PT/ENG
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28/7/2024
By/Por:
Gustavo Menezes

Em 1964, Paulo Gil Soares acabara de ser assistente de direção, cenógrafo, figurinista e co-autor dos diálogos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, quando dirigiu seu primeiro filme: o documentário Memória do Cangaço, que viria a inaugurar a Caravana Farkas. Não por acaso, Memória toma uma postura ativa quanto a seu tema central, evitando tanto a demonização quanto a mistificação do fenômeno do cangaço, e fugindo ao estilo de documentário sociológico de então.

O filme abre com uma ambientação tipicamente nordestina; desde a música dos créditos iniciais às primeiras imagens, de um típico dia de feira na região. O narrador faz um resumo da história do cangaço, citando nomes de cangaceiros famosos e alguns mitos, como a ideia de que “roubavam dos ricos para dar aos pobres”. Partimos então à versão oficial dos fatos, na entrevista com o médico e professor Estácio de Lima. Estamos agora no “templo do saber” – com direito a colunas gregas – da Faculdade de Medicina da Bahia. Apesar da autoridade e do conhecimento anunciados, suas palavras compõem uma explicação tão absurda que beira a comédia involuntária. A origem do cangaço estaria, segundo ele, não apenas nas condições geográficas e na sociedade “primitiva”, mas principalmente na atividade de certas glândulas e no tipo físico esguio do sertanejo. Num documentário comum, o professor seria o narrador do filme – a “voz da razão” em off.  Mas não é o caso. Numa boa sacada da montagem, a explicação se dá enquanto vemos um sertanejo examinando os dentes de um cavalo. É um deboche sutil da lógica lombrosiana defendida pelo especialista.

É quando o narrador – que é o diretor do filme – se interpõe: “estará o professor Estácio de Lima com a razão?” Vamos aos fatos socioeconômicos da região: após uma entrevista com um vaqueiro que, além de magro, atravessou uma vida inteira de precariedade e injustiças (o que, segundo Lima, lhe tornaria propenso a entrar para o cangaço), o narrador nos enumera alguns dados que explicam que “o sertanejo é um homem abandonado à sua própria sorte”: ausência de justiça, analfabetismo, baixos salários… Motivos muito mais razoáveis para a violência em questão do que a teoria pseudocientífica citada pelo professor.

Há outro momento em que o narrador interfere para corrigir informações errôneas dos depoimentos colhidos. É durante a fala de José Rufino, quando este reconta o combate em que matou Corisco. Assim, sem desrespeitar seus entrevistados, o diretor se coloca primeiramente ao lado dos fatos. Não deixa, no entanto, de dar vazão à inventividade, sobretudo quando incorpora versos da poesia popular para apresentar e se despedir de Rufino, para falar de Maria Bonita e para mostrar o lado poeta do próprio Lampião.

Também são notórios os depoimentos de cinco sujeitos da história do cangaço. Além de José Rufino – conhecido matador de cangaceiros –, Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa e Otília Maria de Jesus – os ex-cangaceiros Saracura, Labareda e Otília. Há também uma tentativa de entrevistar Sérgia Ribeiro – a ex-cangaceira Dadá –, que é vista brevemente, enxotando a equipe de sua casa. A todos os ex-cangaceiros são feitas as mesmas perguntas, entre as quais, os motivos que levaram cada um a entrar para o cangaço. Estes envolvem a vingança e a defesa da honra de familiares, no caso dos homens, e no caso das mulheres, o rapto por cangaceiros quando adolescentes, com risco de morte caso se recusassem a ir. Sobre isso, Dadá diz apenas: “Se acompanhei Corisco, é porque eu era mulher dele, obediente a meu marido.” A exceção foi Maria Bonita, que, como o filme mostra, abandonou o marido para acompanhar Lampião. Mais adiante, Rufino diz que era comum que seus homens houvessem se tornado policiais apenas para vingar a morte de parentes na mão dos cangaceiros.

Outro chamariz aqui são os excertos do documentário Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes e Al Ghiu, 1959),1 o primeiro a disponibilizar as filmagens2 feitas por Benjamin Abrahão do bando de Lampião em 1936, que haviam sido confiscadas e não eram exibidas desde 1937. O trabalho resultante, no entanto, é marcado por profunda incompreensão acerca do cangaço, evidenciada pela narração sensacionalista e factualmente incorreta.

Já em Memória, com a participação dessas cinco testemunhas oculares, tem-se um relato honesto e sem rodeios da brutalidade daquela época, tanto por parte dos cangaceiros como dos soldados de polícia. A gravidade é perceptível inclusive pela recusa de Dadá em ser entrevistada. E Benício admite para a câmera que detesta falar daqueles tempos. Rivalidades, tiroteios, cabeças decepadas – sete das quais ainda estavam expostas no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador, à época, e são mostradas bem de perto3 – nenhum assunto é evitado.

Temos ainda um punhado de informações sobre as vestimentas, os hábitos, a alimentação e a organização dos cangaceiros e das volantes. Marcas de ferimentos a bala de ambos os lados, histórias de trocas de tiro, e episódios inusitados, como os reiterados convites que Lampião fez a Rufino para se juntar aos cangaceiros. Rufino se justifica fazendo uma curiosa aproximação entre as duas forças inimigas: “Eu não queria [...] acompanhar cangaceiro, e nem queria ser soldado também.” É como se para ele o problema maior fosse “andar pegado em arma [...], derramando sangue”, independente de estar fora ou dentro da lei.

Embora não seja o primeiro documentário a tratar do cangaço – pois mesmo durante o período de atividade do bando de Lampião há registros de filmes documentais hoje considerados perdidos, como Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) e o semidocumental Lampião, a Fera do Nordeste (1930) –, Memória do Cangaço é possivelmente o primeiro a tratar do tema de forma ativamente crítica, pensante. Por tudo isso, é uma peça incontornável não só aos estudiosos do cangaço, mas também do cinema brasileiro.  

1. Algumas fontes citam que o filme saiu em 1955 ou em "meados dos anos 50". 1959 é o ano de lançamento, de acordo com Frederico Pernambucano de Mello em Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020).

2. Algumas das fotografias de Abrahão já haviam sido publicadas na imprensa desde 1936, mas o material original foi todo confiscado em 1937.

3. As cabeças foram retiradas do instituto e sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969.

Em 1964, Paulo Gil Soares acabara de ser assistente de direção, cenógrafo, figurinista e co-autor dos diálogos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, quando dirigiu seu primeiro filme: o documentário Memória do Cangaço, que viria a inaugurar a Caravana Farkas. Não por acaso, Memória toma uma postura ativa quanto a seu tema central, evitando tanto a demonização quanto a mistificação do fenômeno do cangaço, e fugindo ao estilo de documentário sociológico de então.

O filme abre com uma ambientação tipicamente nordestina; desde a música dos créditos iniciais às primeiras imagens, de um típico dia de feira na região. O narrador faz um resumo da história do cangaço, citando nomes de cangaceiros famosos e alguns mitos, como a ideia de que “roubavam dos ricos para dar aos pobres”. Partimos então à versão oficial dos fatos, na entrevista com o médico e professor Estácio de Lima. Estamos agora no “templo do saber” – com direito a colunas gregas – da Faculdade de Medicina da Bahia. Apesar da autoridade e do conhecimento anunciados, suas palavras compõem uma explicação tão absurda que beira a comédia involuntária. A origem do cangaço estaria, segundo ele, não apenas nas condições geográficas e na sociedade “primitiva”, mas principalmente na atividade de certas glândulas e no tipo físico esguio do sertanejo. Num documentário comum, o professor seria o narrador do filme – a “voz da razão” em off.  Mas não é o caso. Numa boa sacada da montagem, a explicação se dá enquanto vemos um sertanejo examinando os dentes de um cavalo. É um deboche sutil da lógica lombrosiana defendida pelo especialista.

É quando o narrador – que é o diretor do filme – se interpõe: “estará o professor Estácio de Lima com a razão?” Vamos aos fatos socioeconômicos da região: após uma entrevista com um vaqueiro que, além de magro, atravessou uma vida inteira de precariedade e injustiças (o que, segundo Lima, lhe tornaria propenso a entrar para o cangaço), o narrador nos enumera alguns dados que explicam que “o sertanejo é um homem abandonado à sua própria sorte”: ausência de justiça, analfabetismo, baixos salários… Motivos muito mais razoáveis para a violência em questão do que a teoria pseudocientífica citada pelo professor.

Há outro momento em que o narrador interfere para corrigir informações errôneas dos depoimentos colhidos. É durante a fala de José Rufino, quando este reconta o combate em que matou Corisco. Assim, sem desrespeitar seus entrevistados, o diretor se coloca primeiramente ao lado dos fatos. Não deixa, no entanto, de dar vazão à inventividade, sobretudo quando incorpora versos da poesia popular para apresentar e se despedir de Rufino, para falar de Maria Bonita e para mostrar o lado poeta do próprio Lampião.

Também são notórios os depoimentos de cinco sujeitos da história do cangaço. Além de José Rufino – conhecido matador de cangaceiros –, Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa e Otília Maria de Jesus – os ex-cangaceiros Saracura, Labareda e Otília. Há também uma tentativa de entrevistar Sérgia Ribeiro – a ex-cangaceira Dadá –, que é vista brevemente, enxotando a equipe de sua casa. A todos os ex-cangaceiros são feitas as mesmas perguntas, entre as quais, os motivos que levaram cada um a entrar para o cangaço. Estes envolvem a vingança e a defesa da honra de familiares, no caso dos homens, e no caso das mulheres, o rapto por cangaceiros quando adolescentes, com risco de morte caso se recusassem a ir. Sobre isso, Dadá diz apenas: “Se acompanhei Corisco, é porque eu era mulher dele, obediente a meu marido.” A exceção foi Maria Bonita, que, como o filme mostra, abandonou o marido para acompanhar Lampião. Mais adiante, Rufino diz que era comum que seus homens houvessem se tornado policiais apenas para vingar a morte de parentes na mão dos cangaceiros.

Outro chamariz aqui são os excertos do documentário Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes e Al Ghiu, 1959),1 o primeiro a disponibilizar as filmagens2 feitas por Benjamin Abrahão do bando de Lampião em 1936, que haviam sido confiscadas e não eram exibidas desde 1937. O trabalho resultante, no entanto, é marcado por profunda incompreensão acerca do cangaço, evidenciada pela narração sensacionalista e factualmente incorreta.

Já em Memória, com a participação dessas cinco testemunhas oculares, tem-se um relato honesto e sem rodeios da brutalidade daquela época, tanto por parte dos cangaceiros como dos soldados de polícia. A gravidade é perceptível inclusive pela recusa de Dadá em ser entrevistada. E Benício admite para a câmera que detesta falar daqueles tempos. Rivalidades, tiroteios, cabeças decepadas – sete das quais ainda estavam expostas no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador, à época, e são mostradas bem de perto3 – nenhum assunto é evitado.

Temos ainda um punhado de informações sobre as vestimentas, os hábitos, a alimentação e a organização dos cangaceiros e das volantes. Marcas de ferimentos a bala de ambos os lados, histórias de trocas de tiro, e episódios inusitados, como os reiterados convites que Lampião fez a Rufino para se juntar aos cangaceiros. Rufino se justifica fazendo uma curiosa aproximação entre as duas forças inimigas: “Eu não queria [...] acompanhar cangaceiro, e nem queria ser soldado também.” É como se para ele o problema maior fosse “andar pegado em arma [...], derramando sangue”, independente de estar fora ou dentro da lei.

Embora não seja o primeiro documentário a tratar do cangaço – pois mesmo durante o período de atividade do bando de Lampião há registros de filmes documentais hoje considerados perdidos, como Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) e o semidocumental Lampião, a Fera do Nordeste (1930) –, Memória do Cangaço é possivelmente o primeiro a tratar do tema de forma ativamente crítica, pensante. Por tudo isso, é uma peça incontornável não só aos estudiosos do cangaço, mas também do cinema brasileiro.  

1. Algumas fontes citam que o filme saiu em 1955 ou em "meados dos anos 50". 1959 é o ano de lançamento, de acordo com Frederico Pernambucano de Mello em Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020).

2. Algumas das fotografias de Abrahão já haviam sido publicadas na imprensa desde 1936, mas o material original foi todo confiscado em 1937.

3. As cabeças foram retiradas do instituto e sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969.

Paulo Gil Soares had just finished working as an assistant director, production designer and dialogue writer in Glauber Rocha’s Black God, White Devil, when he went on to direct his first film: the documentary Memória do Cangaço (Memory of the Cangaço), which would be the first film of the Caravana Farkas. It is not an accident that it took an active stance when confronting its main subject, while avoiding both demonizing and mystifying the cangaço, and distancing itself from the style of sociological documentaries at the time.

It opens in a typically Northeastern setting; from the music of the opening credits to its first images, of a typical market in the Northeast of Brazil. The narrator tells a summarized account of the history of the cangaço, citing some famous cangaceiros and some myths concerning them, such as the idea that “they stole from the rich to give to the poor”. We proceed to the official version of history, via an interview with professor and medical doctor Estácio de Lima. The setting now is the “temple of knowledge” of the Faculty of Medicine of Bahia - complete with Greek columns. Despite the authority and knowledge we were told to expect, the professor’s explanation sounds so absurd it borders on accidental comedy. According to him, the geographical conditions and the “primitive” society alone could not fully explain the origin of the cangaço. The main cause was the activity of certain glands and the body type of the slim sertanejos. If this were a common documentary of that time, the professor would serve as its narrator - the “voice of reason”. But it isn’t. In a clever editing move, his explanation is set to a local man examining the teeth of a horse. A subtle dismissal of the professor’s Lombrosian reasoning.

That’s when our narrator - the filmmaker himself - comes in: “Is professor Estácio de Lima right?” On we go to some socioeconomic data: after an interview with a cowhand who, besides being subjected to injustice and harsh conditions his whole life, was thin (which, according to Lima, would have led him to become a cangaceiro), the narrator lists data to explain that "the sertanejo is a man left to his own devices": facing the absence of justice, illiteracy, low wages... Much more reasonable reasons for the violence in question than the pseudoscientific theory cited by the professor.

There is another moment when the narrator comes in to correct wrong info given by his interviewees. It’s when José Rufino recounts the gunfight when he killed Corisco. For the director, facts come first. But there is room here for inventive filmmaking, especially when folk poetry (cordel) is used in Rufino’s intro and outro, to describe Maria Bonita, and to show that Lampião himself was a poet.

Worthy of note are the testimonies of five characters of the history of cangaço. Besides José Rufino - a famous cangaceiro killer -, there are Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa and Otília Maria de Jesus - all former cangaceiros under the names, respectively, of Saracura, Labareda and Otília. We’re shown a brief attempt of interviewing Sérgia Ribeiro - the former cangaceira Dadá - who shuns the film crew from her home. All former cangaceiros are asked the same questions, especially why they joined the cangaço. Their reasons were, for the men, wanting to avenge and defend the honor of family members, and for the women, being kidnapped by cangaceiros in their teenage years, and threatened with death if they refused to go. On that, Dadá says: “I followed Corisco because I was his wife, I obeyed my husband.” The exception was Maria Bonita, who, we’re shown, left her husband for Lampião. At another moment, Rufino states it was common for police officers to have joined the force merely as a means to avenge relatives who had been killed by cangaceiros.

Another point of interest are the excerpts from the documentary Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes and Al Ghiu, 1959),1 the first film to make use of the footage2 shot by Benjamin Abrahão of Lampião’s gang in 1936, which had been confiscated and was unseen since 1937. However, the resulting film failed to understand the phenomenon of the cangaço - which is evidenced by its sensationalist and inaccurate narration.

In Memória, on the other hand, those five eyewitnesses paint an honest and blunt portrait of the brutality of those times, both by the hands of cangaceiros and police officers. Such brutality can be perceived in how Dadá refuses to be interviewed. And Benício admits to the camera that he hates talking about those times. Rivalries, gunfights, severed heads - seven of which were still exposed at the Nina Rodrigues Forensic Institute of Salvador, Bahia, at the time, and which we get to see up close3 - the film doesn’t avoid any subjects.

Other than that, there is a handful of info regarding the clothing, habits, food and organization of cangaceiros and police forces. We see gunshot wounds suffered by people on each side, we hear stories of gunfights, and curious episodes, such as those when Lampião invited Rufino to join his group of cangaceiros. To explain his refusal, Rufino draws a curious parallel between both quarrelling factions: “I didn’t want to join the cangaceiros or the police.” It is as if, to him, the real issue was “carrying a gun, spilling blood”, regardless whether he was on the side of the law or not.

Even though it was not the first documentary about cangaço - there are records of now-lost films made during the years when Lampião’s group was active, such as Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) and the docufiction Lampião, a Fera do Nordeste (1930) -, Memória do Cangaço was probably the first film that took an actively critical stance when looking at that topic. For all that, it is obligatory in cangaço studies, as well as Brazilian cinema.

1. Some sources claim the film came out in 1955 or “in the 1950s”. According to Frederico Pernambucano de Mello in Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020), the release year was 1959.

2.  Some of Abrahão’s photographs of the cangaceiros had been published as early as 1936, but all the negatives were confiscated in 1937.

3. The heads were taken from the Institute and properly buried on February 6, 1969.

Paulo Gil Soares had just finished working as an assistant director, production designer and dialogue writer in Glauber Rocha’s Black God, White Devil, when he went on to direct his first film: the documentary Memória do Cangaço (Memory of the Cangaço), which would be the first film of the Caravana Farkas. It is not an accident that it took an active stance when confronting its main subject, while avoiding both demonizing and mystifying the cangaço, and distancing itself from the style of sociological documentaries at the time.

It opens in a typically Northeastern setting; from the music of the opening credits to its first images, of a typical market in the Northeast of Brazil. The narrator tells a summarized account of the history of the cangaço, citing some famous cangaceiros and some myths concerning them, such as the idea that “they stole from the rich to give to the poor”. We proceed to the official version of history, via an interview with professor and medical doctor Estácio de Lima. The setting now is the “temple of knowledge” of the Faculty of Medicine of Bahia - complete with Greek columns. Despite the authority and knowledge we were told to expect, the professor’s explanation sounds so absurd it borders on accidental comedy. According to him, the geographical conditions and the “primitive” society alone could not fully explain the origin of the cangaço. The main cause was the activity of certain glands and the body type of the slim sertanejos. If this were a common documentary of that time, the professor would serve as its narrator - the “voice of reason”. But it isn’t. In a clever editing move, his explanation is set to a local man examining the teeth of a horse. A subtle dismissal of the professor’s Lombrosian reasoning.

That’s when our narrator - the filmmaker himself - comes in: “Is professor Estácio de Lima right?” On we go to some socioeconomic data: after an interview with a cowhand who, besides being subjected to injustice and harsh conditions his whole life, was thin (which, according to Lima, would have led him to become a cangaceiro), the narrator lists data to explain that "the sertanejo is a man left to his own devices": facing the absence of justice, illiteracy, low wages... Much more reasonable reasons for the violence in question than the pseudoscientific theory cited by the professor.

There is another moment when the narrator comes in to correct wrong info given by his interviewees. It’s when José Rufino recounts the gunfight when he killed Corisco. For the director, facts come first. But there is room here for inventive filmmaking, especially when folk poetry (cordel) is used in Rufino’s intro and outro, to describe Maria Bonita, and to show that Lampião himself was a poet.

Worthy of note are the testimonies of five characters of the history of cangaço. Besides José Rufino - a famous cangaceiro killer -, there are Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa and Otília Maria de Jesus - all former cangaceiros under the names, respectively, of Saracura, Labareda and Otília. We’re shown a brief attempt of interviewing Sérgia Ribeiro - the former cangaceira Dadá - who shuns the film crew from her home. All former cangaceiros are asked the same questions, especially why they joined the cangaço. Their reasons were, for the men, wanting to avenge and defend the honor of family members, and for the women, being kidnapped by cangaceiros in their teenage years, and threatened with death if they refused to go. On that, Dadá says: “I followed Corisco because I was his wife, I obeyed my husband.” The exception was Maria Bonita, who, we’re shown, left her husband for Lampião. At another moment, Rufino states it was common for police officers to have joined the force merely as a means to avenge relatives who had been killed by cangaceiros.

Another point of interest are the excerpts from the documentary Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes and Al Ghiu, 1959),1 the first film to make use of the footage2 shot by Benjamin Abrahão of Lampião’s gang in 1936, which had been confiscated and was unseen since 1937. However, the resulting film failed to understand the phenomenon of the cangaço - which is evidenced by its sensationalist and inaccurate narration.

In Memória, on the other hand, those five eyewitnesses paint an honest and blunt portrait of the brutality of those times, both by the hands of cangaceiros and police officers. Such brutality can be perceived in how Dadá refuses to be interviewed. And Benício admits to the camera that he hates talking about those times. Rivalries, gunfights, severed heads - seven of which were still exposed at the Nina Rodrigues Forensic Institute of Salvador, Bahia, at the time, and which we get to see up close3 - the film doesn’t avoid any subjects.

Other than that, there is a handful of info regarding the clothing, habits, food and organization of cangaceiros and police forces. We see gunshot wounds suffered by people on each side, we hear stories of gunfights, and curious episodes, such as those when Lampião invited Rufino to join his group of cangaceiros. To explain his refusal, Rufino draws a curious parallel between both quarrelling factions: “I didn’t want to join the cangaceiros or the police.” It is as if, to him, the real issue was “carrying a gun, spilling blood”, regardless whether he was on the side of the law or not.

Even though it was not the first documentary about cangaço - there are records of now-lost films made during the years when Lampião’s group was active, such as Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) and the docufiction Lampião, a Fera do Nordeste (1930) -, Memória do Cangaço was probably the first film that took an actively critical stance when looking at that topic. For all that, it is obligatory in cangaço studies, as well as Brazilian cinema.

1. Some sources claim the film came out in 1955 or “in the 1950s”. According to Frederico Pernambucano de Mello in Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020), the release year was 1959.

2.  Some of Abrahão’s photographs of the cangaceiros had been published as early as 1936, but all the negatives were confiscated in 1937.

3. The heads were taken from the Institute and properly buried on February 6, 1969.

PT/ENG
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28/7/2024
By/Por:
Gustavo Menezes

Em 1964, Paulo Gil Soares acabara de ser assistente de direção, cenógrafo, figurinista e co-autor dos diálogos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, quando dirigiu seu primeiro filme: o documentário Memória do Cangaço, que viria a inaugurar a Caravana Farkas. Não por acaso, Memória toma uma postura ativa quanto a seu tema central, evitando tanto a demonização quanto a mistificação do fenômeno do cangaço, e fugindo ao estilo de documentário sociológico de então.

O filme abre com uma ambientação tipicamente nordestina; desde a música dos créditos iniciais às primeiras imagens, de um típico dia de feira na região. O narrador faz um resumo da história do cangaço, citando nomes de cangaceiros famosos e alguns mitos, como a ideia de que “roubavam dos ricos para dar aos pobres”. Partimos então à versão oficial dos fatos, na entrevista com o médico e professor Estácio de Lima. Estamos agora no “templo do saber” – com direito a colunas gregas – da Faculdade de Medicina da Bahia. Apesar da autoridade e do conhecimento anunciados, suas palavras compõem uma explicação tão absurda que beira a comédia involuntária. A origem do cangaço estaria, segundo ele, não apenas nas condições geográficas e na sociedade “primitiva”, mas principalmente na atividade de certas glândulas e no tipo físico esguio do sertanejo. Num documentário comum, o professor seria o narrador do filme – a “voz da razão” em off.  Mas não é o caso. Numa boa sacada da montagem, a explicação se dá enquanto vemos um sertanejo examinando os dentes de um cavalo. É um deboche sutil da lógica lombrosiana defendida pelo especialista.

É quando o narrador – que é o diretor do filme – se interpõe: “estará o professor Estácio de Lima com a razão?” Vamos aos fatos socioeconômicos da região: após uma entrevista com um vaqueiro que, além de magro, atravessou uma vida inteira de precariedade e injustiças (o que, segundo Lima, lhe tornaria propenso a entrar para o cangaço), o narrador nos enumera alguns dados que explicam que “o sertanejo é um homem abandonado à sua própria sorte”: ausência de justiça, analfabetismo, baixos salários… Motivos muito mais razoáveis para a violência em questão do que a teoria pseudocientífica citada pelo professor.

Há outro momento em que o narrador interfere para corrigir informações errôneas dos depoimentos colhidos. É durante a fala de José Rufino, quando este reconta o combate em que matou Corisco. Assim, sem desrespeitar seus entrevistados, o diretor se coloca primeiramente ao lado dos fatos. Não deixa, no entanto, de dar vazão à inventividade, sobretudo quando incorpora versos da poesia popular para apresentar e se despedir de Rufino, para falar de Maria Bonita e para mostrar o lado poeta do próprio Lampião.

Também são notórios os depoimentos de cinco sujeitos da história do cangaço. Além de José Rufino – conhecido matador de cangaceiros –, Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa e Otília Maria de Jesus – os ex-cangaceiros Saracura, Labareda e Otília. Há também uma tentativa de entrevistar Sérgia Ribeiro – a ex-cangaceira Dadá –, que é vista brevemente, enxotando a equipe de sua casa. A todos os ex-cangaceiros são feitas as mesmas perguntas, entre as quais, os motivos que levaram cada um a entrar para o cangaço. Estes envolvem a vingança e a defesa da honra de familiares, no caso dos homens, e no caso das mulheres, o rapto por cangaceiros quando adolescentes, com risco de morte caso se recusassem a ir. Sobre isso, Dadá diz apenas: “Se acompanhei Corisco, é porque eu era mulher dele, obediente a meu marido.” A exceção foi Maria Bonita, que, como o filme mostra, abandonou o marido para acompanhar Lampião. Mais adiante, Rufino diz que era comum que seus homens houvessem se tornado policiais apenas para vingar a morte de parentes na mão dos cangaceiros.

Outro chamariz aqui são os excertos do documentário Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes e Al Ghiu, 1959),1 o primeiro a disponibilizar as filmagens2 feitas por Benjamin Abrahão do bando de Lampião em 1936, que haviam sido confiscadas e não eram exibidas desde 1937. O trabalho resultante, no entanto, é marcado por profunda incompreensão acerca do cangaço, evidenciada pela narração sensacionalista e factualmente incorreta.

Já em Memória, com a participação dessas cinco testemunhas oculares, tem-se um relato honesto e sem rodeios da brutalidade daquela época, tanto por parte dos cangaceiros como dos soldados de polícia. A gravidade é perceptível inclusive pela recusa de Dadá em ser entrevistada. E Benício admite para a câmera que detesta falar daqueles tempos. Rivalidades, tiroteios, cabeças decepadas – sete das quais ainda estavam expostas no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador, à época, e são mostradas bem de perto3 – nenhum assunto é evitado.

Temos ainda um punhado de informações sobre as vestimentas, os hábitos, a alimentação e a organização dos cangaceiros e das volantes. Marcas de ferimentos a bala de ambos os lados, histórias de trocas de tiro, e episódios inusitados, como os reiterados convites que Lampião fez a Rufino para se juntar aos cangaceiros. Rufino se justifica fazendo uma curiosa aproximação entre as duas forças inimigas: “Eu não queria [...] acompanhar cangaceiro, e nem queria ser soldado também.” É como se para ele o problema maior fosse “andar pegado em arma [...], derramando sangue”, independente de estar fora ou dentro da lei.

Embora não seja o primeiro documentário a tratar do cangaço – pois mesmo durante o período de atividade do bando de Lampião há registros de filmes documentais hoje considerados perdidos, como Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) e o semidocumental Lampião, a Fera do Nordeste (1930) –, Memória do Cangaço é possivelmente o primeiro a tratar do tema de forma ativamente crítica, pensante. Por tudo isso, é uma peça incontornável não só aos estudiosos do cangaço, mas também do cinema brasileiro.  

1. Algumas fontes citam que o filme saiu em 1955 ou em "meados dos anos 50". 1959 é o ano de lançamento, de acordo com Frederico Pernambucano de Mello em Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020).

2. Algumas das fotografias de Abrahão já haviam sido publicadas na imprensa desde 1936, mas o material original foi todo confiscado em 1937.

3. As cabeças foram retiradas do instituto e sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969.

Em 1964, Paulo Gil Soares acabara de ser assistente de direção, cenógrafo, figurinista e co-autor dos diálogos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, quando dirigiu seu primeiro filme: o documentário Memória do Cangaço, que viria a inaugurar a Caravana Farkas. Não por acaso, Memória toma uma postura ativa quanto a seu tema central, evitando tanto a demonização quanto a mistificação do fenômeno do cangaço, e fugindo ao estilo de documentário sociológico de então.

O filme abre com uma ambientação tipicamente nordestina; desde a música dos créditos iniciais às primeiras imagens, de um típico dia de feira na região. O narrador faz um resumo da história do cangaço, citando nomes de cangaceiros famosos e alguns mitos, como a ideia de que “roubavam dos ricos para dar aos pobres”. Partimos então à versão oficial dos fatos, na entrevista com o médico e professor Estácio de Lima. Estamos agora no “templo do saber” – com direito a colunas gregas – da Faculdade de Medicina da Bahia. Apesar da autoridade e do conhecimento anunciados, suas palavras compõem uma explicação tão absurda que beira a comédia involuntária. A origem do cangaço estaria, segundo ele, não apenas nas condições geográficas e na sociedade “primitiva”, mas principalmente na atividade de certas glândulas e no tipo físico esguio do sertanejo. Num documentário comum, o professor seria o narrador do filme – a “voz da razão” em off.  Mas não é o caso. Numa boa sacada da montagem, a explicação se dá enquanto vemos um sertanejo examinando os dentes de um cavalo. É um deboche sutil da lógica lombrosiana defendida pelo especialista.

É quando o narrador – que é o diretor do filme – se interpõe: “estará o professor Estácio de Lima com a razão?” Vamos aos fatos socioeconômicos da região: após uma entrevista com um vaqueiro que, além de magro, atravessou uma vida inteira de precariedade e injustiças (o que, segundo Lima, lhe tornaria propenso a entrar para o cangaço), o narrador nos enumera alguns dados que explicam que “o sertanejo é um homem abandonado à sua própria sorte”: ausência de justiça, analfabetismo, baixos salários… Motivos muito mais razoáveis para a violência em questão do que a teoria pseudocientífica citada pelo professor.

Há outro momento em que o narrador interfere para corrigir informações errôneas dos depoimentos colhidos. É durante a fala de José Rufino, quando este reconta o combate em que matou Corisco. Assim, sem desrespeitar seus entrevistados, o diretor se coloca primeiramente ao lado dos fatos. Não deixa, no entanto, de dar vazão à inventividade, sobretudo quando incorpora versos da poesia popular para apresentar e se despedir de Rufino, para falar de Maria Bonita e para mostrar o lado poeta do próprio Lampião.

Também são notórios os depoimentos de cinco sujeitos da história do cangaço. Além de José Rufino – conhecido matador de cangaceiros –, Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa e Otília Maria de Jesus – os ex-cangaceiros Saracura, Labareda e Otília. Há também uma tentativa de entrevistar Sérgia Ribeiro – a ex-cangaceira Dadá –, que é vista brevemente, enxotando a equipe de sua casa. A todos os ex-cangaceiros são feitas as mesmas perguntas, entre as quais, os motivos que levaram cada um a entrar para o cangaço. Estes envolvem a vingança e a defesa da honra de familiares, no caso dos homens, e no caso das mulheres, o rapto por cangaceiros quando adolescentes, com risco de morte caso se recusassem a ir. Sobre isso, Dadá diz apenas: “Se acompanhei Corisco, é porque eu era mulher dele, obediente a meu marido.” A exceção foi Maria Bonita, que, como o filme mostra, abandonou o marido para acompanhar Lampião. Mais adiante, Rufino diz que era comum que seus homens houvessem se tornado policiais apenas para vingar a morte de parentes na mão dos cangaceiros.

Outro chamariz aqui são os excertos do documentário Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes e Al Ghiu, 1959),1 o primeiro a disponibilizar as filmagens2 feitas por Benjamin Abrahão do bando de Lampião em 1936, que haviam sido confiscadas e não eram exibidas desde 1937. O trabalho resultante, no entanto, é marcado por profunda incompreensão acerca do cangaço, evidenciada pela narração sensacionalista e factualmente incorreta.

Já em Memória, com a participação dessas cinco testemunhas oculares, tem-se um relato honesto e sem rodeios da brutalidade daquela época, tanto por parte dos cangaceiros como dos soldados de polícia. A gravidade é perceptível inclusive pela recusa de Dadá em ser entrevistada. E Benício admite para a câmera que detesta falar daqueles tempos. Rivalidades, tiroteios, cabeças decepadas – sete das quais ainda estavam expostas no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador, à época, e são mostradas bem de perto3 – nenhum assunto é evitado.

Temos ainda um punhado de informações sobre as vestimentas, os hábitos, a alimentação e a organização dos cangaceiros e das volantes. Marcas de ferimentos a bala de ambos os lados, histórias de trocas de tiro, e episódios inusitados, como os reiterados convites que Lampião fez a Rufino para se juntar aos cangaceiros. Rufino se justifica fazendo uma curiosa aproximação entre as duas forças inimigas: “Eu não queria [...] acompanhar cangaceiro, e nem queria ser soldado também.” É como se para ele o problema maior fosse “andar pegado em arma [...], derramando sangue”, independente de estar fora ou dentro da lei.

Embora não seja o primeiro documentário a tratar do cangaço – pois mesmo durante o período de atividade do bando de Lampião há registros de filmes documentais hoje considerados perdidos, como Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) e o semidocumental Lampião, a Fera do Nordeste (1930) –, Memória do Cangaço é possivelmente o primeiro a tratar do tema de forma ativamente crítica, pensante. Por tudo isso, é uma peça incontornável não só aos estudiosos do cangaço, mas também do cinema brasileiro.  

1. Algumas fontes citam que o filme saiu em 1955 ou em "meados dos anos 50". 1959 é o ano de lançamento, de acordo com Frederico Pernambucano de Mello em Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020).

2. Algumas das fotografias de Abrahão já haviam sido publicadas na imprensa desde 1936, mas o material original foi todo confiscado em 1937.

3. As cabeças foram retiradas do instituto e sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969.

Paulo Gil Soares had just finished working as an assistant director, production designer and dialogue writer in Glauber Rocha’s Black God, White Devil, when he went on to direct his first film: the documentary Memória do Cangaço (Memory of the Cangaço), which would be the first film of the Caravana Farkas. It is not an accident that it took an active stance when confronting its main subject, while avoiding both demonizing and mystifying the cangaço, and distancing itself from the style of sociological documentaries at the time.

It opens in a typically Northeastern setting; from the music of the opening credits to its first images, of a typical market in the Northeast of Brazil. The narrator tells a summarized account of the history of the cangaço, citing some famous cangaceiros and some myths concerning them, such as the idea that “they stole from the rich to give to the poor”. We proceed to the official version of history, via an interview with professor and medical doctor Estácio de Lima. The setting now is the “temple of knowledge” of the Faculty of Medicine of Bahia - complete with Greek columns. Despite the authority and knowledge we were told to expect, the professor’s explanation sounds so absurd it borders on accidental comedy. According to him, the geographical conditions and the “primitive” society alone could not fully explain the origin of the cangaço. The main cause was the activity of certain glands and the body type of the slim sertanejos. If this were a common documentary of that time, the professor would serve as its narrator - the “voice of reason”. But it isn’t. In a clever editing move, his explanation is set to a local man examining the teeth of a horse. A subtle dismissal of the professor’s Lombrosian reasoning.

That’s when our narrator - the filmmaker himself - comes in: “Is professor Estácio de Lima right?” On we go to some socioeconomic data: after an interview with a cowhand who, besides being subjected to injustice and harsh conditions his whole life, was thin (which, according to Lima, would have led him to become a cangaceiro), the narrator lists data to explain that "the sertanejo is a man left to his own devices": facing the absence of justice, illiteracy, low wages... Much more reasonable reasons for the violence in question than the pseudoscientific theory cited by the professor.

There is another moment when the narrator comes in to correct wrong info given by his interviewees. It’s when José Rufino recounts the gunfight when he killed Corisco. For the director, facts come first. But there is room here for inventive filmmaking, especially when folk poetry (cordel) is used in Rufino’s intro and outro, to describe Maria Bonita, and to show that Lampião himself was a poet.

Worthy of note are the testimonies of five characters of the history of cangaço. Besides José Rufino - a famous cangaceiro killer -, there are Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa and Otília Maria de Jesus - all former cangaceiros under the names, respectively, of Saracura, Labareda and Otília. We’re shown a brief attempt of interviewing Sérgia Ribeiro - the former cangaceira Dadá - who shuns the film crew from her home. All former cangaceiros are asked the same questions, especially why they joined the cangaço. Their reasons were, for the men, wanting to avenge and defend the honor of family members, and for the women, being kidnapped by cangaceiros in their teenage years, and threatened with death if they refused to go. On that, Dadá says: “I followed Corisco because I was his wife, I obeyed my husband.” The exception was Maria Bonita, who, we’re shown, left her husband for Lampião. At another moment, Rufino states it was common for police officers to have joined the force merely as a means to avenge relatives who had been killed by cangaceiros.

Another point of interest are the excerpts from the documentary Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes and Al Ghiu, 1959),1 the first film to make use of the footage2 shot by Benjamin Abrahão of Lampião’s gang in 1936, which had been confiscated and was unseen since 1937. However, the resulting film failed to understand the phenomenon of the cangaço - which is evidenced by its sensationalist and inaccurate narration.

In Memória, on the other hand, those five eyewitnesses paint an honest and blunt portrait of the brutality of those times, both by the hands of cangaceiros and police officers. Such brutality can be perceived in how Dadá refuses to be interviewed. And Benício admits to the camera that he hates talking about those times. Rivalries, gunfights, severed heads - seven of which were still exposed at the Nina Rodrigues Forensic Institute of Salvador, Bahia, at the time, and which we get to see up close3 - the film doesn’t avoid any subjects.

Other than that, there is a handful of info regarding the clothing, habits, food and organization of cangaceiros and police forces. We see gunshot wounds suffered by people on each side, we hear stories of gunfights, and curious episodes, such as those when Lampião invited Rufino to join his group of cangaceiros. To explain his refusal, Rufino draws a curious parallel between both quarrelling factions: “I didn’t want to join the cangaceiros or the police.” It is as if, to him, the real issue was “carrying a gun, spilling blood”, regardless whether he was on the side of the law or not.

Even though it was not the first documentary about cangaço - there are records of now-lost films made during the years when Lampião’s group was active, such as Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) and the docufiction Lampião, a Fera do Nordeste (1930) -, Memória do Cangaço was probably the first film that took an actively critical stance when looking at that topic. For all that, it is obligatory in cangaço studies, as well as Brazilian cinema.

1. Some sources claim the film came out in 1955 or “in the 1950s”. According to Frederico Pernambucano de Mello in Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020), the release year was 1959.

2.  Some of Abrahão’s photographs of the cangaceiros had been published as early as 1936, but all the negatives were confiscated in 1937.

3. The heads were taken from the Institute and properly buried on February 6, 1969.

Paulo Gil Soares had just finished working as an assistant director, production designer and dialogue writer in Glauber Rocha’s Black God, White Devil, when he went on to direct his first film: the documentary Memória do Cangaço (Memory of the Cangaço), which would be the first film of the Caravana Farkas. It is not an accident that it took an active stance when confronting its main subject, while avoiding both demonizing and mystifying the cangaço, and distancing itself from the style of sociological documentaries at the time.

It opens in a typically Northeastern setting; from the music of the opening credits to its first images, of a typical market in the Northeast of Brazil. The narrator tells a summarized account of the history of the cangaço, citing some famous cangaceiros and some myths concerning them, such as the idea that “they stole from the rich to give to the poor”. We proceed to the official version of history, via an interview with professor and medical doctor Estácio de Lima. The setting now is the “temple of knowledge” of the Faculty of Medicine of Bahia - complete with Greek columns. Despite the authority and knowledge we were told to expect, the professor’s explanation sounds so absurd it borders on accidental comedy. According to him, the geographical conditions and the “primitive” society alone could not fully explain the origin of the cangaço. The main cause was the activity of certain glands and the body type of the slim sertanejos. If this were a common documentary of that time, the professor would serve as its narrator - the “voice of reason”. But it isn’t. In a clever editing move, his explanation is set to a local man examining the teeth of a horse. A subtle dismissal of the professor’s Lombrosian reasoning.

That’s when our narrator - the filmmaker himself - comes in: “Is professor Estácio de Lima right?” On we go to some socioeconomic data: after an interview with a cowhand who, besides being subjected to injustice and harsh conditions his whole life, was thin (which, according to Lima, would have led him to become a cangaceiro), the narrator lists data to explain that "the sertanejo is a man left to his own devices": facing the absence of justice, illiteracy, low wages... Much more reasonable reasons for the violence in question than the pseudoscientific theory cited by the professor.

There is another moment when the narrator comes in to correct wrong info given by his interviewees. It’s when José Rufino recounts the gunfight when he killed Corisco. For the director, facts come first. But there is room here for inventive filmmaking, especially when folk poetry (cordel) is used in Rufino’s intro and outro, to describe Maria Bonita, and to show that Lampião himself was a poet.

Worthy of note are the testimonies of five characters of the history of cangaço. Besides José Rufino - a famous cangaceiro killer -, there are Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa and Otília Maria de Jesus - all former cangaceiros under the names, respectively, of Saracura, Labareda and Otília. We’re shown a brief attempt of interviewing Sérgia Ribeiro - the former cangaceira Dadá - who shuns the film crew from her home. All former cangaceiros are asked the same questions, especially why they joined the cangaço. Their reasons were, for the men, wanting to avenge and defend the honor of family members, and for the women, being kidnapped by cangaceiros in their teenage years, and threatened with death if they refused to go. On that, Dadá says: “I followed Corisco because I was his wife, I obeyed my husband.” The exception was Maria Bonita, who, we’re shown, left her husband for Lampião. At another moment, Rufino states it was common for police officers to have joined the force merely as a means to avenge relatives who had been killed by cangaceiros.

Another point of interest are the excerpts from the documentary Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes and Al Ghiu, 1959),1 the first film to make use of the footage2 shot by Benjamin Abrahão of Lampião’s gang in 1936, which had been confiscated and was unseen since 1937. However, the resulting film failed to understand the phenomenon of the cangaço - which is evidenced by its sensationalist and inaccurate narration.

In Memória, on the other hand, those five eyewitnesses paint an honest and blunt portrait of the brutality of those times, both by the hands of cangaceiros and police officers. Such brutality can be perceived in how Dadá refuses to be interviewed. And Benício admits to the camera that he hates talking about those times. Rivalries, gunfights, severed heads - seven of which were still exposed at the Nina Rodrigues Forensic Institute of Salvador, Bahia, at the time, and which we get to see up close3 - the film doesn’t avoid any subjects.

Other than that, there is a handful of info regarding the clothing, habits, food and organization of cangaceiros and police forces. We see gunshot wounds suffered by people on each side, we hear stories of gunfights, and curious episodes, such as those when Lampião invited Rufino to join his group of cangaceiros. To explain his refusal, Rufino draws a curious parallel between both quarrelling factions: “I didn’t want to join the cangaceiros or the police.” It is as if, to him, the real issue was “carrying a gun, spilling blood”, regardless whether he was on the side of the law or not.

Even though it was not the first documentary about cangaço - there are records of now-lost films made during the years when Lampião’s group was active, such as Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) and the docufiction Lampião, a Fera do Nordeste (1930) -, Memória do Cangaço was probably the first film that took an actively critical stance when looking at that topic. For all that, it is obligatory in cangaço studies, as well as Brazilian cinema.

1. Some sources claim the film came out in 1955 or “in the 1950s”. According to Frederico Pernambucano de Mello in Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020), the release year was 1959.

2.  Some of Abrahão’s photographs of the cangaceiros had been published as early as 1936, but all the negatives were confiscated in 1937.

3. The heads were taken from the Institute and properly buried on February 6, 1969.

PT/ENG
PT/ENG
28/7/2024
By/Por:
Gustavo Menezes

Em 1964, Paulo Gil Soares acabara de ser assistente de direção, cenógrafo, figurinista e co-autor dos diálogos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, quando dirigiu seu primeiro filme: o documentário Memória do Cangaço, que viria a inaugurar a Caravana Farkas. Não por acaso, Memória toma uma postura ativa quanto a seu tema central, evitando tanto a demonização quanto a mistificação do fenômeno do cangaço, e fugindo ao estilo de documentário sociológico de então.

O filme abre com uma ambientação tipicamente nordestina; desde a música dos créditos iniciais às primeiras imagens, de um típico dia de feira na região. O narrador faz um resumo da história do cangaço, citando nomes de cangaceiros famosos e alguns mitos, como a ideia de que “roubavam dos ricos para dar aos pobres”. Partimos então à versão oficial dos fatos, na entrevista com o médico e professor Estácio de Lima. Estamos agora no “templo do saber” – com direito a colunas gregas – da Faculdade de Medicina da Bahia. Apesar da autoridade e do conhecimento anunciados, suas palavras compõem uma explicação tão absurda que beira a comédia involuntária. A origem do cangaço estaria, segundo ele, não apenas nas condições geográficas e na sociedade “primitiva”, mas principalmente na atividade de certas glândulas e no tipo físico esguio do sertanejo. Num documentário comum, o professor seria o narrador do filme – a “voz da razão” em off.  Mas não é o caso. Numa boa sacada da montagem, a explicação se dá enquanto vemos um sertanejo examinando os dentes de um cavalo. É um deboche sutil da lógica lombrosiana defendida pelo especialista.

É quando o narrador – que é o diretor do filme – se interpõe: “estará o professor Estácio de Lima com a razão?” Vamos aos fatos socioeconômicos da região: após uma entrevista com um vaqueiro que, além de magro, atravessou uma vida inteira de precariedade e injustiças (o que, segundo Lima, lhe tornaria propenso a entrar para o cangaço), o narrador nos enumera alguns dados que explicam que “o sertanejo é um homem abandonado à sua própria sorte”: ausência de justiça, analfabetismo, baixos salários… Motivos muito mais razoáveis para a violência em questão do que a teoria pseudocientífica citada pelo professor.

Há outro momento em que o narrador interfere para corrigir informações errôneas dos depoimentos colhidos. É durante a fala de José Rufino, quando este reconta o combate em que matou Corisco. Assim, sem desrespeitar seus entrevistados, o diretor se coloca primeiramente ao lado dos fatos. Não deixa, no entanto, de dar vazão à inventividade, sobretudo quando incorpora versos da poesia popular para apresentar e se despedir de Rufino, para falar de Maria Bonita e para mostrar o lado poeta do próprio Lampião.

Também são notórios os depoimentos de cinco sujeitos da história do cangaço. Além de José Rufino – conhecido matador de cangaceiros –, Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa e Otília Maria de Jesus – os ex-cangaceiros Saracura, Labareda e Otília. Há também uma tentativa de entrevistar Sérgia Ribeiro – a ex-cangaceira Dadá –, que é vista brevemente, enxotando a equipe de sua casa. A todos os ex-cangaceiros são feitas as mesmas perguntas, entre as quais, os motivos que levaram cada um a entrar para o cangaço. Estes envolvem a vingança e a defesa da honra de familiares, no caso dos homens, e no caso das mulheres, o rapto por cangaceiros quando adolescentes, com risco de morte caso se recusassem a ir. Sobre isso, Dadá diz apenas: “Se acompanhei Corisco, é porque eu era mulher dele, obediente a meu marido.” A exceção foi Maria Bonita, que, como o filme mostra, abandonou o marido para acompanhar Lampião. Mais adiante, Rufino diz que era comum que seus homens houvessem se tornado policiais apenas para vingar a morte de parentes na mão dos cangaceiros.

Outro chamariz aqui são os excertos do documentário Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes e Al Ghiu, 1959),1 o primeiro a disponibilizar as filmagens2 feitas por Benjamin Abrahão do bando de Lampião em 1936, que haviam sido confiscadas e não eram exibidas desde 1937. O trabalho resultante, no entanto, é marcado por profunda incompreensão acerca do cangaço, evidenciada pela narração sensacionalista e factualmente incorreta.

Já em Memória, com a participação dessas cinco testemunhas oculares, tem-se um relato honesto e sem rodeios da brutalidade daquela época, tanto por parte dos cangaceiros como dos soldados de polícia. A gravidade é perceptível inclusive pela recusa de Dadá em ser entrevistada. E Benício admite para a câmera que detesta falar daqueles tempos. Rivalidades, tiroteios, cabeças decepadas – sete das quais ainda estavam expostas no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador, à época, e são mostradas bem de perto3 – nenhum assunto é evitado.

Temos ainda um punhado de informações sobre as vestimentas, os hábitos, a alimentação e a organização dos cangaceiros e das volantes. Marcas de ferimentos a bala de ambos os lados, histórias de trocas de tiro, e episódios inusitados, como os reiterados convites que Lampião fez a Rufino para se juntar aos cangaceiros. Rufino se justifica fazendo uma curiosa aproximação entre as duas forças inimigas: “Eu não queria [...] acompanhar cangaceiro, e nem queria ser soldado também.” É como se para ele o problema maior fosse “andar pegado em arma [...], derramando sangue”, independente de estar fora ou dentro da lei.

Embora não seja o primeiro documentário a tratar do cangaço – pois mesmo durante o período de atividade do bando de Lampião há registros de filmes documentais hoje considerados perdidos, como Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) e o semidocumental Lampião, a Fera do Nordeste (1930) –, Memória do Cangaço é possivelmente o primeiro a tratar do tema de forma ativamente crítica, pensante. Por tudo isso, é uma peça incontornável não só aos estudiosos do cangaço, mas também do cinema brasileiro.  

1. Algumas fontes citam que o filme saiu em 1955 ou em "meados dos anos 50". 1959 é o ano de lançamento, de acordo com Frederico Pernambucano de Mello em Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020).

2. Algumas das fotografias de Abrahão já haviam sido publicadas na imprensa desde 1936, mas o material original foi todo confiscado em 1937.

3. As cabeças foram retiradas do instituto e sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969.

Em 1964, Paulo Gil Soares acabara de ser assistente de direção, cenógrafo, figurinista e co-autor dos diálogos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, quando dirigiu seu primeiro filme: o documentário Memória do Cangaço, que viria a inaugurar a Caravana Farkas. Não por acaso, Memória toma uma postura ativa quanto a seu tema central, evitando tanto a demonização quanto a mistificação do fenômeno do cangaço, e fugindo ao estilo de documentário sociológico de então.

O filme abre com uma ambientação tipicamente nordestina; desde a música dos créditos iniciais às primeiras imagens, de um típico dia de feira na região. O narrador faz um resumo da história do cangaço, citando nomes de cangaceiros famosos e alguns mitos, como a ideia de que “roubavam dos ricos para dar aos pobres”. Partimos então à versão oficial dos fatos, na entrevista com o médico e professor Estácio de Lima. Estamos agora no “templo do saber” – com direito a colunas gregas – da Faculdade de Medicina da Bahia. Apesar da autoridade e do conhecimento anunciados, suas palavras compõem uma explicação tão absurda que beira a comédia involuntária. A origem do cangaço estaria, segundo ele, não apenas nas condições geográficas e na sociedade “primitiva”, mas principalmente na atividade de certas glândulas e no tipo físico esguio do sertanejo. Num documentário comum, o professor seria o narrador do filme – a “voz da razão” em off.  Mas não é o caso. Numa boa sacada da montagem, a explicação se dá enquanto vemos um sertanejo examinando os dentes de um cavalo. É um deboche sutil da lógica lombrosiana defendida pelo especialista.

É quando o narrador – que é o diretor do filme – se interpõe: “estará o professor Estácio de Lima com a razão?” Vamos aos fatos socioeconômicos da região: após uma entrevista com um vaqueiro que, além de magro, atravessou uma vida inteira de precariedade e injustiças (o que, segundo Lima, lhe tornaria propenso a entrar para o cangaço), o narrador nos enumera alguns dados que explicam que “o sertanejo é um homem abandonado à sua própria sorte”: ausência de justiça, analfabetismo, baixos salários… Motivos muito mais razoáveis para a violência em questão do que a teoria pseudocientífica citada pelo professor.

Há outro momento em que o narrador interfere para corrigir informações errôneas dos depoimentos colhidos. É durante a fala de José Rufino, quando este reconta o combate em que matou Corisco. Assim, sem desrespeitar seus entrevistados, o diretor se coloca primeiramente ao lado dos fatos. Não deixa, no entanto, de dar vazão à inventividade, sobretudo quando incorpora versos da poesia popular para apresentar e se despedir de Rufino, para falar de Maria Bonita e para mostrar o lado poeta do próprio Lampião.

Também são notórios os depoimentos de cinco sujeitos da história do cangaço. Além de José Rufino – conhecido matador de cangaceiros –, Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa e Otília Maria de Jesus – os ex-cangaceiros Saracura, Labareda e Otília. Há também uma tentativa de entrevistar Sérgia Ribeiro – a ex-cangaceira Dadá –, que é vista brevemente, enxotando a equipe de sua casa. A todos os ex-cangaceiros são feitas as mesmas perguntas, entre as quais, os motivos que levaram cada um a entrar para o cangaço. Estes envolvem a vingança e a defesa da honra de familiares, no caso dos homens, e no caso das mulheres, o rapto por cangaceiros quando adolescentes, com risco de morte caso se recusassem a ir. Sobre isso, Dadá diz apenas: “Se acompanhei Corisco, é porque eu era mulher dele, obediente a meu marido.” A exceção foi Maria Bonita, que, como o filme mostra, abandonou o marido para acompanhar Lampião. Mais adiante, Rufino diz que era comum que seus homens houvessem se tornado policiais apenas para vingar a morte de parentes na mão dos cangaceiros.

Outro chamariz aqui são os excertos do documentário Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes e Al Ghiu, 1959),1 o primeiro a disponibilizar as filmagens2 feitas por Benjamin Abrahão do bando de Lampião em 1936, que haviam sido confiscadas e não eram exibidas desde 1937. O trabalho resultante, no entanto, é marcado por profunda incompreensão acerca do cangaço, evidenciada pela narração sensacionalista e factualmente incorreta.

Já em Memória, com a participação dessas cinco testemunhas oculares, tem-se um relato honesto e sem rodeios da brutalidade daquela época, tanto por parte dos cangaceiros como dos soldados de polícia. A gravidade é perceptível inclusive pela recusa de Dadá em ser entrevistada. E Benício admite para a câmera que detesta falar daqueles tempos. Rivalidades, tiroteios, cabeças decepadas – sete das quais ainda estavam expostas no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador, à época, e são mostradas bem de perto3 – nenhum assunto é evitado.

Temos ainda um punhado de informações sobre as vestimentas, os hábitos, a alimentação e a organização dos cangaceiros e das volantes. Marcas de ferimentos a bala de ambos os lados, histórias de trocas de tiro, e episódios inusitados, como os reiterados convites que Lampião fez a Rufino para se juntar aos cangaceiros. Rufino se justifica fazendo uma curiosa aproximação entre as duas forças inimigas: “Eu não queria [...] acompanhar cangaceiro, e nem queria ser soldado também.” É como se para ele o problema maior fosse “andar pegado em arma [...], derramando sangue”, independente de estar fora ou dentro da lei.

Embora não seja o primeiro documentário a tratar do cangaço – pois mesmo durante o período de atividade do bando de Lampião há registros de filmes documentais hoje considerados perdidos, como Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) e o semidocumental Lampião, a Fera do Nordeste (1930) –, Memória do Cangaço é possivelmente o primeiro a tratar do tema de forma ativamente crítica, pensante. Por tudo isso, é uma peça incontornável não só aos estudiosos do cangaço, mas também do cinema brasileiro.  

1. Algumas fontes citam que o filme saiu em 1955 ou em "meados dos anos 50". 1959 é o ano de lançamento, de acordo com Frederico Pernambucano de Mello em Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020).

2. Algumas das fotografias de Abrahão já haviam sido publicadas na imprensa desde 1936, mas o material original foi todo confiscado em 1937.

3. As cabeças foram retiradas do instituto e sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969.

Paulo Gil Soares had just finished working as an assistant director, production designer and dialogue writer in Glauber Rocha’s Black God, White Devil, when he went on to direct his first film: the documentary Memória do Cangaço (Memory of the Cangaço), which would be the first film of the Caravana Farkas. It is not an accident that it took an active stance when confronting its main subject, while avoiding both demonizing and mystifying the cangaço, and distancing itself from the style of sociological documentaries at the time.

It opens in a typically Northeastern setting; from the music of the opening credits to its first images, of a typical market in the Northeast of Brazil. The narrator tells a summarized account of the history of the cangaço, citing some famous cangaceiros and some myths concerning them, such as the idea that “they stole from the rich to give to the poor”. We proceed to the official version of history, via an interview with professor and medical doctor Estácio de Lima. The setting now is the “temple of knowledge” of the Faculty of Medicine of Bahia - complete with Greek columns. Despite the authority and knowledge we were told to expect, the professor’s explanation sounds so absurd it borders on accidental comedy. According to him, the geographical conditions and the “primitive” society alone could not fully explain the origin of the cangaço. The main cause was the activity of certain glands and the body type of the slim sertanejos. If this were a common documentary of that time, the professor would serve as its narrator - the “voice of reason”. But it isn’t. In a clever editing move, his explanation is set to a local man examining the teeth of a horse. A subtle dismissal of the professor’s Lombrosian reasoning.

That’s when our narrator - the filmmaker himself - comes in: “Is professor Estácio de Lima right?” On we go to some socioeconomic data: after an interview with a cowhand who, besides being subjected to injustice and harsh conditions his whole life, was thin (which, according to Lima, would have led him to become a cangaceiro), the narrator lists data to explain that "the sertanejo is a man left to his own devices": facing the absence of justice, illiteracy, low wages... Much more reasonable reasons for the violence in question than the pseudoscientific theory cited by the professor.

There is another moment when the narrator comes in to correct wrong info given by his interviewees. It’s when José Rufino recounts the gunfight when he killed Corisco. For the director, facts come first. But there is room here for inventive filmmaking, especially when folk poetry (cordel) is used in Rufino’s intro and outro, to describe Maria Bonita, and to show that Lampião himself was a poet.

Worthy of note are the testimonies of five characters of the history of cangaço. Besides José Rufino - a famous cangaceiro killer -, there are Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa and Otília Maria de Jesus - all former cangaceiros under the names, respectively, of Saracura, Labareda and Otília. We’re shown a brief attempt of interviewing Sérgia Ribeiro - the former cangaceira Dadá - who shuns the film crew from her home. All former cangaceiros are asked the same questions, especially why they joined the cangaço. Their reasons were, for the men, wanting to avenge and defend the honor of family members, and for the women, being kidnapped by cangaceiros in their teenage years, and threatened with death if they refused to go. On that, Dadá says: “I followed Corisco because I was his wife, I obeyed my husband.” The exception was Maria Bonita, who, we’re shown, left her husband for Lampião. At another moment, Rufino states it was common for police officers to have joined the force merely as a means to avenge relatives who had been killed by cangaceiros.

Another point of interest are the excerpts from the documentary Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes and Al Ghiu, 1959),1 the first film to make use of the footage2 shot by Benjamin Abrahão of Lampião’s gang in 1936, which had been confiscated and was unseen since 1937. However, the resulting film failed to understand the phenomenon of the cangaço - which is evidenced by its sensationalist and inaccurate narration.

In Memória, on the other hand, those five eyewitnesses paint an honest and blunt portrait of the brutality of those times, both by the hands of cangaceiros and police officers. Such brutality can be perceived in how Dadá refuses to be interviewed. And Benício admits to the camera that he hates talking about those times. Rivalries, gunfights, severed heads - seven of which were still exposed at the Nina Rodrigues Forensic Institute of Salvador, Bahia, at the time, and which we get to see up close3 - the film doesn’t avoid any subjects.

Other than that, there is a handful of info regarding the clothing, habits, food and organization of cangaceiros and police forces. We see gunshot wounds suffered by people on each side, we hear stories of gunfights, and curious episodes, such as those when Lampião invited Rufino to join his group of cangaceiros. To explain his refusal, Rufino draws a curious parallel between both quarrelling factions: “I didn’t want to join the cangaceiros or the police.” It is as if, to him, the real issue was “carrying a gun, spilling blood”, regardless whether he was on the side of the law or not.

Even though it was not the first documentary about cangaço - there are records of now-lost films made during the years when Lampião’s group was active, such as Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) and the docufiction Lampião, a Fera do Nordeste (1930) -, Memória do Cangaço was probably the first film that took an actively critical stance when looking at that topic. For all that, it is obligatory in cangaço studies, as well as Brazilian cinema.

1. Some sources claim the film came out in 1955 or “in the 1950s”. According to Frederico Pernambucano de Mello in Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020), the release year was 1959.

2.  Some of Abrahão’s photographs of the cangaceiros had been published as early as 1936, but all the negatives were confiscated in 1937.

3. The heads were taken from the Institute and properly buried on February 6, 1969.

Paulo Gil Soares had just finished working as an assistant director, production designer and dialogue writer in Glauber Rocha’s Black God, White Devil, when he went on to direct his first film: the documentary Memória do Cangaço (Memory of the Cangaço), which would be the first film of the Caravana Farkas. It is not an accident that it took an active stance when confronting its main subject, while avoiding both demonizing and mystifying the cangaço, and distancing itself from the style of sociological documentaries at the time.

It opens in a typically Northeastern setting; from the music of the opening credits to its first images, of a typical market in the Northeast of Brazil. The narrator tells a summarized account of the history of the cangaço, citing some famous cangaceiros and some myths concerning them, such as the idea that “they stole from the rich to give to the poor”. We proceed to the official version of history, via an interview with professor and medical doctor Estácio de Lima. The setting now is the “temple of knowledge” of the Faculty of Medicine of Bahia - complete with Greek columns. Despite the authority and knowledge we were told to expect, the professor’s explanation sounds so absurd it borders on accidental comedy. According to him, the geographical conditions and the “primitive” society alone could not fully explain the origin of the cangaço. The main cause was the activity of certain glands and the body type of the slim sertanejos. If this were a common documentary of that time, the professor would serve as its narrator - the “voice of reason”. But it isn’t. In a clever editing move, his explanation is set to a local man examining the teeth of a horse. A subtle dismissal of the professor’s Lombrosian reasoning.

That’s when our narrator - the filmmaker himself - comes in: “Is professor Estácio de Lima right?” On we go to some socioeconomic data: after an interview with a cowhand who, besides being subjected to injustice and harsh conditions his whole life, was thin (which, according to Lima, would have led him to become a cangaceiro), the narrator lists data to explain that "the sertanejo is a man left to his own devices": facing the absence of justice, illiteracy, low wages... Much more reasonable reasons for the violence in question than the pseudoscientific theory cited by the professor.

There is another moment when the narrator comes in to correct wrong info given by his interviewees. It’s when José Rufino recounts the gunfight when he killed Corisco. For the director, facts come first. But there is room here for inventive filmmaking, especially when folk poetry (cordel) is used in Rufino’s intro and outro, to describe Maria Bonita, and to show that Lampião himself was a poet.

Worthy of note are the testimonies of five characters of the history of cangaço. Besides José Rufino - a famous cangaceiro killer -, there are Benício Alves dos Santos, Ângelo Roque da Costa and Otília Maria de Jesus - all former cangaceiros under the names, respectively, of Saracura, Labareda and Otília. We’re shown a brief attempt of interviewing Sérgia Ribeiro - the former cangaceira Dadá - who shuns the film crew from her home. All former cangaceiros are asked the same questions, especially why they joined the cangaço. Their reasons were, for the men, wanting to avenge and defend the honor of family members, and for the women, being kidnapped by cangaceiros in their teenage years, and threatened with death if they refused to go. On that, Dadá says: “I followed Corisco because I was his wife, I obeyed my husband.” The exception was Maria Bonita, who, we’re shown, left her husband for Lampião. At another moment, Rufino states it was common for police officers to have joined the force merely as a means to avenge relatives who had been killed by cangaceiros.

Another point of interest are the excerpts from the documentary Lampião, o Rei do Cangaço (Alexandre Wulfes and Al Ghiu, 1959),1 the first film to make use of the footage2 shot by Benjamin Abrahão of Lampião’s gang in 1936, which had been confiscated and was unseen since 1937. However, the resulting film failed to understand the phenomenon of the cangaço - which is evidenced by its sensationalist and inaccurate narration.

In Memória, on the other hand, those five eyewitnesses paint an honest and blunt portrait of the brutality of those times, both by the hands of cangaceiros and police officers. Such brutality can be perceived in how Dadá refuses to be interviewed. And Benício admits to the camera that he hates talking about those times. Rivalries, gunfights, severed heads - seven of which were still exposed at the Nina Rodrigues Forensic Institute of Salvador, Bahia, at the time, and which we get to see up close3 - the film doesn’t avoid any subjects.

Other than that, there is a handful of info regarding the clothing, habits, food and organization of cangaceiros and police forces. We see gunshot wounds suffered by people on each side, we hear stories of gunfights, and curious episodes, such as those when Lampião invited Rufino to join his group of cangaceiros. To explain his refusal, Rufino draws a curious parallel between both quarrelling factions: “I didn’t want to join the cangaceiros or the police.” It is as if, to him, the real issue was “carrying a gun, spilling blood”, regardless whether he was on the side of the law or not.

Even though it was not the first documentary about cangaço - there are records of now-lost films made during the years when Lampião’s group was active, such as Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) and the docufiction Lampião, a Fera do Nordeste (1930) -, Memória do Cangaço was probably the first film that took an actively critical stance when looking at that topic. For all that, it is obligatory in cangaço studies, as well as Brazilian cinema.

1. Some sources claim the film came out in 1955 or “in the 1950s”. According to Frederico Pernambucano de Mello in Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (2020), the release year was 1959.

2.  Some of Abrahão’s photographs of the cangaceiros had been published as early as 1936, but all the negatives were confiscated in 1937.

3. The heads were taken from the Institute and properly buried on February 6, 1969.