PT/ENG
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20/5/2026
By/Por:
Lucas Zangirolami Bonetti

Moacir Santos (1926-2006) é uma figura única na história da música brasileira. Ele atuou como arranjador, compositor e regente no período áureo das rádios no Brasil, ajudando a moldar a sonoridade da música popular. A partir da década de 1950 ele se tornou professor de toda uma geração, que pela mesma época plantava as sementes da Bossa Nova. Entre seus alunos mais ilustres estão Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato e inúmeros outros. A atuação de Santos como compositor de cinema também é muito significativa, a música de Ganga Zumba (1964), por exemplo, é um marco histórico do audiovisual brasileiro. Em 1967 ele passou a residir nos Estados Unidos, onde continuou sua intensa produção artística, gravando discos por gravadoras como a Blue Note e a Discovery Records, compondo para cinema, além de prosseguir com sua atividade docente. A partir dos anos 1990, mas especialmente no início dos anos 2000, a obra de Santos viu enormes esforços de resgate. A gravação do álbum Ouro Negro, produzido por Mario Adnet e Ze Nogueira, além da publicação de 3 songbooks, trouxe definitivamente sua música para o repertório de músicos mais jovens e estimulou inúmeras pesquisas acadêmicas.

Ganga Zumba, dirigido por Cacá Diegues, é baseado no livro homônimo de João Felício dos Santos. O filme ilustra a fuga de Ganga Zumba, neto de Zumbi dos Palmares, desde o canavial onde era cativo até o Quilombo dos Palmares, em busca de liberdade. Antônio Pitanga é o protagonista, acompanhado de um elenco singular: Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola e Dona Zica. Além disso, o grupo de afoxé Filhos de Gandhy encena rituais típicos africanos e afro-brasileiros do período colonial.

Ganga Zumba é uma das mais importantes produções audiovisuais nas quais Santos atuou como compositor, impulsionado por sua grande afinidade com a narrativa, conceito e estética da produção. Essa trilha musical acabou se tornando também uma espécie de laboratório pré-Coisas, visto que grande parte das composições que integraram seu disco inaugural, em 1965, tomaram forma no âmbito da música do filme. É notável que a música de Santos para Ganga Zumba apresenta, de maneira geral, uma concepção harmônica e melódica prioritariamente modal em uma instrumentação que valoriza instrumentos de sopro e percussão, sonoridades que o acompanharam ao longo de sua carreira.

Uma cue muito interessante dentro da trilha musical de Ganga Zumba é o “tema do banzo”. O próprio compositor o categorizou dessa forma em seu caderno de anotações e apontamentos:

Figura 1 – Manuscrito de Moacir Santos com apontamentos para a trilha de Ganga Zumba. Caderno Pré-Coisas, c.1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber a relação desse tema com as possíveis definições da expressão banzo, possibilitando uma compreensão mais completa da trilha musical. As possíveis definições da palavra, segundo o Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, são:

Nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil. (...) Triste, abatido, pensativo. (...) Surpreendido, pasmado; sem jeito, sem graça. (...) Do quincongo mbanzu, pensamento, lembrança; ou do quimbundo mbonzo, saudade, paixão, mágoa (LOPES, 2006: 39).

Também era comum referir-se ao banzo como uma doença, pois muitos negros escravizados morriam com sintomas depressivos, como se banzo fosse uma forma de “depressão negra”. Portanto, as duas sequências em que o tema aparece fazem muito sentido com a origem etimológica do termo. Na primeira, Aroroba (Eliezer Gomes) está contando uma história sobre os negros na África e ela é representada por um flashback, como em um sonho, simbolizando essa saudade nostálgica de um tempo remoto que passou e não foi vivido por ele. Na segunda aparição do tema o personagem de Aroroba morre depois ter sido baleado durante a fuga do grupo em direção à Palmares.

Nos dois momentos em que o “tema do banzo” aparece no filme as inserções musicais são compostas pelo mesmo fonograma. Pequenos detalhes as diferenciam, a primeira tem uma finalização musical enquanto a segunda é interrompida por um fade out, além da segunda aparição apresentar um compasso extra na introdução. Os excertos também são compostos por quatro camadas; a melodia no corne inglês e fagote; uma “cama” harmônica de notas longas nas flautas e fagotes; uma frase grave em colcheias no violoncelo e clarone; e por fim, um ostinato percussivo de atabaques.

Figura 2 – Trecho inicial de “tema do banzo”, na primeira aparição, dentro da trilha musical de Ganga Zumba (1h 7m 23s).

Em seu caderno de apontamentos Santos enumerou o trecho inicial de cada uma das Coisas, quase que de forma a catalogar informalmente o material temático inicial de cada uma, com anotações adicionais de seus usos no cinema e em outras canções. A reprodução abaixo mostra a página em questão:

Figura 3 - Manuscrito de Moacir Santos com material temático das Coisas. Caderno Pré-Coisas, c. 1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber como a segunda coluna começa com uma “Coisa nº 11”, que não chegou a ser gravada para o disco Coisas. Essa música é, na verdade, o próprio “tema do banzo”, pois apresenta exatamente o mesmo motivo inicial. A única diferença é que esse motivo inicial (Dó menor) foi transposto em relação à gravação da trilha musical (Mib menor).

Figura 4 -  Motivo inicial da suposta “Coisa nº 11”, como grafado no caderno de apontamentos.

Infelizmente não pudemos encontrar nenhum outro registro da continuação dessa música enquanto “Coisa nº 11”, além do “tema do banzo”. Digo isso porque as músicas que apareceram previamente na trilha musical de Ganga Zumba e se consolidaram como faixas do disco Coisas apresentaram significativas mudanças de estrutura e arranjo, não podendo ser consideradas simplesmente como a mesma composição. De todo modo, o fato de sabermos que Moacir iniciou o processo de composição desta peça já é muito intrigante. É possível que a composição completa tenha sido finalizada e seja encontrada no futuro em um trabalho que pesquise diretamente outros manuscritos do compositor.

Por fim, pude gravar uma versão do “tema do banzo” dentro da faixa “Temas de Ganga Zumba”, lançada em 2020 no disco MOA pelo Ágar-Ágar Trio. Para saber mais sobre a pesquisa de maneira geral, convido a acessar o website bilíngue trilhasmoacirsantos.com.br e moacirsantosfilmscores.com, bem como minha dissertação de mestrado.

Referências

DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) é uma figura única na história da música brasileira. Ele atuou como arranjador, compositor e regente no período áureo das rádios no Brasil, ajudando a moldar a sonoridade da música popular. A partir da década de 1950 ele se tornou professor de toda uma geração, que pela mesma época plantava as sementes da Bossa Nova. Entre seus alunos mais ilustres estão Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato e inúmeros outros. A atuação de Santos como compositor de cinema também é muito significativa, a música de Ganga Zumba (1964), por exemplo, é um marco histórico do audiovisual brasileiro. Em 1967 ele passou a residir nos Estados Unidos, onde continuou sua intensa produção artística, gravando discos por gravadoras como a Blue Note e a Discovery Records, compondo para cinema, além de prosseguir com sua atividade docente. A partir dos anos 1990, mas especialmente no início dos anos 2000, a obra de Santos viu enormes esforços de resgate. A gravação do álbum Ouro Negro, produzido por Mario Adnet e Ze Nogueira, além da publicação de 3 songbooks, trouxe definitivamente sua música para o repertório de músicos mais jovens e estimulou inúmeras pesquisas acadêmicas.

Ganga Zumba, dirigido por Cacá Diegues, é baseado no livro homônimo de João Felício dos Santos. O filme ilustra a fuga de Ganga Zumba, neto de Zumbi dos Palmares, desde o canavial onde era cativo até o Quilombo dos Palmares, em busca de liberdade. Antônio Pitanga é o protagonista, acompanhado de um elenco singular: Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola e Dona Zica. Além disso, o grupo de afoxé Filhos de Gandhy encena rituais típicos africanos e afro-brasileiros do período colonial.

Ganga Zumba é uma das mais importantes produções audiovisuais nas quais Santos atuou como compositor, impulsionado por sua grande afinidade com a narrativa, conceito e estética da produção. Essa trilha musical acabou se tornando também uma espécie de laboratório pré-Coisas, visto que grande parte das composições que integraram seu disco inaugural, em 1965, tomaram forma no âmbito da música do filme. É notável que a música de Santos para Ganga Zumba apresenta, de maneira geral, uma concepção harmônica e melódica prioritariamente modal em uma instrumentação que valoriza instrumentos de sopro e percussão, sonoridades que o acompanharam ao longo de sua carreira.

Uma cue muito interessante dentro da trilha musical de Ganga Zumba é o “tema do banzo”. O próprio compositor o categorizou dessa forma em seu caderno de anotações e apontamentos:

Figura 1 – Manuscrito de Moacir Santos com apontamentos para a trilha de Ganga Zumba. Caderno Pré-Coisas, c.1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber a relação desse tema com as possíveis definições da expressão banzo, possibilitando uma compreensão mais completa da trilha musical. As possíveis definições da palavra, segundo o Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, são:

Nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil. (...) Triste, abatido, pensativo. (...) Surpreendido, pasmado; sem jeito, sem graça. (...) Do quincongo mbanzu, pensamento, lembrança; ou do quimbundo mbonzo, saudade, paixão, mágoa (LOPES, 2006: 39).

Também era comum referir-se ao banzo como uma doença, pois muitos negros escravizados morriam com sintomas depressivos, como se banzo fosse uma forma de “depressão negra”. Portanto, as duas sequências em que o tema aparece fazem muito sentido com a origem etimológica do termo. Na primeira, Aroroba (Eliezer Gomes) está contando uma história sobre os negros na África e ela é representada por um flashback, como em um sonho, simbolizando essa saudade nostálgica de um tempo remoto que passou e não foi vivido por ele. Na segunda aparição do tema o personagem de Aroroba morre depois ter sido baleado durante a fuga do grupo em direção à Palmares.

Nos dois momentos em que o “tema do banzo” aparece no filme as inserções musicais são compostas pelo mesmo fonograma. Pequenos detalhes as diferenciam, a primeira tem uma finalização musical enquanto a segunda é interrompida por um fade out, além da segunda aparição apresentar um compasso extra na introdução. Os excertos também são compostos por quatro camadas; a melodia no corne inglês e fagote; uma “cama” harmônica de notas longas nas flautas e fagotes; uma frase grave em colcheias no violoncelo e clarone; e por fim, um ostinato percussivo de atabaques.

Figura 2 – Trecho inicial de “tema do banzo”, na primeira aparição, dentro da trilha musical de Ganga Zumba (1h 7m 23s).

Em seu caderno de apontamentos Santos enumerou o trecho inicial de cada uma das Coisas, quase que de forma a catalogar informalmente o material temático inicial de cada uma, com anotações adicionais de seus usos no cinema e em outras canções. A reprodução abaixo mostra a página em questão:

Figura 3 - Manuscrito de Moacir Santos com material temático das Coisas. Caderno Pré-Coisas, c. 1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber como a segunda coluna começa com uma “Coisa nº 11”, que não chegou a ser gravada para o disco Coisas. Essa música é, na verdade, o próprio “tema do banzo”, pois apresenta exatamente o mesmo motivo inicial. A única diferença é que esse motivo inicial (Dó menor) foi transposto em relação à gravação da trilha musical (Mib menor).

Figura 4 -  Motivo inicial da suposta “Coisa nº 11”, como grafado no caderno de apontamentos.

Infelizmente não pudemos encontrar nenhum outro registro da continuação dessa música enquanto “Coisa nº 11”, além do “tema do banzo”. Digo isso porque as músicas que apareceram previamente na trilha musical de Ganga Zumba e se consolidaram como faixas do disco Coisas apresentaram significativas mudanças de estrutura e arranjo, não podendo ser consideradas simplesmente como a mesma composição. De todo modo, o fato de sabermos que Moacir iniciou o processo de composição desta peça já é muito intrigante. É possível que a composição completa tenha sido finalizada e seja encontrada no futuro em um trabalho que pesquise diretamente outros manuscritos do compositor.

Por fim, pude gravar uma versão do “tema do banzo” dentro da faixa “Temas de Ganga Zumba”, lançada em 2020 no disco MOA pelo Ágar-Ágar Trio. Para saber mais sobre a pesquisa de maneira geral, convido a acessar o website bilíngue trilhasmoacirsantos.com.br e moacirsantosfilmscores.com, bem como minha dissertação de mestrado.

Referências

DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) is a singular figure in the history of Brazilian music. He worked as an arranger, composer, and conductor during the golden age of radio in Brazil, helping to shape the sound of popular music. Beginning in the 1950s, he became the teacher of an entire generation that, around the same time, was planting the seeds of Bossa Nova. Among his most illustrious students were Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato, and countless others. Santos’s work as a film composer was also highly significant. His score for Ganga Zumba (1964), for example, is a landmark in the history of Brazilian audiovisual. In 1967, he moved to the United States, where he continued his intense artistic production, recording albums for labels such as Blue Note and Discovery Records, composing for cinema, and maintaining his teaching practice. Beginning in the 1990s, and especially in the early 2000s, major efforts were made to recover and promote Santos’s work. The recording of the album Ouro Negro, produced by Mario Adnet and Zé Nogueira, along with the publication of three songbooks, definitively brought his music into the repertoire of younger musicians and encouraged numerous academic studies.

Ganga Zumba, directed by Cacá Diegues, is based on João Felício dos Santos’s book of the same name. The film depicts the escape of Ganga Zumba, grandson of Zumbi dos Palmares, from the sugarcane plantation where he was enslaved to the Quilombo dos Palmares, in search of freedom. Antônio Pitanga plays the protagonist, alongside a remarkable cast that includes Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola, and Dona Zica. The afoxé group Filhos de Gandhy also performs African and Afro-Brazilian rituals typical of the colonial period.

Ganga Zumba is one of the most important audiovisual productions for which Santos worked as a composer, driven by his strong affinity with the film’s narrative, concept, and aesthetic. The score also became a kind of pre-Coisas laboratory, since many of the compositions included on his debut album, released in 1965, took shape within the context of the film’s music. It is notable that Santos’s music for Ganga Zumba generally presents a primarily modal harmonic and melodic conception, with instrumentation that emphasizes wind instruments and percussion, sonorities that would accompany him throughout his career.

A particularly interesting cue within the score of Ganga Zumba is the “theme of banzo.” The composer himself categorized it this way in his notebook of notes and sketches:

Figure 1 – Moacir Santos manuscript with notes for the score of Ganga Zumba. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to consider the relationship between this theme and the possible definitions of the term banzo, which allows for a more complete understanding of the score. According to Nei Lopes’s Novo Dicionário Banto do Brasil, the possible definitions of the word are:

A fatal nostalgia that afflicted enslaved Black Africans in Brazil. (...) Sad, dejected, pensive. (...) Surprised, stunned; awkward, embarrassed. (...) From the Kikongo mbanzu, thought, memory; or from the Kimbundu mbonzo, longing, passion, grief (LOPES, 2006: 39).

Banzo was also commonly referred to as an illness, since many enslaved Black people died with depressive symptoms, as if banzo were a form of “Black depression.” The two sequences in which the theme appears therefore make a great deal of sense in relation to the term’s etymological origin. In the first, Aroroba (Eliezer Gomes) is telling a story about Black people in Africa, which is represented through a flashback, as if in a dream, symbolizing this nostalgic longing for a remote time that has passed and that he himself did not experience. In the theme’s second appearance, the character Aroroba dies after being shot during the group’s flight toward Palmares.

In both moments in which the “theme of banzo” appears in the film, the musical insertions are composed of the same phonogram. Small details distinguish them: the first has a musical ending, while the second is interrupted by a fade-out; the second appearance also includes an extra measure in the introduction. The excerpts are also composed of four layers: the melody in the English horn and bassoon; a harmonic “bed” of sustained notes in the flutes and bassoons; a low phrase in eighth notes in the cello and bass clarinet; and, finally, a percussive ostinato played on atabaques.

Figure 2 – Opening excerpt of the “theme of banzo,” in its first appearance within the score of Ganga Zumba (1h 7m 23s).

In his notebook, Santos numbered the opening excerpt of each of the Coisas, almost as a way of informally cataloguing their initial thematic material, with additional notes on their uses in cinema and in other songs. The reproduction below shows the page in question:

Figure 3 – Moacir Santos manuscript containing thematic material from the Coisas. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to note how the second column begins with a “Coisa No. 11,” which was not ultimately recorded for the album Coisas. This piece is, in fact, the “theme of banzo” itself, since it presents exactly the same opening motif. The only difference is that this opening motif, in C minor, was transposed in relation to the recording of the score, in E-flat minor.

Figure 4 – Opening motif of the supposed “Coisa No. 11,” as written in the notebook.

Unfortunately, we were unable to find any other record of the continuation of this piece as “Coisa No. 11,” apart from the “theme of banzo.” I say this because the pieces that had previously appeared in the score of Ganga Zumba and were later consolidated as tracks on the album Coisas underwent significant changes in structure and arrangement, meaning that they cannot simply be considered the same composition. In any case, the fact that we know Moacir began the compositional process for this piece is already highly intriguing. It is possible that the complete composition was finished and may be found in the future through research focused directly on other manuscripts by the composer.

Finally, I was able to record a version of the “theme of banzo” within the track “Themes from Ganga Zumba,” released in 2020 on the album MOA by the Ágar-Ágar Trio. To learn more about the research as a whole, I invite readers to visit the bilingual websites trilhasmoacirsantos.com.br and moacirsantosfilmscores.com, as well as my master’s thesis.

References:


DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) is a singular figure in the history of Brazilian music. He worked as an arranger, composer, and conductor during the golden age of radio in Brazil, helping to shape the sound of popular music. Beginning in the 1950s, he became the teacher of an entire generation that, around the same time, was planting the seeds of Bossa Nova. Among his most illustrious students were Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato, and countless others. Santos’s work as a film composer was also highly significant. His score for Ganga Zumba (1964), for example, is a landmark in the history of Brazilian audiovisual. In 1967, he moved to the United States, where he continued his intense artistic production, recording albums for labels such as Blue Note and Discovery Records, composing for cinema, and maintaining his teaching practice. Beginning in the 1990s, and especially in the early 2000s, major efforts were made to recover and promote Santos’s work. The recording of the album Ouro Negro, produced by Mario Adnet and Zé Nogueira, along with the publication of three songbooks, definitively brought his music into the repertoire of younger musicians and encouraged numerous academic studies.

Ganga Zumba, directed by Cacá Diegues, is based on João Felício dos Santos’s book of the same name. The film depicts the escape of Ganga Zumba, grandson of Zumbi dos Palmares, from the sugarcane plantation where he was enslaved to the Quilombo dos Palmares, in search of freedom. Antônio Pitanga plays the protagonist, alongside a remarkable cast that includes Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola, and Dona Zica. The afoxé group Filhos de Gandhy also performs African and Afro-Brazilian rituals typical of the colonial period.

Ganga Zumba is one of the most important audiovisual productions for which Santos worked as a composer, driven by his strong affinity with the film’s narrative, concept, and aesthetic. The score also became a kind of pre-Coisas laboratory, since many of the compositions included on his debut album, released in 1965, took shape within the context of the film’s music. It is notable that Santos’s music for Ganga Zumba generally presents a primarily modal harmonic and melodic conception, with instrumentation that emphasizes wind instruments and percussion, sonorities that would accompany him throughout his career.

A particularly interesting cue within the score of Ganga Zumba is the “theme of banzo.” The composer himself categorized it this way in his notebook of notes and sketches:

Figure 1 – Moacir Santos manuscript with notes for the score of Ganga Zumba. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to consider the relationship between this theme and the possible definitions of the term banzo, which allows for a more complete understanding of the score. According to Nei Lopes’s Novo Dicionário Banto do Brasil, the possible definitions of the word are:

A fatal nostalgia that afflicted enslaved Black Africans in Brazil. (...) Sad, dejected, pensive. (...) Surprised, stunned; awkward, embarrassed. (...) From the Kikongo mbanzu, thought, memory; or from the Kimbundu mbonzo, longing, passion, grief (LOPES, 2006: 39).

Banzo was also commonly referred to as an illness, since many enslaved Black people died with depressive symptoms, as if banzo were a form of “Black depression.” The two sequences in which the theme appears therefore make a great deal of sense in relation to the term’s etymological origin. In the first, Aroroba (Eliezer Gomes) is telling a story about Black people in Africa, which is represented through a flashback, as if in a dream, symbolizing this nostalgic longing for a remote time that has passed and that he himself did not experience. In the theme’s second appearance, the character Aroroba dies after being shot during the group’s flight toward Palmares.

In both moments in which the “theme of banzo” appears in the film, the musical insertions are composed of the same phonogram. Small details distinguish them: the first has a musical ending, while the second is interrupted by a fade-out; the second appearance also includes an extra measure in the introduction. The excerpts are also composed of four layers: the melody in the English horn and bassoon; a harmonic “bed” of sustained notes in the flutes and bassoons; a low phrase in eighth notes in the cello and bass clarinet; and, finally, a percussive ostinato played on atabaques.

Figure 2 – Opening excerpt of the “theme of banzo,” in its first appearance within the score of Ganga Zumba (1h 7m 23s).

In his notebook, Santos numbered the opening excerpt of each of the Coisas, almost as a way of informally cataloguing their initial thematic material, with additional notes on their uses in cinema and in other songs. The reproduction below shows the page in question:

Figure 3 – Moacir Santos manuscript containing thematic material from the Coisas. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to note how the second column begins with a “Coisa No. 11,” which was not ultimately recorded for the album Coisas. This piece is, in fact, the “theme of banzo” itself, since it presents exactly the same opening motif. The only difference is that this opening motif, in C minor, was transposed in relation to the recording of the score, in E-flat minor.

Figure 4 – Opening motif of the supposed “Coisa No. 11,” as written in the notebook.

Unfortunately, we were unable to find any other record of the continuation of this piece as “Coisa No. 11,” apart from the “theme of banzo.” I say this because the pieces that had previously appeared in the score of Ganga Zumba and were later consolidated as tracks on the album Coisas underwent significant changes in structure and arrangement, meaning that they cannot simply be considered the same composition. In any case, the fact that we know Moacir began the compositional process for this piece is already highly intriguing. It is possible that the complete composition was finished and may be found in the future through research focused directly on other manuscripts by the composer.

Finally, I was able to record a version of the “theme of banzo” within the track “Themes from Ganga Zumba,” released in 2020 on the album MOA by the Ágar-Ágar Trio. To learn more about the research as a whole, I invite readers to visit the bilingual websites trilhasmoacirsantos.com.br and moacirsantosfilmscores.com, as well as my master’s thesis.

PT/ENG
PT/ENG
20/5/2026
By/Por:
Lucas Zangirolami Bonetti

Moacir Santos (1926-2006) é uma figura única na história da música brasileira. Ele atuou como arranjador, compositor e regente no período áureo das rádios no Brasil, ajudando a moldar a sonoridade da música popular. A partir da década de 1950 ele se tornou professor de toda uma geração, que pela mesma época plantava as sementes da Bossa Nova. Entre seus alunos mais ilustres estão Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato e inúmeros outros. A atuação de Santos como compositor de cinema também é muito significativa, a música de Ganga Zumba (1964), por exemplo, é um marco histórico do audiovisual brasileiro. Em 1967 ele passou a residir nos Estados Unidos, onde continuou sua intensa produção artística, gravando discos por gravadoras como a Blue Note e a Discovery Records, compondo para cinema, além de prosseguir com sua atividade docente. A partir dos anos 1990, mas especialmente no início dos anos 2000, a obra de Santos viu enormes esforços de resgate. A gravação do álbum Ouro Negro, produzido por Mario Adnet e Ze Nogueira, além da publicação de 3 songbooks, trouxe definitivamente sua música para o repertório de músicos mais jovens e estimulou inúmeras pesquisas acadêmicas.

Ganga Zumba, dirigido por Cacá Diegues, é baseado no livro homônimo de João Felício dos Santos. O filme ilustra a fuga de Ganga Zumba, neto de Zumbi dos Palmares, desde o canavial onde era cativo até o Quilombo dos Palmares, em busca de liberdade. Antônio Pitanga é o protagonista, acompanhado de um elenco singular: Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola e Dona Zica. Além disso, o grupo de afoxé Filhos de Gandhy encena rituais típicos africanos e afro-brasileiros do período colonial.

Ganga Zumba é uma das mais importantes produções audiovisuais nas quais Santos atuou como compositor, impulsionado por sua grande afinidade com a narrativa, conceito e estética da produção. Essa trilha musical acabou se tornando também uma espécie de laboratório pré-Coisas, visto que grande parte das composições que integraram seu disco inaugural, em 1965, tomaram forma no âmbito da música do filme. É notável que a música de Santos para Ganga Zumba apresenta, de maneira geral, uma concepção harmônica e melódica prioritariamente modal em uma instrumentação que valoriza instrumentos de sopro e percussão, sonoridades que o acompanharam ao longo de sua carreira.

Uma cue muito interessante dentro da trilha musical de Ganga Zumba é o “tema do banzo”. O próprio compositor o categorizou dessa forma em seu caderno de anotações e apontamentos:

Figura 1 – Manuscrito de Moacir Santos com apontamentos para a trilha de Ganga Zumba. Caderno Pré-Coisas, c.1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber a relação desse tema com as possíveis definições da expressão banzo, possibilitando uma compreensão mais completa da trilha musical. As possíveis definições da palavra, segundo o Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, são:

Nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil. (...) Triste, abatido, pensativo. (...) Surpreendido, pasmado; sem jeito, sem graça. (...) Do quincongo mbanzu, pensamento, lembrança; ou do quimbundo mbonzo, saudade, paixão, mágoa (LOPES, 2006: 39).

Também era comum referir-se ao banzo como uma doença, pois muitos negros escravizados morriam com sintomas depressivos, como se banzo fosse uma forma de “depressão negra”. Portanto, as duas sequências em que o tema aparece fazem muito sentido com a origem etimológica do termo. Na primeira, Aroroba (Eliezer Gomes) está contando uma história sobre os negros na África e ela é representada por um flashback, como em um sonho, simbolizando essa saudade nostálgica de um tempo remoto que passou e não foi vivido por ele. Na segunda aparição do tema o personagem de Aroroba morre depois ter sido baleado durante a fuga do grupo em direção à Palmares.

Nos dois momentos em que o “tema do banzo” aparece no filme as inserções musicais são compostas pelo mesmo fonograma. Pequenos detalhes as diferenciam, a primeira tem uma finalização musical enquanto a segunda é interrompida por um fade out, além da segunda aparição apresentar um compasso extra na introdução. Os excertos também são compostos por quatro camadas; a melodia no corne inglês e fagote; uma “cama” harmônica de notas longas nas flautas e fagotes; uma frase grave em colcheias no violoncelo e clarone; e por fim, um ostinato percussivo de atabaques.

Figura 2 – Trecho inicial de “tema do banzo”, na primeira aparição, dentro da trilha musical de Ganga Zumba (1h 7m 23s).

Em seu caderno de apontamentos Santos enumerou o trecho inicial de cada uma das Coisas, quase que de forma a catalogar informalmente o material temático inicial de cada uma, com anotações adicionais de seus usos no cinema e em outras canções. A reprodução abaixo mostra a página em questão:

Figura 3 - Manuscrito de Moacir Santos com material temático das Coisas. Caderno Pré-Coisas, c. 1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber como a segunda coluna começa com uma “Coisa nº 11”, que não chegou a ser gravada para o disco Coisas. Essa música é, na verdade, o próprio “tema do banzo”, pois apresenta exatamente o mesmo motivo inicial. A única diferença é que esse motivo inicial (Dó menor) foi transposto em relação à gravação da trilha musical (Mib menor).

Figura 4 -  Motivo inicial da suposta “Coisa nº 11”, como grafado no caderno de apontamentos.

Infelizmente não pudemos encontrar nenhum outro registro da continuação dessa música enquanto “Coisa nº 11”, além do “tema do banzo”. Digo isso porque as músicas que apareceram previamente na trilha musical de Ganga Zumba e se consolidaram como faixas do disco Coisas apresentaram significativas mudanças de estrutura e arranjo, não podendo ser consideradas simplesmente como a mesma composição. De todo modo, o fato de sabermos que Moacir iniciou o processo de composição desta peça já é muito intrigante. É possível que a composição completa tenha sido finalizada e seja encontrada no futuro em um trabalho que pesquise diretamente outros manuscritos do compositor.

Por fim, pude gravar uma versão do “tema do banzo” dentro da faixa “Temas de Ganga Zumba”, lançada em 2020 no disco MOA pelo Ágar-Ágar Trio. Para saber mais sobre a pesquisa de maneira geral, convido a acessar o website bilíngue trilhasmoacirsantos.com.br e moacirsantosfilmscores.com, bem como minha dissertação de mestrado.

Referências

DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) é uma figura única na história da música brasileira. Ele atuou como arranjador, compositor e regente no período áureo das rádios no Brasil, ajudando a moldar a sonoridade da música popular. A partir da década de 1950 ele se tornou professor de toda uma geração, que pela mesma época plantava as sementes da Bossa Nova. Entre seus alunos mais ilustres estão Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato e inúmeros outros. A atuação de Santos como compositor de cinema também é muito significativa, a música de Ganga Zumba (1964), por exemplo, é um marco histórico do audiovisual brasileiro. Em 1967 ele passou a residir nos Estados Unidos, onde continuou sua intensa produção artística, gravando discos por gravadoras como a Blue Note e a Discovery Records, compondo para cinema, além de prosseguir com sua atividade docente. A partir dos anos 1990, mas especialmente no início dos anos 2000, a obra de Santos viu enormes esforços de resgate. A gravação do álbum Ouro Negro, produzido por Mario Adnet e Ze Nogueira, além da publicação de 3 songbooks, trouxe definitivamente sua música para o repertório de músicos mais jovens e estimulou inúmeras pesquisas acadêmicas.

Ganga Zumba, dirigido por Cacá Diegues, é baseado no livro homônimo de João Felício dos Santos. O filme ilustra a fuga de Ganga Zumba, neto de Zumbi dos Palmares, desde o canavial onde era cativo até o Quilombo dos Palmares, em busca de liberdade. Antônio Pitanga é o protagonista, acompanhado de um elenco singular: Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola e Dona Zica. Além disso, o grupo de afoxé Filhos de Gandhy encena rituais típicos africanos e afro-brasileiros do período colonial.

Ganga Zumba é uma das mais importantes produções audiovisuais nas quais Santos atuou como compositor, impulsionado por sua grande afinidade com a narrativa, conceito e estética da produção. Essa trilha musical acabou se tornando também uma espécie de laboratório pré-Coisas, visto que grande parte das composições que integraram seu disco inaugural, em 1965, tomaram forma no âmbito da música do filme. É notável que a música de Santos para Ganga Zumba apresenta, de maneira geral, uma concepção harmônica e melódica prioritariamente modal em uma instrumentação que valoriza instrumentos de sopro e percussão, sonoridades que o acompanharam ao longo de sua carreira.

Uma cue muito interessante dentro da trilha musical de Ganga Zumba é o “tema do banzo”. O próprio compositor o categorizou dessa forma em seu caderno de anotações e apontamentos:

Figura 1 – Manuscrito de Moacir Santos com apontamentos para a trilha de Ganga Zumba. Caderno Pré-Coisas, c.1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber a relação desse tema com as possíveis definições da expressão banzo, possibilitando uma compreensão mais completa da trilha musical. As possíveis definições da palavra, segundo o Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, são:

Nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil. (...) Triste, abatido, pensativo. (...) Surpreendido, pasmado; sem jeito, sem graça. (...) Do quincongo mbanzu, pensamento, lembrança; ou do quimbundo mbonzo, saudade, paixão, mágoa (LOPES, 2006: 39).

Também era comum referir-se ao banzo como uma doença, pois muitos negros escravizados morriam com sintomas depressivos, como se banzo fosse uma forma de “depressão negra”. Portanto, as duas sequências em que o tema aparece fazem muito sentido com a origem etimológica do termo. Na primeira, Aroroba (Eliezer Gomes) está contando uma história sobre os negros na África e ela é representada por um flashback, como em um sonho, simbolizando essa saudade nostálgica de um tempo remoto que passou e não foi vivido por ele. Na segunda aparição do tema o personagem de Aroroba morre depois ter sido baleado durante a fuga do grupo em direção à Palmares.

Nos dois momentos em que o “tema do banzo” aparece no filme as inserções musicais são compostas pelo mesmo fonograma. Pequenos detalhes as diferenciam, a primeira tem uma finalização musical enquanto a segunda é interrompida por um fade out, além da segunda aparição apresentar um compasso extra na introdução. Os excertos também são compostos por quatro camadas; a melodia no corne inglês e fagote; uma “cama” harmônica de notas longas nas flautas e fagotes; uma frase grave em colcheias no violoncelo e clarone; e por fim, um ostinato percussivo de atabaques.

Figura 2 – Trecho inicial de “tema do banzo”, na primeira aparição, dentro da trilha musical de Ganga Zumba (1h 7m 23s).

Em seu caderno de apontamentos Santos enumerou o trecho inicial de cada uma das Coisas, quase que de forma a catalogar informalmente o material temático inicial de cada uma, com anotações adicionais de seus usos no cinema e em outras canções. A reprodução abaixo mostra a página em questão:

Figura 3 - Manuscrito de Moacir Santos com material temático das Coisas. Caderno Pré-Coisas, c. 1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber como a segunda coluna começa com uma “Coisa nº 11”, que não chegou a ser gravada para o disco Coisas. Essa música é, na verdade, o próprio “tema do banzo”, pois apresenta exatamente o mesmo motivo inicial. A única diferença é que esse motivo inicial (Dó menor) foi transposto em relação à gravação da trilha musical (Mib menor).

Figura 4 -  Motivo inicial da suposta “Coisa nº 11”, como grafado no caderno de apontamentos.

Infelizmente não pudemos encontrar nenhum outro registro da continuação dessa música enquanto “Coisa nº 11”, além do “tema do banzo”. Digo isso porque as músicas que apareceram previamente na trilha musical de Ganga Zumba e se consolidaram como faixas do disco Coisas apresentaram significativas mudanças de estrutura e arranjo, não podendo ser consideradas simplesmente como a mesma composição. De todo modo, o fato de sabermos que Moacir iniciou o processo de composição desta peça já é muito intrigante. É possível que a composição completa tenha sido finalizada e seja encontrada no futuro em um trabalho que pesquise diretamente outros manuscritos do compositor.

Por fim, pude gravar uma versão do “tema do banzo” dentro da faixa “Temas de Ganga Zumba”, lançada em 2020 no disco MOA pelo Ágar-Ágar Trio. Para saber mais sobre a pesquisa de maneira geral, convido a acessar o website bilíngue trilhasmoacirsantos.com.br e moacirsantosfilmscores.com, bem como minha dissertação de mestrado.

Referências

DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) is a singular figure in the history of Brazilian music. He worked as an arranger, composer, and conductor during the golden age of radio in Brazil, helping to shape the sound of popular music. Beginning in the 1950s, he became the teacher of an entire generation that, around the same time, was planting the seeds of Bossa Nova. Among his most illustrious students were Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato, and countless others. Santos’s work as a film composer was also highly significant. His score for Ganga Zumba (1964), for example, is a landmark in the history of Brazilian audiovisual. In 1967, he moved to the United States, where he continued his intense artistic production, recording albums for labels such as Blue Note and Discovery Records, composing for cinema, and maintaining his teaching practice. Beginning in the 1990s, and especially in the early 2000s, major efforts were made to recover and promote Santos’s work. The recording of the album Ouro Negro, produced by Mario Adnet and Zé Nogueira, along with the publication of three songbooks, definitively brought his music into the repertoire of younger musicians and encouraged numerous academic studies.

Ganga Zumba, directed by Cacá Diegues, is based on João Felício dos Santos’s book of the same name. The film depicts the escape of Ganga Zumba, grandson of Zumbi dos Palmares, from the sugarcane plantation where he was enslaved to the Quilombo dos Palmares, in search of freedom. Antônio Pitanga plays the protagonist, alongside a remarkable cast that includes Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola, and Dona Zica. The afoxé group Filhos de Gandhy also performs African and Afro-Brazilian rituals typical of the colonial period.

Ganga Zumba is one of the most important audiovisual productions for which Santos worked as a composer, driven by his strong affinity with the film’s narrative, concept, and aesthetic. The score also became a kind of pre-Coisas laboratory, since many of the compositions included on his debut album, released in 1965, took shape within the context of the film’s music. It is notable that Santos’s music for Ganga Zumba generally presents a primarily modal harmonic and melodic conception, with instrumentation that emphasizes wind instruments and percussion, sonorities that would accompany him throughout his career.

A particularly interesting cue within the score of Ganga Zumba is the “theme of banzo.” The composer himself categorized it this way in his notebook of notes and sketches:

Figure 1 – Moacir Santos manuscript with notes for the score of Ganga Zumba. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to consider the relationship between this theme and the possible definitions of the term banzo, which allows for a more complete understanding of the score. According to Nei Lopes’s Novo Dicionário Banto do Brasil, the possible definitions of the word are:

A fatal nostalgia that afflicted enslaved Black Africans in Brazil. (...) Sad, dejected, pensive. (...) Surprised, stunned; awkward, embarrassed. (...) From the Kikongo mbanzu, thought, memory; or from the Kimbundu mbonzo, longing, passion, grief (LOPES, 2006: 39).

Banzo was also commonly referred to as an illness, since many enslaved Black people died with depressive symptoms, as if banzo were a form of “Black depression.” The two sequences in which the theme appears therefore make a great deal of sense in relation to the term’s etymological origin. In the first, Aroroba (Eliezer Gomes) is telling a story about Black people in Africa, which is represented through a flashback, as if in a dream, symbolizing this nostalgic longing for a remote time that has passed and that he himself did not experience. In the theme’s second appearance, the character Aroroba dies after being shot during the group’s flight toward Palmares.

In both moments in which the “theme of banzo” appears in the film, the musical insertions are composed of the same phonogram. Small details distinguish them: the first has a musical ending, while the second is interrupted by a fade-out; the second appearance also includes an extra measure in the introduction. The excerpts are also composed of four layers: the melody in the English horn and bassoon; a harmonic “bed” of sustained notes in the flutes and bassoons; a low phrase in eighth notes in the cello and bass clarinet; and, finally, a percussive ostinato played on atabaques.

Figure 2 – Opening excerpt of the “theme of banzo,” in its first appearance within the score of Ganga Zumba (1h 7m 23s).

In his notebook, Santos numbered the opening excerpt of each of the Coisas, almost as a way of informally cataloguing their initial thematic material, with additional notes on their uses in cinema and in other songs. The reproduction below shows the page in question:

Figure 3 – Moacir Santos manuscript containing thematic material from the Coisas. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to note how the second column begins with a “Coisa No. 11,” which was not ultimately recorded for the album Coisas. This piece is, in fact, the “theme of banzo” itself, since it presents exactly the same opening motif. The only difference is that this opening motif, in C minor, was transposed in relation to the recording of the score, in E-flat minor.

Figure 4 – Opening motif of the supposed “Coisa No. 11,” as written in the notebook.

Unfortunately, we were unable to find any other record of the continuation of this piece as “Coisa No. 11,” apart from the “theme of banzo.” I say this because the pieces that had previously appeared in the score of Ganga Zumba and were later consolidated as tracks on the album Coisas underwent significant changes in structure and arrangement, meaning that they cannot simply be considered the same composition. In any case, the fact that we know Moacir began the compositional process for this piece is already highly intriguing. It is possible that the complete composition was finished and may be found in the future through research focused directly on other manuscripts by the composer.

Finally, I was able to record a version of the “theme of banzo” within the track “Themes from Ganga Zumba,” released in 2020 on the album MOA by the Ágar-Ágar Trio. To learn more about the research as a whole, I invite readers to visit the bilingual websites trilhasmoacirsantos.com.br and moacirsantosfilmscores.com, as well as my master’s thesis.

References:


DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) is a singular figure in the history of Brazilian music. He worked as an arranger, composer, and conductor during the golden age of radio in Brazil, helping to shape the sound of popular music. Beginning in the 1950s, he became the teacher of an entire generation that, around the same time, was planting the seeds of Bossa Nova. Among his most illustrious students were Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato, and countless others. Santos’s work as a film composer was also highly significant. His score for Ganga Zumba (1964), for example, is a landmark in the history of Brazilian audiovisual. In 1967, he moved to the United States, where he continued his intense artistic production, recording albums for labels such as Blue Note and Discovery Records, composing for cinema, and maintaining his teaching practice. Beginning in the 1990s, and especially in the early 2000s, major efforts were made to recover and promote Santos’s work. The recording of the album Ouro Negro, produced by Mario Adnet and Zé Nogueira, along with the publication of three songbooks, definitively brought his music into the repertoire of younger musicians and encouraged numerous academic studies.

Ganga Zumba, directed by Cacá Diegues, is based on João Felício dos Santos’s book of the same name. The film depicts the escape of Ganga Zumba, grandson of Zumbi dos Palmares, from the sugarcane plantation where he was enslaved to the Quilombo dos Palmares, in search of freedom. Antônio Pitanga plays the protagonist, alongside a remarkable cast that includes Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola, and Dona Zica. The afoxé group Filhos de Gandhy also performs African and Afro-Brazilian rituals typical of the colonial period.

Ganga Zumba is one of the most important audiovisual productions for which Santos worked as a composer, driven by his strong affinity with the film’s narrative, concept, and aesthetic. The score also became a kind of pre-Coisas laboratory, since many of the compositions included on his debut album, released in 1965, took shape within the context of the film’s music. It is notable that Santos’s music for Ganga Zumba generally presents a primarily modal harmonic and melodic conception, with instrumentation that emphasizes wind instruments and percussion, sonorities that would accompany him throughout his career.

A particularly interesting cue within the score of Ganga Zumba is the “theme of banzo.” The composer himself categorized it this way in his notebook of notes and sketches:

Figure 1 – Moacir Santos manuscript with notes for the score of Ganga Zumba. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to consider the relationship between this theme and the possible definitions of the term banzo, which allows for a more complete understanding of the score. According to Nei Lopes’s Novo Dicionário Banto do Brasil, the possible definitions of the word are:

A fatal nostalgia that afflicted enslaved Black Africans in Brazil. (...) Sad, dejected, pensive. (...) Surprised, stunned; awkward, embarrassed. (...) From the Kikongo mbanzu, thought, memory; or from the Kimbundu mbonzo, longing, passion, grief (LOPES, 2006: 39).

Banzo was also commonly referred to as an illness, since many enslaved Black people died with depressive symptoms, as if banzo were a form of “Black depression.” The two sequences in which the theme appears therefore make a great deal of sense in relation to the term’s etymological origin. In the first, Aroroba (Eliezer Gomes) is telling a story about Black people in Africa, which is represented through a flashback, as if in a dream, symbolizing this nostalgic longing for a remote time that has passed and that he himself did not experience. In the theme’s second appearance, the character Aroroba dies after being shot during the group’s flight toward Palmares.

In both moments in which the “theme of banzo” appears in the film, the musical insertions are composed of the same phonogram. Small details distinguish them: the first has a musical ending, while the second is interrupted by a fade-out; the second appearance also includes an extra measure in the introduction. The excerpts are also composed of four layers: the melody in the English horn and bassoon; a harmonic “bed” of sustained notes in the flutes and bassoons; a low phrase in eighth notes in the cello and bass clarinet; and, finally, a percussive ostinato played on atabaques.

Figure 2 – Opening excerpt of the “theme of banzo,” in its first appearance within the score of Ganga Zumba (1h 7m 23s).

In his notebook, Santos numbered the opening excerpt of each of the Coisas, almost as a way of informally cataloguing their initial thematic material, with additional notes on their uses in cinema and in other songs. The reproduction below shows the page in question:

Figure 3 – Moacir Santos manuscript containing thematic material from the Coisas. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to note how the second column begins with a “Coisa No. 11,” which was not ultimately recorded for the album Coisas. This piece is, in fact, the “theme of banzo” itself, since it presents exactly the same opening motif. The only difference is that this opening motif, in C minor, was transposed in relation to the recording of the score, in E-flat minor.

Figure 4 – Opening motif of the supposed “Coisa No. 11,” as written in the notebook.

Unfortunately, we were unable to find any other record of the continuation of this piece as “Coisa No. 11,” apart from the “theme of banzo.” I say this because the pieces that had previously appeared in the score of Ganga Zumba and were later consolidated as tracks on the album Coisas underwent significant changes in structure and arrangement, meaning that they cannot simply be considered the same composition. In any case, the fact that we know Moacir began the compositional process for this piece is already highly intriguing. It is possible that the complete composition was finished and may be found in the future through research focused directly on other manuscripts by the composer.

Finally, I was able to record a version of the “theme of banzo” within the track “Themes from Ganga Zumba,” released in 2020 on the album MOA by the Ágar-Ágar Trio. To learn more about the research as a whole, I invite readers to visit the bilingual websites trilhasmoacirsantos.com.br and moacirsantosfilmscores.com, as well as my master’s thesis.

PT/ENG
PT/ENG
20/5/2026
By/Por:
Lucas Zangirolami Bonetti

Moacir Santos (1926-2006) é uma figura única na história da música brasileira. Ele atuou como arranjador, compositor e regente no período áureo das rádios no Brasil, ajudando a moldar a sonoridade da música popular. A partir da década de 1950 ele se tornou professor de toda uma geração, que pela mesma época plantava as sementes da Bossa Nova. Entre seus alunos mais ilustres estão Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato e inúmeros outros. A atuação de Santos como compositor de cinema também é muito significativa, a música de Ganga Zumba (1964), por exemplo, é um marco histórico do audiovisual brasileiro. Em 1967 ele passou a residir nos Estados Unidos, onde continuou sua intensa produção artística, gravando discos por gravadoras como a Blue Note e a Discovery Records, compondo para cinema, além de prosseguir com sua atividade docente. A partir dos anos 1990, mas especialmente no início dos anos 2000, a obra de Santos viu enormes esforços de resgate. A gravação do álbum Ouro Negro, produzido por Mario Adnet e Ze Nogueira, além da publicação de 3 songbooks, trouxe definitivamente sua música para o repertório de músicos mais jovens e estimulou inúmeras pesquisas acadêmicas.

Ganga Zumba, dirigido por Cacá Diegues, é baseado no livro homônimo de João Felício dos Santos. O filme ilustra a fuga de Ganga Zumba, neto de Zumbi dos Palmares, desde o canavial onde era cativo até o Quilombo dos Palmares, em busca de liberdade. Antônio Pitanga é o protagonista, acompanhado de um elenco singular: Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola e Dona Zica. Além disso, o grupo de afoxé Filhos de Gandhy encena rituais típicos africanos e afro-brasileiros do período colonial.

Ganga Zumba é uma das mais importantes produções audiovisuais nas quais Santos atuou como compositor, impulsionado por sua grande afinidade com a narrativa, conceito e estética da produção. Essa trilha musical acabou se tornando também uma espécie de laboratório pré-Coisas, visto que grande parte das composições que integraram seu disco inaugural, em 1965, tomaram forma no âmbito da música do filme. É notável que a música de Santos para Ganga Zumba apresenta, de maneira geral, uma concepção harmônica e melódica prioritariamente modal em uma instrumentação que valoriza instrumentos de sopro e percussão, sonoridades que o acompanharam ao longo de sua carreira.

Uma cue muito interessante dentro da trilha musical de Ganga Zumba é o “tema do banzo”. O próprio compositor o categorizou dessa forma em seu caderno de anotações e apontamentos:

Figura 1 – Manuscrito de Moacir Santos com apontamentos para a trilha de Ganga Zumba. Caderno Pré-Coisas, c.1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber a relação desse tema com as possíveis definições da expressão banzo, possibilitando uma compreensão mais completa da trilha musical. As possíveis definições da palavra, segundo o Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, são:

Nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil. (...) Triste, abatido, pensativo. (...) Surpreendido, pasmado; sem jeito, sem graça. (...) Do quincongo mbanzu, pensamento, lembrança; ou do quimbundo mbonzo, saudade, paixão, mágoa (LOPES, 2006: 39).

Também era comum referir-se ao banzo como uma doença, pois muitos negros escravizados morriam com sintomas depressivos, como se banzo fosse uma forma de “depressão negra”. Portanto, as duas sequências em que o tema aparece fazem muito sentido com a origem etimológica do termo. Na primeira, Aroroba (Eliezer Gomes) está contando uma história sobre os negros na África e ela é representada por um flashback, como em um sonho, simbolizando essa saudade nostálgica de um tempo remoto que passou e não foi vivido por ele. Na segunda aparição do tema o personagem de Aroroba morre depois ter sido baleado durante a fuga do grupo em direção à Palmares.

Nos dois momentos em que o “tema do banzo” aparece no filme as inserções musicais são compostas pelo mesmo fonograma. Pequenos detalhes as diferenciam, a primeira tem uma finalização musical enquanto a segunda é interrompida por um fade out, além da segunda aparição apresentar um compasso extra na introdução. Os excertos também são compostos por quatro camadas; a melodia no corne inglês e fagote; uma “cama” harmônica de notas longas nas flautas e fagotes; uma frase grave em colcheias no violoncelo e clarone; e por fim, um ostinato percussivo de atabaques.

Figura 2 – Trecho inicial de “tema do banzo”, na primeira aparição, dentro da trilha musical de Ganga Zumba (1h 7m 23s).

Em seu caderno de apontamentos Santos enumerou o trecho inicial de cada uma das Coisas, quase que de forma a catalogar informalmente o material temático inicial de cada uma, com anotações adicionais de seus usos no cinema e em outras canções. A reprodução abaixo mostra a página em questão:

Figura 3 - Manuscrito de Moacir Santos com material temático das Coisas. Caderno Pré-Coisas, c. 1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber como a segunda coluna começa com uma “Coisa nº 11”, que não chegou a ser gravada para o disco Coisas. Essa música é, na verdade, o próprio “tema do banzo”, pois apresenta exatamente o mesmo motivo inicial. A única diferença é que esse motivo inicial (Dó menor) foi transposto em relação à gravação da trilha musical (Mib menor).

Figura 4 -  Motivo inicial da suposta “Coisa nº 11”, como grafado no caderno de apontamentos.

Infelizmente não pudemos encontrar nenhum outro registro da continuação dessa música enquanto “Coisa nº 11”, além do “tema do banzo”. Digo isso porque as músicas que apareceram previamente na trilha musical de Ganga Zumba e se consolidaram como faixas do disco Coisas apresentaram significativas mudanças de estrutura e arranjo, não podendo ser consideradas simplesmente como a mesma composição. De todo modo, o fato de sabermos que Moacir iniciou o processo de composição desta peça já é muito intrigante. É possível que a composição completa tenha sido finalizada e seja encontrada no futuro em um trabalho que pesquise diretamente outros manuscritos do compositor.

Por fim, pude gravar uma versão do “tema do banzo” dentro da faixa “Temas de Ganga Zumba”, lançada em 2020 no disco MOA pelo Ágar-Ágar Trio. Para saber mais sobre a pesquisa de maneira geral, convido a acessar o website bilíngue trilhasmoacirsantos.com.br e moacirsantosfilmscores.com, bem como minha dissertação de mestrado.

Referências

DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) é uma figura única na história da música brasileira. Ele atuou como arranjador, compositor e regente no período áureo das rádios no Brasil, ajudando a moldar a sonoridade da música popular. A partir da década de 1950 ele se tornou professor de toda uma geração, que pela mesma época plantava as sementes da Bossa Nova. Entre seus alunos mais ilustres estão Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato e inúmeros outros. A atuação de Santos como compositor de cinema também é muito significativa, a música de Ganga Zumba (1964), por exemplo, é um marco histórico do audiovisual brasileiro. Em 1967 ele passou a residir nos Estados Unidos, onde continuou sua intensa produção artística, gravando discos por gravadoras como a Blue Note e a Discovery Records, compondo para cinema, além de prosseguir com sua atividade docente. A partir dos anos 1990, mas especialmente no início dos anos 2000, a obra de Santos viu enormes esforços de resgate. A gravação do álbum Ouro Negro, produzido por Mario Adnet e Ze Nogueira, além da publicação de 3 songbooks, trouxe definitivamente sua música para o repertório de músicos mais jovens e estimulou inúmeras pesquisas acadêmicas.

Ganga Zumba, dirigido por Cacá Diegues, é baseado no livro homônimo de João Felício dos Santos. O filme ilustra a fuga de Ganga Zumba, neto de Zumbi dos Palmares, desde o canavial onde era cativo até o Quilombo dos Palmares, em busca de liberdade. Antônio Pitanga é o protagonista, acompanhado de um elenco singular: Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola e Dona Zica. Além disso, o grupo de afoxé Filhos de Gandhy encena rituais típicos africanos e afro-brasileiros do período colonial.

Ganga Zumba é uma das mais importantes produções audiovisuais nas quais Santos atuou como compositor, impulsionado por sua grande afinidade com a narrativa, conceito e estética da produção. Essa trilha musical acabou se tornando também uma espécie de laboratório pré-Coisas, visto que grande parte das composições que integraram seu disco inaugural, em 1965, tomaram forma no âmbito da música do filme. É notável que a música de Santos para Ganga Zumba apresenta, de maneira geral, uma concepção harmônica e melódica prioritariamente modal em uma instrumentação que valoriza instrumentos de sopro e percussão, sonoridades que o acompanharam ao longo de sua carreira.

Uma cue muito interessante dentro da trilha musical de Ganga Zumba é o “tema do banzo”. O próprio compositor o categorizou dessa forma em seu caderno de anotações e apontamentos:

Figura 1 – Manuscrito de Moacir Santos com apontamentos para a trilha de Ganga Zumba. Caderno Pré-Coisas, c.1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber a relação desse tema com as possíveis definições da expressão banzo, possibilitando uma compreensão mais completa da trilha musical. As possíveis definições da palavra, segundo o Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, são:

Nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil. (...) Triste, abatido, pensativo. (...) Surpreendido, pasmado; sem jeito, sem graça. (...) Do quincongo mbanzu, pensamento, lembrança; ou do quimbundo mbonzo, saudade, paixão, mágoa (LOPES, 2006: 39).

Também era comum referir-se ao banzo como uma doença, pois muitos negros escravizados morriam com sintomas depressivos, como se banzo fosse uma forma de “depressão negra”. Portanto, as duas sequências em que o tema aparece fazem muito sentido com a origem etimológica do termo. Na primeira, Aroroba (Eliezer Gomes) está contando uma história sobre os negros na África e ela é representada por um flashback, como em um sonho, simbolizando essa saudade nostálgica de um tempo remoto que passou e não foi vivido por ele. Na segunda aparição do tema o personagem de Aroroba morre depois ter sido baleado durante a fuga do grupo em direção à Palmares.

Nos dois momentos em que o “tema do banzo” aparece no filme as inserções musicais são compostas pelo mesmo fonograma. Pequenos detalhes as diferenciam, a primeira tem uma finalização musical enquanto a segunda é interrompida por um fade out, além da segunda aparição apresentar um compasso extra na introdução. Os excertos também são compostos por quatro camadas; a melodia no corne inglês e fagote; uma “cama” harmônica de notas longas nas flautas e fagotes; uma frase grave em colcheias no violoncelo e clarone; e por fim, um ostinato percussivo de atabaques.

Figura 2 – Trecho inicial de “tema do banzo”, na primeira aparição, dentro da trilha musical de Ganga Zumba (1h 7m 23s).

Em seu caderno de apontamentos Santos enumerou o trecho inicial de cada uma das Coisas, quase que de forma a catalogar informalmente o material temático inicial de cada uma, com anotações adicionais de seus usos no cinema e em outras canções. A reprodução abaixo mostra a página em questão:

Figura 3 - Manuscrito de Moacir Santos com material temático das Coisas. Caderno Pré-Coisas, c. 1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber como a segunda coluna começa com uma “Coisa nº 11”, que não chegou a ser gravada para o disco Coisas. Essa música é, na verdade, o próprio “tema do banzo”, pois apresenta exatamente o mesmo motivo inicial. A única diferença é que esse motivo inicial (Dó menor) foi transposto em relação à gravação da trilha musical (Mib menor).

Figura 4 -  Motivo inicial da suposta “Coisa nº 11”, como grafado no caderno de apontamentos.

Infelizmente não pudemos encontrar nenhum outro registro da continuação dessa música enquanto “Coisa nº 11”, além do “tema do banzo”. Digo isso porque as músicas que apareceram previamente na trilha musical de Ganga Zumba e se consolidaram como faixas do disco Coisas apresentaram significativas mudanças de estrutura e arranjo, não podendo ser consideradas simplesmente como a mesma composição. De todo modo, o fato de sabermos que Moacir iniciou o processo de composição desta peça já é muito intrigante. É possível que a composição completa tenha sido finalizada e seja encontrada no futuro em um trabalho que pesquise diretamente outros manuscritos do compositor.

Por fim, pude gravar uma versão do “tema do banzo” dentro da faixa “Temas de Ganga Zumba”, lançada em 2020 no disco MOA pelo Ágar-Ágar Trio. Para saber mais sobre a pesquisa de maneira geral, convido a acessar o website bilíngue trilhasmoacirsantos.com.br e moacirsantosfilmscores.com, bem como minha dissertação de mestrado.

Referências

DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) is a singular figure in the history of Brazilian music. He worked as an arranger, composer, and conductor during the golden age of radio in Brazil, helping to shape the sound of popular music. Beginning in the 1950s, he became the teacher of an entire generation that, around the same time, was planting the seeds of Bossa Nova. Among his most illustrious students were Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato, and countless others. Santos’s work as a film composer was also highly significant. His score for Ganga Zumba (1964), for example, is a landmark in the history of Brazilian audiovisual. In 1967, he moved to the United States, where he continued his intense artistic production, recording albums for labels such as Blue Note and Discovery Records, composing for cinema, and maintaining his teaching practice. Beginning in the 1990s, and especially in the early 2000s, major efforts were made to recover and promote Santos’s work. The recording of the album Ouro Negro, produced by Mario Adnet and Zé Nogueira, along with the publication of three songbooks, definitively brought his music into the repertoire of younger musicians and encouraged numerous academic studies.

Ganga Zumba, directed by Cacá Diegues, is based on João Felício dos Santos’s book of the same name. The film depicts the escape of Ganga Zumba, grandson of Zumbi dos Palmares, from the sugarcane plantation where he was enslaved to the Quilombo dos Palmares, in search of freedom. Antônio Pitanga plays the protagonist, alongside a remarkable cast that includes Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola, and Dona Zica. The afoxé group Filhos de Gandhy also performs African and Afro-Brazilian rituals typical of the colonial period.

Ganga Zumba is one of the most important audiovisual productions for which Santos worked as a composer, driven by his strong affinity with the film’s narrative, concept, and aesthetic. The score also became a kind of pre-Coisas laboratory, since many of the compositions included on his debut album, released in 1965, took shape within the context of the film’s music. It is notable that Santos’s music for Ganga Zumba generally presents a primarily modal harmonic and melodic conception, with instrumentation that emphasizes wind instruments and percussion, sonorities that would accompany him throughout his career.

A particularly interesting cue within the score of Ganga Zumba is the “theme of banzo.” The composer himself categorized it this way in his notebook of notes and sketches:

Figure 1 – Moacir Santos manuscript with notes for the score of Ganga Zumba. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to consider the relationship between this theme and the possible definitions of the term banzo, which allows for a more complete understanding of the score. According to Nei Lopes’s Novo Dicionário Banto do Brasil, the possible definitions of the word are:

A fatal nostalgia that afflicted enslaved Black Africans in Brazil. (...) Sad, dejected, pensive. (...) Surprised, stunned; awkward, embarrassed. (...) From the Kikongo mbanzu, thought, memory; or from the Kimbundu mbonzo, longing, passion, grief (LOPES, 2006: 39).

Banzo was also commonly referred to as an illness, since many enslaved Black people died with depressive symptoms, as if banzo were a form of “Black depression.” The two sequences in which the theme appears therefore make a great deal of sense in relation to the term’s etymological origin. In the first, Aroroba (Eliezer Gomes) is telling a story about Black people in Africa, which is represented through a flashback, as if in a dream, symbolizing this nostalgic longing for a remote time that has passed and that he himself did not experience. In the theme’s second appearance, the character Aroroba dies after being shot during the group’s flight toward Palmares.

In both moments in which the “theme of banzo” appears in the film, the musical insertions are composed of the same phonogram. Small details distinguish them: the first has a musical ending, while the second is interrupted by a fade-out; the second appearance also includes an extra measure in the introduction. The excerpts are also composed of four layers: the melody in the English horn and bassoon; a harmonic “bed” of sustained notes in the flutes and bassoons; a low phrase in eighth notes in the cello and bass clarinet; and, finally, a percussive ostinato played on atabaques.

Figure 2 – Opening excerpt of the “theme of banzo,” in its first appearance within the score of Ganga Zumba (1h 7m 23s).

In his notebook, Santos numbered the opening excerpt of each of the Coisas, almost as a way of informally cataloguing their initial thematic material, with additional notes on their uses in cinema and in other songs. The reproduction below shows the page in question:

Figure 3 – Moacir Santos manuscript containing thematic material from the Coisas. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to note how the second column begins with a “Coisa No. 11,” which was not ultimately recorded for the album Coisas. This piece is, in fact, the “theme of banzo” itself, since it presents exactly the same opening motif. The only difference is that this opening motif, in C minor, was transposed in relation to the recording of the score, in E-flat minor.

Figure 4 – Opening motif of the supposed “Coisa No. 11,” as written in the notebook.

Unfortunately, we were unable to find any other record of the continuation of this piece as “Coisa No. 11,” apart from the “theme of banzo.” I say this because the pieces that had previously appeared in the score of Ganga Zumba and were later consolidated as tracks on the album Coisas underwent significant changes in structure and arrangement, meaning that they cannot simply be considered the same composition. In any case, the fact that we know Moacir began the compositional process for this piece is already highly intriguing. It is possible that the complete composition was finished and may be found in the future through research focused directly on other manuscripts by the composer.

Finally, I was able to record a version of the “theme of banzo” within the track “Themes from Ganga Zumba,” released in 2020 on the album MOA by the Ágar-Ágar Trio. To learn more about the research as a whole, I invite readers to visit the bilingual websites trilhasmoacirsantos.com.br and moacirsantosfilmscores.com, as well as my master’s thesis.

References:


DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) is a singular figure in the history of Brazilian music. He worked as an arranger, composer, and conductor during the golden age of radio in Brazil, helping to shape the sound of popular music. Beginning in the 1950s, he became the teacher of an entire generation that, around the same time, was planting the seeds of Bossa Nova. Among his most illustrious students were Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato, and countless others. Santos’s work as a film composer was also highly significant. His score for Ganga Zumba (1964), for example, is a landmark in the history of Brazilian audiovisual. In 1967, he moved to the United States, where he continued his intense artistic production, recording albums for labels such as Blue Note and Discovery Records, composing for cinema, and maintaining his teaching practice. Beginning in the 1990s, and especially in the early 2000s, major efforts were made to recover and promote Santos’s work. The recording of the album Ouro Negro, produced by Mario Adnet and Zé Nogueira, along with the publication of three songbooks, definitively brought his music into the repertoire of younger musicians and encouraged numerous academic studies.

Ganga Zumba, directed by Cacá Diegues, is based on João Felício dos Santos’s book of the same name. The film depicts the escape of Ganga Zumba, grandson of Zumbi dos Palmares, from the sugarcane plantation where he was enslaved to the Quilombo dos Palmares, in search of freedom. Antônio Pitanga plays the protagonist, alongside a remarkable cast that includes Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola, and Dona Zica. The afoxé group Filhos de Gandhy also performs African and Afro-Brazilian rituals typical of the colonial period.

Ganga Zumba is one of the most important audiovisual productions for which Santos worked as a composer, driven by his strong affinity with the film’s narrative, concept, and aesthetic. The score also became a kind of pre-Coisas laboratory, since many of the compositions included on his debut album, released in 1965, took shape within the context of the film’s music. It is notable that Santos’s music for Ganga Zumba generally presents a primarily modal harmonic and melodic conception, with instrumentation that emphasizes wind instruments and percussion, sonorities that would accompany him throughout his career.

A particularly interesting cue within the score of Ganga Zumba is the “theme of banzo.” The composer himself categorized it this way in his notebook of notes and sketches:

Figure 1 – Moacir Santos manuscript with notes for the score of Ganga Zumba. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to consider the relationship between this theme and the possible definitions of the term banzo, which allows for a more complete understanding of the score. According to Nei Lopes’s Novo Dicionário Banto do Brasil, the possible definitions of the word are:

A fatal nostalgia that afflicted enslaved Black Africans in Brazil. (...) Sad, dejected, pensive. (...) Surprised, stunned; awkward, embarrassed. (...) From the Kikongo mbanzu, thought, memory; or from the Kimbundu mbonzo, longing, passion, grief (LOPES, 2006: 39).

Banzo was also commonly referred to as an illness, since many enslaved Black people died with depressive symptoms, as if banzo were a form of “Black depression.” The two sequences in which the theme appears therefore make a great deal of sense in relation to the term’s etymological origin. In the first, Aroroba (Eliezer Gomes) is telling a story about Black people in Africa, which is represented through a flashback, as if in a dream, symbolizing this nostalgic longing for a remote time that has passed and that he himself did not experience. In the theme’s second appearance, the character Aroroba dies after being shot during the group’s flight toward Palmares.

In both moments in which the “theme of banzo” appears in the film, the musical insertions are composed of the same phonogram. Small details distinguish them: the first has a musical ending, while the second is interrupted by a fade-out; the second appearance also includes an extra measure in the introduction. The excerpts are also composed of four layers: the melody in the English horn and bassoon; a harmonic “bed” of sustained notes in the flutes and bassoons; a low phrase in eighth notes in the cello and bass clarinet; and, finally, a percussive ostinato played on atabaques.

Figure 2 – Opening excerpt of the “theme of banzo,” in its first appearance within the score of Ganga Zumba (1h 7m 23s).

In his notebook, Santos numbered the opening excerpt of each of the Coisas, almost as a way of informally cataloguing their initial thematic material, with additional notes on their uses in cinema and in other songs. The reproduction below shows the page in question:

Figure 3 – Moacir Santos manuscript containing thematic material from the Coisas. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to note how the second column begins with a “Coisa No. 11,” which was not ultimately recorded for the album Coisas. This piece is, in fact, the “theme of banzo” itself, since it presents exactly the same opening motif. The only difference is that this opening motif, in C minor, was transposed in relation to the recording of the score, in E-flat minor.

Figure 4 – Opening motif of the supposed “Coisa No. 11,” as written in the notebook.

Unfortunately, we were unable to find any other record of the continuation of this piece as “Coisa No. 11,” apart from the “theme of banzo.” I say this because the pieces that had previously appeared in the score of Ganga Zumba and were later consolidated as tracks on the album Coisas underwent significant changes in structure and arrangement, meaning that they cannot simply be considered the same composition. In any case, the fact that we know Moacir began the compositional process for this piece is already highly intriguing. It is possible that the complete composition was finished and may be found in the future through research focused directly on other manuscripts by the composer.

Finally, I was able to record a version of the “theme of banzo” within the track “Themes from Ganga Zumba,” released in 2020 on the album MOA by the Ágar-Ágar Trio. To learn more about the research as a whole, I invite readers to visit the bilingual websites trilhasmoacirsantos.com.br and moacirsantosfilmscores.com, as well as my master’s thesis.

PT/ENG
PT/ENG
20/5/2026
By/Por:
Lucas Zangirolami Bonetti

Moacir Santos (1926-2006) é uma figura única na história da música brasileira. Ele atuou como arranjador, compositor e regente no período áureo das rádios no Brasil, ajudando a moldar a sonoridade da música popular. A partir da década de 1950 ele se tornou professor de toda uma geração, que pela mesma época plantava as sementes da Bossa Nova. Entre seus alunos mais ilustres estão Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato e inúmeros outros. A atuação de Santos como compositor de cinema também é muito significativa, a música de Ganga Zumba (1964), por exemplo, é um marco histórico do audiovisual brasileiro. Em 1967 ele passou a residir nos Estados Unidos, onde continuou sua intensa produção artística, gravando discos por gravadoras como a Blue Note e a Discovery Records, compondo para cinema, além de prosseguir com sua atividade docente. A partir dos anos 1990, mas especialmente no início dos anos 2000, a obra de Santos viu enormes esforços de resgate. A gravação do álbum Ouro Negro, produzido por Mario Adnet e Ze Nogueira, além da publicação de 3 songbooks, trouxe definitivamente sua música para o repertório de músicos mais jovens e estimulou inúmeras pesquisas acadêmicas.

Ganga Zumba, dirigido por Cacá Diegues, é baseado no livro homônimo de João Felício dos Santos. O filme ilustra a fuga de Ganga Zumba, neto de Zumbi dos Palmares, desde o canavial onde era cativo até o Quilombo dos Palmares, em busca de liberdade. Antônio Pitanga é o protagonista, acompanhado de um elenco singular: Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola e Dona Zica. Além disso, o grupo de afoxé Filhos de Gandhy encena rituais típicos africanos e afro-brasileiros do período colonial.

Ganga Zumba é uma das mais importantes produções audiovisuais nas quais Santos atuou como compositor, impulsionado por sua grande afinidade com a narrativa, conceito e estética da produção. Essa trilha musical acabou se tornando também uma espécie de laboratório pré-Coisas, visto que grande parte das composições que integraram seu disco inaugural, em 1965, tomaram forma no âmbito da música do filme. É notável que a música de Santos para Ganga Zumba apresenta, de maneira geral, uma concepção harmônica e melódica prioritariamente modal em uma instrumentação que valoriza instrumentos de sopro e percussão, sonoridades que o acompanharam ao longo de sua carreira.

Uma cue muito interessante dentro da trilha musical de Ganga Zumba é o “tema do banzo”. O próprio compositor o categorizou dessa forma em seu caderno de anotações e apontamentos:

Figura 1 – Manuscrito de Moacir Santos com apontamentos para a trilha de Ganga Zumba. Caderno Pré-Coisas, c.1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber a relação desse tema com as possíveis definições da expressão banzo, possibilitando uma compreensão mais completa da trilha musical. As possíveis definições da palavra, segundo o Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, são:

Nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil. (...) Triste, abatido, pensativo. (...) Surpreendido, pasmado; sem jeito, sem graça. (...) Do quincongo mbanzu, pensamento, lembrança; ou do quimbundo mbonzo, saudade, paixão, mágoa (LOPES, 2006: 39).

Também era comum referir-se ao banzo como uma doença, pois muitos negros escravizados morriam com sintomas depressivos, como se banzo fosse uma forma de “depressão negra”. Portanto, as duas sequências em que o tema aparece fazem muito sentido com a origem etimológica do termo. Na primeira, Aroroba (Eliezer Gomes) está contando uma história sobre os negros na África e ela é representada por um flashback, como em um sonho, simbolizando essa saudade nostálgica de um tempo remoto que passou e não foi vivido por ele. Na segunda aparição do tema o personagem de Aroroba morre depois ter sido baleado durante a fuga do grupo em direção à Palmares.

Nos dois momentos em que o “tema do banzo” aparece no filme as inserções musicais são compostas pelo mesmo fonograma. Pequenos detalhes as diferenciam, a primeira tem uma finalização musical enquanto a segunda é interrompida por um fade out, além da segunda aparição apresentar um compasso extra na introdução. Os excertos também são compostos por quatro camadas; a melodia no corne inglês e fagote; uma “cama” harmônica de notas longas nas flautas e fagotes; uma frase grave em colcheias no violoncelo e clarone; e por fim, um ostinato percussivo de atabaques.

Figura 2 – Trecho inicial de “tema do banzo”, na primeira aparição, dentro da trilha musical de Ganga Zumba (1h 7m 23s).

Em seu caderno de apontamentos Santos enumerou o trecho inicial de cada uma das Coisas, quase que de forma a catalogar informalmente o material temático inicial de cada uma, com anotações adicionais de seus usos no cinema e em outras canções. A reprodução abaixo mostra a página em questão:

Figura 3 - Manuscrito de Moacir Santos com material temático das Coisas. Caderno Pré-Coisas, c. 1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber como a segunda coluna começa com uma “Coisa nº 11”, que não chegou a ser gravada para o disco Coisas. Essa música é, na verdade, o próprio “tema do banzo”, pois apresenta exatamente o mesmo motivo inicial. A única diferença é que esse motivo inicial (Dó menor) foi transposto em relação à gravação da trilha musical (Mib menor).

Figura 4 -  Motivo inicial da suposta “Coisa nº 11”, como grafado no caderno de apontamentos.

Infelizmente não pudemos encontrar nenhum outro registro da continuação dessa música enquanto “Coisa nº 11”, além do “tema do banzo”. Digo isso porque as músicas que apareceram previamente na trilha musical de Ganga Zumba e se consolidaram como faixas do disco Coisas apresentaram significativas mudanças de estrutura e arranjo, não podendo ser consideradas simplesmente como a mesma composição. De todo modo, o fato de sabermos que Moacir iniciou o processo de composição desta peça já é muito intrigante. É possível que a composição completa tenha sido finalizada e seja encontrada no futuro em um trabalho que pesquise diretamente outros manuscritos do compositor.

Por fim, pude gravar uma versão do “tema do banzo” dentro da faixa “Temas de Ganga Zumba”, lançada em 2020 no disco MOA pelo Ágar-Ágar Trio. Para saber mais sobre a pesquisa de maneira geral, convido a acessar o website bilíngue trilhasmoacirsantos.com.br e moacirsantosfilmscores.com, bem como minha dissertação de mestrado.

Referências

DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) é uma figura única na história da música brasileira. Ele atuou como arranjador, compositor e regente no período áureo das rádios no Brasil, ajudando a moldar a sonoridade da música popular. A partir da década de 1950 ele se tornou professor de toda uma geração, que pela mesma época plantava as sementes da Bossa Nova. Entre seus alunos mais ilustres estão Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato e inúmeros outros. A atuação de Santos como compositor de cinema também é muito significativa, a música de Ganga Zumba (1964), por exemplo, é um marco histórico do audiovisual brasileiro. Em 1967 ele passou a residir nos Estados Unidos, onde continuou sua intensa produção artística, gravando discos por gravadoras como a Blue Note e a Discovery Records, compondo para cinema, além de prosseguir com sua atividade docente. A partir dos anos 1990, mas especialmente no início dos anos 2000, a obra de Santos viu enormes esforços de resgate. A gravação do álbum Ouro Negro, produzido por Mario Adnet e Ze Nogueira, além da publicação de 3 songbooks, trouxe definitivamente sua música para o repertório de músicos mais jovens e estimulou inúmeras pesquisas acadêmicas.

Ganga Zumba, dirigido por Cacá Diegues, é baseado no livro homônimo de João Felício dos Santos. O filme ilustra a fuga de Ganga Zumba, neto de Zumbi dos Palmares, desde o canavial onde era cativo até o Quilombo dos Palmares, em busca de liberdade. Antônio Pitanga é o protagonista, acompanhado de um elenco singular: Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola e Dona Zica. Além disso, o grupo de afoxé Filhos de Gandhy encena rituais típicos africanos e afro-brasileiros do período colonial.

Ganga Zumba é uma das mais importantes produções audiovisuais nas quais Santos atuou como compositor, impulsionado por sua grande afinidade com a narrativa, conceito e estética da produção. Essa trilha musical acabou se tornando também uma espécie de laboratório pré-Coisas, visto que grande parte das composições que integraram seu disco inaugural, em 1965, tomaram forma no âmbito da música do filme. É notável que a música de Santos para Ganga Zumba apresenta, de maneira geral, uma concepção harmônica e melódica prioritariamente modal em uma instrumentação que valoriza instrumentos de sopro e percussão, sonoridades que o acompanharam ao longo de sua carreira.

Uma cue muito interessante dentro da trilha musical de Ganga Zumba é o “tema do banzo”. O próprio compositor o categorizou dessa forma em seu caderno de anotações e apontamentos:

Figura 1 – Manuscrito de Moacir Santos com apontamentos para a trilha de Ganga Zumba. Caderno Pré-Coisas, c.1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber a relação desse tema com as possíveis definições da expressão banzo, possibilitando uma compreensão mais completa da trilha musical. As possíveis definições da palavra, segundo o Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, são:

Nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil. (...) Triste, abatido, pensativo. (...) Surpreendido, pasmado; sem jeito, sem graça. (...) Do quincongo mbanzu, pensamento, lembrança; ou do quimbundo mbonzo, saudade, paixão, mágoa (LOPES, 2006: 39).

Também era comum referir-se ao banzo como uma doença, pois muitos negros escravizados morriam com sintomas depressivos, como se banzo fosse uma forma de “depressão negra”. Portanto, as duas sequências em que o tema aparece fazem muito sentido com a origem etimológica do termo. Na primeira, Aroroba (Eliezer Gomes) está contando uma história sobre os negros na África e ela é representada por um flashback, como em um sonho, simbolizando essa saudade nostálgica de um tempo remoto que passou e não foi vivido por ele. Na segunda aparição do tema o personagem de Aroroba morre depois ter sido baleado durante a fuga do grupo em direção à Palmares.

Nos dois momentos em que o “tema do banzo” aparece no filme as inserções musicais são compostas pelo mesmo fonograma. Pequenos detalhes as diferenciam, a primeira tem uma finalização musical enquanto a segunda é interrompida por um fade out, além da segunda aparição apresentar um compasso extra na introdução. Os excertos também são compostos por quatro camadas; a melodia no corne inglês e fagote; uma “cama” harmônica de notas longas nas flautas e fagotes; uma frase grave em colcheias no violoncelo e clarone; e por fim, um ostinato percussivo de atabaques.

Figura 2 – Trecho inicial de “tema do banzo”, na primeira aparição, dentro da trilha musical de Ganga Zumba (1h 7m 23s).

Em seu caderno de apontamentos Santos enumerou o trecho inicial de cada uma das Coisas, quase que de forma a catalogar informalmente o material temático inicial de cada uma, com anotações adicionais de seus usos no cinema e em outras canções. A reprodução abaixo mostra a página em questão:

Figura 3 - Manuscrito de Moacir Santos com material temático das Coisas. Caderno Pré-Coisas, c. 1960. Acervo MS (DIAS, 2010).

É interessante perceber como a segunda coluna começa com uma “Coisa nº 11”, que não chegou a ser gravada para o disco Coisas. Essa música é, na verdade, o próprio “tema do banzo”, pois apresenta exatamente o mesmo motivo inicial. A única diferença é que esse motivo inicial (Dó menor) foi transposto em relação à gravação da trilha musical (Mib menor).

Figura 4 -  Motivo inicial da suposta “Coisa nº 11”, como grafado no caderno de apontamentos.

Infelizmente não pudemos encontrar nenhum outro registro da continuação dessa música enquanto “Coisa nº 11”, além do “tema do banzo”. Digo isso porque as músicas que apareceram previamente na trilha musical de Ganga Zumba e se consolidaram como faixas do disco Coisas apresentaram significativas mudanças de estrutura e arranjo, não podendo ser consideradas simplesmente como a mesma composição. De todo modo, o fato de sabermos que Moacir iniciou o processo de composição desta peça já é muito intrigante. É possível que a composição completa tenha sido finalizada e seja encontrada no futuro em um trabalho que pesquise diretamente outros manuscritos do compositor.

Por fim, pude gravar uma versão do “tema do banzo” dentro da faixa “Temas de Ganga Zumba”, lançada em 2020 no disco MOA pelo Ágar-Ágar Trio. Para saber mais sobre a pesquisa de maneira geral, convido a acessar o website bilíngue trilhasmoacirsantos.com.br e moacirsantosfilmscores.com, bem como minha dissertação de mestrado.

Referências

DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) is a singular figure in the history of Brazilian music. He worked as an arranger, composer, and conductor during the golden age of radio in Brazil, helping to shape the sound of popular music. Beginning in the 1950s, he became the teacher of an entire generation that, around the same time, was planting the seeds of Bossa Nova. Among his most illustrious students were Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato, and countless others. Santos’s work as a film composer was also highly significant. His score for Ganga Zumba (1964), for example, is a landmark in the history of Brazilian audiovisual. In 1967, he moved to the United States, where he continued his intense artistic production, recording albums for labels such as Blue Note and Discovery Records, composing for cinema, and maintaining his teaching practice. Beginning in the 1990s, and especially in the early 2000s, major efforts were made to recover and promote Santos’s work. The recording of the album Ouro Negro, produced by Mario Adnet and Zé Nogueira, along with the publication of three songbooks, definitively brought his music into the repertoire of younger musicians and encouraged numerous academic studies.

Ganga Zumba, directed by Cacá Diegues, is based on João Felício dos Santos’s book of the same name. The film depicts the escape of Ganga Zumba, grandson of Zumbi dos Palmares, from the sugarcane plantation where he was enslaved to the Quilombo dos Palmares, in search of freedom. Antônio Pitanga plays the protagonist, alongside a remarkable cast that includes Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola, and Dona Zica. The afoxé group Filhos de Gandhy also performs African and Afro-Brazilian rituals typical of the colonial period.

Ganga Zumba is one of the most important audiovisual productions for which Santos worked as a composer, driven by his strong affinity with the film’s narrative, concept, and aesthetic. The score also became a kind of pre-Coisas laboratory, since many of the compositions included on his debut album, released in 1965, took shape within the context of the film’s music. It is notable that Santos’s music for Ganga Zumba generally presents a primarily modal harmonic and melodic conception, with instrumentation that emphasizes wind instruments and percussion, sonorities that would accompany him throughout his career.

A particularly interesting cue within the score of Ganga Zumba is the “theme of banzo.” The composer himself categorized it this way in his notebook of notes and sketches:

Figure 1 – Moacir Santos manuscript with notes for the score of Ganga Zumba. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to consider the relationship between this theme and the possible definitions of the term banzo, which allows for a more complete understanding of the score. According to Nei Lopes’s Novo Dicionário Banto do Brasil, the possible definitions of the word are:

A fatal nostalgia that afflicted enslaved Black Africans in Brazil. (...) Sad, dejected, pensive. (...) Surprised, stunned; awkward, embarrassed. (...) From the Kikongo mbanzu, thought, memory; or from the Kimbundu mbonzo, longing, passion, grief (LOPES, 2006: 39).

Banzo was also commonly referred to as an illness, since many enslaved Black people died with depressive symptoms, as if banzo were a form of “Black depression.” The two sequences in which the theme appears therefore make a great deal of sense in relation to the term’s etymological origin. In the first, Aroroba (Eliezer Gomes) is telling a story about Black people in Africa, which is represented through a flashback, as if in a dream, symbolizing this nostalgic longing for a remote time that has passed and that he himself did not experience. In the theme’s second appearance, the character Aroroba dies after being shot during the group’s flight toward Palmares.

In both moments in which the “theme of banzo” appears in the film, the musical insertions are composed of the same phonogram. Small details distinguish them: the first has a musical ending, while the second is interrupted by a fade-out; the second appearance also includes an extra measure in the introduction. The excerpts are also composed of four layers: the melody in the English horn and bassoon; a harmonic “bed” of sustained notes in the flutes and bassoons; a low phrase in eighth notes in the cello and bass clarinet; and, finally, a percussive ostinato played on atabaques.

Figure 2 – Opening excerpt of the “theme of banzo,” in its first appearance within the score of Ganga Zumba (1h 7m 23s).

In his notebook, Santos numbered the opening excerpt of each of the Coisas, almost as a way of informally cataloguing their initial thematic material, with additional notes on their uses in cinema and in other songs. The reproduction below shows the page in question:

Figure 3 – Moacir Santos manuscript containing thematic material from the Coisas. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to note how the second column begins with a “Coisa No. 11,” which was not ultimately recorded for the album Coisas. This piece is, in fact, the “theme of banzo” itself, since it presents exactly the same opening motif. The only difference is that this opening motif, in C minor, was transposed in relation to the recording of the score, in E-flat minor.

Figure 4 – Opening motif of the supposed “Coisa No. 11,” as written in the notebook.

Unfortunately, we were unable to find any other record of the continuation of this piece as “Coisa No. 11,” apart from the “theme of banzo.” I say this because the pieces that had previously appeared in the score of Ganga Zumba and were later consolidated as tracks on the album Coisas underwent significant changes in structure and arrangement, meaning that they cannot simply be considered the same composition. In any case, the fact that we know Moacir began the compositional process for this piece is already highly intriguing. It is possible that the complete composition was finished and may be found in the future through research focused directly on other manuscripts by the composer.

Finally, I was able to record a version of the “theme of banzo” within the track “Themes from Ganga Zumba,” released in 2020 on the album MOA by the Ágar-Ágar Trio. To learn more about the research as a whole, I invite readers to visit the bilingual websites trilhasmoacirsantos.com.br and moacirsantosfilmscores.com, as well as my master’s thesis.

References:


DIAS, Andrea Ernest. Mais “coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese de Doutorado. Bahia: UFBA. 2010.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil: contendo mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Pailas, 2006.

Moacir Santos (1926-2006) is a singular figure in the history of Brazilian music. He worked as an arranger, composer, and conductor during the golden age of radio in Brazil, helping to shape the sound of popular music. Beginning in the 1950s, he became the teacher of an entire generation that, around the same time, was planting the seeds of Bossa Nova. Among his most illustrious students were Nara Leão, Roberto Menescal, Paulo Moura, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Baden Powell, João Donato, and countless others. Santos’s work as a film composer was also highly significant. His score for Ganga Zumba (1964), for example, is a landmark in the history of Brazilian audiovisual. In 1967, he moved to the United States, where he continued his intense artistic production, recording albums for labels such as Blue Note and Discovery Records, composing for cinema, and maintaining his teaching practice. Beginning in the 1990s, and especially in the early 2000s, major efforts were made to recover and promote Santos’s work. The recording of the album Ouro Negro, produced by Mario Adnet and Zé Nogueira, along with the publication of three songbooks, definitively brought his music into the repertoire of younger musicians and encouraged numerous academic studies.

Ganga Zumba, directed by Cacá Diegues, is based on João Felício dos Santos’s book of the same name. The film depicts the escape of Ganga Zumba, grandson of Zumbi dos Palmares, from the sugarcane plantation where he was enslaved to the Quilombo dos Palmares, in search of freedom. Antônio Pitanga plays the protagonist, alongside a remarkable cast that includes Léa Garcia, Luiza Maranhão, Eliezer Gomes, Cartola, and Dona Zica. The afoxé group Filhos de Gandhy also performs African and Afro-Brazilian rituals typical of the colonial period.

Ganga Zumba is one of the most important audiovisual productions for which Santos worked as a composer, driven by his strong affinity with the film’s narrative, concept, and aesthetic. The score also became a kind of pre-Coisas laboratory, since many of the compositions included on his debut album, released in 1965, took shape within the context of the film’s music. It is notable that Santos’s music for Ganga Zumba generally presents a primarily modal harmonic and melodic conception, with instrumentation that emphasizes wind instruments and percussion, sonorities that would accompany him throughout his career.

A particularly interesting cue within the score of Ganga Zumba is the “theme of banzo.” The composer himself categorized it this way in his notebook of notes and sketches:

Figure 1 – Moacir Santos manuscript with notes for the score of Ganga Zumba. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to consider the relationship between this theme and the possible definitions of the term banzo, which allows for a more complete understanding of the score. According to Nei Lopes’s Novo Dicionário Banto do Brasil, the possible definitions of the word are:

A fatal nostalgia that afflicted enslaved Black Africans in Brazil. (...) Sad, dejected, pensive. (...) Surprised, stunned; awkward, embarrassed. (...) From the Kikongo mbanzu, thought, memory; or from the Kimbundu mbonzo, longing, passion, grief (LOPES, 2006: 39).

Banzo was also commonly referred to as an illness, since many enslaved Black people died with depressive symptoms, as if banzo were a form of “Black depression.” The two sequences in which the theme appears therefore make a great deal of sense in relation to the term’s etymological origin. In the first, Aroroba (Eliezer Gomes) is telling a story about Black people in Africa, which is represented through a flashback, as if in a dream, symbolizing this nostalgic longing for a remote time that has passed and that he himself did not experience. In the theme’s second appearance, the character Aroroba dies after being shot during the group’s flight toward Palmares.

In both moments in which the “theme of banzo” appears in the film, the musical insertions are composed of the same phonogram. Small details distinguish them: the first has a musical ending, while the second is interrupted by a fade-out; the second appearance also includes an extra measure in the introduction. The excerpts are also composed of four layers: the melody in the English horn and bassoon; a harmonic “bed” of sustained notes in the flutes and bassoons; a low phrase in eighth notes in the cello and bass clarinet; and, finally, a percussive ostinato played on atabaques.

Figure 2 – Opening excerpt of the “theme of banzo,” in its first appearance within the score of Ganga Zumba (1h 7m 23s).

In his notebook, Santos numbered the opening excerpt of each of the Coisas, almost as a way of informally cataloguing their initial thematic material, with additional notes on their uses in cinema and in other songs. The reproduction below shows the page in question:

Figure 3 – Moacir Santos manuscript containing thematic material from the Coisas. Pre-Coisas Notebook, c. 1960. MS Collection (DIAS, 2010).

It is interesting to note how the second column begins with a “Coisa No. 11,” which was not ultimately recorded for the album Coisas. This piece is, in fact, the “theme of banzo” itself, since it presents exactly the same opening motif. The only difference is that this opening motif, in C minor, was transposed in relation to the recording of the score, in E-flat minor.

Figure 4 – Opening motif of the supposed “Coisa No. 11,” as written in the notebook.

Unfortunately, we were unable to find any other record of the continuation of this piece as “Coisa No. 11,” apart from the “theme of banzo.” I say this because the pieces that had previously appeared in the score of Ganga Zumba and were later consolidated as tracks on the album Coisas underwent significant changes in structure and arrangement, meaning that they cannot simply be considered the same composition. In any case, the fact that we know Moacir began the compositional process for this piece is already highly intriguing. It is possible that the complete composition was finished and may be found in the future through research focused directly on other manuscripts by the composer.

Finally, I was able to record a version of the “theme of banzo” within the track “Themes from Ganga Zumba,” released in 2020 on the album MOA by the Ágar-Ágar Trio. To learn more about the research as a whole, I invite readers to visit the bilingual websites trilhasmoacirsantos.com.br and moacirsantosfilmscores.com, as well as my master’s thesis.