread across cities in the country, two of which are particularly deserving of our attention and respect, possessing great collections and doing notable, good research work: Cinemateca do MAM (Modern Art Museum) and Arquivo Nacional (both in Rio de Janeiro). In the case of the Cinematic Brasileira, as well as these other archives, there is a problem that has been going on for years and it is a complex issue – what is happening now is of great urgency, because it affects basic issues of maintenance of the archive itself (in addition to the salaries of the technical staff, the current crisis affects services of electrical supply, which threats refrigeration and security). The tragedy of the fire at the Museu Nacional (Rio de Janeiro) in 2018 is as a metaphor for the lack of public commitment to national memory and heritage: the neglect turns memory into ashes. The pathetic episode of Brazilian Government (literally) taking the Cinemateca’s keys, along with that of the Museu Nacional’s fire, is a powerful symbolic image in itself. Of course, as a found-footage filmmaker I have an engagement with film archiving and I think it was not a sheer coincidence that I was commissioned to make the official film of the celebration of Paulo Emílio Salles Gomes’ centenary (A Very Personal Celebration, 2016). Personally, I have always worked with shards, leftovers, remains, incomplete fragments; lost, neglected and forgotten materials. Therefore, I am used to working in scarcity and poverty. I always keep in mind the adage that "it can always be worse", which may not ease many anxieties about the future. Horace’s “carpe diem” verses help us to face our weaknesses and uncertainties, which are much bigger now with the COVID-19 crisis.

CL: Part of the astonishment in watching Vassourinha is the fact that it is so rare to see works unveiled from the archive that highlights the lives on important Black artists from the past. In a way, the film projects the role that archives should be fulling in modern-day society – that is, beyond just preserving materials, recovering and presenting heretofore repressed existences and narratives. In your mind, why did it take nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha in your film? And as you yourself have worked as an archivist in the past, what do you think future archivists can learn from the film? What really is most important to save for future generations?

CA: For me it is far hard to say “why [it took] nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha”… It would be tempting, and it would be a fallacy as well, to say that Vassourinha was looking forward to meet me, his art & craft was waiting for my gesture…I don’t know why it took so much time… One can think of social reasons, as he was a black boy from a poor family and he didn’t have enough time to build a fame which would endure. On the other hand, we have lots of cases of great artists in different artistic areas who were forgotten. [Found footage filmmaking is] a very personal (verging on crazily idiosyncratic) way to deal with historical artifacts, a creative form to work on history, not only in terms of salvaging the remains but to bring them back to life and to keep them alive. History serving to vibrate Vassourinha’s story. I consider myself a very materialist film maker, in the sense that I treasure most the rare and bare materials that history is made of. I think one can feel in a very palpable way a sensual materiality that my films place onto the screen. Besides the very materials themselves (the “remains”), I think it is most important as well to preserve the flavor of time – the zeitgeist – in which one lives. And that is an order of alchemy: remember Duchamp’s work “Air of Paris”. In fact, as a communist filmmaker, what would be really “most important to save for future generations” is life itself – the lives of so many artists (and thinkers) who inspire us and make us thrive. But that is far from utopia; to try to defeat death… As André Bazin put it, cinema holds a mummy complex.

CL: Lastly, since the release of A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha there has been a new resurgence of interest in Vassourinha’s life. Numerous famous musicians have covered his songs and there are rumors that a feature length film about his life is in the works. Do you view any of this as part of the legacy and impact that your film had? Relatedly, what do you think the likelihood is that there are hundreds of other potential Vassourinhas repressed within the archives: inimitable, historical, and most commonly Black marginalized talents whose legacies have never reached the people of Brazil beyond their time?

CA: As the most humble and the most modest man I am, I should acknowledge that my film definitely and surely had an impact of “bringing” Vassourinha “back to life”. I would hate to look pretentious, but it is a fact: I did contribute to make Vassourinha more well-known and more appreciated. My film went on front covers of the two main newspapers in São Paulo (first page of cultural supplements) which are the main ones in Brazil. I would not compare myself to the status some give Ezra Pound, as being the re-inventor of Provençal to modern times, a poet who embraces a work of translation and criticism; but it is almost that…in a way, I did “invent” Vassourinha for contemporary times, and I am proud that it was made within an avant-garde mode of film. After my film was released, Caetano Veloso (who had already known my films at that time) approached me about a project proposed by Paula Lavigne (his wife and manager) of re-releasing Vassourinha’s original records along with a set of Caetano and Chico Buarque performing new versions of Vassourinha’s repertoire. My film was to be a key piece in that project, in concerts and in a possible DVD release along with the CD; unfortunately that did not go further for some reason, maybe because a label decided instead to hastily release Vassourinha’s songs. Surely there are “other potential Vassourinhas repressed within the archives”: during my research for making the Vassourinha film, I myself found a kind of female Vassourinha almost in the same style–straw hat, syncopated samba–not so famous at her time like Vassourinha, performing from the mid-1930s to the mid-1940s, then completely forgotten by the public. I could find only six 78rpm recordings of her chant-voice (half of Vassoruinha’s entire discography). I would love to make a film about her, but 22 years have already passed by and I have not made it yet…a companion to Vassourinha, in fashion and musical style, her voice has remained indeed lost to a deeper void.

1. Bernardo Vorobow (1946-2009), in addition to being Adriano’s partner until his death in 2009, served as director and programmer of the Society of Cinematheque Friends (Sociedade Amigos da Cinemateca, 1970–75); the film coordinator and programmer at the Museum of Contemporary Art at the University of São Paulo (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1972–76); founder, director, and programmer of the Film Department at the Museum of Image and Sound (Museu da Imagem e do Som, São Paulo, 1975–85); as well as founder, director, and programmer of the Diffusion and Program Department of the Brazilian Cinematheque (Cinemateca Brasileira, 1982–99), then programmer until 2009.

2. Miécio Caffé would be the subject of Adriano’s 2003 film A Caffé with Miécio.

PT/ENG
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24/8/2020
By/Por:
Eric Barroso

Não deve surpreender que, no Brasil, assim como na maioria dos países historicamente chamados de “subdesenvolvidos”, a questão da memória cultural e do acesso à história, tal como ditados pelo arquivo, seja muito mais precária do que para quem aborda o tema a partir da relativa riqueza dos Estados Unidos ou da Europa. Há muito mais lacunas, apagamentos e interstícios para os quais pedaços da cultura brasileira podem cair com uma frequência muito maior, condição que é ao mesmo tempo de determinação política e de incapacidade física. Quanto a esse segundo fator, basta lembrar que a Atlântida Cinematográfica — o estúdio brasileiro responsável pela maioria dos filmes de chanchada — teve de queimar suas cópias em nitrato da era de ouro dos anos 40 e 50 depois que novas cópias de segurança foram feitas, por medo de que o estúdio inteiro pegasse fogo devido à combinação de película de nitrato e calor tropical. Portanto, para um arquivista brasileiro — ou seu equivalente do lado da produção, o cineasta de found footage — a tarefa de sequer dar os primeiros passos rumo à reunião de documentos para o seu trabalho é árdua e certamente será marcada por muitas frustrações, a menos que o tema em questão tenha um espólio excepcionalmente bem cuidado.

Assim, trabalhadores culturais brasileiros encontram seu trabalho determinado sob o signo da fragmentação, e vemos que o trabalho mais instigante é aquele que ostenta essa marca como motivo de orgulho e usa sua forma para refletir suas inconsistências materiais. Carlos Adriano trabalha com os arquivos cinematográficos do Brasil há mais de vinte anos, criando filmes que ao mesmo tempo preservam e projetam as lacunas e outras formas de falta que ele encontra quando se depara com seções até então não documentadas do passado do Brasil.

Cinelimite: Você pode descrever como encontrou originalmente a figura de Vassourinha? Como cineasta de found footage, você estava buscando ativamente um novo tema para explorar ou Vassourinha entrou na sua vida de uma forma mais inesperada?

Carlos Adriano: Pode-se dizer que, até o meu longa documental Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), aqueles dos meus filmes que lidam com found footage ou material de arquivo compartilham uma marca comum e essencial: todos são sobre temas desconhecidos, esquecidos ou perdidos da cultura brasileira (e seus materiais remanescentes). Por exemplo: Remainiscences (1994-1997) é sobre a suposta primeira filmagem do Brasil (registrada em 1897); Militancy (2001-2002) é sobre a lanterna mágica do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) é sobre o único filme feito pelo escritor Monteiro Lobato (assim como a única gravação de áudio de sua voz); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) é sobre os filmes inacabados do poeta Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) é sobre um filme de mutoscópio (1901) que apresenta o inventor e aviador brasileiro Santos Dumont. Então Vassourinha é um tema coerente, de uma perspectiva “retrospectiva”. Pessoalmente, eu gostava muito dele como um cantor original, alguém que faz parte de uma tradição “discreta”, que inclui Orlando Silva (na sua primeira fase), Mário Reis, Roberto Silva e João Gilberto. Essa tradição comumente apresenta um tipo de canto próximo da palavra falada, um “canto falado” ("spoken song"). Eu tinha o disco de Vassourinha muito antes da ideia de fazer o filme. De certa forma, o filme é uma espécie de tributo de fã. Além disso, a tragédia da vida de Vassourinha — morrer aos 19 anos de uma doença rara—é uma questão relacionada a outro eixo do meu trabalho cinematográfico (mortalidade, morte e vida). Também me interessava a extrema raridade do tema — um artista sobre o qual restou muito pouca informação e documentação. Vassourinha entrou na minha vida tão inesperadamente quanto todas as boas fortunas, por um acaso amoroso.

CL: Ao saber mais sobre Vassourinha e decidir fazer um filme sobre ele, como você iniciou o processo de reunir o imenso número de fotografias, sons, recortes de jornal, partituras e até registros financeiros que podem ser encontrados em A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Esses registros foram apresentados a você dentro de um único arquivo ou você passou por um longo processo de pesquisa em inúmeros lugares para rastrear esse material? Conte para nós como foi esse processo de coleta.

CA: O grande ponto de partida está encapsulado no loop que eu montei a partir de duas palavras da canção da Emília no início do filme: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). Eu comecei com quase nada, apenas alguns trechos e pistas. Depois de uma investigação extensa (e intensa) — em algum lugar entre a arqueologia e o trabalho de detetive — eu e Bernardo Vorobow (coprodutor e meu companheiro de vida de longa data)1 conduzimos pesquisa em toda fonte possível, até conseguirmos dois álbuns pessoais de recortes de jornal reunidos pelo próprio Vassourinha. Um deles me foi dado generosamente por Alberto Helena Junior, um grande fã e importante estudioso de Vassourinha; o outro álbum eu obtive do que restou da família do cantor: um irmão adotivo. Todos os seis discos de 78 rpm gravados por Vassourinha que foram usados no filme para filmagem e gravação (todo o som do filme veio desses discos) pertencem à coleção privada de Miécio Caffé.2 A coleção de Miécio Caffé estava, naquele momento, depositada no Museu da Imagem e do Som (São Paulo). Tive a sorte de conhecer pessoalmente Raul Duarte, o produtor/diretor de rádio que contratou Vassourinha para cantar na Rádio Record, e de conversar com um médico que tratou Vassourinha durante sua última internação. O próprio caminho do processo de pesquisa ditou a estrutura do filme: uma enorme quantidade de informação sobre alguém sobre quem as pessoas não sabiam quase nada. Fragmentos, espectros, restos — a matéria de que a vida é feita. O processo de coleta é, de certa forma, metaforizado na sequência final no cemitério: a busca pelo túmulo dele foi como a busca pelas informações sobre sua vida-obra.

CL: Você acha que o intercâmbio cultural entre dois ou mais países poderia incitar o governo brasileiro a perceber o valor das suas próprias obras nacionais? Você acha que uma grande iniciativa no exterior, manifestada em grandes retrospectivas ou em prêmios mais prestigiosos sendo dados a filmes brasileiros, poderia ser o catalisador para que o governo no Brasil finalmente perceba que precisa financiar a Cinemateca Brasileira e que precisa finalmente apoiar a indústria do cinema e seus trabalhadores culturais de maneira respeitosa e solidária?

CA: Eu acho que esse sentimento de testemunhar um “renascimento” ou uma “redefinição” de um ícone esquecido é natural, já que um dos propósitos do filme é fazer Vassourinha viver de novo, “simplesmente” como ele é. Como o filme é um gesto de amor (um labor de vida, um labor de amor), esse sentimento vem da tela e vai em direção ao rosto do espectador ouvinte. Talvez não seja tão preciso dizer que Vassourinha é desconhecido, porque no tempo dele ele era muito famoso. Ele caiu no esquecimento depois, após sua morte, no pós. Em português, a palavra “olvido” (esquecimento) é próxima de “ouvido” (orelha), e essa é uma senha que eu tentei trabalhar formalmente, como uma forma de operação estética: representar os limites entre o esquecimento e o resgate desse esquecimento por meio do ato de ouvir a voz desse artista. Mas a voz dele caiu num vazio, então eu senti que a minha “missão” (em termos do meu respeito a esse ser humano e à sua arte) era prestar o mais alto tributo: criar um verdadeiro diálogo. Eu tive a sorte de conseguir reunir aquela enorme quantidade de documentação histórica sobre alguém sobre quem “ninguém sabia nada”. O filme trabalha em torno dos limites da legibilidade, a fronteira entre ler e entender. E foi exatamente essa contradição — o fato de existirem muitos documentos sobre uma figura elusiva — que costurou e fortaleceu a força do filme. O fato de que “esses documentos nem aparecem na tela por tempo suficiente para que o espectador consiga lê-los completamente” foi uma escolha operacional que eu fiz para “traduzir” o signo e o mito de Vassourinha. O melhor testemunho que eu poderia fornecer (além do melhor e mais sincero tributo à arte de Vassourinha) era “deixar esses materiais históricos falarem por si” — mas articulados por ferramentas próprias do meio cinematográfico, no que diz respeito ao seu poder de construir (e desconstruir) associações por meio da musa suprema do cinema, a montagem (“edição” seria uma palavra que não faz justiça ao trabalho em si). Minha tarefa humilde foi de natureza [Walter] benjaminiana: reunir esse saco de trapos e sugerir uma constelação coerente.

CL: Dos cinco filmes que você fez e que lidam com histórias culturais esquecidas do Brasil, este é o único que trata exclusivamente de um músico. Como o trabalho de garimpar os arquivos de um sambista diferiu daquele dos seus filmes que se concentram na história do cinema? Ou há uma metodologia recorrente na sua abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência?

CA: Eu não tenho muita certeza se há alguma diferença — do meu ponto de vista da operação cinematográfica — entre trabalhar sobre o arquivo de um sambista e trabalhar sobre o arquivo de um artista de outro meio (literatura, fotografia, caricatura). Porque o cinema é “meu”, é o meu modo operacional de trabalho; quando eu trabalho sobre a obra de um artista, eu tento entender e traduzir seus elementos essenciais para o meu vocabulário (a minha linguagem pessoal do cinema), para estar em sintonia com o seu clima artístico. Como você pode ler em um dos recortes de jornal, Vassourinha interpretou “De Babado”, uma canção escrita por Noel Rosa e João Mina, e gravada por Noel Rosa e Marília Batista em 1936. Esse disco aparece em uma sequência de Santoscope = Dumontage — e, claro, eu tenho essa conexão em mente. O primeiro álbum (33 rpm) lançado com todos os seis sambas gravados por Vassourinha, no fim dos anos 60, teve sua capa desenhada por Miécio Caffé, um famoso (mas que também caiu no esquecimento) caricaturista e colecionador de música, e toneladas de cantores brasileiros iam folhear a coleção privada de discos antigos de 78 rpm de Miécio para pesquisar e estudar. Para citar apenas dois: Chico Buarque e João Gilberto — as lendárias releituras de sambas brasileiros feitas por João Gilberto não seriam possíveis sem a coleção de Miécio Caffé. Em 2003, eu fiz o filme e, para esse filme, Caetano Veloso fez uma nova gravação de um samba menos conhecido, “A Voz do Povo”, originalmente composto por Malfitano e Frasão e gravado por Orlando Silva em 1941. Veloso chamou o samba de um manifesto para o meu trabalho no cinema. Sim, há uma metodologia recorrente na minha abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência, para citar o título do meu filme sobre os filmes inacabados de Pignatari — note que eu implico um jogo entre « existência » e « resistência », que configuram um par-chave em jogo.

Precisamos tentar oferecer acesso ao cinema brasileiro da melhor forma possível, porque as pessoas precisam saber que esses tesouros existem. Se elas não tiverem esse acesso básico, os filmes serão ignorados e perderão seu valor para o público. Precisamos impedir isso e dar uma virada completa de 180 graus na política no que diz respeito ao acesso.

CL: A história dos arquivos culturais no Brasil é repleta de histórias de perda, tragédia e negligência. No entanto, também é possível ver essa história como um relato ocasional de triunfo, já que a vontade de alguns indivíduos conseguiu preservar a memória cultural brasileira até os dias de hoje. Seus esforços nos permitiram extrair novas ideias de obras históricas da arte brasileira no nosso momento presente.

Como cineasta de found footage, muitas das suas obras lidam com as memórias culturais esquecidas do passado do Brasil. Você pode falar sobre como a história e os esforços passados de preservação cultural no Brasil impactaram o seu trabalho? Por que, na sua visão, figuras tão importantes como Vassourinha foram (antes) esquecidas?

CA: Há uma trajetória de pesquisa acadêmica na minha vida. Eu me formei na escola de cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP – Universidade de São Paulo (ECA-USP). Tenho meu mestrado e meu doutorado (2008) na mesma USP, ambos orientados pelo Prof. Ismail Xavier. Além disso, fiz dois pós-doutorados, um em Artes (na Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP, 2014), supervisionado pelo Prof. Arlindo Machado, e um em Cinema (na USP, 2017), supervisionado pelo Prof. Cristian Borges. Para o meu doutorado e o meu pós-doutorado na PUC-SP, tive bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e, para o meu pós-doutorado na USP, tive uma bolsa da CAPES. Essa longa e entediante citação de currículo serve apenas para mostrar o quão seriamente eu levo a pesquisa acadêmica e como, ao longo da minha vida, esferas de estudo e de arquivamento informaram a minha trajetória. Eu também trabalhei na Cinemateca Brasileira de 1986 a 1999.

Talvez eu possa responder à sua primeira pergunta com um exemplo de um estudo de caso. Minha pesquisa de doutorado (que abriu caminho para a produção de dois filmes sobre Santos Dumont) foi baseada em um objeto desconhecido da Coleção Santos Dumont do Museu Paulista da USP (também conhecido como Museu do Ipiranga). Era um objeto não identificado em termos de ano e origem de produção, sua natureza técnica, e até mesmo o nome que lhe foi atribuído estava errado e era enganoso — mas ele estava lá, no arquivo. Depois de seguir um caminho de pesquisa semelhante ao que foi perseguido em Vassourinha, eu identifiquei que se tratava de um hub de mutoscópio, produzido em 1901 pelo ramo britânico da American Mutoscope & Biograph Company, provavelmente filmado por William K.L. Dickson, e, em seguida, rastreei sua história arquivística. A última frase da sua pergunta exigiria uma explicação grande demais, então eu me arriscaria a dizer, de forma breve, que eu acho que o Brasil historicamente tem uma tradição consistente de tratar mal e pior seus melhores filhos e filhas, principalmente no campo da cultura.

CL: CL: Em Vassourinha, há momentos em que a trilha sonora começa e para, como se um disco de 78 rpm estivesse pulando. Isso muitas vezes é acompanhado, na faixa de imagem, por um efeito de flicker. Sabendo das suas afinidades com outros cineastas de found footage, como Ken Jacobs, como você vê esse efeito de flicker operando em relação ao seu uso em outros contextos globais, e há algo no arquivo brasileiro, e na vida de Vassourinha, que tenha te levado a usar esse efeito?

CA: Eu só poderia falar do meu uso pessoal do flicker (que, claro, está enraizado numa tradição do cinema de vanguarda), um recurso que eu uso bastante nos meus filmes. Em Santoscope = Dumontage, o flicker é um dispositivo do cinema estrutural extraído do próprio aparelho de mutoscópio que hospedava o filme original de 1901 sobre Santos Dumont com o qual eu trabalhei. No caso de Vassourinha, o flicker tem um papel um pouco análogo ao que eu usei em Remainiscences: no sentido de lacunas, lapsos, elos perdidos, abismos perdidos, o vazio. Mas em Vassourinha há um excedente: o flicker como uma instância de consciência, como um momento em que o obturador rapidamente obliterra a imagem para fazê-la ressoar no tempo; então o flicker é um elemento constituinte do tecido da história de Vassourinha (que foi rasgado em pedaços), mas também é um dispositivo para entender essa história. Há até uma rima formal com a condição da sua negritude, no sentido do que é ocultado ou apagado. É como se o flicker fosse um correspondente à “imagem dialética” de Walter Benjamin, aquele momento breve e elusivo em que as associações faiscam para além do tempo histórico. Eu gosto muito da noção benjaminiana de história, tanto como lixo e ruínas quanto como o ponto de vista dos perdedores. Naturalmente, em um país periférico como o Brasil — que sempre abusou de suas instituições encarregadas da preservação de sua memória cultural, e que tem um longo e sombrio passado de apagar e reprimir suas figuras (enraizado na sua história com a escravidão) — o flicker alcança um poder alegórico profundo (e eu uso esse termo tal como Ismail Xavier o definiu tão bem em seu livro seminal Alegorias do Subdesenvolvimento) de um modo, em certa medida, muito além das maravilhas formais do flicker de Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad e outros.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, além de ser uma obra de arte investida no gesto de ressurreição, também serve, mesmo não projetado como um rolo de celuloide, como um verdadeiro repositório de imagens e documentação relacionadas a Vassourinha — um arquivo em si. O que você pensa disso e como você sente que o material histórico se transforma quando passa de um meio para outro?

CA: Definitivamente, o filme Vassourinha é uma peça de arte analógica — ele foi pensado e feito como um filme em 35mm. E eu prezo sobretudo o conceito de “filme infinito”, de Hollis Frampton, em seu ensaio de meta-história, que eu “traduzi” na minha tese de doutorado para o domínio do found footage. Minha tese de doutorado ainda não foi publicada como livro, mas você pode consultá-la no banco de teses da Universidade de São Paulo, e eu publiquei um ensaio baseado nela na revista Anais do Museu Paulista. Eu peguei todos os documentos de Vassourinha que consegui encontrar e os reuni como “quadros” de um filme infinito — todos os materiais são matéria de poesia cinematográfica. Eu lamento que você não consiga exibir o filme no seu formato original de 35mm. Eu fiz algumas viradas disruptivas com o celuloide que só se realizam plenamente em forma fílmica. A “ressurreição” que você menciona é realizada no (e por meio do) próprio celuloide. Além do flicker, eu usei véus, aqueles quadros misteriosos que não são devidamente expostos no obturador da câmera. Com exceção da sequência final, filmada em locação no cenário do cemitério onde Vassourinha está enterrado, o filme foi filmado com uma máquina de animação Oxberry. Um dos maiores elogios, do qual eu mais me orgulho, é sobre o meu estilo de montagem: mesmo quando monto numa ilha digital, o meu trabalho é tributário da moviola. No sentido de passar do meio da história para o meio do cinema, eu diria que a transformação ocorre no campo da poesia. Eu tomo a palavra aqui no sentido de poética, o método de estrutura, uma questão de forma, uma maneira de moldar materiais e pensamentos. E eu diria que historiadores como Walter Benjamin, Aby Warburg e Hayden White contribuíram para libertar o documento, para que ele possa ser reapropriado pelos artistas.

CL: Historiadores importantes do cinema brasileiro, como Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959) e Paulo Emílio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, escrito nos anos 60, mas publicado pela primeira vez em 1986), foram obrigados a buscar fragmentos do passado e a desenterrar notas de rodapé da história para pintar um quadro de eras cinematográficas passadas para as gerações de então e para as futuras. Em que medida uma obra como Vassourinha segue essa trajetória de pesquisa histórica e, na sua visão, de que modo ela se desvia dela?

CA: Trabalhar com fragmentos — com os restos, com os pequenos detalhes no rodapé da página — é uma atitude professada pela École dos Annales e por historiadores como Benjamin e Warburg. Os historiadores de cinema que você mencionou trabalharam a partir de um ponto de vista periférico, em que questões de subdesenvolvimento eram muito presentes no Brasil, e foram informados pela experiência tardia da modernidade no Brasil. Eles certamente conjuraram um corpo de trabalho fundamental e forneceram referências para qualquer pessoa interessada na aventura de investigar o passado do cinema brasileiro. Eu acho que Vassourinha faz parte dessa tradição que você mencionou no sentido de uma pesquisa profunda sobre raízes profundamente nacionais, como se a questão da identidade nacional fosse uma questão crucial e definidora, e uma espécie de adesão a temas populares do modo defendido pelo Modernismo brasileiro (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). Os elementos da cultura popular foram tomados como uma senha para uma revelação do Brasil aos próprios brasileiros. No que diz respeito a Vicente de Paula Araújo, o meu método de pesquisa é, em certa medida, parecido com o dele, compartilhando o mergulho profundo nas fontes primárias de materiais de referência. No que diz respeito a Paulo Emílio, a minha mente opera dentro do mesmo quadro que a dele: uma espécie de investigação sociológica sobre o fato humano. Acho que Vassourinha se desvia dessa tradição na medida em que assume radicalmente uma noção de meta-história poética, no sentido de que não é obrigado a esclarecer nem concluir nada no que diz respeito a um projeto nacional definido em termos de teleologia e de uma grande síntese. Eu valorizo as lacunas, os lapsos, a inconclusividade misteriosa; a pesquisa séria não serve a nenhum tipo de “redenção” do nosso orgulho — as obras e os artistas compõem uma constelação em movimento (em movimento; emocional).

CL: No seu ensaio "Reapropriação de arquivo e imantação de afeto", você traz, a partir do conceito de “Cinema Infinito” de Hollis Frampton, o ideal de um “Arquivo Infinito”. O conceito decorre da relação do cinema com a era digital e da capacidade interminável de “reciclar digitalmente os começos do cinema”. Em outro momento, referindo-se à noção de Leitfossil em Aby Warburg e Georges Didi-Huberman, você afirma que “na minha câmara de maravilhas, não existe arquivo morto; apenas arquivos vivos, adormecidos em suas formas”.

Tanto a noção de um “Arquivo Infinito” quanto a negação de um arquivo morto parecem desconsiderar, à primeira vista, o estado aparentemente finito do arquivamento que se impôs às instituições brasileiras por décadas. No entanto, num segundo olhar, pode-se perceber que você não está negando a realidade de que existem fins no arquivo, mas está expandindo as maneiras pelas quais esses fins podem ser usados na era digital — as imagens podem ser reproduzidas infinitamente numa variedade de formas, formatos e expressões.

Você pode comentar essa interpretação das suas ideias? E como a noção de “Arquivo Infinito” pode ser vista sob a particular guisa da situação arquivística brasileira?

CA: Na minha tese de doutorado e em artigos posteriores publicados em revistas acadêmicas, eu transferi (e transformei) a noção de Frampton para o domínio do found footage. Eu acho que isso é uma contribuição original aos estudos de cinema, essa montagem conceitual que eu faço entre Benjamin, Frampton e Warburg (entre muitas outras noções teóricas, culturais e históricas). Avançar para o contexto geográfico e sociopolítico-econômico de um país como o Brasil exigiria um esforço e uma extensão de argumento que eu não sou capaz de realizar no breve contexto desta entrevista. Evidentemente, à primeira vista, as próprias dificuldades econômicas trazem outros parâmetros para a questão: como pensar a sobrevivência das imagens (como depositárias da memória nacional) se a própria sobrevivência do arquivo (como instituição desse dever) é atormentada por riscos à sua contingência material? Por outro lado, a condição brasileira tem características únicas e originais que a distinguem de outros países: nossa formação colonial, nossa situação periférica, nossa modernidade conservadora, nossa desigualdade social escandalosa e a força artística e intelectual de várias gerações que responderam a esses desafios. Precisamos lembrar que o celuloide é feito também de matéria orgânica e, portanto, sujeito à decomposição, assim como nós. Precisamos ter em mente que o que sobreviveu até o nosso tempo dos poemas de Safo são apenas fragmentos de seus versos, e a beleza da sua poesia é em parte a beleza dessa qualidade de escassez. Paradoxalmente, eu imaginaria que a própria noção de “arquivo infinito”, quando aplicada ao Brasil, implicaria um cinema finito, a própria finitude do cinema, sua fragilidade material e intrínseca, sua condição “humana”.

CL: Como você bem sabe, o mais importante arquivo de filmes do Brasil, a Cinemateca Brasileira, está agora atravessando uma nova crise em que todo o seu acervo corre risco de ser destruído. O momento atual evoca na nossa mente um episódio à la Além da Imaginação, em que um cineasta de found footage acorda e descobre que já não existe mais found footage para ser encontrado. Embora o seu trabalho certamente tenha apresentado found footage que foi obtido para além dos muros de uma instituição arquivística, não se pode negar que essas instituições são repositórios de obras culturais que ainda permanecem escondidas do olhar público. Em primeiro lugar, você pode comentar a negligência histórica do governo brasileiro em investir adequadamente na preservação da memória cultural brasileira? Por fim, você pode comentar o que esse cenário potencialmente distópico evoca para você em relação ao seu corpo de trabalho, aos aspirantes a cineastas de found footage e ao futuro do found footage no Brasil?

CA: Estamos vivendo atualmente tempos sombrios e terríveis no Brasil, e muitas instituições públicas relacionadas à cultura (e à educação) estão sob ameaça, em diferentes níveis, graus e circunstâncias, como a Casa de Rui Barbosa e a Cinemateca Brasileira. Esta última é o nosso arquivo de filmes mais reconhecido, mas existem outros, menores, espalhados por cidades do país, dois dos quais são particularmente merecedores da nossa atenção e respeito, por possuírem grandes acervos e realizarem um trabalho de pesquisa notável e bom: a Cinemateca do MAM (Museu de Arte Moderna) e o Arquivo Nacional (ambos no Rio de Janeiro). No caso da Cinemateca Brasileira, assim como desses outros arquivos, há um problema que vem acontecendo há anos e é uma questão complexa — o que está acontecendo agora é de grande urgência, porque afeta questões básicas de manutenção do próprio arquivo (além dos salários da equipe técnica, a crise atual afeta serviços de fornecimento de energia elétrica, o que ameaça a refrigeração e a segurança). A tragédia do incêndio no Museu Nacional (Rio de Janeiro) em 2018 serve como metáfora para a falta de compromisso público com a memória e o patrimônio nacionais: a negligência transforma a memória em cinzas. O episódio patético do governo brasileiro (literalmente) tomar as chaves da Cinemateca, junto ao incêndio do Museu Nacional, é por si só uma imagem simbólica poderosa. Claro, como cineasta de found footage, eu tenho um engajamento com o arquivamento de filmes e acho que não foi mera coincidência eu ter sido convidado a fazer o filme oficial da celebração do centenário de Paulo Emílio Salles Gomes (Festejo Muito Pessoal, 2016). Pessoalmente, eu sempre trabalhei com estilhaços, sobras, restos, fragmentos incompletos; materiais perdidos, negligenciados e esquecidos. Portanto, eu estou acostumado a trabalhar na escassez e na pobreza. Eu sempre tenho em mente o adágio de que “sempre pode ser pior”, o que talvez não alivie muitas ansiedades sobre o futuro. Os versos “carpe diem” de Horácio nos ajudam a encarar nossas fraquezas e incertezas, que agora são muito maiores com a crise da COVID-19.

CL: Parte do espanto ao assistir a Vassourinha é o fato de ser tão raro ver obras desveladas do arquivo que destaquem as vidas de artistas negros importantes do passado. De certa forma, o filme projeta o papel que os arquivos deveriam estar cumprindo na sociedade contemporânea — isto é, para além de apenas preservar materiais, recuperar e apresentar existências e narrativas até então reprimidas. Na sua visão, por que levou quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha no seu filme? E, como você mesmo já trabalhou como arquivista no passado, o que você acha que futuros arquivistas podem aprender com o filme? O que, de fato, é mais importante salvar para as gerações futuras?

CA: Para mim é muito difícil dizer “por que [levou] quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha”… Seria tentador, e seria uma falácia também, dizer que Vassourinha estava ansioso para me encontrar, que sua arte e seu ofício estavam esperando pelo meu gesto… Eu não sei por que demorou tanto tempo… Pode-se pensar em razões sociais, já que ele era um garoto negro de uma família pobre e não teve tempo suficiente para construir uma fama que perdurasse. Por outro lado, temos muitos casos de grandes artistas em diferentes áreas artísticas que foram esquecidos. [O cinema de found footage é] uma maneira muito pessoal (beirando o loucamente idiossincrática) de lidar com artefatos históricos, uma forma criativa de trabalhar com a história, não apenas no sentido de salvar os restos, mas de trazê-los de volta à vida e mantê-los vivos. A história servindo para fazer vibrar a história de Vassourinha. Eu me considero um cineasta muito materialista, no sentido de que eu valorizo sobretudo os materiais raros e crus de que a história é feita. Acho que se pode sentir, de um modo muito palpável, uma materialidade sensual que meus filmes colocam na tela. Além dos próprios materiais (os “restos”), acho que também é muito importante preservar o sabor do tempo — o zeitgeist — em que se vive. E isso é uma ordem de alquimia: lembrar a obra de Duchamp “Ar de Paris”. De fato, como cineasta comunista, o que seria realmente “mais importante salvar para as gerações futuras” é a própria vida — as vidas de tantos artistas (e pensadores) que nos inspiram e nos fazem florescer. Mas isso está muito longe da utopia; tentar derrotar a morte… Como colocou André Bazin, o cinema carrega um complexo de múmia.

CL: Por fim, desde o lançamento de A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, houve um novo ressurgimento de interesse na vida de Vassourinha. Vários músicos famosos regravaram suas canções e há rumores de que um longa-metragem sobre sua vida está em desenvolvimento. Você vê algo disso como parte do legado e do impacto que o seu filme teve? Relacionado a isso, qual você acha que é a probabilidade de existirem centenas de outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos: talentos inimitáveis, históricos e, na maioria das vezes, negros e marginalizados, cujos legados nunca chegaram ao povo do Brasil para além do seu tempo?

CA: Como o homem mais humilde e mais modesto que eu sou, devo reconhecer que o meu filme definitivamente e certamente teve um impacto de “trazer” Vassourinha “de volta à vida”. Eu odiaria parecer pretensioso, mas é um fato: eu contribuí para tornar Vassourinha mais conhecido e mais apreciado. O meu filme foi capa dos dois principais jornais de São Paulo (na primeira página dos cadernos culturais), que são os principais do Brasil. Eu não me compararia ao status que alguns dão a Ezra Pound, como sendo o re-inventor do provençal para os tempos modernos, um poeta que abraça um trabalho de tradução e crítica; mas é quase isso…de certa forma, eu “inventeI” Vassourinha para os tempos contemporâneos, e eu tenho orgulho de que isso tenha sido feito dentro de um modo de cinema de vanguarda. Depois que o meu filme foi lançado, Caetano Veloso (que já conhecia os meus filmes naquela época) me procurou sobre um projeto proposto por Paula Lavigne (sua esposa e empresária) de relançar os discos originais de Vassourinha junto com um conjunto de Caetano e Chico Buarque interpretando novas versões do repertório de Vassourinha. O meu filme seria uma peça-chave nesse projeto, em shows e em um possível lançamento de DVD junto com o CD; infelizmente isso não foi adiante por algum motivo, talvez porque uma gravadora tenha decidido, em vez disso, lançar apressadamente as canções de Vassourinha. Com certeza existem “outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos”: durante a minha pesquisa para fazer o filme Vassourinha, eu mesmo encontrei uma espécie de Vassourinha feminino quase no mesmo estilo—chapéu de palha, samba sincopado—não tão famosa no seu tempo quanto Vassourinha, atuando de meados dos anos 1930 a meados dos anos 1940 e, depois, completamente esquecida pelo público. Eu só consegui encontrar seis gravações em 78 rpm da sua voz-canto (metade de toda a discografia de Vassourinha). Eu adoraria fazer um filme sobre ela, mas já se passaram 22 anos e eu ainda não o fiz…uma companheira de Vassourinha, em moda e estilo musical, a voz dela permaneceu, de fato, perdida para um vazio mais profundo.

1. Bernardo Vorobow (1946–2009), além de ter sido parceiro de Adriano até sua morte, em 2009, atuou como diretor e programador da Sociedade Amigos da Cinemateca (1970–75); coordenador e programador de cinema no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (1972–76); fundador, diretor e programador do Departamento de Cinema do Museu da Imagem e do Som (MIS, São Paulo, 1975–85); bem como fundador, diretor e programador do Departamento de Difusão e Programação da Cinemateca Brasileira (1982–99), atuando depois como programador até 2009.

2. Miécio Caffé seria o tema do filme de Adriano de 2003, A Caffé com Miécio.

Não deve surpreender que, no Brasil, assim como na maioria dos países historicamente chamados de “subdesenvolvidos”, a questão da memória cultural e do acesso à história, tal como ditados pelo arquivo, seja muito mais precária do que para quem aborda o tema a partir da relativa riqueza dos Estados Unidos ou da Europa. Há muito mais lacunas, apagamentos e interstícios para os quais pedaços da cultura brasileira podem cair com uma frequência muito maior, condição que é ao mesmo tempo de determinação política e de incapacidade física. Quanto a esse segundo fator, basta lembrar que a Atlântida Cinematográfica — o estúdio brasileiro responsável pela maioria dos filmes de chanchada — teve de queimar suas cópias em nitrato da era de ouro dos anos 40 e 50 depois que novas cópias de segurança foram feitas, por medo de que o estúdio inteiro pegasse fogo devido à combinação de película de nitrato e calor tropical. Portanto, para um arquivista brasileiro — ou seu equivalente do lado da produção, o cineasta de found footage — a tarefa de sequer dar os primeiros passos rumo à reunião de documentos para o seu trabalho é árdua e certamente será marcada por muitas frustrações, a menos que o tema em questão tenha um espólio excepcionalmente bem cuidado.

Assim, trabalhadores culturais brasileiros encontram seu trabalho determinado sob o signo da fragmentação, e vemos que o trabalho mais instigante é aquele que ostenta essa marca como motivo de orgulho e usa sua forma para refletir suas inconsistências materiais. Carlos Adriano trabalha com os arquivos cinematográficos do Brasil há mais de vinte anos, criando filmes que ao mesmo tempo preservam e projetam as lacunas e outras formas de falta que ele encontra quando se depara com seções até então não documentadas do passado do Brasil.

Cinelimite: Você pode descrever como encontrou originalmente a figura de Vassourinha? Como cineasta de found footage, você estava buscando ativamente um novo tema para explorar ou Vassourinha entrou na sua vida de uma forma mais inesperada?

Carlos Adriano: Pode-se dizer que, até o meu longa documental Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), aqueles dos meus filmes que lidam com found footage ou material de arquivo compartilham uma marca comum e essencial: todos são sobre temas desconhecidos, esquecidos ou perdidos da cultura brasileira (e seus materiais remanescentes). Por exemplo: Remainiscences (1994-1997) é sobre a suposta primeira filmagem do Brasil (registrada em 1897); Militancy (2001-2002) é sobre a lanterna mágica do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) é sobre o único filme feito pelo escritor Monteiro Lobato (assim como a única gravação de áudio de sua voz); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) é sobre os filmes inacabados do poeta Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) é sobre um filme de mutoscópio (1901) que apresenta o inventor e aviador brasileiro Santos Dumont. Então Vassourinha é um tema coerente, de uma perspectiva “retrospectiva”. Pessoalmente, eu gostava muito dele como um cantor original, alguém que faz parte de uma tradição “discreta”, que inclui Orlando Silva (na sua primeira fase), Mário Reis, Roberto Silva e João Gilberto. Essa tradição comumente apresenta um tipo de canto próximo da palavra falada, um “canto falado” ("spoken song"). Eu tinha o disco de Vassourinha muito antes da ideia de fazer o filme. De certa forma, o filme é uma espécie de tributo de fã. Além disso, a tragédia da vida de Vassourinha — morrer aos 19 anos de uma doença rara—é uma questão relacionada a outro eixo do meu trabalho cinematográfico (mortalidade, morte e vida). Também me interessava a extrema raridade do tema — um artista sobre o qual restou muito pouca informação e documentação. Vassourinha entrou na minha vida tão inesperadamente quanto todas as boas fortunas, por um acaso amoroso.

CL: Ao saber mais sobre Vassourinha e decidir fazer um filme sobre ele, como você iniciou o processo de reunir o imenso número de fotografias, sons, recortes de jornal, partituras e até registros financeiros que podem ser encontrados em A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Esses registros foram apresentados a você dentro de um único arquivo ou você passou por um longo processo de pesquisa em inúmeros lugares para rastrear esse material? Conte para nós como foi esse processo de coleta.

CA: O grande ponto de partida está encapsulado no loop que eu montei a partir de duas palavras da canção da Emília no início do filme: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). Eu comecei com quase nada, apenas alguns trechos e pistas. Depois de uma investigação extensa (e intensa) — em algum lugar entre a arqueologia e o trabalho de detetive — eu e Bernardo Vorobow (coprodutor e meu companheiro de vida de longa data)1 conduzimos pesquisa em toda fonte possível, até conseguirmos dois álbuns pessoais de recortes de jornal reunidos pelo próprio Vassourinha. Um deles me foi dado generosamente por Alberto Helena Junior, um grande fã e importante estudioso de Vassourinha; o outro álbum eu obtive do que restou da família do cantor: um irmão adotivo. Todos os seis discos de 78 rpm gravados por Vassourinha que foram usados no filme para filmagem e gravação (todo o som do filme veio desses discos) pertencem à coleção privada de Miécio Caffé.2 A coleção de Miécio Caffé estava, naquele momento, depositada no Museu da Imagem e do Som (São Paulo). Tive a sorte de conhecer pessoalmente Raul Duarte, o produtor/diretor de rádio que contratou Vassourinha para cantar na Rádio Record, e de conversar com um médico que tratou Vassourinha durante sua última internação. O próprio caminho do processo de pesquisa ditou a estrutura do filme: uma enorme quantidade de informação sobre alguém sobre quem as pessoas não sabiam quase nada. Fragmentos, espectros, restos — a matéria de que a vida é feita. O processo de coleta é, de certa forma, metaforizado na sequência final no cemitério: a busca pelo túmulo dele foi como a busca pelas informações sobre sua vida-obra.

CL: Você acha que o intercâmbio cultural entre dois ou mais países poderia incitar o governo brasileiro a perceber o valor das suas próprias obras nacionais? Você acha que uma grande iniciativa no exterior, manifestada em grandes retrospectivas ou em prêmios mais prestigiosos sendo dados a filmes brasileiros, poderia ser o catalisador para que o governo no Brasil finalmente perceba que precisa financiar a Cinemateca Brasileira e que precisa finalmente apoiar a indústria do cinema e seus trabalhadores culturais de maneira respeitosa e solidária?

CA: Eu acho que esse sentimento de testemunhar um “renascimento” ou uma “redefinição” de um ícone esquecido é natural, já que um dos propósitos do filme é fazer Vassourinha viver de novo, “simplesmente” como ele é. Como o filme é um gesto de amor (um labor de vida, um labor de amor), esse sentimento vem da tela e vai em direção ao rosto do espectador ouvinte. Talvez não seja tão preciso dizer que Vassourinha é desconhecido, porque no tempo dele ele era muito famoso. Ele caiu no esquecimento depois, após sua morte, no pós. Em português, a palavra “olvido” (esquecimento) é próxima de “ouvido” (orelha), e essa é uma senha que eu tentei trabalhar formalmente, como uma forma de operação estética: representar os limites entre o esquecimento e o resgate desse esquecimento por meio do ato de ouvir a voz desse artista. Mas a voz dele caiu num vazio, então eu senti que a minha “missão” (em termos do meu respeito a esse ser humano e à sua arte) era prestar o mais alto tributo: criar um verdadeiro diálogo. Eu tive a sorte de conseguir reunir aquela enorme quantidade de documentação histórica sobre alguém sobre quem “ninguém sabia nada”. O filme trabalha em torno dos limites da legibilidade, a fronteira entre ler e entender. E foi exatamente essa contradição — o fato de existirem muitos documentos sobre uma figura elusiva — que costurou e fortaleceu a força do filme. O fato de que “esses documentos nem aparecem na tela por tempo suficiente para que o espectador consiga lê-los completamente” foi uma escolha operacional que eu fiz para “traduzir” o signo e o mito de Vassourinha. O melhor testemunho que eu poderia fornecer (além do melhor e mais sincero tributo à arte de Vassourinha) era “deixar esses materiais históricos falarem por si” — mas articulados por ferramentas próprias do meio cinematográfico, no que diz respeito ao seu poder de construir (e desconstruir) associações por meio da musa suprema do cinema, a montagem (“edição” seria uma palavra que não faz justiça ao trabalho em si). Minha tarefa humilde foi de natureza [Walter] benjaminiana: reunir esse saco de trapos e sugerir uma constelação coerente.

CL: Dos cinco filmes que você fez e que lidam com histórias culturais esquecidas do Brasil, este é o único que trata exclusivamente de um músico. Como o trabalho de garimpar os arquivos de um sambista diferiu daquele dos seus filmes que se concentram na história do cinema? Ou há uma metodologia recorrente na sua abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência?

CA: Eu não tenho muita certeza se há alguma diferença — do meu ponto de vista da operação cinematográfica — entre trabalhar sobre o arquivo de um sambista e trabalhar sobre o arquivo de um artista de outro meio (literatura, fotografia, caricatura). Porque o cinema é “meu”, é o meu modo operacional de trabalho; quando eu trabalho sobre a obra de um artista, eu tento entender e traduzir seus elementos essenciais para o meu vocabulário (a minha linguagem pessoal do cinema), para estar em sintonia com o seu clima artístico. Como você pode ler em um dos recortes de jornal, Vassourinha interpretou “De Babado”, uma canção escrita por Noel Rosa e João Mina, e gravada por Noel Rosa e Marília Batista em 1936. Esse disco aparece em uma sequência de Santoscope = Dumontage — e, claro, eu tenho essa conexão em mente. O primeiro álbum (33 rpm) lançado com todos os seis sambas gravados por Vassourinha, no fim dos anos 60, teve sua capa desenhada por Miécio Caffé, um famoso (mas que também caiu no esquecimento) caricaturista e colecionador de música, e toneladas de cantores brasileiros iam folhear a coleção privada de discos antigos de 78 rpm de Miécio para pesquisar e estudar. Para citar apenas dois: Chico Buarque e João Gilberto — as lendárias releituras de sambas brasileiros feitas por João Gilberto não seriam possíveis sem a coleção de Miécio Caffé. Em 2003, eu fiz o filme e, para esse filme, Caetano Veloso fez uma nova gravação de um samba menos conhecido, “A Voz do Povo”, originalmente composto por Malfitano e Frasão e gravado por Orlando Silva em 1941. Veloso chamou o samba de um manifesto para o meu trabalho no cinema. Sim, há uma metodologia recorrente na minha abordagem para trazer materiais de arquivo de volta à existência, para citar o título do meu filme sobre os filmes inacabados de Pignatari — note que eu implico um jogo entre « existência » e « resistência », que configuram um par-chave em jogo.

Precisamos tentar oferecer acesso ao cinema brasileiro da melhor forma possível, porque as pessoas precisam saber que esses tesouros existem. Se elas não tiverem esse acesso básico, os filmes serão ignorados e perderão seu valor para o público. Precisamos impedir isso e dar uma virada completa de 180 graus na política no que diz respeito ao acesso.

CL: A história dos arquivos culturais no Brasil é repleta de histórias de perda, tragédia e negligência. No entanto, também é possível ver essa história como um relato ocasional de triunfo, já que a vontade de alguns indivíduos conseguiu preservar a memória cultural brasileira até os dias de hoje. Seus esforços nos permitiram extrair novas ideias de obras históricas da arte brasileira no nosso momento presente.

Como cineasta de found footage, muitas das suas obras lidam com as memórias culturais esquecidas do passado do Brasil. Você pode falar sobre como a história e os esforços passados de preservação cultural no Brasil impactaram o seu trabalho? Por que, na sua visão, figuras tão importantes como Vassourinha foram (antes) esquecidas?

CA: Há uma trajetória de pesquisa acadêmica na minha vida. Eu me formei na escola de cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP – Universidade de São Paulo (ECA-USP). Tenho meu mestrado e meu doutorado (2008) na mesma USP, ambos orientados pelo Prof. Ismail Xavier. Além disso, fiz dois pós-doutorados, um em Artes (na Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP, 2014), supervisionado pelo Prof. Arlindo Machado, e um em Cinema (na USP, 2017), supervisionado pelo Prof. Cristian Borges. Para o meu doutorado e o meu pós-doutorado na PUC-SP, tive bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e, para o meu pós-doutorado na USP, tive uma bolsa da CAPES. Essa longa e entediante citação de currículo serve apenas para mostrar o quão seriamente eu levo a pesquisa acadêmica e como, ao longo da minha vida, esferas de estudo e de arquivamento informaram a minha trajetória. Eu também trabalhei na Cinemateca Brasileira de 1986 a 1999.

Talvez eu possa responder à sua primeira pergunta com um exemplo de um estudo de caso. Minha pesquisa de doutorado (que abriu caminho para a produção de dois filmes sobre Santos Dumont) foi baseada em um objeto desconhecido da Coleção Santos Dumont do Museu Paulista da USP (também conhecido como Museu do Ipiranga). Era um objeto não identificado em termos de ano e origem de produção, sua natureza técnica, e até mesmo o nome que lhe foi atribuído estava errado e era enganoso — mas ele estava lá, no arquivo. Depois de seguir um caminho de pesquisa semelhante ao que foi perseguido em Vassourinha, eu identifiquei que se tratava de um hub de mutoscópio, produzido em 1901 pelo ramo britânico da American Mutoscope & Biograph Company, provavelmente filmado por William K.L. Dickson, e, em seguida, rastreei sua história arquivística. A última frase da sua pergunta exigiria uma explicação grande demais, então eu me arriscaria a dizer, de forma breve, que eu acho que o Brasil historicamente tem uma tradição consistente de tratar mal e pior seus melhores filhos e filhas, principalmente no campo da cultura.

CL: CL: Em Vassourinha, há momentos em que a trilha sonora começa e para, como se um disco de 78 rpm estivesse pulando. Isso muitas vezes é acompanhado, na faixa de imagem, por um efeito de flicker. Sabendo das suas afinidades com outros cineastas de found footage, como Ken Jacobs, como você vê esse efeito de flicker operando em relação ao seu uso em outros contextos globais, e há algo no arquivo brasileiro, e na vida de Vassourinha, que tenha te levado a usar esse efeito?

CA: Eu só poderia falar do meu uso pessoal do flicker (que, claro, está enraizado numa tradição do cinema de vanguarda), um recurso que eu uso bastante nos meus filmes. Em Santoscope = Dumontage, o flicker é um dispositivo do cinema estrutural extraído do próprio aparelho de mutoscópio que hospedava o filme original de 1901 sobre Santos Dumont com o qual eu trabalhei. No caso de Vassourinha, o flicker tem um papel um pouco análogo ao que eu usei em Remainiscences: no sentido de lacunas, lapsos, elos perdidos, abismos perdidos, o vazio. Mas em Vassourinha há um excedente: o flicker como uma instância de consciência, como um momento em que o obturador rapidamente obliterra a imagem para fazê-la ressoar no tempo; então o flicker é um elemento constituinte do tecido da história de Vassourinha (que foi rasgado em pedaços), mas também é um dispositivo para entender essa história. Há até uma rima formal com a condição da sua negritude, no sentido do que é ocultado ou apagado. É como se o flicker fosse um correspondente à “imagem dialética” de Walter Benjamin, aquele momento breve e elusivo em que as associações faiscam para além do tempo histórico. Eu gosto muito da noção benjaminiana de história, tanto como lixo e ruínas quanto como o ponto de vista dos perdedores. Naturalmente, em um país periférico como o Brasil — que sempre abusou de suas instituições encarregadas da preservação de sua memória cultural, e que tem um longo e sombrio passado de apagar e reprimir suas figuras (enraizado na sua história com a escravidão) — o flicker alcança um poder alegórico profundo (e eu uso esse termo tal como Ismail Xavier o definiu tão bem em seu livro seminal Alegorias do Subdesenvolvimento) de um modo, em certa medida, muito além das maravilhas formais do flicker de Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad e outros.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, além de ser uma obra de arte investida no gesto de ressurreição, também serve, mesmo não projetado como um rolo de celuloide, como um verdadeiro repositório de imagens e documentação relacionadas a Vassourinha — um arquivo em si. O que você pensa disso e como você sente que o material histórico se transforma quando passa de um meio para outro?

CA: Definitivamente, o filme Vassourinha é uma peça de arte analógica — ele foi pensado e feito como um filme em 35mm. E eu prezo sobretudo o conceito de “filme infinito”, de Hollis Frampton, em seu ensaio de meta-história, que eu “traduzi” na minha tese de doutorado para o domínio do found footage. Minha tese de doutorado ainda não foi publicada como livro, mas você pode consultá-la no banco de teses da Universidade de São Paulo, e eu publiquei um ensaio baseado nela na revista Anais do Museu Paulista. Eu peguei todos os documentos de Vassourinha que consegui encontrar e os reuni como “quadros” de um filme infinito — todos os materiais são matéria de poesia cinematográfica. Eu lamento que você não consiga exibir o filme no seu formato original de 35mm. Eu fiz algumas viradas disruptivas com o celuloide que só se realizam plenamente em forma fílmica. A “ressurreição” que você menciona é realizada no (e por meio do) próprio celuloide. Além do flicker, eu usei véus, aqueles quadros misteriosos que não são devidamente expostos no obturador da câmera. Com exceção da sequência final, filmada em locação no cenário do cemitério onde Vassourinha está enterrado, o filme foi filmado com uma máquina de animação Oxberry. Um dos maiores elogios, do qual eu mais me orgulho, é sobre o meu estilo de montagem: mesmo quando monto numa ilha digital, o meu trabalho é tributário da moviola. No sentido de passar do meio da história para o meio do cinema, eu diria que a transformação ocorre no campo da poesia. Eu tomo a palavra aqui no sentido de poética, o método de estrutura, uma questão de forma, uma maneira de moldar materiais e pensamentos. E eu diria que historiadores como Walter Benjamin, Aby Warburg e Hayden White contribuíram para libertar o documento, para que ele possa ser reapropriado pelos artistas.

CL: Historiadores importantes do cinema brasileiro, como Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959) e Paulo Emílio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, escrito nos anos 60, mas publicado pela primeira vez em 1986), foram obrigados a buscar fragmentos do passado e a desenterrar notas de rodapé da história para pintar um quadro de eras cinematográficas passadas para as gerações de então e para as futuras. Em que medida uma obra como Vassourinha segue essa trajetória de pesquisa histórica e, na sua visão, de que modo ela se desvia dela?

CA: Trabalhar com fragmentos — com os restos, com os pequenos detalhes no rodapé da página — é uma atitude professada pela École dos Annales e por historiadores como Benjamin e Warburg. Os historiadores de cinema que você mencionou trabalharam a partir de um ponto de vista periférico, em que questões de subdesenvolvimento eram muito presentes no Brasil, e foram informados pela experiência tardia da modernidade no Brasil. Eles certamente conjuraram um corpo de trabalho fundamental e forneceram referências para qualquer pessoa interessada na aventura de investigar o passado do cinema brasileiro. Eu acho que Vassourinha faz parte dessa tradição que você mencionou no sentido de uma pesquisa profunda sobre raízes profundamente nacionais, como se a questão da identidade nacional fosse uma questão crucial e definidora, e uma espécie de adesão a temas populares do modo defendido pelo Modernismo brasileiro (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). Os elementos da cultura popular foram tomados como uma senha para uma revelação do Brasil aos próprios brasileiros. No que diz respeito a Vicente de Paula Araújo, o meu método de pesquisa é, em certa medida, parecido com o dele, compartilhando o mergulho profundo nas fontes primárias de materiais de referência. No que diz respeito a Paulo Emílio, a minha mente opera dentro do mesmo quadro que a dele: uma espécie de investigação sociológica sobre o fato humano. Acho que Vassourinha se desvia dessa tradição na medida em que assume radicalmente uma noção de meta-história poética, no sentido de que não é obrigado a esclarecer nem concluir nada no que diz respeito a um projeto nacional definido em termos de teleologia e de uma grande síntese. Eu valorizo as lacunas, os lapsos, a inconclusividade misteriosa; a pesquisa séria não serve a nenhum tipo de “redenção” do nosso orgulho — as obras e os artistas compõem uma constelação em movimento (em movimento; emocional).

CL: No seu ensaio "Reapropriação de arquivo e imantação de afeto", você traz, a partir do conceito de “Cinema Infinito” de Hollis Frampton, o ideal de um “Arquivo Infinito”. O conceito decorre da relação do cinema com a era digital e da capacidade interminável de “reciclar digitalmente os começos do cinema”. Em outro momento, referindo-se à noção de Leitfossil em Aby Warburg e Georges Didi-Huberman, você afirma que “na minha câmara de maravilhas, não existe arquivo morto; apenas arquivos vivos, adormecidos em suas formas”.

Tanto a noção de um “Arquivo Infinito” quanto a negação de um arquivo morto parecem desconsiderar, à primeira vista, o estado aparentemente finito do arquivamento que se impôs às instituições brasileiras por décadas. No entanto, num segundo olhar, pode-se perceber que você não está negando a realidade de que existem fins no arquivo, mas está expandindo as maneiras pelas quais esses fins podem ser usados na era digital — as imagens podem ser reproduzidas infinitamente numa variedade de formas, formatos e expressões.

Você pode comentar essa interpretação das suas ideias? E como a noção de “Arquivo Infinito” pode ser vista sob a particular guisa da situação arquivística brasileira?

CA: Na minha tese de doutorado e em artigos posteriores publicados em revistas acadêmicas, eu transferi (e transformei) a noção de Frampton para o domínio do found footage. Eu acho que isso é uma contribuição original aos estudos de cinema, essa montagem conceitual que eu faço entre Benjamin, Frampton e Warburg (entre muitas outras noções teóricas, culturais e históricas). Avançar para o contexto geográfico e sociopolítico-econômico de um país como o Brasil exigiria um esforço e uma extensão de argumento que eu não sou capaz de realizar no breve contexto desta entrevista. Evidentemente, à primeira vista, as próprias dificuldades econômicas trazem outros parâmetros para a questão: como pensar a sobrevivência das imagens (como depositárias da memória nacional) se a própria sobrevivência do arquivo (como instituição desse dever) é atormentada por riscos à sua contingência material? Por outro lado, a condição brasileira tem características únicas e originais que a distinguem de outros países: nossa formação colonial, nossa situação periférica, nossa modernidade conservadora, nossa desigualdade social escandalosa e a força artística e intelectual de várias gerações que responderam a esses desafios. Precisamos lembrar que o celuloide é feito também de matéria orgânica e, portanto, sujeito à decomposição, assim como nós. Precisamos ter em mente que o que sobreviveu até o nosso tempo dos poemas de Safo são apenas fragmentos de seus versos, e a beleza da sua poesia é em parte a beleza dessa qualidade de escassez. Paradoxalmente, eu imaginaria que a própria noção de “arquivo infinito”, quando aplicada ao Brasil, implicaria um cinema finito, a própria finitude do cinema, sua fragilidade material e intrínseca, sua condição “humana”.

CL: Como você bem sabe, o mais importante arquivo de filmes do Brasil, a Cinemateca Brasileira, está agora atravessando uma nova crise em que todo o seu acervo corre risco de ser destruído. O momento atual evoca na nossa mente um episódio à la Além da Imaginação, em que um cineasta de found footage acorda e descobre que já não existe mais found footage para ser encontrado. Embora o seu trabalho certamente tenha apresentado found footage que foi obtido para além dos muros de uma instituição arquivística, não se pode negar que essas instituições são repositórios de obras culturais que ainda permanecem escondidas do olhar público. Em primeiro lugar, você pode comentar a negligência histórica do governo brasileiro em investir adequadamente na preservação da memória cultural brasileira? Por fim, você pode comentar o que esse cenário potencialmente distópico evoca para você em relação ao seu corpo de trabalho, aos aspirantes a cineastas de found footage e ao futuro do found footage no Brasil?

CA: Estamos vivendo atualmente tempos sombrios e terríveis no Brasil, e muitas instituições públicas relacionadas à cultura (e à educação) estão sob ameaça, em diferentes níveis, graus e circunstâncias, como a Casa de Rui Barbosa e a Cinemateca Brasileira. Esta última é o nosso arquivo de filmes mais reconhecido, mas existem outros, menores, espalhados por cidades do país, dois dos quais são particularmente merecedores da nossa atenção e respeito, por possuírem grandes acervos e realizarem um trabalho de pesquisa notável e bom: a Cinemateca do MAM (Museu de Arte Moderna) e o Arquivo Nacional (ambos no Rio de Janeiro). No caso da Cinemateca Brasileira, assim como desses outros arquivos, há um problema que vem acontecendo há anos e é uma questão complexa — o que está acontecendo agora é de grande urgência, porque afeta questões básicas de manutenção do próprio arquivo (além dos salários da equipe técnica, a crise atual afeta serviços de fornecimento de energia elétrica, o que ameaça a refrigeração e a segurança). A tragédia do incêndio no Museu Nacional (Rio de Janeiro) em 2018 serve como metáfora para a falta de compromisso público com a memória e o patrimônio nacionais: a negligência transforma a memória em cinzas. O episódio patético do governo brasileiro (literalmente) tomar as chaves da Cinemateca, junto ao incêndio do Museu Nacional, é por si só uma imagem simbólica poderosa. Claro, como cineasta de found footage, eu tenho um engajamento com o arquivamento de filmes e acho que não foi mera coincidência eu ter sido convidado a fazer o filme oficial da celebração do centenário de Paulo Emílio Salles Gomes (Festejo Muito Pessoal, 2016). Pessoalmente, eu sempre trabalhei com estilhaços, sobras, restos, fragmentos incompletos; materiais perdidos, negligenciados e esquecidos. Portanto, eu estou acostumado a trabalhar na escassez e na pobreza. Eu sempre tenho em mente o adágio de que “sempre pode ser pior”, o que talvez não alivie muitas ansiedades sobre o futuro. Os versos “carpe diem” de Horácio nos ajudam a encarar nossas fraquezas e incertezas, que agora são muito maiores com a crise da COVID-19.

CL: Parte do espanto ao assistir a Vassourinha é o fato de ser tão raro ver obras desveladas do arquivo que destaquem as vidas de artistas negros importantes do passado. De certa forma, o filme projeta o papel que os arquivos deveriam estar cumprindo na sociedade contemporânea — isto é, para além de apenas preservar materiais, recuperar e apresentar existências e narrativas até então reprimidas. Na sua visão, por que levou quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha no seu filme? E, como você mesmo já trabalhou como arquivista no passado, o que você acha que futuros arquivistas podem aprender com o filme? O que, de fato, é mais importante salvar para as gerações futuras?

CA: Para mim é muito difícil dizer “por que [levou] quase um século para o mundo poder redescobrir Vassourinha”… Seria tentador, e seria uma falácia também, dizer que Vassourinha estava ansioso para me encontrar, que sua arte e seu ofício estavam esperando pelo meu gesto… Eu não sei por que demorou tanto tempo… Pode-se pensar em razões sociais, já que ele era um garoto negro de uma família pobre e não teve tempo suficiente para construir uma fama que perdurasse. Por outro lado, temos muitos casos de grandes artistas em diferentes áreas artísticas que foram esquecidos. [O cinema de found footage é] uma maneira muito pessoal (beirando o loucamente idiossincrática) de lidar com artefatos históricos, uma forma criativa de trabalhar com a história, não apenas no sentido de salvar os restos, mas de trazê-los de volta à vida e mantê-los vivos. A história servindo para fazer vibrar a história de Vassourinha. Eu me considero um cineasta muito materialista, no sentido de que eu valorizo sobretudo os materiais raros e crus de que a história é feita. Acho que se pode sentir, de um modo muito palpável, uma materialidade sensual que meus filmes colocam na tela. Além dos próprios materiais (os “restos”), acho que também é muito importante preservar o sabor do tempo — o zeitgeist — em que se vive. E isso é uma ordem de alquimia: lembrar a obra de Duchamp “Ar de Paris”. De fato, como cineasta comunista, o que seria realmente “mais importante salvar para as gerações futuras” é a própria vida — as vidas de tantos artistas (e pensadores) que nos inspiram e nos fazem florescer. Mas isso está muito longe da utopia; tentar derrotar a morte… Como colocou André Bazin, o cinema carrega um complexo de múmia.

CL: Por fim, desde o lançamento de A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, houve um novo ressurgimento de interesse na vida de Vassourinha. Vários músicos famosos regravaram suas canções e há rumores de que um longa-metragem sobre sua vida está em desenvolvimento. Você vê algo disso como parte do legado e do impacto que o seu filme teve? Relacionado a isso, qual você acha que é a probabilidade de existirem centenas de outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos: talentos inimitáveis, históricos e, na maioria das vezes, negros e marginalizados, cujos legados nunca chegaram ao povo do Brasil para além do seu tempo?

CA: Como o homem mais humilde e mais modesto que eu sou, devo reconhecer que o meu filme definitivamente e certamente teve um impacto de “trazer” Vassourinha “de volta à vida”. Eu odiaria parecer pretensioso, mas é um fato: eu contribuí para tornar Vassourinha mais conhecido e mais apreciado. O meu filme foi capa dos dois principais jornais de São Paulo (na primeira página dos cadernos culturais), que são os principais do Brasil. Eu não me compararia ao status que alguns dão a Ezra Pound, como sendo o re-inventor do provençal para os tempos modernos, um poeta que abraça um trabalho de tradução e crítica; mas é quase isso…de certa forma, eu “inventeI” Vassourinha para os tempos contemporâneos, e eu tenho orgulho de que isso tenha sido feito dentro de um modo de cinema de vanguarda. Depois que o meu filme foi lançado, Caetano Veloso (que já conhecia os meus filmes naquela época) me procurou sobre um projeto proposto por Paula Lavigne (sua esposa e empresária) de relançar os discos originais de Vassourinha junto com um conjunto de Caetano e Chico Buarque interpretando novas versões do repertório de Vassourinha. O meu filme seria uma peça-chave nesse projeto, em shows e em um possível lançamento de DVD junto com o CD; infelizmente isso não foi adiante por algum motivo, talvez porque uma gravadora tenha decidido, em vez disso, lançar apressadamente as canções de Vassourinha. Com certeza existem “outros possíveis Vassourinhas reprimidos dentro dos arquivos”: durante a minha pesquisa para fazer o filme Vassourinha, eu mesmo encontrei uma espécie de Vassourinha feminino quase no mesmo estilo—chapéu de palha, samba sincopado—não tão famosa no seu tempo quanto Vassourinha, atuando de meados dos anos 1930 a meados dos anos 1940 e, depois, completamente esquecida pelo público. Eu só consegui encontrar seis gravações em 78 rpm da sua voz-canto (metade de toda a discografia de Vassourinha). Eu adoraria fazer um filme sobre ela, mas já se passaram 22 anos e eu ainda não o fiz…uma companheira de Vassourinha, em moda e estilo musical, a voz dela permaneceu, de fato, perdida para um vazio mais profundo.

1. Bernardo Vorobow (1946–2009), além de ter sido parceiro de Adriano até sua morte, em 2009, atuou como diretor e programador da Sociedade Amigos da Cinemateca (1970–75); coordenador e programador de cinema no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (1972–76); fundador, diretor e programador do Departamento de Cinema do Museu da Imagem e do Som (MIS, São Paulo, 1975–85); bem como fundador, diretor e programador do Departamento de Difusão e Programação da Cinemateca Brasileira (1982–99), atuando depois como programador até 2009.

2. Miécio Caffé seria o tema do filme de Adriano de 2003, A Caffé com Miécio.

It should come as no surprise that in Brazil, as in most historically so-called “underdeveloped” countries, the question of cultural memory and access to history as dictated by the archive is far more precarious than one approaching the subject from the relative wealth of the United States or Europe. There are far more gaps, erasures, and interstices for pieces of Brazilian culture to fall into with a much higher frequency, which is a condition both of political determination and physical incapability. On this second factor, one need only be pointed to the fact that Atlântida Cinematográfica — the Brazilian film studio responsible for the majority of chanchada films—had to burn its nitrate prints from the golden era of the 40s and 50s after new safety film copies were made, for fear of the entire studio burning down due to the combination of nitrate film and tropical heat. Therefore, for a Brazilian archivist — or their counterpart on the side of production, the found footage filmmaker —the task of even taking the first steps toward the gathering of documents for their work is an arduous one sure to be met with many frustrations, barring a situation where one’s subject has an exceptionally well-kept estate.

Thus Brazilian cultural workers find their labor to be determined under the sign of fragmentation, and we find the most compelling work to be that which wears this mark as one of pride and uses its form to reflect its material inconsistencies. Carlos Adriano has worked with Brazil’s cinematic archives for over twenty years, creating films that both preserve and project the gaps and other forms of lack that he encounters when faced with the heretofore undocumented sections of Brazil’s past.

Cinelimite: Can you describe how you originally came upon the figure of Vassourinha? As a found-footage filmmaker, were you actively searching for a new topic to explore, or did Vassourinha come into your life in a more unexpected way?

Carlos Adriano: One can say that, until my feature documentary Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), those of my films which deal with found footage or archive material share a common and essential mark: they are all about unknown, forgotten or lost subjects of Brazilian culture (and their remaining materials). For example: Remainiscences (1994-1997) is about the supposed first film footage of Brazil (registered in 1897); Militancy (2001-2002) is about the magic lantern by photographer Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) is about the only film made by writer Monteiro Lobato (as well as the only audio recording of his voice); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) is about the unfinished films by poet Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) is about a mutoscope film (1901) featuring Brazilian inventor and aviator Santos Dumont. So Vassourinha is a coherent subject, from a “retrospective” perspective. Personally, I was very fond of him as an original singer, one who takes part in a “low-key” tradition which includes Orlando Silva (in his first phase), Mário Reis, Roberto Silva and João Gilberto. This tradition would commonly feature a kind of singing close to the spoken words, a “canto falado” ("spoken song"). I had Vassourinha’s record long before the idea of making the film. In a way, the film is a sort of fan’s tribute. Besides, the tragedy of Vassourinha’s life—that of dying at the young age of 19 from a rare disease—is a matter relating to another axis of my film work (mortality, death, and life). Also, the extreme rarity of the subject—an artist about whom very little information and documentation was left—was an interest as well. Vassourinha came into my life as unexpectedly as all good fortunes, by a loving chance.

CL: Upon learning more about Vassourinha, and deciding to make a film about him, how did you begin the process of putting together the immense number of photographs, sounds, newspaper clippings, music sheets and even financial records that can be found within A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Were these records presented to you within a single archive or did you undergo a long research process throughout numerous places to track this material down? Take us through what this collection process was like.

CA: The great starting point is encapsulated in the loop I edited from the two words of the Emília song at the beginning of the film: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). I started with almost nothing, only a few clips and clues. After an extensive (and intense) inquiry—somewhere between archaeology and detective work—I and Bernardo Vorobow (co-producer and my life long companion)1 conducted research across every possible source, until we got two personal albums of news clippings gathered by Vassourinha himself. One of them was given to me generously by Alberto Helena Junior, a big fan and high scholar of Vassourinha; the other album I got from what remained of the singer’s family: a foster brother. All six 78 rpm records recorded by Vassourinha which were used in the film for shooting and recording (all sound in the film came from those discs) belong to the Miécio Caffé private collection.2 The Miécio Caffé collection was at that time deposited at Museu da Imagem e do Som (São Paulo). I was fortunate to meet Raul Duarte in person, the radio producer/director who hired Vassourinha to sing for Radio Record, and to talk to a doctor who treated Vassourinha during his last hospitalization. The very path of the research process dictated the film’s structure: a huge amount of information about someone whom people knew almost nothing about. Shards, specters, remains – the matter life is composed of. The collection process is, in a way, metaphorized in the end sequence at the cemetery: the search for his grave was like the search for his life-work information.

CL: Do you think that cultural exchange between two or more countries could incite the Brazilian government to realize the value of their own national works? Do you think a major initiative abroad, manifested in large retrospectives or more prestigious awards being given to Brazilian films, that these could be the catalyst to make the government in Brazil finally realize that they need to fund the Cinemateca Brasileira and that they need to finally support the film industry and its cultural workers in a respectful and supportive way?

CA: I think that this sense of witnessing a “re-birth” or a “re-defining” of a forgotten icon is natural, as one of the film’s purposes is to make Vassourinha alive again, “simply” as it is. As the film is a gesture of love (a labor of life, a labor of love), this feeling comes forward from the screen and toward the face of the viewer/listener. Maybe it is not so accurate to say that Vassourinha is unknown, because during his time he was very famous. He fell into oblivion afterwards, after his death, aftermath. In Portuguese, the word "olvido" (oblivion) is akin to "ouvido" (ear), and this is a password I tried to work formally, as a way of aesthetic operation: representing the limits between forgetfulness and the rescuing of this forgetfulness through the act of hearing this artist's voice. But his voice fell into a void; so I felt that my “mission” (in terms of my respect to this human being and his art) was to pay the highest tribute: to create a true dialogue. I was fortunate enough to be able to gather that huge amount of historical documentation about somebody who “nobody knew anything about”. The film works around the limits of legibility, the border between reading and understanding. And it was exactly this contradiction — the fact that there existed plenty of documents about an elusive figure — which sutured together and fortified strength of the film. The fact that “these documents do not even appear on the screen for a long enough period of time for the viewer to fully read them” was an operational choice I made in order to “translate” the sign and the myth of Vassourinha. The best testimony I would be able to provide (besides the best and most sincere tribute to Vassourinha’s art) was to “let these historical materials do the talking themselves” – but articulated by proper tools of the cinematic medium, as far as its power to construct (and deconstruct) associations by the means of cinema’s supreme muse of montage (“editing” would be a word that does not give justice to the work itself). My humble task was of a [Walter] Benjaminian nature: to gather this bag of rags and suggest a coherent constellation.

CL: Of the five films you have made which deal with forgotten cultural histories of Brazil, this is the only one that deals exclusively with a musician. How did the work of sifting through the archives of a sambista differ from those of your films which focus on cinematic history? Or is there a reoccurring methodology in your approach towards bringing archival materials into re-existence?

CA: I am not quite sure if there is any difference – from my point of view of the filmmaking-operation – between working upon an archive of a sambista and working upon the archive an artist of a different medium (literature, photography, caricature). Because film is “mine”, my operational mode of work; when I work on an artist’s oeuvre, I try to understand and translate their bare essentials to my vocabulary (my personal film language), to be in tune to their artistic mood. As you can read in one of the news clips, Vassourinha performed “De Babado”, a song written by Noel Rosa and João Mina, and recorded by Noel Rosa e Marília Batista in 1936. This record appears in a sequence of Santoscope = Dumontage – and of course I bear in mind that connection. The first record album (33 rpm) released with all the six sambas recorded by Vassourinha in the late 60s had its cover designed by Miécio Caffé, a famous (but also fallen into oblivion) caricaturist and music collector and tons of Brazilians singers came to browse the private collection of old 78 rpm records of Miécio to research and study. To cite just two: Chico Buarque and João Gilberto — the legendary re-interpretations of Brazilian sambas by João Gilberto would not be possible without the collection of Miécio Caffé. In 2003, I made the film A Caffé with Miécio and for that film Caetano Veloso made a new recording of a lesser-known samba, “A Voz do Povo”, originally composed by Malfitano and Frasão and recorded by Orlando Silva in 1941. Veloso called the samba a manifesto for my cinema work. Yes, there is a reoccurring methodology in my approach towards bringing archival materials into re-existance, to quote the title of my film about Pignatari’s unfinished films – note that I imply a play between « existence » and « resistance », which configure a key pair into play.

We need to try to provide access to Brazilian cinema in the best way possible, because people need to know that these treasures exist. If they can’t have this basic access, the films will become ignored and lose their value to the public. We must prevent this and make a complete 180 degree turn in policy when it comes to access.

CL: The history of cultural archives in Brazil is filled with stories of loss, tragedy, and neglect. However, one could also view this story as an occasional tale of triumph, as the will of a few individuals succeeded in preserving Brazilian cultural memory up until this day. Their efforts have allowed us to glean new ideas from historical works of Brazilian art in our present moment.

As a found-footage filmmaker, many of your works deal with the forgotten cultural memories of Brazil’s past. Can you speak to how the history and past efforts of Brazilian cultural preservation has impacted your work? Why, in your mind, have such important figures such as Vassourinha been (previously) forgotten?

CA: There is a trajectory of academic research in my life. I graduated from film school of Escola de Comunicações e Artes da USP – University of São Paulo (ECA-USP). I have my master degree and my PhD (2008) at the same USP, both advised by Prof. Ismail Xavier. Besides this, I did two Post Doctorals, one in the Arts (at Pontifical Catholic University – PUC-SP, 2014) supervised by Prof. Arlindo Machado, and one in Film (at USP, 2017) supervised by Prof. Cristian Borges. For my PhD and my Post-Doctoral at PUC-SP I had fellowships from Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) and for my Post-Doctoral at USP I had a fellowship from CAPES. That long and boring CV quote is just meant to show how serious I take scholarly research and how, throughout my life, spheres of study and archiving informed my trajectory. I have also worked at the Cinemateca Brasileira from 1986 to 1999.  

Perhaps I could reply to your first question with an example from a case study. My PhD research (which made the way for the production of two films about Santos Dumont) was based on an unknown object of the Santos Dumont Collection of Museu Paulista da USP (aka Museu do Ipiranga). It was an unidentified object in terms of year and origin of production, its technical nature, and even its attributed name was wrong and misleading – but it was there, in the archive. After taking a research path alike the one pursued in Vassourinha’s, I identified that it was a mutoscope hub, produced in 1901 by the British branch of American Mutoscope & Biograph Company, probably shot by William K.L. Dickson, and subsequently tracked its archival history. The last sentence of your question requires too large of an explanation, so I would hazard a risk of saying in short that I think Brazil historically has a consistent tradition of treating badly and worst its best sons and daughters, mainly in the realm of culture.  

CL: In Vassourinha, there are moments in which the soundtrack starts and stops, as if a 78 rpm record is skipping. This is often accompanied on the image track by a flicker effect. Knowing your affinities to other found footage filmmakers such as Ken Jacobs, how do you see this flicker effect operating in relation to its use in other global contexts, and is there something about the Brazilian archive, and the life of Vassourinha, that drove you to use said effect

CA: I could only talk about my personal use of the flicker (which is, of course, rooted in a tradition of avant-garde film), a feature that I use a lot in my films. In Santoscope = Dumontage, the flicker is a structural-film device extracted from the mutoscope apparatus itself that hosted the original 1901 film about Santos Dumont which I worked on. In the case of Vassourinha, the flicker has a role a little bit analogous to the one I used in Remainiscences: in the sense of gaps, lapses, missing links, lost abysses, the void. But in Vassourinha there is a surplus: the flicker as an instance of consciousness, as a moment when the shutter quickly obliterates the image to make it resonate in time; so the flicker is a constituent element of the fabric tissue of Vassourinha's history (which has been torn to pieces), but it is also a device for understanding this history. There is even a formal rhyme with the condition of his Blackness, in the sense of what is concealed or erased. It is as if the flicker was a correspondent to Walter Benjamin's “dialectical image”, that brief and elusive moment when associations sparkle beyond historical time. I really like the Benjaminian notion of history, both as waste and ruins and as the viewpoint of the losers. Naturally, in a peripheral country like Brazil — which has always abused its institutions tasked with the preservation of its cultural memory, and which has a long and dark past of erasing and repressing its figures(rooted in its history with slavery) — the flicker reaches an profound allegorical power (and I use this term as Ismail Xavier so well defined it in his seminal book Allegories of Underdevelopment) in a way, far beyond the formal flicker wonders of Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad and others.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, in addition to being a work of art invested in the gesture of resurrection, also serves, even unprojected as a roll of celluloid, as a veritable repository of images and documentation relating to Vassourinha – an archive in itself. What do you make of this and how do you feel the historical material transforms when it passes from one medium to another?

CA: Definitely, Vassourinha film is an analog piece of art – it was thought and made as a 35mm film. And I treasure most the concept of “infinite film” by Hollis Frampton, in his meta-history essay, which I “translated” in my PhD thesis to the domain of found footage. My PhD piece has not been published as a book yet, but you can browse it at the University of São Paulo’s thesis database and I published an essay based on it in the journal Anais do Museu Paulista. I took all the documents of Vassourinha I could find and gathered them as “frames” of an infinity film – all materials are matter of film poetry. I regret that you are not able to screen the film in its original format of 35mm. I made some disruptive turns with the celluloid that are only fully accomplished in film form. The “resurrection” you mention is taken in (and made by means of) the celluloid itself. Besides the flickering, I used veils, those mysterious frames which are not properly exposed in the camera shutter. Except for the final sequence, shot on location in the set of the cemetery where Vassourinha is buried, the film was shot with an Oxberry animation machine. One of the highest praises of which I am most proud is about my style of editing: even when editing in a digital suite, my work is tributary to the moviola. In the sense of passing from the medium of history to the medium of film, I would say that the transformation occurs in the realm of poetry. I take the word here to mean poetics, the method of structure, a matter of form, a way of shaping materials and thoughts. And I would say that historians like Walter Benjamin, Aby Warburg and Hayden White have contributed to let the document free, to be reappropriated by the artists.

CL: Important Brazilian Cinema historians such as Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959), and Paulo Emilio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, written in the 60s, but first published in 1986) were forced to search for fragments of the past and to uncover footnotes of history in order to paint a picture of bygone cinematic eras for then-present and future generations. To what extent does a work such as Vassourinha follow within that trajectory of historical research, and how in your mind does it deviate from it?

CA: To work with fragments – with the remains, with the small details at the bottom of the page –  is an attitude professed by the École dos Annales and historians like Benjamin and Warburg. The film historians you mentioned worked from a peripheral point of view, where issues of underdevelopment were very present in Brazil, and they were informed by the delayed experience of modernity in Brazil. They definitely conjured up a key body of work and provided references for anybody else interested in the adventure of investigating the Brazilian film past. I think Vassourinha is part of this tradition you mentioned in the sense of a deep research on profoundly national roots, as if the issue of national identity was a crucial and defining issue, and a kind of adhesion to popular subjects in the way defended by Brazilian Modernism (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). The elements from popular culture were taken as a password for a revelation of Brazil to Brazilians themselves. As far as Paula Araújo is concerned, my research method is somewhat like his, sharing the deep dive into the primary sources of reference materials. As far as Paulo Emílio is concerned, my mind operates within the same framework as his: a sort of sociological inquiry about the human fact. I think that Vassourinha deviates from this tradition insofar as it radically assumes a notion of a poetic metahistory, in the sense that it is not obliged to clarify nor conclude anything as far as a national project is defined in terms of teleology and a big synthesis. I treasure the gaps, the lapses, the mysterious inconclusiveness; the serious research does not serve to any sort of “redemption” of our pride – the works and the artists compose a moving (in-motion; emotional) constellation.

CL: In your essay “Found Footage and Magnetization of Affection” you bring forth from Hollis Frampton’s concept of “Infinite Cinema” the ideal of an “Infinite Archive”. The concept stems from cinema’s relationship to the digital age, and the endless ability to “digitally recycle cinema’s beginnings”. Elsewhere, referring to Aby Warburg and Georges Didi-Huberman’s notion of the Leitfossil, you claim that “In my wonder-room, there is no such thing as a dead archive; just living archives, asleep in their forms”.

Both the notion of an “Infinite Archive” and the denial of a dead archive seem to disregard, at first glance, the seemingly finite state of archiving that has approached Brazil’s institutions for decades now. However, at a second glance, one might realize that you’re not denying the reality that there are ends within the archive, but you’re expanding on the ways in which those ends can be used within the digital age – The footage can be reproduced infinitively in an array of shapes, forms, and expressions.

Can you comment on this interpretation of your ideas? And how can the notion of “Infinite Archive” be looked at under the particular guise of the Brazilian archival situation?

CA: In my PhD thesis and in subsequent articles published in academic journals, I transferred (and transformed) Frampton’s notion to the domain of found footage. I think it is an original contribution to film studies, this conceptual montage that I do between Benjamin, Frampton and Warburg (among many other theoretical, cultural and historical notions). Moving into the geographical and socio-political-economic context of a country like Brazil would require an effort and an extension of argument that I am not capable of in the brief context of this interview. Evidently, at a first glance, the economic difficulties themselves bring other parameters to the question: how to think about the survival of images (as depositories of national memory) if the very survival of the archive (as an institution of that duty) is plagued by risks to its material contingency? On the other hand, the Brazilian condition has unique and original characteristics that distinguish it from other countries: our colonial formation, our peripheral situation, our conservative modernity, our outrageous social inequality, and the artistic and intellectual strength of several generations that have responded to these challenges. We must be reminded that film celluloid is made also of organic material, therefore subject to decay, just as we are. We must bear in mind that what survived until our time of Sappho’s poems are just fragments of her verses, and the beauty of her poetry is in part the beauty of this quality of scarcity. Paradoxically, I would imagine that the very notion of “infinite archive”, when applied to Brazil, would imply a finite cinema, the very finitude of cinema, its material and intrinsic fragility, its “human” condition.

CL: As you well know, Brazil’s most important film archive, the Cinemateca Brasileira, is now going through a new crisis in which its entire collection is at risk of being destroyed. The current moment evokes in our minds a Twilight Zone-esque episode in which a found footage filmmaker wakes up to learn that there is no longer any found-footage to be found. While your work has certainly featured found footage that has been sourced beyond the walls of an archival institution, one cannot deny that these institutions are repositories for cultural works that still remain hidden from the public eye. Firstly, can you comment on the long-standing neglect of the Brazilian government to properly invest in preserving Brazilian cultural memory? Lastly, can you comment on what this potentially dystopic scenario evokes for you in relation to your body of work, aspiring found footage filmmakers, and the future of found footage filmmaking in Brazil?

CA: We are currently living under dark and terrible times in Brazil, and many public institutions related to culture (and education) are under threat, at different levels, degrees and circumstances, such as Casa de Rui Barbosa and Cinemateca Brasileira. The latter is our most recognized film archive but there are others, smaller ones, spread across cities in the country, two of which are particularly deserving of our attention and respect, possessing great collections and doing notable, good research work: Cinemateca do MAM (Modern Art Museum) and Arquivo Nacional (both in Rio de Janeiro). In the case of the Cinematic Brasileira, as well as these other archives, there is a problem that has been going on for years and it is a complex issue – what is happening now is of great urgency, because it affects basic issues of maintenance of the archive itself (in addition to the salaries of the technical staff, the current crisis affects services of electrical supply, which threats refrigeration and security). The tragedy of the fire at the Museu Nacional (Rio de Janeiro) in 2018 is as a metaphor for the lack of public commitment to national memory and heritage: the neglect turns memory into ashes. The pathetic episode of Brazilian Government (literally) taking the Cinemateca’s keys, along with that of the Museu Nacional’s fire, is a powerful symbolic image in itself. Of course, as a found-footage filmmaker I have an engagement with film archiving and I think it was not a sheer coincidence that I was commissioned to make the official film of the celebration of Paulo Emílio Salles Gomes’ centenary (A Very Personal Celebration, 2016). Personally, I have always worked with shards, leftovers, remains, incomplete fragments; lost, neglected and forgotten materials. Therefore, I am used to working in scarcity and poverty. I always keep in mind the adage that "it can always be worse", which may not ease many anxieties about the future. Horace’s “carpe diem” verses help us to face our weaknesses and uncertainties, which are much bigger now with the COVID-19 crisis.

CL: Part of the astonishment in watching Vassourinha is the fact that it is so rare to see works unveiled from the archive that highlights the lives on important Black artists from the past. In a way, the film projects the role that archives should be fulling in modern-day society – that is, beyond just preserving materials, recovering and presenting heretofore repressed existences and narratives. In your mind, why did it take nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha in your film? And as you yourself have worked as an archivist in the past, what do you think future archivists can learn from the film? What really is most important to save for future generations?

CA: For me it is far hard to say “why [it took] nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha”… It would be tempting, and it would be a fallacy as well, to say that Vassourinha was looking forward to meet me, his art & craft was waiting for my gesture…I don’t know why it took so much time… One can think of social reasons, as he was a black boy from a poor family and he didn’t have enough time to build a fame which would endure. On the other hand, we have lots of cases of great artists in different artistic areas who were forgotten. [Found footage filmmaking is] a very personal (verging on crazily idiosyncratic) way to deal with historical artifacts, a creative form to work on history, not only in terms of salvaging the remains but to bring them back to life and to keep them alive. History serving to vibrate Vassourinha’s story. I consider myself a very materialist film maker, in the sense that I treasure most the rare and bare materials that history is made of. I think one can feel in a very palpable way a sensual materiality that my films place onto the screen. Besides the very materials themselves (the “remains”), I think it is most important as well to preserve the flavor of time – the zeitgeist – in which one lives. And that is an order of alchemy: remember Duchamp’s work “Air of Paris”. In fact, as a communist filmmaker, what would be really “most important to save for future generations” is life itself – the lives of so many artists (and thinkers) who inspire us and make us thrive. But that is far from utopia; to try to defeat death… As André Bazin put it, cinema holds a mummy complex.

CL: Lastly, since the release of A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha there has been a new resurgence of interest in Vassourinha’s life. Numerous famous musicians have covered his songs and there are rumors that a feature length film about his life is in the works. Do you view any of this as part of the legacy and impact that your film had? Relatedly, what do you think the likelihood is that there are hundreds of other potential Vassourinhas repressed within the archives: inimitable, historical, and most commonly Black marginalized talents whose legacies have never reached the people of Brazil beyond their time?

CA: As the most humble and the most modest man I am, I should acknowledge that my film definitely and surely had an impact of “bringing” Vassourinha “back to life”. I would hate to look pretentious, but it is a fact: I did contribute to make Vassourinha more well-known and more appreciated. My film went on front covers of the two main newspapers in São Paulo (first page of cultural supplements) which are the main ones in Brazil. I would not compare myself to the status some give Ezra Pound, as being the re-inventor of Provençal to modern times, a poet who embraces a work of translation and criticism; but it is almost that…in a way, I did “invent” Vassourinha for contemporary times, and I am proud that it was made within an avant-garde mode of film. After my film was released, Caetano Veloso (who had already known my films at that time) approached me about a project proposed by Paula Lavigne (his wife and manager) of re-releasing Vassourinha’s original records along with a set of Caetano and Chico Buarque performing new versions of Vassourinha’s repertoire. My film was to be a key piece in that project, in concerts and in a possible DVD release along with the CD; unfortunately that did not go further for some reason, maybe because a label decided instead to hastily release Vassourinha’s songs. Surely there are “other potential Vassourinhas repressed within the archives”: during my research for making the Vassourinha film, I myself found a kind of female Vassourinha almost in the same style–straw hat, syncopated samba–not so famous at her time like Vassourinha, performing from the mid-1930s to the mid-1940s, then completely forgotten by the public. I could find only six 78rpm recordings of her chant-voice (half of Vassoruinha’s entire discography). I would love to make a film about her, but 22 years have already passed by and I have not made it yet…a companion to Vassourinha, in fashion and musical style, her voice has remained indeed lost to a deeper void.

1. Bernardo Vorobow (1946-2009), in addition to being Adriano’s partner until his death in 2009, served as director and programmer of the Society of Cinematheque Friends (Sociedade Amigos da Cinemateca, 1970–75); the film coordinator and programmer at the Museum of Contemporary Art at the University of São Paulo (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1972–76); founder, director, and programmer of the Film Department at the Museum of Image and Sound (Museu da Imagem e do Som, São Paulo, 1975–85); as well as founder, director, and programmer of the Diffusion and Program Department of the Brazilian Cinematheque (Cinemateca Brasileira, 1982–99), then programmer until 2009.

2. Miécio Caffé would be the subject of Adriano’s 2003 film A Caffé with Miécio.

It should come as no surprise that in Brazil, as in most historically so-called “underdeveloped” countries, the question of cultural memory and access to history as dictated by the archive is far more precarious than one approaching the subject from the relative wealth of the United States or Europe. There are far more gaps, erasures, and interstices for pieces of Brazilian culture to fall into with a much higher frequency, which is a condition both of political determination and physical incapability. On this second factor, one need only be pointed to the fact that Atlântida Cinematográfica — the Brazilian film studio responsible for the majority of chanchada films—had to burn its nitrate prints from the golden era of the 40s and 50s after new safety film copies were made, for fear of the entire studio burning down due to the combination of nitrate film and tropical heat. Therefore, for a Brazilian archivist — or their counterpart on the side of production, the found footage filmmaker —the task of even taking the first steps toward the gathering of documents for their work is an arduous one sure to be met with many frustrations, barring a situation where one’s subject has an exceptionally well-kept estate.

Thus Brazilian cultural workers find their labor to be determined under the sign of fragmentation, and we find the most compelling work to be that which wears this mark as one of pride and uses its form to reflect its material inconsistencies. Carlos Adriano has worked with Brazil’s cinematic archives for over twenty years, creating films that both preserve and project the gaps and other forms of lack that he encounters when faced with the heretofore undocumented sections of Brazil’s past.

Cinelimite: Can you describe how you originally came upon the figure of Vassourinha? As a found-footage filmmaker, were you actively searching for a new topic to explore, or did Vassourinha come into your life in a more unexpected way?

Carlos Adriano: One can say that, until my feature documentary Santos Dumont: pré-cineasta? (2010), those of my films which deal with found footage or archive material share a common and essential mark: they are all about unknown, forgotten or lost subjects of Brazilian culture (and their remaining materials). For example: Remainiscences (1994-1997) is about the supposed first film footage of Brazil (registered in 1897); Militancy (2001-2002) is about the magic lantern by photographer Militão Augusto de Azevedo; Porviroscope (2004-2006) is about the only film made by writer Monteiro Lobato (as well as the only audio recording of his voice); From the Ruins to the Rexistance (2004-2007) is about the unfinished films by poet Décio Pignatari; Santoscope = Dumontage (2007-2009) is about a mutoscope film (1901) featuring Brazilian inventor and aviator Santos Dumont. So Vassourinha is a coherent subject, from a “retrospective” perspective. Personally, I was very fond of him as an original singer, one who takes part in a “low-key” tradition which includes Orlando Silva (in his first phase), Mário Reis, Roberto Silva and João Gilberto. This tradition would commonly feature a kind of singing close to the spoken words, a “canto falado” ("spoken song"). I had Vassourinha’s record long before the idea of making the film. In a way, the film is a sort of fan’s tribute. Besides, the tragedy of Vassourinha’s life—that of dying at the young age of 19 from a rare disease—is a matter relating to another axis of my film work (mortality, death, and life). Also, the extreme rarity of the subject—an artist about whom very little information and documentation was left—was an interest as well. Vassourinha came into my life as unexpectedly as all good fortunes, by a loving chance.

CL: Upon learning more about Vassourinha, and deciding to make a film about him, how did you begin the process of putting together the immense number of photographs, sounds, newspaper clippings, music sheets and even financial records that can be found within A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha? Were these records presented to you within a single archive or did you undergo a long research process throughout numerous places to track this material down? Take us through what this collection process was like.

CA: The great starting point is encapsulated in the loop I edited from the two words of the Emília song at the beginning of the film: “Ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe…” (“Nobody knows…”). I started with almost nothing, only a few clips and clues. After an extensive (and intense) inquiry—somewhere between archaeology and detective work—I and Bernardo Vorobow (co-producer and my life long companion)1 conducted research across every possible source, until we got two personal albums of news clippings gathered by Vassourinha himself. One of them was given to me generously by Alberto Helena Junior, a big fan and high scholar of Vassourinha; the other album I got from what remained of the singer’s family: a foster brother. All six 78 rpm records recorded by Vassourinha which were used in the film for shooting and recording (all sound in the film came from those discs) belong to the Miécio Caffé private collection.2 The Miécio Caffé collection was at that time deposited at Museu da Imagem e do Som (São Paulo). I was fortunate to meet Raul Duarte in person, the radio producer/director who hired Vassourinha to sing for Radio Record, and to talk to a doctor who treated Vassourinha during his last hospitalization. The very path of the research process dictated the film’s structure: a huge amount of information about someone whom people knew almost nothing about. Shards, specters, remains – the matter life is composed of. The collection process is, in a way, metaphorized in the end sequence at the cemetery: the search for his grave was like the search for his life-work information.

CL: Do you think that cultural exchange between two or more countries could incite the Brazilian government to realize the value of their own national works? Do you think a major initiative abroad, manifested in large retrospectives or more prestigious awards being given to Brazilian films, that these could be the catalyst to make the government in Brazil finally realize that they need to fund the Cinemateca Brasileira and that they need to finally support the film industry and its cultural workers in a respectful and supportive way?

CA: I think that this sense of witnessing a “re-birth” or a “re-defining” of a forgotten icon is natural, as one of the film’s purposes is to make Vassourinha alive again, “simply” as it is. As the film is a gesture of love (a labor of life, a labor of love), this feeling comes forward from the screen and toward the face of the viewer/listener. Maybe it is not so accurate to say that Vassourinha is unknown, because during his time he was very famous. He fell into oblivion afterwards, after his death, aftermath. In Portuguese, the word "olvido" (oblivion) is akin to "ouvido" (ear), and this is a password I tried to work formally, as a way of aesthetic operation: representing the limits between forgetfulness and the rescuing of this forgetfulness through the act of hearing this artist's voice. But his voice fell into a void; so I felt that my “mission” (in terms of my respect to this human being and his art) was to pay the highest tribute: to create a true dialogue. I was fortunate enough to be able to gather that huge amount of historical documentation about somebody who “nobody knew anything about”. The film works around the limits of legibility, the border between reading and understanding. And it was exactly this contradiction — the fact that there existed plenty of documents about an elusive figure — which sutured together and fortified strength of the film. The fact that “these documents do not even appear on the screen for a long enough period of time for the viewer to fully read them” was an operational choice I made in order to “translate” the sign and the myth of Vassourinha. The best testimony I would be able to provide (besides the best and most sincere tribute to Vassourinha’s art) was to “let these historical materials do the talking themselves” – but articulated by proper tools of the cinematic medium, as far as its power to construct (and deconstruct) associations by the means of cinema’s supreme muse of montage (“editing” would be a word that does not give justice to the work itself). My humble task was of a [Walter] Benjaminian nature: to gather this bag of rags and suggest a coherent constellation.

CL: Of the five films you have made which deal with forgotten cultural histories of Brazil, this is the only one that deals exclusively with a musician. How did the work of sifting through the archives of a sambista differ from those of your films which focus on cinematic history? Or is there a reoccurring methodology in your approach towards bringing archival materials into re-existence?

CA: I am not quite sure if there is any difference – from my point of view of the filmmaking-operation – between working upon an archive of a sambista and working upon the archive an artist of a different medium (literature, photography, caricature). Because film is “mine”, my operational mode of work; when I work on an artist’s oeuvre, I try to understand and translate their bare essentials to my vocabulary (my personal film language), to be in tune to their artistic mood. As you can read in one of the news clips, Vassourinha performed “De Babado”, a song written by Noel Rosa and João Mina, and recorded by Noel Rosa e Marília Batista in 1936. This record appears in a sequence of Santoscope = Dumontage – and of course I bear in mind that connection. The first record album (33 rpm) released with all the six sambas recorded by Vassourinha in the late 60s had its cover designed by Miécio Caffé, a famous (but also fallen into oblivion) caricaturist and music collector and tons of Brazilians singers came to browse the private collection of old 78 rpm records of Miécio to research and study. To cite just two: Chico Buarque and João Gilberto — the legendary re-interpretations of Brazilian sambas by João Gilberto would not be possible without the collection of Miécio Caffé. In 2003, I made the film A Caffé with Miécio and for that film Caetano Veloso made a new recording of a lesser-known samba, “A Voz do Povo”, originally composed by Malfitano and Frasão and recorded by Orlando Silva in 1941. Veloso called the samba a manifesto for my cinema work. Yes, there is a reoccurring methodology in my approach towards bringing archival materials into re-existance, to quote the title of my film about Pignatari’s unfinished films – note that I imply a play between « existence » and « resistance », which configure a key pair into play.

We need to try to provide access to Brazilian cinema in the best way possible, because people need to know that these treasures exist. If they can’t have this basic access, the films will become ignored and lose their value to the public. We must prevent this and make a complete 180 degree turn in policy when it comes to access.

CL: The history of cultural archives in Brazil is filled with stories of loss, tragedy, and neglect. However, one could also view this story as an occasional tale of triumph, as the will of a few individuals succeeded in preserving Brazilian cultural memory up until this day. Their efforts have allowed us to glean new ideas from historical works of Brazilian art in our present moment.

As a found-footage filmmaker, many of your works deal with the forgotten cultural memories of Brazil’s past. Can you speak to how the history and past efforts of Brazilian cultural preservation has impacted your work? Why, in your mind, have such important figures such as Vassourinha been (previously) forgotten?

CA: There is a trajectory of academic research in my life. I graduated from film school of Escola de Comunicações e Artes da USP – University of São Paulo (ECA-USP). I have my master degree and my PhD (2008) at the same USP, both advised by Prof. Ismail Xavier. Besides this, I did two Post Doctorals, one in the Arts (at Pontifical Catholic University – PUC-SP, 2014) supervised by Prof. Arlindo Machado, and one in Film (at USP, 2017) supervised by Prof. Cristian Borges. For my PhD and my Post-Doctoral at PUC-SP I had fellowships from Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) and for my Post-Doctoral at USP I had a fellowship from CAPES. That long and boring CV quote is just meant to show how serious I take scholarly research and how, throughout my life, spheres of study and archiving informed my trajectory. I have also worked at the Cinemateca Brasileira from 1986 to 1999.  

Perhaps I could reply to your first question with an example from a case study. My PhD research (which made the way for the production of two films about Santos Dumont) was based on an unknown object of the Santos Dumont Collection of Museu Paulista da USP (aka Museu do Ipiranga). It was an unidentified object in terms of year and origin of production, its technical nature, and even its attributed name was wrong and misleading – but it was there, in the archive. After taking a research path alike the one pursued in Vassourinha’s, I identified that it was a mutoscope hub, produced in 1901 by the British branch of American Mutoscope & Biograph Company, probably shot by William K.L. Dickson, and subsequently tracked its archival history. The last sentence of your question requires too large of an explanation, so I would hazard a risk of saying in short that I think Brazil historically has a consistent tradition of treating badly and worst its best sons and daughters, mainly in the realm of culture.  

CL: In Vassourinha, there are moments in which the soundtrack starts and stops, as if a 78 rpm record is skipping. This is often accompanied on the image track by a flicker effect. Knowing your affinities to other found footage filmmakers such as Ken Jacobs, how do you see this flicker effect operating in relation to its use in other global contexts, and is there something about the Brazilian archive, and the life of Vassourinha, that drove you to use said effect

CA: I could only talk about my personal use of the flicker (which is, of course, rooted in a tradition of avant-garde film), a feature that I use a lot in my films. In Santoscope = Dumontage, the flicker is a structural-film device extracted from the mutoscope apparatus itself that hosted the original 1901 film about Santos Dumont which I worked on. In the case of Vassourinha, the flicker has a role a little bit analogous to the one I used in Remainiscences: in the sense of gaps, lapses, missing links, lost abysses, the void. But in Vassourinha there is a surplus: the flicker as an instance of consciousness, as a moment when the shutter quickly obliterates the image to make it resonate in time; so the flicker is a constituent element of the fabric tissue of Vassourinha's history (which has been torn to pieces), but it is also a device for understanding this history. There is even a formal rhyme with the condition of his Blackness, in the sense of what is concealed or erased. It is as if the flicker was a correspondent to Walter Benjamin's “dialectical image”, that brief and elusive moment when associations sparkle beyond historical time. I really like the Benjaminian notion of history, both as waste and ruins and as the viewpoint of the losers. Naturally, in a peripheral country like Brazil — which has always abused its institutions tasked with the preservation of its cultural memory, and which has a long and dark past of erasing and repressing its figures(rooted in its history with slavery) — the flicker reaches an profound allegorical power (and I use this term as Ismail Xavier so well defined it in his seminal book Allegories of Underdevelopment) in a way, far beyond the formal flicker wonders of Peter Kubelka, Ken Jacobs, Tony Conrad and others.

CL: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, in addition to being a work of art invested in the gesture of resurrection, also serves, even unprojected as a roll of celluloid, as a veritable repository of images and documentation relating to Vassourinha – an archive in itself. What do you make of this and how do you feel the historical material transforms when it passes from one medium to another?

CA: Definitely, Vassourinha film is an analog piece of art – it was thought and made as a 35mm film. And I treasure most the concept of “infinite film” by Hollis Frampton, in his meta-history essay, which I “translated” in my PhD thesis to the domain of found footage. My PhD piece has not been published as a book yet, but you can browse it at the University of São Paulo’s thesis database and I published an essay based on it in the journal Anais do Museu Paulista. I took all the documents of Vassourinha I could find and gathered them as “frames” of an infinity film – all materials are matter of film poetry. I regret that you are not able to screen the film in its original format of 35mm. I made some disruptive turns with the celluloid that are only fully accomplished in film form. The “resurrection” you mention is taken in (and made by means of) the celluloid itself. Besides the flickering, I used veils, those mysterious frames which are not properly exposed in the camera shutter. Except for the final sequence, shot on location in the set of the cemetery where Vassourinha is buried, the film was shot with an Oxberry animation machine. One of the highest praises of which I am most proud is about my style of editing: even when editing in a digital suite, my work is tributary to the moviola. In the sense of passing from the medium of history to the medium of film, I would say that the transformation occurs in the realm of poetry. I take the word here to mean poetics, the method of structure, a matter of form, a way of shaping materials and thoughts. And I would say that historians like Walter Benjamin, Aby Warburg and Hayden White have contributed to let the document free, to be reappropriated by the artists.

CL: Important Brazilian Cinema historians such as Vicente de Paula Araújo (A Bela Época do Cinema Brasileiro, 1976), Alex Viany (Introdução ao Cinema Brasileiro, 1959), and Paulo Emilio Salles Gomes (Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, written in the 60s, but first published in 1986) were forced to search for fragments of the past and to uncover footnotes of history in order to paint a picture of bygone cinematic eras for then-present and future generations. To what extent does a work such as Vassourinha follow within that trajectory of historical research, and how in your mind does it deviate from it?

CA: To work with fragments – with the remains, with the small details at the bottom of the page –  is an attitude professed by the École dos Annales and historians like Benjamin and Warburg. The film historians you mentioned worked from a peripheral point of view, where issues of underdevelopment were very present in Brazil, and they were informed by the delayed experience of modernity in Brazil. They definitely conjured up a key body of work and provided references for anybody else interested in the adventure of investigating the Brazilian film past. I think Vassourinha is part of this tradition you mentioned in the sense of a deep research on profoundly national roots, as if the issue of national identity was a crucial and defining issue, and a kind of adhesion to popular subjects in the way defended by Brazilian Modernism (Mário de Andrade, Oswald de Andrade). The elements from popular culture were taken as a password for a revelation of Brazil to Brazilians themselves. As far as Paula Araújo is concerned, my research method is somewhat like his, sharing the deep dive into the primary sources of reference materials. As far as Paulo Emílio is concerned, my mind operates within the same framework as his: a sort of sociological inquiry about the human fact. I think that Vassourinha deviates from this tradition insofar as it radically assumes a notion of a poetic metahistory, in the sense that it is not obliged to clarify nor conclude anything as far as a national project is defined in terms of teleology and a big synthesis. I treasure the gaps, the lapses, the mysterious inconclusiveness; the serious research does not serve to any sort of “redemption” of our pride – the works and the artists compose a moving (in-motion; emotional) constellation.

CL: In your essay “Found Footage and Magnetization of Affection” you bring forth from Hollis Frampton’s concept of “Infinite Cinema” the ideal of an “Infinite Archive”. The concept stems from cinema’s relationship to the digital age, and the endless ability to “digitally recycle cinema’s beginnings”. Elsewhere, referring to Aby Warburg and Georges Didi-Huberman’s notion of the Leitfossil, you claim that “In my wonder-room, there is no such thing as a dead archive; just living archives, asleep in their forms”.

Both the notion of an “Infinite Archive” and the denial of a dead archive seem to disregard, at first glance, the seemingly finite state of archiving that has approached Brazil’s institutions for decades now. However, at a second glance, one might realize that you’re not denying the reality that there are ends within the archive, but you’re expanding on the ways in which those ends can be used within the digital age – The footage can be reproduced infinitively in an array of shapes, forms, and expressions.

Can you comment on this interpretation of your ideas? And how can the notion of “Infinite Archive” be looked at under the particular guise of the Brazilian archival situation?

CA: In my PhD thesis and in subsequent articles published in academic journals, I transferred (and transformed) Frampton’s notion to the domain of found footage. I think it is an original contribution to film studies, this conceptual montage that I do between Benjamin, Frampton and Warburg (among many other theoretical, cultural and historical notions). Moving into the geographical and socio-political-economic context of a country like Brazil would require an effort and an extension of argument that I am not capable of in the brief context of this interview. Evidently, at a first glance, the economic difficulties themselves bring other parameters to the question: how to think about the survival of images (as depositories of national memory) if the very survival of the archive (as an institution of that duty) is plagued by risks to its material contingency? On the other hand, the Brazilian condition has unique and original characteristics that distinguish it from other countries: our colonial formation, our peripheral situation, our conservative modernity, our outrageous social inequality, and the artistic and intellectual strength of several generations that have responded to these challenges. We must be reminded that film celluloid is made also of organic material, therefore subject to decay, just as we are. We must bear in mind that what survived until our time of Sappho’s poems are just fragments of her verses, and the beauty of her poetry is in part the beauty of this quality of scarcity. Paradoxically, I would imagine that the very notion of “infinite archive”, when applied to Brazil, would imply a finite cinema, the very finitude of cinema, its material and intrinsic fragility, its “human” condition.

CL: As you well know, Brazil’s most important film archive, the Cinemateca Brasileira, is now going through a new crisis in which its entire collection is at risk of being destroyed. The current moment evokes in our minds a Twilight Zone-esque episode in which a found footage filmmaker wakes up to learn that there is no longer any found-footage to be found. While your work has certainly featured found footage that has been sourced beyond the walls of an archival institution, one cannot deny that these institutions are repositories for cultural works that still remain hidden from the public eye. Firstly, can you comment on the long-standing neglect of the Brazilian government to properly invest in preserving Brazilian cultural memory? Lastly, can you comment on what this potentially dystopic scenario evokes for you in relation to your body of work, aspiring found footage filmmakers, and the future of found footage filmmaking in Brazil?

CA: We are currently living under dark and terrible times in Brazil, and many public institutions related to culture (and education) are under threat, at different levels, degrees and circumstances, such as Casa de Rui Barbosa and Cinemateca Brasileira. The latter is our most recognized film archive but there are others, smaller ones, spread across cities in the country, two of which are particularly deserving of our attention and respect, possessing great collections and doing notable, good research work: Cinemateca do MAM (Modern Art Museum) and Arquivo Nacional (both in Rio de Janeiro). In the case of the Cinematic Brasileira, as well as these other archives, there is a problem that has been going on for years and it is a complex issue – what is happening now is of great urgency, because it affects basic issues of maintenance of the archive itself (in addition to the salaries of the technical staff, the current crisis affects services of electrical supply, which threats refrigeration and security). The tragedy of the fire at the Museu Nacional (Rio de Janeiro) in 2018 is as a metaphor for the lack of public commitment to national memory and heritage: the neglect turns memory into ashes. The pathetic episode of Brazilian Government (literally) taking the Cinemateca’s keys, along with that of the Museu Nacional’s fire, is a powerful symbolic image in itself. Of course, as a found-footage filmmaker I have an engagement with film archiving and I think it was not a sheer coincidence that I was commissioned to make the official film of the celebration of Paulo Emílio Salles Gomes’ centenary (A Very Personal Celebration, 2016). Personally, I have always worked with shards, leftovers, remains, incomplete fragments; lost, neglected and forgotten materials. Therefore, I am used to working in scarcity and poverty. I always keep in mind the adage that "it can always be worse", which may not ease many anxieties about the future. Horace’s “carpe diem” verses help us to face our weaknesses and uncertainties, which are much bigger now with the COVID-19 crisis.

CL: Part of the astonishment in watching Vassourinha is the fact that it is so rare to see works unveiled from the archive that highlights the lives on important Black artists from the past. In a way, the film projects the role that archives should be fulling in modern-day society – that is, beyond just preserving materials, recovering and presenting heretofore repressed existences and narratives. In your mind, why did it take nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha in your film? And as you yourself have worked as an archivist in the past, what do you think future archivists can learn from the film? What really is most important to save for future generations?

CA: For me it is far hard to say “why [it took] nearly a century for the world to be able to rediscover Vassourinha”… It would be tempting, and it would be a fallacy as well, to say that Vassourinha was looking forward to meet me, his art & craft was waiting for my gesture…I don’t know why it took so much time… One can think of social reasons, as he was a black boy from a poor family and he didn’t have enough time to build a fame which would endure. On the other hand, we have lots of cases of great artists in different artistic areas who were forgotten. [Found footage filmmaking is] a very personal (verging on crazily idiosyncratic) way to deal with historical artifacts, a creative form to work on history, not only in terms of salvaging the remains but to bring them back to life and to keep them alive. History serving to vibrate Vassourinha’s story. I consider myself a very materialist film maker, in the sense that I treasure most the rare and bare materials that history is made of. I think one can feel in a very palpable way a sensual materiality that my films place onto the screen. Besides the very materials themselves (the “remains”), I think it is most important as well to preserve the flavor of time – the zeitgeist – in which one lives. And that is an order of alchemy: remember Duchamp’s work “Air of Paris”. In fact, as a communist filmmaker, what would be really “most important to save for future generations” is life itself – the lives of so many artists (and thinkers) who inspire us and make us thrive. But that is far from utopia; to try to defeat death… As André Bazin put it, cinema holds a mummy complex.

CL: Lastly, since the release of A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha there has been a new resurgence of interest in Vassourinha’s life. Numerous famous musicians have covered his songs and there are rumors that a feature length film about his life is in the works. Do you view any of this as part of the legacy and impact that your film had? Relatedly, what do you think the likelihood is that there are hundreds of other potential Vassourinhas repressed within the archives: inimitable, historical, and most commonly Black marginalized talents whose legacies have never reached the people of Brazil beyond their time?

CA: As the most humble and the most modest man I am, I should acknowledge that my film definitely and surely had an impact of “bringing” Vassourinha “back to life”. I would hate to look pretentious, but it is a fact: I did contribute to make Vassourinha more well-known and more appreciated. My film went on front covers of the two main newspapers in São Paulo (first page of cultural supplements) which are the main ones in Brazil. I would not compare myself to the status some give Ezra Pound, as being the re-inventor of Provençal to modern times, a poet who embraces a work of translation and criticism; but it is almost that…in a way, I did “invent” Vassourinha for contemporary times, and I am proud that it was made within an avant-garde mode of film. After my film was released, Caetano Veloso (who had already known my films at that time) approached me about a project proposed by Paula Lavigne (his wife and manager) of re-releasing Vassourinha’s original records along with a set of Caetano and Chico Buarque performing new versions of Vassourinha’s repertoire. My film was to be a key piece in that project, in concerts and in a possible DVD release along with the CD; unfortunately that did not go further for some reason, maybe because a label decided instead to hastily release Vassourinha’s songs. Surely there are “other potential Vassourinhas repressed within the archives”: during my research for making the Vassourinha film, I myself found a kind of female Vassourinha almost in the same style–straw hat, syncopated samba–not so famous at her time like Vassourinha, performing from the mid-1930s to the mid-1940s, then completely forgotten by the public. I could find only six 78rpm recordings of her chant-voice (half of Vassoruinha’s entire discography). I would love to make a film about her, but 22 years have already passed by and I have not made it yet…a companion to Vassourinha, in fashion and musical style, her voice has remained indeed lost to a deeper void.

1. Bernardo Vorobow (1946-2009), in addition to being Adriano’s partner until his death in 2009, served as director and programmer of the Society of Cinematheque Friends (Sociedade Amigos da Cinemateca, 1970–75); the film coordinator and programmer at the Museum of Contemporary Art at the University of São Paulo (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1972–76); founder, director, and programmer of the Film Department at the Museum of Image and Sound (Museu da Imagem e do Som, São Paulo, 1975–85); as well as founder, director, and programmer of the Diffusion and Program Department of the Brazilian Cinematheque (Cinemateca Brasileira, 1982–99), then programmer until 2009.

2. Miécio Caffé would be the subject of Adriano’s 2003 film A Caffé with Miécio.