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15/4/2022
By/Por:
Flávia Cesarino Costa

Ao assistir O que foi o Carnaval de 1920, filme documentário silencioso filmado por Alberto Botelho no Rio de Janeiro, a primeira reação é de perplexidade. A alegria normalmente associada ao povo que celebra a festa nas ruas parece estranhamente ausente. O filme possui três partes. Na primeira, vemos cenas do corso, um desfile de automóveis dos cariocas ricos, guiados por motoristas uniformizados e ocupados por homens fantasiados que encaram seguidamente a câmera e posam para ela. Por mulheres um pouco tímidas que, ao contrário dos homens, não estão fantasiadas com roupas do sexo oposto. Chama a atenção a branquitude dos ocupantes e um certo ar de superioridade. Em seguida, vários planos tomados num baile de Carnaval infantil, mostram crianças fantasiadas posando ou dançando para a câmera, algumas bastante sérias e outras com cara assustada e à beira do choro, todas muito desconfortáveis e obedecendo às ordens de gente fora de campo. A mais desinibida das crianças, a menina Hilda, que um letreiro descreve como “pequena Feniana”, aparece em planos próximos ladeada por dois pequenos pierrots, e ficamos sabendo que ela ganhou algum prêmio. Na terceira parte, um letreiro anuncia o desfile das Sociedades Carnavalescas dos Tenentes, Fenianos e Democráticos. Diferentes carros alegóricos e seus ocupantes são filmados, primeiro esperando para entrar no desfile, depois avançando pelas ruas do centro da cidade.

Quem são estes cariocas elegantes que ostentam seus carros no corso? O que são estes imensos carros alegóricos? Por que os rostos populares irrompem apenas na borda dos quadros e não vemos a multidão que se divertia no Carnaval? Para responder a estas perguntas buscaremos alguns detalhes sobre o trabalho de Botelho no contexto do cinema brasileiro da época e comentaremos as transformações sofridas pelo Carnaval carioca desde a criação das Sociedades Carnavalescas no século XIX.

Alberto Botelho foi um produtivo cinegrafista nas primeiras décadas do século 20, quando filmou diversos “filmes cantantes” para a empresa de Francisco Serrador, além de inúmeras vistas documentais produzidas no esquema de “cavação”: filmes de encomenda que documentavam diversas atividades políticas, culturais ou esportivas das elites e de autoridades. Botelho filmou uma infinidade de festas, corridas de carro e motocicleta, inaugurações, eventos cívicos, excursões pitorescas e jogos de futebol. Em 1911, foi contratado por Serrador para registrar nos prados da Moóca, em São Paulo, os vôos do aviador Ruggerone, noivo da filha do empresário têxtil Rodolfo Crespi, que encomendou os filmes, e em 1914, documentou a chegada de Santos Dumont ao Rio de Janeiro. Botelho filmou os cinejornais da Pathé Jornal no Brasil durante mais de uma década e também participou de ficções: em 1912 produziu e filmou no Rio de Janeiro uma reconstituição do famoso “crime dos 400 contos”, em 1918 fotografou duas produções de Luiz de Barros, e em 1920 fez a fotografia de uma das inúmeras versões de O guarani, esta dirigida por João de Deus.

No século XIX o Carnaval carioca, seja em suas versões mais domésticas, seja em suas manifestações de rua, estruturou-se como uma diversão plural e não controlada, de origem cultural múltipla, da qual todos participavam. Mas desde sua fundação, nos anos 1860, as Sociedades Carnavalescas se juntaram àqueles que há tempos vinham lutando por um maior controle público sobre o Carnaval, que eliminasse a anarquia das comemorações e os “perigos” das versões mais populares da festa, como o entrudo, os zé-pereiras, os cucumbis, os cordões e os ranchos – formas que descreveremos mais à frente. As sociedades carnavalescas queriam oferecer-se como uma leitura da festa que recuperasse as características europeias do evento e suas origens “venezianas” e eliminasse assim a confusão selvagem de batuques e multidões populares. Estas sociedades instituíram para seus desfiles dois tipos de carros alegóricos, os de “crítica” à situação do momento, e os carros de “alegorias” ou “ideias”, que produziam com intenção de reforçar a impressão de luxo e as referências a elementos da cultura clássica, para se diferenciar do carnaval das classes baixas. Botelho era seguidamente contratado por estas sociedades, de maneira que as imagens que ele oferecia em seus filmes estavam sempre dentro destas diretrizes: dar destaque para seus carros e foliões. Assim, o que se vê não é a festa em sua pluralidade, mas apenas a folia organizada de Fenianos e Democráticos em seus desfiles de carros alegóricos, nos bailes infantis de suas crianças e na ostentação pública de carros particulares, muitas vezes alugados, que desfilavam no corso da Avenida Rio Branco. Anúncios na imprensa (ver Figura 1.) ofereciam fantasias e brinquedos para festas para a ocasião. Vemos nestes planos alguns populares vendendo bebidas aos ocupantes dos automóveis.

Figura 1: Anúncio de fantasias para o corso na revista Fon-Fon (14 de fevereiro de 1920, página 5).

A atividade de Botelho como fotógrafo nos filmes de Carnaval por encomenda parece ter se iniciado quando foi contratado pela Empresa Serrador para filmar O Carnaval do Rio em 1911. O filme desapareceu, mas informações na ficha do filme existente na Cinemateca Brasileira1 indicam que as imagens exibiam crianças fantasiadas e a saída do Clube dos Fenianos. Em 1913 Botelho filmou novamente o corso na Avenida Rio Branco e alguns carros do Clube dos Democráticos, e no ano seguinte produziu imagens do corso na Avenida Paulista, onde morava a elite de São Paulo. Há, portanto, no filme de 1920, que sobreviveu para nosso olhar, uma repetição dos mesmos assuntos e financiadores dos filmes anteriores sobre o Carnaval.

Há que notar que estes filmes eram exibidos na região central do Rio, que tinha sido reformada na primeira década do século pelo prefeito Pereira Passos para expulsar os antigos cortiços e moradias populares e substituí-los por largas avenidas onde se construiu novas salas de exibição, junto a símbolos de modernidade como o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional. Uma imagem higienizada do Carnaval era, portanto, exigida pela imprensa, pela elite e pelos poderes públicos (Morettin, 2005: 136) para ser exibida nesses cinemas elegantes da região. Segundo Bruno Carvalho, com estas alterações urbanas o Carnaval da cidade “se dividiu ao longo de linhas socio-geográficas”: havia de um lado os corsos e os bailes de máscaras particulares, que aconteciam em elegantes locais fechados e os desfiles das Grandes Sociedades, que eram mostrados nos filmes. E de outro lado havia a efervescência invisível ao cinema, das animadas e anárquicas festas das classes baixas, “expressões espontâneas e autênticas das populações africanas do Brasil” que se concentravam nas cercanias da Praça Onze (2019: 202). Segundo Carvalho, será apenas em 1932, após a ascensão do presidente Getúlio Vargas e sua defesa do samba e da miscigenação como um dos elementos de construção de uma identidade nacional, uma musicalidade e uma filmografia que representasse o país, que se iniciará a era das chamadas escolas de samba (desfiles de agremiações carnavalescas oriundas dos cordões e dos ranchos), quando o recém criado jornal O Mundo Sportivo, dirigido pelo jornalista Mário Filho, criou “a prática até então esporádica de tratar os desfiles de carnaval como competições”. Pedro Ernesto, prefeito do Rio de Janeiro nomeado por Vargas em setembro de 1931 apoiou as escolas, tornando os desfiles oficiais e dando-lhes a garantia de ajuda financeira (Carvalho, 2019: 211). Assim, é importante entendermos o que eram as formas deste Carnaval que se pretendeu deixar de fora das imagens cinematográficas na década de 1920.

Como explica Maria Clementina Cunha em seu detalhado estudo histórico do carnaval carioca entre 1880 e 1920 (2001), o entrudo era, para a população do Rio de Janeiro no século XIX, sinônimo de carnaval, uma prática vinda de Portugal que liberava, nos três dias de folia, brincadeiras permitidas a todos: jovens e velhos, escravos e senhores, mulheres e homens:

(...) Era o costume de molhar-se e sujar-se uns aos outros com limões ou laranjinhas de cera recheadas com água perfumada, com recurso a seringas, gamelas, bisnagas e até banheiras – todo e qualquer recipiente que pudesse comportar água a ser arremessada. Incluía também, em determinadas situações, o uso de polvilho, “vermelhão”, tintas, farinhas, ovos e mesmo lama, piche e líquidos fétidos, entre os quais urina e “águas-servidas” (Cunha, 2001: 54).

No espaço privado, os senhores praticavam um entrudo doméstico, e muitas vezes os moradores de casas em lados opostos da rua alvejavam-se mutuamente, usando limões de cheiro que iam retirando de gamelas sustentadas por escravos. Na rua, estes escravos participavam mais ativamente das brincadeiras. Na década de 1880 estes comportamentos passam a ser largamente condenados pela imprensa do Rio de Janeiro, pela polícia e pelas Sociedades Carnavalescas, e os folguedos meio rudes do entrudo chegam ao final do século como algo considerado o oposto de Carnaval, associado por muitos, inclusive, à própria monarquia, já que o imperador Pedro II adorava brincar o entrudo em seu palácio.

O Carnaval do Rio de Janeiro englobava também outras práticas populares. Os cucumbis, por exemplo, eram desfiles de negros que nos últimos anos do século XIX dramatizavam em línguas da África o drama de um príncipe negro que morre aos ser atacado por uma tribo que se veste de penas, mas é ressucitado por um feiticeiro e se festeja sua volta. As fantasias de índios traziam muitas plumas e colares de dentes, enquanto a corte africana vinha com seus tambores e trazia animais vivos ou empalhados, tais como cobras, tartarugas, lagartos e outros. Cunha explica que estes desfiles, apesar de criticados, eram tolerados por sua aparência humilde, primitiva e até “pitoresca”. Mas após a abolição em 1888 estes cucumbis passaram a ser afastados do que se considerava o autêntico Carnaval, que não deveria incluir tanta desigualdade racial, social e cultural. Tachados de “bandos de negros desordeiros”, fantasiados de índios, eles foram literalmente explsos dessas festas.

Outra forma de Carnaval eram os barulhentos zé-pereiras, que invariavelmente apareciam e se misturavam às multidões. Eram desfiles criados nos cortiços, nos quais desfilavam por negros, brancos pobres, prostitutas, trabalhadores braçais e desocupados que ridicularizavam as classes altas vestindo roupas esfarrapadas do avesso, batendo tambores de lata e exibindo sempre um estandarte feito com material barato. Esta modalidade foi criada em 1852 no Rio de Janeiro por um sapateiro português que sentia saudades do entrudo da sua terra (Cunha, 2001: 45-48).

Outras importantes formas de Carnaval popular eram os cordões e os ranchos, cujos integrantes vinham dos morros ou dos bairros afastados, e também eram considerados grosseiros e antiquados pelas sociedades carnavalescas, mas que no curso da história se multiplicaram e conseguiram negociar sua sobrevivência diante do projeto disciplinador do Carnaval promovido pelas Sociedades Carnavalescas e parte da imprensa, que perdia força no início do século XX. Muitas dessas pequenas sociedades carnavalescas populares requisitavam licenças públicas para poder sair no carnaval e visitavam as redações dos jornais para adquirirem visibilidade.

Havia diferenças importantes entre os cordões e os ranchos. Cunha explica que enquanto os integrantes dos cordões caminhavam a pé, os ranchos usavam alegorias montadas sobre carroças. O forte dos cordões era uma pesada percussão e um canto no qual “um ou dois dançarinos vestidos de índios entoavam a copla, e o coro em uníssono repetia o estribilho”, por vezes acompanhados apenas de cavaquinho e violão. Cantavam uma cantiga com seus fortes bumbos e tambores. Já os ranchos exibiam um canto harmonizado com percussão leve e com instrumentos que incluíam cordas e sopros. Os ranchos desfilavam com enredo fixo e tinham mestres de canto, que conduziam uma numerosa presença de mulheres, as pastoras. As grandes sociedades suspeitavam desses grupos e não os diferenciavam, considerando todos demasiadamente numerosos e bastante ameaçadores em sua precariedade explícita (2001: 152). Entretanto, na primeira década do século XX estabeleceu-se uma divisão: os ranchos começaram a ser valorizados pela imprensa devido às suas qualidades poéticas, musicais e de organização, enquanto os cordões recebiam juízos negativos que condenavam a sua aparência de violência, deseducação e marginalidade.

De volta às imagens de O que foi o Carnaval de 1920, podemos agora nos indagar sobre as origens de Democráticos e Fenianos. Seus integrantes eram imigrantes e comerciantes que fundaram estes clubes para terem espaços familiares para socializar e brincar seu carnaval, e aproveitando também, o que era fundamental, para serem também valorizados pela elite local. Abrigavam salas de leitura, palestras, jogos e promoviam bailes e desfiles de Carnaval, além de produzir seus próprios jornais, que eram distribuídos ao público durante os desfiles. O Club dos Democráticos nasceu em 16 de agosto de 1866, quando um grupo de comerciantes boêmios escolheu como sócio principal o português José Alves da Silva, que entrou com a maior parte do dinheiro. A agremiação aceitava pequenos empregados e boêmios variados. Já o Club dos Fenianos, fundado em 1869, adotou este nome porque seus fundadores tomaram como referência a rebelião dos irlandeses contra o Reino Inglês. Cunha explica que a fundação do clube aconteceu em reunião na Rua da Assembleia, na residência de Mr. Chuck, “um desgostoso súdito britânico de nacionalidade irlandesa, que importava e comercializava bijuterias, com estabelecimento no Rio de Janeiro”. Sua presença talvez explique o nome adotado pela sociedade, que incluía em sua diretoria muitos imigrantes, principalmente italianos e espanhóis (2001: 110-111).

Há toda uma complexa história de relacionamento entre as agremiações carnavalescas e a imprensa, tida como fonte de legitimação e publicização, num momento em que o rádio ainda não existia no Brasil. Representantes dos cordões e ranchos visitavam as redações dos jornais trazendo seus estandartes e parte das bandas, para receberem destaque e comentários em suas matérias sobre o carnaval. Revistas ilustradas comentavam o que estava por vir antes de cada Carnaval. No caso de O que foi o Carnaval de 1920 a estreita relação entre Sociedades e a imprensa pode ser constatada na edição da revista Fon-Fon de 21 de fevereiro de 1920, publicada logo após as festividades. Há uma clara coincidência entre os ângulos das filmagens de cada carro dos desfiles de Fenianos e Democráticos e as fotos desse mesmo desfile publicadas na revista. Enquanto o filme possui poucos letreiros e não informa muito sobre cada carro que é mostrado, a revista exibe fotos de quase todos os carros, explicando nas legendas o tema e o sentido de cada um (ver Figuras 2.,3., 4., e 5.), o que nos ajudou a melhor entender estas filmagens.

Figura 2: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 24.
Figura 3: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 25.
Figura 4: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 26.
Figura 5: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 27.

É provável que a cópia em questão tenha perdido, além de alguns letreiros, também algumas cenas. Embora a certa altura um letreiro anuncie imagens das “trez sociedades queridas: Tenentes! Fenianos! E Democráticos!”, não se verá nenhuma imagem do desfile dos Tenentes. Outra possibilidade é a de que os Tenentes não tenham sido parte dos que encomendaram o filme.

Com a ajuda da Fon-Fon podemos entender melhor os carros de crítica e de alegorias que desfilam. No préstito dos Fenianos aparece a seguinte sucessão após os cavaleiros da comissão de frente: carro-chefe Festa do Jubileu no Olimpo (vencedor da taça Sudan conferida à melhor alegoria), carro de crítica A mão, carro do Beef, carro alegórico Rapto de Psiché, carro Pra cima de moá de crítica ao preço do café e com dois homens dramatizando uma cena cômica, carro alegórico O obelisco de Luxor, carro alegórico Lohengrin, carro Pela Moral de crítica aos almofadinhas e melindrosas exibindo homens brancos fantasiados de mulher, carro alegórico Cruzeiro do Sul, carro não identificado onde alguns sócios aparecem em performance, e carro alegórico A cadeirinha de 1820. Os carros são aqui filmados sob ângulo muito parecido às fotos da revista, estacionados antes de começar o desfile. Os carros dos Democráticos são mostrados nos planos seguintes, em que vemos: o carro-chefe Águia Excelsa, o carro alegórico Regresso Primaveril, o carro alegórico O Auri-Verde Pendão, o carro de crítica Execução da Paz, o carro de crítica Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repetindo um assunto dos fenianos e que deve refletir uma discussão da época), o carro de crítica Reino dos Ratos (que obteve a taça Phenix para a melhor crítica), o carro alegórico Fecho do Amor e por último o carro de crítica Por um óculo. Por último reaparecem três carros dos Fenianos que já vimos estacionados, mas agora entrando na Avenida Rio Branco, com visível esforço do cinegrafista em isolar os carros da visão do público presente.

Ainda que tenham aparência precária, filmes como este refletem o espírito de seu tempo com clareza. Dentro da clássica descrição feita por Paulo Emílio Salles Gomes sobre os “assuntos” dos documentários silenciosos brasileiros, que ele dividia entre “rituais do poder” e “berço esplêndido”, é possível dizer que as imagens desse filme de carnaval aproximam-se curiosamente dos filmes de “ritual do poder”, que exibiam eventos públicos onde se observa a movimentação das elites e de autoridades. O carnaval aparece aqui de maneira complexa, porque exibe imagens de uma festa antiga e generalizada no país, mas mostrando apenas sua faceta mais elitista.

1. Informação fornecida por matéria de jornal coletada por Jean-Claude Bernardet em Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

REFERÊNCIAS

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

Ao assistir O que foi o Carnaval de 1920, filme documentário silencioso filmado por Alberto Botelho no Rio de Janeiro, a primeira reação é de perplexidade. A alegria normalmente associada ao povo que celebra a festa nas ruas parece estranhamente ausente. O filme possui três partes. Na primeira, vemos cenas do corso, um desfile de automóveis dos cariocas ricos, guiados por motoristas uniformizados e ocupados por homens fantasiados que encaram seguidamente a câmera e posam para ela. Por mulheres um pouco tímidas que, ao contrário dos homens, não estão fantasiadas com roupas do sexo oposto. Chama a atenção a branquitude dos ocupantes e um certo ar de superioridade. Em seguida, vários planos tomados num baile de Carnaval infantil, mostram crianças fantasiadas posando ou dançando para a câmera, algumas bastante sérias e outras com cara assustada e à beira do choro, todas muito desconfortáveis e obedecendo às ordens de gente fora de campo. A mais desinibida das crianças, a menina Hilda, que um letreiro descreve como “pequena Feniana”, aparece em planos próximos ladeada por dois pequenos pierrots, e ficamos sabendo que ela ganhou algum prêmio. Na terceira parte, um letreiro anuncia o desfile das Sociedades Carnavalescas dos Tenentes, Fenianos e Democráticos. Diferentes carros alegóricos e seus ocupantes são filmados, primeiro esperando para entrar no desfile, depois avançando pelas ruas do centro da cidade.

Quem são estes cariocas elegantes que ostentam seus carros no corso? O que são estes imensos carros alegóricos? Por que os rostos populares irrompem apenas na borda dos quadros e não vemos a multidão que se divertia no Carnaval? Para responder a estas perguntas buscaremos alguns detalhes sobre o trabalho de Botelho no contexto do cinema brasileiro da época e comentaremos as transformações sofridas pelo Carnaval carioca desde a criação das Sociedades Carnavalescas no século XIX.

Alberto Botelho foi um produtivo cinegrafista nas primeiras décadas do século 20, quando filmou diversos “filmes cantantes” para a empresa de Francisco Serrador, além de inúmeras vistas documentais produzidas no esquema de “cavação”: filmes de encomenda que documentavam diversas atividades políticas, culturais ou esportivas das elites e de autoridades. Botelho filmou uma infinidade de festas, corridas de carro e motocicleta, inaugurações, eventos cívicos, excursões pitorescas e jogos de futebol. Em 1911, foi contratado por Serrador para registrar nos prados da Moóca, em São Paulo, os vôos do aviador Ruggerone, noivo da filha do empresário têxtil Rodolfo Crespi, que encomendou os filmes, e em 1914, documentou a chegada de Santos Dumont ao Rio de Janeiro. Botelho filmou os cinejornais da Pathé Jornal no Brasil durante mais de uma década e também participou de ficções: em 1912 produziu e filmou no Rio de Janeiro uma reconstituição do famoso “crime dos 400 contos”, em 1918 fotografou duas produções de Luiz de Barros, e em 1920 fez a fotografia de uma das inúmeras versões de O guarani, esta dirigida por João de Deus.

No século XIX o Carnaval carioca, seja em suas versões mais domésticas, seja em suas manifestações de rua, estruturou-se como uma diversão plural e não controlada, de origem cultural múltipla, da qual todos participavam. Mas desde sua fundação, nos anos 1860, as Sociedades Carnavalescas se juntaram àqueles que há tempos vinham lutando por um maior controle público sobre o Carnaval, que eliminasse a anarquia das comemorações e os “perigos” das versões mais populares da festa, como o entrudo, os zé-pereiras, os cucumbis, os cordões e os ranchos – formas que descreveremos mais à frente. As sociedades carnavalescas queriam oferecer-se como uma leitura da festa que recuperasse as características europeias do evento e suas origens “venezianas” e eliminasse assim a confusão selvagem de batuques e multidões populares. Estas sociedades instituíram para seus desfiles dois tipos de carros alegóricos, os de “crítica” à situação do momento, e os carros de “alegorias” ou “ideias”, que produziam com intenção de reforçar a impressão de luxo e as referências a elementos da cultura clássica, para se diferenciar do carnaval das classes baixas. Botelho era seguidamente contratado por estas sociedades, de maneira que as imagens que ele oferecia em seus filmes estavam sempre dentro destas diretrizes: dar destaque para seus carros e foliões. Assim, o que se vê não é a festa em sua pluralidade, mas apenas a folia organizada de Fenianos e Democráticos em seus desfiles de carros alegóricos, nos bailes infantis de suas crianças e na ostentação pública de carros particulares, muitas vezes alugados, que desfilavam no corso da Avenida Rio Branco. Anúncios na imprensa (ver Figura 1.) ofereciam fantasias e brinquedos para festas para a ocasião. Vemos nestes planos alguns populares vendendo bebidas aos ocupantes dos automóveis.

Figura 1: Anúncio de fantasias para o corso na revista Fon-Fon (14 de fevereiro de 1920, página 5).

A atividade de Botelho como fotógrafo nos filmes de Carnaval por encomenda parece ter se iniciado quando foi contratado pela Empresa Serrador para filmar O Carnaval do Rio em 1911. O filme desapareceu, mas informações na ficha do filme existente na Cinemateca Brasileira1 indicam que as imagens exibiam crianças fantasiadas e a saída do Clube dos Fenianos. Em 1913 Botelho filmou novamente o corso na Avenida Rio Branco e alguns carros do Clube dos Democráticos, e no ano seguinte produziu imagens do corso na Avenida Paulista, onde morava a elite de São Paulo. Há, portanto, no filme de 1920, que sobreviveu para nosso olhar, uma repetição dos mesmos assuntos e financiadores dos filmes anteriores sobre o Carnaval.

Há que notar que estes filmes eram exibidos na região central do Rio, que tinha sido reformada na primeira década do século pelo prefeito Pereira Passos para expulsar os antigos cortiços e moradias populares e substituí-los por largas avenidas onde se construiu novas salas de exibição, junto a símbolos de modernidade como o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional. Uma imagem higienizada do Carnaval era, portanto, exigida pela imprensa, pela elite e pelos poderes públicos (Morettin, 2005: 136) para ser exibida nesses cinemas elegantes da região. Segundo Bruno Carvalho, com estas alterações urbanas o Carnaval da cidade “se dividiu ao longo de linhas socio-geográficas”: havia de um lado os corsos e os bailes de máscaras particulares, que aconteciam em elegantes locais fechados e os desfiles das Grandes Sociedades, que eram mostrados nos filmes. E de outro lado havia a efervescência invisível ao cinema, das animadas e anárquicas festas das classes baixas, “expressões espontâneas e autênticas das populações africanas do Brasil” que se concentravam nas cercanias da Praça Onze (2019: 202). Segundo Carvalho, será apenas em 1932, após a ascensão do presidente Getúlio Vargas e sua defesa do samba e da miscigenação como um dos elementos de construção de uma identidade nacional, uma musicalidade e uma filmografia que representasse o país, que se iniciará a era das chamadas escolas de samba (desfiles de agremiações carnavalescas oriundas dos cordões e dos ranchos), quando o recém criado jornal O Mundo Sportivo, dirigido pelo jornalista Mário Filho, criou “a prática até então esporádica de tratar os desfiles de carnaval como competições”. Pedro Ernesto, prefeito do Rio de Janeiro nomeado por Vargas em setembro de 1931 apoiou as escolas, tornando os desfiles oficiais e dando-lhes a garantia de ajuda financeira (Carvalho, 2019: 211). Assim, é importante entendermos o que eram as formas deste Carnaval que se pretendeu deixar de fora das imagens cinematográficas na década de 1920.

Como explica Maria Clementina Cunha em seu detalhado estudo histórico do carnaval carioca entre 1880 e 1920 (2001), o entrudo era, para a população do Rio de Janeiro no século XIX, sinônimo de carnaval, uma prática vinda de Portugal que liberava, nos três dias de folia, brincadeiras permitidas a todos: jovens e velhos, escravos e senhores, mulheres e homens:

(...) Era o costume de molhar-se e sujar-se uns aos outros com limões ou laranjinhas de cera recheadas com água perfumada, com recurso a seringas, gamelas, bisnagas e até banheiras – todo e qualquer recipiente que pudesse comportar água a ser arremessada. Incluía também, em determinadas situações, o uso de polvilho, “vermelhão”, tintas, farinhas, ovos e mesmo lama, piche e líquidos fétidos, entre os quais urina e “águas-servidas” (Cunha, 2001: 54).

No espaço privado, os senhores praticavam um entrudo doméstico, e muitas vezes os moradores de casas em lados opostos da rua alvejavam-se mutuamente, usando limões de cheiro que iam retirando de gamelas sustentadas por escravos. Na rua, estes escravos participavam mais ativamente das brincadeiras. Na década de 1880 estes comportamentos passam a ser largamente condenados pela imprensa do Rio de Janeiro, pela polícia e pelas Sociedades Carnavalescas, e os folguedos meio rudes do entrudo chegam ao final do século como algo considerado o oposto de Carnaval, associado por muitos, inclusive, à própria monarquia, já que o imperador Pedro II adorava brincar o entrudo em seu palácio.

O Carnaval do Rio de Janeiro englobava também outras práticas populares. Os cucumbis, por exemplo, eram desfiles de negros que nos últimos anos do século XIX dramatizavam em línguas da África o drama de um príncipe negro que morre aos ser atacado por uma tribo que se veste de penas, mas é ressucitado por um feiticeiro e se festeja sua volta. As fantasias de índios traziam muitas plumas e colares de dentes, enquanto a corte africana vinha com seus tambores e trazia animais vivos ou empalhados, tais como cobras, tartarugas, lagartos e outros. Cunha explica que estes desfiles, apesar de criticados, eram tolerados por sua aparência humilde, primitiva e até “pitoresca”. Mas após a abolição em 1888 estes cucumbis passaram a ser afastados do que se considerava o autêntico Carnaval, que não deveria incluir tanta desigualdade racial, social e cultural. Tachados de “bandos de negros desordeiros”, fantasiados de índios, eles foram literalmente explsos dessas festas.

Outra forma de Carnaval eram os barulhentos zé-pereiras, que invariavelmente apareciam e se misturavam às multidões. Eram desfiles criados nos cortiços, nos quais desfilavam por negros, brancos pobres, prostitutas, trabalhadores braçais e desocupados que ridicularizavam as classes altas vestindo roupas esfarrapadas do avesso, batendo tambores de lata e exibindo sempre um estandarte feito com material barato. Esta modalidade foi criada em 1852 no Rio de Janeiro por um sapateiro português que sentia saudades do entrudo da sua terra (Cunha, 2001: 45-48).

Outras importantes formas de Carnaval popular eram os cordões e os ranchos, cujos integrantes vinham dos morros ou dos bairros afastados, e também eram considerados grosseiros e antiquados pelas sociedades carnavalescas, mas que no curso da história se multiplicaram e conseguiram negociar sua sobrevivência diante do projeto disciplinador do Carnaval promovido pelas Sociedades Carnavalescas e parte da imprensa, que perdia força no início do século XX. Muitas dessas pequenas sociedades carnavalescas populares requisitavam licenças públicas para poder sair no carnaval e visitavam as redações dos jornais para adquirirem visibilidade.

Havia diferenças importantes entre os cordões e os ranchos. Cunha explica que enquanto os integrantes dos cordões caminhavam a pé, os ranchos usavam alegorias montadas sobre carroças. O forte dos cordões era uma pesada percussão e um canto no qual “um ou dois dançarinos vestidos de índios entoavam a copla, e o coro em uníssono repetia o estribilho”, por vezes acompanhados apenas de cavaquinho e violão. Cantavam uma cantiga com seus fortes bumbos e tambores. Já os ranchos exibiam um canto harmonizado com percussão leve e com instrumentos que incluíam cordas e sopros. Os ranchos desfilavam com enredo fixo e tinham mestres de canto, que conduziam uma numerosa presença de mulheres, as pastoras. As grandes sociedades suspeitavam desses grupos e não os diferenciavam, considerando todos demasiadamente numerosos e bastante ameaçadores em sua precariedade explícita (2001: 152). Entretanto, na primeira década do século XX estabeleceu-se uma divisão: os ranchos começaram a ser valorizados pela imprensa devido às suas qualidades poéticas, musicais e de organização, enquanto os cordões recebiam juízos negativos que condenavam a sua aparência de violência, deseducação e marginalidade.

De volta às imagens de O que foi o Carnaval de 1920, podemos agora nos indagar sobre as origens de Democráticos e Fenianos. Seus integrantes eram imigrantes e comerciantes que fundaram estes clubes para terem espaços familiares para socializar e brincar seu carnaval, e aproveitando também, o que era fundamental, para serem também valorizados pela elite local. Abrigavam salas de leitura, palestras, jogos e promoviam bailes e desfiles de Carnaval, além de produzir seus próprios jornais, que eram distribuídos ao público durante os desfiles. O Club dos Democráticos nasceu em 16 de agosto de 1866, quando um grupo de comerciantes boêmios escolheu como sócio principal o português José Alves da Silva, que entrou com a maior parte do dinheiro. A agremiação aceitava pequenos empregados e boêmios variados. Já o Club dos Fenianos, fundado em 1869, adotou este nome porque seus fundadores tomaram como referência a rebelião dos irlandeses contra o Reino Inglês. Cunha explica que a fundação do clube aconteceu em reunião na Rua da Assembleia, na residência de Mr. Chuck, “um desgostoso súdito britânico de nacionalidade irlandesa, que importava e comercializava bijuterias, com estabelecimento no Rio de Janeiro”. Sua presença talvez explique o nome adotado pela sociedade, que incluía em sua diretoria muitos imigrantes, principalmente italianos e espanhóis (2001: 110-111).

Há toda uma complexa história de relacionamento entre as agremiações carnavalescas e a imprensa, tida como fonte de legitimação e publicização, num momento em que o rádio ainda não existia no Brasil. Representantes dos cordões e ranchos visitavam as redações dos jornais trazendo seus estandartes e parte das bandas, para receberem destaque e comentários em suas matérias sobre o carnaval. Revistas ilustradas comentavam o que estava por vir antes de cada Carnaval. No caso de O que foi o Carnaval de 1920 a estreita relação entre Sociedades e a imprensa pode ser constatada na edição da revista Fon-Fon de 21 de fevereiro de 1920, publicada logo após as festividades. Há uma clara coincidência entre os ângulos das filmagens de cada carro dos desfiles de Fenianos e Democráticos e as fotos desse mesmo desfile publicadas na revista. Enquanto o filme possui poucos letreiros e não informa muito sobre cada carro que é mostrado, a revista exibe fotos de quase todos os carros, explicando nas legendas o tema e o sentido de cada um (ver Figuras 2.,3., 4., e 5.), o que nos ajudou a melhor entender estas filmagens.

Figura 2: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 24.
Figura 3: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 25.
Figura 4: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 26.
Figura 5: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 27.

É provável que a cópia em questão tenha perdido, além de alguns letreiros, também algumas cenas. Embora a certa altura um letreiro anuncie imagens das “trez sociedades queridas: Tenentes! Fenianos! E Democráticos!”, não se verá nenhuma imagem do desfile dos Tenentes. Outra possibilidade é a de que os Tenentes não tenham sido parte dos que encomendaram o filme.

Com a ajuda da Fon-Fon podemos entender melhor os carros de crítica e de alegorias que desfilam. No préstito dos Fenianos aparece a seguinte sucessão após os cavaleiros da comissão de frente: carro-chefe Festa do Jubileu no Olimpo (vencedor da taça Sudan conferida à melhor alegoria), carro de crítica A mão, carro do Beef, carro alegórico Rapto de Psiché, carro Pra cima de moá de crítica ao preço do café e com dois homens dramatizando uma cena cômica, carro alegórico O obelisco de Luxor, carro alegórico Lohengrin, carro Pela Moral de crítica aos almofadinhas e melindrosas exibindo homens brancos fantasiados de mulher, carro alegórico Cruzeiro do Sul, carro não identificado onde alguns sócios aparecem em performance, e carro alegórico A cadeirinha de 1820. Os carros são aqui filmados sob ângulo muito parecido às fotos da revista, estacionados antes de começar o desfile. Os carros dos Democráticos são mostrados nos planos seguintes, em que vemos: o carro-chefe Águia Excelsa, o carro alegórico Regresso Primaveril, o carro alegórico O Auri-Verde Pendão, o carro de crítica Execução da Paz, o carro de crítica Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repetindo um assunto dos fenianos e que deve refletir uma discussão da época), o carro de crítica Reino dos Ratos (que obteve a taça Phenix para a melhor crítica), o carro alegórico Fecho do Amor e por último o carro de crítica Por um óculo. Por último reaparecem três carros dos Fenianos que já vimos estacionados, mas agora entrando na Avenida Rio Branco, com visível esforço do cinegrafista em isolar os carros da visão do público presente.

Ainda que tenham aparência precária, filmes como este refletem o espírito de seu tempo com clareza. Dentro da clássica descrição feita por Paulo Emílio Salles Gomes sobre os “assuntos” dos documentários silenciosos brasileiros, que ele dividia entre “rituais do poder” e “berço esplêndido”, é possível dizer que as imagens desse filme de carnaval aproximam-se curiosamente dos filmes de “ritual do poder”, que exibiam eventos públicos onde se observa a movimentação das elites e de autoridades. O carnaval aparece aqui de maneira complexa, porque exibe imagens de uma festa antiga e generalizada no país, mas mostrando apenas sua faceta mais elitista.

1. Informação fornecida por matéria de jornal coletada por Jean-Claude Bernardet em Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

REFERÊNCIAS

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

When watching O que foi o Carnaval de 1920, a silent documentary shot by Alberto Botelho in Rio de Janeiro, our first reaction is puzzlement. The joy normally associated with people celebrating Carnaval in the streets seems strangely absent. The film consists of three parts. In the first, we see scenes of the corso parade with cars of wealthy cariocas,1 driven by uniformed drivers and occupied by costumed men who repeatedly face the camera and pose for it. The whiteness of the passengers and their air of superiority are striking. Next, several shots taken at a children's Carnaval ball show costumed children posing or dancing for the camera, some quite serious and others with frightened faces on the verge of crying. The children all seem very uncomfortable, obeying the orders of the people behind the camera. The most uninhibited of the children, a girl named Hilda whom a title card describes as "little Feniana", appears in close-ups flanked by two small pierrots,2 and we learn that she has won a prize. In the third part of the film, a title card announces the parade of the Sociedades Carnavalescas [Carnival Societies] of the Tenentes [Lieutenants], Fenianos and Democráticos. Different floats and their occupants are filmed, first waiting to enter the parade, then advancing through the downtown streets.

Who are these elegant Cariocas who parade their floats in the corso? What are these huge floats? Why do the residents of Rio de Janeiro’s faces appear only at the edges of the pictures, given that they are the crowd who were mainly participating in the Carnaval? To answer these questions, we will look at some details about Botelho's work in the context of Brazilian cinema history and comment on the transformations that Rio's Carnaval has undergone since the creation of the Sociedades Carnavalescas in the 19th century.

Alberto Botelho was a prolific cameraman in the early decades of the 20th century, when he filmed several “singing films” for Francisco Serrador's company as well as countless documentary films produced in the “cavação” scheme. These were commissioned films that documented various political, cultural, or sporting activities of the elites and authorities. Botelho filmed a multitude of parties, car and motorcycle races, inaugurations, civic events, picturesque excursions, and soccer games. In 1911, he was hired by Serrador to record, in the meadows of Moóca, São Paulo, the flights of the aviator Ruggerone, fiancé of the daughter of textile entrepreneur Rodolfo Crespi, who commissioned the films. In 1914, he documented the arrival of Santos Dumont in Rio de Janeiro. Botelho filmed Pathé Journal's newsreels in Brazil for over a decade, and also participated in the making of fiction films. In 1912, he produced and filmed in Rio de Janeiro a re-enactment of the famous "400 contos crime", in 1918 he photographed two productions by Luiz de Barros, and in 1920 he did the photography for one of the many versions of O Guarani, this one directed by João de Deus.

Rio de Janeiro's 19th century Carnaval celebrations were diverse and uncontrolled events of multiple cultural origins in which the whole city participated. But since their founding in the 1860s, the Sociedades Carnavalescas joined those who had long been fighting for greater public control over Carnaval to eliminate the anarchy of the celebrations and the “dangers” of the more popular versions of the party, such as entrudo, zé-pereiras, cucumbis, cordões, and ranchos - all of which we will elaborate on later. The Sociedades Carnavalescas wanted to offer a version of the festivities that restored their European characteristics and Venetian origins, thus eliminating the wild confusion of drumbeats and mass gatherings. These societies instituted two types of floats for their parades, those of  “critique” that criticized the socio-political situation of that period, and the floats of "allegories'' or "ideas," which were produced with the intention of reinforcing the impression of luxury and references to classical culture. The latter floats were made for the societies to differentiate themselves from the Carnaval of the lower classes. Botelho was often hired by these societies, and so the images he offered in his films were typically intended to highlight their cars and members. Therefore, what we see is not the party in its plurality, but only the organized revelry of Fenianos and Democráticos in their float parades, in their children's balls, and in the public ostentation of private cars, often rented, that paraded in the corso of Avenida Rio Branco. Advertisements in the press (see Figure 1) displayed costumes and party toys for the occasion. We see in these shots local people selling drinks to the occupants of the cars.

Figure 1: Advertisement for costumes for the corso in Fon-Fon magazine (February 14, 1920, page 5).

Botelho's work as a cinematographer on commissioned Carnaval films seems to have begun when he was hired by the Serrador Company to shoot O Carnaval do Rio in 1911. The film has since disappeared, but information in the film's file at the Cinemateca Brasileira3 indicates that the images featured costumed children and a Club dos Fenianos outing. In 1913 Botelho again filmed the corso on Avenida Rio Branco and some cars from the Clube dos Democráticos, and the following year he produced images of the corso on Avenida Paulista, where the São Paulo elite lived. There is, therefore, in the 1920 film, a repetition of the same subjects and financiers as in his earlier films about Carnaval.

It should be noted that these films were shown in the central region of Rio, which had been reformed in the first decade of the century by the mayor Pereira Passos to expel the old tenements and working-class housing and replace them with wide avenues where new cinemas were built, next to symbols of modernity such as the Municipal Theater and the National Library. A sanitized image of Carnaval was therefore demanded by the press, the elite, and the public authorities to be shown in these new elegant cinemas (Morettin, 2005: 136). According to Bruno Carvalho, with these urban changes the city's Carnaval “split along socio-geographical lines”. On one side there were the private corsos and masquerade balls, which took place in elegant, closed venues, and the parades of the Grandes Sociedades, which were shown in the movies. On the other side, there was the effervescence invisible to the cinema, the lively and anarchic parties of the lower classes, “spontaneous and authentic expressions of the African populations of Brazil” that were concentrated around Praça Onze (2019: 202). According to Carvalho, it won't be until 1932, after the ascension of President Getúlio Vargas and his defense of samba and miscegenation as one of the elements for the construction of a national identity that the era of the escolas de samba (parades of Carnaval associations from cordões and ranchos) would begin. The newly created newspaper O Mundo Sportivo, headed by journalist Mário Filho, created “the hitherto sporadic practice of treating Carnaval parades as competitions”. Pedro Ernesto, mayor of Rio de Janeiro appointed by Vargas in September 1931, supported the schools, making the parades official and giving them guaranteed financial aid (Carvalho, 2019: 211). Thus, it is important that we understand the forms of Carnaval that were intended to be left out of cinematic images in the 1920s.

As Maria Clementina Cunha explains in her detailed historical study of Rio de Janeiro's carnaval between 1880 and 1920 (2001), entrudo was, for the population of Rio de Janeiro in the 19th century, synonymous with carnaval, a practice that had come from Portugal that, over three days of revelry, featured games for everyone - young and old, slaves and masters, women and men:

(...) It was the custom of getting each other wet and dirty with lemons or wax oranges filled with scented water, using syringes, troughs, tubes and even bathtubs - any container that could hold water to be thrown. It also included, in certain situations, the use of powder, “vermelhão”,4 paints, flours, eggs and even mud, tar and fetid liquids, among them urine and "sewage" (Cunha, 2001: 54).

In the private space, the masters practiced a kind of domestic entrudo, and often the residents of houses on opposite sides of the street would shoot at each other, using smelly lemons that they would take from troughs held by slaves. In the street, these slaves participated more actively in the games. In the 1880s behaviors associated with entrudo began to be widely condemned by the Rio de Janeiro press, the police, and the Sociedades Carnavalescas, and the crudeness of entrudo was considered to be damaging to the reputation of Carnaval by the end of the century.

Rio de Janeiro's Carnaval also encompassed other popular practices. The cucumbis, for example, were parades of black people who, in the last years of the 19th century, dramatized in African languages the story of a black prince who dies after being attacked by a tribe dressed in feathers. At the end of the dramatization, the black prince is resurrected by a sorcerer and his return is celebrated. The Native Brazilian costumes of the parade had many feathers and necklaces of teeth, while the African court came with their drums and brought live or stuffed animals, such as snakes, turtles, lizards and others. Cunha explains that these parades, although criticized, were tolerated for their humble, primitive and even “picturesque” appearance. But after the abolition of slavery in 1888, these cucumbis began to be removed from what was considered the authentic Carnaval, a celebration without the portrayal of so much racial, social and cultural inequality. The cucumbis were labeled as “gangs of unruly blacks” disguised as Native Brazilians, and were literally banned from Carnaval celebrations.

Another form of popular practice during Carnaval were the noisy zé-pereiras, who invariably appeared and mingled with the larger crowds. These were parades created in the tenements, in which blacks, poor whites, prostitutes, manual laborers, and unemployed people paraded, ridiculing the upper classes by wearing ragged clothes inside out, beating tin drums, and displaying a banner made of cheap material. This modality was created in 1852 in Rio de Janeiro by a Portuguese shoemaker who felt nostalgia for the entrudo of his homeland (Cunha, 2001: 45-48).

Other important forms of popular Carnaval were cordões and ranchos, whose members came from the hills and distant neighborhoods. These celebrations were also considered crude and old-fashioned by the Sociedades Carnavalescas, but over the course of time they multiplied and managed to negotiate their survival in the face of the disciplinary project of Carnaval promoted by the Sociedades Carnavalescas and part of the press, which was losing strength in the early twentieth century. Many of these small popular Sociedades Carnavalescas requested public licenses to be able to go out during the Carnaval and visited the editorial offices of newspapers to acquire visibility.

There were important differences between cordões and ranchos. Cunha explains that while the cordões walked on foot, the ranchos rode allegorical floats on carts. The cordões' emphasis was on heavy percussion and singing in which “one or two dancers dressed as Indians sang the copla, and the choir repeated the chorus in unison”, sometimes accompanied only by cavaquinho and guitar. They sang a song with their strong drums and snares. The ranchos, on the other hand, sang in harmony with light percussion, strings, and wind instruments. The ranchos paraded with a predefined theme and had singing masters, who conducted a large presence of women, the pastoras. The larger societies were suspicious of these groups and did not differentiate between them, considering them all too numerous and threatening in their overt precariousness (2001: 152). However, in the first decade of the twentieth century a division was established: the ranchos began to be valued by the press for their poetic, musical, and organizational qualities, while the cordões received negative judgments that condemned their appearance of violence, miseducation, and marginality.

Returning to O que foi o Carnaval de 1920, we can now explore the origins of the Democráticos and Fenianos. Their members were immigrants and merchants who founded clubs to have familiar spaces to socialize and enjoy their Carnaval, and also, crucially, to be valued by the local elite. They housed reading rooms, lectures, games, and promoted balls and Carnaval parades, in addition to producing their own newspapers, which were distributed to the public during the parades. The Club dos Democráticos was created on August 16, 1866, when a group of bohemian merchants chose as their senior partner the Portuguese José Alves da Silva, who contributed most of the money to the club’s activities. This club accepted small employees and various bohemians. The Club dos Fenianos, founded in 1869, adopted its name from the Irish rebellion against the English Kingdom. Cunha explains that the founding of the club took place at a meeting on Rua da Assembleia, at the residence of Mr. Chuck, "a disgusted British subject of Irish nationality, who imported and sold costume jewelry, with an establishment in Rio de Janeiro”. His presence may explain the name adopted by the society, which included on its board many immigrants, mainly Italians and Spaniards (2001: 110-111).

There is a whole complex history of relationships between Carnaval associations and the press, seen as a source of legitimization and publicity at a time when radio did not yet exist in Brazil. Representatives of cordões and ranchos visited the editorial offices of newspapers bringing their banners and part of the bands to be featured and commented on in their articles about the Carnaval. Illustrated magazines would write about what was to come before each Carnaval. In the case of O que foi o Carnaval de 1920, the close relationship between the societies and the press can be seen in the issue of the Fon-Fon magazine of February 21, 1920, published soon after the festivities. There is a clear connection between the angles of the filming of each car of the Fenianos and Democráticos parades and the photos of that same parade published in the magazine. While the film has few intertitles and doesn't say much about each car that is shown, the magazine shows photos of almost all the cars, explaining in the captions the theme and meaning of each one (see Figures 2.,3., 4., and 5.), which helps us better understand Botelho’s shots.

Figure 2: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 24.
Figure 3: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 25.
Figure 4: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 26.
Figure 5: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 27.

It is likely that the available viewing copy of O que foi o Carnaval de 1920 has lost, in addition to some intertitles, some scenes as well. Although at one point an intertitle announces images of the "three beloved societies: Tenentes! Fenianos! And Democráticos!", you do not see any images of the Tenentes' parade. Another possibility is that the Tenentes were not part of those who commissioned the film.

With the help of Fon-Fon magazine we can better understand the allegorical and critique cars that are featured in the parade. In the promenade of the Fenianos the following appears in succession after the riders of the front committee: lead float Festa do Jubileu no Olimpo (winner of the Sudan cup that was awarded to the best float), float of criticism A mão, Beef float, Rapto de Psiché, float Pra cima de moá criticizing the price of coffee and with two men dramatizing a comic scene, float O obelisco de Luxor, Lohengrin float, Pela Moral float criticizing the "almofadinhas" and "melindrosas",5 showing white men dressed as women, float Cruzeiro do Sul, an unidentified float where some members appear in performance, and float A cadeirinha de 1820. The floats are filmed here at an angle very similar to the magazine's photos, parked before the parade begins. The Democráticos' cars are shown in the following shots, in which we see: the leading float Águia Excelsa, the float Regresso Primaveril, the float O Auri-Verde Pendão, the float Execução da Paz, the float Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repeating a subject of the Fenianos and which probably refers to a popular debate of the time), the Reino dos Ratos critique float (which won the Phenix Cup for best critique), the Fecho do Amor float, and lastly the critique car Por um óculo. Finally three Fenianos' floats that we have already seen parked reappear. They now enter Rio Branco Avenue, and there is noticeable effort by the cameraman to isolate these floats from the view of the public.

Even if they look precarious, films like O que foi o Carnaval de 1920 clearly reflect the spirit of their time. Within the classic description made by Paulo Emílio Salles Gomes about the "themes" of silent Brazilian documentaries, which he divided between "rituals of power" and "splendid cradle", it is possible to say that the images of this carnaval film are curiously close to the "rituals of power" films, which showed public events where the movement of elites and authorities is observed. The Carnaval appears here in a complicated manner because it displays images of an old and widespread celebration in the country, however only showing its most elitist aspects.

1. Cariocas are citizens of Rio de Janeiro

2. In a Carnaval context, a Peirrot is someone dressed as a clown.

3. Information provided by newspaper articles collected by Jean-Claude Bernardet in Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

4. Pulverized mercury sulfate

5. Pejorative terms to refer to young modern men and women of the time, their fashion and attitude.

REFERENCES

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

When watching O que foi o Carnaval de 1920, a silent documentary shot by Alberto Botelho in Rio de Janeiro, our first reaction is puzzlement. The joy normally associated with people celebrating Carnaval in the streets seems strangely absent. The film consists of three parts. In the first, we see scenes of the corso parade with cars of wealthy cariocas,1 driven by uniformed drivers and occupied by costumed men who repeatedly face the camera and pose for it. The whiteness of the passengers and their air of superiority are striking. Next, several shots taken at a children's Carnaval ball show costumed children posing or dancing for the camera, some quite serious and others with frightened faces on the verge of crying. The children all seem very uncomfortable, obeying the orders of the people behind the camera. The most uninhibited of the children, a girl named Hilda whom a title card describes as "little Feniana", appears in close-ups flanked by two small pierrots,2 and we learn that she has won a prize. In the third part of the film, a title card announces the parade of the Sociedades Carnavalescas [Carnival Societies] of the Tenentes [Lieutenants], Fenianos and Democráticos. Different floats and their occupants are filmed, first waiting to enter the parade, then advancing through the downtown streets.

Who are these elegant Cariocas who parade their floats in the corso? What are these huge floats? Why do the residents of Rio de Janeiro’s faces appear only at the edges of the pictures, given that they are the crowd who were mainly participating in the Carnaval? To answer these questions, we will look at some details about Botelho's work in the context of Brazilian cinema history and comment on the transformations that Rio's Carnaval has undergone since the creation of the Sociedades Carnavalescas in the 19th century.

Alberto Botelho was a prolific cameraman in the early decades of the 20th century, when he filmed several “singing films” for Francisco Serrador's company as well as countless documentary films produced in the “cavação” scheme. These were commissioned films that documented various political, cultural, or sporting activities of the elites and authorities. Botelho filmed a multitude of parties, car and motorcycle races, inaugurations, civic events, picturesque excursions, and soccer games. In 1911, he was hired by Serrador to record, in the meadows of Moóca, São Paulo, the flights of the aviator Ruggerone, fiancé of the daughter of textile entrepreneur Rodolfo Crespi, who commissioned the films. In 1914, he documented the arrival of Santos Dumont in Rio de Janeiro. Botelho filmed Pathé Journal's newsreels in Brazil for over a decade, and also participated in the making of fiction films. In 1912, he produced and filmed in Rio de Janeiro a re-enactment of the famous "400 contos crime", in 1918 he photographed two productions by Luiz de Barros, and in 1920 he did the photography for one of the many versions of O Guarani, this one directed by João de Deus.

Rio de Janeiro's 19th century Carnaval celebrations were diverse and uncontrolled events of multiple cultural origins in which the whole city participated. But since their founding in the 1860s, the Sociedades Carnavalescas joined those who had long been fighting for greater public control over Carnaval to eliminate the anarchy of the celebrations and the “dangers” of the more popular versions of the party, such as entrudo, zé-pereiras, cucumbis, cordões, and ranchos - all of which we will elaborate on later. The Sociedades Carnavalescas wanted to offer a version of the festivities that restored their European characteristics and Venetian origins, thus eliminating the wild confusion of drumbeats and mass gatherings. These societies instituted two types of floats for their parades, those of  “critique” that criticized the socio-political situation of that period, and the floats of "allegories'' or "ideas," which were produced with the intention of reinforcing the impression of luxury and references to classical culture. The latter floats were made for the societies to differentiate themselves from the Carnaval of the lower classes. Botelho was often hired by these societies, and so the images he offered in his films were typically intended to highlight their cars and members. Therefore, what we see is not the party in its plurality, but only the organized revelry of Fenianos and Democráticos in their float parades, in their children's balls, and in the public ostentation of private cars, often rented, that paraded in the corso of Avenida Rio Branco. Advertisements in the press (see Figure 1) displayed costumes and party toys for the occasion. We see in these shots local people selling drinks to the occupants of the cars.

Figure 1: Advertisement for costumes for the corso in Fon-Fon magazine (February 14, 1920, page 5).

Botelho's work as a cinematographer on commissioned Carnaval films seems to have begun when he was hired by the Serrador Company to shoot O Carnaval do Rio in 1911. The film has since disappeared, but information in the film's file at the Cinemateca Brasileira3 indicates that the images featured costumed children and a Club dos Fenianos outing. In 1913 Botelho again filmed the corso on Avenida Rio Branco and some cars from the Clube dos Democráticos, and the following year he produced images of the corso on Avenida Paulista, where the São Paulo elite lived. There is, therefore, in the 1920 film, a repetition of the same subjects and financiers as in his earlier films about Carnaval.

It should be noted that these films were shown in the central region of Rio, which had been reformed in the first decade of the century by the mayor Pereira Passos to expel the old tenements and working-class housing and replace them with wide avenues where new cinemas were built, next to symbols of modernity such as the Municipal Theater and the National Library. A sanitized image of Carnaval was therefore demanded by the press, the elite, and the public authorities to be shown in these new elegant cinemas (Morettin, 2005: 136). According to Bruno Carvalho, with these urban changes the city's Carnaval “split along socio-geographical lines”. On one side there were the private corsos and masquerade balls, which took place in elegant, closed venues, and the parades of the Grandes Sociedades, which were shown in the movies. On the other side, there was the effervescence invisible to the cinema, the lively and anarchic parties of the lower classes, “spontaneous and authentic expressions of the African populations of Brazil” that were concentrated around Praça Onze (2019: 202). According to Carvalho, it won't be until 1932, after the ascension of President Getúlio Vargas and his defense of samba and miscegenation as one of the elements for the construction of a national identity that the era of the escolas de samba (parades of Carnaval associations from cordões and ranchos) would begin. The newly created newspaper O Mundo Sportivo, headed by journalist Mário Filho, created “the hitherto sporadic practice of treating Carnaval parades as competitions”. Pedro Ernesto, mayor of Rio de Janeiro appointed by Vargas in September 1931, supported the schools, making the parades official and giving them guaranteed financial aid (Carvalho, 2019: 211). Thus, it is important that we understand the forms of Carnaval that were intended to be left out of cinematic images in the 1920s.

As Maria Clementina Cunha explains in her detailed historical study of Rio de Janeiro's carnaval between 1880 and 1920 (2001), entrudo was, for the population of Rio de Janeiro in the 19th century, synonymous with carnaval, a practice that had come from Portugal that, over three days of revelry, featured games for everyone - young and old, slaves and masters, women and men:

(...) It was the custom of getting each other wet and dirty with lemons or wax oranges filled with scented water, using syringes, troughs, tubes and even bathtubs - any container that could hold water to be thrown. It also included, in certain situations, the use of powder, “vermelhão”,4 paints, flours, eggs and even mud, tar and fetid liquids, among them urine and "sewage" (Cunha, 2001: 54).

In the private space, the masters practiced a kind of domestic entrudo, and often the residents of houses on opposite sides of the street would shoot at each other, using smelly lemons that they would take from troughs held by slaves. In the street, these slaves participated more actively in the games. In the 1880s behaviors associated with entrudo began to be widely condemned by the Rio de Janeiro press, the police, and the Sociedades Carnavalescas, and the crudeness of entrudo was considered to be damaging to the reputation of Carnaval by the end of the century.

Rio de Janeiro's Carnaval also encompassed other popular practices. The cucumbis, for example, were parades of black people who, in the last years of the 19th century, dramatized in African languages the story of a black prince who dies after being attacked by a tribe dressed in feathers. At the end of the dramatization, the black prince is resurrected by a sorcerer and his return is celebrated. The Native Brazilian costumes of the parade had many feathers and necklaces of teeth, while the African court came with their drums and brought live or stuffed animals, such as snakes, turtles, lizards and others. Cunha explains that these parades, although criticized, were tolerated for their humble, primitive and even “picturesque” appearance. But after the abolition of slavery in 1888, these cucumbis began to be removed from what was considered the authentic Carnaval, a celebration without the portrayal of so much racial, social and cultural inequality. The cucumbis were labeled as “gangs of unruly blacks” disguised as Native Brazilians, and were literally banned from Carnaval celebrations.

Another form of popular practice during Carnaval were the noisy zé-pereiras, who invariably appeared and mingled with the larger crowds. These were parades created in the tenements, in which blacks, poor whites, prostitutes, manual laborers, and unemployed people paraded, ridiculing the upper classes by wearing ragged clothes inside out, beating tin drums, and displaying a banner made of cheap material. This modality was created in 1852 in Rio de Janeiro by a Portuguese shoemaker who felt nostalgia for the entrudo of his homeland (Cunha, 2001: 45-48).

Other important forms of popular Carnaval were cordões and ranchos, whose members came from the hills and distant neighborhoods. These celebrations were also considered crude and old-fashioned by the Sociedades Carnavalescas, but over the course of time they multiplied and managed to negotiate their survival in the face of the disciplinary project of Carnaval promoted by the Sociedades Carnavalescas and part of the press, which was losing strength in the early twentieth century. Many of these small popular Sociedades Carnavalescas requested public licenses to be able to go out during the Carnaval and visited the editorial offices of newspapers to acquire visibility.

There were important differences between cordões and ranchos. Cunha explains that while the cordões walked on foot, the ranchos rode allegorical floats on carts. The cordões' emphasis was on heavy percussion and singing in which “one or two dancers dressed as Indians sang the copla, and the choir repeated the chorus in unison”, sometimes accompanied only by cavaquinho and guitar. They sang a song with their strong drums and snares. The ranchos, on the other hand, sang in harmony with light percussion, strings, and wind instruments. The ranchos paraded with a predefined theme and had singing masters, who conducted a large presence of women, the pastoras. The larger societies were suspicious of these groups and did not differentiate between them, considering them all too numerous and threatening in their overt precariousness (2001: 152). However, in the first decade of the twentieth century a division was established: the ranchos began to be valued by the press for their poetic, musical, and organizational qualities, while the cordões received negative judgments that condemned their appearance of violence, miseducation, and marginality.

Returning to O que foi o Carnaval de 1920, we can now explore the origins of the Democráticos and Fenianos. Their members were immigrants and merchants who founded clubs to have familiar spaces to socialize and enjoy their Carnaval, and also, crucially, to be valued by the local elite. They housed reading rooms, lectures, games, and promoted balls and Carnaval parades, in addition to producing their own newspapers, which were distributed to the public during the parades. The Club dos Democráticos was created on August 16, 1866, when a group of bohemian merchants chose as their senior partner the Portuguese José Alves da Silva, who contributed most of the money to the club’s activities. This club accepted small employees and various bohemians. The Club dos Fenianos, founded in 1869, adopted its name from the Irish rebellion against the English Kingdom. Cunha explains that the founding of the club took place at a meeting on Rua da Assembleia, at the residence of Mr. Chuck, "a disgusted British subject of Irish nationality, who imported and sold costume jewelry, with an establishment in Rio de Janeiro”. His presence may explain the name adopted by the society, which included on its board many immigrants, mainly Italians and Spaniards (2001: 110-111).

There is a whole complex history of relationships between Carnaval associations and the press, seen as a source of legitimization and publicity at a time when radio did not yet exist in Brazil. Representatives of cordões and ranchos visited the editorial offices of newspapers bringing their banners and part of the bands to be featured and commented on in their articles about the Carnaval. Illustrated magazines would write about what was to come before each Carnaval. In the case of O que foi o Carnaval de 1920, the close relationship between the societies and the press can be seen in the issue of the Fon-Fon magazine of February 21, 1920, published soon after the festivities. There is a clear connection between the angles of the filming of each car of the Fenianos and Democráticos parades and the photos of that same parade published in the magazine. While the film has few intertitles and doesn't say much about each car that is shown, the magazine shows photos of almost all the cars, explaining in the captions the theme and meaning of each one (see Figures 2.,3., 4., and 5.), which helps us better understand Botelho’s shots.

Figure 2: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 24.
Figure 3: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 25.
Figure 4: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 26.
Figure 5: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 27.

It is likely that the available viewing copy of O que foi o Carnaval de 1920 has lost, in addition to some intertitles, some scenes as well. Although at one point an intertitle announces images of the "three beloved societies: Tenentes! Fenianos! And Democráticos!", you do not see any images of the Tenentes' parade. Another possibility is that the Tenentes were not part of those who commissioned the film.

With the help of Fon-Fon magazine we can better understand the allegorical and critique cars that are featured in the parade. In the promenade of the Fenianos the following appears in succession after the riders of the front committee: lead float Festa do Jubileu no Olimpo (winner of the Sudan cup that was awarded to the best float), float of criticism A mão, Beef float, Rapto de Psiché, float Pra cima de moá criticizing the price of coffee and with two men dramatizing a comic scene, float O obelisco de Luxor, Lohengrin float, Pela Moral float criticizing the "almofadinhas" and "melindrosas",5 showing white men dressed as women, float Cruzeiro do Sul, an unidentified float where some members appear in performance, and float A cadeirinha de 1820. The floats are filmed here at an angle very similar to the magazine's photos, parked before the parade begins. The Democráticos' cars are shown in the following shots, in which we see: the leading float Águia Excelsa, the float Regresso Primaveril, the float O Auri-Verde Pendão, the float Execução da Paz, the float Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repeating a subject of the Fenianos and which probably refers to a popular debate of the time), the Reino dos Ratos critique float (which won the Phenix Cup for best critique), the Fecho do Amor float, and lastly the critique car Por um óculo. Finally three Fenianos' floats that we have already seen parked reappear. They now enter Rio Branco Avenue, and there is noticeable effort by the cameraman to isolate these floats from the view of the public.

Even if they look precarious, films like O que foi o Carnaval de 1920 clearly reflect the spirit of their time. Within the classic description made by Paulo Emílio Salles Gomes about the "themes" of silent Brazilian documentaries, which he divided between "rituals of power" and "splendid cradle", it is possible to say that the images of this carnaval film are curiously close to the "rituals of power" films, which showed public events where the movement of elites and authorities is observed. The Carnaval appears here in a complicated manner because it displays images of an old and widespread celebration in the country, however only showing its most elitist aspects.

1. Cariocas are citizens of Rio de Janeiro

2. In a Carnaval context, a Peirrot is someone dressed as a clown.

3. Information provided by newspaper articles collected by Jean-Claude Bernardet in Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

4. Pulverized mercury sulfate

5. Pejorative terms to refer to young modern men and women of the time, their fashion and attitude.

REFERENCES

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

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15/4/2022
By/Por:
Flávia Cesarino Costa

Ao assistir O que foi o Carnaval de 1920, filme documentário silencioso filmado por Alberto Botelho no Rio de Janeiro, a primeira reação é de perplexidade. A alegria normalmente associada ao povo que celebra a festa nas ruas parece estranhamente ausente. O filme possui três partes. Na primeira, vemos cenas do corso, um desfile de automóveis dos cariocas ricos, guiados por motoristas uniformizados e ocupados por homens fantasiados que encaram seguidamente a câmera e posam para ela. Por mulheres um pouco tímidas que, ao contrário dos homens, não estão fantasiadas com roupas do sexo oposto. Chama a atenção a branquitude dos ocupantes e um certo ar de superioridade. Em seguida, vários planos tomados num baile de Carnaval infantil, mostram crianças fantasiadas posando ou dançando para a câmera, algumas bastante sérias e outras com cara assustada e à beira do choro, todas muito desconfortáveis e obedecendo às ordens de gente fora de campo. A mais desinibida das crianças, a menina Hilda, que um letreiro descreve como “pequena Feniana”, aparece em planos próximos ladeada por dois pequenos pierrots, e ficamos sabendo que ela ganhou algum prêmio. Na terceira parte, um letreiro anuncia o desfile das Sociedades Carnavalescas dos Tenentes, Fenianos e Democráticos. Diferentes carros alegóricos e seus ocupantes são filmados, primeiro esperando para entrar no desfile, depois avançando pelas ruas do centro da cidade.

Quem são estes cariocas elegantes que ostentam seus carros no corso? O que são estes imensos carros alegóricos? Por que os rostos populares irrompem apenas na borda dos quadros e não vemos a multidão que se divertia no Carnaval? Para responder a estas perguntas buscaremos alguns detalhes sobre o trabalho de Botelho no contexto do cinema brasileiro da época e comentaremos as transformações sofridas pelo Carnaval carioca desde a criação das Sociedades Carnavalescas no século XIX.

Alberto Botelho foi um produtivo cinegrafista nas primeiras décadas do século 20, quando filmou diversos “filmes cantantes” para a empresa de Francisco Serrador, além de inúmeras vistas documentais produzidas no esquema de “cavação”: filmes de encomenda que documentavam diversas atividades políticas, culturais ou esportivas das elites e de autoridades. Botelho filmou uma infinidade de festas, corridas de carro e motocicleta, inaugurações, eventos cívicos, excursões pitorescas e jogos de futebol. Em 1911, foi contratado por Serrador para registrar nos prados da Moóca, em São Paulo, os vôos do aviador Ruggerone, noivo da filha do empresário têxtil Rodolfo Crespi, que encomendou os filmes, e em 1914, documentou a chegada de Santos Dumont ao Rio de Janeiro. Botelho filmou os cinejornais da Pathé Jornal no Brasil durante mais de uma década e também participou de ficções: em 1912 produziu e filmou no Rio de Janeiro uma reconstituição do famoso “crime dos 400 contos”, em 1918 fotografou duas produções de Luiz de Barros, e em 1920 fez a fotografia de uma das inúmeras versões de O guarani, esta dirigida por João de Deus.

No século XIX o Carnaval carioca, seja em suas versões mais domésticas, seja em suas manifestações de rua, estruturou-se como uma diversão plural e não controlada, de origem cultural múltipla, da qual todos participavam. Mas desde sua fundação, nos anos 1860, as Sociedades Carnavalescas se juntaram àqueles que há tempos vinham lutando por um maior controle público sobre o Carnaval, que eliminasse a anarquia das comemorações e os “perigos” das versões mais populares da festa, como o entrudo, os zé-pereiras, os cucumbis, os cordões e os ranchos – formas que descreveremos mais à frente. As sociedades carnavalescas queriam oferecer-se como uma leitura da festa que recuperasse as características europeias do evento e suas origens “venezianas” e eliminasse assim a confusão selvagem de batuques e multidões populares. Estas sociedades instituíram para seus desfiles dois tipos de carros alegóricos, os de “crítica” à situação do momento, e os carros de “alegorias” ou “ideias”, que produziam com intenção de reforçar a impressão de luxo e as referências a elementos da cultura clássica, para se diferenciar do carnaval das classes baixas. Botelho era seguidamente contratado por estas sociedades, de maneira que as imagens que ele oferecia em seus filmes estavam sempre dentro destas diretrizes: dar destaque para seus carros e foliões. Assim, o que se vê não é a festa em sua pluralidade, mas apenas a folia organizada de Fenianos e Democráticos em seus desfiles de carros alegóricos, nos bailes infantis de suas crianças e na ostentação pública de carros particulares, muitas vezes alugados, que desfilavam no corso da Avenida Rio Branco. Anúncios na imprensa (ver Figura 1.) ofereciam fantasias e brinquedos para festas para a ocasião. Vemos nestes planos alguns populares vendendo bebidas aos ocupantes dos automóveis.

Figura 1: Anúncio de fantasias para o corso na revista Fon-Fon (14 de fevereiro de 1920, página 5).

A atividade de Botelho como fotógrafo nos filmes de Carnaval por encomenda parece ter se iniciado quando foi contratado pela Empresa Serrador para filmar O Carnaval do Rio em 1911. O filme desapareceu, mas informações na ficha do filme existente na Cinemateca Brasileira1 indicam que as imagens exibiam crianças fantasiadas e a saída do Clube dos Fenianos. Em 1913 Botelho filmou novamente o corso na Avenida Rio Branco e alguns carros do Clube dos Democráticos, e no ano seguinte produziu imagens do corso na Avenida Paulista, onde morava a elite de São Paulo. Há, portanto, no filme de 1920, que sobreviveu para nosso olhar, uma repetição dos mesmos assuntos e financiadores dos filmes anteriores sobre o Carnaval.

Há que notar que estes filmes eram exibidos na região central do Rio, que tinha sido reformada na primeira década do século pelo prefeito Pereira Passos para expulsar os antigos cortiços e moradias populares e substituí-los por largas avenidas onde se construiu novas salas de exibição, junto a símbolos de modernidade como o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional. Uma imagem higienizada do Carnaval era, portanto, exigida pela imprensa, pela elite e pelos poderes públicos (Morettin, 2005: 136) para ser exibida nesses cinemas elegantes da região. Segundo Bruno Carvalho, com estas alterações urbanas o Carnaval da cidade “se dividiu ao longo de linhas socio-geográficas”: havia de um lado os corsos e os bailes de máscaras particulares, que aconteciam em elegantes locais fechados e os desfiles das Grandes Sociedades, que eram mostrados nos filmes. E de outro lado havia a efervescência invisível ao cinema, das animadas e anárquicas festas das classes baixas, “expressões espontâneas e autênticas das populações africanas do Brasil” que se concentravam nas cercanias da Praça Onze (2019: 202). Segundo Carvalho, será apenas em 1932, após a ascensão do presidente Getúlio Vargas e sua defesa do samba e da miscigenação como um dos elementos de construção de uma identidade nacional, uma musicalidade e uma filmografia que representasse o país, que se iniciará a era das chamadas escolas de samba (desfiles de agremiações carnavalescas oriundas dos cordões e dos ranchos), quando o recém criado jornal O Mundo Sportivo, dirigido pelo jornalista Mário Filho, criou “a prática até então esporádica de tratar os desfiles de carnaval como competições”. Pedro Ernesto, prefeito do Rio de Janeiro nomeado por Vargas em setembro de 1931 apoiou as escolas, tornando os desfiles oficiais e dando-lhes a garantia de ajuda financeira (Carvalho, 2019: 211). Assim, é importante entendermos o que eram as formas deste Carnaval que se pretendeu deixar de fora das imagens cinematográficas na década de 1920.

Como explica Maria Clementina Cunha em seu detalhado estudo histórico do carnaval carioca entre 1880 e 1920 (2001), o entrudo era, para a população do Rio de Janeiro no século XIX, sinônimo de carnaval, uma prática vinda de Portugal que liberava, nos três dias de folia, brincadeiras permitidas a todos: jovens e velhos, escravos e senhores, mulheres e homens:

(...) Era o costume de molhar-se e sujar-se uns aos outros com limões ou laranjinhas de cera recheadas com água perfumada, com recurso a seringas, gamelas, bisnagas e até banheiras – todo e qualquer recipiente que pudesse comportar água a ser arremessada. Incluía também, em determinadas situações, o uso de polvilho, “vermelhão”, tintas, farinhas, ovos e mesmo lama, piche e líquidos fétidos, entre os quais urina e “águas-servidas” (Cunha, 2001: 54).

No espaço privado, os senhores praticavam um entrudo doméstico, e muitas vezes os moradores de casas em lados opostos da rua alvejavam-se mutuamente, usando limões de cheiro que iam retirando de gamelas sustentadas por escravos. Na rua, estes escravos participavam mais ativamente das brincadeiras. Na década de 1880 estes comportamentos passam a ser largamente condenados pela imprensa do Rio de Janeiro, pela polícia e pelas Sociedades Carnavalescas, e os folguedos meio rudes do entrudo chegam ao final do século como algo considerado o oposto de Carnaval, associado por muitos, inclusive, à própria monarquia, já que o imperador Pedro II adorava brincar o entrudo em seu palácio.

O Carnaval do Rio de Janeiro englobava também outras práticas populares. Os cucumbis, por exemplo, eram desfiles de negros que nos últimos anos do século XIX dramatizavam em línguas da África o drama de um príncipe negro que morre aos ser atacado por uma tribo que se veste de penas, mas é ressucitado por um feiticeiro e se festeja sua volta. As fantasias de índios traziam muitas plumas e colares de dentes, enquanto a corte africana vinha com seus tambores e trazia animais vivos ou empalhados, tais como cobras, tartarugas, lagartos e outros. Cunha explica que estes desfiles, apesar de criticados, eram tolerados por sua aparência humilde, primitiva e até “pitoresca”. Mas após a abolição em 1888 estes cucumbis passaram a ser afastados do que se considerava o autêntico Carnaval, que não deveria incluir tanta desigualdade racial, social e cultural. Tachados de “bandos de negros desordeiros”, fantasiados de índios, eles foram literalmente explsos dessas festas.

Outra forma de Carnaval eram os barulhentos zé-pereiras, que invariavelmente apareciam e se misturavam às multidões. Eram desfiles criados nos cortiços, nos quais desfilavam por negros, brancos pobres, prostitutas, trabalhadores braçais e desocupados que ridicularizavam as classes altas vestindo roupas esfarrapadas do avesso, batendo tambores de lata e exibindo sempre um estandarte feito com material barato. Esta modalidade foi criada em 1852 no Rio de Janeiro por um sapateiro português que sentia saudades do entrudo da sua terra (Cunha, 2001: 45-48).

Outras importantes formas de Carnaval popular eram os cordões e os ranchos, cujos integrantes vinham dos morros ou dos bairros afastados, e também eram considerados grosseiros e antiquados pelas sociedades carnavalescas, mas que no curso da história se multiplicaram e conseguiram negociar sua sobrevivência diante do projeto disciplinador do Carnaval promovido pelas Sociedades Carnavalescas e parte da imprensa, que perdia força no início do século XX. Muitas dessas pequenas sociedades carnavalescas populares requisitavam licenças públicas para poder sair no carnaval e visitavam as redações dos jornais para adquirirem visibilidade.

Havia diferenças importantes entre os cordões e os ranchos. Cunha explica que enquanto os integrantes dos cordões caminhavam a pé, os ranchos usavam alegorias montadas sobre carroças. O forte dos cordões era uma pesada percussão e um canto no qual “um ou dois dançarinos vestidos de índios entoavam a copla, e o coro em uníssono repetia o estribilho”, por vezes acompanhados apenas de cavaquinho e violão. Cantavam uma cantiga com seus fortes bumbos e tambores. Já os ranchos exibiam um canto harmonizado com percussão leve e com instrumentos que incluíam cordas e sopros. Os ranchos desfilavam com enredo fixo e tinham mestres de canto, que conduziam uma numerosa presença de mulheres, as pastoras. As grandes sociedades suspeitavam desses grupos e não os diferenciavam, considerando todos demasiadamente numerosos e bastante ameaçadores em sua precariedade explícita (2001: 152). Entretanto, na primeira década do século XX estabeleceu-se uma divisão: os ranchos começaram a ser valorizados pela imprensa devido às suas qualidades poéticas, musicais e de organização, enquanto os cordões recebiam juízos negativos que condenavam a sua aparência de violência, deseducação e marginalidade.

De volta às imagens de O que foi o Carnaval de 1920, podemos agora nos indagar sobre as origens de Democráticos e Fenianos. Seus integrantes eram imigrantes e comerciantes que fundaram estes clubes para terem espaços familiares para socializar e brincar seu carnaval, e aproveitando também, o que era fundamental, para serem também valorizados pela elite local. Abrigavam salas de leitura, palestras, jogos e promoviam bailes e desfiles de Carnaval, além de produzir seus próprios jornais, que eram distribuídos ao público durante os desfiles. O Club dos Democráticos nasceu em 16 de agosto de 1866, quando um grupo de comerciantes boêmios escolheu como sócio principal o português José Alves da Silva, que entrou com a maior parte do dinheiro. A agremiação aceitava pequenos empregados e boêmios variados. Já o Club dos Fenianos, fundado em 1869, adotou este nome porque seus fundadores tomaram como referência a rebelião dos irlandeses contra o Reino Inglês. Cunha explica que a fundação do clube aconteceu em reunião na Rua da Assembleia, na residência de Mr. Chuck, “um desgostoso súdito britânico de nacionalidade irlandesa, que importava e comercializava bijuterias, com estabelecimento no Rio de Janeiro”. Sua presença talvez explique o nome adotado pela sociedade, que incluía em sua diretoria muitos imigrantes, principalmente italianos e espanhóis (2001: 110-111).

Há toda uma complexa história de relacionamento entre as agremiações carnavalescas e a imprensa, tida como fonte de legitimação e publicização, num momento em que o rádio ainda não existia no Brasil. Representantes dos cordões e ranchos visitavam as redações dos jornais trazendo seus estandartes e parte das bandas, para receberem destaque e comentários em suas matérias sobre o carnaval. Revistas ilustradas comentavam o que estava por vir antes de cada Carnaval. No caso de O que foi o Carnaval de 1920 a estreita relação entre Sociedades e a imprensa pode ser constatada na edição da revista Fon-Fon de 21 de fevereiro de 1920, publicada logo após as festividades. Há uma clara coincidência entre os ângulos das filmagens de cada carro dos desfiles de Fenianos e Democráticos e as fotos desse mesmo desfile publicadas na revista. Enquanto o filme possui poucos letreiros e não informa muito sobre cada carro que é mostrado, a revista exibe fotos de quase todos os carros, explicando nas legendas o tema e o sentido de cada um (ver Figuras 2.,3., 4., e 5.), o que nos ajudou a melhor entender estas filmagens.

Figura 2: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 24.
Figura 3: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 25.
Figura 4: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 26.
Figura 5: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 27.

É provável que a cópia em questão tenha perdido, além de alguns letreiros, também algumas cenas. Embora a certa altura um letreiro anuncie imagens das “trez sociedades queridas: Tenentes! Fenianos! E Democráticos!”, não se verá nenhuma imagem do desfile dos Tenentes. Outra possibilidade é a de que os Tenentes não tenham sido parte dos que encomendaram o filme.

Com a ajuda da Fon-Fon podemos entender melhor os carros de crítica e de alegorias que desfilam. No préstito dos Fenianos aparece a seguinte sucessão após os cavaleiros da comissão de frente: carro-chefe Festa do Jubileu no Olimpo (vencedor da taça Sudan conferida à melhor alegoria), carro de crítica A mão, carro do Beef, carro alegórico Rapto de Psiché, carro Pra cima de moá de crítica ao preço do café e com dois homens dramatizando uma cena cômica, carro alegórico O obelisco de Luxor, carro alegórico Lohengrin, carro Pela Moral de crítica aos almofadinhas e melindrosas exibindo homens brancos fantasiados de mulher, carro alegórico Cruzeiro do Sul, carro não identificado onde alguns sócios aparecem em performance, e carro alegórico A cadeirinha de 1820. Os carros são aqui filmados sob ângulo muito parecido às fotos da revista, estacionados antes de começar o desfile. Os carros dos Democráticos são mostrados nos planos seguintes, em que vemos: o carro-chefe Águia Excelsa, o carro alegórico Regresso Primaveril, o carro alegórico O Auri-Verde Pendão, o carro de crítica Execução da Paz, o carro de crítica Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repetindo um assunto dos fenianos e que deve refletir uma discussão da época), o carro de crítica Reino dos Ratos (que obteve a taça Phenix para a melhor crítica), o carro alegórico Fecho do Amor e por último o carro de crítica Por um óculo. Por último reaparecem três carros dos Fenianos que já vimos estacionados, mas agora entrando na Avenida Rio Branco, com visível esforço do cinegrafista em isolar os carros da visão do público presente.

Ainda que tenham aparência precária, filmes como este refletem o espírito de seu tempo com clareza. Dentro da clássica descrição feita por Paulo Emílio Salles Gomes sobre os “assuntos” dos documentários silenciosos brasileiros, que ele dividia entre “rituais do poder” e “berço esplêndido”, é possível dizer que as imagens desse filme de carnaval aproximam-se curiosamente dos filmes de “ritual do poder”, que exibiam eventos públicos onde se observa a movimentação das elites e de autoridades. O carnaval aparece aqui de maneira complexa, porque exibe imagens de uma festa antiga e generalizada no país, mas mostrando apenas sua faceta mais elitista.

1. Informação fornecida por matéria de jornal coletada por Jean-Claude Bernardet em Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

REFERÊNCIAS

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

Ao assistir O que foi o Carnaval de 1920, filme documentário silencioso filmado por Alberto Botelho no Rio de Janeiro, a primeira reação é de perplexidade. A alegria normalmente associada ao povo que celebra a festa nas ruas parece estranhamente ausente. O filme possui três partes. Na primeira, vemos cenas do corso, um desfile de automóveis dos cariocas ricos, guiados por motoristas uniformizados e ocupados por homens fantasiados que encaram seguidamente a câmera e posam para ela. Por mulheres um pouco tímidas que, ao contrário dos homens, não estão fantasiadas com roupas do sexo oposto. Chama a atenção a branquitude dos ocupantes e um certo ar de superioridade. Em seguida, vários planos tomados num baile de Carnaval infantil, mostram crianças fantasiadas posando ou dançando para a câmera, algumas bastante sérias e outras com cara assustada e à beira do choro, todas muito desconfortáveis e obedecendo às ordens de gente fora de campo. A mais desinibida das crianças, a menina Hilda, que um letreiro descreve como “pequena Feniana”, aparece em planos próximos ladeada por dois pequenos pierrots, e ficamos sabendo que ela ganhou algum prêmio. Na terceira parte, um letreiro anuncia o desfile das Sociedades Carnavalescas dos Tenentes, Fenianos e Democráticos. Diferentes carros alegóricos e seus ocupantes são filmados, primeiro esperando para entrar no desfile, depois avançando pelas ruas do centro da cidade.

Quem são estes cariocas elegantes que ostentam seus carros no corso? O que são estes imensos carros alegóricos? Por que os rostos populares irrompem apenas na borda dos quadros e não vemos a multidão que se divertia no Carnaval? Para responder a estas perguntas buscaremos alguns detalhes sobre o trabalho de Botelho no contexto do cinema brasileiro da época e comentaremos as transformações sofridas pelo Carnaval carioca desde a criação das Sociedades Carnavalescas no século XIX.

Alberto Botelho foi um produtivo cinegrafista nas primeiras décadas do século 20, quando filmou diversos “filmes cantantes” para a empresa de Francisco Serrador, além de inúmeras vistas documentais produzidas no esquema de “cavação”: filmes de encomenda que documentavam diversas atividades políticas, culturais ou esportivas das elites e de autoridades. Botelho filmou uma infinidade de festas, corridas de carro e motocicleta, inaugurações, eventos cívicos, excursões pitorescas e jogos de futebol. Em 1911, foi contratado por Serrador para registrar nos prados da Moóca, em São Paulo, os vôos do aviador Ruggerone, noivo da filha do empresário têxtil Rodolfo Crespi, que encomendou os filmes, e em 1914, documentou a chegada de Santos Dumont ao Rio de Janeiro. Botelho filmou os cinejornais da Pathé Jornal no Brasil durante mais de uma década e também participou de ficções: em 1912 produziu e filmou no Rio de Janeiro uma reconstituição do famoso “crime dos 400 contos”, em 1918 fotografou duas produções de Luiz de Barros, e em 1920 fez a fotografia de uma das inúmeras versões de O guarani, esta dirigida por João de Deus.

No século XIX o Carnaval carioca, seja em suas versões mais domésticas, seja em suas manifestações de rua, estruturou-se como uma diversão plural e não controlada, de origem cultural múltipla, da qual todos participavam. Mas desde sua fundação, nos anos 1860, as Sociedades Carnavalescas se juntaram àqueles que há tempos vinham lutando por um maior controle público sobre o Carnaval, que eliminasse a anarquia das comemorações e os “perigos” das versões mais populares da festa, como o entrudo, os zé-pereiras, os cucumbis, os cordões e os ranchos – formas que descreveremos mais à frente. As sociedades carnavalescas queriam oferecer-se como uma leitura da festa que recuperasse as características europeias do evento e suas origens “venezianas” e eliminasse assim a confusão selvagem de batuques e multidões populares. Estas sociedades instituíram para seus desfiles dois tipos de carros alegóricos, os de “crítica” à situação do momento, e os carros de “alegorias” ou “ideias”, que produziam com intenção de reforçar a impressão de luxo e as referências a elementos da cultura clássica, para se diferenciar do carnaval das classes baixas. Botelho era seguidamente contratado por estas sociedades, de maneira que as imagens que ele oferecia em seus filmes estavam sempre dentro destas diretrizes: dar destaque para seus carros e foliões. Assim, o que se vê não é a festa em sua pluralidade, mas apenas a folia organizada de Fenianos e Democráticos em seus desfiles de carros alegóricos, nos bailes infantis de suas crianças e na ostentação pública de carros particulares, muitas vezes alugados, que desfilavam no corso da Avenida Rio Branco. Anúncios na imprensa (ver Figura 1.) ofereciam fantasias e brinquedos para festas para a ocasião. Vemos nestes planos alguns populares vendendo bebidas aos ocupantes dos automóveis.

Figura 1: Anúncio de fantasias para o corso na revista Fon-Fon (14 de fevereiro de 1920, página 5).

A atividade de Botelho como fotógrafo nos filmes de Carnaval por encomenda parece ter se iniciado quando foi contratado pela Empresa Serrador para filmar O Carnaval do Rio em 1911. O filme desapareceu, mas informações na ficha do filme existente na Cinemateca Brasileira1 indicam que as imagens exibiam crianças fantasiadas e a saída do Clube dos Fenianos. Em 1913 Botelho filmou novamente o corso na Avenida Rio Branco e alguns carros do Clube dos Democráticos, e no ano seguinte produziu imagens do corso na Avenida Paulista, onde morava a elite de São Paulo. Há, portanto, no filme de 1920, que sobreviveu para nosso olhar, uma repetição dos mesmos assuntos e financiadores dos filmes anteriores sobre o Carnaval.

Há que notar que estes filmes eram exibidos na região central do Rio, que tinha sido reformada na primeira década do século pelo prefeito Pereira Passos para expulsar os antigos cortiços e moradias populares e substituí-los por largas avenidas onde se construiu novas salas de exibição, junto a símbolos de modernidade como o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional. Uma imagem higienizada do Carnaval era, portanto, exigida pela imprensa, pela elite e pelos poderes públicos (Morettin, 2005: 136) para ser exibida nesses cinemas elegantes da região. Segundo Bruno Carvalho, com estas alterações urbanas o Carnaval da cidade “se dividiu ao longo de linhas socio-geográficas”: havia de um lado os corsos e os bailes de máscaras particulares, que aconteciam em elegantes locais fechados e os desfiles das Grandes Sociedades, que eram mostrados nos filmes. E de outro lado havia a efervescência invisível ao cinema, das animadas e anárquicas festas das classes baixas, “expressões espontâneas e autênticas das populações africanas do Brasil” que se concentravam nas cercanias da Praça Onze (2019: 202). Segundo Carvalho, será apenas em 1932, após a ascensão do presidente Getúlio Vargas e sua defesa do samba e da miscigenação como um dos elementos de construção de uma identidade nacional, uma musicalidade e uma filmografia que representasse o país, que se iniciará a era das chamadas escolas de samba (desfiles de agremiações carnavalescas oriundas dos cordões e dos ranchos), quando o recém criado jornal O Mundo Sportivo, dirigido pelo jornalista Mário Filho, criou “a prática até então esporádica de tratar os desfiles de carnaval como competições”. Pedro Ernesto, prefeito do Rio de Janeiro nomeado por Vargas em setembro de 1931 apoiou as escolas, tornando os desfiles oficiais e dando-lhes a garantia de ajuda financeira (Carvalho, 2019: 211). Assim, é importante entendermos o que eram as formas deste Carnaval que se pretendeu deixar de fora das imagens cinematográficas na década de 1920.

Como explica Maria Clementina Cunha em seu detalhado estudo histórico do carnaval carioca entre 1880 e 1920 (2001), o entrudo era, para a população do Rio de Janeiro no século XIX, sinônimo de carnaval, uma prática vinda de Portugal que liberava, nos três dias de folia, brincadeiras permitidas a todos: jovens e velhos, escravos e senhores, mulheres e homens:

(...) Era o costume de molhar-se e sujar-se uns aos outros com limões ou laranjinhas de cera recheadas com água perfumada, com recurso a seringas, gamelas, bisnagas e até banheiras – todo e qualquer recipiente que pudesse comportar água a ser arremessada. Incluía também, em determinadas situações, o uso de polvilho, “vermelhão”, tintas, farinhas, ovos e mesmo lama, piche e líquidos fétidos, entre os quais urina e “águas-servidas” (Cunha, 2001: 54).

No espaço privado, os senhores praticavam um entrudo doméstico, e muitas vezes os moradores de casas em lados opostos da rua alvejavam-se mutuamente, usando limões de cheiro que iam retirando de gamelas sustentadas por escravos. Na rua, estes escravos participavam mais ativamente das brincadeiras. Na década de 1880 estes comportamentos passam a ser largamente condenados pela imprensa do Rio de Janeiro, pela polícia e pelas Sociedades Carnavalescas, e os folguedos meio rudes do entrudo chegam ao final do século como algo considerado o oposto de Carnaval, associado por muitos, inclusive, à própria monarquia, já que o imperador Pedro II adorava brincar o entrudo em seu palácio.

O Carnaval do Rio de Janeiro englobava também outras práticas populares. Os cucumbis, por exemplo, eram desfiles de negros que nos últimos anos do século XIX dramatizavam em línguas da África o drama de um príncipe negro que morre aos ser atacado por uma tribo que se veste de penas, mas é ressucitado por um feiticeiro e se festeja sua volta. As fantasias de índios traziam muitas plumas e colares de dentes, enquanto a corte africana vinha com seus tambores e trazia animais vivos ou empalhados, tais como cobras, tartarugas, lagartos e outros. Cunha explica que estes desfiles, apesar de criticados, eram tolerados por sua aparência humilde, primitiva e até “pitoresca”. Mas após a abolição em 1888 estes cucumbis passaram a ser afastados do que se considerava o autêntico Carnaval, que não deveria incluir tanta desigualdade racial, social e cultural. Tachados de “bandos de negros desordeiros”, fantasiados de índios, eles foram literalmente explsos dessas festas.

Outra forma de Carnaval eram os barulhentos zé-pereiras, que invariavelmente apareciam e se misturavam às multidões. Eram desfiles criados nos cortiços, nos quais desfilavam por negros, brancos pobres, prostitutas, trabalhadores braçais e desocupados que ridicularizavam as classes altas vestindo roupas esfarrapadas do avesso, batendo tambores de lata e exibindo sempre um estandarte feito com material barato. Esta modalidade foi criada em 1852 no Rio de Janeiro por um sapateiro português que sentia saudades do entrudo da sua terra (Cunha, 2001: 45-48).

Outras importantes formas de Carnaval popular eram os cordões e os ranchos, cujos integrantes vinham dos morros ou dos bairros afastados, e também eram considerados grosseiros e antiquados pelas sociedades carnavalescas, mas que no curso da história se multiplicaram e conseguiram negociar sua sobrevivência diante do projeto disciplinador do Carnaval promovido pelas Sociedades Carnavalescas e parte da imprensa, que perdia força no início do século XX. Muitas dessas pequenas sociedades carnavalescas populares requisitavam licenças públicas para poder sair no carnaval e visitavam as redações dos jornais para adquirirem visibilidade.

Havia diferenças importantes entre os cordões e os ranchos. Cunha explica que enquanto os integrantes dos cordões caminhavam a pé, os ranchos usavam alegorias montadas sobre carroças. O forte dos cordões era uma pesada percussão e um canto no qual “um ou dois dançarinos vestidos de índios entoavam a copla, e o coro em uníssono repetia o estribilho”, por vezes acompanhados apenas de cavaquinho e violão. Cantavam uma cantiga com seus fortes bumbos e tambores. Já os ranchos exibiam um canto harmonizado com percussão leve e com instrumentos que incluíam cordas e sopros. Os ranchos desfilavam com enredo fixo e tinham mestres de canto, que conduziam uma numerosa presença de mulheres, as pastoras. As grandes sociedades suspeitavam desses grupos e não os diferenciavam, considerando todos demasiadamente numerosos e bastante ameaçadores em sua precariedade explícita (2001: 152). Entretanto, na primeira década do século XX estabeleceu-se uma divisão: os ranchos começaram a ser valorizados pela imprensa devido às suas qualidades poéticas, musicais e de organização, enquanto os cordões recebiam juízos negativos que condenavam a sua aparência de violência, deseducação e marginalidade.

De volta às imagens de O que foi o Carnaval de 1920, podemos agora nos indagar sobre as origens de Democráticos e Fenianos. Seus integrantes eram imigrantes e comerciantes que fundaram estes clubes para terem espaços familiares para socializar e brincar seu carnaval, e aproveitando também, o que era fundamental, para serem também valorizados pela elite local. Abrigavam salas de leitura, palestras, jogos e promoviam bailes e desfiles de Carnaval, além de produzir seus próprios jornais, que eram distribuídos ao público durante os desfiles. O Club dos Democráticos nasceu em 16 de agosto de 1866, quando um grupo de comerciantes boêmios escolheu como sócio principal o português José Alves da Silva, que entrou com a maior parte do dinheiro. A agremiação aceitava pequenos empregados e boêmios variados. Já o Club dos Fenianos, fundado em 1869, adotou este nome porque seus fundadores tomaram como referência a rebelião dos irlandeses contra o Reino Inglês. Cunha explica que a fundação do clube aconteceu em reunião na Rua da Assembleia, na residência de Mr. Chuck, “um desgostoso súdito britânico de nacionalidade irlandesa, que importava e comercializava bijuterias, com estabelecimento no Rio de Janeiro”. Sua presença talvez explique o nome adotado pela sociedade, que incluía em sua diretoria muitos imigrantes, principalmente italianos e espanhóis (2001: 110-111).

Há toda uma complexa história de relacionamento entre as agremiações carnavalescas e a imprensa, tida como fonte de legitimação e publicização, num momento em que o rádio ainda não existia no Brasil. Representantes dos cordões e ranchos visitavam as redações dos jornais trazendo seus estandartes e parte das bandas, para receberem destaque e comentários em suas matérias sobre o carnaval. Revistas ilustradas comentavam o que estava por vir antes de cada Carnaval. No caso de O que foi o Carnaval de 1920 a estreita relação entre Sociedades e a imprensa pode ser constatada na edição da revista Fon-Fon de 21 de fevereiro de 1920, publicada logo após as festividades. Há uma clara coincidência entre os ângulos das filmagens de cada carro dos desfiles de Fenianos e Democráticos e as fotos desse mesmo desfile publicadas na revista. Enquanto o filme possui poucos letreiros e não informa muito sobre cada carro que é mostrado, a revista exibe fotos de quase todos os carros, explicando nas legendas o tema e o sentido de cada um (ver Figuras 2.,3., 4., e 5.), o que nos ajudou a melhor entender estas filmagens.

Figura 2: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 24.
Figura 3: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 25.
Figura 4: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 26.
Figura 5: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 27.

É provável que a cópia em questão tenha perdido, além de alguns letreiros, também algumas cenas. Embora a certa altura um letreiro anuncie imagens das “trez sociedades queridas: Tenentes! Fenianos! E Democráticos!”, não se verá nenhuma imagem do desfile dos Tenentes. Outra possibilidade é a de que os Tenentes não tenham sido parte dos que encomendaram o filme.

Com a ajuda da Fon-Fon podemos entender melhor os carros de crítica e de alegorias que desfilam. No préstito dos Fenianos aparece a seguinte sucessão após os cavaleiros da comissão de frente: carro-chefe Festa do Jubileu no Olimpo (vencedor da taça Sudan conferida à melhor alegoria), carro de crítica A mão, carro do Beef, carro alegórico Rapto de Psiché, carro Pra cima de moá de crítica ao preço do café e com dois homens dramatizando uma cena cômica, carro alegórico O obelisco de Luxor, carro alegórico Lohengrin, carro Pela Moral de crítica aos almofadinhas e melindrosas exibindo homens brancos fantasiados de mulher, carro alegórico Cruzeiro do Sul, carro não identificado onde alguns sócios aparecem em performance, e carro alegórico A cadeirinha de 1820. Os carros são aqui filmados sob ângulo muito parecido às fotos da revista, estacionados antes de começar o desfile. Os carros dos Democráticos são mostrados nos planos seguintes, em que vemos: o carro-chefe Águia Excelsa, o carro alegórico Regresso Primaveril, o carro alegórico O Auri-Verde Pendão, o carro de crítica Execução da Paz, o carro de crítica Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repetindo um assunto dos fenianos e que deve refletir uma discussão da época), o carro de crítica Reino dos Ratos (que obteve a taça Phenix para a melhor crítica), o carro alegórico Fecho do Amor e por último o carro de crítica Por um óculo. Por último reaparecem três carros dos Fenianos que já vimos estacionados, mas agora entrando na Avenida Rio Branco, com visível esforço do cinegrafista em isolar os carros da visão do público presente.

Ainda que tenham aparência precária, filmes como este refletem o espírito de seu tempo com clareza. Dentro da clássica descrição feita por Paulo Emílio Salles Gomes sobre os “assuntos” dos documentários silenciosos brasileiros, que ele dividia entre “rituais do poder” e “berço esplêndido”, é possível dizer que as imagens desse filme de carnaval aproximam-se curiosamente dos filmes de “ritual do poder”, que exibiam eventos públicos onde se observa a movimentação das elites e de autoridades. O carnaval aparece aqui de maneira complexa, porque exibe imagens de uma festa antiga e generalizada no país, mas mostrando apenas sua faceta mais elitista.

1. Informação fornecida por matéria de jornal coletada por Jean-Claude Bernardet em Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

REFERÊNCIAS

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

When watching O que foi o Carnaval de 1920, a silent documentary shot by Alberto Botelho in Rio de Janeiro, our first reaction is puzzlement. The joy normally associated with people celebrating Carnaval in the streets seems strangely absent. The film consists of three parts. In the first, we see scenes of the corso parade with cars of wealthy cariocas,1 driven by uniformed drivers and occupied by costumed men who repeatedly face the camera and pose for it. The whiteness of the passengers and their air of superiority are striking. Next, several shots taken at a children's Carnaval ball show costumed children posing or dancing for the camera, some quite serious and others with frightened faces on the verge of crying. The children all seem very uncomfortable, obeying the orders of the people behind the camera. The most uninhibited of the children, a girl named Hilda whom a title card describes as "little Feniana", appears in close-ups flanked by two small pierrots,2 and we learn that she has won a prize. In the third part of the film, a title card announces the parade of the Sociedades Carnavalescas [Carnival Societies] of the Tenentes [Lieutenants], Fenianos and Democráticos. Different floats and their occupants are filmed, first waiting to enter the parade, then advancing through the downtown streets.

Who are these elegant Cariocas who parade their floats in the corso? What are these huge floats? Why do the residents of Rio de Janeiro’s faces appear only at the edges of the pictures, given that they are the crowd who were mainly participating in the Carnaval? To answer these questions, we will look at some details about Botelho's work in the context of Brazilian cinema history and comment on the transformations that Rio's Carnaval has undergone since the creation of the Sociedades Carnavalescas in the 19th century.

Alberto Botelho was a prolific cameraman in the early decades of the 20th century, when he filmed several “singing films” for Francisco Serrador's company as well as countless documentary films produced in the “cavação” scheme. These were commissioned films that documented various political, cultural, or sporting activities of the elites and authorities. Botelho filmed a multitude of parties, car and motorcycle races, inaugurations, civic events, picturesque excursions, and soccer games. In 1911, he was hired by Serrador to record, in the meadows of Moóca, São Paulo, the flights of the aviator Ruggerone, fiancé of the daughter of textile entrepreneur Rodolfo Crespi, who commissioned the films. In 1914, he documented the arrival of Santos Dumont in Rio de Janeiro. Botelho filmed Pathé Journal's newsreels in Brazil for over a decade, and also participated in the making of fiction films. In 1912, he produced and filmed in Rio de Janeiro a re-enactment of the famous "400 contos crime", in 1918 he photographed two productions by Luiz de Barros, and in 1920 he did the photography for one of the many versions of O Guarani, this one directed by João de Deus.

Rio de Janeiro's 19th century Carnaval celebrations were diverse and uncontrolled events of multiple cultural origins in which the whole city participated. But since their founding in the 1860s, the Sociedades Carnavalescas joined those who had long been fighting for greater public control over Carnaval to eliminate the anarchy of the celebrations and the “dangers” of the more popular versions of the party, such as entrudo, zé-pereiras, cucumbis, cordões, and ranchos - all of which we will elaborate on later. The Sociedades Carnavalescas wanted to offer a version of the festivities that restored their European characteristics and Venetian origins, thus eliminating the wild confusion of drumbeats and mass gatherings. These societies instituted two types of floats for their parades, those of  “critique” that criticized the socio-political situation of that period, and the floats of "allegories'' or "ideas," which were produced with the intention of reinforcing the impression of luxury and references to classical culture. The latter floats were made for the societies to differentiate themselves from the Carnaval of the lower classes. Botelho was often hired by these societies, and so the images he offered in his films were typically intended to highlight their cars and members. Therefore, what we see is not the party in its plurality, but only the organized revelry of Fenianos and Democráticos in their float parades, in their children's balls, and in the public ostentation of private cars, often rented, that paraded in the corso of Avenida Rio Branco. Advertisements in the press (see Figure 1) displayed costumes and party toys for the occasion. We see in these shots local people selling drinks to the occupants of the cars.

Figure 1: Advertisement for costumes for the corso in Fon-Fon magazine (February 14, 1920, page 5).

Botelho's work as a cinematographer on commissioned Carnaval films seems to have begun when he was hired by the Serrador Company to shoot O Carnaval do Rio in 1911. The film has since disappeared, but information in the film's file at the Cinemateca Brasileira3 indicates that the images featured costumed children and a Club dos Fenianos outing. In 1913 Botelho again filmed the corso on Avenida Rio Branco and some cars from the Clube dos Democráticos, and the following year he produced images of the corso on Avenida Paulista, where the São Paulo elite lived. There is, therefore, in the 1920 film, a repetition of the same subjects and financiers as in his earlier films about Carnaval.

It should be noted that these films were shown in the central region of Rio, which had been reformed in the first decade of the century by the mayor Pereira Passos to expel the old tenements and working-class housing and replace them with wide avenues where new cinemas were built, next to symbols of modernity such as the Municipal Theater and the National Library. A sanitized image of Carnaval was therefore demanded by the press, the elite, and the public authorities to be shown in these new elegant cinemas (Morettin, 2005: 136). According to Bruno Carvalho, with these urban changes the city's Carnaval “split along socio-geographical lines”. On one side there were the private corsos and masquerade balls, which took place in elegant, closed venues, and the parades of the Grandes Sociedades, which were shown in the movies. On the other side, there was the effervescence invisible to the cinema, the lively and anarchic parties of the lower classes, “spontaneous and authentic expressions of the African populations of Brazil” that were concentrated around Praça Onze (2019: 202). According to Carvalho, it won't be until 1932, after the ascension of President Getúlio Vargas and his defense of samba and miscegenation as one of the elements for the construction of a national identity that the era of the escolas de samba (parades of Carnaval associations from cordões and ranchos) would begin. The newly created newspaper O Mundo Sportivo, headed by journalist Mário Filho, created “the hitherto sporadic practice of treating Carnaval parades as competitions”. Pedro Ernesto, mayor of Rio de Janeiro appointed by Vargas in September 1931, supported the schools, making the parades official and giving them guaranteed financial aid (Carvalho, 2019: 211). Thus, it is important that we understand the forms of Carnaval that were intended to be left out of cinematic images in the 1920s.

As Maria Clementina Cunha explains in her detailed historical study of Rio de Janeiro's carnaval between 1880 and 1920 (2001), entrudo was, for the population of Rio de Janeiro in the 19th century, synonymous with carnaval, a practice that had come from Portugal that, over three days of revelry, featured games for everyone - young and old, slaves and masters, women and men:

(...) It was the custom of getting each other wet and dirty with lemons or wax oranges filled with scented water, using syringes, troughs, tubes and even bathtubs - any container that could hold water to be thrown. It also included, in certain situations, the use of powder, “vermelhão”,4 paints, flours, eggs and even mud, tar and fetid liquids, among them urine and "sewage" (Cunha, 2001: 54).

In the private space, the masters practiced a kind of domestic entrudo, and often the residents of houses on opposite sides of the street would shoot at each other, using smelly lemons that they would take from troughs held by slaves. In the street, these slaves participated more actively in the games. In the 1880s behaviors associated with entrudo began to be widely condemned by the Rio de Janeiro press, the police, and the Sociedades Carnavalescas, and the crudeness of entrudo was considered to be damaging to the reputation of Carnaval by the end of the century.

Rio de Janeiro's Carnaval also encompassed other popular practices. The cucumbis, for example, were parades of black people who, in the last years of the 19th century, dramatized in African languages the story of a black prince who dies after being attacked by a tribe dressed in feathers. At the end of the dramatization, the black prince is resurrected by a sorcerer and his return is celebrated. The Native Brazilian costumes of the parade had many feathers and necklaces of teeth, while the African court came with their drums and brought live or stuffed animals, such as snakes, turtles, lizards and others. Cunha explains that these parades, although criticized, were tolerated for their humble, primitive and even “picturesque” appearance. But after the abolition of slavery in 1888, these cucumbis began to be removed from what was considered the authentic Carnaval, a celebration without the portrayal of so much racial, social and cultural inequality. The cucumbis were labeled as “gangs of unruly blacks” disguised as Native Brazilians, and were literally banned from Carnaval celebrations.

Another form of popular practice during Carnaval were the noisy zé-pereiras, who invariably appeared and mingled with the larger crowds. These were parades created in the tenements, in which blacks, poor whites, prostitutes, manual laborers, and unemployed people paraded, ridiculing the upper classes by wearing ragged clothes inside out, beating tin drums, and displaying a banner made of cheap material. This modality was created in 1852 in Rio de Janeiro by a Portuguese shoemaker who felt nostalgia for the entrudo of his homeland (Cunha, 2001: 45-48).

Other important forms of popular Carnaval were cordões and ranchos, whose members came from the hills and distant neighborhoods. These celebrations were also considered crude and old-fashioned by the Sociedades Carnavalescas, but over the course of time they multiplied and managed to negotiate their survival in the face of the disciplinary project of Carnaval promoted by the Sociedades Carnavalescas and part of the press, which was losing strength in the early twentieth century. Many of these small popular Sociedades Carnavalescas requested public licenses to be able to go out during the Carnaval and visited the editorial offices of newspapers to acquire visibility.

There were important differences between cordões and ranchos. Cunha explains that while the cordões walked on foot, the ranchos rode allegorical floats on carts. The cordões' emphasis was on heavy percussion and singing in which “one or two dancers dressed as Indians sang the copla, and the choir repeated the chorus in unison”, sometimes accompanied only by cavaquinho and guitar. They sang a song with their strong drums and snares. The ranchos, on the other hand, sang in harmony with light percussion, strings, and wind instruments. The ranchos paraded with a predefined theme and had singing masters, who conducted a large presence of women, the pastoras. The larger societies were suspicious of these groups and did not differentiate between them, considering them all too numerous and threatening in their overt precariousness (2001: 152). However, in the first decade of the twentieth century a division was established: the ranchos began to be valued by the press for their poetic, musical, and organizational qualities, while the cordões received negative judgments that condemned their appearance of violence, miseducation, and marginality.

Returning to O que foi o Carnaval de 1920, we can now explore the origins of the Democráticos and Fenianos. Their members were immigrants and merchants who founded clubs to have familiar spaces to socialize and enjoy their Carnaval, and also, crucially, to be valued by the local elite. They housed reading rooms, lectures, games, and promoted balls and Carnaval parades, in addition to producing their own newspapers, which were distributed to the public during the parades. The Club dos Democráticos was created on August 16, 1866, when a group of bohemian merchants chose as their senior partner the Portuguese José Alves da Silva, who contributed most of the money to the club’s activities. This club accepted small employees and various bohemians. The Club dos Fenianos, founded in 1869, adopted its name from the Irish rebellion against the English Kingdom. Cunha explains that the founding of the club took place at a meeting on Rua da Assembleia, at the residence of Mr. Chuck, "a disgusted British subject of Irish nationality, who imported and sold costume jewelry, with an establishment in Rio de Janeiro”. His presence may explain the name adopted by the society, which included on its board many immigrants, mainly Italians and Spaniards (2001: 110-111).

There is a whole complex history of relationships between Carnaval associations and the press, seen as a source of legitimization and publicity at a time when radio did not yet exist in Brazil. Representatives of cordões and ranchos visited the editorial offices of newspapers bringing their banners and part of the bands to be featured and commented on in their articles about the Carnaval. Illustrated magazines would write about what was to come before each Carnaval. In the case of O que foi o Carnaval de 1920, the close relationship between the societies and the press can be seen in the issue of the Fon-Fon magazine of February 21, 1920, published soon after the festivities. There is a clear connection between the angles of the filming of each car of the Fenianos and Democráticos parades and the photos of that same parade published in the magazine. While the film has few intertitles and doesn't say much about each car that is shown, the magazine shows photos of almost all the cars, explaining in the captions the theme and meaning of each one (see Figures 2.,3., 4., and 5.), which helps us better understand Botelho’s shots.

Figure 2: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 24.
Figure 3: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 25.
Figure 4: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 26.
Figure 5: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 27.

It is likely that the available viewing copy of O que foi o Carnaval de 1920 has lost, in addition to some intertitles, some scenes as well. Although at one point an intertitle announces images of the "three beloved societies: Tenentes! Fenianos! And Democráticos!", you do not see any images of the Tenentes' parade. Another possibility is that the Tenentes were not part of those who commissioned the film.

With the help of Fon-Fon magazine we can better understand the allegorical and critique cars that are featured in the parade. In the promenade of the Fenianos the following appears in succession after the riders of the front committee: lead float Festa do Jubileu no Olimpo (winner of the Sudan cup that was awarded to the best float), float of criticism A mão, Beef float, Rapto de Psiché, float Pra cima de moá criticizing the price of coffee and with two men dramatizing a comic scene, float O obelisco de Luxor, Lohengrin float, Pela Moral float criticizing the "almofadinhas" and "melindrosas",5 showing white men dressed as women, float Cruzeiro do Sul, an unidentified float where some members appear in performance, and float A cadeirinha de 1820. The floats are filmed here at an angle very similar to the magazine's photos, parked before the parade begins. The Democráticos' cars are shown in the following shots, in which we see: the leading float Águia Excelsa, the float Regresso Primaveril, the float O Auri-Verde Pendão, the float Execução da Paz, the float Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repeating a subject of the Fenianos and which probably refers to a popular debate of the time), the Reino dos Ratos critique float (which won the Phenix Cup for best critique), the Fecho do Amor float, and lastly the critique car Por um óculo. Finally three Fenianos' floats that we have already seen parked reappear. They now enter Rio Branco Avenue, and there is noticeable effort by the cameraman to isolate these floats from the view of the public.

Even if they look precarious, films like O que foi o Carnaval de 1920 clearly reflect the spirit of their time. Within the classic description made by Paulo Emílio Salles Gomes about the "themes" of silent Brazilian documentaries, which he divided between "rituals of power" and "splendid cradle", it is possible to say that the images of this carnaval film are curiously close to the "rituals of power" films, which showed public events where the movement of elites and authorities is observed. The Carnaval appears here in a complicated manner because it displays images of an old and widespread celebration in the country, however only showing its most elitist aspects.

1. Cariocas are citizens of Rio de Janeiro

2. In a Carnaval context, a Peirrot is someone dressed as a clown.

3. Information provided by newspaper articles collected by Jean-Claude Bernardet in Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

4. Pulverized mercury sulfate

5. Pejorative terms to refer to young modern men and women of the time, their fashion and attitude.

REFERENCES

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

When watching O que foi o Carnaval de 1920, a silent documentary shot by Alberto Botelho in Rio de Janeiro, our first reaction is puzzlement. The joy normally associated with people celebrating Carnaval in the streets seems strangely absent. The film consists of three parts. In the first, we see scenes of the corso parade with cars of wealthy cariocas,1 driven by uniformed drivers and occupied by costumed men who repeatedly face the camera and pose for it. The whiteness of the passengers and their air of superiority are striking. Next, several shots taken at a children's Carnaval ball show costumed children posing or dancing for the camera, some quite serious and others with frightened faces on the verge of crying. The children all seem very uncomfortable, obeying the orders of the people behind the camera. The most uninhibited of the children, a girl named Hilda whom a title card describes as "little Feniana", appears in close-ups flanked by two small pierrots,2 and we learn that she has won a prize. In the third part of the film, a title card announces the parade of the Sociedades Carnavalescas [Carnival Societies] of the Tenentes [Lieutenants], Fenianos and Democráticos. Different floats and their occupants are filmed, first waiting to enter the parade, then advancing through the downtown streets.

Who are these elegant Cariocas who parade their floats in the corso? What are these huge floats? Why do the residents of Rio de Janeiro’s faces appear only at the edges of the pictures, given that they are the crowd who were mainly participating in the Carnaval? To answer these questions, we will look at some details about Botelho's work in the context of Brazilian cinema history and comment on the transformations that Rio's Carnaval has undergone since the creation of the Sociedades Carnavalescas in the 19th century.

Alberto Botelho was a prolific cameraman in the early decades of the 20th century, when he filmed several “singing films” for Francisco Serrador's company as well as countless documentary films produced in the “cavação” scheme. These were commissioned films that documented various political, cultural, or sporting activities of the elites and authorities. Botelho filmed a multitude of parties, car and motorcycle races, inaugurations, civic events, picturesque excursions, and soccer games. In 1911, he was hired by Serrador to record, in the meadows of Moóca, São Paulo, the flights of the aviator Ruggerone, fiancé of the daughter of textile entrepreneur Rodolfo Crespi, who commissioned the films. In 1914, he documented the arrival of Santos Dumont in Rio de Janeiro. Botelho filmed Pathé Journal's newsreels in Brazil for over a decade, and also participated in the making of fiction films. In 1912, he produced and filmed in Rio de Janeiro a re-enactment of the famous "400 contos crime", in 1918 he photographed two productions by Luiz de Barros, and in 1920 he did the photography for one of the many versions of O Guarani, this one directed by João de Deus.

Rio de Janeiro's 19th century Carnaval celebrations were diverse and uncontrolled events of multiple cultural origins in which the whole city participated. But since their founding in the 1860s, the Sociedades Carnavalescas joined those who had long been fighting for greater public control over Carnaval to eliminate the anarchy of the celebrations and the “dangers” of the more popular versions of the party, such as entrudo, zé-pereiras, cucumbis, cordões, and ranchos - all of which we will elaborate on later. The Sociedades Carnavalescas wanted to offer a version of the festivities that restored their European characteristics and Venetian origins, thus eliminating the wild confusion of drumbeats and mass gatherings. These societies instituted two types of floats for their parades, those of  “critique” that criticized the socio-political situation of that period, and the floats of "allegories'' or "ideas," which were produced with the intention of reinforcing the impression of luxury and references to classical culture. The latter floats were made for the societies to differentiate themselves from the Carnaval of the lower classes. Botelho was often hired by these societies, and so the images he offered in his films were typically intended to highlight their cars and members. Therefore, what we see is not the party in its plurality, but only the organized revelry of Fenianos and Democráticos in their float parades, in their children's balls, and in the public ostentation of private cars, often rented, that paraded in the corso of Avenida Rio Branco. Advertisements in the press (see Figure 1) displayed costumes and party toys for the occasion. We see in these shots local people selling drinks to the occupants of the cars.

Figure 1: Advertisement for costumes for the corso in Fon-Fon magazine (February 14, 1920, page 5).

Botelho's work as a cinematographer on commissioned Carnaval films seems to have begun when he was hired by the Serrador Company to shoot O Carnaval do Rio in 1911. The film has since disappeared, but information in the film's file at the Cinemateca Brasileira3 indicates that the images featured costumed children and a Club dos Fenianos outing. In 1913 Botelho again filmed the corso on Avenida Rio Branco and some cars from the Clube dos Democráticos, and the following year he produced images of the corso on Avenida Paulista, where the São Paulo elite lived. There is, therefore, in the 1920 film, a repetition of the same subjects and financiers as in his earlier films about Carnaval.

It should be noted that these films were shown in the central region of Rio, which had been reformed in the first decade of the century by the mayor Pereira Passos to expel the old tenements and working-class housing and replace them with wide avenues where new cinemas were built, next to symbols of modernity such as the Municipal Theater and the National Library. A sanitized image of Carnaval was therefore demanded by the press, the elite, and the public authorities to be shown in these new elegant cinemas (Morettin, 2005: 136). According to Bruno Carvalho, with these urban changes the city's Carnaval “split along socio-geographical lines”. On one side there were the private corsos and masquerade balls, which took place in elegant, closed venues, and the parades of the Grandes Sociedades, which were shown in the movies. On the other side, there was the effervescence invisible to the cinema, the lively and anarchic parties of the lower classes, “spontaneous and authentic expressions of the African populations of Brazil” that were concentrated around Praça Onze (2019: 202). According to Carvalho, it won't be until 1932, after the ascension of President Getúlio Vargas and his defense of samba and miscegenation as one of the elements for the construction of a national identity that the era of the escolas de samba (parades of Carnaval associations from cordões and ranchos) would begin. The newly created newspaper O Mundo Sportivo, headed by journalist Mário Filho, created “the hitherto sporadic practice of treating Carnaval parades as competitions”. Pedro Ernesto, mayor of Rio de Janeiro appointed by Vargas in September 1931, supported the schools, making the parades official and giving them guaranteed financial aid (Carvalho, 2019: 211). Thus, it is important that we understand the forms of Carnaval that were intended to be left out of cinematic images in the 1920s.

As Maria Clementina Cunha explains in her detailed historical study of Rio de Janeiro's carnaval between 1880 and 1920 (2001), entrudo was, for the population of Rio de Janeiro in the 19th century, synonymous with carnaval, a practice that had come from Portugal that, over three days of revelry, featured games for everyone - young and old, slaves and masters, women and men:

(...) It was the custom of getting each other wet and dirty with lemons or wax oranges filled with scented water, using syringes, troughs, tubes and even bathtubs - any container that could hold water to be thrown. It also included, in certain situations, the use of powder, “vermelhão”,4 paints, flours, eggs and even mud, tar and fetid liquids, among them urine and "sewage" (Cunha, 2001: 54).

In the private space, the masters practiced a kind of domestic entrudo, and often the residents of houses on opposite sides of the street would shoot at each other, using smelly lemons that they would take from troughs held by slaves. In the street, these slaves participated more actively in the games. In the 1880s behaviors associated with entrudo began to be widely condemned by the Rio de Janeiro press, the police, and the Sociedades Carnavalescas, and the crudeness of entrudo was considered to be damaging to the reputation of Carnaval by the end of the century.

Rio de Janeiro's Carnaval also encompassed other popular practices. The cucumbis, for example, were parades of black people who, in the last years of the 19th century, dramatized in African languages the story of a black prince who dies after being attacked by a tribe dressed in feathers. At the end of the dramatization, the black prince is resurrected by a sorcerer and his return is celebrated. The Native Brazilian costumes of the parade had many feathers and necklaces of teeth, while the African court came with their drums and brought live or stuffed animals, such as snakes, turtles, lizards and others. Cunha explains that these parades, although criticized, were tolerated for their humble, primitive and even “picturesque” appearance. But after the abolition of slavery in 1888, these cucumbis began to be removed from what was considered the authentic Carnaval, a celebration without the portrayal of so much racial, social and cultural inequality. The cucumbis were labeled as “gangs of unruly blacks” disguised as Native Brazilians, and were literally banned from Carnaval celebrations.

Another form of popular practice during Carnaval were the noisy zé-pereiras, who invariably appeared and mingled with the larger crowds. These were parades created in the tenements, in which blacks, poor whites, prostitutes, manual laborers, and unemployed people paraded, ridiculing the upper classes by wearing ragged clothes inside out, beating tin drums, and displaying a banner made of cheap material. This modality was created in 1852 in Rio de Janeiro by a Portuguese shoemaker who felt nostalgia for the entrudo of his homeland (Cunha, 2001: 45-48).

Other important forms of popular Carnaval were cordões and ranchos, whose members came from the hills and distant neighborhoods. These celebrations were also considered crude and old-fashioned by the Sociedades Carnavalescas, but over the course of time they multiplied and managed to negotiate their survival in the face of the disciplinary project of Carnaval promoted by the Sociedades Carnavalescas and part of the press, which was losing strength in the early twentieth century. Many of these small popular Sociedades Carnavalescas requested public licenses to be able to go out during the Carnaval and visited the editorial offices of newspapers to acquire visibility.

There were important differences between cordões and ranchos. Cunha explains that while the cordões walked on foot, the ranchos rode allegorical floats on carts. The cordões' emphasis was on heavy percussion and singing in which “one or two dancers dressed as Indians sang the copla, and the choir repeated the chorus in unison”, sometimes accompanied only by cavaquinho and guitar. They sang a song with their strong drums and snares. The ranchos, on the other hand, sang in harmony with light percussion, strings, and wind instruments. The ranchos paraded with a predefined theme and had singing masters, who conducted a large presence of women, the pastoras. The larger societies were suspicious of these groups and did not differentiate between them, considering them all too numerous and threatening in their overt precariousness (2001: 152). However, in the first decade of the twentieth century a division was established: the ranchos began to be valued by the press for their poetic, musical, and organizational qualities, while the cordões received negative judgments that condemned their appearance of violence, miseducation, and marginality.

Returning to O que foi o Carnaval de 1920, we can now explore the origins of the Democráticos and Fenianos. Their members were immigrants and merchants who founded clubs to have familiar spaces to socialize and enjoy their Carnaval, and also, crucially, to be valued by the local elite. They housed reading rooms, lectures, games, and promoted balls and Carnaval parades, in addition to producing their own newspapers, which were distributed to the public during the parades. The Club dos Democráticos was created on August 16, 1866, when a group of bohemian merchants chose as their senior partner the Portuguese José Alves da Silva, who contributed most of the money to the club’s activities. This club accepted small employees and various bohemians. The Club dos Fenianos, founded in 1869, adopted its name from the Irish rebellion against the English Kingdom. Cunha explains that the founding of the club took place at a meeting on Rua da Assembleia, at the residence of Mr. Chuck, "a disgusted British subject of Irish nationality, who imported and sold costume jewelry, with an establishment in Rio de Janeiro”. His presence may explain the name adopted by the society, which included on its board many immigrants, mainly Italians and Spaniards (2001: 110-111).

There is a whole complex history of relationships between Carnaval associations and the press, seen as a source of legitimization and publicity at a time when radio did not yet exist in Brazil. Representatives of cordões and ranchos visited the editorial offices of newspapers bringing their banners and part of the bands to be featured and commented on in their articles about the Carnaval. Illustrated magazines would write about what was to come before each Carnaval. In the case of O que foi o Carnaval de 1920, the close relationship between the societies and the press can be seen in the issue of the Fon-Fon magazine of February 21, 1920, published soon after the festivities. There is a clear connection between the angles of the filming of each car of the Fenianos and Democráticos parades and the photos of that same parade published in the magazine. While the film has few intertitles and doesn't say much about each car that is shown, the magazine shows photos of almost all the cars, explaining in the captions the theme and meaning of each one (see Figures 2.,3., 4., and 5.), which helps us better understand Botelho’s shots.

Figure 2: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 24.
Figure 3: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 25.
Figure 4: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 26.
Figure 5: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 27.

It is likely that the available viewing copy of O que foi o Carnaval de 1920 has lost, in addition to some intertitles, some scenes as well. Although at one point an intertitle announces images of the "three beloved societies: Tenentes! Fenianos! And Democráticos!", you do not see any images of the Tenentes' parade. Another possibility is that the Tenentes were not part of those who commissioned the film.

With the help of Fon-Fon magazine we can better understand the allegorical and critique cars that are featured in the parade. In the promenade of the Fenianos the following appears in succession after the riders of the front committee: lead float Festa do Jubileu no Olimpo (winner of the Sudan cup that was awarded to the best float), float of criticism A mão, Beef float, Rapto de Psiché, float Pra cima de moá criticizing the price of coffee and with two men dramatizing a comic scene, float O obelisco de Luxor, Lohengrin float, Pela Moral float criticizing the "almofadinhas" and "melindrosas",5 showing white men dressed as women, float Cruzeiro do Sul, an unidentified float where some members appear in performance, and float A cadeirinha de 1820. The floats are filmed here at an angle very similar to the magazine's photos, parked before the parade begins. The Democráticos' cars are shown in the following shots, in which we see: the leading float Águia Excelsa, the float Regresso Primaveril, the float O Auri-Verde Pendão, the float Execução da Paz, the float Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repeating a subject of the Fenianos and which probably refers to a popular debate of the time), the Reino dos Ratos critique float (which won the Phenix Cup for best critique), the Fecho do Amor float, and lastly the critique car Por um óculo. Finally three Fenianos' floats that we have already seen parked reappear. They now enter Rio Branco Avenue, and there is noticeable effort by the cameraman to isolate these floats from the view of the public.

Even if they look precarious, films like O que foi o Carnaval de 1920 clearly reflect the spirit of their time. Within the classic description made by Paulo Emílio Salles Gomes about the "themes" of silent Brazilian documentaries, which he divided between "rituals of power" and "splendid cradle", it is possible to say that the images of this carnaval film are curiously close to the "rituals of power" films, which showed public events where the movement of elites and authorities is observed. The Carnaval appears here in a complicated manner because it displays images of an old and widespread celebration in the country, however only showing its most elitist aspects.

1. Cariocas are citizens of Rio de Janeiro

2. In a Carnaval context, a Peirrot is someone dressed as a clown.

3. Information provided by newspaper articles collected by Jean-Claude Bernardet in Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

4. Pulverized mercury sulfate

5. Pejorative terms to refer to young modern men and women of the time, their fashion and attitude.

REFERENCES

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

PT/ENG
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15/4/2022
By/Por:
Flávia Cesarino Costa

Ao assistir O que foi o Carnaval de 1920, filme documentário silencioso filmado por Alberto Botelho no Rio de Janeiro, a primeira reação é de perplexidade. A alegria normalmente associada ao povo que celebra a festa nas ruas parece estranhamente ausente. O filme possui três partes. Na primeira, vemos cenas do corso, um desfile de automóveis dos cariocas ricos, guiados por motoristas uniformizados e ocupados por homens fantasiados que encaram seguidamente a câmera e posam para ela. Por mulheres um pouco tímidas que, ao contrário dos homens, não estão fantasiadas com roupas do sexo oposto. Chama a atenção a branquitude dos ocupantes e um certo ar de superioridade. Em seguida, vários planos tomados num baile de Carnaval infantil, mostram crianças fantasiadas posando ou dançando para a câmera, algumas bastante sérias e outras com cara assustada e à beira do choro, todas muito desconfortáveis e obedecendo às ordens de gente fora de campo. A mais desinibida das crianças, a menina Hilda, que um letreiro descreve como “pequena Feniana”, aparece em planos próximos ladeada por dois pequenos pierrots, e ficamos sabendo que ela ganhou algum prêmio. Na terceira parte, um letreiro anuncia o desfile das Sociedades Carnavalescas dos Tenentes, Fenianos e Democráticos. Diferentes carros alegóricos e seus ocupantes são filmados, primeiro esperando para entrar no desfile, depois avançando pelas ruas do centro da cidade.

Quem são estes cariocas elegantes que ostentam seus carros no corso? O que são estes imensos carros alegóricos? Por que os rostos populares irrompem apenas na borda dos quadros e não vemos a multidão que se divertia no Carnaval? Para responder a estas perguntas buscaremos alguns detalhes sobre o trabalho de Botelho no contexto do cinema brasileiro da época e comentaremos as transformações sofridas pelo Carnaval carioca desde a criação das Sociedades Carnavalescas no século XIX.

Alberto Botelho foi um produtivo cinegrafista nas primeiras décadas do século 20, quando filmou diversos “filmes cantantes” para a empresa de Francisco Serrador, além de inúmeras vistas documentais produzidas no esquema de “cavação”: filmes de encomenda que documentavam diversas atividades políticas, culturais ou esportivas das elites e de autoridades. Botelho filmou uma infinidade de festas, corridas de carro e motocicleta, inaugurações, eventos cívicos, excursões pitorescas e jogos de futebol. Em 1911, foi contratado por Serrador para registrar nos prados da Moóca, em São Paulo, os vôos do aviador Ruggerone, noivo da filha do empresário têxtil Rodolfo Crespi, que encomendou os filmes, e em 1914, documentou a chegada de Santos Dumont ao Rio de Janeiro. Botelho filmou os cinejornais da Pathé Jornal no Brasil durante mais de uma década e também participou de ficções: em 1912 produziu e filmou no Rio de Janeiro uma reconstituição do famoso “crime dos 400 contos”, em 1918 fotografou duas produções de Luiz de Barros, e em 1920 fez a fotografia de uma das inúmeras versões de O guarani, esta dirigida por João de Deus.

No século XIX o Carnaval carioca, seja em suas versões mais domésticas, seja em suas manifestações de rua, estruturou-se como uma diversão plural e não controlada, de origem cultural múltipla, da qual todos participavam. Mas desde sua fundação, nos anos 1860, as Sociedades Carnavalescas se juntaram àqueles que há tempos vinham lutando por um maior controle público sobre o Carnaval, que eliminasse a anarquia das comemorações e os “perigos” das versões mais populares da festa, como o entrudo, os zé-pereiras, os cucumbis, os cordões e os ranchos – formas que descreveremos mais à frente. As sociedades carnavalescas queriam oferecer-se como uma leitura da festa que recuperasse as características europeias do evento e suas origens “venezianas” e eliminasse assim a confusão selvagem de batuques e multidões populares. Estas sociedades instituíram para seus desfiles dois tipos de carros alegóricos, os de “crítica” à situação do momento, e os carros de “alegorias” ou “ideias”, que produziam com intenção de reforçar a impressão de luxo e as referências a elementos da cultura clássica, para se diferenciar do carnaval das classes baixas. Botelho era seguidamente contratado por estas sociedades, de maneira que as imagens que ele oferecia em seus filmes estavam sempre dentro destas diretrizes: dar destaque para seus carros e foliões. Assim, o que se vê não é a festa em sua pluralidade, mas apenas a folia organizada de Fenianos e Democráticos em seus desfiles de carros alegóricos, nos bailes infantis de suas crianças e na ostentação pública de carros particulares, muitas vezes alugados, que desfilavam no corso da Avenida Rio Branco. Anúncios na imprensa (ver Figura 1.) ofereciam fantasias e brinquedos para festas para a ocasião. Vemos nestes planos alguns populares vendendo bebidas aos ocupantes dos automóveis.

Figura 1: Anúncio de fantasias para o corso na revista Fon-Fon (14 de fevereiro de 1920, página 5).

A atividade de Botelho como fotógrafo nos filmes de Carnaval por encomenda parece ter se iniciado quando foi contratado pela Empresa Serrador para filmar O Carnaval do Rio em 1911. O filme desapareceu, mas informações na ficha do filme existente na Cinemateca Brasileira1 indicam que as imagens exibiam crianças fantasiadas e a saída do Clube dos Fenianos. Em 1913 Botelho filmou novamente o corso na Avenida Rio Branco e alguns carros do Clube dos Democráticos, e no ano seguinte produziu imagens do corso na Avenida Paulista, onde morava a elite de São Paulo. Há, portanto, no filme de 1920, que sobreviveu para nosso olhar, uma repetição dos mesmos assuntos e financiadores dos filmes anteriores sobre o Carnaval.

Há que notar que estes filmes eram exibidos na região central do Rio, que tinha sido reformada na primeira década do século pelo prefeito Pereira Passos para expulsar os antigos cortiços e moradias populares e substituí-los por largas avenidas onde se construiu novas salas de exibição, junto a símbolos de modernidade como o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional. Uma imagem higienizada do Carnaval era, portanto, exigida pela imprensa, pela elite e pelos poderes públicos (Morettin, 2005: 136) para ser exibida nesses cinemas elegantes da região. Segundo Bruno Carvalho, com estas alterações urbanas o Carnaval da cidade “se dividiu ao longo de linhas socio-geográficas”: havia de um lado os corsos e os bailes de máscaras particulares, que aconteciam em elegantes locais fechados e os desfiles das Grandes Sociedades, que eram mostrados nos filmes. E de outro lado havia a efervescência invisível ao cinema, das animadas e anárquicas festas das classes baixas, “expressões espontâneas e autênticas das populações africanas do Brasil” que se concentravam nas cercanias da Praça Onze (2019: 202). Segundo Carvalho, será apenas em 1932, após a ascensão do presidente Getúlio Vargas e sua defesa do samba e da miscigenação como um dos elementos de construção de uma identidade nacional, uma musicalidade e uma filmografia que representasse o país, que se iniciará a era das chamadas escolas de samba (desfiles de agremiações carnavalescas oriundas dos cordões e dos ranchos), quando o recém criado jornal O Mundo Sportivo, dirigido pelo jornalista Mário Filho, criou “a prática até então esporádica de tratar os desfiles de carnaval como competições”. Pedro Ernesto, prefeito do Rio de Janeiro nomeado por Vargas em setembro de 1931 apoiou as escolas, tornando os desfiles oficiais e dando-lhes a garantia de ajuda financeira (Carvalho, 2019: 211). Assim, é importante entendermos o que eram as formas deste Carnaval que se pretendeu deixar de fora das imagens cinematográficas na década de 1920.

Como explica Maria Clementina Cunha em seu detalhado estudo histórico do carnaval carioca entre 1880 e 1920 (2001), o entrudo era, para a população do Rio de Janeiro no século XIX, sinônimo de carnaval, uma prática vinda de Portugal que liberava, nos três dias de folia, brincadeiras permitidas a todos: jovens e velhos, escravos e senhores, mulheres e homens:

(...) Era o costume de molhar-se e sujar-se uns aos outros com limões ou laranjinhas de cera recheadas com água perfumada, com recurso a seringas, gamelas, bisnagas e até banheiras – todo e qualquer recipiente que pudesse comportar água a ser arremessada. Incluía também, em determinadas situações, o uso de polvilho, “vermelhão”, tintas, farinhas, ovos e mesmo lama, piche e líquidos fétidos, entre os quais urina e “águas-servidas” (Cunha, 2001: 54).

No espaço privado, os senhores praticavam um entrudo doméstico, e muitas vezes os moradores de casas em lados opostos da rua alvejavam-se mutuamente, usando limões de cheiro que iam retirando de gamelas sustentadas por escravos. Na rua, estes escravos participavam mais ativamente das brincadeiras. Na década de 1880 estes comportamentos passam a ser largamente condenados pela imprensa do Rio de Janeiro, pela polícia e pelas Sociedades Carnavalescas, e os folguedos meio rudes do entrudo chegam ao final do século como algo considerado o oposto de Carnaval, associado por muitos, inclusive, à própria monarquia, já que o imperador Pedro II adorava brincar o entrudo em seu palácio.

O Carnaval do Rio de Janeiro englobava também outras práticas populares. Os cucumbis, por exemplo, eram desfiles de negros que nos últimos anos do século XIX dramatizavam em línguas da África o drama de um príncipe negro que morre aos ser atacado por uma tribo que se veste de penas, mas é ressucitado por um feiticeiro e se festeja sua volta. As fantasias de índios traziam muitas plumas e colares de dentes, enquanto a corte africana vinha com seus tambores e trazia animais vivos ou empalhados, tais como cobras, tartarugas, lagartos e outros. Cunha explica que estes desfiles, apesar de criticados, eram tolerados por sua aparência humilde, primitiva e até “pitoresca”. Mas após a abolição em 1888 estes cucumbis passaram a ser afastados do que se considerava o autêntico Carnaval, que não deveria incluir tanta desigualdade racial, social e cultural. Tachados de “bandos de negros desordeiros”, fantasiados de índios, eles foram literalmente explsos dessas festas.

Outra forma de Carnaval eram os barulhentos zé-pereiras, que invariavelmente apareciam e se misturavam às multidões. Eram desfiles criados nos cortiços, nos quais desfilavam por negros, brancos pobres, prostitutas, trabalhadores braçais e desocupados que ridicularizavam as classes altas vestindo roupas esfarrapadas do avesso, batendo tambores de lata e exibindo sempre um estandarte feito com material barato. Esta modalidade foi criada em 1852 no Rio de Janeiro por um sapateiro português que sentia saudades do entrudo da sua terra (Cunha, 2001: 45-48).

Outras importantes formas de Carnaval popular eram os cordões e os ranchos, cujos integrantes vinham dos morros ou dos bairros afastados, e também eram considerados grosseiros e antiquados pelas sociedades carnavalescas, mas que no curso da história se multiplicaram e conseguiram negociar sua sobrevivência diante do projeto disciplinador do Carnaval promovido pelas Sociedades Carnavalescas e parte da imprensa, que perdia força no início do século XX. Muitas dessas pequenas sociedades carnavalescas populares requisitavam licenças públicas para poder sair no carnaval e visitavam as redações dos jornais para adquirirem visibilidade.

Havia diferenças importantes entre os cordões e os ranchos. Cunha explica que enquanto os integrantes dos cordões caminhavam a pé, os ranchos usavam alegorias montadas sobre carroças. O forte dos cordões era uma pesada percussão e um canto no qual “um ou dois dançarinos vestidos de índios entoavam a copla, e o coro em uníssono repetia o estribilho”, por vezes acompanhados apenas de cavaquinho e violão. Cantavam uma cantiga com seus fortes bumbos e tambores. Já os ranchos exibiam um canto harmonizado com percussão leve e com instrumentos que incluíam cordas e sopros. Os ranchos desfilavam com enredo fixo e tinham mestres de canto, que conduziam uma numerosa presença de mulheres, as pastoras. As grandes sociedades suspeitavam desses grupos e não os diferenciavam, considerando todos demasiadamente numerosos e bastante ameaçadores em sua precariedade explícita (2001: 152). Entretanto, na primeira década do século XX estabeleceu-se uma divisão: os ranchos começaram a ser valorizados pela imprensa devido às suas qualidades poéticas, musicais e de organização, enquanto os cordões recebiam juízos negativos que condenavam a sua aparência de violência, deseducação e marginalidade.

De volta às imagens de O que foi o Carnaval de 1920, podemos agora nos indagar sobre as origens de Democráticos e Fenianos. Seus integrantes eram imigrantes e comerciantes que fundaram estes clubes para terem espaços familiares para socializar e brincar seu carnaval, e aproveitando também, o que era fundamental, para serem também valorizados pela elite local. Abrigavam salas de leitura, palestras, jogos e promoviam bailes e desfiles de Carnaval, além de produzir seus próprios jornais, que eram distribuídos ao público durante os desfiles. O Club dos Democráticos nasceu em 16 de agosto de 1866, quando um grupo de comerciantes boêmios escolheu como sócio principal o português José Alves da Silva, que entrou com a maior parte do dinheiro. A agremiação aceitava pequenos empregados e boêmios variados. Já o Club dos Fenianos, fundado em 1869, adotou este nome porque seus fundadores tomaram como referência a rebelião dos irlandeses contra o Reino Inglês. Cunha explica que a fundação do clube aconteceu em reunião na Rua da Assembleia, na residência de Mr. Chuck, “um desgostoso súdito britânico de nacionalidade irlandesa, que importava e comercializava bijuterias, com estabelecimento no Rio de Janeiro”. Sua presença talvez explique o nome adotado pela sociedade, que incluía em sua diretoria muitos imigrantes, principalmente italianos e espanhóis (2001: 110-111).

Há toda uma complexa história de relacionamento entre as agremiações carnavalescas e a imprensa, tida como fonte de legitimação e publicização, num momento em que o rádio ainda não existia no Brasil. Representantes dos cordões e ranchos visitavam as redações dos jornais trazendo seus estandartes e parte das bandas, para receberem destaque e comentários em suas matérias sobre o carnaval. Revistas ilustradas comentavam o que estava por vir antes de cada Carnaval. No caso de O que foi o Carnaval de 1920 a estreita relação entre Sociedades e a imprensa pode ser constatada na edição da revista Fon-Fon de 21 de fevereiro de 1920, publicada logo após as festividades. Há uma clara coincidência entre os ângulos das filmagens de cada carro dos desfiles de Fenianos e Democráticos e as fotos desse mesmo desfile publicadas na revista. Enquanto o filme possui poucos letreiros e não informa muito sobre cada carro que é mostrado, a revista exibe fotos de quase todos os carros, explicando nas legendas o tema e o sentido de cada um (ver Figuras 2.,3., 4., e 5.), o que nos ajudou a melhor entender estas filmagens.

Figura 2: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 24.
Figura 3: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 25.
Figura 4: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 26.
Figura 5: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 27.

É provável que a cópia em questão tenha perdido, além de alguns letreiros, também algumas cenas. Embora a certa altura um letreiro anuncie imagens das “trez sociedades queridas: Tenentes! Fenianos! E Democráticos!”, não se verá nenhuma imagem do desfile dos Tenentes. Outra possibilidade é a de que os Tenentes não tenham sido parte dos que encomendaram o filme.

Com a ajuda da Fon-Fon podemos entender melhor os carros de crítica e de alegorias que desfilam. No préstito dos Fenianos aparece a seguinte sucessão após os cavaleiros da comissão de frente: carro-chefe Festa do Jubileu no Olimpo (vencedor da taça Sudan conferida à melhor alegoria), carro de crítica A mão, carro do Beef, carro alegórico Rapto de Psiché, carro Pra cima de moá de crítica ao preço do café e com dois homens dramatizando uma cena cômica, carro alegórico O obelisco de Luxor, carro alegórico Lohengrin, carro Pela Moral de crítica aos almofadinhas e melindrosas exibindo homens brancos fantasiados de mulher, carro alegórico Cruzeiro do Sul, carro não identificado onde alguns sócios aparecem em performance, e carro alegórico A cadeirinha de 1820. Os carros são aqui filmados sob ângulo muito parecido às fotos da revista, estacionados antes de começar o desfile. Os carros dos Democráticos são mostrados nos planos seguintes, em que vemos: o carro-chefe Águia Excelsa, o carro alegórico Regresso Primaveril, o carro alegórico O Auri-Verde Pendão, o carro de crítica Execução da Paz, o carro de crítica Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repetindo um assunto dos fenianos e que deve refletir uma discussão da época), o carro de crítica Reino dos Ratos (que obteve a taça Phenix para a melhor crítica), o carro alegórico Fecho do Amor e por último o carro de crítica Por um óculo. Por último reaparecem três carros dos Fenianos que já vimos estacionados, mas agora entrando na Avenida Rio Branco, com visível esforço do cinegrafista em isolar os carros da visão do público presente.

Ainda que tenham aparência precária, filmes como este refletem o espírito de seu tempo com clareza. Dentro da clássica descrição feita por Paulo Emílio Salles Gomes sobre os “assuntos” dos documentários silenciosos brasileiros, que ele dividia entre “rituais do poder” e “berço esplêndido”, é possível dizer que as imagens desse filme de carnaval aproximam-se curiosamente dos filmes de “ritual do poder”, que exibiam eventos públicos onde se observa a movimentação das elites e de autoridades. O carnaval aparece aqui de maneira complexa, porque exibe imagens de uma festa antiga e generalizada no país, mas mostrando apenas sua faceta mais elitista.

1. Informação fornecida por matéria de jornal coletada por Jean-Claude Bernardet em Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

REFERÊNCIAS

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

Ao assistir O que foi o Carnaval de 1920, filme documentário silencioso filmado por Alberto Botelho no Rio de Janeiro, a primeira reação é de perplexidade. A alegria normalmente associada ao povo que celebra a festa nas ruas parece estranhamente ausente. O filme possui três partes. Na primeira, vemos cenas do corso, um desfile de automóveis dos cariocas ricos, guiados por motoristas uniformizados e ocupados por homens fantasiados que encaram seguidamente a câmera e posam para ela. Por mulheres um pouco tímidas que, ao contrário dos homens, não estão fantasiadas com roupas do sexo oposto. Chama a atenção a branquitude dos ocupantes e um certo ar de superioridade. Em seguida, vários planos tomados num baile de Carnaval infantil, mostram crianças fantasiadas posando ou dançando para a câmera, algumas bastante sérias e outras com cara assustada e à beira do choro, todas muito desconfortáveis e obedecendo às ordens de gente fora de campo. A mais desinibida das crianças, a menina Hilda, que um letreiro descreve como “pequena Feniana”, aparece em planos próximos ladeada por dois pequenos pierrots, e ficamos sabendo que ela ganhou algum prêmio. Na terceira parte, um letreiro anuncia o desfile das Sociedades Carnavalescas dos Tenentes, Fenianos e Democráticos. Diferentes carros alegóricos e seus ocupantes são filmados, primeiro esperando para entrar no desfile, depois avançando pelas ruas do centro da cidade.

Quem são estes cariocas elegantes que ostentam seus carros no corso? O que são estes imensos carros alegóricos? Por que os rostos populares irrompem apenas na borda dos quadros e não vemos a multidão que se divertia no Carnaval? Para responder a estas perguntas buscaremos alguns detalhes sobre o trabalho de Botelho no contexto do cinema brasileiro da época e comentaremos as transformações sofridas pelo Carnaval carioca desde a criação das Sociedades Carnavalescas no século XIX.

Alberto Botelho foi um produtivo cinegrafista nas primeiras décadas do século 20, quando filmou diversos “filmes cantantes” para a empresa de Francisco Serrador, além de inúmeras vistas documentais produzidas no esquema de “cavação”: filmes de encomenda que documentavam diversas atividades políticas, culturais ou esportivas das elites e de autoridades. Botelho filmou uma infinidade de festas, corridas de carro e motocicleta, inaugurações, eventos cívicos, excursões pitorescas e jogos de futebol. Em 1911, foi contratado por Serrador para registrar nos prados da Moóca, em São Paulo, os vôos do aviador Ruggerone, noivo da filha do empresário têxtil Rodolfo Crespi, que encomendou os filmes, e em 1914, documentou a chegada de Santos Dumont ao Rio de Janeiro. Botelho filmou os cinejornais da Pathé Jornal no Brasil durante mais de uma década e também participou de ficções: em 1912 produziu e filmou no Rio de Janeiro uma reconstituição do famoso “crime dos 400 contos”, em 1918 fotografou duas produções de Luiz de Barros, e em 1920 fez a fotografia de uma das inúmeras versões de O guarani, esta dirigida por João de Deus.

No século XIX o Carnaval carioca, seja em suas versões mais domésticas, seja em suas manifestações de rua, estruturou-se como uma diversão plural e não controlada, de origem cultural múltipla, da qual todos participavam. Mas desde sua fundação, nos anos 1860, as Sociedades Carnavalescas se juntaram àqueles que há tempos vinham lutando por um maior controle público sobre o Carnaval, que eliminasse a anarquia das comemorações e os “perigos” das versões mais populares da festa, como o entrudo, os zé-pereiras, os cucumbis, os cordões e os ranchos – formas que descreveremos mais à frente. As sociedades carnavalescas queriam oferecer-se como uma leitura da festa que recuperasse as características europeias do evento e suas origens “venezianas” e eliminasse assim a confusão selvagem de batuques e multidões populares. Estas sociedades instituíram para seus desfiles dois tipos de carros alegóricos, os de “crítica” à situação do momento, e os carros de “alegorias” ou “ideias”, que produziam com intenção de reforçar a impressão de luxo e as referências a elementos da cultura clássica, para se diferenciar do carnaval das classes baixas. Botelho era seguidamente contratado por estas sociedades, de maneira que as imagens que ele oferecia em seus filmes estavam sempre dentro destas diretrizes: dar destaque para seus carros e foliões. Assim, o que se vê não é a festa em sua pluralidade, mas apenas a folia organizada de Fenianos e Democráticos em seus desfiles de carros alegóricos, nos bailes infantis de suas crianças e na ostentação pública de carros particulares, muitas vezes alugados, que desfilavam no corso da Avenida Rio Branco. Anúncios na imprensa (ver Figura 1.) ofereciam fantasias e brinquedos para festas para a ocasião. Vemos nestes planos alguns populares vendendo bebidas aos ocupantes dos automóveis.

Figura 1: Anúncio de fantasias para o corso na revista Fon-Fon (14 de fevereiro de 1920, página 5).

A atividade de Botelho como fotógrafo nos filmes de Carnaval por encomenda parece ter se iniciado quando foi contratado pela Empresa Serrador para filmar O Carnaval do Rio em 1911. O filme desapareceu, mas informações na ficha do filme existente na Cinemateca Brasileira1 indicam que as imagens exibiam crianças fantasiadas e a saída do Clube dos Fenianos. Em 1913 Botelho filmou novamente o corso na Avenida Rio Branco e alguns carros do Clube dos Democráticos, e no ano seguinte produziu imagens do corso na Avenida Paulista, onde morava a elite de São Paulo. Há, portanto, no filme de 1920, que sobreviveu para nosso olhar, uma repetição dos mesmos assuntos e financiadores dos filmes anteriores sobre o Carnaval.

Há que notar que estes filmes eram exibidos na região central do Rio, que tinha sido reformada na primeira década do século pelo prefeito Pereira Passos para expulsar os antigos cortiços e moradias populares e substituí-los por largas avenidas onde se construiu novas salas de exibição, junto a símbolos de modernidade como o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional. Uma imagem higienizada do Carnaval era, portanto, exigida pela imprensa, pela elite e pelos poderes públicos (Morettin, 2005: 136) para ser exibida nesses cinemas elegantes da região. Segundo Bruno Carvalho, com estas alterações urbanas o Carnaval da cidade “se dividiu ao longo de linhas socio-geográficas”: havia de um lado os corsos e os bailes de máscaras particulares, que aconteciam em elegantes locais fechados e os desfiles das Grandes Sociedades, que eram mostrados nos filmes. E de outro lado havia a efervescência invisível ao cinema, das animadas e anárquicas festas das classes baixas, “expressões espontâneas e autênticas das populações africanas do Brasil” que se concentravam nas cercanias da Praça Onze (2019: 202). Segundo Carvalho, será apenas em 1932, após a ascensão do presidente Getúlio Vargas e sua defesa do samba e da miscigenação como um dos elementos de construção de uma identidade nacional, uma musicalidade e uma filmografia que representasse o país, que se iniciará a era das chamadas escolas de samba (desfiles de agremiações carnavalescas oriundas dos cordões e dos ranchos), quando o recém criado jornal O Mundo Sportivo, dirigido pelo jornalista Mário Filho, criou “a prática até então esporádica de tratar os desfiles de carnaval como competições”. Pedro Ernesto, prefeito do Rio de Janeiro nomeado por Vargas em setembro de 1931 apoiou as escolas, tornando os desfiles oficiais e dando-lhes a garantia de ajuda financeira (Carvalho, 2019: 211). Assim, é importante entendermos o que eram as formas deste Carnaval que se pretendeu deixar de fora das imagens cinematográficas na década de 1920.

Como explica Maria Clementina Cunha em seu detalhado estudo histórico do carnaval carioca entre 1880 e 1920 (2001), o entrudo era, para a população do Rio de Janeiro no século XIX, sinônimo de carnaval, uma prática vinda de Portugal que liberava, nos três dias de folia, brincadeiras permitidas a todos: jovens e velhos, escravos e senhores, mulheres e homens:

(...) Era o costume de molhar-se e sujar-se uns aos outros com limões ou laranjinhas de cera recheadas com água perfumada, com recurso a seringas, gamelas, bisnagas e até banheiras – todo e qualquer recipiente que pudesse comportar água a ser arremessada. Incluía também, em determinadas situações, o uso de polvilho, “vermelhão”, tintas, farinhas, ovos e mesmo lama, piche e líquidos fétidos, entre os quais urina e “águas-servidas” (Cunha, 2001: 54).

No espaço privado, os senhores praticavam um entrudo doméstico, e muitas vezes os moradores de casas em lados opostos da rua alvejavam-se mutuamente, usando limões de cheiro que iam retirando de gamelas sustentadas por escravos. Na rua, estes escravos participavam mais ativamente das brincadeiras. Na década de 1880 estes comportamentos passam a ser largamente condenados pela imprensa do Rio de Janeiro, pela polícia e pelas Sociedades Carnavalescas, e os folguedos meio rudes do entrudo chegam ao final do século como algo considerado o oposto de Carnaval, associado por muitos, inclusive, à própria monarquia, já que o imperador Pedro II adorava brincar o entrudo em seu palácio.

O Carnaval do Rio de Janeiro englobava também outras práticas populares. Os cucumbis, por exemplo, eram desfiles de negros que nos últimos anos do século XIX dramatizavam em línguas da África o drama de um príncipe negro que morre aos ser atacado por uma tribo que se veste de penas, mas é ressucitado por um feiticeiro e se festeja sua volta. As fantasias de índios traziam muitas plumas e colares de dentes, enquanto a corte africana vinha com seus tambores e trazia animais vivos ou empalhados, tais como cobras, tartarugas, lagartos e outros. Cunha explica que estes desfiles, apesar de criticados, eram tolerados por sua aparência humilde, primitiva e até “pitoresca”. Mas após a abolição em 1888 estes cucumbis passaram a ser afastados do que se considerava o autêntico Carnaval, que não deveria incluir tanta desigualdade racial, social e cultural. Tachados de “bandos de negros desordeiros”, fantasiados de índios, eles foram literalmente explsos dessas festas.

Outra forma de Carnaval eram os barulhentos zé-pereiras, que invariavelmente apareciam e se misturavam às multidões. Eram desfiles criados nos cortiços, nos quais desfilavam por negros, brancos pobres, prostitutas, trabalhadores braçais e desocupados que ridicularizavam as classes altas vestindo roupas esfarrapadas do avesso, batendo tambores de lata e exibindo sempre um estandarte feito com material barato. Esta modalidade foi criada em 1852 no Rio de Janeiro por um sapateiro português que sentia saudades do entrudo da sua terra (Cunha, 2001: 45-48).

Outras importantes formas de Carnaval popular eram os cordões e os ranchos, cujos integrantes vinham dos morros ou dos bairros afastados, e também eram considerados grosseiros e antiquados pelas sociedades carnavalescas, mas que no curso da história se multiplicaram e conseguiram negociar sua sobrevivência diante do projeto disciplinador do Carnaval promovido pelas Sociedades Carnavalescas e parte da imprensa, que perdia força no início do século XX. Muitas dessas pequenas sociedades carnavalescas populares requisitavam licenças públicas para poder sair no carnaval e visitavam as redações dos jornais para adquirirem visibilidade.

Havia diferenças importantes entre os cordões e os ranchos. Cunha explica que enquanto os integrantes dos cordões caminhavam a pé, os ranchos usavam alegorias montadas sobre carroças. O forte dos cordões era uma pesada percussão e um canto no qual “um ou dois dançarinos vestidos de índios entoavam a copla, e o coro em uníssono repetia o estribilho”, por vezes acompanhados apenas de cavaquinho e violão. Cantavam uma cantiga com seus fortes bumbos e tambores. Já os ranchos exibiam um canto harmonizado com percussão leve e com instrumentos que incluíam cordas e sopros. Os ranchos desfilavam com enredo fixo e tinham mestres de canto, que conduziam uma numerosa presença de mulheres, as pastoras. As grandes sociedades suspeitavam desses grupos e não os diferenciavam, considerando todos demasiadamente numerosos e bastante ameaçadores em sua precariedade explícita (2001: 152). Entretanto, na primeira década do século XX estabeleceu-se uma divisão: os ranchos começaram a ser valorizados pela imprensa devido às suas qualidades poéticas, musicais e de organização, enquanto os cordões recebiam juízos negativos que condenavam a sua aparência de violência, deseducação e marginalidade.

De volta às imagens de O que foi o Carnaval de 1920, podemos agora nos indagar sobre as origens de Democráticos e Fenianos. Seus integrantes eram imigrantes e comerciantes que fundaram estes clubes para terem espaços familiares para socializar e brincar seu carnaval, e aproveitando também, o que era fundamental, para serem também valorizados pela elite local. Abrigavam salas de leitura, palestras, jogos e promoviam bailes e desfiles de Carnaval, além de produzir seus próprios jornais, que eram distribuídos ao público durante os desfiles. O Club dos Democráticos nasceu em 16 de agosto de 1866, quando um grupo de comerciantes boêmios escolheu como sócio principal o português José Alves da Silva, que entrou com a maior parte do dinheiro. A agremiação aceitava pequenos empregados e boêmios variados. Já o Club dos Fenianos, fundado em 1869, adotou este nome porque seus fundadores tomaram como referência a rebelião dos irlandeses contra o Reino Inglês. Cunha explica que a fundação do clube aconteceu em reunião na Rua da Assembleia, na residência de Mr. Chuck, “um desgostoso súdito britânico de nacionalidade irlandesa, que importava e comercializava bijuterias, com estabelecimento no Rio de Janeiro”. Sua presença talvez explique o nome adotado pela sociedade, que incluía em sua diretoria muitos imigrantes, principalmente italianos e espanhóis (2001: 110-111).

Há toda uma complexa história de relacionamento entre as agremiações carnavalescas e a imprensa, tida como fonte de legitimação e publicização, num momento em que o rádio ainda não existia no Brasil. Representantes dos cordões e ranchos visitavam as redações dos jornais trazendo seus estandartes e parte das bandas, para receberem destaque e comentários em suas matérias sobre o carnaval. Revistas ilustradas comentavam o que estava por vir antes de cada Carnaval. No caso de O que foi o Carnaval de 1920 a estreita relação entre Sociedades e a imprensa pode ser constatada na edição da revista Fon-Fon de 21 de fevereiro de 1920, publicada logo após as festividades. Há uma clara coincidência entre os ângulos das filmagens de cada carro dos desfiles de Fenianos e Democráticos e as fotos desse mesmo desfile publicadas na revista. Enquanto o filme possui poucos letreiros e não informa muito sobre cada carro que é mostrado, a revista exibe fotos de quase todos os carros, explicando nas legendas o tema e o sentido de cada um (ver Figuras 2.,3., 4., e 5.), o que nos ajudou a melhor entender estas filmagens.

Figura 2: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 24.
Figura 3: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 25.
Figura 4: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 26.
Figura 5: Revista Fon-Fon, número 8, 21 de fevereiro de 1920, página 27.

É provável que a cópia em questão tenha perdido, além de alguns letreiros, também algumas cenas. Embora a certa altura um letreiro anuncie imagens das “trez sociedades queridas: Tenentes! Fenianos! E Democráticos!”, não se verá nenhuma imagem do desfile dos Tenentes. Outra possibilidade é a de que os Tenentes não tenham sido parte dos que encomendaram o filme.

Com a ajuda da Fon-Fon podemos entender melhor os carros de crítica e de alegorias que desfilam. No préstito dos Fenianos aparece a seguinte sucessão após os cavaleiros da comissão de frente: carro-chefe Festa do Jubileu no Olimpo (vencedor da taça Sudan conferida à melhor alegoria), carro de crítica A mão, carro do Beef, carro alegórico Rapto de Psiché, carro Pra cima de moá de crítica ao preço do café e com dois homens dramatizando uma cena cômica, carro alegórico O obelisco de Luxor, carro alegórico Lohengrin, carro Pela Moral de crítica aos almofadinhas e melindrosas exibindo homens brancos fantasiados de mulher, carro alegórico Cruzeiro do Sul, carro não identificado onde alguns sócios aparecem em performance, e carro alegórico A cadeirinha de 1820. Os carros são aqui filmados sob ângulo muito parecido às fotos da revista, estacionados antes de começar o desfile. Os carros dos Democráticos são mostrados nos planos seguintes, em que vemos: o carro-chefe Águia Excelsa, o carro alegórico Regresso Primaveril, o carro alegórico O Auri-Verde Pendão, o carro de crítica Execução da Paz, o carro de crítica Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repetindo um assunto dos fenianos e que deve refletir uma discussão da época), o carro de crítica Reino dos Ratos (que obteve a taça Phenix para a melhor crítica), o carro alegórico Fecho do Amor e por último o carro de crítica Por um óculo. Por último reaparecem três carros dos Fenianos que já vimos estacionados, mas agora entrando na Avenida Rio Branco, com visível esforço do cinegrafista em isolar os carros da visão do público presente.

Ainda que tenham aparência precária, filmes como este refletem o espírito de seu tempo com clareza. Dentro da clássica descrição feita por Paulo Emílio Salles Gomes sobre os “assuntos” dos documentários silenciosos brasileiros, que ele dividia entre “rituais do poder” e “berço esplêndido”, é possível dizer que as imagens desse filme de carnaval aproximam-se curiosamente dos filmes de “ritual do poder”, que exibiam eventos públicos onde se observa a movimentação das elites e de autoridades. O carnaval aparece aqui de maneira complexa, porque exibe imagens de uma festa antiga e generalizada no país, mas mostrando apenas sua faceta mais elitista.

1. Informação fornecida por matéria de jornal coletada por Jean-Claude Bernardet em Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

REFERÊNCIAS

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

When watching O que foi o Carnaval de 1920, a silent documentary shot by Alberto Botelho in Rio de Janeiro, our first reaction is puzzlement. The joy normally associated with people celebrating Carnaval in the streets seems strangely absent. The film consists of three parts. In the first, we see scenes of the corso parade with cars of wealthy cariocas,1 driven by uniformed drivers and occupied by costumed men who repeatedly face the camera and pose for it. The whiteness of the passengers and their air of superiority are striking. Next, several shots taken at a children's Carnaval ball show costumed children posing or dancing for the camera, some quite serious and others with frightened faces on the verge of crying. The children all seem very uncomfortable, obeying the orders of the people behind the camera. The most uninhibited of the children, a girl named Hilda whom a title card describes as "little Feniana", appears in close-ups flanked by two small pierrots,2 and we learn that she has won a prize. In the third part of the film, a title card announces the parade of the Sociedades Carnavalescas [Carnival Societies] of the Tenentes [Lieutenants], Fenianos and Democráticos. Different floats and their occupants are filmed, first waiting to enter the parade, then advancing through the downtown streets.

Who are these elegant Cariocas who parade their floats in the corso? What are these huge floats? Why do the residents of Rio de Janeiro’s faces appear only at the edges of the pictures, given that they are the crowd who were mainly participating in the Carnaval? To answer these questions, we will look at some details about Botelho's work in the context of Brazilian cinema history and comment on the transformations that Rio's Carnaval has undergone since the creation of the Sociedades Carnavalescas in the 19th century.

Alberto Botelho was a prolific cameraman in the early decades of the 20th century, when he filmed several “singing films” for Francisco Serrador's company as well as countless documentary films produced in the “cavação” scheme. These were commissioned films that documented various political, cultural, or sporting activities of the elites and authorities. Botelho filmed a multitude of parties, car and motorcycle races, inaugurations, civic events, picturesque excursions, and soccer games. In 1911, he was hired by Serrador to record, in the meadows of Moóca, São Paulo, the flights of the aviator Ruggerone, fiancé of the daughter of textile entrepreneur Rodolfo Crespi, who commissioned the films. In 1914, he documented the arrival of Santos Dumont in Rio de Janeiro. Botelho filmed Pathé Journal's newsreels in Brazil for over a decade, and also participated in the making of fiction films. In 1912, he produced and filmed in Rio de Janeiro a re-enactment of the famous "400 contos crime", in 1918 he photographed two productions by Luiz de Barros, and in 1920 he did the photography for one of the many versions of O Guarani, this one directed by João de Deus.

Rio de Janeiro's 19th century Carnaval celebrations were diverse and uncontrolled events of multiple cultural origins in which the whole city participated. But since their founding in the 1860s, the Sociedades Carnavalescas joined those who had long been fighting for greater public control over Carnaval to eliminate the anarchy of the celebrations and the “dangers” of the more popular versions of the party, such as entrudo, zé-pereiras, cucumbis, cordões, and ranchos - all of which we will elaborate on later. The Sociedades Carnavalescas wanted to offer a version of the festivities that restored their European characteristics and Venetian origins, thus eliminating the wild confusion of drumbeats and mass gatherings. These societies instituted two types of floats for their parades, those of  “critique” that criticized the socio-political situation of that period, and the floats of "allegories'' or "ideas," which were produced with the intention of reinforcing the impression of luxury and references to classical culture. The latter floats were made for the societies to differentiate themselves from the Carnaval of the lower classes. Botelho was often hired by these societies, and so the images he offered in his films were typically intended to highlight their cars and members. Therefore, what we see is not the party in its plurality, but only the organized revelry of Fenianos and Democráticos in their float parades, in their children's balls, and in the public ostentation of private cars, often rented, that paraded in the corso of Avenida Rio Branco. Advertisements in the press (see Figure 1) displayed costumes and party toys for the occasion. We see in these shots local people selling drinks to the occupants of the cars.

Figure 1: Advertisement for costumes for the corso in Fon-Fon magazine (February 14, 1920, page 5).

Botelho's work as a cinematographer on commissioned Carnaval films seems to have begun when he was hired by the Serrador Company to shoot O Carnaval do Rio in 1911. The film has since disappeared, but information in the film's file at the Cinemateca Brasileira3 indicates that the images featured costumed children and a Club dos Fenianos outing. In 1913 Botelho again filmed the corso on Avenida Rio Branco and some cars from the Clube dos Democráticos, and the following year he produced images of the corso on Avenida Paulista, where the São Paulo elite lived. There is, therefore, in the 1920 film, a repetition of the same subjects and financiers as in his earlier films about Carnaval.

It should be noted that these films were shown in the central region of Rio, which had been reformed in the first decade of the century by the mayor Pereira Passos to expel the old tenements and working-class housing and replace them with wide avenues where new cinemas were built, next to symbols of modernity such as the Municipal Theater and the National Library. A sanitized image of Carnaval was therefore demanded by the press, the elite, and the public authorities to be shown in these new elegant cinemas (Morettin, 2005: 136). According to Bruno Carvalho, with these urban changes the city's Carnaval “split along socio-geographical lines”. On one side there were the private corsos and masquerade balls, which took place in elegant, closed venues, and the parades of the Grandes Sociedades, which were shown in the movies. On the other side, there was the effervescence invisible to the cinema, the lively and anarchic parties of the lower classes, “spontaneous and authentic expressions of the African populations of Brazil” that were concentrated around Praça Onze (2019: 202). According to Carvalho, it won't be until 1932, after the ascension of President Getúlio Vargas and his defense of samba and miscegenation as one of the elements for the construction of a national identity that the era of the escolas de samba (parades of Carnaval associations from cordões and ranchos) would begin. The newly created newspaper O Mundo Sportivo, headed by journalist Mário Filho, created “the hitherto sporadic practice of treating Carnaval parades as competitions”. Pedro Ernesto, mayor of Rio de Janeiro appointed by Vargas in September 1931, supported the schools, making the parades official and giving them guaranteed financial aid (Carvalho, 2019: 211). Thus, it is important that we understand the forms of Carnaval that were intended to be left out of cinematic images in the 1920s.

As Maria Clementina Cunha explains in her detailed historical study of Rio de Janeiro's carnaval between 1880 and 1920 (2001), entrudo was, for the population of Rio de Janeiro in the 19th century, synonymous with carnaval, a practice that had come from Portugal that, over three days of revelry, featured games for everyone - young and old, slaves and masters, women and men:

(...) It was the custom of getting each other wet and dirty with lemons or wax oranges filled with scented water, using syringes, troughs, tubes and even bathtubs - any container that could hold water to be thrown. It also included, in certain situations, the use of powder, “vermelhão”,4 paints, flours, eggs and even mud, tar and fetid liquids, among them urine and "sewage" (Cunha, 2001: 54).

In the private space, the masters practiced a kind of domestic entrudo, and often the residents of houses on opposite sides of the street would shoot at each other, using smelly lemons that they would take from troughs held by slaves. In the street, these slaves participated more actively in the games. In the 1880s behaviors associated with entrudo began to be widely condemned by the Rio de Janeiro press, the police, and the Sociedades Carnavalescas, and the crudeness of entrudo was considered to be damaging to the reputation of Carnaval by the end of the century.

Rio de Janeiro's Carnaval also encompassed other popular practices. The cucumbis, for example, were parades of black people who, in the last years of the 19th century, dramatized in African languages the story of a black prince who dies after being attacked by a tribe dressed in feathers. At the end of the dramatization, the black prince is resurrected by a sorcerer and his return is celebrated. The Native Brazilian costumes of the parade had many feathers and necklaces of teeth, while the African court came with their drums and brought live or stuffed animals, such as snakes, turtles, lizards and others. Cunha explains that these parades, although criticized, were tolerated for their humble, primitive and even “picturesque” appearance. But after the abolition of slavery in 1888, these cucumbis began to be removed from what was considered the authentic Carnaval, a celebration without the portrayal of so much racial, social and cultural inequality. The cucumbis were labeled as “gangs of unruly blacks” disguised as Native Brazilians, and were literally banned from Carnaval celebrations.

Another form of popular practice during Carnaval were the noisy zé-pereiras, who invariably appeared and mingled with the larger crowds. These were parades created in the tenements, in which blacks, poor whites, prostitutes, manual laborers, and unemployed people paraded, ridiculing the upper classes by wearing ragged clothes inside out, beating tin drums, and displaying a banner made of cheap material. This modality was created in 1852 in Rio de Janeiro by a Portuguese shoemaker who felt nostalgia for the entrudo of his homeland (Cunha, 2001: 45-48).

Other important forms of popular Carnaval were cordões and ranchos, whose members came from the hills and distant neighborhoods. These celebrations were also considered crude and old-fashioned by the Sociedades Carnavalescas, but over the course of time they multiplied and managed to negotiate their survival in the face of the disciplinary project of Carnaval promoted by the Sociedades Carnavalescas and part of the press, which was losing strength in the early twentieth century. Many of these small popular Sociedades Carnavalescas requested public licenses to be able to go out during the Carnaval and visited the editorial offices of newspapers to acquire visibility.

There were important differences between cordões and ranchos. Cunha explains that while the cordões walked on foot, the ranchos rode allegorical floats on carts. The cordões' emphasis was on heavy percussion and singing in which “one or two dancers dressed as Indians sang the copla, and the choir repeated the chorus in unison”, sometimes accompanied only by cavaquinho and guitar. They sang a song with their strong drums and snares. The ranchos, on the other hand, sang in harmony with light percussion, strings, and wind instruments. The ranchos paraded with a predefined theme and had singing masters, who conducted a large presence of women, the pastoras. The larger societies were suspicious of these groups and did not differentiate between them, considering them all too numerous and threatening in their overt precariousness (2001: 152). However, in the first decade of the twentieth century a division was established: the ranchos began to be valued by the press for their poetic, musical, and organizational qualities, while the cordões received negative judgments that condemned their appearance of violence, miseducation, and marginality.

Returning to O que foi o Carnaval de 1920, we can now explore the origins of the Democráticos and Fenianos. Their members were immigrants and merchants who founded clubs to have familiar spaces to socialize and enjoy their Carnaval, and also, crucially, to be valued by the local elite. They housed reading rooms, lectures, games, and promoted balls and Carnaval parades, in addition to producing their own newspapers, which were distributed to the public during the parades. The Club dos Democráticos was created on August 16, 1866, when a group of bohemian merchants chose as their senior partner the Portuguese José Alves da Silva, who contributed most of the money to the club’s activities. This club accepted small employees and various bohemians. The Club dos Fenianos, founded in 1869, adopted its name from the Irish rebellion against the English Kingdom. Cunha explains that the founding of the club took place at a meeting on Rua da Assembleia, at the residence of Mr. Chuck, "a disgusted British subject of Irish nationality, who imported and sold costume jewelry, with an establishment in Rio de Janeiro”. His presence may explain the name adopted by the society, which included on its board many immigrants, mainly Italians and Spaniards (2001: 110-111).

There is a whole complex history of relationships between Carnaval associations and the press, seen as a source of legitimization and publicity at a time when radio did not yet exist in Brazil. Representatives of cordões and ranchos visited the editorial offices of newspapers bringing their banners and part of the bands to be featured and commented on in their articles about the Carnaval. Illustrated magazines would write about what was to come before each Carnaval. In the case of O que foi o Carnaval de 1920, the close relationship between the societies and the press can be seen in the issue of the Fon-Fon magazine of February 21, 1920, published soon after the festivities. There is a clear connection between the angles of the filming of each car of the Fenianos and Democráticos parades and the photos of that same parade published in the magazine. While the film has few intertitles and doesn't say much about each car that is shown, the magazine shows photos of almost all the cars, explaining in the captions the theme and meaning of each one (see Figures 2.,3., 4., and 5.), which helps us better understand Botelho’s shots.

Figure 2: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 24.
Figure 3: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 25.
Figure 4: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 26.
Figure 5: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 27.

It is likely that the available viewing copy of O que foi o Carnaval de 1920 has lost, in addition to some intertitles, some scenes as well. Although at one point an intertitle announces images of the "three beloved societies: Tenentes! Fenianos! And Democráticos!", you do not see any images of the Tenentes' parade. Another possibility is that the Tenentes were not part of those who commissioned the film.

With the help of Fon-Fon magazine we can better understand the allegorical and critique cars that are featured in the parade. In the promenade of the Fenianos the following appears in succession after the riders of the front committee: lead float Festa do Jubileu no Olimpo (winner of the Sudan cup that was awarded to the best float), float of criticism A mão, Beef float, Rapto de Psiché, float Pra cima de moá criticizing the price of coffee and with two men dramatizing a comic scene, float O obelisco de Luxor, Lohengrin float, Pela Moral float criticizing the "almofadinhas" and "melindrosas",5 showing white men dressed as women, float Cruzeiro do Sul, an unidentified float where some members appear in performance, and float A cadeirinha de 1820. The floats are filmed here at an angle very similar to the magazine's photos, parked before the parade begins. The Democráticos' cars are shown in the following shots, in which we see: the leading float Águia Excelsa, the float Regresso Primaveril, the float O Auri-Verde Pendão, the float Execução da Paz, the float Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repeating a subject of the Fenianos and which probably refers to a popular debate of the time), the Reino dos Ratos critique float (which won the Phenix Cup for best critique), the Fecho do Amor float, and lastly the critique car Por um óculo. Finally three Fenianos' floats that we have already seen parked reappear. They now enter Rio Branco Avenue, and there is noticeable effort by the cameraman to isolate these floats from the view of the public.

Even if they look precarious, films like O que foi o Carnaval de 1920 clearly reflect the spirit of their time. Within the classic description made by Paulo Emílio Salles Gomes about the "themes" of silent Brazilian documentaries, which he divided between "rituals of power" and "splendid cradle", it is possible to say that the images of this carnaval film are curiously close to the "rituals of power" films, which showed public events where the movement of elites and authorities is observed. The Carnaval appears here in a complicated manner because it displays images of an old and widespread celebration in the country, however only showing its most elitist aspects.

1. Cariocas are citizens of Rio de Janeiro

2. In a Carnaval context, a Peirrot is someone dressed as a clown.

3. Information provided by newspaper articles collected by Jean-Claude Bernardet in Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

4. Pulverized mercury sulfate

5. Pejorative terms to refer to young modern men and women of the time, their fashion and attitude.

REFERENCES

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.

When watching O que foi o Carnaval de 1920, a silent documentary shot by Alberto Botelho in Rio de Janeiro, our first reaction is puzzlement. The joy normally associated with people celebrating Carnaval in the streets seems strangely absent. The film consists of three parts. In the first, we see scenes of the corso parade with cars of wealthy cariocas,1 driven by uniformed drivers and occupied by costumed men who repeatedly face the camera and pose for it. The whiteness of the passengers and their air of superiority are striking. Next, several shots taken at a children's Carnaval ball show costumed children posing or dancing for the camera, some quite serious and others with frightened faces on the verge of crying. The children all seem very uncomfortable, obeying the orders of the people behind the camera. The most uninhibited of the children, a girl named Hilda whom a title card describes as "little Feniana", appears in close-ups flanked by two small pierrots,2 and we learn that she has won a prize. In the third part of the film, a title card announces the parade of the Sociedades Carnavalescas [Carnival Societies] of the Tenentes [Lieutenants], Fenianos and Democráticos. Different floats and their occupants are filmed, first waiting to enter the parade, then advancing through the downtown streets.

Who are these elegant Cariocas who parade their floats in the corso? What are these huge floats? Why do the residents of Rio de Janeiro’s faces appear only at the edges of the pictures, given that they are the crowd who were mainly participating in the Carnaval? To answer these questions, we will look at some details about Botelho's work in the context of Brazilian cinema history and comment on the transformations that Rio's Carnaval has undergone since the creation of the Sociedades Carnavalescas in the 19th century.

Alberto Botelho was a prolific cameraman in the early decades of the 20th century, when he filmed several “singing films” for Francisco Serrador's company as well as countless documentary films produced in the “cavação” scheme. These were commissioned films that documented various political, cultural, or sporting activities of the elites and authorities. Botelho filmed a multitude of parties, car and motorcycle races, inaugurations, civic events, picturesque excursions, and soccer games. In 1911, he was hired by Serrador to record, in the meadows of Moóca, São Paulo, the flights of the aviator Ruggerone, fiancé of the daughter of textile entrepreneur Rodolfo Crespi, who commissioned the films. In 1914, he documented the arrival of Santos Dumont in Rio de Janeiro. Botelho filmed Pathé Journal's newsreels in Brazil for over a decade, and also participated in the making of fiction films. In 1912, he produced and filmed in Rio de Janeiro a re-enactment of the famous "400 contos crime", in 1918 he photographed two productions by Luiz de Barros, and in 1920 he did the photography for one of the many versions of O Guarani, this one directed by João de Deus.

Rio de Janeiro's 19th century Carnaval celebrations were diverse and uncontrolled events of multiple cultural origins in which the whole city participated. But since their founding in the 1860s, the Sociedades Carnavalescas joined those who had long been fighting for greater public control over Carnaval to eliminate the anarchy of the celebrations and the “dangers” of the more popular versions of the party, such as entrudo, zé-pereiras, cucumbis, cordões, and ranchos - all of which we will elaborate on later. The Sociedades Carnavalescas wanted to offer a version of the festivities that restored their European characteristics and Venetian origins, thus eliminating the wild confusion of drumbeats and mass gatherings. These societies instituted two types of floats for their parades, those of  “critique” that criticized the socio-political situation of that period, and the floats of "allegories'' or "ideas," which were produced with the intention of reinforcing the impression of luxury and references to classical culture. The latter floats were made for the societies to differentiate themselves from the Carnaval of the lower classes. Botelho was often hired by these societies, and so the images he offered in his films were typically intended to highlight their cars and members. Therefore, what we see is not the party in its plurality, but only the organized revelry of Fenianos and Democráticos in their float parades, in their children's balls, and in the public ostentation of private cars, often rented, that paraded in the corso of Avenida Rio Branco. Advertisements in the press (see Figure 1) displayed costumes and party toys for the occasion. We see in these shots local people selling drinks to the occupants of the cars.

Figure 1: Advertisement for costumes for the corso in Fon-Fon magazine (February 14, 1920, page 5).

Botelho's work as a cinematographer on commissioned Carnaval films seems to have begun when he was hired by the Serrador Company to shoot O Carnaval do Rio in 1911. The film has since disappeared, but information in the film's file at the Cinemateca Brasileira3 indicates that the images featured costumed children and a Club dos Fenianos outing. In 1913 Botelho again filmed the corso on Avenida Rio Branco and some cars from the Clube dos Democráticos, and the following year he produced images of the corso on Avenida Paulista, where the São Paulo elite lived. There is, therefore, in the 1920 film, a repetition of the same subjects and financiers as in his earlier films about Carnaval.

It should be noted that these films were shown in the central region of Rio, which had been reformed in the first decade of the century by the mayor Pereira Passos to expel the old tenements and working-class housing and replace them with wide avenues where new cinemas were built, next to symbols of modernity such as the Municipal Theater and the National Library. A sanitized image of Carnaval was therefore demanded by the press, the elite, and the public authorities to be shown in these new elegant cinemas (Morettin, 2005: 136). According to Bruno Carvalho, with these urban changes the city's Carnaval “split along socio-geographical lines”. On one side there were the private corsos and masquerade balls, which took place in elegant, closed venues, and the parades of the Grandes Sociedades, which were shown in the movies. On the other side, there was the effervescence invisible to the cinema, the lively and anarchic parties of the lower classes, “spontaneous and authentic expressions of the African populations of Brazil” that were concentrated around Praça Onze (2019: 202). According to Carvalho, it won't be until 1932, after the ascension of President Getúlio Vargas and his defense of samba and miscegenation as one of the elements for the construction of a national identity that the era of the escolas de samba (parades of Carnaval associations from cordões and ranchos) would begin. The newly created newspaper O Mundo Sportivo, headed by journalist Mário Filho, created “the hitherto sporadic practice of treating Carnaval parades as competitions”. Pedro Ernesto, mayor of Rio de Janeiro appointed by Vargas in September 1931, supported the schools, making the parades official and giving them guaranteed financial aid (Carvalho, 2019: 211). Thus, it is important that we understand the forms of Carnaval that were intended to be left out of cinematic images in the 1920s.

As Maria Clementina Cunha explains in her detailed historical study of Rio de Janeiro's carnaval between 1880 and 1920 (2001), entrudo was, for the population of Rio de Janeiro in the 19th century, synonymous with carnaval, a practice that had come from Portugal that, over three days of revelry, featured games for everyone - young and old, slaves and masters, women and men:

(...) It was the custom of getting each other wet and dirty with lemons or wax oranges filled with scented water, using syringes, troughs, tubes and even bathtubs - any container that could hold water to be thrown. It also included, in certain situations, the use of powder, “vermelhão”,4 paints, flours, eggs and even mud, tar and fetid liquids, among them urine and "sewage" (Cunha, 2001: 54).

In the private space, the masters practiced a kind of domestic entrudo, and often the residents of houses on opposite sides of the street would shoot at each other, using smelly lemons that they would take from troughs held by slaves. In the street, these slaves participated more actively in the games. In the 1880s behaviors associated with entrudo began to be widely condemned by the Rio de Janeiro press, the police, and the Sociedades Carnavalescas, and the crudeness of entrudo was considered to be damaging to the reputation of Carnaval by the end of the century.

Rio de Janeiro's Carnaval also encompassed other popular practices. The cucumbis, for example, were parades of black people who, in the last years of the 19th century, dramatized in African languages the story of a black prince who dies after being attacked by a tribe dressed in feathers. At the end of the dramatization, the black prince is resurrected by a sorcerer and his return is celebrated. The Native Brazilian costumes of the parade had many feathers and necklaces of teeth, while the African court came with their drums and brought live or stuffed animals, such as snakes, turtles, lizards and others. Cunha explains that these parades, although criticized, were tolerated for their humble, primitive and even “picturesque” appearance. But after the abolition of slavery in 1888, these cucumbis began to be removed from what was considered the authentic Carnaval, a celebration without the portrayal of so much racial, social and cultural inequality. The cucumbis were labeled as “gangs of unruly blacks” disguised as Native Brazilians, and were literally banned from Carnaval celebrations.

Another form of popular practice during Carnaval were the noisy zé-pereiras, who invariably appeared and mingled with the larger crowds. These were parades created in the tenements, in which blacks, poor whites, prostitutes, manual laborers, and unemployed people paraded, ridiculing the upper classes by wearing ragged clothes inside out, beating tin drums, and displaying a banner made of cheap material. This modality was created in 1852 in Rio de Janeiro by a Portuguese shoemaker who felt nostalgia for the entrudo of his homeland (Cunha, 2001: 45-48).

Other important forms of popular Carnaval were cordões and ranchos, whose members came from the hills and distant neighborhoods. These celebrations were also considered crude and old-fashioned by the Sociedades Carnavalescas, but over the course of time they multiplied and managed to negotiate their survival in the face of the disciplinary project of Carnaval promoted by the Sociedades Carnavalescas and part of the press, which was losing strength in the early twentieth century. Many of these small popular Sociedades Carnavalescas requested public licenses to be able to go out during the Carnaval and visited the editorial offices of newspapers to acquire visibility.

There were important differences between cordões and ranchos. Cunha explains that while the cordões walked on foot, the ranchos rode allegorical floats on carts. The cordões' emphasis was on heavy percussion and singing in which “one or two dancers dressed as Indians sang the copla, and the choir repeated the chorus in unison”, sometimes accompanied only by cavaquinho and guitar. They sang a song with their strong drums and snares. The ranchos, on the other hand, sang in harmony with light percussion, strings, and wind instruments. The ranchos paraded with a predefined theme and had singing masters, who conducted a large presence of women, the pastoras. The larger societies were suspicious of these groups and did not differentiate between them, considering them all too numerous and threatening in their overt precariousness (2001: 152). However, in the first decade of the twentieth century a division was established: the ranchos began to be valued by the press for their poetic, musical, and organizational qualities, while the cordões received negative judgments that condemned their appearance of violence, miseducation, and marginality.

Returning to O que foi o Carnaval de 1920, we can now explore the origins of the Democráticos and Fenianos. Their members were immigrants and merchants who founded clubs to have familiar spaces to socialize and enjoy their Carnaval, and also, crucially, to be valued by the local elite. They housed reading rooms, lectures, games, and promoted balls and Carnaval parades, in addition to producing their own newspapers, which were distributed to the public during the parades. The Club dos Democráticos was created on August 16, 1866, when a group of bohemian merchants chose as their senior partner the Portuguese José Alves da Silva, who contributed most of the money to the club’s activities. This club accepted small employees and various bohemians. The Club dos Fenianos, founded in 1869, adopted its name from the Irish rebellion against the English Kingdom. Cunha explains that the founding of the club took place at a meeting on Rua da Assembleia, at the residence of Mr. Chuck, "a disgusted British subject of Irish nationality, who imported and sold costume jewelry, with an establishment in Rio de Janeiro”. His presence may explain the name adopted by the society, which included on its board many immigrants, mainly Italians and Spaniards (2001: 110-111).

There is a whole complex history of relationships between Carnaval associations and the press, seen as a source of legitimization and publicity at a time when radio did not yet exist in Brazil. Representatives of cordões and ranchos visited the editorial offices of newspapers bringing their banners and part of the bands to be featured and commented on in their articles about the Carnaval. Illustrated magazines would write about what was to come before each Carnaval. In the case of O que foi o Carnaval de 1920, the close relationship between the societies and the press can be seen in the issue of the Fon-Fon magazine of February 21, 1920, published soon after the festivities. There is a clear connection between the angles of the filming of each car of the Fenianos and Democráticos parades and the photos of that same parade published in the magazine. While the film has few intertitles and doesn't say much about each car that is shown, the magazine shows photos of almost all the cars, explaining in the captions the theme and meaning of each one (see Figures 2.,3., 4., and 5.), which helps us better understand Botelho’s shots.

Figure 2: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 24.
Figure 3: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 25.
Figure 4: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 26.
Figure 5: Fon-Fon Magazine, issue 8, February 21, 1920, page 27.

It is likely that the available viewing copy of O que foi o Carnaval de 1920 has lost, in addition to some intertitles, some scenes as well. Although at one point an intertitle announces images of the "three beloved societies: Tenentes! Fenianos! And Democráticos!", you do not see any images of the Tenentes' parade. Another possibility is that the Tenentes were not part of those who commissioned the film.

With the help of Fon-Fon magazine we can better understand the allegorical and critique cars that are featured in the parade. In the promenade of the Fenianos the following appears in succession after the riders of the front committee: lead float Festa do Jubileu no Olimpo (winner of the Sudan cup that was awarded to the best float), float of criticism A mão, Beef float, Rapto de Psiché, float Pra cima de moá criticizing the price of coffee and with two men dramatizing a comic scene, float O obelisco de Luxor, Lohengrin float, Pela Moral float criticizing the "almofadinhas" and "melindrosas",5 showing white men dressed as women, float Cruzeiro do Sul, an unidentified float where some members appear in performance, and float A cadeirinha de 1820. The floats are filmed here at an angle very similar to the magazine's photos, parked before the parade begins. The Democráticos' cars are shown in the following shots, in which we see: the leading float Águia Excelsa, the float Regresso Primaveril, the float O Auri-Verde Pendão, the float Execução da Paz, the float Os Dois Pecegos: almofadinhas e melindrosas (repeating a subject of the Fenianos and which probably refers to a popular debate of the time), the Reino dos Ratos critique float (which won the Phenix Cup for best critique), the Fecho do Amor float, and lastly the critique car Por um óculo. Finally three Fenianos' floats that we have already seen parked reappear. They now enter Rio Branco Avenue, and there is noticeable effort by the cameraman to isolate these floats from the view of the public.

Even if they look precarious, films like O que foi o Carnaval de 1920 clearly reflect the spirit of their time. Within the classic description made by Paulo Emílio Salles Gomes about the "themes" of silent Brazilian documentaries, which he divided between "rituals of power" and "splendid cradle", it is possible to say that the images of this carnaval film are curiously close to the "rituals of power" films, which showed public events where the movement of elites and authorities is observed. The Carnaval appears here in a complicated manner because it displays images of an old and widespread celebration in the country, however only showing its most elitist aspects.

1. Cariocas are citizens of Rio de Janeiro

2. In a Carnaval context, a Peirrot is someone dressed as a clown.

3. Information provided by newspaper articles collected by Jean-Claude Bernardet in Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, Comissão Estadual de Cinema, 1979.

4. Pulverized mercury sulfate

5. Pejorative terms to refer to young modern men and women of the time, their fashion and attitude.

REFERENCES

Bernardet, Jean-Claude (1979). Filmografia do Cinema Brasileiro 1900-1935, Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo, Comissão Estadual de Cinema.

Carvalho, Bruno (2019). Cidade Porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. 1ª ed, Rio de Janeiro, Objetiva.

Cunha, Maria Clementina Pereira (2001). Ecos da folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras.

Gomes, Paulo Emílio Salles (1986). A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930). In: C.A. Calil e M.T. Machado (eds.), Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. São Paulo/Rio de Janeiro, Brasiliense/Embrafilme.

Morettin, Eduardo Victorio (2005). Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol.25, número 49, pp.125-152.