PT/ENG
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29/1/2021
By/Por:
Igor Nolasco

Mesmo aqueles que conhecem bem a filmografia de Sérgio Ricardo talvez não estejam familiarizados com seus filmes mais recentes como diretor, realizados por esse artista múltiplo. Como seu último projeto de maior fôlego foi A Noite do Espantalho, lançado em 1974, nas décadas seguintes suas incursões no cinema podem ser exemplificadas por obras menos conhecidas. Um exemplo é o curta Zelão, uma animação realizada em 1999 e concebida como acompanhamento para sua canção homônima de 1960. Seus últimos projetos chegaram nos anos 2010, em circunstâncias muito diferentes daquelas que marcaram as etapas anteriores de seu trabalho como cineasta.

O retorno de Ricardo à boa forma veio com Pé Sem Chão, curta-metragem realizado em 2014 e produzido pela Iracema Filmes. O filme se inicia com as seguintes palavras:

Este filme é fruto tanto de um amor pelo cinema quanto do tema central que aborda. Ele foi realizado por todos os seus artistas e técnicos que, a convite do diretor, aceitaram o desafio de empreender uma produção sem recursos financeiros.

Esse breve preâmbulo, em sua honestidade, soa quase como um pedido de desculpas humilde, por parte da equipe de produção, por um filme frágil no qual, ainda assim, trabalharam com todo o coração. Em seguida, o aviso dá lugar a uma narrativa trágica, condensada em poucos minutos: uma família, composta por uma mãe e um filho — um jovem com deficiência — é despejada da casa onde vive, no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

O Vidigal é um elemento fundamental para construir qualquer compreensão básica da biografia de Sérgio Ricardo. O músico e cineasta viveu na comunidade por uma parte considerável de sua vida, até seus últimos anos. Tanto o curta Pé Sem Chão quanto o longa Bandeira de Retalhos (seu filme final) se passam no Vidigal. Seu crepúsculo cinematográfico ocorreu naquela comunidade.

É significativo que, em ambos os filmes, a presença de Ricardo paire sobre a ação. Em Bandeira de Retalhos, ele está presente na figura de um músico intelectual que visita o morro. Em Pé Sem Chão, de forma ainda mais evidente. Ricardo interpreta um flâneur que atravessa o Vidigal e seus estabelecimentos locais, apresentando ao espectador esse mundo microcósmico com a mesma eficácia dos travellings que enquadram as encostas do morro nos segundos iniciais do filme.

No curta-metragem, o velho flâneur não é apenas uma figura alegórica, mas também um agente provocador. Ao caminhar por vielas, sua voz recita monólogos que condensam ideias e reflexões, e há uma musicalidade na maneira como essas falas são proferidas, o que não surpreende quem conhece o trabalho de Ricardo como músico. Quando ele presencia um fiscal imobiliário entregar à família mencionada anteriormente sua notificação final, ele questiona o fiscal de forma pragmática: você é escravo?

Bandeira de Retalhos foi lançado quatro anos após Pé Sem Chão, viabilizado pela Cavídeo, produtora audiovisual liderada por Cavi Borges. Ele merece um breve momento de atenção neste texto. Ao longo de sua carreira, tanto como produtor quanto como diretor, é visível a afinidade de Borges com diversos cineastas, atores e outras figuras do cinema brasileiro que lhe causaram profundo impacto. Ele busca dar visibilidade a essas pessoas ao criar novas oportunidades de produção e ao apresentar seu trabalho a novas gerações. Resgate não é o termo mais apropriado (pois implica que elas teriam sido esquecidas). O que Cavi faz é trabalhar junto de pessoas que admira e lhes oferecer os meios para realizar ou ser objeto de novas obras. Entre os nomes contemplados por esse gesto de Cavi estão Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna e, naturalmente, Sérgio Ricardo.

À primeira vista, o longa-metragem se conecta a Pé Sem Chão por seus temas comuns. Os dois filmes, em escalas e modos diferentes, abrangem narrativas de personagens sendo despejados de onde vivem, e ambos se passam no Vidigal. Bandeira de Retalhos, no entanto, baseia-se em uma peça teatral de Ricardo, inspirada em uma tentativa da Prefeitura do Rio de Janeiro de desapropriar a comunidade e expulsar seus moradores daquele território. A intenção real por trás das ações da Prefeitura era remover os moradores da área para construir um conjunto de hotéis.

Narrativamente mais complexo (pois se centra em um trio de personagens integrado a uma comunidade, representada na tela por vários de seus membros), Bandeira de Retalhos também é um projeto mais ambicioso, e não apenas por ter uma duração maior. As dimensões musicais que sempre atravessam a obra do cineasta aparecem em Pé Sem Chão, tanto nas reflexões cantadas do flâneur quanto nas canções de Ricardo (especialmente Palmares, em parceria com José Carlos Capinan). No entanto, a música surge de modo distinto no filme posterior, em momentos que variam entre o diegético e o não diegético. Além de evidenciar a versatilidade de Sérgio Ricardo como compositor, o uso da música em Bandeira de Retalhos revela alguém que compreende de fato a musicalidade diversa das pessoas.

Seria anacrônico, para uma produção de 2018, ainda que ambientada nos anos 1970, ter na trilha sonora canções que remetessem aos temas musicais presentes em Deus e o diabo na terra do sol, de 1964 (apenas para citar o trabalho musical mais conhecido de Ricardo). Ricardo compreende a necessidade de variação. Nesse sentido, Bandeira de Retalhos surpreende o espectador mais acostumado às obras anteriores do cineasta, pois se abre com um número de hip-hop. Essa modernização, por assim dizer (sem, obviamente, equiparar antigo a atraso ou inferioridade), funciona de modo orgânico. Considerando o momento histórico em que Bandeira de Retalhos foi realizado, após a Retomada, após a incorporação de técnicas publicitárias pelo cinema brasileiro e após o boom internacional dos filmes de favela, a cena de abertura, na verdade, soa como uma escolha natural para Ricardo.

No longa-metragem, a produção da Cavídeo se faz presente na elaboração de uma cenografia bem preparada, que se integra às locações, e na contratação de atores conhecidos do cinema e da televisão brasileiros, como Antônio Pitanga (que já havia colaborado com Sérgio Ricardo em Esse mundo é meu, de 1964, e Juliana do Amor Perdido, de 1970), Bemvindo Sequeira e Osmar Prado. O foco principal, porém, recai sobre os personagens interpretados por integrantes do grupo Nós do Morro, que encenou originalmente a peça teatral. Entre eles, destaca-se Babu Santana, embora desempenhe apenas um papel breve.

Por ser um grupo de teatro e cinema fundado no Vidigal, a relação indissociável do Nós do Morro com todo o projeto de Bandeira de Retalhos acaba por exemplificar o afeto pela comunidade que Ricardo sempre teve, e que é o pretexto essencial de seus dois últimos projetos. Eles são o resultado do trabalho fílmico de um artista múltiplo que deixou uma marca duradoura na história da cultura brasileira por meio da música, do teatro e do cinema.

As obras finais de artistas que exercem controle autoral sobre o que fazem tendem a ser muito pessoais, e Sérgio Ricardo não escapa a essa regra. Seu projeto de despedida é uma carta de amor à comunidade em que viveu por tantas décadas, à resistência de seu povo, à sua combatividade diante da adversidade, à sua sensibilidade, sua pluralidade, suas forças e fragilidades. Esse crepúsculo no Vidigal contribui para a beleza e a sinceridade da despedida de Sérgio Ricardo.

Mesmo aqueles que conhecem bem a filmografia de Sérgio Ricardo talvez não estejam familiarizados com seus filmes mais recentes como diretor, realizados por esse artista múltiplo. Como seu último projeto de maior fôlego foi A Noite do Espantalho, lançado em 1974, nas décadas seguintes suas incursões no cinema podem ser exemplificadas por obras menos conhecidas. Um exemplo é o curta Zelão, uma animação realizada em 1999 e concebida como acompanhamento para sua canção homônima de 1960. Seus últimos projetos chegaram nos anos 2010, em circunstâncias muito diferentes daquelas que marcaram as etapas anteriores de seu trabalho como cineasta.

O retorno de Ricardo à boa forma veio com Pé Sem Chão, curta-metragem realizado em 2014 e produzido pela Iracema Filmes. O filme se inicia com as seguintes palavras:

Este filme é fruto tanto de um amor pelo cinema quanto do tema central que aborda. Ele foi realizado por todos os seus artistas e técnicos que, a convite do diretor, aceitaram o desafio de empreender uma produção sem recursos financeiros.

Esse breve preâmbulo, em sua honestidade, soa quase como um pedido de desculpas humilde, por parte da equipe de produção, por um filme frágil no qual, ainda assim, trabalharam com todo o coração. Em seguida, o aviso dá lugar a uma narrativa trágica, condensada em poucos minutos: uma família, composta por uma mãe e um filho — um jovem com deficiência — é despejada da casa onde vive, no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

O Vidigal é um elemento fundamental para construir qualquer compreensão básica da biografia de Sérgio Ricardo. O músico e cineasta viveu na comunidade por uma parte considerável de sua vida, até seus últimos anos. Tanto o curta Pé Sem Chão quanto o longa Bandeira de Retalhos (seu filme final) se passam no Vidigal. Seu crepúsculo cinematográfico ocorreu naquela comunidade.

É significativo que, em ambos os filmes, a presença de Ricardo paire sobre a ação. Em Bandeira de Retalhos, ele está presente na figura de um músico intelectual que visita o morro. Em Pé Sem Chão, de forma ainda mais evidente. Ricardo interpreta um flâneur que atravessa o Vidigal e seus estabelecimentos locais, apresentando ao espectador esse mundo microcósmico com a mesma eficácia dos travellings que enquadram as encostas do morro nos segundos iniciais do filme.

No curta-metragem, o velho flâneur não é apenas uma figura alegórica, mas também um agente provocador. Ao caminhar por vielas, sua voz recita monólogos que condensam ideias e reflexões, e há uma musicalidade na maneira como essas falas são proferidas, o que não surpreende quem conhece o trabalho de Ricardo como músico. Quando ele presencia um fiscal imobiliário entregar à família mencionada anteriormente sua notificação final, ele questiona o fiscal de forma pragmática: você é escravo?

Bandeira de Retalhos foi lançado quatro anos após Pé Sem Chão, viabilizado pela Cavídeo, produtora audiovisual liderada por Cavi Borges. Ele merece um breve momento de atenção neste texto. Ao longo de sua carreira, tanto como produtor quanto como diretor, é visível a afinidade de Borges com diversos cineastas, atores e outras figuras do cinema brasileiro que lhe causaram profundo impacto. Ele busca dar visibilidade a essas pessoas ao criar novas oportunidades de produção e ao apresentar seu trabalho a novas gerações. Resgate não é o termo mais apropriado (pois implica que elas teriam sido esquecidas). O que Cavi faz é trabalhar junto de pessoas que admira e lhes oferecer os meios para realizar ou ser objeto de novas obras. Entre os nomes contemplados por esse gesto de Cavi estão Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna e, naturalmente, Sérgio Ricardo.

À primeira vista, o longa-metragem se conecta a Pé Sem Chão por seus temas comuns. Os dois filmes, em escalas e modos diferentes, abrangem narrativas de personagens sendo despejados de onde vivem, e ambos se passam no Vidigal. Bandeira de Retalhos, no entanto, baseia-se em uma peça teatral de Ricardo, inspirada em uma tentativa da Prefeitura do Rio de Janeiro de desapropriar a comunidade e expulsar seus moradores daquele território. A intenção real por trás das ações da Prefeitura era remover os moradores da área para construir um conjunto de hotéis.

Narrativamente mais complexo (pois se centra em um trio de personagens integrado a uma comunidade, representada na tela por vários de seus membros), Bandeira de Retalhos também é um projeto mais ambicioso, e não apenas por ter uma duração maior. As dimensões musicais que sempre atravessam a obra do cineasta aparecem em Pé Sem Chão, tanto nas reflexões cantadas do flâneur quanto nas canções de Ricardo (especialmente Palmares, em parceria com José Carlos Capinan). No entanto, a música surge de modo distinto no filme posterior, em momentos que variam entre o diegético e o não diegético. Além de evidenciar a versatilidade de Sérgio Ricardo como compositor, o uso da música em Bandeira de Retalhos revela alguém que compreende de fato a musicalidade diversa das pessoas.

Seria anacrônico, para uma produção de 2018, ainda que ambientada nos anos 1970, ter na trilha sonora canções que remetessem aos temas musicais presentes em Deus e o diabo na terra do sol, de 1964 (apenas para citar o trabalho musical mais conhecido de Ricardo). Ricardo compreende a necessidade de variação. Nesse sentido, Bandeira de Retalhos surpreende o espectador mais acostumado às obras anteriores do cineasta, pois se abre com um número de hip-hop. Essa modernização, por assim dizer (sem, obviamente, equiparar antigo a atraso ou inferioridade), funciona de modo orgânico. Considerando o momento histórico em que Bandeira de Retalhos foi realizado, após a Retomada, após a incorporação de técnicas publicitárias pelo cinema brasileiro e após o boom internacional dos filmes de favela, a cena de abertura, na verdade, soa como uma escolha natural para Ricardo.

No longa-metragem, a produção da Cavídeo se faz presente na elaboração de uma cenografia bem preparada, que se integra às locações, e na contratação de atores conhecidos do cinema e da televisão brasileiros, como Antônio Pitanga (que já havia colaborado com Sérgio Ricardo em Esse mundo é meu, de 1964, e Juliana do Amor Perdido, de 1970), Bemvindo Sequeira e Osmar Prado. O foco principal, porém, recai sobre os personagens interpretados por integrantes do grupo Nós do Morro, que encenou originalmente a peça teatral. Entre eles, destaca-se Babu Santana, embora desempenhe apenas um papel breve.

Por ser um grupo de teatro e cinema fundado no Vidigal, a relação indissociável do Nós do Morro com todo o projeto de Bandeira de Retalhos acaba por exemplificar o afeto pela comunidade que Ricardo sempre teve, e que é o pretexto essencial de seus dois últimos projetos. Eles são o resultado do trabalho fílmico de um artista múltiplo que deixou uma marca duradoura na história da cultura brasileira por meio da música, do teatro e do cinema.

As obras finais de artistas que exercem controle autoral sobre o que fazem tendem a ser muito pessoais, e Sérgio Ricardo não escapa a essa regra. Seu projeto de despedida é uma carta de amor à comunidade em que viveu por tantas décadas, à resistência de seu povo, à sua combatividade diante da adversidade, à sua sensibilidade, sua pluralidade, suas forças e fragilidades. Esse crepúsculo no Vidigal contribui para a beleza e a sinceridade da despedida de Sérgio Ricardo.

Even those most familiar with Sérgio Ricardo's filmography may not be familiar with the latest films directed by the multi-artist. With his last project of greater scope being A Noite do Espantalho, released in 1974, over the following decades Ricardo's incursions into cinema can be exemplified by lesser-known films. An example of this is the short film Zelão, an animation made in 1999 that was conceived as an accompaniment to his 1960 song of the same name. His last projects arrived in the 2010s, under very different circumstances from those that marked the previous stages of his work as a filmmaker.

Ricardo’s return to form came with with Pé Sem Chão, a short film made in 2014 and produced by Iracema Filmes. The film opens with the following words:

This film is the result of both a love for cinema and the central theme it addresses. It was crafted by all of its artists and technicians, who, at the invitation of the director, accepted the challenge of undertaking a production with no financial resources.

This brief preamble, in its honesty, almost sounds like a humble apology from the production crew for a poor film on which they nevertheless worked with all their heart. The warning is succeeded by a tragic narrative condensed into a few minutes: a family, composed of a mother and a son - a young man with a disability - are evicted from the house where they live, in Vidigal hill, south zone of Rio de Janeiro.

Vidigal is a key element towards building any basic understanding of Sérgio Ricardo's biography. The musician and filmmaker lived in the community for a considerable part of his life, until his final years. Both the short Pé Sem Chão and the feature Bandeira de Retalhos (his final film) are set in Vidigal. His filmic twilight took place in that community.

It is significant that in both films the presence of Ricardo hovers above the action. In Bandeira de Retalhos, he is present in the figure of an intellectual musician who visits the hill. In Pé Sem Chão, even more evidently. Ricardo  plays a flâneur who passes by Vidigal and its local establishments, introducing the spectator to that microcosmic world as effectively as the tracking shots framing the slopes of the hill in the initial seconds of the film.

In the short film, the old flâneur is not merely allegorical, but also a provocative agent. While walking down alleys, his voice recites monologues that distill ideas and reflections (and there is a musical quality to the way these lines  are delivered, which is no surprise for those familiar with Ricardo's work as a musician). When he witnesses a real estate inspector issue the aforementioned family their final summons, he pragmatically questions the inspector: "are you a slave?”

Bandeira de Retalhos came out four years after Pé Sem Chão, made possible by Cavídeo, an audiovisual production company headed by Cavi Borges. He deserves a brief moment of our attention in this piece. Throughout his career, both as producer and director, Borges' affinity for various filmmakers, actors and other figures in Brazilian cinema that have made a profound impact on him is visible. He aims to bring these people to light by creating new production opportunities, and introducing their work to new generations. "Rescue" is not the most appropriate term to be used (as it implies they had been forgotten). What Cavi does is work together with people he admires and gives them the means to accomplish or be the object of new works. Among the people contemplated by Cavi’s gesture are Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna and, naturally, Sérgio Ricardo.

At first glance, the feature film connects to Pé Sem Chão because of their common themes. The two films, in different scopes and ways, encompass narratives of characters being evicted from where they live, and both are set in Vidigal. Bandeira de Retalhos, however, is based on a theatre play by Ricardo, inspired by an attempt undertaken by the Rio de Janeiro City Hall to expropriate the community and evict its residents from that territory. The real intention behind the City Hall’s actions was to remove the residents from the area to build a group of hotels.

Being narratively more complex (as it centers around a trio of characters integrated in a community which is represented on screen through several of its members), Bandeira de Retalhos is also a more ambitious project, and not only for having a larger runtime. The musical dimensions that are always present throughout the filmmaker's work appear in Pé Sem Chão, both in the sung reflections of the flanêur and in Ricardo's songs (especially "Palmares", a partnership with José Carlos Capinan). However, the music appears differently in the later film, during moments that vary between the diegetic and the non-diegetic. Besides showing the versatility of Sérgio Ricardo as a composer, the use of music in Bandeira de Retalhos shows someone who effectively understands the diverse  musicality of the people.

It would be anachronistic for a 2018 production, despite being set in the 1970s, to have songs in its soundtrack that are reminiscent of the musical themes present in the 1964 Black God, White Devil  (just to mention Ricardo’s best-known musical work). Ricardo understands the need for variation. In this sense, Bandeira de Retalhos will surprise a spectator more accustomed to the filmmaker's previous works, as it opens with a hip-hop number. This "modernization", so to speak (obviously not equating "old" with backwards or inferior) works organically. Considering the historical moment in which Bandeira de Retalhos was made, after the Retomada, after advertisement techniques were incorporated by Brazilian cinema and after the international boom of favela movies, the opening scene, in fact, sounds like a natural choice for Ricardo.

In the feature film, Cavideo's production is present in the elaboration of well-prepared scenography which blends with the locations and the hiring of actors familiar to Brazilian cinema and television, such as Antônio Pitanga (who had previously collaborated with Sérgio Ricardo in the 1964 Esse Mundo É Meu and the 1970 Juliana do Amor Perdido), Bemvindo Sequeira, and Osmar Prado. The real focus, however, is on the characters played by members of the group Nós do Morro, who originally staged the theatre play. Among them, Babu Santana stands out, although he only plays a brief role.

Being a theater and cinema group founded in Vidigal, the inseparable relationship of Nós do Morro with the whole Bandeira de Retalhos project ends up exemplifying the affection for the community that Ricardo always had, and that is the essential pretext of his two final projects. They are the outcome of the filmic work of a multi-artist who has left a lasting mark on the history of Brazilian culture through music, theater and cinema.

Final works by artists who have an authorial control of what they do tend to be very personal, and Sérgio Ricardo doesn't escape this rule. His farewell project is a love letter to the community in which he lived for so many decades, to the resistance of the people, to their combativeness in the face of adversity, to their sensitivity, their plurality, their strengths and weaknesses. This twilight in Vidigal works for the beauty and sincerity of Sérgio Ricardo's farewell.

Even those most familiar with Sérgio Ricardo's filmography may not be familiar with the latest films directed by the multi-artist. With his last project of greater scope being A Noite do Espantalho, released in 1974, over the following decades Ricardo's incursions into cinema can be exemplified by lesser-known films. An example of this is the short film Zelão, an animation made in 1999 that was conceived as an accompaniment to his 1960 song of the same name. His last projects arrived in the 2010s, under very different circumstances from those that marked the previous stages of his work as a filmmaker.

Ricardo’s return to form came with with Pé Sem Chão, a short film made in 2014 and produced by Iracema Filmes. The film opens with the following words:

This film is the result of both a love for cinema and the central theme it addresses. It was crafted by all of its artists and technicians, who, at the invitation of the director, accepted the challenge of undertaking a production with no financial resources.

This brief preamble, in its honesty, almost sounds like a humble apology from the production crew for a poor film on which they nevertheless worked with all their heart. The warning is succeeded by a tragic narrative condensed into a few minutes: a family, composed of a mother and a son - a young man with a disability - are evicted from the house where they live, in Vidigal hill, south zone of Rio de Janeiro.

Vidigal is a key element towards building any basic understanding of Sérgio Ricardo's biography. The musician and filmmaker lived in the community for a considerable part of his life, until his final years. Both the short Pé Sem Chão and the feature Bandeira de Retalhos (his final film) are set in Vidigal. His filmic twilight took place in that community.

It is significant that in both films the presence of Ricardo hovers above the action. In Bandeira de Retalhos, he is present in the figure of an intellectual musician who visits the hill. In Pé Sem Chão, even more evidently. Ricardo  plays a flâneur who passes by Vidigal and its local establishments, introducing the spectator to that microcosmic world as effectively as the tracking shots framing the slopes of the hill in the initial seconds of the film.

In the short film, the old flâneur is not merely allegorical, but also a provocative agent. While walking down alleys, his voice recites monologues that distill ideas and reflections (and there is a musical quality to the way these lines  are delivered, which is no surprise for those familiar with Ricardo's work as a musician). When he witnesses a real estate inspector issue the aforementioned family their final summons, he pragmatically questions the inspector: "are you a slave?”

Bandeira de Retalhos came out four years after Pé Sem Chão, made possible by Cavídeo, an audiovisual production company headed by Cavi Borges. He deserves a brief moment of our attention in this piece. Throughout his career, both as producer and director, Borges' affinity for various filmmakers, actors and other figures in Brazilian cinema that have made a profound impact on him is visible. He aims to bring these people to light by creating new production opportunities, and introducing their work to new generations. "Rescue" is not the most appropriate term to be used (as it implies they had been forgotten). What Cavi does is work together with people he admires and gives them the means to accomplish or be the object of new works. Among the people contemplated by Cavi’s gesture are Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna and, naturally, Sérgio Ricardo.

At first glance, the feature film connects to Pé Sem Chão because of their common themes. The two films, in different scopes and ways, encompass narratives of characters being evicted from where they live, and both are set in Vidigal. Bandeira de Retalhos, however, is based on a theatre play by Ricardo, inspired by an attempt undertaken by the Rio de Janeiro City Hall to expropriate the community and evict its residents from that territory. The real intention behind the City Hall’s actions was to remove the residents from the area to build a group of hotels.

Being narratively more complex (as it centers around a trio of characters integrated in a community which is represented on screen through several of its members), Bandeira de Retalhos is also a more ambitious project, and not only for having a larger runtime. The musical dimensions that are always present throughout the filmmaker's work appear in Pé Sem Chão, both in the sung reflections of the flanêur and in Ricardo's songs (especially "Palmares", a partnership with José Carlos Capinan). However, the music appears differently in the later film, during moments that vary between the diegetic and the non-diegetic. Besides showing the versatility of Sérgio Ricardo as a composer, the use of music in Bandeira de Retalhos shows someone who effectively understands the diverse  musicality of the people.

It would be anachronistic for a 2018 production, despite being set in the 1970s, to have songs in its soundtrack that are reminiscent of the musical themes present in the 1964 Black God, White Devil  (just to mention Ricardo’s best-known musical work). Ricardo understands the need for variation. In this sense, Bandeira de Retalhos will surprise a spectator more accustomed to the filmmaker's previous works, as it opens with a hip-hop number. This "modernization", so to speak (obviously not equating "old" with backwards or inferior) works organically. Considering the historical moment in which Bandeira de Retalhos was made, after the Retomada, after advertisement techniques were incorporated by Brazilian cinema and after the international boom of favela movies, the opening scene, in fact, sounds like a natural choice for Ricardo.

In the feature film, Cavideo's production is present in the elaboration of well-prepared scenography which blends with the locations and the hiring of actors familiar to Brazilian cinema and television, such as Antônio Pitanga (who had previously collaborated with Sérgio Ricardo in the 1964 Esse Mundo É Meu and the 1970 Juliana do Amor Perdido), Bemvindo Sequeira, and Osmar Prado. The real focus, however, is on the characters played by members of the group Nós do Morro, who originally staged the theatre play. Among them, Babu Santana stands out, although he only plays a brief role.

Being a theater and cinema group founded in Vidigal, the inseparable relationship of Nós do Morro with the whole Bandeira de Retalhos project ends up exemplifying the affection for the community that Ricardo always had, and that is the essential pretext of his two final projects. They are the outcome of the filmic work of a multi-artist who has left a lasting mark on the history of Brazilian culture through music, theater and cinema.

Final works by artists who have an authorial control of what they do tend to be very personal, and Sérgio Ricardo doesn't escape this rule. His farewell project is a love letter to the community in which he lived for so many decades, to the resistance of the people, to their combativeness in the face of adversity, to their sensitivity, their plurality, their strengths and weaknesses. This twilight in Vidigal works for the beauty and sincerity of Sérgio Ricardo's farewell.

PT/ENG
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29/1/2021
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Igor Nolasco

Mesmo aqueles que conhecem bem a filmografia de Sérgio Ricardo talvez não estejam familiarizados com seus filmes mais recentes como diretor, realizados por esse artista múltiplo. Como seu último projeto de maior fôlego foi A Noite do Espantalho, lançado em 1974, nas décadas seguintes suas incursões no cinema podem ser exemplificadas por obras menos conhecidas. Um exemplo é o curta Zelão, uma animação realizada em 1999 e concebida como acompanhamento para sua canção homônima de 1960. Seus últimos projetos chegaram nos anos 2010, em circunstâncias muito diferentes daquelas que marcaram as etapas anteriores de seu trabalho como cineasta.

O retorno de Ricardo à boa forma veio com Pé Sem Chão, curta-metragem realizado em 2014 e produzido pela Iracema Filmes. O filme se inicia com as seguintes palavras:

Este filme é fruto tanto de um amor pelo cinema quanto do tema central que aborda. Ele foi realizado por todos os seus artistas e técnicos que, a convite do diretor, aceitaram o desafio de empreender uma produção sem recursos financeiros.

Esse breve preâmbulo, em sua honestidade, soa quase como um pedido de desculpas humilde, por parte da equipe de produção, por um filme frágil no qual, ainda assim, trabalharam com todo o coração. Em seguida, o aviso dá lugar a uma narrativa trágica, condensada em poucos minutos: uma família, composta por uma mãe e um filho — um jovem com deficiência — é despejada da casa onde vive, no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

O Vidigal é um elemento fundamental para construir qualquer compreensão básica da biografia de Sérgio Ricardo. O músico e cineasta viveu na comunidade por uma parte considerável de sua vida, até seus últimos anos. Tanto o curta Pé Sem Chão quanto o longa Bandeira de Retalhos (seu filme final) se passam no Vidigal. Seu crepúsculo cinematográfico ocorreu naquela comunidade.

É significativo que, em ambos os filmes, a presença de Ricardo paire sobre a ação. Em Bandeira de Retalhos, ele está presente na figura de um músico intelectual que visita o morro. Em Pé Sem Chão, de forma ainda mais evidente. Ricardo interpreta um flâneur que atravessa o Vidigal e seus estabelecimentos locais, apresentando ao espectador esse mundo microcósmico com a mesma eficácia dos travellings que enquadram as encostas do morro nos segundos iniciais do filme.

No curta-metragem, o velho flâneur não é apenas uma figura alegórica, mas também um agente provocador. Ao caminhar por vielas, sua voz recita monólogos que condensam ideias e reflexões, e há uma musicalidade na maneira como essas falas são proferidas, o que não surpreende quem conhece o trabalho de Ricardo como músico. Quando ele presencia um fiscal imobiliário entregar à família mencionada anteriormente sua notificação final, ele questiona o fiscal de forma pragmática: você é escravo?

Bandeira de Retalhos foi lançado quatro anos após Pé Sem Chão, viabilizado pela Cavídeo, produtora audiovisual liderada por Cavi Borges. Ele merece um breve momento de atenção neste texto. Ao longo de sua carreira, tanto como produtor quanto como diretor, é visível a afinidade de Borges com diversos cineastas, atores e outras figuras do cinema brasileiro que lhe causaram profundo impacto. Ele busca dar visibilidade a essas pessoas ao criar novas oportunidades de produção e ao apresentar seu trabalho a novas gerações. Resgate não é o termo mais apropriado (pois implica que elas teriam sido esquecidas). O que Cavi faz é trabalhar junto de pessoas que admira e lhes oferecer os meios para realizar ou ser objeto de novas obras. Entre os nomes contemplados por esse gesto de Cavi estão Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna e, naturalmente, Sérgio Ricardo.

À primeira vista, o longa-metragem se conecta a Pé Sem Chão por seus temas comuns. Os dois filmes, em escalas e modos diferentes, abrangem narrativas de personagens sendo despejados de onde vivem, e ambos se passam no Vidigal. Bandeira de Retalhos, no entanto, baseia-se em uma peça teatral de Ricardo, inspirada em uma tentativa da Prefeitura do Rio de Janeiro de desapropriar a comunidade e expulsar seus moradores daquele território. A intenção real por trás das ações da Prefeitura era remover os moradores da área para construir um conjunto de hotéis.

Narrativamente mais complexo (pois se centra em um trio de personagens integrado a uma comunidade, representada na tela por vários de seus membros), Bandeira de Retalhos também é um projeto mais ambicioso, e não apenas por ter uma duração maior. As dimensões musicais que sempre atravessam a obra do cineasta aparecem em Pé Sem Chão, tanto nas reflexões cantadas do flâneur quanto nas canções de Ricardo (especialmente Palmares, em parceria com José Carlos Capinan). No entanto, a música surge de modo distinto no filme posterior, em momentos que variam entre o diegético e o não diegético. Além de evidenciar a versatilidade de Sérgio Ricardo como compositor, o uso da música em Bandeira de Retalhos revela alguém que compreende de fato a musicalidade diversa das pessoas.

Seria anacrônico, para uma produção de 2018, ainda que ambientada nos anos 1970, ter na trilha sonora canções que remetessem aos temas musicais presentes em Deus e o diabo na terra do sol, de 1964 (apenas para citar o trabalho musical mais conhecido de Ricardo). Ricardo compreende a necessidade de variação. Nesse sentido, Bandeira de Retalhos surpreende o espectador mais acostumado às obras anteriores do cineasta, pois se abre com um número de hip-hop. Essa modernização, por assim dizer (sem, obviamente, equiparar antigo a atraso ou inferioridade), funciona de modo orgânico. Considerando o momento histórico em que Bandeira de Retalhos foi realizado, após a Retomada, após a incorporação de técnicas publicitárias pelo cinema brasileiro e após o boom internacional dos filmes de favela, a cena de abertura, na verdade, soa como uma escolha natural para Ricardo.

No longa-metragem, a produção da Cavídeo se faz presente na elaboração de uma cenografia bem preparada, que se integra às locações, e na contratação de atores conhecidos do cinema e da televisão brasileiros, como Antônio Pitanga (que já havia colaborado com Sérgio Ricardo em Esse mundo é meu, de 1964, e Juliana do Amor Perdido, de 1970), Bemvindo Sequeira e Osmar Prado. O foco principal, porém, recai sobre os personagens interpretados por integrantes do grupo Nós do Morro, que encenou originalmente a peça teatral. Entre eles, destaca-se Babu Santana, embora desempenhe apenas um papel breve.

Por ser um grupo de teatro e cinema fundado no Vidigal, a relação indissociável do Nós do Morro com todo o projeto de Bandeira de Retalhos acaba por exemplificar o afeto pela comunidade que Ricardo sempre teve, e que é o pretexto essencial de seus dois últimos projetos. Eles são o resultado do trabalho fílmico de um artista múltiplo que deixou uma marca duradoura na história da cultura brasileira por meio da música, do teatro e do cinema.

As obras finais de artistas que exercem controle autoral sobre o que fazem tendem a ser muito pessoais, e Sérgio Ricardo não escapa a essa regra. Seu projeto de despedida é uma carta de amor à comunidade em que viveu por tantas décadas, à resistência de seu povo, à sua combatividade diante da adversidade, à sua sensibilidade, sua pluralidade, suas forças e fragilidades. Esse crepúsculo no Vidigal contribui para a beleza e a sinceridade da despedida de Sérgio Ricardo.

Mesmo aqueles que conhecem bem a filmografia de Sérgio Ricardo talvez não estejam familiarizados com seus filmes mais recentes como diretor, realizados por esse artista múltiplo. Como seu último projeto de maior fôlego foi A Noite do Espantalho, lançado em 1974, nas décadas seguintes suas incursões no cinema podem ser exemplificadas por obras menos conhecidas. Um exemplo é o curta Zelão, uma animação realizada em 1999 e concebida como acompanhamento para sua canção homônima de 1960. Seus últimos projetos chegaram nos anos 2010, em circunstâncias muito diferentes daquelas que marcaram as etapas anteriores de seu trabalho como cineasta.

O retorno de Ricardo à boa forma veio com Pé Sem Chão, curta-metragem realizado em 2014 e produzido pela Iracema Filmes. O filme se inicia com as seguintes palavras:

Este filme é fruto tanto de um amor pelo cinema quanto do tema central que aborda. Ele foi realizado por todos os seus artistas e técnicos que, a convite do diretor, aceitaram o desafio de empreender uma produção sem recursos financeiros.

Esse breve preâmbulo, em sua honestidade, soa quase como um pedido de desculpas humilde, por parte da equipe de produção, por um filme frágil no qual, ainda assim, trabalharam com todo o coração. Em seguida, o aviso dá lugar a uma narrativa trágica, condensada em poucos minutos: uma família, composta por uma mãe e um filho — um jovem com deficiência — é despejada da casa onde vive, no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

O Vidigal é um elemento fundamental para construir qualquer compreensão básica da biografia de Sérgio Ricardo. O músico e cineasta viveu na comunidade por uma parte considerável de sua vida, até seus últimos anos. Tanto o curta Pé Sem Chão quanto o longa Bandeira de Retalhos (seu filme final) se passam no Vidigal. Seu crepúsculo cinematográfico ocorreu naquela comunidade.

É significativo que, em ambos os filmes, a presença de Ricardo paire sobre a ação. Em Bandeira de Retalhos, ele está presente na figura de um músico intelectual que visita o morro. Em Pé Sem Chão, de forma ainda mais evidente. Ricardo interpreta um flâneur que atravessa o Vidigal e seus estabelecimentos locais, apresentando ao espectador esse mundo microcósmico com a mesma eficácia dos travellings que enquadram as encostas do morro nos segundos iniciais do filme.

No curta-metragem, o velho flâneur não é apenas uma figura alegórica, mas também um agente provocador. Ao caminhar por vielas, sua voz recita monólogos que condensam ideias e reflexões, e há uma musicalidade na maneira como essas falas são proferidas, o que não surpreende quem conhece o trabalho de Ricardo como músico. Quando ele presencia um fiscal imobiliário entregar à família mencionada anteriormente sua notificação final, ele questiona o fiscal de forma pragmática: você é escravo?

Bandeira de Retalhos foi lançado quatro anos após Pé Sem Chão, viabilizado pela Cavídeo, produtora audiovisual liderada por Cavi Borges. Ele merece um breve momento de atenção neste texto. Ao longo de sua carreira, tanto como produtor quanto como diretor, é visível a afinidade de Borges com diversos cineastas, atores e outras figuras do cinema brasileiro que lhe causaram profundo impacto. Ele busca dar visibilidade a essas pessoas ao criar novas oportunidades de produção e ao apresentar seu trabalho a novas gerações. Resgate não é o termo mais apropriado (pois implica que elas teriam sido esquecidas). O que Cavi faz é trabalhar junto de pessoas que admira e lhes oferecer os meios para realizar ou ser objeto de novas obras. Entre os nomes contemplados por esse gesto de Cavi estão Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna e, naturalmente, Sérgio Ricardo.

À primeira vista, o longa-metragem se conecta a Pé Sem Chão por seus temas comuns. Os dois filmes, em escalas e modos diferentes, abrangem narrativas de personagens sendo despejados de onde vivem, e ambos se passam no Vidigal. Bandeira de Retalhos, no entanto, baseia-se em uma peça teatral de Ricardo, inspirada em uma tentativa da Prefeitura do Rio de Janeiro de desapropriar a comunidade e expulsar seus moradores daquele território. A intenção real por trás das ações da Prefeitura era remover os moradores da área para construir um conjunto de hotéis.

Narrativamente mais complexo (pois se centra em um trio de personagens integrado a uma comunidade, representada na tela por vários de seus membros), Bandeira de Retalhos também é um projeto mais ambicioso, e não apenas por ter uma duração maior. As dimensões musicais que sempre atravessam a obra do cineasta aparecem em Pé Sem Chão, tanto nas reflexões cantadas do flâneur quanto nas canções de Ricardo (especialmente Palmares, em parceria com José Carlos Capinan). No entanto, a música surge de modo distinto no filme posterior, em momentos que variam entre o diegético e o não diegético. Além de evidenciar a versatilidade de Sérgio Ricardo como compositor, o uso da música em Bandeira de Retalhos revela alguém que compreende de fato a musicalidade diversa das pessoas.

Seria anacrônico, para uma produção de 2018, ainda que ambientada nos anos 1970, ter na trilha sonora canções que remetessem aos temas musicais presentes em Deus e o diabo na terra do sol, de 1964 (apenas para citar o trabalho musical mais conhecido de Ricardo). Ricardo compreende a necessidade de variação. Nesse sentido, Bandeira de Retalhos surpreende o espectador mais acostumado às obras anteriores do cineasta, pois se abre com um número de hip-hop. Essa modernização, por assim dizer (sem, obviamente, equiparar antigo a atraso ou inferioridade), funciona de modo orgânico. Considerando o momento histórico em que Bandeira de Retalhos foi realizado, após a Retomada, após a incorporação de técnicas publicitárias pelo cinema brasileiro e após o boom internacional dos filmes de favela, a cena de abertura, na verdade, soa como uma escolha natural para Ricardo.

No longa-metragem, a produção da Cavídeo se faz presente na elaboração de uma cenografia bem preparada, que se integra às locações, e na contratação de atores conhecidos do cinema e da televisão brasileiros, como Antônio Pitanga (que já havia colaborado com Sérgio Ricardo em Esse mundo é meu, de 1964, e Juliana do Amor Perdido, de 1970), Bemvindo Sequeira e Osmar Prado. O foco principal, porém, recai sobre os personagens interpretados por integrantes do grupo Nós do Morro, que encenou originalmente a peça teatral. Entre eles, destaca-se Babu Santana, embora desempenhe apenas um papel breve.

Por ser um grupo de teatro e cinema fundado no Vidigal, a relação indissociável do Nós do Morro com todo o projeto de Bandeira de Retalhos acaba por exemplificar o afeto pela comunidade que Ricardo sempre teve, e que é o pretexto essencial de seus dois últimos projetos. Eles são o resultado do trabalho fílmico de um artista múltiplo que deixou uma marca duradoura na história da cultura brasileira por meio da música, do teatro e do cinema.

As obras finais de artistas que exercem controle autoral sobre o que fazem tendem a ser muito pessoais, e Sérgio Ricardo não escapa a essa regra. Seu projeto de despedida é uma carta de amor à comunidade em que viveu por tantas décadas, à resistência de seu povo, à sua combatividade diante da adversidade, à sua sensibilidade, sua pluralidade, suas forças e fragilidades. Esse crepúsculo no Vidigal contribui para a beleza e a sinceridade da despedida de Sérgio Ricardo.

Even those most familiar with Sérgio Ricardo's filmography may not be familiar with the latest films directed by the multi-artist. With his last project of greater scope being A Noite do Espantalho, released in 1974, over the following decades Ricardo's incursions into cinema can be exemplified by lesser-known films. An example of this is the short film Zelão, an animation made in 1999 that was conceived as an accompaniment to his 1960 song of the same name. His last projects arrived in the 2010s, under very different circumstances from those that marked the previous stages of his work as a filmmaker.

Ricardo’s return to form came with with Pé Sem Chão, a short film made in 2014 and produced by Iracema Filmes. The film opens with the following words:

This film is the result of both a love for cinema and the central theme it addresses. It was crafted by all of its artists and technicians, who, at the invitation of the director, accepted the challenge of undertaking a production with no financial resources.

This brief preamble, in its honesty, almost sounds like a humble apology from the production crew for a poor film on which they nevertheless worked with all their heart. The warning is succeeded by a tragic narrative condensed into a few minutes: a family, composed of a mother and a son - a young man with a disability - are evicted from the house where they live, in Vidigal hill, south zone of Rio de Janeiro.

Vidigal is a key element towards building any basic understanding of Sérgio Ricardo's biography. The musician and filmmaker lived in the community for a considerable part of his life, until his final years. Both the short Pé Sem Chão and the feature Bandeira de Retalhos (his final film) are set in Vidigal. His filmic twilight took place in that community.

It is significant that in both films the presence of Ricardo hovers above the action. In Bandeira de Retalhos, he is present in the figure of an intellectual musician who visits the hill. In Pé Sem Chão, even more evidently. Ricardo  plays a flâneur who passes by Vidigal and its local establishments, introducing the spectator to that microcosmic world as effectively as the tracking shots framing the slopes of the hill in the initial seconds of the film.

In the short film, the old flâneur is not merely allegorical, but also a provocative agent. While walking down alleys, his voice recites monologues that distill ideas and reflections (and there is a musical quality to the way these lines  are delivered, which is no surprise for those familiar with Ricardo's work as a musician). When he witnesses a real estate inspector issue the aforementioned family their final summons, he pragmatically questions the inspector: "are you a slave?”

Bandeira de Retalhos came out four years after Pé Sem Chão, made possible by Cavídeo, an audiovisual production company headed by Cavi Borges. He deserves a brief moment of our attention in this piece. Throughout his career, both as producer and director, Borges' affinity for various filmmakers, actors and other figures in Brazilian cinema that have made a profound impact on him is visible. He aims to bring these people to light by creating new production opportunities, and introducing their work to new generations. "Rescue" is not the most appropriate term to be used (as it implies they had been forgotten). What Cavi does is work together with people he admires and gives them the means to accomplish or be the object of new works. Among the people contemplated by Cavi’s gesture are Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna and, naturally, Sérgio Ricardo.

At first glance, the feature film connects to Pé Sem Chão because of their common themes. The two films, in different scopes and ways, encompass narratives of characters being evicted from where they live, and both are set in Vidigal. Bandeira de Retalhos, however, is based on a theatre play by Ricardo, inspired by an attempt undertaken by the Rio de Janeiro City Hall to expropriate the community and evict its residents from that territory. The real intention behind the City Hall’s actions was to remove the residents from the area to build a group of hotels.

Being narratively more complex (as it centers around a trio of characters integrated in a community which is represented on screen through several of its members), Bandeira de Retalhos is also a more ambitious project, and not only for having a larger runtime. The musical dimensions that are always present throughout the filmmaker's work appear in Pé Sem Chão, both in the sung reflections of the flanêur and in Ricardo's songs (especially "Palmares", a partnership with José Carlos Capinan). However, the music appears differently in the later film, during moments that vary between the diegetic and the non-diegetic. Besides showing the versatility of Sérgio Ricardo as a composer, the use of music in Bandeira de Retalhos shows someone who effectively understands the diverse  musicality of the people.

It would be anachronistic for a 2018 production, despite being set in the 1970s, to have songs in its soundtrack that are reminiscent of the musical themes present in the 1964 Black God, White Devil  (just to mention Ricardo’s best-known musical work). Ricardo understands the need for variation. In this sense, Bandeira de Retalhos will surprise a spectator more accustomed to the filmmaker's previous works, as it opens with a hip-hop number. This "modernization", so to speak (obviously not equating "old" with backwards or inferior) works organically. Considering the historical moment in which Bandeira de Retalhos was made, after the Retomada, after advertisement techniques were incorporated by Brazilian cinema and after the international boom of favela movies, the opening scene, in fact, sounds like a natural choice for Ricardo.

In the feature film, Cavideo's production is present in the elaboration of well-prepared scenography which blends with the locations and the hiring of actors familiar to Brazilian cinema and television, such as Antônio Pitanga (who had previously collaborated with Sérgio Ricardo in the 1964 Esse Mundo É Meu and the 1970 Juliana do Amor Perdido), Bemvindo Sequeira, and Osmar Prado. The real focus, however, is on the characters played by members of the group Nós do Morro, who originally staged the theatre play. Among them, Babu Santana stands out, although he only plays a brief role.

Being a theater and cinema group founded in Vidigal, the inseparable relationship of Nós do Morro with the whole Bandeira de Retalhos project ends up exemplifying the affection for the community that Ricardo always had, and that is the essential pretext of his two final projects. They are the outcome of the filmic work of a multi-artist who has left a lasting mark on the history of Brazilian culture through music, theater and cinema.

Final works by artists who have an authorial control of what they do tend to be very personal, and Sérgio Ricardo doesn't escape this rule. His farewell project is a love letter to the community in which he lived for so many decades, to the resistance of the people, to their combativeness in the face of adversity, to their sensitivity, their plurality, their strengths and weaknesses. This twilight in Vidigal works for the beauty and sincerity of Sérgio Ricardo's farewell.

Even those most familiar with Sérgio Ricardo's filmography may not be familiar with the latest films directed by the multi-artist. With his last project of greater scope being A Noite do Espantalho, released in 1974, over the following decades Ricardo's incursions into cinema can be exemplified by lesser-known films. An example of this is the short film Zelão, an animation made in 1999 that was conceived as an accompaniment to his 1960 song of the same name. His last projects arrived in the 2010s, under very different circumstances from those that marked the previous stages of his work as a filmmaker.

Ricardo’s return to form came with with Pé Sem Chão, a short film made in 2014 and produced by Iracema Filmes. The film opens with the following words:

This film is the result of both a love for cinema and the central theme it addresses. It was crafted by all of its artists and technicians, who, at the invitation of the director, accepted the challenge of undertaking a production with no financial resources.

This brief preamble, in its honesty, almost sounds like a humble apology from the production crew for a poor film on which they nevertheless worked with all their heart. The warning is succeeded by a tragic narrative condensed into a few minutes: a family, composed of a mother and a son - a young man with a disability - are evicted from the house where they live, in Vidigal hill, south zone of Rio de Janeiro.

Vidigal is a key element towards building any basic understanding of Sérgio Ricardo's biography. The musician and filmmaker lived in the community for a considerable part of his life, until his final years. Both the short Pé Sem Chão and the feature Bandeira de Retalhos (his final film) are set in Vidigal. His filmic twilight took place in that community.

It is significant that in both films the presence of Ricardo hovers above the action. In Bandeira de Retalhos, he is present in the figure of an intellectual musician who visits the hill. In Pé Sem Chão, even more evidently. Ricardo  plays a flâneur who passes by Vidigal and its local establishments, introducing the spectator to that microcosmic world as effectively as the tracking shots framing the slopes of the hill in the initial seconds of the film.

In the short film, the old flâneur is not merely allegorical, but also a provocative agent. While walking down alleys, his voice recites monologues that distill ideas and reflections (and there is a musical quality to the way these lines  are delivered, which is no surprise for those familiar with Ricardo's work as a musician). When he witnesses a real estate inspector issue the aforementioned family their final summons, he pragmatically questions the inspector: "are you a slave?”

Bandeira de Retalhos came out four years after Pé Sem Chão, made possible by Cavídeo, an audiovisual production company headed by Cavi Borges. He deserves a brief moment of our attention in this piece. Throughout his career, both as producer and director, Borges' affinity for various filmmakers, actors and other figures in Brazilian cinema that have made a profound impact on him is visible. He aims to bring these people to light by creating new production opportunities, and introducing their work to new generations. "Rescue" is not the most appropriate term to be used (as it implies they had been forgotten). What Cavi does is work together with people he admires and gives them the means to accomplish or be the object of new works. Among the people contemplated by Cavi’s gesture are Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna and, naturally, Sérgio Ricardo.

At first glance, the feature film connects to Pé Sem Chão because of their common themes. The two films, in different scopes and ways, encompass narratives of characters being evicted from where they live, and both are set in Vidigal. Bandeira de Retalhos, however, is based on a theatre play by Ricardo, inspired by an attempt undertaken by the Rio de Janeiro City Hall to expropriate the community and evict its residents from that territory. The real intention behind the City Hall’s actions was to remove the residents from the area to build a group of hotels.

Being narratively more complex (as it centers around a trio of characters integrated in a community which is represented on screen through several of its members), Bandeira de Retalhos is also a more ambitious project, and not only for having a larger runtime. The musical dimensions that are always present throughout the filmmaker's work appear in Pé Sem Chão, both in the sung reflections of the flanêur and in Ricardo's songs (especially "Palmares", a partnership with José Carlos Capinan). However, the music appears differently in the later film, during moments that vary between the diegetic and the non-diegetic. Besides showing the versatility of Sérgio Ricardo as a composer, the use of music in Bandeira de Retalhos shows someone who effectively understands the diverse  musicality of the people.

It would be anachronistic for a 2018 production, despite being set in the 1970s, to have songs in its soundtrack that are reminiscent of the musical themes present in the 1964 Black God, White Devil  (just to mention Ricardo’s best-known musical work). Ricardo understands the need for variation. In this sense, Bandeira de Retalhos will surprise a spectator more accustomed to the filmmaker's previous works, as it opens with a hip-hop number. This "modernization", so to speak (obviously not equating "old" with backwards or inferior) works organically. Considering the historical moment in which Bandeira de Retalhos was made, after the Retomada, after advertisement techniques were incorporated by Brazilian cinema and after the international boom of favela movies, the opening scene, in fact, sounds like a natural choice for Ricardo.

In the feature film, Cavideo's production is present in the elaboration of well-prepared scenography which blends with the locations and the hiring of actors familiar to Brazilian cinema and television, such as Antônio Pitanga (who had previously collaborated with Sérgio Ricardo in the 1964 Esse Mundo É Meu and the 1970 Juliana do Amor Perdido), Bemvindo Sequeira, and Osmar Prado. The real focus, however, is on the characters played by members of the group Nós do Morro, who originally staged the theatre play. Among them, Babu Santana stands out, although he only plays a brief role.

Being a theater and cinema group founded in Vidigal, the inseparable relationship of Nós do Morro with the whole Bandeira de Retalhos project ends up exemplifying the affection for the community that Ricardo always had, and that is the essential pretext of his two final projects. They are the outcome of the filmic work of a multi-artist who has left a lasting mark on the history of Brazilian culture through music, theater and cinema.

Final works by artists who have an authorial control of what they do tend to be very personal, and Sérgio Ricardo doesn't escape this rule. His farewell project is a love letter to the community in which he lived for so many decades, to the resistance of the people, to their combativeness in the face of adversity, to their sensitivity, their plurality, their strengths and weaknesses. This twilight in Vidigal works for the beauty and sincerity of Sérgio Ricardo's farewell.

PT/ENG
PT/ENG
29/1/2021
By/Por:
Igor Nolasco

Mesmo aqueles que conhecem bem a filmografia de Sérgio Ricardo talvez não estejam familiarizados com seus filmes mais recentes como diretor, realizados por esse artista múltiplo. Como seu último projeto de maior fôlego foi A Noite do Espantalho, lançado em 1974, nas décadas seguintes suas incursões no cinema podem ser exemplificadas por obras menos conhecidas. Um exemplo é o curta Zelão, uma animação realizada em 1999 e concebida como acompanhamento para sua canção homônima de 1960. Seus últimos projetos chegaram nos anos 2010, em circunstâncias muito diferentes daquelas que marcaram as etapas anteriores de seu trabalho como cineasta.

O retorno de Ricardo à boa forma veio com Pé Sem Chão, curta-metragem realizado em 2014 e produzido pela Iracema Filmes. O filme se inicia com as seguintes palavras:

Este filme é fruto tanto de um amor pelo cinema quanto do tema central que aborda. Ele foi realizado por todos os seus artistas e técnicos que, a convite do diretor, aceitaram o desafio de empreender uma produção sem recursos financeiros.

Esse breve preâmbulo, em sua honestidade, soa quase como um pedido de desculpas humilde, por parte da equipe de produção, por um filme frágil no qual, ainda assim, trabalharam com todo o coração. Em seguida, o aviso dá lugar a uma narrativa trágica, condensada em poucos minutos: uma família, composta por uma mãe e um filho — um jovem com deficiência — é despejada da casa onde vive, no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

O Vidigal é um elemento fundamental para construir qualquer compreensão básica da biografia de Sérgio Ricardo. O músico e cineasta viveu na comunidade por uma parte considerável de sua vida, até seus últimos anos. Tanto o curta Pé Sem Chão quanto o longa Bandeira de Retalhos (seu filme final) se passam no Vidigal. Seu crepúsculo cinematográfico ocorreu naquela comunidade.

É significativo que, em ambos os filmes, a presença de Ricardo paire sobre a ação. Em Bandeira de Retalhos, ele está presente na figura de um músico intelectual que visita o morro. Em Pé Sem Chão, de forma ainda mais evidente. Ricardo interpreta um flâneur que atravessa o Vidigal e seus estabelecimentos locais, apresentando ao espectador esse mundo microcósmico com a mesma eficácia dos travellings que enquadram as encostas do morro nos segundos iniciais do filme.

No curta-metragem, o velho flâneur não é apenas uma figura alegórica, mas também um agente provocador. Ao caminhar por vielas, sua voz recita monólogos que condensam ideias e reflexões, e há uma musicalidade na maneira como essas falas são proferidas, o que não surpreende quem conhece o trabalho de Ricardo como músico. Quando ele presencia um fiscal imobiliário entregar à família mencionada anteriormente sua notificação final, ele questiona o fiscal de forma pragmática: você é escravo?

Bandeira de Retalhos foi lançado quatro anos após Pé Sem Chão, viabilizado pela Cavídeo, produtora audiovisual liderada por Cavi Borges. Ele merece um breve momento de atenção neste texto. Ao longo de sua carreira, tanto como produtor quanto como diretor, é visível a afinidade de Borges com diversos cineastas, atores e outras figuras do cinema brasileiro que lhe causaram profundo impacto. Ele busca dar visibilidade a essas pessoas ao criar novas oportunidades de produção e ao apresentar seu trabalho a novas gerações. Resgate não é o termo mais apropriado (pois implica que elas teriam sido esquecidas). O que Cavi faz é trabalhar junto de pessoas que admira e lhes oferecer os meios para realizar ou ser objeto de novas obras. Entre os nomes contemplados por esse gesto de Cavi estão Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna e, naturalmente, Sérgio Ricardo.

À primeira vista, o longa-metragem se conecta a Pé Sem Chão por seus temas comuns. Os dois filmes, em escalas e modos diferentes, abrangem narrativas de personagens sendo despejados de onde vivem, e ambos se passam no Vidigal. Bandeira de Retalhos, no entanto, baseia-se em uma peça teatral de Ricardo, inspirada em uma tentativa da Prefeitura do Rio de Janeiro de desapropriar a comunidade e expulsar seus moradores daquele território. A intenção real por trás das ações da Prefeitura era remover os moradores da área para construir um conjunto de hotéis.

Narrativamente mais complexo (pois se centra em um trio de personagens integrado a uma comunidade, representada na tela por vários de seus membros), Bandeira de Retalhos também é um projeto mais ambicioso, e não apenas por ter uma duração maior. As dimensões musicais que sempre atravessam a obra do cineasta aparecem em Pé Sem Chão, tanto nas reflexões cantadas do flâneur quanto nas canções de Ricardo (especialmente Palmares, em parceria com José Carlos Capinan). No entanto, a música surge de modo distinto no filme posterior, em momentos que variam entre o diegético e o não diegético. Além de evidenciar a versatilidade de Sérgio Ricardo como compositor, o uso da música em Bandeira de Retalhos revela alguém que compreende de fato a musicalidade diversa das pessoas.

Seria anacrônico, para uma produção de 2018, ainda que ambientada nos anos 1970, ter na trilha sonora canções que remetessem aos temas musicais presentes em Deus e o diabo na terra do sol, de 1964 (apenas para citar o trabalho musical mais conhecido de Ricardo). Ricardo compreende a necessidade de variação. Nesse sentido, Bandeira de Retalhos surpreende o espectador mais acostumado às obras anteriores do cineasta, pois se abre com um número de hip-hop. Essa modernização, por assim dizer (sem, obviamente, equiparar antigo a atraso ou inferioridade), funciona de modo orgânico. Considerando o momento histórico em que Bandeira de Retalhos foi realizado, após a Retomada, após a incorporação de técnicas publicitárias pelo cinema brasileiro e após o boom internacional dos filmes de favela, a cena de abertura, na verdade, soa como uma escolha natural para Ricardo.

No longa-metragem, a produção da Cavídeo se faz presente na elaboração de uma cenografia bem preparada, que se integra às locações, e na contratação de atores conhecidos do cinema e da televisão brasileiros, como Antônio Pitanga (que já havia colaborado com Sérgio Ricardo em Esse mundo é meu, de 1964, e Juliana do Amor Perdido, de 1970), Bemvindo Sequeira e Osmar Prado. O foco principal, porém, recai sobre os personagens interpretados por integrantes do grupo Nós do Morro, que encenou originalmente a peça teatral. Entre eles, destaca-se Babu Santana, embora desempenhe apenas um papel breve.

Por ser um grupo de teatro e cinema fundado no Vidigal, a relação indissociável do Nós do Morro com todo o projeto de Bandeira de Retalhos acaba por exemplificar o afeto pela comunidade que Ricardo sempre teve, e que é o pretexto essencial de seus dois últimos projetos. Eles são o resultado do trabalho fílmico de um artista múltiplo que deixou uma marca duradoura na história da cultura brasileira por meio da música, do teatro e do cinema.

As obras finais de artistas que exercem controle autoral sobre o que fazem tendem a ser muito pessoais, e Sérgio Ricardo não escapa a essa regra. Seu projeto de despedida é uma carta de amor à comunidade em que viveu por tantas décadas, à resistência de seu povo, à sua combatividade diante da adversidade, à sua sensibilidade, sua pluralidade, suas forças e fragilidades. Esse crepúsculo no Vidigal contribui para a beleza e a sinceridade da despedida de Sérgio Ricardo.

Mesmo aqueles que conhecem bem a filmografia de Sérgio Ricardo talvez não estejam familiarizados com seus filmes mais recentes como diretor, realizados por esse artista múltiplo. Como seu último projeto de maior fôlego foi A Noite do Espantalho, lançado em 1974, nas décadas seguintes suas incursões no cinema podem ser exemplificadas por obras menos conhecidas. Um exemplo é o curta Zelão, uma animação realizada em 1999 e concebida como acompanhamento para sua canção homônima de 1960. Seus últimos projetos chegaram nos anos 2010, em circunstâncias muito diferentes daquelas que marcaram as etapas anteriores de seu trabalho como cineasta.

O retorno de Ricardo à boa forma veio com Pé Sem Chão, curta-metragem realizado em 2014 e produzido pela Iracema Filmes. O filme se inicia com as seguintes palavras:

Este filme é fruto tanto de um amor pelo cinema quanto do tema central que aborda. Ele foi realizado por todos os seus artistas e técnicos que, a convite do diretor, aceitaram o desafio de empreender uma produção sem recursos financeiros.

Esse breve preâmbulo, em sua honestidade, soa quase como um pedido de desculpas humilde, por parte da equipe de produção, por um filme frágil no qual, ainda assim, trabalharam com todo o coração. Em seguida, o aviso dá lugar a uma narrativa trágica, condensada em poucos minutos: uma família, composta por uma mãe e um filho — um jovem com deficiência — é despejada da casa onde vive, no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

O Vidigal é um elemento fundamental para construir qualquer compreensão básica da biografia de Sérgio Ricardo. O músico e cineasta viveu na comunidade por uma parte considerável de sua vida, até seus últimos anos. Tanto o curta Pé Sem Chão quanto o longa Bandeira de Retalhos (seu filme final) se passam no Vidigal. Seu crepúsculo cinematográfico ocorreu naquela comunidade.

É significativo que, em ambos os filmes, a presença de Ricardo paire sobre a ação. Em Bandeira de Retalhos, ele está presente na figura de um músico intelectual que visita o morro. Em Pé Sem Chão, de forma ainda mais evidente. Ricardo interpreta um flâneur que atravessa o Vidigal e seus estabelecimentos locais, apresentando ao espectador esse mundo microcósmico com a mesma eficácia dos travellings que enquadram as encostas do morro nos segundos iniciais do filme.

No curta-metragem, o velho flâneur não é apenas uma figura alegórica, mas também um agente provocador. Ao caminhar por vielas, sua voz recita monólogos que condensam ideias e reflexões, e há uma musicalidade na maneira como essas falas são proferidas, o que não surpreende quem conhece o trabalho de Ricardo como músico. Quando ele presencia um fiscal imobiliário entregar à família mencionada anteriormente sua notificação final, ele questiona o fiscal de forma pragmática: você é escravo?

Bandeira de Retalhos foi lançado quatro anos após Pé Sem Chão, viabilizado pela Cavídeo, produtora audiovisual liderada por Cavi Borges. Ele merece um breve momento de atenção neste texto. Ao longo de sua carreira, tanto como produtor quanto como diretor, é visível a afinidade de Borges com diversos cineastas, atores e outras figuras do cinema brasileiro que lhe causaram profundo impacto. Ele busca dar visibilidade a essas pessoas ao criar novas oportunidades de produção e ao apresentar seu trabalho a novas gerações. Resgate não é o termo mais apropriado (pois implica que elas teriam sido esquecidas). O que Cavi faz é trabalhar junto de pessoas que admira e lhes oferecer os meios para realizar ou ser objeto de novas obras. Entre os nomes contemplados por esse gesto de Cavi estão Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna e, naturalmente, Sérgio Ricardo.

À primeira vista, o longa-metragem se conecta a Pé Sem Chão por seus temas comuns. Os dois filmes, em escalas e modos diferentes, abrangem narrativas de personagens sendo despejados de onde vivem, e ambos se passam no Vidigal. Bandeira de Retalhos, no entanto, baseia-se em uma peça teatral de Ricardo, inspirada em uma tentativa da Prefeitura do Rio de Janeiro de desapropriar a comunidade e expulsar seus moradores daquele território. A intenção real por trás das ações da Prefeitura era remover os moradores da área para construir um conjunto de hotéis.

Narrativamente mais complexo (pois se centra em um trio de personagens integrado a uma comunidade, representada na tela por vários de seus membros), Bandeira de Retalhos também é um projeto mais ambicioso, e não apenas por ter uma duração maior. As dimensões musicais que sempre atravessam a obra do cineasta aparecem em Pé Sem Chão, tanto nas reflexões cantadas do flâneur quanto nas canções de Ricardo (especialmente Palmares, em parceria com José Carlos Capinan). No entanto, a música surge de modo distinto no filme posterior, em momentos que variam entre o diegético e o não diegético. Além de evidenciar a versatilidade de Sérgio Ricardo como compositor, o uso da música em Bandeira de Retalhos revela alguém que compreende de fato a musicalidade diversa das pessoas.

Seria anacrônico, para uma produção de 2018, ainda que ambientada nos anos 1970, ter na trilha sonora canções que remetessem aos temas musicais presentes em Deus e o diabo na terra do sol, de 1964 (apenas para citar o trabalho musical mais conhecido de Ricardo). Ricardo compreende a necessidade de variação. Nesse sentido, Bandeira de Retalhos surpreende o espectador mais acostumado às obras anteriores do cineasta, pois se abre com um número de hip-hop. Essa modernização, por assim dizer (sem, obviamente, equiparar antigo a atraso ou inferioridade), funciona de modo orgânico. Considerando o momento histórico em que Bandeira de Retalhos foi realizado, após a Retomada, após a incorporação de técnicas publicitárias pelo cinema brasileiro e após o boom internacional dos filmes de favela, a cena de abertura, na verdade, soa como uma escolha natural para Ricardo.

No longa-metragem, a produção da Cavídeo se faz presente na elaboração de uma cenografia bem preparada, que se integra às locações, e na contratação de atores conhecidos do cinema e da televisão brasileiros, como Antônio Pitanga (que já havia colaborado com Sérgio Ricardo em Esse mundo é meu, de 1964, e Juliana do Amor Perdido, de 1970), Bemvindo Sequeira e Osmar Prado. O foco principal, porém, recai sobre os personagens interpretados por integrantes do grupo Nós do Morro, que encenou originalmente a peça teatral. Entre eles, destaca-se Babu Santana, embora desempenhe apenas um papel breve.

Por ser um grupo de teatro e cinema fundado no Vidigal, a relação indissociável do Nós do Morro com todo o projeto de Bandeira de Retalhos acaba por exemplificar o afeto pela comunidade que Ricardo sempre teve, e que é o pretexto essencial de seus dois últimos projetos. Eles são o resultado do trabalho fílmico de um artista múltiplo que deixou uma marca duradoura na história da cultura brasileira por meio da música, do teatro e do cinema.

As obras finais de artistas que exercem controle autoral sobre o que fazem tendem a ser muito pessoais, e Sérgio Ricardo não escapa a essa regra. Seu projeto de despedida é uma carta de amor à comunidade em que viveu por tantas décadas, à resistência de seu povo, à sua combatividade diante da adversidade, à sua sensibilidade, sua pluralidade, suas forças e fragilidades. Esse crepúsculo no Vidigal contribui para a beleza e a sinceridade da despedida de Sérgio Ricardo.

Even those most familiar with Sérgio Ricardo's filmography may not be familiar with the latest films directed by the multi-artist. With his last project of greater scope being A Noite do Espantalho, released in 1974, over the following decades Ricardo's incursions into cinema can be exemplified by lesser-known films. An example of this is the short film Zelão, an animation made in 1999 that was conceived as an accompaniment to his 1960 song of the same name. His last projects arrived in the 2010s, under very different circumstances from those that marked the previous stages of his work as a filmmaker.

Ricardo’s return to form came with with Pé Sem Chão, a short film made in 2014 and produced by Iracema Filmes. The film opens with the following words:

This film is the result of both a love for cinema and the central theme it addresses. It was crafted by all of its artists and technicians, who, at the invitation of the director, accepted the challenge of undertaking a production with no financial resources.

This brief preamble, in its honesty, almost sounds like a humble apology from the production crew for a poor film on which they nevertheless worked with all their heart. The warning is succeeded by a tragic narrative condensed into a few minutes: a family, composed of a mother and a son - a young man with a disability - are evicted from the house where they live, in Vidigal hill, south zone of Rio de Janeiro.

Vidigal is a key element towards building any basic understanding of Sérgio Ricardo's biography. The musician and filmmaker lived in the community for a considerable part of his life, until his final years. Both the short Pé Sem Chão and the feature Bandeira de Retalhos (his final film) are set in Vidigal. His filmic twilight took place in that community.

It is significant that in both films the presence of Ricardo hovers above the action. In Bandeira de Retalhos, he is present in the figure of an intellectual musician who visits the hill. In Pé Sem Chão, even more evidently. Ricardo  plays a flâneur who passes by Vidigal and its local establishments, introducing the spectator to that microcosmic world as effectively as the tracking shots framing the slopes of the hill in the initial seconds of the film.

In the short film, the old flâneur is not merely allegorical, but also a provocative agent. While walking down alleys, his voice recites monologues that distill ideas and reflections (and there is a musical quality to the way these lines  are delivered, which is no surprise for those familiar with Ricardo's work as a musician). When he witnesses a real estate inspector issue the aforementioned family their final summons, he pragmatically questions the inspector: "are you a slave?”

Bandeira de Retalhos came out four years after Pé Sem Chão, made possible by Cavídeo, an audiovisual production company headed by Cavi Borges. He deserves a brief moment of our attention in this piece. Throughout his career, both as producer and director, Borges' affinity for various filmmakers, actors and other figures in Brazilian cinema that have made a profound impact on him is visible. He aims to bring these people to light by creating new production opportunities, and introducing their work to new generations. "Rescue" is not the most appropriate term to be used (as it implies they had been forgotten). What Cavi does is work together with people he admires and gives them the means to accomplish or be the object of new works. Among the people contemplated by Cavi’s gesture are Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna and, naturally, Sérgio Ricardo.

At first glance, the feature film connects to Pé Sem Chão because of their common themes. The two films, in different scopes and ways, encompass narratives of characters being evicted from where they live, and both are set in Vidigal. Bandeira de Retalhos, however, is based on a theatre play by Ricardo, inspired by an attempt undertaken by the Rio de Janeiro City Hall to expropriate the community and evict its residents from that territory. The real intention behind the City Hall’s actions was to remove the residents from the area to build a group of hotels.

Being narratively more complex (as it centers around a trio of characters integrated in a community which is represented on screen through several of its members), Bandeira de Retalhos is also a more ambitious project, and not only for having a larger runtime. The musical dimensions that are always present throughout the filmmaker's work appear in Pé Sem Chão, both in the sung reflections of the flanêur and in Ricardo's songs (especially "Palmares", a partnership with José Carlos Capinan). However, the music appears differently in the later film, during moments that vary between the diegetic and the non-diegetic. Besides showing the versatility of Sérgio Ricardo as a composer, the use of music in Bandeira de Retalhos shows someone who effectively understands the diverse  musicality of the people.

It would be anachronistic for a 2018 production, despite being set in the 1970s, to have songs in its soundtrack that are reminiscent of the musical themes present in the 1964 Black God, White Devil  (just to mention Ricardo’s best-known musical work). Ricardo understands the need for variation. In this sense, Bandeira de Retalhos will surprise a spectator more accustomed to the filmmaker's previous works, as it opens with a hip-hop number. This "modernization", so to speak (obviously not equating "old" with backwards or inferior) works organically. Considering the historical moment in which Bandeira de Retalhos was made, after the Retomada, after advertisement techniques were incorporated by Brazilian cinema and after the international boom of favela movies, the opening scene, in fact, sounds like a natural choice for Ricardo.

In the feature film, Cavideo's production is present in the elaboration of well-prepared scenography which blends with the locations and the hiring of actors familiar to Brazilian cinema and television, such as Antônio Pitanga (who had previously collaborated with Sérgio Ricardo in the 1964 Esse Mundo É Meu and the 1970 Juliana do Amor Perdido), Bemvindo Sequeira, and Osmar Prado. The real focus, however, is on the characters played by members of the group Nós do Morro, who originally staged the theatre play. Among them, Babu Santana stands out, although he only plays a brief role.

Being a theater and cinema group founded in Vidigal, the inseparable relationship of Nós do Morro with the whole Bandeira de Retalhos project ends up exemplifying the affection for the community that Ricardo always had, and that is the essential pretext of his two final projects. They are the outcome of the filmic work of a multi-artist who has left a lasting mark on the history of Brazilian culture through music, theater and cinema.

Final works by artists who have an authorial control of what they do tend to be very personal, and Sérgio Ricardo doesn't escape this rule. His farewell project is a love letter to the community in which he lived for so many decades, to the resistance of the people, to their combativeness in the face of adversity, to their sensitivity, their plurality, their strengths and weaknesses. This twilight in Vidigal works for the beauty and sincerity of Sérgio Ricardo's farewell.

Even those most familiar with Sérgio Ricardo's filmography may not be familiar with the latest films directed by the multi-artist. With his last project of greater scope being A Noite do Espantalho, released in 1974, over the following decades Ricardo's incursions into cinema can be exemplified by lesser-known films. An example of this is the short film Zelão, an animation made in 1999 that was conceived as an accompaniment to his 1960 song of the same name. His last projects arrived in the 2010s, under very different circumstances from those that marked the previous stages of his work as a filmmaker.

Ricardo’s return to form came with with Pé Sem Chão, a short film made in 2014 and produced by Iracema Filmes. The film opens with the following words:

This film is the result of both a love for cinema and the central theme it addresses. It was crafted by all of its artists and technicians, who, at the invitation of the director, accepted the challenge of undertaking a production with no financial resources.

This brief preamble, in its honesty, almost sounds like a humble apology from the production crew for a poor film on which they nevertheless worked with all their heart. The warning is succeeded by a tragic narrative condensed into a few minutes: a family, composed of a mother and a son - a young man with a disability - are evicted from the house where they live, in Vidigal hill, south zone of Rio de Janeiro.

Vidigal is a key element towards building any basic understanding of Sérgio Ricardo's biography. The musician and filmmaker lived in the community for a considerable part of his life, until his final years. Both the short Pé Sem Chão and the feature Bandeira de Retalhos (his final film) are set in Vidigal. His filmic twilight took place in that community.

It is significant that in both films the presence of Ricardo hovers above the action. In Bandeira de Retalhos, he is present in the figure of an intellectual musician who visits the hill. In Pé Sem Chão, even more evidently. Ricardo  plays a flâneur who passes by Vidigal and its local establishments, introducing the spectator to that microcosmic world as effectively as the tracking shots framing the slopes of the hill in the initial seconds of the film.

In the short film, the old flâneur is not merely allegorical, but also a provocative agent. While walking down alleys, his voice recites monologues that distill ideas and reflections (and there is a musical quality to the way these lines  are delivered, which is no surprise for those familiar with Ricardo's work as a musician). When he witnesses a real estate inspector issue the aforementioned family their final summons, he pragmatically questions the inspector: "are you a slave?”

Bandeira de Retalhos came out four years after Pé Sem Chão, made possible by Cavídeo, an audiovisual production company headed by Cavi Borges. He deserves a brief moment of our attention in this piece. Throughout his career, both as producer and director, Borges' affinity for various filmmakers, actors and other figures in Brazilian cinema that have made a profound impact on him is visible. He aims to bring these people to light by creating new production opportunities, and introducing their work to new generations. "Rescue" is not the most appropriate term to be used (as it implies they had been forgotten). What Cavi does is work together with people he admires and gives them the means to accomplish or be the object of new works. Among the people contemplated by Cavi’s gesture are Otávio III, Luiz Rosemberg Filho, Sylvio Lanna and, naturally, Sérgio Ricardo.

At first glance, the feature film connects to Pé Sem Chão because of their common themes. The two films, in different scopes and ways, encompass narratives of characters being evicted from where they live, and both are set in Vidigal. Bandeira de Retalhos, however, is based on a theatre play by Ricardo, inspired by an attempt undertaken by the Rio de Janeiro City Hall to expropriate the community and evict its residents from that territory. The real intention behind the City Hall’s actions was to remove the residents from the area to build a group of hotels.

Being narratively more complex (as it centers around a trio of characters integrated in a community which is represented on screen through several of its members), Bandeira de Retalhos is also a more ambitious project, and not only for having a larger runtime. The musical dimensions that are always present throughout the filmmaker's work appear in Pé Sem Chão, both in the sung reflections of the flanêur and in Ricardo's songs (especially "Palmares", a partnership with José Carlos Capinan). However, the music appears differently in the later film, during moments that vary between the diegetic and the non-diegetic. Besides showing the versatility of Sérgio Ricardo as a composer, the use of music in Bandeira de Retalhos shows someone who effectively understands the diverse  musicality of the people.

It would be anachronistic for a 2018 production, despite being set in the 1970s, to have songs in its soundtrack that are reminiscent of the musical themes present in the 1964 Black God, White Devil  (just to mention Ricardo’s best-known musical work). Ricardo understands the need for variation. In this sense, Bandeira de Retalhos will surprise a spectator more accustomed to the filmmaker's previous works, as it opens with a hip-hop number. This "modernization", so to speak (obviously not equating "old" with backwards or inferior) works organically. Considering the historical moment in which Bandeira de Retalhos was made, after the Retomada, after advertisement techniques were incorporated by Brazilian cinema and after the international boom of favela movies, the opening scene, in fact, sounds like a natural choice for Ricardo.

In the feature film, Cavideo's production is present in the elaboration of well-prepared scenography which blends with the locations and the hiring of actors familiar to Brazilian cinema and television, such as Antônio Pitanga (who had previously collaborated with Sérgio Ricardo in the 1964 Esse Mundo É Meu and the 1970 Juliana do Amor Perdido), Bemvindo Sequeira, and Osmar Prado. The real focus, however, is on the characters played by members of the group Nós do Morro, who originally staged the theatre play. Among them, Babu Santana stands out, although he only plays a brief role.

Being a theater and cinema group founded in Vidigal, the inseparable relationship of Nós do Morro with the whole Bandeira de Retalhos project ends up exemplifying the affection for the community that Ricardo always had, and that is the essential pretext of his two final projects. They are the outcome of the filmic work of a multi-artist who has left a lasting mark on the history of Brazilian culture through music, theater and cinema.

Final works by artists who have an authorial control of what they do tend to be very personal, and Sérgio Ricardo doesn't escape this rule. His farewell project is a love letter to the community in which he lived for so many decades, to the resistance of the people, to their combativeness in the face of adversity, to their sensitivity, their plurality, their strengths and weaknesses. This twilight in Vidigal works for the beauty and sincerity of Sérgio Ricardo's farewell.