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13/5/2026
By/Por:
Igor Nolasco

"Era em Agosto de 1968... Era no Rio de Janeiro em agosto de 1968, uma agitação arretada, os estudantes na rua, os operários; tinha operário ocupando fábrica em Minas Gerais, operário ocupando fábrica em São Paulo, e estudantes fazendo agitação. Era a ditadura do Costa e Silva, que tinha sido o segundo ditador, depois de Castelo Branco, e tinha derrubado o presidente Jango, que estava fazendo a revolução em 64; não era o Marechal Castelo Branco, não, que este era um marechal reacionário... Então estava uma onda terrível, os estudantes na rua, o líder era Vladimir Palmeira; tinha Marcos Medeiros, Elinor Brito, o psicanalista Hélio Pellegrino, Franklin Martins, a barra pesada toda.

Mas não era mesmo uma revolução, quer dizer, era agitação, era... tinha o maio o francês também, estava uma onda arretada. Nego dizia o seguinte: que era revolução, mas era a classe média radical, burguesia liberal reformista na rua. E os operários... Tinha muito camponês morrendo de fome no nordeste. Que, aliás, continua morrendo de fome até hoje, estão morrendo há mais de 400 anos. E os intelectuais estavam lá, no Museu de Arte Moderna, naquela noite. Exatamente, discutindo sobre a arte, a arte revolucionária, porque estava começando o tropicalismo, uma onda arretada.

Aí eu chamei o Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, que tinha chegado da Itália; ele tinha uma Arriflex. O Luiz Carlos Saldanha fez a fotografia e a câmera, e o som direto foi feito por José Ventura. Agora, Hugo Carvana, Antônio Pitanga (que é baiano) e Odete Lara fizeram os papéis principais; no mais, Rogério Duarte (que é baiano também), Zé Medeiros, Hélio Oiticica (que é pintor) e o pessoal (Biju, Tineca, um pessoal da Mangueira), e mais Zelito (quer dizer, não Doutor Zelito do filme, Doutor Zelito da Mapa Filmes) e Chiquinho, que tava na Kombi.

E aí o tempo passou, porque ficou... Depois eu cheguei em Havana, aí fiz no ICAIC o som... A sincronização foi feita por Raul Garcia, e eu montei com a Tineca e a Mireta. Numa coprodução, e aí entrou o Barceloni na Itália e ficou com o título 'Câncer'. Rio de Janeiro. Filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro, uma filmagem que demorou quatro dias para filmar e quatro anos para montar e sincronizar... Terminou em maio de 72; de agosto de 68 a maio de 72, 'Câncer'."

É com esse monólogo, entoado por sua própria voz, que Glauber Rocha abre seu longa Câncer. Nas imagens, desenrola-se justamente o que é descrito em dado momento da fala: a câmera de Luiz Carlos Saldanha desliza por uma longa mesa de intelectuais, reunidos no MAM do Rio de Janeiro ante uma numerosa plateia. Na justaposição feita pelo cineasta, um espectador não familiarizado com sua voz pode acabar momentaneamente tendo a impressão de que o monólogo está sendo proferido pelo orador da vez em meio à mesa (que calha de ser o poeta Ferreira Gullar), que discursa, inaudível, enquanto é observado por seus pares, debruçados sobre o tampo da mesa. Não tarda, no entanto, a perceber que imagem e voz não estão sincronizados, que não dizem a mesma coisa. Esse contraste permeia todo o longa, sendo resultado de seu modo de produção e de finalização.

Logo nesses primeiros minutos, Glauber Rocha já atira o público de cabeça no mundo de Câncer, um de seus filmes mais distintos, que se diferencia de tudo o que o diretor havia feito até então e, mesmo demarcando sua posição em meio à "linha evolutiva" da filmografia glauberiana de modo bem claro, até mesmo do que veio depois. Em um longo monólogo, uma variedade de funções são sintetizadas. O filme não possui cartela de título ou créditos de elenco e equipe técnica ao início ou ao final, mas o monólogo cumpre essa função (algo que Glauber repetiria posteriormente, de um outro jeito, em Jorjamado no Cinema, de 1979). De igual maneira, a fala que inicia o longa também oferece o contexto histórico de sua filmagem – que acaba, também, por justificar o inflamado discurso fílmico que se faria evidente já nos próximos momentos – e descreve os primeiros planos a aparecerem em tela, exatamente enquanto estes estão visualmente presentes. Entrega, ademais, o processo dificultoso de montagem do material, que durou quatro anos e atravessou um dos períodos de exílio de Glauber, tendo sido finalizado em Cuba, e justapõe isso ao dinamismo das gravações. Quatro dias para filmar, quatro anos para montar e sincronizar.

Existem informações contraditórias sobre as filmagens de Câncer. Enquanto o próprio Glauber afirma, no supracitado monólogo e em declarações posteriores, que estas teriam se dado em agosto de 1968, pesquisadores como Gonzalo Aguilar dizem que o filme fora, na verdade, rodado em maio daquele ano. Segundo Aguilar, a gravação do longa teria ocorrido "em maio de 1968, um ano depois da estreia de 'Terra em transe' e antes do início de 'Antônio das Mortes'. Glauber filmou-o no mês que teve antes de começar a nova filmagem" (Aguilar, 2016, p. 99).1 A afirmação de Aguilar encontra respaldo em notícias de jornais como o Diário de Notícias, publicadas em maio e junho de 1968, já relatando as gravações e ainda se referindo ao filme pelo seu título provisório, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citando "entre 8 e 10 de julho" daquele ano como o período especulado para o lançamento do longa. O pesquisador Frederico Coelho (que firma agosto como o mês das filmagens, estando portanto de acordo com a "versão oficial" glauberiana) aponta que essa janela entre a estreia de Terra em Transe e o início das filmagens de Antônio das Mortes teria sido uma "temporada forçada" que Glauber passou no Rio, e sinaliza a presença, em Câncer, dos atores Hugo Carvana e Odete Lara como uma evidência de que essa temporada já estaria sendo passada com o elenco de Antônio das Mortes, antes da viagem ao sertão da Bahia para as gravações do mesmo.2

É de se especular o porquê da mudança de data de maio para agosto no monólogo de abertura do longa, se fruto um lapso de memória do próprio Glauber ou um joguete proposital. Talvez "agosto" se refira ao prólogo gravado no MAM, que de fato foi filmado posteriormente à fotografia principal. Fato é que as filmagens de Câncer no famoso maio de 68 (citado, inclusive, no próprio monólogo glauberiano) estariam perfeitamente sintonizadas com o clima que fervilhava no mundo, partindo da França, e começava a frutificar no Brasil, do ponto de vista cinematográfico. No mesmo mês de maio, Neville D'Almeida filmava o seu Jardim de Guerra, e em novembro daquele ano, no Festival de Brasília, seria exibido publicamente pela primeira vez um marco definitivo na cinematografia brasileira, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.

Não é exagero listar 1968 como um ano divisor de águas para o cinema brasileiro. É o ano em que, a partir da estreia do filme do Sganzerla, estoura o que passa a ser chamado de "Cinema de Invenção", ou "Cinema Marginal" – em alusão ao "A Margem", de Ozualdo Candeias, lançado no ano anterior, mas também em um certo senso de marginalidade artística, para o qual convergiam, por exemplo, músicos que tocavam seus trabalhos à margem da Bossa Nova e do Tropicalismo musical; artistas plásticos e poetas que pensavam e executavam suas ideias à margem dos parâmetros conservadores, então vigentes mesmo entre os que juraram romper com o conservadorismo estético (como o caso do movimento neoconcreto); e cineastas que realizavam um novo tipo de cinema, à margem do movimento do Cinema Novo. Naquele momento, este começava a ter seu "núcleo duro" desestruturado, com seus principais quadros focando seus esforços na industrialização do cinema brasileiro através da criação de uma produtora e distribuidora audiovisual estatal, de capital misto, para fomentar e dar vazão ao produto cinematográfico nacional — o que viria a se concretizar no ano seguinte, com o surgimento da Embrafilme, em verdade uma encarnação tardia de uma instituição já preexistente, o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE).3

O montador Geraldo Veloso, uma das figuras que vivenciou as transformações pelas quais o cinema brasileiro estava passando in loco no calor daqueles acontecimentos, definiu os filmes rodados ou lançados em 1968 como expoentes de "um cinema que necessariamente trazia uma reflexão política sobre um momento decisivo para a história contemporânea do mundo (e especialmente com o Brasil, que termina o ano com a instauração do AI-5)" (Veloso 2012, p. 15).4 As filmagens de Câncer em maio daquele ano funcionariam como uma semente para "a origem do que seria o udigrúdi do cinema brasileiro, do qual Glauber não participaria (e até polemizaria duramente) por considerar que a experiência de 'Câncer' é tão válida quanto a de 'Antônio das Mortes'" (Aguilar, op. cit.).

O termo udigrúdi, corruptela de underground, é utilizado pelo próprio Glauber, aliás, para designar o chamado Cinema Marginal, minimizando os esforços tanto do "núcleo duro" do novo movimento quanto dos que estavam ao seu redor, e alegando que "os jovens cineastas [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville e outros de menor talento levantaram-se contra o Cinema Novo, anunciando uma velha novidade: cinema barato, de câmera na mão e ideia na cabeça". Segundo o cineasta, seria ele o verdadeiro inventor do underground brasileiro, justamente com Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

A visão de Glauber acerca de uma possível "autoria" do cinema underground brasileiro pode parecer equivocada, uma vez que Câncer só chegou a público em 1972, quando o Cinema de Invenção de Sganzerla, Bressane e companhia já havia sido muito bem estabelecido e, inclusive, lançado boa parte do que viriam a ser seus filmes seminais. No entanto, é difícil dizer que Glauber veria sua influência como completamente retroativa (a de um filme que ninguém viu em 1968, lançado apenas em 1972, tendo influenciado o cinema que se fez a partir de 68) uma vez que, apesar dos "pais fundadores" do Cinema Marginal não terem assistido a Câncer em 1968, a filmagem do longa foi divulgada abertamente à época, e alguns dos preceitos utilizados por Glauber no processo de fato se tornaram princípios basilares do movimento responsável por filmes como Cuidado, Madame (1970) e Copacabana Mon Amour (1970). Entre estes, há de ser ressaltada uma lógica de produção mais enxuta e menos dependente das estruturas dos filmes de grande orçamento – o que foi um preceito inicial do Cinema Novo, mas que, àquela altura, já havia sido parcialmente abandonado por este na medida em que os cinemanovistas se afinaram à industrialização do cinema brasileiro ante a fundação da Embrafilme. Basta ver o que o já citado Diário de Notícias falava sobre Câncer, ainda em 1968.

"Odete Larta participou da experiência de Glauber Rocha em 16 mm, 'Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante'. Nelson Motta, sempre bem informado e diligente, publicou uma entrevista com Glauber: 'eu queria provar a mim mesmo que não é preciso filmar em 35 mm, nem mesmo gastar 100 milhões [de cruzeiros] para fazer um bom filme' [...]"

Influenciado por Straub/Huillet e pelo underground americano, que tinha então entre seus expoentes notórios Jack Smith e Andy Warhol, Glauber fez em Câncer algo que pode ser resumido pelo que disse em entrevista a Federico de Cárdenas e René Capriles: "o filme não tem história. São três personagens dentro de uma ação violenta. O que estava buscando fazer era uma experiência técnica, do problema da resistência da duração do plano cinematográfico". Sem roteiro ou pré-produção, Câncer foi rodado quase todo no improviso, inclusive de cena: os atores, profissionais ou não, improvisavam livremente ante a câmera glauberiana.

O que realmente serve como liga para planos distintos entre si e sem conexão inicial aparente é uma temática principal, a da violência, que é dissecada pelo cineasta ao ser colocada em tela de diversas maneiras e sob diversos aspectos.

Há, por exemplo, a violência social, manifestada principalmente no que é relativo ao personagem de Antônio Pitanga, um homem negro e pobre que, em busca de trabalho e de um prato de comida, acaba não conseguindo resultados efetivos e partindo para a revolta total e a violência física, que deságua em consequências trágicas.

Pode-se falar também da violência política empregada pelo regime de governo vigente, quando um personagem vivido pelo cineasta Eduardo Coutinho é questionado sobre seu suposto envolvimento com o comunismo – e com Câncer sendo rodado às vésperas do AI-5, é sabido que esse tipo de inquisição política por parte de agentes do Estado não significava pouca coisa.

Podemos ainda citar a violência de gênero, quando o personagem de Hugo Carvana diz que a personagem de Odete Lara "merece ser violentada por quatro crioulos com a camisa do Flamengo na estrada Rio-Petrópolis", em meio a uma conversa sobre fidelidade e poligamia.

Há espaço, por último (mas não menos importante), para se falar na violência da luta de classes (que se conecta de modo direto à "violência social" mencionada anteriormente), quando, para além do que já é delineado pelo próprio Glauber no monólogo de abertura, Carvana diz, na já mencionada sequência com Odete Lara: "Eu sou a favor de ser assassinado brutalmente pela massa, e a massa comer as minhas vísceras todas; eu, você, nós sermos assassinados e execrados. [...] Nós não temos nada a ver com a massa, nós somos dois otários, aqui, vendo televisão ao meio dia [...]". Nesse momento, Glauber, que se considerava "um sádico das massas",8 expurga sua própria culpa burguesa e faz uma espécie de movimento inverso ao que ocorre em Deus e o Diabo na Terra do Sol, quando Antônio das Mortes, personagem de Maurício do Valle, massacra os seguidores do líder religioso popular inspirado no Antônio Conselheiro de Canudos.

Se Antônio das Mortes é um representativo da "personagem contraditória" tipicamente cinemanovista, que serve como avatar para os dilemas da classe média mesmo quando estando presente, filmicamente, em outro contexto9 – como no próprio Deus e o Diabo, filme de cangaço onde não existe uma classe média designada como tal – em Câncer o conflito entre classes ocorre de maneira significativamente diferente.

Na sequência em que Carvana e Odete Lara assistem televisão, "o povo" é citado como algo distante, que não está presente em cena; Carvana enxerga na derrocada da burguesia pelo povo uma maneira de, com razão, castigar as classes mais abastadas do país por sua própria inércia e miséria intelectual (expressada, aqui, pelo ato de se estar assistindo televisão, vadiamente, ao meio dia, horário no qual o povo está majoritariamente trabalhando). Em outras sequências, o povo está representado fisicamente no personagem de Pitanga, conforme já discutido aqui, e este alcança sua emancipação ao assassinar o personagem a quem está subordinado, ao fim do filme, dando cabo ao movimento que é previsto pelo personagem de Carvana – ainda que não envolvendo diretamente ele ou Odete Lara. Pitanga, apesar da euforia do assassinato, não tem, aqui, seus problemas resolvidos, permanecendo à deriva apesar da vingança pessoal.

Um elemento que, se para o espectador pode ser secundário, para o processo de filmagem é um dado fundamental, há de ser considerado ao se escrever sobre Câncer, e pode servir também como objeto para elaborações que vão além dessas visões primárias: a presença, no filme, do artista visual Hélio Oiticica.

Frederico Coelho propõe a tese de que Oiticica seria o responsável por fazer com que a arte brasileira de maior alcance, que vem de uma origem majoritariamente da classe média ou média-alta dos eixos Rio-São Paulo, entrasse em contato com a realidade das populações periféricas na década de 1960. Oiticica teria sido o precursor desse movimento ao passar a frequentar o morro da Mangueira, favela no Rio de Janeiro, e enturmar-se com a população local, encontrando afinidade sobretudo entre a chamada "malandragem" e mesmo entre os pequenos criminosos locais. O destaque, em meio a essas relações sociais de Oiticica com a criminalidade periférica, está em sua amizade com o contraventor Cara de Cavalo — que, após ser brutalmente assassinado, foi homenageado em duas obras do artista, sendo a mais conhecida a bandeira "Seja Marginal, Seja Herói".

Câncer foi "parcialmente filmado no pátio da casa de Oiticica", no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade. Àquela altura, o local já promovia encontros entre a intelectualidade de classe média e os amigos mangueirenses do artista. Morando com Oiticica, naquele momento, estava o artista Rogério Duarte, autor do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ambos atuam no filme, em breves participações, e Oiticica é responsável por trazer para dentro de cena passistas da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. O samba, inclusive, enquanto elemento de Câncer – e estando presente em mais de uma sequência – é trazido ao filme, como um todo, por essa conexão feita por Oiticica.

Se, como Glauber bem lembra no monólogo que abre Câncer, o filme foi "filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro", a parceria Glauber-Oiticica foi fundamental para trazer à produção uma outra dimensão no que diz respeito aos elementos relacionados à marginalidade social. Foi essa parceria que fez com que Câncer subisse às favelas cariocas e que incorporasse a Mangueira e o samba a seu já vigoroso discurso de denúncia e revolução, que pulsa com surpreendente vitalidade em meio a uma série de improvisos.

No monólogo inicial o diretor afirma que as mudanças que tomaram conta do ano de 1968 não eram "mesmo uma revolução", sendo mais uma "agitação" promovida por uma "classe média radical", "burguesia liberal reformista", à moda da revolução francesa. Partindo disso, um caminho possível para a inserção do povo enquanto agente de mudança é dado através de um filme que foge, em muito, do convencional, tanto em linguagem quanto em discurso. Não sem se atentar aos perigos de uma violência sem significado político, Glauber entrega em Câncer um de seus trabalhos mais complexos e estimulantes, ainda que menos comentados.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 Ver Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 Ver o capítulo “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), em Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. Em: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 Ver o capítulo “Glauber Rocha, plano sequência”, em Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 No texto “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originalmente publicado em Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 Em carta a Carlos Diegues, citada em Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 Ver Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

"Era em Agosto de 1968... Era no Rio de Janeiro em agosto de 1968, uma agitação arretada, os estudantes na rua, os operários; tinha operário ocupando fábrica em Minas Gerais, operário ocupando fábrica em São Paulo, e estudantes fazendo agitação. Era a ditadura do Costa e Silva, que tinha sido o segundo ditador, depois de Castelo Branco, e tinha derrubado o presidente Jango, que estava fazendo a revolução em 64; não era o Marechal Castelo Branco, não, que este era um marechal reacionário... Então estava uma onda terrível, os estudantes na rua, o líder era Vladimir Palmeira; tinha Marcos Medeiros, Elinor Brito, o psicanalista Hélio Pellegrino, Franklin Martins, a barra pesada toda.

Mas não era mesmo uma revolução, quer dizer, era agitação, era... tinha o maio o francês também, estava uma onda arretada. Nego dizia o seguinte: que era revolução, mas era a classe média radical, burguesia liberal reformista na rua. E os operários... Tinha muito camponês morrendo de fome no nordeste. Que, aliás, continua morrendo de fome até hoje, estão morrendo há mais de 400 anos. E os intelectuais estavam lá, no Museu de Arte Moderna, naquela noite. Exatamente, discutindo sobre a arte, a arte revolucionária, porque estava começando o tropicalismo, uma onda arretada.

Aí eu chamei o Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, que tinha chegado da Itália;ele tinha uma Arriflex. O Luiz Carlos Saldanha fez a fotografia e a câmera, e o som direto foi feito por José Ventura. Agora, Hugo Carvana, Antônio Pitanga (que é baiano) e Odete Lara fizeram os papéis principais; no mais, Rogério Duarte (que é baiano também), Zé Medeiros, Hélio Oiticica (que é pintor) e o pessoal (Biju, Tineca, um pessoal da Mangueira), e mais Zelito (quer dizer, não Doutor Zelito do filme, Doutor Zelito da Mapa Filmes) e Chiquinho, que tava na Kombi.

E aí o tempo passou, porque ficou... Depois eu cheguei em Havana, aí fiz no ICAIC o som... A sincronização foi feita por Raul Garcia, e eu montei com a Tineca e a Mireta. Numa coprodução, e aí entrou o Barceloni na Itália e ficou com o título 'Câncer'. Rio de Janeiro. Filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro, uma filmagem que demorou quatro dias para filmar e quatro anos para montar e sincronizar... Terminou em maio de 72; de agosto de 68 a maio de 72, 'Câncer'."

É com esse monólogo, entoado por sua própria voz, que Glauber Rocha abre seu longa Câncer. Nas imagens, desenrola-se justamente o que é descrito em dado momento da fala: a câmera de Luiz Carlos Saldanha desliza por uma longa mesa de intelectuais, reunidos no MAM do Rio de Janeiro ante uma numerosa plateia. Na justaposição feita pelo cineasta, um espectador não familiarizado com sua voz pode acabar momentaneamente tendo a impressão de que o monólogo está sendo proferido pelo orador da vez em meio à mesa (que calha de ser o poeta Ferreira Gullar), que discursa, inaudível, enquanto é observado por seus pares, debruçados sobre o tampo da mesa. Não tarda, no entanto, a perceber que imagem e voz não estão sincronizados, que não dizem a mesma coisa. Esse contraste permeia todo o longa, sendo resultado de seu modo de produção e de finalização.

Logo nesses primeiros minutos, Glauber Rocha já atira o público de cabeça no mundo de Câncer, um de seus filmes mais distintos, que se diferencia de tudo o que o diretor havia feito até então e, mesmo demarcando sua posição em meio à "linha evolutiva" da filmografia glauberiana de modo bem claro, até mesmo do que veio depois. Em um longo monólogo, uma variedade de funções são sintetizadas. O filme não possui cartela de título ou créditos de elenco e equipe técnica ao início ou ao final, mas o monólogo cumpre essa função (algo que Glauber repetiria posteriormente, de um outro jeito, em Jorjamado no Cinema, de 1979). De igual maneira, a fala que inicia o longa também oferece o contexto histórico de sua filmagem – que acaba, também, por justificar o inflamado discurso fílmico que se faria evidente já nos próximos momentos – e descreve os primeiros planos a aparecerem em tela, exatamente enquanto estes estão visualmente presentes. Entrega, ademais, o processo dificultoso de montagem do material, que durou quatro anos e atravessou um dos períodos de exílio de Glauber, tendo sido finalizado em Cuba, e justapõe isso ao dinamismo das gravações. Quatro dias para filmar, quatro anos para montar e sincronizar.

Existem informações contraditórias sobre as filmagens de Câncer. Enquanto o próprio Glauber afirma, no supracitado monólogo e em declarações posteriores, que estas teriam se dado em agosto de 1968, pesquisadores como Gonzalo Aguilar dizem que o filme fora, na verdade, rodado em maio daquele ano. Segundo Aguilar, a gravação do longa teria ocorrido "em maio de 1968, um ano depois da estreia de 'Terra em transe' e antes do início de 'Antônio das Mortes'. Glauber filmou-o no mês que teve antes de começar a nova filmagem" (Aguilar, 2016, p. 99).1 A afirmação de Aguilar encontra respaldo em notícias de jornais como o Diário de Notícias, publicadas em maio e junho de 1968, já relatando as gravações e ainda se referindo ao filme pelo seu título provisório, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citando "entre 8 e 10 de julho" daquele ano como o período especulado para o lançamento do longa. O pesquisador Frederico Coelho (que firma agosto como o mês das filmagens, estando portanto de acordo com a "versão oficial" glauberiana) aponta que essa janela entre a estreia de Terra em Transe e o início das filmagens de Antônio das Mortes teria sido uma "temporada forçada" que Glauber passou no Rio, e sinaliza a presença, em Câncer, dos atores Hugo Carvana e Odete Lara como uma evidência de que essa temporada já estaria sendo passada com o elenco de Antônio das Mortes, antes da viagem ao sertão da Bahia para as gravações do mesmo.2

É de se especular o porquê da mudança de data de maio para agosto no monólogo de abertura do longa, se fruto um lapso de memória do próprio Glauber ou um joguete proposital. Talvez "agosto" se refira ao prólogo gravado no MAM, que de fato foi filmado posteriormente à fotografia principal. Fato é que as filmagens de Câncer no famoso maio de 68 (citado, inclusive, no próprio monólogo glauberiano) estariam perfeitamente sintonizadas com o clima que fervilhava no mundo, partindo da França, e começava a frutificar no Brasil, do ponto de vista cinematográfico. No mesmo mês de maio, Neville D'Almeida filmava o seu Jardim de Guerra, e em novembro daquele ano, no Festival de Brasília, seria exibido publicamente pela primeira vez um marco definitivo na cinematografia brasileira, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.

Não é exagero listar 1968 como um ano divisor de águas para o cinema brasileiro. É o ano em que, a partir da estreia do filme do Sganzerla, estoura o que passa a ser chamado de "Cinema de Invenção", ou "Cinema Marginal" – em alusão ao "A Margem", de Ozualdo Candeias, lançado no ano anterior, mas também em um certo senso de marginalidade artística, para o qual convergiam, por exemplo, músicos que tocavam seus trabalhos à margem da Bossa Nova e do Tropicalismo musical; artistas plásticos e poetas que pensavam e executavam suas ideias à margem dos parâmetros conservadores, então vigentes mesmo entre os que juraram romper com o conservadorismo estético (como o caso do movimento neoconcreto); e cineastas que realizavam um novo tipo de cinema, à margem do movimento do Cinema Novo. Naquele momento, este começava a ter seu "núcleo duro" desestruturado, com seus principais quadros focando seus esforços na industrialização do cinema brasileiro através da criação de uma produtora e distribuidora audiovisual estatal, de capital misto, para fomentar e dar vazão ao produto cinematográfico nacional — o que viria a se concretizar no ano seguinte, com o surgimento da Embrafilme, em verdade uma encarnação tardia de uma instituição já preexistente, o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE).3

O montador Geraldo Veloso, uma das figuras que vivenciou as transformações pelas quais o cinema brasileiro estava passando in loco no calor daqueles acontecimentos, definiu os filmes rodados ou lançados em 1968 como expoentes de "um cinema que necessariamente trazia uma reflexão política sobre um momento decisivo para a história contemporânea do mundo (e especialmente com o Brasil, que termina o ano com a instauração do AI-5)" (Veloso 2012, p. 15).4 As filmagens de Câncer em maio daquele ano funcionariam como uma semente para "a origem do que seria o udigrúdi do cinema brasileiro, do qual Glauber não participaria (e até polemizaria duramente) por considerar que a experiência de 'Câncer' é tão válida quanto a de 'Antônio das Mortes'"  (Aguilar, op. cit.).

O termo udigrúdi, corruptela de underground, é utilizado pelo próprio Glauber, aliás, para designar o chamado Cinema Marginal, minimizando os esforços tanto do "núcleo duro" do novo movimento quanto dos que estavam ao seu redor, e alegando que "os jovens cineastas [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville e outros de menor talento levantaram-se contra o Cinema Novo, anunciando uma velha novidade: cinema barato, de câmera na mão e ideia na cabeça". Segundo o cineasta, seria ele o verdadeiro inventor do underground brasileiro, justamente com Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

A visão de Glauber acerca de uma possível "autoria" do cinema underground brasileiro pode parecer equivocada, uma vez que Câncer só chegou a público em 1972, quando o Cinema de Invenção de Sganzerla, Bressane e companhia já havia sido muito bem estabelecido e, inclusive, lançado boa parte do que viriam a ser seus filmes seminais. No entanto, é difícil dizer que Glauber veria sua influência como completamente retroativa (a de um filme que ninguém viu em 1968, lançado apenas em 1972, tendo influenciado o cinema que se fez a partir de 68) uma vez que, apesar dos "pais fundadores" do Cinema Marginal não terem assistido a Câncer em 1968, a filmagem do longa foi divulgada abertamente à época, e alguns dos preceitos utilizados por Glauber no processo de fato se tornaram princípios basilares do movimento responsável por filmes como Cuidado, Madame (1970) e Copacabana Mon Amour (1970). Entre estes, há de ser ressaltada uma lógica de produção mais enxuta e menos dependente das estruturas dos filmes de grande orçamento – o que foi um preceito inicial do Cinema Novo, mas que, àquela altura, já havia sido parcialmente abandonado por este na medida em que os cinemanovistas se afinaram à industrialização do cinema brasileiro ante a fundação da Embrafilme. Basta ver o que o já citado Diário de Notícias falava sobre Câncer, ainda em 1968.

"Odete Larta participou da experiência de Glauber Rocha em 16 mm, 'Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante'. Nelson Motta, sempre bem informado e diligente, publicou uma entrevista com Glauber: 'eu queria provar a mim mesmo que não é preciso filmar em 35 mm, nem mesmo gastar 100 milhões [de cruzeiros] para fazer um bom filme' [...]"

Influenciado por Straub/Huillet e pelo underground americano, que tinha então entre seus expoentes notórios Jack Smith e Andy Warhol, Glauber fez em Câncer algo que pode ser resumido pelo que disse em entrevista a Federico de Cárdenas e René Capriles: "o filme não tem história. São três personagens dentro de uma ação violenta. O que estava buscando fazer era uma experiência técnica, do problema da resistência da duração do plano cinematográfico". Sem roteiro ou pré-produção, Câncer foi rodado quase todo no improviso, inclusive de cena: os atores, profissionais ou não, improvisavam livremente ante a câmera glauberiana.

O que realmente serve como liga para planos distintos entre si e sem conexão inicial aparente é uma temática principal, a da violência, que é dissecada pelo cineasta ao ser colocada em tela de diversas maneiras e sob diversos aspectos.

Há, por exemplo, a violência social, manifestada principalmente no que é relativo ao personagem de Antônio Pitanga, um homem negro e pobre que, em busca de trabalho e de um prato de comida, acaba não conseguindo resultados efetivos e partindo para a revolta total e a violência física, que deságua em consequências trágicas.

Pode-se falar também da violência política empregada pelo regime de governo vigente, quando um personagem vivido pelo cineasta Eduardo Coutinho é questionado sobre seu suposto envolvimento com o comunismo – e com Câncer sendo rodado às vésperas do AI-5, é sabido que esse tipo de inquisição política por parte de agentes do Estado não significava pouca coisa.

Podemos ainda citar a violência de gênero, quando o personagem de Hugo Carvana diz que a personagem de Odete Lara "merece ser violentada por quatro crioulos com a camisa do Flamengo na estrada Rio-Petrópolis", em meio a uma conversa sobre fidelidade e poligamia.

Há espaço, por último (mas não menos importante), para se falar na violência da luta de classes (que se conecta de modo direto à "violência social" mencionada anteriormente), quando, para além do que já é delineado pelo próprio Glauber no monólogo de abertura, Carvana diz, na já mencionada sequência com Odete Lara: "Eu sou a favor de ser assassinado brutalmente pela massa, e a massa comer as minhas vísceras todas; eu, você, nós sermos assassinados e execrados. [...] Nós não temos nada a ver com a massa, nós somos dois otários, aqui, vendo televisão ao meio dia [...]". Nesse momento, Glauber, que se considerava "um sádico das massas",8 expurga sua própria culpa burguesa e faz uma espécie de movimento inverso ao que ocorre em Deus e o Diabo na Terra do Sol, quando Antônio das Mortes, personagem de Maurício do Valle, massacra os seguidores do líder religioso popular inspirado no Antônio Conselheiro de Canudos.

Se Antônio das Mortes é um representativo da "personagem contraditória" tipicamente cinemanovista, que serve como avatar para os dilemas da classe média mesmo quando estando presente, filmicamente, em outro contexto9 – como no próprio Deus e o Diabo, filme de cangaço onde não existe uma classe média designada como tal – em Câncer o conflito entre classes ocorre de maneira significativamente diferente.

Na sequência em que Carvana e Odete Lara assistem televisão, "o povo" é citado como algo distante, que não está presente em cena; Carvana enxerga na derrocada da burguesia pelo povo uma maneira de, com razão, castigar as classes mais abastadas do país por sua própria inércia e miséria intelectual (expressada, aqui, pelo ato de se estar assistindo televisão, vadiamente, ao meio dia, horário no qual o povo está majoritariamente trabalhando). Em outras sequências, o povo está representado fisicamente no personagem de Pitanga, conforme já discutido aqui, e este alcança sua emancipação ao assassinar o personagem a quem está subordinado, ao fim do filme, dando cabo ao movimento que é previsto pelo personagem de Carvana – ainda que não envolvendo diretamente ele ou Odete Lara. Pitanga, apesar da euforia do assassinato, não tem, aqui, seus problemas resolvidos, permanecendo à deriva apesar da vingança pessoal.

Um elemento que, se para o espectador pode ser secundário, para o processo de filmagem é um dado fundamental, há de ser considerado ao se escrever sobre Câncer, e pode servir também como objeto para elaborações que vão além dessas visões primárias: a presença, no filme, do artista visual Hélio Oiticica.

Frederico Coelho propõe a tese de que Oiticica seria o responsável por fazer com que a arte brasileira de maior alcance, que vem de uma origem majoritariamente da classe média ou média-alta dos eixos Rio-São Paulo, entrasse em contato com a realidade das populações periféricas na década de 1960. Oiticica teria sido o precursor desse movimento ao passar a frequentar o morro da Mangueira, favela no Rio de Janeiro, e enturmar-se com a população local, encontrando afinidade sobretudo entre a chamada "malandragem" e mesmo entre os pequenos criminosos locais. O destaque, em meio a essas relações sociais de Oiticica com a criminalidade periférica, está em sua amizade com o contraventor Cara de Cavalo — que, após ser brutalmente assassinado, foi homenageado em duas obras do artista, sendo a mais conhecida a bandeira "Seja Marginal, Seja Herói".

Câncer foi "parcialmente filmado no pátio da casa de Oiticica", no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade. Àquela altura, o local já promovia encontros entre a intelectualidade de classe média e os amigos mangueirenses do artista. Morando com Oiticica, naquele momento, estava o artista Rogério Duarte, autor do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ambos atuam no filme, em breves participações, e Oiticica é responsável por trazer para dentro de cena passistas da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. O samba, inclusive, enquanto elemento de Câncer – e estando presente em mais de uma sequência – é trazido ao filme, como um todo, por essa conexão feita por Oiticica.

Se, como Glauber bem lembra no monólogo que abre Câncer, o filme foi "filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro", a parceria Glauber-Oiticica foi fundamental para trazer à produção uma outra dimensão no que diz respeito aos elementos relacionados à marginalidade social. Foi essa parceria que fez com que Câncer subisse às favelas cariocas e que incorporasse a Mangueira e o samba a seu já vigoroso discurso de denúncia e revolução, que pulsa com surpreendente vitalidade em meio a uma série de improvisos.

No monólogo inicial o diretor afirma que as mudanças que tomaram conta do ano de 1968 não eram "mesmo uma revolução", sendo mais uma "agitação" promovida por uma "classe média radical", "burguesia liberal reformista", à moda da revolução francesa. Partindo disso, um caminho possível para a inserção do povo enquanto agente de mudança é dado através de um filme que foge, em muito, do convencional, tanto em linguagem quanto em discurso. Não sem se atentar aos perigos de uma violência sem significado político, Glauber entrega em Câncer um de seus trabalhos mais complexos e estimulantes, ainda que menos comentados.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 Ver Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 Ver o capítulo “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), em Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. Em: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 Ver o capítulo “Glauber Rocha, plano sequência”, em Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 No texto “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originalmente publicado em Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 Em carta a Carlos Diegues, citada em Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 Ver Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

“It was in August 1968... It was in Rio de Janeiro in August 1968, a hell of a commotion, students in the streets, workers too; there were workers occupying factories in Minas Gerais, workers occupying factories in São Paulo, and students stirring things up. It was the dictatorship of Costa e Silva, who had been the second dictator, after Castelo Branco, and had overthrown President Jango, who was making the revolution in 1964; it wasn’t Marshal Castelo Branco, no, because he was a reactionary marshal... So there was a terrible wave going on, students in the streets, the leader was Vladimir Palmeira; there was Marcos Medeiros, Elinor Brito, the psychoanalyst Hélio Pellegrino, Franklin Martins, the whole tough crowd.

But it wasn’t really a revolution, I mean, it was unrest, it was... there was the French May too, there was one hell of a wave going on. People would say the following: that it was revolution, but it was the radical middle class, the reformist liberal bourgeoisie in the streets. And the workers... There were many peasants starving to death in the Northeast. Which, by the way, continues to be the case today, they have been dying of hunger for more than 400 years. And the intellectuals were there, at the Museum of Modern Art, that night. Exactly, discussing art, revolutionary art, because Tropicalism was beginning, one hell of a wave.

Then I called Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, who had arrived from Italy; he had an Arriflex. Luiz Carlos Saldanha did the cinematography and camera, and the direct sound was done by José Ventura. Now, Hugo Carvana, Antônio Pitanga, who is from Bahia, and Odete Lara played the main roles; beyond them, there was Rogério Duarte, who is also from Bahia, Zé Medeiros, Hélio Oiticica, who is a painter, and the gang, Biju, Tineca, some people from Mangueira, and also Zelito, meaning not Doctor Zelito from the film, but Doctor Zelito from Mapa Filmes, and Chiquinho, who was in the Kombi.

And then time went by, because the film was left unfinished... Later I arrived in Havana, and did the sound at ICAIC... The synchronization was done by Raul Garcia, and I edited it with Tineca and Mireta. It was a co-production, and then Barceloni came in from Italy, and it ended up with the title Câncer. Rio de Janeiro. Shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro, a shoot that took four days to film and four years to edit and synchronize... It was finished in May 1972; from August 1968 to May 1972, Câncer.”

It is with this monologue, intoned in his own voice, that Glauber Rocha opens his feature film Câncer. In the images, we see precisely what is described at one point in the speech: Luiz Carlos Saldanha’s camera glides along a long table of intellectuals, gathered at Rio de Janeiro’s MAM before a large audience. In the juxtaposition created by the filmmaker, a viewer unfamiliar with his voice may momentarily come away with the impression that the monologue is being delivered by the speaker currently at the table, who happens to be the poet Ferreira Gullar. He speaks inaudibly while being observed by his peers, who lean over the tabletop. Before long, however, it becomes clear that image and voice are not synchronized, that they are not saying the same thing. This contrast permeates the entire feature, and is the result of its mode of production and completion.

Already in these opening minutes, Glauber Rocha throws the audience headfirst into the world of Câncer, one of his most distinctive films, one that differs from everything the director had made up to that point and, even while clearly marking its place within the “evolutionary line” of Glauber’s filmography, from what would come afterward as well. In a long monologue, a variety of functions are synthesized. The film has no title card or cast and crew credits at the beginning or end, but the monologue fulfills that function, something Glauber would later repeat, in a different way, in Jorjamado no Cinema, from 1979. Likewise, the speech that opens the feature also provides the historical context of its filming, which ultimately also serves to justify the inflamed filmic discourse that would become evident in the very next moments, and describes the first shots to appear on screen at the exact moment they are visually present. It also lays out the difficult process of editing the material, which lasted four years and spanned one of Glauber’s periods of exile, having been completed in Cuba, and juxtaposes this with the dynamism of the shoot. Four days to film, four years to edit and synchronize.

There is conflicting information about the filming of Câncer. While Glauber himself states, in the aforementioned monologue and in later remarks, that it took place in August 1968, researchers such as Gonzalo Aguilar say that the film was in fact shot in May of that year. According to Aguilar, the feature was filmed “in May 1968, one year after the premiere of Terra em Transe and before the beginning of Antônio das Mortes. Glauber shot it during the month he had before beginning the new shoot” (Aguilar, 2016, p. 99).1 Aguilar’s claim is supported by newspaper items such as those published in Diário de Notícias in May and June 1968, which were already reporting on the shoot and still referring to the film by its provisional title, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citing “between July 8 and 10” of that year as the speculated period for the feature’s release. The researcher Frederico Coelho, who identifies August as the month of filming and is therefore in agreement with the Glauberian “official version,” points out that this window between the premiere of Terra em Transe and the beginning of filming on Antônio das Mortes would have been a “forced season” that Glauber spent in Rio, and notes the presence, in Câncer, of the actors Hugo Carvana and Odete Lara as evidence that this season was already being spent with the cast of Antônio das Mortes, before the trip to the backlands of Bahia for that film’s shoot.2

One can only speculate as to why the date changed from May to August in the feature’s opening monologue, whether it was the result of a lapse in Glauber’s own memory or a deliberate game. Perhaps “August” refers to the prologue recorded at MAM, which was in fact filmed after principal photography. The fact remains that the filming of Câncer in the famous May of ’68, mentioned, in fact, in Glauber’s own monologue, would have been perfectly in tune with the atmosphere then boiling over around the world, beginning in France, and starting to bear fruit in Brazil from a cinematic point of view. In that same month of May, Neville D’Almeida was shooting Jardim de Guerra, and in November of that year, at the Festival de Brasília, a definitive landmark of Brazilian cinema, Rogério Sganzerla’s O Bandido da Luz Vermelha, would be publicly screened for the first time.

It is no exaggeration to list 1968 as a watershed year for Brazilian cinema. It is the year in which, beginning with the premiere of Sganzerla’s film, what came to be called “Cinema de Invenção,” or “Cinema Marginal,” exploded onto the scene. The term alluded to Ozualdo Candeias’s A Margem, released the previous year, but also to a certain sense of artistic marginality, toward which converged, for example, musicians who carried out their work on the margins of Bossa Nova and musical Tropicalism; visual artists and poets who conceived and executed their ideas on the margins of the conservative parameters then in force, even among those who had sworn to break with aesthetic conservatism, as in the case of the Neoconcrete movement; and filmmakers who were creating a new kind of cinema, on the margins of the Cinema Novo movement. At that moment, Cinema Novo was beginning to see its “hard core” dismantled, with its leading figures focusing their efforts on the industrialization of Brazilian cinema through the creation of a state audiovisual production and distribution company, with mixed capital, designed to foster and provide an outlet for national film production. This would come to fruition the following year with the emergence of Embrafilme, in truth a late incarnation of a preexisting institution, the Instituto Nacional do Cinema Educativo, INCE.3

Editor Geraldo Veloso, one of the figures who experienced firsthand, in the heat of those events, the transformations Brazilian cinema was undergoing, defined the films shot or released in 1968 as exponents of “a cinema that necessarily brought with it a political reflection on a decisive moment in the contemporary history of the world (and especially of Brazil, which ended the year with the implementation of AI-5)” (Veloso 2012, p. 15).4 The filming of Câncer in May of that year would function as a seed for “the origin of what would become the udigrúdi of Brazilian cinema, in which Glauber would not participate, and with which he would even engage in harsh polemics, because he considered the experience of Câncer to be just as valid as that of Antônio das Mortes.” (Aguilar, op. cit.).

The term udigrúdi, a corruption of “underground,” is in fact used by Glauber himself to designate so-called Cinema Marginal, minimizing the efforts both of the “hard core” of the new movement and of those around it, and claiming that “the young filmmakers [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville, and others of lesser talent rose up against Cinema Novo, announcing an old novelty: cheap cinema, handheld camera, and idea in the head.” According to the filmmaker, he himself was the true inventor of the Brazilian underground, precisely with Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

While the “young filmmakers” fervently joined, between the late 1960s and the mid-1970s, the disputes over who represented the true Brazilian cinematic avant-garde, trading barbs with Cinema Novo led by Glauber, at least in a less heated retrospective, in 1986, the role of Câncer was already recognized by Jairo Ferreira, one of the main theorists of Cinema Marginal. In Cinema de Invenção, a collection of old and new texts that helped solidify the movement’s theoretical framework, there is a brief chapter dedicated to Glauber Rocha and Câncer. While it does not avoid the earlier polemics, and stresses that “the experimental was truly born in Boca do Lixo in 1967 with Ozualdo Candeias’s A Margem [...],” (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, publishing his book after Glauber’s death, brings this dispute to a more or less conciliatory close, emphasizing Glauber’s inventiveness in the way the filmmaker operates within the sequence shots of Câncer and proposing, on that basis, that “cinephiles watch Câncer alongside the films of Hitch[cock] & Straub, as well as Julio Bressane’s O Anjo Nasceu/1969.” (ibid, p. 166).6 

Glauber’s view regarding a possible “authorship” of Brazilian underground cinema may seem mistaken, since Câncer only reached the public in 1972, by which point the Cinema de Invenção of Sganzerla, Bressane, and company had already been firmly established and had even released many of what would become its seminal films. However, it is difficult to say that Glauber would have seen his influence as completely retroactive, that is, as the influence of a film no one saw in 1968, released only in 1972, on the cinema made from 1968 onward, since, although the “founding fathers” of Cinema Marginal did not watch Câncer in 1968, the feature’s filming was openly publicized at the time, and some of the principles used by Glauber in the process did in fact become foundational principles of the movement responsible for films such as Cuidado, Madame (1970) and Copacabana Mon Amour (1970). Among these, one should emphasize a leaner production logic, less dependent on the structures of big-budget films, something that had been an initial precept of Cinema Novo, but which, by that point, had already been partially abandoned by it as the Cinema Novo filmmakers aligned themselves with the industrialization of Brazilian cinema in the lead-up to the founding of Embrafilme. One need only look at what the aforementioned Diário de Notícias was saying about Câncer as early as 1968.

“Odete Lara took part in Glauber Rocha’s experimental 16mm project, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante. Nelson Motta, always well informed and diligent, published an interview with Glauber: ‘I wanted to prove to myself that it is not necessary to shoot in 35mm, nor even to spend 100 million [cruzeiros], to make a good film’ [...]”

Influenced by Straub/Huillet and by the American underground, whose notable exponents include Jack Smith and Andy Warhol, Glauber made in Câncer something that can be summed up by what he said in an interview with Federico de Cárdenas and René Capriles: “the film has no story. It is three characters within a violent action. What I was seeking to do was a technical experiment, dealing with the problem of the endurance of the duration of the cinematic shot”.7 Without a script or pre-production, Câncer was shot almost entirely through improvisation, including improvised scenes: the actors, professional or not, improvised freely before Glauber’s camera.

What truly serves as the binding agent for shots that are distinct from one another and apparently unconnected at first is a central theme: violence, which the filmmaker dissects by placing it onscreen in various ways and from various angles.

There is, for example, social violence, manifested primarily in relation to Antônio Pitanga’s character, a poor Black man who, in search of work and a plate of food, ends up failing to achieve any effective results and moves toward total revolt and physical violence, which leads to tragic consequences.

One can also speak of the political violence employed by the ruling regime, when a character played by filmmaker Eduardo Coutinho is questioned about his supposed involvement with communism. And with Câncer having been shot on the eve of AI-5, it is well known that this kind of political inquisition by agents of the State was no small matter.

We can also cite gendered violence, when Hugo Carvana’s character says that Odete Lara’s character “deserves to be raped by four Black men in Flamengo jerseys on the Rio-Petrópolis highway,” in the midst of a conversation about fidelity and polygamy.

There is room, finally, but no less importantly, to speak of the violence of class struggle, which connects directly to the “social violence” mentioned earlier, when, beyond what Glauber himself already outlines in the opening monologue, Carvana says, in the aforementioned sequence with Odete Lara: “I am in favor of being brutally murdered by the masses, and of the masses eating all my entrails; of me, you, all of us being murdered and execrated. [...] We have nothing to do with the masses, we are two suckers, here, watching television at noon [...].” At this moment, Glauber, who considered himself “a sadist of the masses,”8 purges his own bourgeois guilt and makes a kind of inverse movement to what occurs in Black God, White Devil, when Antônio das Mortes, the character played by Maurício do Valle, massacres the followers of the popular religious leader inspired by Antônio Conselheiro of Canudos.

If Antônio das Mortes is representative of the typically Cinema Novo “contradictory character,” serving as an avatar for the dilemmas of the middle class even when present, filmically, in another context,9 as in Black God, White Devil itself, a cangaço film in which there is no middle class designated as such, in Câncer the conflict between classes unfolds in a significantly different way.

In the sequence in which Carvana and Odete Lara watch television, “the people” are cited as something distant, absent from the scene. Carvana sees the downfall of the bourgeoisie at the hands of the people as a way of rightly punishing the country’s more affluent classes for their own inertia and intellectual misery, expressed here through the act of idly watching television at noon, a time when the people are, for the most part, working. In other sequences, the people are physically represented by Pitanga’s character, as already discussed here, and he achieves his emancipation by murdering the character to whom he is subordinated at the end of the film, thereby completing the movement foreseen by Carvana’s character, even if it does not directly involve him or Odete Lara. Pitanga, despite the euphoria of the murder, does not have his problems solved here, remaining adrift despite his personal revenge.

One element that, while it may seem secondary to the viewer, was a fundamental factor in the filming process, must be taken into account when writing about Câncer, and may also serve as an object for reflections that go beyond these initial readings: the presence, in the film, of visual artist Hélio Oiticica.

Frederico Coelho proposes the thesis that Oiticica was responsible for bringing the most widely visible Brazilian art, which came largely from middle-class or upper-middle-class origins in the Rio-São Paulo axis, into contact with the reality of peripheral populations in the 1960s. Oiticica would have been the precursor of this movement when he began frequenting Morro da Mangueira, a favela in Rio de Janeiro, and became involved with the local population, finding affinity above all among the so-called malandragem and even among local petty criminals. The most notable example, amid Oiticica’s social relationships with peripheral criminality, is his friendship with the outlaw Cara de Cavalo, who, after being brutally murdered, was honored in two of the artist’s works, the best known of which is the flag Seja Marginal, Seja Herói.

Câncer was “partially filmed in the courtyard of Oiticica’s house,” in the Jardim Botânico neighborhood, in Rio de Janeiro’s South Zone, an affluent area of the city. By that point, the location “had already served as a clandestine meeting place where bohemians from the middle class mixed with residents of Mangueira.” Living with Oiticica at the time was the artist Rogério Duarte, who designed the poster for Black God, White Devil. Both appear in the film in brief roles, and Oiticica is responsible for bringing into the scene passistas from the samba school Estação Primeira de Mangueira, his friends, who also make appearances in the production. Samba, in fact, as an element of Câncer, and present in more than one sequence, is brought into the film as a whole through this connection made by Oiticica.

If, as Glauber aptly recalls in the monologue that opens Câncer, the film was “shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro,” the Glauber-Oiticica partnership was fundamental in bringing another dimension to the production with regard to elements related to social marginality. It was this partnership that led Câncer up into Rio’s favelas and incorporated Mangueira and samba into its already vigorous discourse of denunciation and revolution, which pulses with surprising vitality amid a series of improvisations.

In the opening monologue, the director states that the changes that swept through 1968 were “not really a revolution,” but rather an “agitation” promoted by a “radical middle class,” a “reformist liberal bourgeoisie,” in the manner of the French Revolution. From this point of departure, one possible path for inserting the people as agents of change is offered through a film that departs greatly from the conventional, both in language and in discourse. Not without attending to the dangers of violence devoid of political meaning, Glauber delivers in Câncer one of his most complex and stimulating works, even if it remains among his least discussed.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 See Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 See the chapter “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), in Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. In: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 See the chapter “Glauber Rocha, plano sequência”, in Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 From the text “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originally published in Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 In a letter to Carlos Diegues, cited by Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 See Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

“It was in August 1968... It was in Rio de Janeiro in August 1968, a hell of a commotion, students in the streets, workers too; there were workers occupying factories in Minas Gerais, workers occupying factories in São Paulo, and students stirring things up. It was the dictatorship of Costa e Silva, who had been the second dictator, after Castelo Branco, and had overthrown President Jango, who was making the revolution in 1964; it wasn’t Marshal Castelo Branco, no, because he was a reactionary marshal... So there was a terrible wave going on, students in the streets, the leader was Vladimir Palmeira; there was Marcos Medeiros, Elinor Brito, the psychoanalyst Hélio Pellegrino, Franklin Martins, the whole tough crowd.

But it wasn’t really a revolution, I mean, it was unrest, it was... there was the French May too, there was one hell of a wave going on. People would say the following: that it was revolution, but it was the radical middle class, the reformist liberal bourgeoisie in the streets. And the workers... There were many peasants starving to death in the Northeast. Which, by the way, continues to be the case today, they have been dying of hunger for more than 400 years. And the intellectuals were there, at the Museum of Modern Art, that night. Exactly, discussing art, revolutionary art, because Tropicalism was beginning, one hell of a wave.

Then I called Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, who had arrived from Italy; he had an Arriflex. Luiz Carlos Saldanha did the cinematography and camera, and the direct sound was done by José Ventura. Now, Hugo Carvana, Antônio Pitanga, who is from Bahia, and Odete Lara played the main roles; beyond them, there was Rogério Duarte, who is also from Bahia, Zé Medeiros, Hélio Oiticica, who is a painter, and the gang, Biju, Tineca, some people from Mangueira, and also Zelito, meaning not Doctor Zelito from the film, but Doctor Zelito from Mapa Filmes, and Chiquinho, who was in the Kombi.

And then time went by, because the film was left unfinished... Later I arrived in Havana, and did the sound at ICAIC... The synchronization was done by Raul Garcia, and I edited it with Tineca and Mireta. It was a co-production, and then Barceloni came in from Italy, and it ended up with the title Câncer. Rio de Janeiro. Shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro, a shoot that took four days to film and four years to edit and synchronize... It was finished in May 1972; from August 1968 to May 1972, Câncer.”

It is with this monologue, intoned in his own voice, that Glauber Rocha opens his feature film Câncer. In the images, we see precisely what is described at one point in the speech: Luiz Carlos Saldanha’s camera glides along a long table of intellectuals, gathered at Rio de Janeiro’s MAM before a large audience. In the juxtaposition created by the filmmaker, a viewer unfamiliar with his voice may momentarily come away with the impression that the monologue is being delivered by the speaker currently at the table, who happens to be the poet Ferreira Gullar. He speaks inaudibly while being observed by his peers, who lean over the tabletop. Before long, however, it becomes clear that image and voice are not synchronized, that they are not saying the same thing. This contrast permeates the entire feature, and is the result of its mode of production and completion.

Already in these opening minutes, Glauber Rocha throws the audience headfirst into the world of Câncer, one of his most distinctive films, one that differs from everything the director had made up to that point and, even while clearly marking its place within the “evolutionary line” of Glauber’s filmography, from what would come afterward as well. In a long monologue, a variety of functions are synthesized. The film has no title card or cast and crew credits at the beginning or end, but the monologue fulfills that function, something Glauber would later repeat, in a different way, in Jorjamado no Cinema, from 1979. Likewise, the speech that opens the feature also provides the historical context of its filming, which ultimately also serves to justify the inflamed filmic discourse that would become evident in the very next moments, and describes the first shots to appear on screen at the exact moment they are visually present. It also lays out the difficult process of editing the material, which lasted four years and spanned one of Glauber’s periods of exile, having been completed in Cuba, and juxtaposes this with the dynamism of the shoot. Four days to film, four years to edit and synchronize.

There is conflicting information about the filming of Câncer. While Glauber himself states, in the aforementioned monologue and in later remarks, that it took place in August 1968, researchers such as Gonzalo Aguilar say that the film was in fact shot in May of that year. According to Aguilar, the feature was filmed “in May 1968, one year after the premiere of Terra em Transe and before the beginning of Antônio das Mortes. Glauber shot it during the month he had before beginning the new shoot” (Aguilar, 2016, p. 99).1 Aguilar’s claim is supported by newspaper items such as those published in Diário de Notícias in May and June 1968, which were already reporting on the shoot and still referring to the film by its provisional title, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citing “between July 8 and 10” of that year as the speculated period for the feature’s release. The researcher Frederico Coelho, who identifies August as the month of filming and is therefore in agreement with the Glauberian “official version,” points out that this window between the premiere of Terra em Transe and the beginning of filming on Antônio das Mortes would have been a “forced season” that Glauber spent in Rio, and notes the presence, in Câncer, of the actors Hugo Carvana and Odete Lara as evidence that this season was already being spent with the cast of Antônio das Mortes, before the trip to the backlands of Bahia for that film’s shoot.2

One can only speculate as to why the date changed from May to August in the feature’s opening monologue, whether it was the result of a lapse in Glauber’s own memory or a deliberate game. Perhaps “August” refers to the prologue recorded at MAM, which was in fact filmed after principal photography. The fact remains that the filming of Câncer in the famous May of ’68, mentioned, in fact, in Glauber’s own monologue, would have been perfectly in tune with the atmosphere then boiling over around the world, beginning in France, and starting to bear fruit in Brazil from a cinematic point of view. In that same month of May, Neville D’Almeida was shooting Jardim de Guerra, and in November of that year, at the Festival de Brasília, a definitive landmark of Brazilian cinema, Rogério Sganzerla’s O Bandido da Luz Vermelha, would be publicly screened for the first time.

It is no exaggeration to list 1968 as a watershed year for Brazilian cinema. It is the year in which, beginning with the premiere of Sganzerla’s film, what came to be called “Cinema de Invenção,” or “Cinema Marginal,” exploded onto the scene. The term alluded to Ozualdo Candeias’s A Margem, released the previous year, but also to a certain sense of artistic marginality, toward which converged, for example, musicians who carried out their work on the margins of Bossa Nova and musical Tropicalism; visual artists and poets who conceived and executed their ideas on the margins of the conservative parameters then in force, even among those who had sworn to break with aesthetic conservatism, as in the case of the Neoconcrete movement; and filmmakers who were creating a new kind of cinema, on the margins of the Cinema Novo movement. At that moment, Cinema Novo was beginning to see its “hard core” dismantled, with its leading figures focusing their efforts on the industrialization of Brazilian cinema through the creation of a state audiovisual production and distribution company, with mixed capital, designed to foster and provide an outlet for national film production. This would come to fruition the following year with the emergence of Embrafilme, in truth a late incarnation of a preexisting institution, the Instituto Nacional do Cinema Educativo, INCE.3

Editor Geraldo Veloso, one of the figures who experienced firsthand, in the heat of those events, the transformations Brazilian cinema was undergoing, defined the films shot or released in 1968 as exponents of “a cinema that necessarily brought with it a political reflection on a decisive moment in the contemporary history of the world (and especially of Brazil, which ended the year with the implementation of AI-5)” (Veloso 2012, p. 15).4 The filming of Câncer in May of that year would function as a seed for “the origin of what would become the udigrúdi of Brazilian cinema, in which Glauber would not participate, and with which he would even engage in harsh polemics, because he considered the experience of Câncer to be just as valid as that of Antônio das Mortes.” (Aguilar, op. cit.).

The term udigrúdi, a corruption of “underground,” is in fact used by Glauber himself to designate so-called Cinema Marginal, minimizing the efforts both of the “hard core” of the new movement and of those around it, and claiming that “the young filmmakers [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville, and others of lesser talent rose up against Cinema Novo, announcing an old novelty: cheap cinema, handheld camera, and idea in the head.” According to the filmmaker, he himself was the true inventor of the Brazilian underground, precisely with Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

While the “young filmmakers” fervently joined, between the late 1960s and the mid-1970s, the disputes over who represented the true Brazilian cinematic avant-garde, trading barbs with Cinema Novo led by Glauber, at least in a less heated retrospective, in 1986, the role of Câncer was already recognized by Jairo Ferreira, one of the main theorists of Cinema Marginal. In Cinema de Invenção, a collection of old and new texts that helped solidify the movement’s theoretical framework, there is a brief chapter dedicated to Glauber Rocha and Câncer. While it does not avoid the earlier polemics, and stresses that “the experimental was truly born in Boca do Lixo in 1967 with Ozualdo Candeias’s A Margem [...],” (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, publishing his book after Glauber’s death, brings this dispute to a more or less conciliatory close, emphasizing Glauber’s inventiveness in the way the filmmaker operates within the sequence shots of Câncer and proposing, on that basis, that “cinephiles watch Câncer alongside the films of Hitch[cock] & Straub, as well as Julio Bressane’s O Anjo Nasceu/1969.” (ibid, p. 166).6 

Glauber’s view regarding a possible “authorship” of Brazilian underground cinema may seem mistaken, since Câncer only reached the public in 1972, by which point the Cinema de Invenção of Sganzerla, Bressane, and company had already been firmly established and had even released many of what would become its seminal films. However, it is difficult to say that Glauber would have seen his influence as completely retroactive, that is, as the influence of a film no one saw in 1968, released only in 1972, on the cinema made from 1968 onward, since, although the “founding fathers” of Cinema Marginal did not watch Câncer in 1968, the feature’s filming was openly publicized at the time, and some of the principles used by Glauber in the process did in fact become foundational principles of the movement responsible for films such as Cuidado, Madame (1970) and Copacabana Mon Amour (1970). Among these, one should emphasize a leaner production logic, less dependent on the structures of big-budget films, something that had been an initial precept of Cinema Novo, but which, by that point, had already been partially abandoned by it as the Cinema Novo filmmakers aligned themselves with the industrialization of Brazilian cinema in the lead-up to the founding of Embrafilme. One need only look at what the aforementioned Diário de Notícias was saying about Câncer as early as 1968.

“Odete Lara took part in Glauber Rocha’s experimental 16mm project, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante. Nelson Motta, always well informed and diligent, published an interview with Glauber: ‘I wanted to prove to myself that it is not necessary to shoot in 35mm, nor even to spend 100 million [cruzeiros], to make a good film’ [...]”

Influenced by Straub/Huillet and by the American underground, whose notable exponents include Jack Smith and Andy Warhol, Glauber made in Câncer something that can be summed up by what he said in an interview with Federico de Cárdenas and René Capriles: “the film has no story. It is three characters within a violent action. What I was seeking to do was a technical experiment, dealing with the problem of the endurance of the duration of the cinematic shot”.7 Without a script or pre-production, Câncer was shot almost entirely through improvisation, including improvised scenes: the actors, professional or not, improvised freely before Glauber’s camera.

What truly serves as the binding agent for shots that are distinct from one another and apparently unconnected at first is a central theme: violence, which the filmmaker dissects by placing it onscreen in various ways and from various angles.

There is, for example, social violence, manifested primarily in relation to Antônio Pitanga’s character, a poor Black man who, in search of work and a plate of food, ends up failing to achieve any effective results and moves toward total revolt and physical violence, which leads to tragic consequences.

One can also speak of the political violence employed by the ruling regime, when a character played by filmmaker Eduardo Coutinho is questioned about his supposed involvement with communism. And with Câncer having been shot on the eve of AI-5, it is well known that this kind of political inquisition by agents of the State was no small matter.

We can also cite gendered violence, when Hugo Carvana’s character says that Odete Lara’s character “deserves to be raped by four Black men in Flamengo jerseys on the Rio-Petrópolis highway,” in the midst of a conversation about fidelity and polygamy.

There is room, finally, but no less importantly, to speak of the violence of class struggle, which connects directly to the “social violence” mentioned earlier, when, beyond what Glauber himself already outlines in the opening monologue, Carvana says, in the aforementioned sequence with Odete Lara: “I am in favor of being brutally murdered by the masses, and of the masses eating all my entrails; of me, you, all of us being murdered and execrated. [...] We have nothing to do with the masses, we are two suckers, here, watching television at noon [...].” At this moment, Glauber, who considered himself “a sadist of the masses,”8 purges his own bourgeois guilt and makes a kind of inverse movement to what occurs in Black God, White Devil, when Antônio das Mortes, the character played by Maurício do Valle, massacres the followers of the popular religious leader inspired by Antônio Conselheiro of Canudos.

If Antônio das Mortes is representative of the typically Cinema Novo “contradictory character,” serving as an avatar for the dilemmas of the middle class even when present, filmically, in another context,9 as in Black God, White Devil itself, a cangaço film in which there is no middle class designated as such, in Câncer the conflict between classes unfolds in a significantly different way.

In the sequence in which Carvana and Odete Lara watch television, “the people” are cited as something distant, absent from the scene. Carvana sees the downfall of the bourgeoisie at the hands of the people as a way of rightly punishing the country’s more affluent classes for their own inertia and intellectual misery, expressed here through the act of idly watching television at noon, a time when the people are, for the most part, working. In other sequences, the people are physically represented by Pitanga’s character, as already discussed here, and he achieves his emancipation by murdering the character to whom he is subordinated at the end of the film, thereby completing the movement foreseen by Carvana’s character, even if it does not directly involve him or Odete Lara. Pitanga, despite the euphoria of the murder, does not have his problems solved here, remaining adrift despite his personal revenge.

One element that, while it may seem secondary to the viewer, was a fundamental factor in the filming process, must be taken into account when writing about Câncer, and may also serve as an object for reflections that go beyond these initial readings: the presence, in the film, of visual artist Hélio Oiticica.

Frederico Coelho proposes the thesis that Oiticica was responsible for bringing the most widely visible Brazilian art, which came largely from middle-class or upper-middle-class origins in the Rio-São Paulo axis, into contact with the reality of peripheral populations in the 1960s. Oiticica would have been the precursor of this movement when he began frequenting Morro da Mangueira, a favela in Rio de Janeiro, and became involved with the local population, finding affinity above all among the so-called malandragem and even among local petty criminals. The most notable example, amid Oiticica’s social relationships with peripheral criminality, is his friendship with the outlaw Cara de Cavalo, who, after being brutally murdered, was honored in two of the artist’s works, the best known of which is the flag Seja Marginal, Seja Herói.

Câncer was “partially filmed in the courtyard of Oiticica’s house,” in the Jardim Botânico neighborhood, in Rio de Janeiro’s South Zone, an affluent area of the city. By that point, the location “had already served as a clandestine meeting place where bohemians from the middle class mixed with residents of Mangueira.” Living with Oiticica at the time was the artist Rogério Duarte, who designed the poster for Black God, White Devil. Both appear in the film in brief roles, and Oiticica is responsible for bringing into the scene passistas from the samba school Estação Primeira de Mangueira, his friends, who also make appearances in the production. Samba, in fact, as an element of Câncer, and present in more than one sequence, is brought into the film as a whole through this connection made by Oiticica.

If, as Glauber aptly recalls in the monologue that opens Câncer, the film was “shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro,” the Glauber-Oiticica partnership was fundamental in bringing another dimension to the production with regard to elements related to social marginality. It was this partnership that led Câncer up into Rio’s favelas and incorporated Mangueira and samba into its already vigorous discourse of denunciation and revolution, which pulses with surprising vitality amid a series of improvisations.

In the opening monologue, the director states that the changes that swept through 1968 were “not really a revolution,” but rather an “agitation” promoted by a “radical middle class,” a “reformist liberal bourgeoisie,” in the manner of the French Revolution. From this point of departure, one possible path for inserting the people as agents of change is offered through a film that departs greatly from the conventional, both in language and in discourse. Not without attending to the dangers of violence devoid of political meaning, Glauber delivers in Câncer one of his most complex and stimulating works, even if it remains among his least discussed.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 See Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 See the chapter “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), in Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. In: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 See the chapter “Glauber Rocha, plano sequência”, in Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 From the text “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originally published in Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 In a letter to Carlos Diegues, cited by Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 See Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

PT/ENG
PT/ENG
13/5/2026
By/Por:
Igor Nolasco

"Era em Agosto de 1968... Era no Rio de Janeiro em agosto de 1968, uma agitação arretada, os estudantes na rua, os operários; tinha operário ocupando fábrica em Minas Gerais, operário ocupando fábrica em São Paulo, e estudantes fazendo agitação. Era a ditadura do Costa e Silva, que tinha sido o segundo ditador, depois de Castelo Branco, e tinha derrubado o presidente Jango, que estava fazendo a revolução em 64; não era o Marechal Castelo Branco, não, que este era um marechal reacionário... Então estava uma onda terrível, os estudantes na rua, o líder era Vladimir Palmeira; tinha Marcos Medeiros, Elinor Brito, o psicanalista Hélio Pellegrino, Franklin Martins, a barra pesada toda.

Mas não era mesmo uma revolução, quer dizer, era agitação, era... tinha o maio o francês também, estava uma onda arretada. Nego dizia o seguinte: que era revolução, mas era a classe média radical, burguesia liberal reformista na rua. E os operários... Tinha muito camponês morrendo de fome no nordeste. Que, aliás, continua morrendo de fome até hoje, estão morrendo há mais de 400 anos. E os intelectuais estavam lá, no Museu de Arte Moderna, naquela noite. Exatamente, discutindo sobre a arte, a arte revolucionária, porque estava começando o tropicalismo, uma onda arretada.

Aí eu chamei o Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, que tinha chegado da Itália; ele tinha uma Arriflex. O Luiz Carlos Saldanha fez a fotografia e a câmera, e o som direto foi feito por José Ventura. Agora, Hugo Carvana, Antônio Pitanga (que é baiano) e Odete Lara fizeram os papéis principais; no mais, Rogério Duarte (que é baiano também), Zé Medeiros, Hélio Oiticica (que é pintor) e o pessoal (Biju, Tineca, um pessoal da Mangueira), e mais Zelito (quer dizer, não Doutor Zelito do filme, Doutor Zelito da Mapa Filmes) e Chiquinho, que tava na Kombi.

E aí o tempo passou, porque ficou... Depois eu cheguei em Havana, aí fiz no ICAIC o som... A sincronização foi feita por Raul Garcia, e eu montei com a Tineca e a Mireta. Numa coprodução, e aí entrou o Barceloni na Itália e ficou com o título 'Câncer'. Rio de Janeiro. Filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro, uma filmagem que demorou quatro dias para filmar e quatro anos para montar e sincronizar... Terminou em maio de 72; de agosto de 68 a maio de 72, 'Câncer'."

É com esse monólogo, entoado por sua própria voz, que Glauber Rocha abre seu longa Câncer. Nas imagens, desenrola-se justamente o que é descrito em dado momento da fala: a câmera de Luiz Carlos Saldanha desliza por uma longa mesa de intelectuais, reunidos no MAM do Rio de Janeiro ante uma numerosa plateia. Na justaposição feita pelo cineasta, um espectador não familiarizado com sua voz pode acabar momentaneamente tendo a impressão de que o monólogo está sendo proferido pelo orador da vez em meio à mesa (que calha de ser o poeta Ferreira Gullar), que discursa, inaudível, enquanto é observado por seus pares, debruçados sobre o tampo da mesa. Não tarda, no entanto, a perceber que imagem e voz não estão sincronizados, que não dizem a mesma coisa. Esse contraste permeia todo o longa, sendo resultado de seu modo de produção e de finalização.

Logo nesses primeiros minutos, Glauber Rocha já atira o público de cabeça no mundo de Câncer, um de seus filmes mais distintos, que se diferencia de tudo o que o diretor havia feito até então e, mesmo demarcando sua posição em meio à "linha evolutiva" da filmografia glauberiana de modo bem claro, até mesmo do que veio depois. Em um longo monólogo, uma variedade de funções são sintetizadas. O filme não possui cartela de título ou créditos de elenco e equipe técnica ao início ou ao final, mas o monólogo cumpre essa função (algo que Glauber repetiria posteriormente, de um outro jeito, em Jorjamado no Cinema, de 1979). De igual maneira, a fala que inicia o longa também oferece o contexto histórico de sua filmagem – que acaba, também, por justificar o inflamado discurso fílmico que se faria evidente já nos próximos momentos – e descreve os primeiros planos a aparecerem em tela, exatamente enquanto estes estão visualmente presentes. Entrega, ademais, o processo dificultoso de montagem do material, que durou quatro anos e atravessou um dos períodos de exílio de Glauber, tendo sido finalizado em Cuba, e justapõe isso ao dinamismo das gravações. Quatro dias para filmar, quatro anos para montar e sincronizar.

Existem informações contraditórias sobre as filmagens de Câncer. Enquanto o próprio Glauber afirma, no supracitado monólogo e em declarações posteriores, que estas teriam se dado em agosto de 1968, pesquisadores como Gonzalo Aguilar dizem que o filme fora, na verdade, rodado em maio daquele ano. Segundo Aguilar, a gravação do longa teria ocorrido "em maio de 1968, um ano depois da estreia de 'Terra em transe' e antes do início de 'Antônio das Mortes'. Glauber filmou-o no mês que teve antes de começar a nova filmagem" (Aguilar, 2016, p. 99).1 A afirmação de Aguilar encontra respaldo em notícias de jornais como o Diário de Notícias, publicadas em maio e junho de 1968, já relatando as gravações e ainda se referindo ao filme pelo seu título provisório, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citando "entre 8 e 10 de julho" daquele ano como o período especulado para o lançamento do longa. O pesquisador Frederico Coelho (que firma agosto como o mês das filmagens, estando portanto de acordo com a "versão oficial" glauberiana) aponta que essa janela entre a estreia de Terra em Transe e o início das filmagens de Antônio das Mortes teria sido uma "temporada forçada" que Glauber passou no Rio, e sinaliza a presença, em Câncer, dos atores Hugo Carvana e Odete Lara como uma evidência de que essa temporada já estaria sendo passada com o elenco de Antônio das Mortes, antes da viagem ao sertão da Bahia para as gravações do mesmo.2

É de se especular o porquê da mudança de data de maio para agosto no monólogo de abertura do longa, se fruto um lapso de memória do próprio Glauber ou um joguete proposital. Talvez "agosto" se refira ao prólogo gravado no MAM, que de fato foi filmado posteriormente à fotografia principal. Fato é que as filmagens de Câncer no famoso maio de 68 (citado, inclusive, no próprio monólogo glauberiano) estariam perfeitamente sintonizadas com o clima que fervilhava no mundo, partindo da França, e começava a frutificar no Brasil, do ponto de vista cinematográfico. No mesmo mês de maio, Neville D'Almeida filmava o seu Jardim de Guerra, e em novembro daquele ano, no Festival de Brasília, seria exibido publicamente pela primeira vez um marco definitivo na cinematografia brasileira, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.

Não é exagero listar 1968 como um ano divisor de águas para o cinema brasileiro. É o ano em que, a partir da estreia do filme do Sganzerla, estoura o que passa a ser chamado de "Cinema de Invenção", ou "Cinema Marginal" – em alusão ao "A Margem", de Ozualdo Candeias, lançado no ano anterior, mas também em um certo senso de marginalidade artística, para o qual convergiam, por exemplo, músicos que tocavam seus trabalhos à margem da Bossa Nova e do Tropicalismo musical; artistas plásticos e poetas que pensavam e executavam suas ideias à margem dos parâmetros conservadores, então vigentes mesmo entre os que juraram romper com o conservadorismo estético (como o caso do movimento neoconcreto); e cineastas que realizavam um novo tipo de cinema, à margem do movimento do Cinema Novo. Naquele momento, este começava a ter seu "núcleo duro" desestruturado, com seus principais quadros focando seus esforços na industrialização do cinema brasileiro através da criação de uma produtora e distribuidora audiovisual estatal, de capital misto, para fomentar e dar vazão ao produto cinematográfico nacional — o que viria a se concretizar no ano seguinte, com o surgimento da Embrafilme, em verdade uma encarnação tardia de uma instituição já preexistente, o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE).3

O montador Geraldo Veloso, uma das figuras que vivenciou as transformações pelas quais o cinema brasileiro estava passando in loco no calor daqueles acontecimentos, definiu os filmes rodados ou lançados em 1968 como expoentes de "um cinema que necessariamente trazia uma reflexão política sobre um momento decisivo para a história contemporânea do mundo (e especialmente com o Brasil, que termina o ano com a instauração do AI-5)" (Veloso 2012, p. 15).4 As filmagens de Câncer em maio daquele ano funcionariam como uma semente para "a origem do que seria o udigrúdi do cinema brasileiro, do qual Glauber não participaria (e até polemizaria duramente) por considerar que a experiência de 'Câncer' é tão válida quanto a de 'Antônio das Mortes'" (Aguilar, op. cit.).

O termo udigrúdi, corruptela de underground, é utilizado pelo próprio Glauber, aliás, para designar o chamado Cinema Marginal, minimizando os esforços tanto do "núcleo duro" do novo movimento quanto dos que estavam ao seu redor, e alegando que "os jovens cineastas [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville e outros de menor talento levantaram-se contra o Cinema Novo, anunciando uma velha novidade: cinema barato, de câmera na mão e ideia na cabeça". Segundo o cineasta, seria ele o verdadeiro inventor do underground brasileiro, justamente com Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

A visão de Glauber acerca de uma possível "autoria" do cinema underground brasileiro pode parecer equivocada, uma vez que Câncer só chegou a público em 1972, quando o Cinema de Invenção de Sganzerla, Bressane e companhia já havia sido muito bem estabelecido e, inclusive, lançado boa parte do que viriam a ser seus filmes seminais. No entanto, é difícil dizer que Glauber veria sua influência como completamente retroativa (a de um filme que ninguém viu em 1968, lançado apenas em 1972, tendo influenciado o cinema que se fez a partir de 68) uma vez que, apesar dos "pais fundadores" do Cinema Marginal não terem assistido a Câncer em 1968, a filmagem do longa foi divulgada abertamente à época, e alguns dos preceitos utilizados por Glauber no processo de fato se tornaram princípios basilares do movimento responsável por filmes como Cuidado, Madame (1970) e Copacabana Mon Amour (1970). Entre estes, há de ser ressaltada uma lógica de produção mais enxuta e menos dependente das estruturas dos filmes de grande orçamento – o que foi um preceito inicial do Cinema Novo, mas que, àquela altura, já havia sido parcialmente abandonado por este na medida em que os cinemanovistas se afinaram à industrialização do cinema brasileiro ante a fundação da Embrafilme. Basta ver o que o já citado Diário de Notícias falava sobre Câncer, ainda em 1968.

"Odete Larta participou da experiência de Glauber Rocha em 16 mm, 'Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante'. Nelson Motta, sempre bem informado e diligente, publicou uma entrevista com Glauber: 'eu queria provar a mim mesmo que não é preciso filmar em 35 mm, nem mesmo gastar 100 milhões [de cruzeiros] para fazer um bom filme' [...]"

Influenciado por Straub/Huillet e pelo underground americano, que tinha então entre seus expoentes notórios Jack Smith e Andy Warhol, Glauber fez em Câncer algo que pode ser resumido pelo que disse em entrevista a Federico de Cárdenas e René Capriles: "o filme não tem história. São três personagens dentro de uma ação violenta. O que estava buscando fazer era uma experiência técnica, do problema da resistência da duração do plano cinematográfico". Sem roteiro ou pré-produção, Câncer foi rodado quase todo no improviso, inclusive de cena: os atores, profissionais ou não, improvisavam livremente ante a câmera glauberiana.

O que realmente serve como liga para planos distintos entre si e sem conexão inicial aparente é uma temática principal, a da violência, que é dissecada pelo cineasta ao ser colocada em tela de diversas maneiras e sob diversos aspectos.

Há, por exemplo, a violência social, manifestada principalmente no que é relativo ao personagem de Antônio Pitanga, um homem negro e pobre que, em busca de trabalho e de um prato de comida, acaba não conseguindo resultados efetivos e partindo para a revolta total e a violência física, que deságua em consequências trágicas.

Pode-se falar também da violência política empregada pelo regime de governo vigente, quando um personagem vivido pelo cineasta Eduardo Coutinho é questionado sobre seu suposto envolvimento com o comunismo – e com Câncer sendo rodado às vésperas do AI-5, é sabido que esse tipo de inquisição política por parte de agentes do Estado não significava pouca coisa.

Podemos ainda citar a violência de gênero, quando o personagem de Hugo Carvana diz que a personagem de Odete Lara "merece ser violentada por quatro crioulos com a camisa do Flamengo na estrada Rio-Petrópolis", em meio a uma conversa sobre fidelidade e poligamia.

Há espaço, por último (mas não menos importante), para se falar na violência da luta de classes (que se conecta de modo direto à "violência social" mencionada anteriormente), quando, para além do que já é delineado pelo próprio Glauber no monólogo de abertura, Carvana diz, na já mencionada sequência com Odete Lara: "Eu sou a favor de ser assassinado brutalmente pela massa, e a massa comer as minhas vísceras todas; eu, você, nós sermos assassinados e execrados. [...] Nós não temos nada a ver com a massa, nós somos dois otários, aqui, vendo televisão ao meio dia [...]". Nesse momento, Glauber, que se considerava "um sádico das massas",8 expurga sua própria culpa burguesa e faz uma espécie de movimento inverso ao que ocorre em Deus e o Diabo na Terra do Sol, quando Antônio das Mortes, personagem de Maurício do Valle, massacra os seguidores do líder religioso popular inspirado no Antônio Conselheiro de Canudos.

Se Antônio das Mortes é um representativo da "personagem contraditória" tipicamente cinemanovista, que serve como avatar para os dilemas da classe média mesmo quando estando presente, filmicamente, em outro contexto9 – como no próprio Deus e o Diabo, filme de cangaço onde não existe uma classe média designada como tal – em Câncer o conflito entre classes ocorre de maneira significativamente diferente.

Na sequência em que Carvana e Odete Lara assistem televisão, "o povo" é citado como algo distante, que não está presente em cena; Carvana enxerga na derrocada da burguesia pelo povo uma maneira de, com razão, castigar as classes mais abastadas do país por sua própria inércia e miséria intelectual (expressada, aqui, pelo ato de se estar assistindo televisão, vadiamente, ao meio dia, horário no qual o povo está majoritariamente trabalhando). Em outras sequências, o povo está representado fisicamente no personagem de Pitanga, conforme já discutido aqui, e este alcança sua emancipação ao assassinar o personagem a quem está subordinado, ao fim do filme, dando cabo ao movimento que é previsto pelo personagem de Carvana – ainda que não envolvendo diretamente ele ou Odete Lara. Pitanga, apesar da euforia do assassinato, não tem, aqui, seus problemas resolvidos, permanecendo à deriva apesar da vingança pessoal.

Um elemento que, se para o espectador pode ser secundário, para o processo de filmagem é um dado fundamental, há de ser considerado ao se escrever sobre Câncer, e pode servir também como objeto para elaborações que vão além dessas visões primárias: a presença, no filme, do artista visual Hélio Oiticica.

Frederico Coelho propõe a tese de que Oiticica seria o responsável por fazer com que a arte brasileira de maior alcance, que vem de uma origem majoritariamente da classe média ou média-alta dos eixos Rio-São Paulo, entrasse em contato com a realidade das populações periféricas na década de 1960. Oiticica teria sido o precursor desse movimento ao passar a frequentar o morro da Mangueira, favela no Rio de Janeiro, e enturmar-se com a população local, encontrando afinidade sobretudo entre a chamada "malandragem" e mesmo entre os pequenos criminosos locais. O destaque, em meio a essas relações sociais de Oiticica com a criminalidade periférica, está em sua amizade com o contraventor Cara de Cavalo — que, após ser brutalmente assassinado, foi homenageado em duas obras do artista, sendo a mais conhecida a bandeira "Seja Marginal, Seja Herói".

Câncer foi "parcialmente filmado no pátio da casa de Oiticica", no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade. Àquela altura, o local já promovia encontros entre a intelectualidade de classe média e os amigos mangueirenses do artista. Morando com Oiticica, naquele momento, estava o artista Rogério Duarte, autor do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ambos atuam no filme, em breves participações, e Oiticica é responsável por trazer para dentro de cena passistas da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. O samba, inclusive, enquanto elemento de Câncer – e estando presente em mais de uma sequência – é trazido ao filme, como um todo, por essa conexão feita por Oiticica.

Se, como Glauber bem lembra no monólogo que abre Câncer, o filme foi "filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro", a parceria Glauber-Oiticica foi fundamental para trazer à produção uma outra dimensão no que diz respeito aos elementos relacionados à marginalidade social. Foi essa parceria que fez com que Câncer subisse às favelas cariocas e que incorporasse a Mangueira e o samba a seu já vigoroso discurso de denúncia e revolução, que pulsa com surpreendente vitalidade em meio a uma série de improvisos.

No monólogo inicial o diretor afirma que as mudanças que tomaram conta do ano de 1968 não eram "mesmo uma revolução", sendo mais uma "agitação" promovida por uma "classe média radical", "burguesia liberal reformista", à moda da revolução francesa. Partindo disso, um caminho possível para a inserção do povo enquanto agente de mudança é dado através de um filme que foge, em muito, do convencional, tanto em linguagem quanto em discurso. Não sem se atentar aos perigos de uma violência sem significado político, Glauber entrega em Câncer um de seus trabalhos mais complexos e estimulantes, ainda que menos comentados.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 Ver Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 Ver o capítulo “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), em Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. Em: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 Ver o capítulo “Glauber Rocha, plano sequência”, em Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 No texto “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originalmente publicado em Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 Em carta a Carlos Diegues, citada em Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 Ver Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

"Era em Agosto de 1968... Era no Rio de Janeiro em agosto de 1968, uma agitação arretada, os estudantes na rua, os operários; tinha operário ocupando fábrica em Minas Gerais, operário ocupando fábrica em São Paulo, e estudantes fazendo agitação. Era a ditadura do Costa e Silva, que tinha sido o segundo ditador, depois de Castelo Branco, e tinha derrubado o presidente Jango, que estava fazendo a revolução em 64; não era o Marechal Castelo Branco, não, que este era um marechal reacionário... Então estava uma onda terrível, os estudantes na rua, o líder era Vladimir Palmeira; tinha Marcos Medeiros, Elinor Brito, o psicanalista Hélio Pellegrino, Franklin Martins, a barra pesada toda.

Mas não era mesmo uma revolução, quer dizer, era agitação, era... tinha o maio o francês também, estava uma onda arretada. Nego dizia o seguinte: que era revolução, mas era a classe média radical, burguesia liberal reformista na rua. E os operários... Tinha muito camponês morrendo de fome no nordeste. Que, aliás, continua morrendo de fome até hoje, estão morrendo há mais de 400 anos. E os intelectuais estavam lá, no Museu de Arte Moderna, naquela noite. Exatamente, discutindo sobre a arte, a arte revolucionária, porque estava começando o tropicalismo, uma onda arretada.

Aí eu chamei o Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, que tinha chegado da Itália;ele tinha uma Arriflex. O Luiz Carlos Saldanha fez a fotografia e a câmera, e o som direto foi feito por José Ventura. Agora, Hugo Carvana, Antônio Pitanga (que é baiano) e Odete Lara fizeram os papéis principais; no mais, Rogério Duarte (que é baiano também), Zé Medeiros, Hélio Oiticica (que é pintor) e o pessoal (Biju, Tineca, um pessoal da Mangueira), e mais Zelito (quer dizer, não Doutor Zelito do filme, Doutor Zelito da Mapa Filmes) e Chiquinho, que tava na Kombi.

E aí o tempo passou, porque ficou... Depois eu cheguei em Havana, aí fiz no ICAIC o som... A sincronização foi feita por Raul Garcia, e eu montei com a Tineca e a Mireta. Numa coprodução, e aí entrou o Barceloni na Itália e ficou com o título 'Câncer'. Rio de Janeiro. Filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro, uma filmagem que demorou quatro dias para filmar e quatro anos para montar e sincronizar... Terminou em maio de 72; de agosto de 68 a maio de 72, 'Câncer'."

É com esse monólogo, entoado por sua própria voz, que Glauber Rocha abre seu longa Câncer. Nas imagens, desenrola-se justamente o que é descrito em dado momento da fala: a câmera de Luiz Carlos Saldanha desliza por uma longa mesa de intelectuais, reunidos no MAM do Rio de Janeiro ante uma numerosa plateia. Na justaposição feita pelo cineasta, um espectador não familiarizado com sua voz pode acabar momentaneamente tendo a impressão de que o monólogo está sendo proferido pelo orador da vez em meio à mesa (que calha de ser o poeta Ferreira Gullar), que discursa, inaudível, enquanto é observado por seus pares, debruçados sobre o tampo da mesa. Não tarda, no entanto, a perceber que imagem e voz não estão sincronizados, que não dizem a mesma coisa. Esse contraste permeia todo o longa, sendo resultado de seu modo de produção e de finalização.

Logo nesses primeiros minutos, Glauber Rocha já atira o público de cabeça no mundo de Câncer, um de seus filmes mais distintos, que se diferencia de tudo o que o diretor havia feito até então e, mesmo demarcando sua posição em meio à "linha evolutiva" da filmografia glauberiana de modo bem claro, até mesmo do que veio depois. Em um longo monólogo, uma variedade de funções são sintetizadas. O filme não possui cartela de título ou créditos de elenco e equipe técnica ao início ou ao final, mas o monólogo cumpre essa função (algo que Glauber repetiria posteriormente, de um outro jeito, em Jorjamado no Cinema, de 1979). De igual maneira, a fala que inicia o longa também oferece o contexto histórico de sua filmagem – que acaba, também, por justificar o inflamado discurso fílmico que se faria evidente já nos próximos momentos – e descreve os primeiros planos a aparecerem em tela, exatamente enquanto estes estão visualmente presentes. Entrega, ademais, o processo dificultoso de montagem do material, que durou quatro anos e atravessou um dos períodos de exílio de Glauber, tendo sido finalizado em Cuba, e justapõe isso ao dinamismo das gravações. Quatro dias para filmar, quatro anos para montar e sincronizar.

Existem informações contraditórias sobre as filmagens de Câncer. Enquanto o próprio Glauber afirma, no supracitado monólogo e em declarações posteriores, que estas teriam se dado em agosto de 1968, pesquisadores como Gonzalo Aguilar dizem que o filme fora, na verdade, rodado em maio daquele ano. Segundo Aguilar, a gravação do longa teria ocorrido "em maio de 1968, um ano depois da estreia de 'Terra em transe' e antes do início de 'Antônio das Mortes'. Glauber filmou-o no mês que teve antes de começar a nova filmagem" (Aguilar, 2016, p. 99).1 A afirmação de Aguilar encontra respaldo em notícias de jornais como o Diário de Notícias, publicadas em maio e junho de 1968, já relatando as gravações e ainda se referindo ao filme pelo seu título provisório, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citando "entre 8 e 10 de julho" daquele ano como o período especulado para o lançamento do longa. O pesquisador Frederico Coelho (que firma agosto como o mês das filmagens, estando portanto de acordo com a "versão oficial" glauberiana) aponta que essa janela entre a estreia de Terra em Transe e o início das filmagens de Antônio das Mortes teria sido uma "temporada forçada" que Glauber passou no Rio, e sinaliza a presença, em Câncer, dos atores Hugo Carvana e Odete Lara como uma evidência de que essa temporada já estaria sendo passada com o elenco de Antônio das Mortes, antes da viagem ao sertão da Bahia para as gravações do mesmo.2

É de se especular o porquê da mudança de data de maio para agosto no monólogo de abertura do longa, se fruto um lapso de memória do próprio Glauber ou um joguete proposital. Talvez "agosto" se refira ao prólogo gravado no MAM, que de fato foi filmado posteriormente à fotografia principal. Fato é que as filmagens de Câncer no famoso maio de 68 (citado, inclusive, no próprio monólogo glauberiano) estariam perfeitamente sintonizadas com o clima que fervilhava no mundo, partindo da França, e começava a frutificar no Brasil, do ponto de vista cinematográfico. No mesmo mês de maio, Neville D'Almeida filmava o seu Jardim de Guerra, e em novembro daquele ano, no Festival de Brasília, seria exibido publicamente pela primeira vez um marco definitivo na cinematografia brasileira, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.

Não é exagero listar 1968 como um ano divisor de águas para o cinema brasileiro. É o ano em que, a partir da estreia do filme do Sganzerla, estoura o que passa a ser chamado de "Cinema de Invenção", ou "Cinema Marginal" – em alusão ao "A Margem", de Ozualdo Candeias, lançado no ano anterior, mas também em um certo senso de marginalidade artística, para o qual convergiam, por exemplo, músicos que tocavam seus trabalhos à margem da Bossa Nova e do Tropicalismo musical; artistas plásticos e poetas que pensavam e executavam suas ideias à margem dos parâmetros conservadores, então vigentes mesmo entre os que juraram romper com o conservadorismo estético (como o caso do movimento neoconcreto); e cineastas que realizavam um novo tipo de cinema, à margem do movimento do Cinema Novo. Naquele momento, este começava a ter seu "núcleo duro" desestruturado, com seus principais quadros focando seus esforços na industrialização do cinema brasileiro através da criação de uma produtora e distribuidora audiovisual estatal, de capital misto, para fomentar e dar vazão ao produto cinematográfico nacional — o que viria a se concretizar no ano seguinte, com o surgimento da Embrafilme, em verdade uma encarnação tardia de uma instituição já preexistente, o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE).3

O montador Geraldo Veloso, uma das figuras que vivenciou as transformações pelas quais o cinema brasileiro estava passando in loco no calor daqueles acontecimentos, definiu os filmes rodados ou lançados em 1968 como expoentes de "um cinema que necessariamente trazia uma reflexão política sobre um momento decisivo para a história contemporânea do mundo (e especialmente com o Brasil, que termina o ano com a instauração do AI-5)" (Veloso 2012, p. 15).4 As filmagens de Câncer em maio daquele ano funcionariam como uma semente para "a origem do que seria o udigrúdi do cinema brasileiro, do qual Glauber não participaria (e até polemizaria duramente) por considerar que a experiência de 'Câncer' é tão válida quanto a de 'Antônio das Mortes'"  (Aguilar, op. cit.).

O termo udigrúdi, corruptela de underground, é utilizado pelo próprio Glauber, aliás, para designar o chamado Cinema Marginal, minimizando os esforços tanto do "núcleo duro" do novo movimento quanto dos que estavam ao seu redor, e alegando que "os jovens cineastas [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville e outros de menor talento levantaram-se contra o Cinema Novo, anunciando uma velha novidade: cinema barato, de câmera na mão e ideia na cabeça". Segundo o cineasta, seria ele o verdadeiro inventor do underground brasileiro, justamente com Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

A visão de Glauber acerca de uma possível "autoria" do cinema underground brasileiro pode parecer equivocada, uma vez que Câncer só chegou a público em 1972, quando o Cinema de Invenção de Sganzerla, Bressane e companhia já havia sido muito bem estabelecido e, inclusive, lançado boa parte do que viriam a ser seus filmes seminais. No entanto, é difícil dizer que Glauber veria sua influência como completamente retroativa (a de um filme que ninguém viu em 1968, lançado apenas em 1972, tendo influenciado o cinema que se fez a partir de 68) uma vez que, apesar dos "pais fundadores" do Cinema Marginal não terem assistido a Câncer em 1968, a filmagem do longa foi divulgada abertamente à época, e alguns dos preceitos utilizados por Glauber no processo de fato se tornaram princípios basilares do movimento responsável por filmes como Cuidado, Madame (1970) e Copacabana Mon Amour (1970). Entre estes, há de ser ressaltada uma lógica de produção mais enxuta e menos dependente das estruturas dos filmes de grande orçamento – o que foi um preceito inicial do Cinema Novo, mas que, àquela altura, já havia sido parcialmente abandonado por este na medida em que os cinemanovistas se afinaram à industrialização do cinema brasileiro ante a fundação da Embrafilme. Basta ver o que o já citado Diário de Notícias falava sobre Câncer, ainda em 1968.

"Odete Larta participou da experiência de Glauber Rocha em 16 mm, 'Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante'. Nelson Motta, sempre bem informado e diligente, publicou uma entrevista com Glauber: 'eu queria provar a mim mesmo que não é preciso filmar em 35 mm, nem mesmo gastar 100 milhões [de cruzeiros] para fazer um bom filme' [...]"

Influenciado por Straub/Huillet e pelo underground americano, que tinha então entre seus expoentes notórios Jack Smith e Andy Warhol, Glauber fez em Câncer algo que pode ser resumido pelo que disse em entrevista a Federico de Cárdenas e René Capriles: "o filme não tem história. São três personagens dentro de uma ação violenta. O que estava buscando fazer era uma experiência técnica, do problema da resistência da duração do plano cinematográfico". Sem roteiro ou pré-produção, Câncer foi rodado quase todo no improviso, inclusive de cena: os atores, profissionais ou não, improvisavam livremente ante a câmera glauberiana.

O que realmente serve como liga para planos distintos entre si e sem conexão inicial aparente é uma temática principal, a da violência, que é dissecada pelo cineasta ao ser colocada em tela de diversas maneiras e sob diversos aspectos.

Há, por exemplo, a violência social, manifestada principalmente no que é relativo ao personagem de Antônio Pitanga, um homem negro e pobre que, em busca de trabalho e de um prato de comida, acaba não conseguindo resultados efetivos e partindo para a revolta total e a violência física, que deságua em consequências trágicas.

Pode-se falar também da violência política empregada pelo regime de governo vigente, quando um personagem vivido pelo cineasta Eduardo Coutinho é questionado sobre seu suposto envolvimento com o comunismo – e com Câncer sendo rodado às vésperas do AI-5, é sabido que esse tipo de inquisição política por parte de agentes do Estado não significava pouca coisa.

Podemos ainda citar a violência de gênero, quando o personagem de Hugo Carvana diz que a personagem de Odete Lara "merece ser violentada por quatro crioulos com a camisa do Flamengo na estrada Rio-Petrópolis", em meio a uma conversa sobre fidelidade e poligamia.

Há espaço, por último (mas não menos importante), para se falar na violência da luta de classes (que se conecta de modo direto à "violência social" mencionada anteriormente), quando, para além do que já é delineado pelo próprio Glauber no monólogo de abertura, Carvana diz, na já mencionada sequência com Odete Lara: "Eu sou a favor de ser assassinado brutalmente pela massa, e a massa comer as minhas vísceras todas; eu, você, nós sermos assassinados e execrados. [...] Nós não temos nada a ver com a massa, nós somos dois otários, aqui, vendo televisão ao meio dia [...]". Nesse momento, Glauber, que se considerava "um sádico das massas",8 expurga sua própria culpa burguesa e faz uma espécie de movimento inverso ao que ocorre em Deus e o Diabo na Terra do Sol, quando Antônio das Mortes, personagem de Maurício do Valle, massacra os seguidores do líder religioso popular inspirado no Antônio Conselheiro de Canudos.

Se Antônio das Mortes é um representativo da "personagem contraditória" tipicamente cinemanovista, que serve como avatar para os dilemas da classe média mesmo quando estando presente, filmicamente, em outro contexto9 – como no próprio Deus e o Diabo, filme de cangaço onde não existe uma classe média designada como tal – em Câncer o conflito entre classes ocorre de maneira significativamente diferente.

Na sequência em que Carvana e Odete Lara assistem televisão, "o povo" é citado como algo distante, que não está presente em cena; Carvana enxerga na derrocada da burguesia pelo povo uma maneira de, com razão, castigar as classes mais abastadas do país por sua própria inércia e miséria intelectual (expressada, aqui, pelo ato de se estar assistindo televisão, vadiamente, ao meio dia, horário no qual o povo está majoritariamente trabalhando). Em outras sequências, o povo está representado fisicamente no personagem de Pitanga, conforme já discutido aqui, e este alcança sua emancipação ao assassinar o personagem a quem está subordinado, ao fim do filme, dando cabo ao movimento que é previsto pelo personagem de Carvana – ainda que não envolvendo diretamente ele ou Odete Lara. Pitanga, apesar da euforia do assassinato, não tem, aqui, seus problemas resolvidos, permanecendo à deriva apesar da vingança pessoal.

Um elemento que, se para o espectador pode ser secundário, para o processo de filmagem é um dado fundamental, há de ser considerado ao se escrever sobre Câncer, e pode servir também como objeto para elaborações que vão além dessas visões primárias: a presença, no filme, do artista visual Hélio Oiticica.

Frederico Coelho propõe a tese de que Oiticica seria o responsável por fazer com que a arte brasileira de maior alcance, que vem de uma origem majoritariamente da classe média ou média-alta dos eixos Rio-São Paulo, entrasse em contato com a realidade das populações periféricas na década de 1960. Oiticica teria sido o precursor desse movimento ao passar a frequentar o morro da Mangueira, favela no Rio de Janeiro, e enturmar-se com a população local, encontrando afinidade sobretudo entre a chamada "malandragem" e mesmo entre os pequenos criminosos locais. O destaque, em meio a essas relações sociais de Oiticica com a criminalidade periférica, está em sua amizade com o contraventor Cara de Cavalo — que, após ser brutalmente assassinado, foi homenageado em duas obras do artista, sendo a mais conhecida a bandeira "Seja Marginal, Seja Herói".

Câncer foi "parcialmente filmado no pátio da casa de Oiticica", no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade. Àquela altura, o local já promovia encontros entre a intelectualidade de classe média e os amigos mangueirenses do artista. Morando com Oiticica, naquele momento, estava o artista Rogério Duarte, autor do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ambos atuam no filme, em breves participações, e Oiticica é responsável por trazer para dentro de cena passistas da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. O samba, inclusive, enquanto elemento de Câncer – e estando presente em mais de uma sequência – é trazido ao filme, como um todo, por essa conexão feita por Oiticica.

Se, como Glauber bem lembra no monólogo que abre Câncer, o filme foi "filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro", a parceria Glauber-Oiticica foi fundamental para trazer à produção uma outra dimensão no que diz respeito aos elementos relacionados à marginalidade social. Foi essa parceria que fez com que Câncer subisse às favelas cariocas e que incorporasse a Mangueira e o samba a seu já vigoroso discurso de denúncia e revolução, que pulsa com surpreendente vitalidade em meio a uma série de improvisos.

No monólogo inicial o diretor afirma que as mudanças que tomaram conta do ano de 1968 não eram "mesmo uma revolução", sendo mais uma "agitação" promovida por uma "classe média radical", "burguesia liberal reformista", à moda da revolução francesa. Partindo disso, um caminho possível para a inserção do povo enquanto agente de mudança é dado através de um filme que foge, em muito, do convencional, tanto em linguagem quanto em discurso. Não sem se atentar aos perigos de uma violência sem significado político, Glauber entrega em Câncer um de seus trabalhos mais complexos e estimulantes, ainda que menos comentados.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 Ver Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 Ver o capítulo “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), em Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. Em: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 Ver o capítulo “Glauber Rocha, plano sequência”, em Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 No texto “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originalmente publicado em Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 Em carta a Carlos Diegues, citada em Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 Ver Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

“It was in August 1968... It was in Rio de Janeiro in August 1968, a hell of a commotion, students in the streets, workers too; there were workers occupying factories in Minas Gerais, workers occupying factories in São Paulo, and students stirring things up. It was the dictatorship of Costa e Silva, who had been the second dictator, after Castelo Branco, and had overthrown President Jango, who was making the revolution in 1964; it wasn’t Marshal Castelo Branco, no, because he was a reactionary marshal... So there was a terrible wave going on, students in the streets, the leader was Vladimir Palmeira; there was Marcos Medeiros, Elinor Brito, the psychoanalyst Hélio Pellegrino, Franklin Martins, the whole tough crowd.

But it wasn’t really a revolution, I mean, it was unrest, it was... there was the French May too, there was one hell of a wave going on. People would say the following: that it was revolution, but it was the radical middle class, the reformist liberal bourgeoisie in the streets. And the workers... There were many peasants starving to death in the Northeast. Which, by the way, continues to be the case today, they have been dying of hunger for more than 400 years. And the intellectuals were there, at the Museum of Modern Art, that night. Exactly, discussing art, revolutionary art, because Tropicalism was beginning, one hell of a wave.

Then I called Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, who had arrived from Italy; he had an Arriflex. Luiz Carlos Saldanha did the cinematography and camera, and the direct sound was done by José Ventura. Now, Hugo Carvana, Antônio Pitanga, who is from Bahia, and Odete Lara played the main roles; beyond them, there was Rogério Duarte, who is also from Bahia, Zé Medeiros, Hélio Oiticica, who is a painter, and the gang, Biju, Tineca, some people from Mangueira, and also Zelito, meaning not Doctor Zelito from the film, but Doctor Zelito from Mapa Filmes, and Chiquinho, who was in the Kombi.

And then time went by, because the film was left unfinished... Later I arrived in Havana, and did the sound at ICAIC... The synchronization was done by Raul Garcia, and I edited it with Tineca and Mireta. It was a co-production, and then Barceloni came in from Italy, and it ended up with the title Câncer. Rio de Janeiro. Shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro, a shoot that took four days to film and four years to edit and synchronize... It was finished in May 1972; from August 1968 to May 1972, Câncer.”

It is with this monologue, intoned in his own voice, that Glauber Rocha opens his feature film Câncer. In the images, we see precisely what is described at one point in the speech: Luiz Carlos Saldanha’s camera glides along a long table of intellectuals, gathered at Rio de Janeiro’s MAM before a large audience. In the juxtaposition created by the filmmaker, a viewer unfamiliar with his voice may momentarily come away with the impression that the monologue is being delivered by the speaker currently at the table, who happens to be the poet Ferreira Gullar. He speaks inaudibly while being observed by his peers, who lean over the tabletop. Before long, however, it becomes clear that image and voice are not synchronized, that they are not saying the same thing. This contrast permeates the entire feature, and is the result of its mode of production and completion.

Already in these opening minutes, Glauber Rocha throws the audience headfirst into the world of Câncer, one of his most distinctive films, one that differs from everything the director had made up to that point and, even while clearly marking its place within the “evolutionary line” of Glauber’s filmography, from what would come afterward as well. In a long monologue, a variety of functions are synthesized. The film has no title card or cast and crew credits at the beginning or end, but the monologue fulfills that function, something Glauber would later repeat, in a different way, in Jorjamado no Cinema, from 1979. Likewise, the speech that opens the feature also provides the historical context of its filming, which ultimately also serves to justify the inflamed filmic discourse that would become evident in the very next moments, and describes the first shots to appear on screen at the exact moment they are visually present. It also lays out the difficult process of editing the material, which lasted four years and spanned one of Glauber’s periods of exile, having been completed in Cuba, and juxtaposes this with the dynamism of the shoot. Four days to film, four years to edit and synchronize.

There is conflicting information about the filming of Câncer. While Glauber himself states, in the aforementioned monologue and in later remarks, that it took place in August 1968, researchers such as Gonzalo Aguilar say that the film was in fact shot in May of that year. According to Aguilar, the feature was filmed “in May 1968, one year after the premiere of Terra em Transe and before the beginning of Antônio das Mortes. Glauber shot it during the month he had before beginning the new shoot” (Aguilar, 2016, p. 99).1 Aguilar’s claim is supported by newspaper items such as those published in Diário de Notícias in May and June 1968, which were already reporting on the shoot and still referring to the film by its provisional title, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citing “between July 8 and 10” of that year as the speculated period for the feature’s release. The researcher Frederico Coelho, who identifies August as the month of filming and is therefore in agreement with the Glauberian “official version,” points out that this window between the premiere of Terra em Transe and the beginning of filming on Antônio das Mortes would have been a “forced season” that Glauber spent in Rio, and notes the presence, in Câncer, of the actors Hugo Carvana and Odete Lara as evidence that this season was already being spent with the cast of Antônio das Mortes, before the trip to the backlands of Bahia for that film’s shoot.2

One can only speculate as to why the date changed from May to August in the feature’s opening monologue, whether it was the result of a lapse in Glauber’s own memory or a deliberate game. Perhaps “August” refers to the prologue recorded at MAM, which was in fact filmed after principal photography. The fact remains that the filming of Câncer in the famous May of ’68, mentioned, in fact, in Glauber’s own monologue, would have been perfectly in tune with the atmosphere then boiling over around the world, beginning in France, and starting to bear fruit in Brazil from a cinematic point of view. In that same month of May, Neville D’Almeida was shooting Jardim de Guerra, and in November of that year, at the Festival de Brasília, a definitive landmark of Brazilian cinema, Rogério Sganzerla’s O Bandido da Luz Vermelha, would be publicly screened for the first time.

It is no exaggeration to list 1968 as a watershed year for Brazilian cinema. It is the year in which, beginning with the premiere of Sganzerla’s film, what came to be called “Cinema de Invenção,” or “Cinema Marginal,” exploded onto the scene. The term alluded to Ozualdo Candeias’s A Margem, released the previous year, but also to a certain sense of artistic marginality, toward which converged, for example, musicians who carried out their work on the margins of Bossa Nova and musical Tropicalism; visual artists and poets who conceived and executed their ideas on the margins of the conservative parameters then in force, even among those who had sworn to break with aesthetic conservatism, as in the case of the Neoconcrete movement; and filmmakers who were creating a new kind of cinema, on the margins of the Cinema Novo movement. At that moment, Cinema Novo was beginning to see its “hard core” dismantled, with its leading figures focusing their efforts on the industrialization of Brazilian cinema through the creation of a state audiovisual production and distribution company, with mixed capital, designed to foster and provide an outlet for national film production. This would come to fruition the following year with the emergence of Embrafilme, in truth a late incarnation of a preexisting institution, the Instituto Nacional do Cinema Educativo, INCE.3

Editor Geraldo Veloso, one of the figures who experienced firsthand, in the heat of those events, the transformations Brazilian cinema was undergoing, defined the films shot or released in 1968 as exponents of “a cinema that necessarily brought with it a political reflection on a decisive moment in the contemporary history of the world (and especially of Brazil, which ended the year with the implementation of AI-5)” (Veloso 2012, p. 15).4 The filming of Câncer in May of that year would function as a seed for “the origin of what would become the udigrúdi of Brazilian cinema, in which Glauber would not participate, and with which he would even engage in harsh polemics, because he considered the experience of Câncer to be just as valid as that of Antônio das Mortes.” (Aguilar, op. cit.).

The term udigrúdi, a corruption of “underground,” is in fact used by Glauber himself to designate so-called Cinema Marginal, minimizing the efforts both of the “hard core” of the new movement and of those around it, and claiming that “the young filmmakers [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville, and others of lesser talent rose up against Cinema Novo, announcing an old novelty: cheap cinema, handheld camera, and idea in the head.” According to the filmmaker, he himself was the true inventor of the Brazilian underground, precisely with Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

While the “young filmmakers” fervently joined, between the late 1960s and the mid-1970s, the disputes over who represented the true Brazilian cinematic avant-garde, trading barbs with Cinema Novo led by Glauber, at least in a less heated retrospective, in 1986, the role of Câncer was already recognized by Jairo Ferreira, one of the main theorists of Cinema Marginal. In Cinema de Invenção, a collection of old and new texts that helped solidify the movement’s theoretical framework, there is a brief chapter dedicated to Glauber Rocha and Câncer. While it does not avoid the earlier polemics, and stresses that “the experimental was truly born in Boca do Lixo in 1967 with Ozualdo Candeias’s A Margem [...],” (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, publishing his book after Glauber’s death, brings this dispute to a more or less conciliatory close, emphasizing Glauber’s inventiveness in the way the filmmaker operates within the sequence shots of Câncer and proposing, on that basis, that “cinephiles watch Câncer alongside the films of Hitch[cock] & Straub, as well as Julio Bressane’s O Anjo Nasceu/1969.” (ibid, p. 166).6 

Glauber’s view regarding a possible “authorship” of Brazilian underground cinema may seem mistaken, since Câncer only reached the public in 1972, by which point the Cinema de Invenção of Sganzerla, Bressane, and company had already been firmly established and had even released many of what would become its seminal films. However, it is difficult to say that Glauber would have seen his influence as completely retroactive, that is, as the influence of a film no one saw in 1968, released only in 1972, on the cinema made from 1968 onward, since, although the “founding fathers” of Cinema Marginal did not watch Câncer in 1968, the feature’s filming was openly publicized at the time, and some of the principles used by Glauber in the process did in fact become foundational principles of the movement responsible for films such as Cuidado, Madame (1970) and Copacabana Mon Amour (1970). Among these, one should emphasize a leaner production logic, less dependent on the structures of big-budget films, something that had been an initial precept of Cinema Novo, but which, by that point, had already been partially abandoned by it as the Cinema Novo filmmakers aligned themselves with the industrialization of Brazilian cinema in the lead-up to the founding of Embrafilme. One need only look at what the aforementioned Diário de Notícias was saying about Câncer as early as 1968.

“Odete Lara took part in Glauber Rocha’s experimental 16mm project, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante. Nelson Motta, always well informed and diligent, published an interview with Glauber: ‘I wanted to prove to myself that it is not necessary to shoot in 35mm, nor even to spend 100 million [cruzeiros], to make a good film’ [...]”

Influenced by Straub/Huillet and by the American underground, whose notable exponents include Jack Smith and Andy Warhol, Glauber made in Câncer something that can be summed up by what he said in an interview with Federico de Cárdenas and René Capriles: “the film has no story. It is three characters within a violent action. What I was seeking to do was a technical experiment, dealing with the problem of the endurance of the duration of the cinematic shot”.7 Without a script or pre-production, Câncer was shot almost entirely through improvisation, including improvised scenes: the actors, professional or not, improvised freely before Glauber’s camera.

What truly serves as the binding agent for shots that are distinct from one another and apparently unconnected at first is a central theme: violence, which the filmmaker dissects by placing it onscreen in various ways and from various angles.

There is, for example, social violence, manifested primarily in relation to Antônio Pitanga’s character, a poor Black man who, in search of work and a plate of food, ends up failing to achieve any effective results and moves toward total revolt and physical violence, which leads to tragic consequences.

One can also speak of the political violence employed by the ruling regime, when a character played by filmmaker Eduardo Coutinho is questioned about his supposed involvement with communism. And with Câncer having been shot on the eve of AI-5, it is well known that this kind of political inquisition by agents of the State was no small matter.

We can also cite gendered violence, when Hugo Carvana’s character says that Odete Lara’s character “deserves to be raped by four Black men in Flamengo jerseys on the Rio-Petrópolis highway,” in the midst of a conversation about fidelity and polygamy.

There is room, finally, but no less importantly, to speak of the violence of class struggle, which connects directly to the “social violence” mentioned earlier, when, beyond what Glauber himself already outlines in the opening monologue, Carvana says, in the aforementioned sequence with Odete Lara: “I am in favor of being brutally murdered by the masses, and of the masses eating all my entrails; of me, you, all of us being murdered and execrated. [...] We have nothing to do with the masses, we are two suckers, here, watching television at noon [...].” At this moment, Glauber, who considered himself “a sadist of the masses,”8 purges his own bourgeois guilt and makes a kind of inverse movement to what occurs in Black God, White Devil, when Antônio das Mortes, the character played by Maurício do Valle, massacres the followers of the popular religious leader inspired by Antônio Conselheiro of Canudos.

If Antônio das Mortes is representative of the typically Cinema Novo “contradictory character,” serving as an avatar for the dilemmas of the middle class even when present, filmically, in another context,9 as in Black God, White Devil itself, a cangaço film in which there is no middle class designated as such, in Câncer the conflict between classes unfolds in a significantly different way.

In the sequence in which Carvana and Odete Lara watch television, “the people” are cited as something distant, absent from the scene. Carvana sees the downfall of the bourgeoisie at the hands of the people as a way of rightly punishing the country’s more affluent classes for their own inertia and intellectual misery, expressed here through the act of idly watching television at noon, a time when the people are, for the most part, working. In other sequences, the people are physically represented by Pitanga’s character, as already discussed here, and he achieves his emancipation by murdering the character to whom he is subordinated at the end of the film, thereby completing the movement foreseen by Carvana’s character, even if it does not directly involve him or Odete Lara. Pitanga, despite the euphoria of the murder, does not have his problems solved here, remaining adrift despite his personal revenge.

One element that, while it may seem secondary to the viewer, was a fundamental factor in the filming process, must be taken into account when writing about Câncer, and may also serve as an object for reflections that go beyond these initial readings: the presence, in the film, of visual artist Hélio Oiticica.

Frederico Coelho proposes the thesis that Oiticica was responsible for bringing the most widely visible Brazilian art, which came largely from middle-class or upper-middle-class origins in the Rio-São Paulo axis, into contact with the reality of peripheral populations in the 1960s. Oiticica would have been the precursor of this movement when he began frequenting Morro da Mangueira, a favela in Rio de Janeiro, and became involved with the local population, finding affinity above all among the so-called malandragem and even among local petty criminals. The most notable example, amid Oiticica’s social relationships with peripheral criminality, is his friendship with the outlaw Cara de Cavalo, who, after being brutally murdered, was honored in two of the artist’s works, the best known of which is the flag Seja Marginal, Seja Herói.

Câncer was “partially filmed in the courtyard of Oiticica’s house,” in the Jardim Botânico neighborhood, in Rio de Janeiro’s South Zone, an affluent area of the city. By that point, the location “had already served as a clandestine meeting place where bohemians from the middle class mixed with residents of Mangueira.” Living with Oiticica at the time was the artist Rogério Duarte, who designed the poster for Black God, White Devil. Both appear in the film in brief roles, and Oiticica is responsible for bringing into the scene passistas from the samba school Estação Primeira de Mangueira, his friends, who also make appearances in the production. Samba, in fact, as an element of Câncer, and present in more than one sequence, is brought into the film as a whole through this connection made by Oiticica.

If, as Glauber aptly recalls in the monologue that opens Câncer, the film was “shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro,” the Glauber-Oiticica partnership was fundamental in bringing another dimension to the production with regard to elements related to social marginality. It was this partnership that led Câncer up into Rio’s favelas and incorporated Mangueira and samba into its already vigorous discourse of denunciation and revolution, which pulses with surprising vitality amid a series of improvisations.

In the opening monologue, the director states that the changes that swept through 1968 were “not really a revolution,” but rather an “agitation” promoted by a “radical middle class,” a “reformist liberal bourgeoisie,” in the manner of the French Revolution. From this point of departure, one possible path for inserting the people as agents of change is offered through a film that departs greatly from the conventional, both in language and in discourse. Not without attending to the dangers of violence devoid of political meaning, Glauber delivers in Câncer one of his most complex and stimulating works, even if it remains among his least discussed.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 See Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 See the chapter “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), in Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. In: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 See the chapter “Glauber Rocha, plano sequência”, in Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 From the text “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originally published in Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 In a letter to Carlos Diegues, cited by Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 See Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

“It was in August 1968... It was in Rio de Janeiro in August 1968, a hell of a commotion, students in the streets, workers too; there were workers occupying factories in Minas Gerais, workers occupying factories in São Paulo, and students stirring things up. It was the dictatorship of Costa e Silva, who had been the second dictator, after Castelo Branco, and had overthrown President Jango, who was making the revolution in 1964; it wasn’t Marshal Castelo Branco, no, because he was a reactionary marshal... So there was a terrible wave going on, students in the streets, the leader was Vladimir Palmeira; there was Marcos Medeiros, Elinor Brito, the psychoanalyst Hélio Pellegrino, Franklin Martins, the whole tough crowd.

But it wasn’t really a revolution, I mean, it was unrest, it was... there was the French May too, there was one hell of a wave going on. People would say the following: that it was revolution, but it was the radical middle class, the reformist liberal bourgeoisie in the streets. And the workers... There were many peasants starving to death in the Northeast. Which, by the way, continues to be the case today, they have been dying of hunger for more than 400 years. And the intellectuals were there, at the Museum of Modern Art, that night. Exactly, discussing art, revolutionary art, because Tropicalism was beginning, one hell of a wave.

Then I called Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, who had arrived from Italy; he had an Arriflex. Luiz Carlos Saldanha did the cinematography and camera, and the direct sound was done by José Ventura. Now, Hugo Carvana, Antônio Pitanga, who is from Bahia, and Odete Lara played the main roles; beyond them, there was Rogério Duarte, who is also from Bahia, Zé Medeiros, Hélio Oiticica, who is a painter, and the gang, Biju, Tineca, some people from Mangueira, and also Zelito, meaning not Doctor Zelito from the film, but Doctor Zelito from Mapa Filmes, and Chiquinho, who was in the Kombi.

And then time went by, because the film was left unfinished... Later I arrived in Havana, and did the sound at ICAIC... The synchronization was done by Raul Garcia, and I edited it with Tineca and Mireta. It was a co-production, and then Barceloni came in from Italy, and it ended up with the title Câncer. Rio de Janeiro. Shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro, a shoot that took four days to film and four years to edit and synchronize... It was finished in May 1972; from August 1968 to May 1972, Câncer.”

It is with this monologue, intoned in his own voice, that Glauber Rocha opens his feature film Câncer. In the images, we see precisely what is described at one point in the speech: Luiz Carlos Saldanha’s camera glides along a long table of intellectuals, gathered at Rio de Janeiro’s MAM before a large audience. In the juxtaposition created by the filmmaker, a viewer unfamiliar with his voice may momentarily come away with the impression that the monologue is being delivered by the speaker currently at the table, who happens to be the poet Ferreira Gullar. He speaks inaudibly while being observed by his peers, who lean over the tabletop. Before long, however, it becomes clear that image and voice are not synchronized, that they are not saying the same thing. This contrast permeates the entire feature, and is the result of its mode of production and completion.

Already in these opening minutes, Glauber Rocha throws the audience headfirst into the world of Câncer, one of his most distinctive films, one that differs from everything the director had made up to that point and, even while clearly marking its place within the “evolutionary line” of Glauber’s filmography, from what would come afterward as well. In a long monologue, a variety of functions are synthesized. The film has no title card or cast and crew credits at the beginning or end, but the monologue fulfills that function, something Glauber would later repeat, in a different way, in Jorjamado no Cinema, from 1979. Likewise, the speech that opens the feature also provides the historical context of its filming, which ultimately also serves to justify the inflamed filmic discourse that would become evident in the very next moments, and describes the first shots to appear on screen at the exact moment they are visually present. It also lays out the difficult process of editing the material, which lasted four years and spanned one of Glauber’s periods of exile, having been completed in Cuba, and juxtaposes this with the dynamism of the shoot. Four days to film, four years to edit and synchronize.

There is conflicting information about the filming of Câncer. While Glauber himself states, in the aforementioned monologue and in later remarks, that it took place in August 1968, researchers such as Gonzalo Aguilar say that the film was in fact shot in May of that year. According to Aguilar, the feature was filmed “in May 1968, one year after the premiere of Terra em Transe and before the beginning of Antônio das Mortes. Glauber shot it during the month he had before beginning the new shoot” (Aguilar, 2016, p. 99).1 Aguilar’s claim is supported by newspaper items such as those published in Diário de Notícias in May and June 1968, which were already reporting on the shoot and still referring to the film by its provisional title, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citing “between July 8 and 10” of that year as the speculated period for the feature’s release. The researcher Frederico Coelho, who identifies August as the month of filming and is therefore in agreement with the Glauberian “official version,” points out that this window between the premiere of Terra em Transe and the beginning of filming on Antônio das Mortes would have been a “forced season” that Glauber spent in Rio, and notes the presence, in Câncer, of the actors Hugo Carvana and Odete Lara as evidence that this season was already being spent with the cast of Antônio das Mortes, before the trip to the backlands of Bahia for that film’s shoot.2

One can only speculate as to why the date changed from May to August in the feature’s opening monologue, whether it was the result of a lapse in Glauber’s own memory or a deliberate game. Perhaps “August” refers to the prologue recorded at MAM, which was in fact filmed after principal photography. The fact remains that the filming of Câncer in the famous May of ’68, mentioned, in fact, in Glauber’s own monologue, would have been perfectly in tune with the atmosphere then boiling over around the world, beginning in France, and starting to bear fruit in Brazil from a cinematic point of view. In that same month of May, Neville D’Almeida was shooting Jardim de Guerra, and in November of that year, at the Festival de Brasília, a definitive landmark of Brazilian cinema, Rogério Sganzerla’s O Bandido da Luz Vermelha, would be publicly screened for the first time.

It is no exaggeration to list 1968 as a watershed year for Brazilian cinema. It is the year in which, beginning with the premiere of Sganzerla’s film, what came to be called “Cinema de Invenção,” or “Cinema Marginal,” exploded onto the scene. The term alluded to Ozualdo Candeias’s A Margem, released the previous year, but also to a certain sense of artistic marginality, toward which converged, for example, musicians who carried out their work on the margins of Bossa Nova and musical Tropicalism; visual artists and poets who conceived and executed their ideas on the margins of the conservative parameters then in force, even among those who had sworn to break with aesthetic conservatism, as in the case of the Neoconcrete movement; and filmmakers who were creating a new kind of cinema, on the margins of the Cinema Novo movement. At that moment, Cinema Novo was beginning to see its “hard core” dismantled, with its leading figures focusing their efforts on the industrialization of Brazilian cinema through the creation of a state audiovisual production and distribution company, with mixed capital, designed to foster and provide an outlet for national film production. This would come to fruition the following year with the emergence of Embrafilme, in truth a late incarnation of a preexisting institution, the Instituto Nacional do Cinema Educativo, INCE.3

Editor Geraldo Veloso, one of the figures who experienced firsthand, in the heat of those events, the transformations Brazilian cinema was undergoing, defined the films shot or released in 1968 as exponents of “a cinema that necessarily brought with it a political reflection on a decisive moment in the contemporary history of the world (and especially of Brazil, which ended the year with the implementation of AI-5)” (Veloso 2012, p. 15).4 The filming of Câncer in May of that year would function as a seed for “the origin of what would become the udigrúdi of Brazilian cinema, in which Glauber would not participate, and with which he would even engage in harsh polemics, because he considered the experience of Câncer to be just as valid as that of Antônio das Mortes.” (Aguilar, op. cit.).

The term udigrúdi, a corruption of “underground,” is in fact used by Glauber himself to designate so-called Cinema Marginal, minimizing the efforts both of the “hard core” of the new movement and of those around it, and claiming that “the young filmmakers [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville, and others of lesser talent rose up against Cinema Novo, announcing an old novelty: cheap cinema, handheld camera, and idea in the head.” According to the filmmaker, he himself was the true inventor of the Brazilian underground, precisely with Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

While the “young filmmakers” fervently joined, between the late 1960s and the mid-1970s, the disputes over who represented the true Brazilian cinematic avant-garde, trading barbs with Cinema Novo led by Glauber, at least in a less heated retrospective, in 1986, the role of Câncer was already recognized by Jairo Ferreira, one of the main theorists of Cinema Marginal. In Cinema de Invenção, a collection of old and new texts that helped solidify the movement’s theoretical framework, there is a brief chapter dedicated to Glauber Rocha and Câncer. While it does not avoid the earlier polemics, and stresses that “the experimental was truly born in Boca do Lixo in 1967 with Ozualdo Candeias’s A Margem [...],” (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, publishing his book after Glauber’s death, brings this dispute to a more or less conciliatory close, emphasizing Glauber’s inventiveness in the way the filmmaker operates within the sequence shots of Câncer and proposing, on that basis, that “cinephiles watch Câncer alongside the films of Hitch[cock] & Straub, as well as Julio Bressane’s O Anjo Nasceu/1969.” (ibid, p. 166).6 

Glauber’s view regarding a possible “authorship” of Brazilian underground cinema may seem mistaken, since Câncer only reached the public in 1972, by which point the Cinema de Invenção of Sganzerla, Bressane, and company had already been firmly established and had even released many of what would become its seminal films. However, it is difficult to say that Glauber would have seen his influence as completely retroactive, that is, as the influence of a film no one saw in 1968, released only in 1972, on the cinema made from 1968 onward, since, although the “founding fathers” of Cinema Marginal did not watch Câncer in 1968, the feature’s filming was openly publicized at the time, and some of the principles used by Glauber in the process did in fact become foundational principles of the movement responsible for films such as Cuidado, Madame (1970) and Copacabana Mon Amour (1970). Among these, one should emphasize a leaner production logic, less dependent on the structures of big-budget films, something that had been an initial precept of Cinema Novo, but which, by that point, had already been partially abandoned by it as the Cinema Novo filmmakers aligned themselves with the industrialization of Brazilian cinema in the lead-up to the founding of Embrafilme. One need only look at what the aforementioned Diário de Notícias was saying about Câncer as early as 1968.

“Odete Lara took part in Glauber Rocha’s experimental 16mm project, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante. Nelson Motta, always well informed and diligent, published an interview with Glauber: ‘I wanted to prove to myself that it is not necessary to shoot in 35mm, nor even to spend 100 million [cruzeiros], to make a good film’ [...]”

Influenced by Straub/Huillet and by the American underground, whose notable exponents include Jack Smith and Andy Warhol, Glauber made in Câncer something that can be summed up by what he said in an interview with Federico de Cárdenas and René Capriles: “the film has no story. It is three characters within a violent action. What I was seeking to do was a technical experiment, dealing with the problem of the endurance of the duration of the cinematic shot”.7 Without a script or pre-production, Câncer was shot almost entirely through improvisation, including improvised scenes: the actors, professional or not, improvised freely before Glauber’s camera.

What truly serves as the binding agent for shots that are distinct from one another and apparently unconnected at first is a central theme: violence, which the filmmaker dissects by placing it onscreen in various ways and from various angles.

There is, for example, social violence, manifested primarily in relation to Antônio Pitanga’s character, a poor Black man who, in search of work and a plate of food, ends up failing to achieve any effective results and moves toward total revolt and physical violence, which leads to tragic consequences.

One can also speak of the political violence employed by the ruling regime, when a character played by filmmaker Eduardo Coutinho is questioned about his supposed involvement with communism. And with Câncer having been shot on the eve of AI-5, it is well known that this kind of political inquisition by agents of the State was no small matter.

We can also cite gendered violence, when Hugo Carvana’s character says that Odete Lara’s character “deserves to be raped by four Black men in Flamengo jerseys on the Rio-Petrópolis highway,” in the midst of a conversation about fidelity and polygamy.

There is room, finally, but no less importantly, to speak of the violence of class struggle, which connects directly to the “social violence” mentioned earlier, when, beyond what Glauber himself already outlines in the opening monologue, Carvana says, in the aforementioned sequence with Odete Lara: “I am in favor of being brutally murdered by the masses, and of the masses eating all my entrails; of me, you, all of us being murdered and execrated. [...] We have nothing to do with the masses, we are two suckers, here, watching television at noon [...].” At this moment, Glauber, who considered himself “a sadist of the masses,”8 purges his own bourgeois guilt and makes a kind of inverse movement to what occurs in Black God, White Devil, when Antônio das Mortes, the character played by Maurício do Valle, massacres the followers of the popular religious leader inspired by Antônio Conselheiro of Canudos.

If Antônio das Mortes is representative of the typically Cinema Novo “contradictory character,” serving as an avatar for the dilemmas of the middle class even when present, filmically, in another context,9 as in Black God, White Devil itself, a cangaço film in which there is no middle class designated as such, in Câncer the conflict between classes unfolds in a significantly different way.

In the sequence in which Carvana and Odete Lara watch television, “the people” are cited as something distant, absent from the scene. Carvana sees the downfall of the bourgeoisie at the hands of the people as a way of rightly punishing the country’s more affluent classes for their own inertia and intellectual misery, expressed here through the act of idly watching television at noon, a time when the people are, for the most part, working. In other sequences, the people are physically represented by Pitanga’s character, as already discussed here, and he achieves his emancipation by murdering the character to whom he is subordinated at the end of the film, thereby completing the movement foreseen by Carvana’s character, even if it does not directly involve him or Odete Lara. Pitanga, despite the euphoria of the murder, does not have his problems solved here, remaining adrift despite his personal revenge.

One element that, while it may seem secondary to the viewer, was a fundamental factor in the filming process, must be taken into account when writing about Câncer, and may also serve as an object for reflections that go beyond these initial readings: the presence, in the film, of visual artist Hélio Oiticica.

Frederico Coelho proposes the thesis that Oiticica was responsible for bringing the most widely visible Brazilian art, which came largely from middle-class or upper-middle-class origins in the Rio-São Paulo axis, into contact with the reality of peripheral populations in the 1960s. Oiticica would have been the precursor of this movement when he began frequenting Morro da Mangueira, a favela in Rio de Janeiro, and became involved with the local population, finding affinity above all among the so-called malandragem and even among local petty criminals. The most notable example, amid Oiticica’s social relationships with peripheral criminality, is his friendship with the outlaw Cara de Cavalo, who, after being brutally murdered, was honored in two of the artist’s works, the best known of which is the flag Seja Marginal, Seja Herói.

Câncer was “partially filmed in the courtyard of Oiticica’s house,” in the Jardim Botânico neighborhood, in Rio de Janeiro’s South Zone, an affluent area of the city. By that point, the location “had already served as a clandestine meeting place where bohemians from the middle class mixed with residents of Mangueira.” Living with Oiticica at the time was the artist Rogério Duarte, who designed the poster for Black God, White Devil. Both appear in the film in brief roles, and Oiticica is responsible for bringing into the scene passistas from the samba school Estação Primeira de Mangueira, his friends, who also make appearances in the production. Samba, in fact, as an element of Câncer, and present in more than one sequence, is brought into the film as a whole through this connection made by Oiticica.

If, as Glauber aptly recalls in the monologue that opens Câncer, the film was “shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro,” the Glauber-Oiticica partnership was fundamental in bringing another dimension to the production with regard to elements related to social marginality. It was this partnership that led Câncer up into Rio’s favelas and incorporated Mangueira and samba into its already vigorous discourse of denunciation and revolution, which pulses with surprising vitality amid a series of improvisations.

In the opening monologue, the director states that the changes that swept through 1968 were “not really a revolution,” but rather an “agitation” promoted by a “radical middle class,” a “reformist liberal bourgeoisie,” in the manner of the French Revolution. From this point of departure, one possible path for inserting the people as agents of change is offered through a film that departs greatly from the conventional, both in language and in discourse. Not without attending to the dangers of violence devoid of political meaning, Glauber delivers in Câncer one of his most complex and stimulating works, even if it remains among his least discussed.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 See Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 See the chapter “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), in Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. In: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 See the chapter “Glauber Rocha, plano sequência”, in Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 From the text “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originally published in Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 In a letter to Carlos Diegues, cited by Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 See Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

PT/ENG
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13/5/2026
By/Por:
Igor Nolasco

"Era em Agosto de 1968... Era no Rio de Janeiro em agosto de 1968, uma agitação arretada, os estudantes na rua, os operários; tinha operário ocupando fábrica em Minas Gerais, operário ocupando fábrica em São Paulo, e estudantes fazendo agitação. Era a ditadura do Costa e Silva, que tinha sido o segundo ditador, depois de Castelo Branco, e tinha derrubado o presidente Jango, que estava fazendo a revolução em 64; não era o Marechal Castelo Branco, não, que este era um marechal reacionário... Então estava uma onda terrível, os estudantes na rua, o líder era Vladimir Palmeira; tinha Marcos Medeiros, Elinor Brito, o psicanalista Hélio Pellegrino, Franklin Martins, a barra pesada toda.

Mas não era mesmo uma revolução, quer dizer, era agitação, era... tinha o maio o francês também, estava uma onda arretada. Nego dizia o seguinte: que era revolução, mas era a classe média radical, burguesia liberal reformista na rua. E os operários... Tinha muito camponês morrendo de fome no nordeste. Que, aliás, continua morrendo de fome até hoje, estão morrendo há mais de 400 anos. E os intelectuais estavam lá, no Museu de Arte Moderna, naquela noite. Exatamente, discutindo sobre a arte, a arte revolucionária, porque estava começando o tropicalismo, uma onda arretada.

Aí eu chamei o Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, que tinha chegado da Itália; ele tinha uma Arriflex. O Luiz Carlos Saldanha fez a fotografia e a câmera, e o som direto foi feito por José Ventura. Agora, Hugo Carvana, Antônio Pitanga (que é baiano) e Odete Lara fizeram os papéis principais; no mais, Rogério Duarte (que é baiano também), Zé Medeiros, Hélio Oiticica (que é pintor) e o pessoal (Biju, Tineca, um pessoal da Mangueira), e mais Zelito (quer dizer, não Doutor Zelito do filme, Doutor Zelito da Mapa Filmes) e Chiquinho, que tava na Kombi.

E aí o tempo passou, porque ficou... Depois eu cheguei em Havana, aí fiz no ICAIC o som... A sincronização foi feita por Raul Garcia, e eu montei com a Tineca e a Mireta. Numa coprodução, e aí entrou o Barceloni na Itália e ficou com o título 'Câncer'. Rio de Janeiro. Filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro, uma filmagem que demorou quatro dias para filmar e quatro anos para montar e sincronizar... Terminou em maio de 72; de agosto de 68 a maio de 72, 'Câncer'."

É com esse monólogo, entoado por sua própria voz, que Glauber Rocha abre seu longa Câncer. Nas imagens, desenrola-se justamente o que é descrito em dado momento da fala: a câmera de Luiz Carlos Saldanha desliza por uma longa mesa de intelectuais, reunidos no MAM do Rio de Janeiro ante uma numerosa plateia. Na justaposição feita pelo cineasta, um espectador não familiarizado com sua voz pode acabar momentaneamente tendo a impressão de que o monólogo está sendo proferido pelo orador da vez em meio à mesa (que calha de ser o poeta Ferreira Gullar), que discursa, inaudível, enquanto é observado por seus pares, debruçados sobre o tampo da mesa. Não tarda, no entanto, a perceber que imagem e voz não estão sincronizados, que não dizem a mesma coisa. Esse contraste permeia todo o longa, sendo resultado de seu modo de produção e de finalização.

Logo nesses primeiros minutos, Glauber Rocha já atira o público de cabeça no mundo de Câncer, um de seus filmes mais distintos, que se diferencia de tudo o que o diretor havia feito até então e, mesmo demarcando sua posição em meio à "linha evolutiva" da filmografia glauberiana de modo bem claro, até mesmo do que veio depois. Em um longo monólogo, uma variedade de funções são sintetizadas. O filme não possui cartela de título ou créditos de elenco e equipe técnica ao início ou ao final, mas o monólogo cumpre essa função (algo que Glauber repetiria posteriormente, de um outro jeito, em Jorjamado no Cinema, de 1979). De igual maneira, a fala que inicia o longa também oferece o contexto histórico de sua filmagem – que acaba, também, por justificar o inflamado discurso fílmico que se faria evidente já nos próximos momentos – e descreve os primeiros planos a aparecerem em tela, exatamente enquanto estes estão visualmente presentes. Entrega, ademais, o processo dificultoso de montagem do material, que durou quatro anos e atravessou um dos períodos de exílio de Glauber, tendo sido finalizado em Cuba, e justapõe isso ao dinamismo das gravações. Quatro dias para filmar, quatro anos para montar e sincronizar.

Existem informações contraditórias sobre as filmagens de Câncer. Enquanto o próprio Glauber afirma, no supracitado monólogo e em declarações posteriores, que estas teriam se dado em agosto de 1968, pesquisadores como Gonzalo Aguilar dizem que o filme fora, na verdade, rodado em maio daquele ano. Segundo Aguilar, a gravação do longa teria ocorrido "em maio de 1968, um ano depois da estreia de 'Terra em transe' e antes do início de 'Antônio das Mortes'. Glauber filmou-o no mês que teve antes de começar a nova filmagem" (Aguilar, 2016, p. 99).1 A afirmação de Aguilar encontra respaldo em notícias de jornais como o Diário de Notícias, publicadas em maio e junho de 1968, já relatando as gravações e ainda se referindo ao filme pelo seu título provisório, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citando "entre 8 e 10 de julho" daquele ano como o período especulado para o lançamento do longa. O pesquisador Frederico Coelho (que firma agosto como o mês das filmagens, estando portanto de acordo com a "versão oficial" glauberiana) aponta que essa janela entre a estreia de Terra em Transe e o início das filmagens de Antônio das Mortes teria sido uma "temporada forçada" que Glauber passou no Rio, e sinaliza a presença, em Câncer, dos atores Hugo Carvana e Odete Lara como uma evidência de que essa temporada já estaria sendo passada com o elenco de Antônio das Mortes, antes da viagem ao sertão da Bahia para as gravações do mesmo.2

É de se especular o porquê da mudança de data de maio para agosto no monólogo de abertura do longa, se fruto um lapso de memória do próprio Glauber ou um joguete proposital. Talvez "agosto" se refira ao prólogo gravado no MAM, que de fato foi filmado posteriormente à fotografia principal. Fato é que as filmagens de Câncer no famoso maio de 68 (citado, inclusive, no próprio monólogo glauberiano) estariam perfeitamente sintonizadas com o clima que fervilhava no mundo, partindo da França, e começava a frutificar no Brasil, do ponto de vista cinematográfico. No mesmo mês de maio, Neville D'Almeida filmava o seu Jardim de Guerra, e em novembro daquele ano, no Festival de Brasília, seria exibido publicamente pela primeira vez um marco definitivo na cinematografia brasileira, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.

Não é exagero listar 1968 como um ano divisor de águas para o cinema brasileiro. É o ano em que, a partir da estreia do filme do Sganzerla, estoura o que passa a ser chamado de "Cinema de Invenção", ou "Cinema Marginal" – em alusão ao "A Margem", de Ozualdo Candeias, lançado no ano anterior, mas também em um certo senso de marginalidade artística, para o qual convergiam, por exemplo, músicos que tocavam seus trabalhos à margem da Bossa Nova e do Tropicalismo musical; artistas plásticos e poetas que pensavam e executavam suas ideias à margem dos parâmetros conservadores, então vigentes mesmo entre os que juraram romper com o conservadorismo estético (como o caso do movimento neoconcreto); e cineastas que realizavam um novo tipo de cinema, à margem do movimento do Cinema Novo. Naquele momento, este começava a ter seu "núcleo duro" desestruturado, com seus principais quadros focando seus esforços na industrialização do cinema brasileiro através da criação de uma produtora e distribuidora audiovisual estatal, de capital misto, para fomentar e dar vazão ao produto cinematográfico nacional — o que viria a se concretizar no ano seguinte, com o surgimento da Embrafilme, em verdade uma encarnação tardia de uma instituição já preexistente, o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE).3

O montador Geraldo Veloso, uma das figuras que vivenciou as transformações pelas quais o cinema brasileiro estava passando in loco no calor daqueles acontecimentos, definiu os filmes rodados ou lançados em 1968 como expoentes de "um cinema que necessariamente trazia uma reflexão política sobre um momento decisivo para a história contemporânea do mundo (e especialmente com o Brasil, que termina o ano com a instauração do AI-5)" (Veloso 2012, p. 15).4 As filmagens de Câncer em maio daquele ano funcionariam como uma semente para "a origem do que seria o udigrúdi do cinema brasileiro, do qual Glauber não participaria (e até polemizaria duramente) por considerar que a experiência de 'Câncer' é tão válida quanto a de 'Antônio das Mortes'" (Aguilar, op. cit.).

O termo udigrúdi, corruptela de underground, é utilizado pelo próprio Glauber, aliás, para designar o chamado Cinema Marginal, minimizando os esforços tanto do "núcleo duro" do novo movimento quanto dos que estavam ao seu redor, e alegando que "os jovens cineastas [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville e outros de menor talento levantaram-se contra o Cinema Novo, anunciando uma velha novidade: cinema barato, de câmera na mão e ideia na cabeça". Segundo o cineasta, seria ele o verdadeiro inventor do underground brasileiro, justamente com Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

A visão de Glauber acerca de uma possível "autoria" do cinema underground brasileiro pode parecer equivocada, uma vez que Câncer só chegou a público em 1972, quando o Cinema de Invenção de Sganzerla, Bressane e companhia já havia sido muito bem estabelecido e, inclusive, lançado boa parte do que viriam a ser seus filmes seminais. No entanto, é difícil dizer que Glauber veria sua influência como completamente retroativa (a de um filme que ninguém viu em 1968, lançado apenas em 1972, tendo influenciado o cinema que se fez a partir de 68) uma vez que, apesar dos "pais fundadores" do Cinema Marginal não terem assistido a Câncer em 1968, a filmagem do longa foi divulgada abertamente à época, e alguns dos preceitos utilizados por Glauber no processo de fato se tornaram princípios basilares do movimento responsável por filmes como Cuidado, Madame (1970) e Copacabana Mon Amour (1970). Entre estes, há de ser ressaltada uma lógica de produção mais enxuta e menos dependente das estruturas dos filmes de grande orçamento – o que foi um preceito inicial do Cinema Novo, mas que, àquela altura, já havia sido parcialmente abandonado por este na medida em que os cinemanovistas se afinaram à industrialização do cinema brasileiro ante a fundação da Embrafilme. Basta ver o que o já citado Diário de Notícias falava sobre Câncer, ainda em 1968.

"Odete Larta participou da experiência de Glauber Rocha em 16 mm, 'Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante'. Nelson Motta, sempre bem informado e diligente, publicou uma entrevista com Glauber: 'eu queria provar a mim mesmo que não é preciso filmar em 35 mm, nem mesmo gastar 100 milhões [de cruzeiros] para fazer um bom filme' [...]"

Influenciado por Straub/Huillet e pelo underground americano, que tinha então entre seus expoentes notórios Jack Smith e Andy Warhol, Glauber fez em Câncer algo que pode ser resumido pelo que disse em entrevista a Federico de Cárdenas e René Capriles: "o filme não tem história. São três personagens dentro de uma ação violenta. O que estava buscando fazer era uma experiência técnica, do problema da resistência da duração do plano cinematográfico". Sem roteiro ou pré-produção, Câncer foi rodado quase todo no improviso, inclusive de cena: os atores, profissionais ou não, improvisavam livremente ante a câmera glauberiana.

O que realmente serve como liga para planos distintos entre si e sem conexão inicial aparente é uma temática principal, a da violência, que é dissecada pelo cineasta ao ser colocada em tela de diversas maneiras e sob diversos aspectos.

Há, por exemplo, a violência social, manifestada principalmente no que é relativo ao personagem de Antônio Pitanga, um homem negro e pobre que, em busca de trabalho e de um prato de comida, acaba não conseguindo resultados efetivos e partindo para a revolta total e a violência física, que deságua em consequências trágicas.

Pode-se falar também da violência política empregada pelo regime de governo vigente, quando um personagem vivido pelo cineasta Eduardo Coutinho é questionado sobre seu suposto envolvimento com o comunismo – e com Câncer sendo rodado às vésperas do AI-5, é sabido que esse tipo de inquisição política por parte de agentes do Estado não significava pouca coisa.

Podemos ainda citar a violência de gênero, quando o personagem de Hugo Carvana diz que a personagem de Odete Lara "merece ser violentada por quatro crioulos com a camisa do Flamengo na estrada Rio-Petrópolis", em meio a uma conversa sobre fidelidade e poligamia.

Há espaço, por último (mas não menos importante), para se falar na violência da luta de classes (que se conecta de modo direto à "violência social" mencionada anteriormente), quando, para além do que já é delineado pelo próprio Glauber no monólogo de abertura, Carvana diz, na já mencionada sequência com Odete Lara: "Eu sou a favor de ser assassinado brutalmente pela massa, e a massa comer as minhas vísceras todas; eu, você, nós sermos assassinados e execrados. [...] Nós não temos nada a ver com a massa, nós somos dois otários, aqui, vendo televisão ao meio dia [...]". Nesse momento, Glauber, que se considerava "um sádico das massas",8 expurga sua própria culpa burguesa e faz uma espécie de movimento inverso ao que ocorre em Deus e o Diabo na Terra do Sol, quando Antônio das Mortes, personagem de Maurício do Valle, massacra os seguidores do líder religioso popular inspirado no Antônio Conselheiro de Canudos.

Se Antônio das Mortes é um representativo da "personagem contraditória" tipicamente cinemanovista, que serve como avatar para os dilemas da classe média mesmo quando estando presente, filmicamente, em outro contexto9 – como no próprio Deus e o Diabo, filme de cangaço onde não existe uma classe média designada como tal – em Câncer o conflito entre classes ocorre de maneira significativamente diferente.

Na sequência em que Carvana e Odete Lara assistem televisão, "o povo" é citado como algo distante, que não está presente em cena; Carvana enxerga na derrocada da burguesia pelo povo uma maneira de, com razão, castigar as classes mais abastadas do país por sua própria inércia e miséria intelectual (expressada, aqui, pelo ato de se estar assistindo televisão, vadiamente, ao meio dia, horário no qual o povo está majoritariamente trabalhando). Em outras sequências, o povo está representado fisicamente no personagem de Pitanga, conforme já discutido aqui, e este alcança sua emancipação ao assassinar o personagem a quem está subordinado, ao fim do filme, dando cabo ao movimento que é previsto pelo personagem de Carvana – ainda que não envolvendo diretamente ele ou Odete Lara. Pitanga, apesar da euforia do assassinato, não tem, aqui, seus problemas resolvidos, permanecendo à deriva apesar da vingança pessoal.

Um elemento que, se para o espectador pode ser secundário, para o processo de filmagem é um dado fundamental, há de ser considerado ao se escrever sobre Câncer, e pode servir também como objeto para elaborações que vão além dessas visões primárias: a presença, no filme, do artista visual Hélio Oiticica.

Frederico Coelho propõe a tese de que Oiticica seria o responsável por fazer com que a arte brasileira de maior alcance, que vem de uma origem majoritariamente da classe média ou média-alta dos eixos Rio-São Paulo, entrasse em contato com a realidade das populações periféricas na década de 1960. Oiticica teria sido o precursor desse movimento ao passar a frequentar o morro da Mangueira, favela no Rio de Janeiro, e enturmar-se com a população local, encontrando afinidade sobretudo entre a chamada "malandragem" e mesmo entre os pequenos criminosos locais. O destaque, em meio a essas relações sociais de Oiticica com a criminalidade periférica, está em sua amizade com o contraventor Cara de Cavalo — que, após ser brutalmente assassinado, foi homenageado em duas obras do artista, sendo a mais conhecida a bandeira "Seja Marginal, Seja Herói".

Câncer foi "parcialmente filmado no pátio da casa de Oiticica", no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade. Àquela altura, o local já promovia encontros entre a intelectualidade de classe média e os amigos mangueirenses do artista. Morando com Oiticica, naquele momento, estava o artista Rogério Duarte, autor do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ambos atuam no filme, em breves participações, e Oiticica é responsável por trazer para dentro de cena passistas da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. O samba, inclusive, enquanto elemento de Câncer – e estando presente em mais de uma sequência – é trazido ao filme, como um todo, por essa conexão feita por Oiticica.

Se, como Glauber bem lembra no monólogo que abre Câncer, o filme foi "filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro", a parceria Glauber-Oiticica foi fundamental para trazer à produção uma outra dimensão no que diz respeito aos elementos relacionados à marginalidade social. Foi essa parceria que fez com que Câncer subisse às favelas cariocas e que incorporasse a Mangueira e o samba a seu já vigoroso discurso de denúncia e revolução, que pulsa com surpreendente vitalidade em meio a uma série de improvisos.

No monólogo inicial o diretor afirma que as mudanças que tomaram conta do ano de 1968 não eram "mesmo uma revolução", sendo mais uma "agitação" promovida por uma "classe média radical", "burguesia liberal reformista", à moda da revolução francesa. Partindo disso, um caminho possível para a inserção do povo enquanto agente de mudança é dado através de um filme que foge, em muito, do convencional, tanto em linguagem quanto em discurso. Não sem se atentar aos perigos de uma violência sem significado político, Glauber entrega em Câncer um de seus trabalhos mais complexos e estimulantes, ainda que menos comentados.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 Ver Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 Ver o capítulo “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), em Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. Em: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 Ver o capítulo “Glauber Rocha, plano sequência”, em Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 No texto “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originalmente publicado em Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 Em carta a Carlos Diegues, citada em Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 Ver Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

"Era em Agosto de 1968... Era no Rio de Janeiro em agosto de 1968, uma agitação arretada, os estudantes na rua, os operários; tinha operário ocupando fábrica em Minas Gerais, operário ocupando fábrica em São Paulo, e estudantes fazendo agitação. Era a ditadura do Costa e Silva, que tinha sido o segundo ditador, depois de Castelo Branco, e tinha derrubado o presidente Jango, que estava fazendo a revolução em 64; não era o Marechal Castelo Branco, não, que este era um marechal reacionário... Então estava uma onda terrível, os estudantes na rua, o líder era Vladimir Palmeira; tinha Marcos Medeiros, Elinor Brito, o psicanalista Hélio Pellegrino, Franklin Martins, a barra pesada toda.

Mas não era mesmo uma revolução, quer dizer, era agitação, era... tinha o maio o francês também, estava uma onda arretada. Nego dizia o seguinte: que era revolução, mas era a classe média radical, burguesia liberal reformista na rua. E os operários... Tinha muito camponês morrendo de fome no nordeste. Que, aliás, continua morrendo de fome até hoje, estão morrendo há mais de 400 anos. E os intelectuais estavam lá, no Museu de Arte Moderna, naquela noite. Exatamente, discutindo sobre a arte, a arte revolucionária, porque estava começando o tropicalismo, uma onda arretada.

Aí eu chamei o Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, que tinha chegado da Itália;ele tinha uma Arriflex. O Luiz Carlos Saldanha fez a fotografia e a câmera, e o som direto foi feito por José Ventura. Agora, Hugo Carvana, Antônio Pitanga (que é baiano) e Odete Lara fizeram os papéis principais; no mais, Rogério Duarte (que é baiano também), Zé Medeiros, Hélio Oiticica (que é pintor) e o pessoal (Biju, Tineca, um pessoal da Mangueira), e mais Zelito (quer dizer, não Doutor Zelito do filme, Doutor Zelito da Mapa Filmes) e Chiquinho, que tava na Kombi.

E aí o tempo passou, porque ficou... Depois eu cheguei em Havana, aí fiz no ICAIC o som... A sincronização foi feita por Raul Garcia, e eu montei com a Tineca e a Mireta. Numa coprodução, e aí entrou o Barceloni na Itália e ficou com o título 'Câncer'. Rio de Janeiro. Filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro, uma filmagem que demorou quatro dias para filmar e quatro anos para montar e sincronizar... Terminou em maio de 72; de agosto de 68 a maio de 72, 'Câncer'."

É com esse monólogo, entoado por sua própria voz, que Glauber Rocha abre seu longa Câncer. Nas imagens, desenrola-se justamente o que é descrito em dado momento da fala: a câmera de Luiz Carlos Saldanha desliza por uma longa mesa de intelectuais, reunidos no MAM do Rio de Janeiro ante uma numerosa plateia. Na justaposição feita pelo cineasta, um espectador não familiarizado com sua voz pode acabar momentaneamente tendo a impressão de que o monólogo está sendo proferido pelo orador da vez em meio à mesa (que calha de ser o poeta Ferreira Gullar), que discursa, inaudível, enquanto é observado por seus pares, debruçados sobre o tampo da mesa. Não tarda, no entanto, a perceber que imagem e voz não estão sincronizados, que não dizem a mesma coisa. Esse contraste permeia todo o longa, sendo resultado de seu modo de produção e de finalização.

Logo nesses primeiros minutos, Glauber Rocha já atira o público de cabeça no mundo de Câncer, um de seus filmes mais distintos, que se diferencia de tudo o que o diretor havia feito até então e, mesmo demarcando sua posição em meio à "linha evolutiva" da filmografia glauberiana de modo bem claro, até mesmo do que veio depois. Em um longo monólogo, uma variedade de funções são sintetizadas. O filme não possui cartela de título ou créditos de elenco e equipe técnica ao início ou ao final, mas o monólogo cumpre essa função (algo que Glauber repetiria posteriormente, de um outro jeito, em Jorjamado no Cinema, de 1979). De igual maneira, a fala que inicia o longa também oferece o contexto histórico de sua filmagem – que acaba, também, por justificar o inflamado discurso fílmico que se faria evidente já nos próximos momentos – e descreve os primeiros planos a aparecerem em tela, exatamente enquanto estes estão visualmente presentes. Entrega, ademais, o processo dificultoso de montagem do material, que durou quatro anos e atravessou um dos períodos de exílio de Glauber, tendo sido finalizado em Cuba, e justapõe isso ao dinamismo das gravações. Quatro dias para filmar, quatro anos para montar e sincronizar.

Existem informações contraditórias sobre as filmagens de Câncer. Enquanto o próprio Glauber afirma, no supracitado monólogo e em declarações posteriores, que estas teriam se dado em agosto de 1968, pesquisadores como Gonzalo Aguilar dizem que o filme fora, na verdade, rodado em maio daquele ano. Segundo Aguilar, a gravação do longa teria ocorrido "em maio de 1968, um ano depois da estreia de 'Terra em transe' e antes do início de 'Antônio das Mortes'. Glauber filmou-o no mês que teve antes de começar a nova filmagem" (Aguilar, 2016, p. 99).1 A afirmação de Aguilar encontra respaldo em notícias de jornais como o Diário de Notícias, publicadas em maio e junho de 1968, já relatando as gravações e ainda se referindo ao filme pelo seu título provisório, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citando "entre 8 e 10 de julho" daquele ano como o período especulado para o lançamento do longa. O pesquisador Frederico Coelho (que firma agosto como o mês das filmagens, estando portanto de acordo com a "versão oficial" glauberiana) aponta que essa janela entre a estreia de Terra em Transe e o início das filmagens de Antônio das Mortes teria sido uma "temporada forçada" que Glauber passou no Rio, e sinaliza a presença, em Câncer, dos atores Hugo Carvana e Odete Lara como uma evidência de que essa temporada já estaria sendo passada com o elenco de Antônio das Mortes, antes da viagem ao sertão da Bahia para as gravações do mesmo.2

É de se especular o porquê da mudança de data de maio para agosto no monólogo de abertura do longa, se fruto um lapso de memória do próprio Glauber ou um joguete proposital. Talvez "agosto" se refira ao prólogo gravado no MAM, que de fato foi filmado posteriormente à fotografia principal. Fato é que as filmagens de Câncer no famoso maio de 68 (citado, inclusive, no próprio monólogo glauberiano) estariam perfeitamente sintonizadas com o clima que fervilhava no mundo, partindo da França, e começava a frutificar no Brasil, do ponto de vista cinematográfico. No mesmo mês de maio, Neville D'Almeida filmava o seu Jardim de Guerra, e em novembro daquele ano, no Festival de Brasília, seria exibido publicamente pela primeira vez um marco definitivo na cinematografia brasileira, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.

Não é exagero listar 1968 como um ano divisor de águas para o cinema brasileiro. É o ano em que, a partir da estreia do filme do Sganzerla, estoura o que passa a ser chamado de "Cinema de Invenção", ou "Cinema Marginal" – em alusão ao "A Margem", de Ozualdo Candeias, lançado no ano anterior, mas também em um certo senso de marginalidade artística, para o qual convergiam, por exemplo, músicos que tocavam seus trabalhos à margem da Bossa Nova e do Tropicalismo musical; artistas plásticos e poetas que pensavam e executavam suas ideias à margem dos parâmetros conservadores, então vigentes mesmo entre os que juraram romper com o conservadorismo estético (como o caso do movimento neoconcreto); e cineastas que realizavam um novo tipo de cinema, à margem do movimento do Cinema Novo. Naquele momento, este começava a ter seu "núcleo duro" desestruturado, com seus principais quadros focando seus esforços na industrialização do cinema brasileiro através da criação de uma produtora e distribuidora audiovisual estatal, de capital misto, para fomentar e dar vazão ao produto cinematográfico nacional — o que viria a se concretizar no ano seguinte, com o surgimento da Embrafilme, em verdade uma encarnação tardia de uma instituição já preexistente, o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE).3

O montador Geraldo Veloso, uma das figuras que vivenciou as transformações pelas quais o cinema brasileiro estava passando in loco no calor daqueles acontecimentos, definiu os filmes rodados ou lançados em 1968 como expoentes de "um cinema que necessariamente trazia uma reflexão política sobre um momento decisivo para a história contemporânea do mundo (e especialmente com o Brasil, que termina o ano com a instauração do AI-5)" (Veloso 2012, p. 15).4 As filmagens de Câncer em maio daquele ano funcionariam como uma semente para "a origem do que seria o udigrúdi do cinema brasileiro, do qual Glauber não participaria (e até polemizaria duramente) por considerar que a experiência de 'Câncer' é tão válida quanto a de 'Antônio das Mortes'"  (Aguilar, op. cit.).

O termo udigrúdi, corruptela de underground, é utilizado pelo próprio Glauber, aliás, para designar o chamado Cinema Marginal, minimizando os esforços tanto do "núcleo duro" do novo movimento quanto dos que estavam ao seu redor, e alegando que "os jovens cineastas [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville e outros de menor talento levantaram-se contra o Cinema Novo, anunciando uma velha novidade: cinema barato, de câmera na mão e ideia na cabeça". Segundo o cineasta, seria ele o verdadeiro inventor do underground brasileiro, justamente com Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

A visão de Glauber acerca de uma possível "autoria" do cinema underground brasileiro pode parecer equivocada, uma vez que Câncer só chegou a público em 1972, quando o Cinema de Invenção de Sganzerla, Bressane e companhia já havia sido muito bem estabelecido e, inclusive, lançado boa parte do que viriam a ser seus filmes seminais. No entanto, é difícil dizer que Glauber veria sua influência como completamente retroativa (a de um filme que ninguém viu em 1968, lançado apenas em 1972, tendo influenciado o cinema que se fez a partir de 68) uma vez que, apesar dos "pais fundadores" do Cinema Marginal não terem assistido a Câncer em 1968, a filmagem do longa foi divulgada abertamente à época, e alguns dos preceitos utilizados por Glauber no processo de fato se tornaram princípios basilares do movimento responsável por filmes como Cuidado, Madame (1970) e Copacabana Mon Amour (1970). Entre estes, há de ser ressaltada uma lógica de produção mais enxuta e menos dependente das estruturas dos filmes de grande orçamento – o que foi um preceito inicial do Cinema Novo, mas que, àquela altura, já havia sido parcialmente abandonado por este na medida em que os cinemanovistas se afinaram à industrialização do cinema brasileiro ante a fundação da Embrafilme. Basta ver o que o já citado Diário de Notícias falava sobre Câncer, ainda em 1968.

"Odete Larta participou da experiência de Glauber Rocha em 16 mm, 'Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante'. Nelson Motta, sempre bem informado e diligente, publicou uma entrevista com Glauber: 'eu queria provar a mim mesmo que não é preciso filmar em 35 mm, nem mesmo gastar 100 milhões [de cruzeiros] para fazer um bom filme' [...]"

Influenciado por Straub/Huillet e pelo underground americano, que tinha então entre seus expoentes notórios Jack Smith e Andy Warhol, Glauber fez em Câncer algo que pode ser resumido pelo que disse em entrevista a Federico de Cárdenas e René Capriles: "o filme não tem história. São três personagens dentro de uma ação violenta. O que estava buscando fazer era uma experiência técnica, do problema da resistência da duração do plano cinematográfico". Sem roteiro ou pré-produção, Câncer foi rodado quase todo no improviso, inclusive de cena: os atores, profissionais ou não, improvisavam livremente ante a câmera glauberiana.

O que realmente serve como liga para planos distintos entre si e sem conexão inicial aparente é uma temática principal, a da violência, que é dissecada pelo cineasta ao ser colocada em tela de diversas maneiras e sob diversos aspectos.

Há, por exemplo, a violência social, manifestada principalmente no que é relativo ao personagem de Antônio Pitanga, um homem negro e pobre que, em busca de trabalho e de um prato de comida, acaba não conseguindo resultados efetivos e partindo para a revolta total e a violência física, que deságua em consequências trágicas.

Pode-se falar também da violência política empregada pelo regime de governo vigente, quando um personagem vivido pelo cineasta Eduardo Coutinho é questionado sobre seu suposto envolvimento com o comunismo – e com Câncer sendo rodado às vésperas do AI-5, é sabido que esse tipo de inquisição política por parte de agentes do Estado não significava pouca coisa.

Podemos ainda citar a violência de gênero, quando o personagem de Hugo Carvana diz que a personagem de Odete Lara "merece ser violentada por quatro crioulos com a camisa do Flamengo na estrada Rio-Petrópolis", em meio a uma conversa sobre fidelidade e poligamia.

Há espaço, por último (mas não menos importante), para se falar na violência da luta de classes (que se conecta de modo direto à "violência social" mencionada anteriormente), quando, para além do que já é delineado pelo próprio Glauber no monólogo de abertura, Carvana diz, na já mencionada sequência com Odete Lara: "Eu sou a favor de ser assassinado brutalmente pela massa, e a massa comer as minhas vísceras todas; eu, você, nós sermos assassinados e execrados. [...] Nós não temos nada a ver com a massa, nós somos dois otários, aqui, vendo televisão ao meio dia [...]". Nesse momento, Glauber, que se considerava "um sádico das massas",8 expurga sua própria culpa burguesa e faz uma espécie de movimento inverso ao que ocorre em Deus e o Diabo na Terra do Sol, quando Antônio das Mortes, personagem de Maurício do Valle, massacra os seguidores do líder religioso popular inspirado no Antônio Conselheiro de Canudos.

Se Antônio das Mortes é um representativo da "personagem contraditória" tipicamente cinemanovista, que serve como avatar para os dilemas da classe média mesmo quando estando presente, filmicamente, em outro contexto9 – como no próprio Deus e o Diabo, filme de cangaço onde não existe uma classe média designada como tal – em Câncer o conflito entre classes ocorre de maneira significativamente diferente.

Na sequência em que Carvana e Odete Lara assistem televisão, "o povo" é citado como algo distante, que não está presente em cena; Carvana enxerga na derrocada da burguesia pelo povo uma maneira de, com razão, castigar as classes mais abastadas do país por sua própria inércia e miséria intelectual (expressada, aqui, pelo ato de se estar assistindo televisão, vadiamente, ao meio dia, horário no qual o povo está majoritariamente trabalhando). Em outras sequências, o povo está representado fisicamente no personagem de Pitanga, conforme já discutido aqui, e este alcança sua emancipação ao assassinar o personagem a quem está subordinado, ao fim do filme, dando cabo ao movimento que é previsto pelo personagem de Carvana – ainda que não envolvendo diretamente ele ou Odete Lara. Pitanga, apesar da euforia do assassinato, não tem, aqui, seus problemas resolvidos, permanecendo à deriva apesar da vingança pessoal.

Um elemento que, se para o espectador pode ser secundário, para o processo de filmagem é um dado fundamental, há de ser considerado ao se escrever sobre Câncer, e pode servir também como objeto para elaborações que vão além dessas visões primárias: a presença, no filme, do artista visual Hélio Oiticica.

Frederico Coelho propõe a tese de que Oiticica seria o responsável por fazer com que a arte brasileira de maior alcance, que vem de uma origem majoritariamente da classe média ou média-alta dos eixos Rio-São Paulo, entrasse em contato com a realidade das populações periféricas na década de 1960. Oiticica teria sido o precursor desse movimento ao passar a frequentar o morro da Mangueira, favela no Rio de Janeiro, e enturmar-se com a população local, encontrando afinidade sobretudo entre a chamada "malandragem" e mesmo entre os pequenos criminosos locais. O destaque, em meio a essas relações sociais de Oiticica com a criminalidade periférica, está em sua amizade com o contraventor Cara de Cavalo — que, após ser brutalmente assassinado, foi homenageado em duas obras do artista, sendo a mais conhecida a bandeira "Seja Marginal, Seja Herói".

Câncer foi "parcialmente filmado no pátio da casa de Oiticica", no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade. Àquela altura, o local já promovia encontros entre a intelectualidade de classe média e os amigos mangueirenses do artista. Morando com Oiticica, naquele momento, estava o artista Rogério Duarte, autor do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ambos atuam no filme, em breves participações, e Oiticica é responsável por trazer para dentro de cena passistas da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. O samba, inclusive, enquanto elemento de Câncer – e estando presente em mais de uma sequência – é trazido ao filme, como um todo, por essa conexão feita por Oiticica.

Se, como Glauber bem lembra no monólogo que abre Câncer, o filme foi "filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro", a parceria Glauber-Oiticica foi fundamental para trazer à produção uma outra dimensão no que diz respeito aos elementos relacionados à marginalidade social. Foi essa parceria que fez com que Câncer subisse às favelas cariocas e que incorporasse a Mangueira e o samba a seu já vigoroso discurso de denúncia e revolução, que pulsa com surpreendente vitalidade em meio a uma série de improvisos.

No monólogo inicial o diretor afirma que as mudanças que tomaram conta do ano de 1968 não eram "mesmo uma revolução", sendo mais uma "agitação" promovida por uma "classe média radical", "burguesia liberal reformista", à moda da revolução francesa. Partindo disso, um caminho possível para a inserção do povo enquanto agente de mudança é dado através de um filme que foge, em muito, do convencional, tanto em linguagem quanto em discurso. Não sem se atentar aos perigos de uma violência sem significado político, Glauber entrega em Câncer um de seus trabalhos mais complexos e estimulantes, ainda que menos comentados.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 Ver Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 Ver o capítulo “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), em Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. Em: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 Ver o capítulo “Glauber Rocha, plano sequência”, em Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 No texto “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originalmente publicado em Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 Em carta a Carlos Diegues, citada em Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 Ver Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

“It was in August 1968... It was in Rio de Janeiro in August 1968, a hell of a commotion, students in the streets, workers too; there were workers occupying factories in Minas Gerais, workers occupying factories in São Paulo, and students stirring things up. It was the dictatorship of Costa e Silva, who had been the second dictator, after Castelo Branco, and had overthrown President Jango, who was making the revolution in 1964; it wasn’t Marshal Castelo Branco, no, because he was a reactionary marshal... So there was a terrible wave going on, students in the streets, the leader was Vladimir Palmeira; there was Marcos Medeiros, Elinor Brito, the psychoanalyst Hélio Pellegrino, Franklin Martins, the whole tough crowd.

But it wasn’t really a revolution, I mean, it was unrest, it was... there was the French May too, there was one hell of a wave going on. People would say the following: that it was revolution, but it was the radical middle class, the reformist liberal bourgeoisie in the streets. And the workers... There were many peasants starving to death in the Northeast. Which, by the way, continues to be the case today, they have been dying of hunger for more than 400 years. And the intellectuals were there, at the Museum of Modern Art, that night. Exactly, discussing art, revolutionary art, because Tropicalism was beginning, one hell of a wave.

Then I called Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, who had arrived from Italy; he had an Arriflex. Luiz Carlos Saldanha did the cinematography and camera, and the direct sound was done by José Ventura. Now, Hugo Carvana, Antônio Pitanga, who is from Bahia, and Odete Lara played the main roles; beyond them, there was Rogério Duarte, who is also from Bahia, Zé Medeiros, Hélio Oiticica, who is a painter, and the gang, Biju, Tineca, some people from Mangueira, and also Zelito, meaning not Doctor Zelito from the film, but Doctor Zelito from Mapa Filmes, and Chiquinho, who was in the Kombi.

And then time went by, because the film was left unfinished... Later I arrived in Havana, and did the sound at ICAIC... The synchronization was done by Raul Garcia, and I edited it with Tineca and Mireta. It was a co-production, and then Barceloni came in from Italy, and it ended up with the title Câncer. Rio de Janeiro. Shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro, a shoot that took four days to film and four years to edit and synchronize... It was finished in May 1972; from August 1968 to May 1972, Câncer.”

It is with this monologue, intoned in his own voice, that Glauber Rocha opens his feature film Câncer. In the images, we see precisely what is described at one point in the speech: Luiz Carlos Saldanha’s camera glides along a long table of intellectuals, gathered at Rio de Janeiro’s MAM before a large audience. In the juxtaposition created by the filmmaker, a viewer unfamiliar with his voice may momentarily come away with the impression that the monologue is being delivered by the speaker currently at the table, who happens to be the poet Ferreira Gullar. He speaks inaudibly while being observed by his peers, who lean over the tabletop. Before long, however, it becomes clear that image and voice are not synchronized, that they are not saying the same thing. This contrast permeates the entire feature, and is the result of its mode of production and completion.

Already in these opening minutes, Glauber Rocha throws the audience headfirst into the world of Câncer, one of his most distinctive films, one that differs from everything the director had made up to that point and, even while clearly marking its place within the “evolutionary line” of Glauber’s filmography, from what would come afterward as well. In a long monologue, a variety of functions are synthesized. The film has no title card or cast and crew credits at the beginning or end, but the monologue fulfills that function, something Glauber would later repeat, in a different way, in Jorjamado no Cinema, from 1979. Likewise, the speech that opens the feature also provides the historical context of its filming, which ultimately also serves to justify the inflamed filmic discourse that would become evident in the very next moments, and describes the first shots to appear on screen at the exact moment they are visually present. It also lays out the difficult process of editing the material, which lasted four years and spanned one of Glauber’s periods of exile, having been completed in Cuba, and juxtaposes this with the dynamism of the shoot. Four days to film, four years to edit and synchronize.

There is conflicting information about the filming of Câncer. While Glauber himself states, in the aforementioned monologue and in later remarks, that it took place in August 1968, researchers such as Gonzalo Aguilar say that the film was in fact shot in May of that year. According to Aguilar, the feature was filmed “in May 1968, one year after the premiere of Terra em Transe and before the beginning of Antônio das Mortes. Glauber shot it during the month he had before beginning the new shoot” (Aguilar, 2016, p. 99).1 Aguilar’s claim is supported by newspaper items such as those published in Diário de Notícias in May and June 1968, which were already reporting on the shoot and still referring to the film by its provisional title, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citing “between July 8 and 10” of that year as the speculated period for the feature’s release. The researcher Frederico Coelho, who identifies August as the month of filming and is therefore in agreement with the Glauberian “official version,” points out that this window between the premiere of Terra em Transe and the beginning of filming on Antônio das Mortes would have been a “forced season” that Glauber spent in Rio, and notes the presence, in Câncer, of the actors Hugo Carvana and Odete Lara as evidence that this season was already being spent with the cast of Antônio das Mortes, before the trip to the backlands of Bahia for that film’s shoot.2

One can only speculate as to why the date changed from May to August in the feature’s opening monologue, whether it was the result of a lapse in Glauber’s own memory or a deliberate game. Perhaps “August” refers to the prologue recorded at MAM, which was in fact filmed after principal photography. The fact remains that the filming of Câncer in the famous May of ’68, mentioned, in fact, in Glauber’s own monologue, would have been perfectly in tune with the atmosphere then boiling over around the world, beginning in France, and starting to bear fruit in Brazil from a cinematic point of view. In that same month of May, Neville D’Almeida was shooting Jardim de Guerra, and in November of that year, at the Festival de Brasília, a definitive landmark of Brazilian cinema, Rogério Sganzerla’s O Bandido da Luz Vermelha, would be publicly screened for the first time.

It is no exaggeration to list 1968 as a watershed year for Brazilian cinema. It is the year in which, beginning with the premiere of Sganzerla’s film, what came to be called “Cinema de Invenção,” or “Cinema Marginal,” exploded onto the scene. The term alluded to Ozualdo Candeias’s A Margem, released the previous year, but also to a certain sense of artistic marginality, toward which converged, for example, musicians who carried out their work on the margins of Bossa Nova and musical Tropicalism; visual artists and poets who conceived and executed their ideas on the margins of the conservative parameters then in force, even among those who had sworn to break with aesthetic conservatism, as in the case of the Neoconcrete movement; and filmmakers who were creating a new kind of cinema, on the margins of the Cinema Novo movement. At that moment, Cinema Novo was beginning to see its “hard core” dismantled, with its leading figures focusing their efforts on the industrialization of Brazilian cinema through the creation of a state audiovisual production and distribution company, with mixed capital, designed to foster and provide an outlet for national film production. This would come to fruition the following year with the emergence of Embrafilme, in truth a late incarnation of a preexisting institution, the Instituto Nacional do Cinema Educativo, INCE.3

Editor Geraldo Veloso, one of the figures who experienced firsthand, in the heat of those events, the transformations Brazilian cinema was undergoing, defined the films shot or released in 1968 as exponents of “a cinema that necessarily brought with it a political reflection on a decisive moment in the contemporary history of the world (and especially of Brazil, which ended the year with the implementation of AI-5)” (Veloso 2012, p. 15).4 The filming of Câncer in May of that year would function as a seed for “the origin of what would become the udigrúdi of Brazilian cinema, in which Glauber would not participate, and with which he would even engage in harsh polemics, because he considered the experience of Câncer to be just as valid as that of Antônio das Mortes.” (Aguilar, op. cit.).

The term udigrúdi, a corruption of “underground,” is in fact used by Glauber himself to designate so-called Cinema Marginal, minimizing the efforts both of the “hard core” of the new movement and of those around it, and claiming that “the young filmmakers [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville, and others of lesser talent rose up against Cinema Novo, announcing an old novelty: cheap cinema, handheld camera, and idea in the head.” According to the filmmaker, he himself was the true inventor of the Brazilian underground, precisely with Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

While the “young filmmakers” fervently joined, between the late 1960s and the mid-1970s, the disputes over who represented the true Brazilian cinematic avant-garde, trading barbs with Cinema Novo led by Glauber, at least in a less heated retrospective, in 1986, the role of Câncer was already recognized by Jairo Ferreira, one of the main theorists of Cinema Marginal. In Cinema de Invenção, a collection of old and new texts that helped solidify the movement’s theoretical framework, there is a brief chapter dedicated to Glauber Rocha and Câncer. While it does not avoid the earlier polemics, and stresses that “the experimental was truly born in Boca do Lixo in 1967 with Ozualdo Candeias’s A Margem [...],” (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, publishing his book after Glauber’s death, brings this dispute to a more or less conciliatory close, emphasizing Glauber’s inventiveness in the way the filmmaker operates within the sequence shots of Câncer and proposing, on that basis, that “cinephiles watch Câncer alongside the films of Hitch[cock] & Straub, as well as Julio Bressane’s O Anjo Nasceu/1969.” (ibid, p. 166).6 

Glauber’s view regarding a possible “authorship” of Brazilian underground cinema may seem mistaken, since Câncer only reached the public in 1972, by which point the Cinema de Invenção of Sganzerla, Bressane, and company had already been firmly established and had even released many of what would become its seminal films. However, it is difficult to say that Glauber would have seen his influence as completely retroactive, that is, as the influence of a film no one saw in 1968, released only in 1972, on the cinema made from 1968 onward, since, although the “founding fathers” of Cinema Marginal did not watch Câncer in 1968, the feature’s filming was openly publicized at the time, and some of the principles used by Glauber in the process did in fact become foundational principles of the movement responsible for films such as Cuidado, Madame (1970) and Copacabana Mon Amour (1970). Among these, one should emphasize a leaner production logic, less dependent on the structures of big-budget films, something that had been an initial precept of Cinema Novo, but which, by that point, had already been partially abandoned by it as the Cinema Novo filmmakers aligned themselves with the industrialization of Brazilian cinema in the lead-up to the founding of Embrafilme. One need only look at what the aforementioned Diário de Notícias was saying about Câncer as early as 1968.

“Odete Lara took part in Glauber Rocha’s experimental 16mm project, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante. Nelson Motta, always well informed and diligent, published an interview with Glauber: ‘I wanted to prove to myself that it is not necessary to shoot in 35mm, nor even to spend 100 million [cruzeiros], to make a good film’ [...]”

Influenced by Straub/Huillet and by the American underground, whose notable exponents include Jack Smith and Andy Warhol, Glauber made in Câncer something that can be summed up by what he said in an interview with Federico de Cárdenas and René Capriles: “the film has no story. It is three characters within a violent action. What I was seeking to do was a technical experiment, dealing with the problem of the endurance of the duration of the cinematic shot”.7 Without a script or pre-production, Câncer was shot almost entirely through improvisation, including improvised scenes: the actors, professional or not, improvised freely before Glauber’s camera.

What truly serves as the binding agent for shots that are distinct from one another and apparently unconnected at first is a central theme: violence, which the filmmaker dissects by placing it onscreen in various ways and from various angles.

There is, for example, social violence, manifested primarily in relation to Antônio Pitanga’s character, a poor Black man who, in search of work and a plate of food, ends up failing to achieve any effective results and moves toward total revolt and physical violence, which leads to tragic consequences.

One can also speak of the political violence employed by the ruling regime, when a character played by filmmaker Eduardo Coutinho is questioned about his supposed involvement with communism. And with Câncer having been shot on the eve of AI-5, it is well known that this kind of political inquisition by agents of the State was no small matter.

We can also cite gendered violence, when Hugo Carvana’s character says that Odete Lara’s character “deserves to be raped by four Black men in Flamengo jerseys on the Rio-Petrópolis highway,” in the midst of a conversation about fidelity and polygamy.

There is room, finally, but no less importantly, to speak of the violence of class struggle, which connects directly to the “social violence” mentioned earlier, when, beyond what Glauber himself already outlines in the opening monologue, Carvana says, in the aforementioned sequence with Odete Lara: “I am in favor of being brutally murdered by the masses, and of the masses eating all my entrails; of me, you, all of us being murdered and execrated. [...] We have nothing to do with the masses, we are two suckers, here, watching television at noon [...].” At this moment, Glauber, who considered himself “a sadist of the masses,”8 purges his own bourgeois guilt and makes a kind of inverse movement to what occurs in Black God, White Devil, when Antônio das Mortes, the character played by Maurício do Valle, massacres the followers of the popular religious leader inspired by Antônio Conselheiro of Canudos.

If Antônio das Mortes is representative of the typically Cinema Novo “contradictory character,” serving as an avatar for the dilemmas of the middle class even when present, filmically, in another context,9 as in Black God, White Devil itself, a cangaço film in which there is no middle class designated as such, in Câncer the conflict between classes unfolds in a significantly different way.

In the sequence in which Carvana and Odete Lara watch television, “the people” are cited as something distant, absent from the scene. Carvana sees the downfall of the bourgeoisie at the hands of the people as a way of rightly punishing the country’s more affluent classes for their own inertia and intellectual misery, expressed here through the act of idly watching television at noon, a time when the people are, for the most part, working. In other sequences, the people are physically represented by Pitanga’s character, as already discussed here, and he achieves his emancipation by murdering the character to whom he is subordinated at the end of the film, thereby completing the movement foreseen by Carvana’s character, even if it does not directly involve him or Odete Lara. Pitanga, despite the euphoria of the murder, does not have his problems solved here, remaining adrift despite his personal revenge.

One element that, while it may seem secondary to the viewer, was a fundamental factor in the filming process, must be taken into account when writing about Câncer, and may also serve as an object for reflections that go beyond these initial readings: the presence, in the film, of visual artist Hélio Oiticica.

Frederico Coelho proposes the thesis that Oiticica was responsible for bringing the most widely visible Brazilian art, which came largely from middle-class or upper-middle-class origins in the Rio-São Paulo axis, into contact with the reality of peripheral populations in the 1960s. Oiticica would have been the precursor of this movement when he began frequenting Morro da Mangueira, a favela in Rio de Janeiro, and became involved with the local population, finding affinity above all among the so-called malandragem and even among local petty criminals. The most notable example, amid Oiticica’s social relationships with peripheral criminality, is his friendship with the outlaw Cara de Cavalo, who, after being brutally murdered, was honored in two of the artist’s works, the best known of which is the flag Seja Marginal, Seja Herói.

Câncer was “partially filmed in the courtyard of Oiticica’s house,” in the Jardim Botânico neighborhood, in Rio de Janeiro’s South Zone, an affluent area of the city. By that point, the location “had already served as a clandestine meeting place where bohemians from the middle class mixed with residents of Mangueira.” Living with Oiticica at the time was the artist Rogério Duarte, who designed the poster for Black God, White Devil. Both appear in the film in brief roles, and Oiticica is responsible for bringing into the scene passistas from the samba school Estação Primeira de Mangueira, his friends, who also make appearances in the production. Samba, in fact, as an element of Câncer, and present in more than one sequence, is brought into the film as a whole through this connection made by Oiticica.

If, as Glauber aptly recalls in the monologue that opens Câncer, the film was “shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro,” the Glauber-Oiticica partnership was fundamental in bringing another dimension to the production with regard to elements related to social marginality. It was this partnership that led Câncer up into Rio’s favelas and incorporated Mangueira and samba into its already vigorous discourse of denunciation and revolution, which pulses with surprising vitality amid a series of improvisations.

In the opening monologue, the director states that the changes that swept through 1968 were “not really a revolution,” but rather an “agitation” promoted by a “radical middle class,” a “reformist liberal bourgeoisie,” in the manner of the French Revolution. From this point of departure, one possible path for inserting the people as agents of change is offered through a film that departs greatly from the conventional, both in language and in discourse. Not without attending to the dangers of violence devoid of political meaning, Glauber delivers in Câncer one of his most complex and stimulating works, even if it remains among his least discussed.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 See Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 See the chapter “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), in Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. In: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 See the chapter “Glauber Rocha, plano sequência”, in Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 From the text “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originally published in Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 In a letter to Carlos Diegues, cited by Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 See Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

“It was in August 1968... It was in Rio de Janeiro in August 1968, a hell of a commotion, students in the streets, workers too; there were workers occupying factories in Minas Gerais, workers occupying factories in São Paulo, and students stirring things up. It was the dictatorship of Costa e Silva, who had been the second dictator, after Castelo Branco, and had overthrown President Jango, who was making the revolution in 1964; it wasn’t Marshal Castelo Branco, no, because he was a reactionary marshal... So there was a terrible wave going on, students in the streets, the leader was Vladimir Palmeira; there was Marcos Medeiros, Elinor Brito, the psychoanalyst Hélio Pellegrino, Franklin Martins, the whole tough crowd.

But it wasn’t really a revolution, I mean, it was unrest, it was... there was the French May too, there was one hell of a wave going on. People would say the following: that it was revolution, but it was the radical middle class, the reformist liberal bourgeoisie in the streets. And the workers... There were many peasants starving to death in the Northeast. Which, by the way, continues to be the case today, they have been dying of hunger for more than 400 years. And the intellectuals were there, at the Museum of Modern Art, that night. Exactly, discussing art, revolutionary art, because Tropicalism was beginning, one hell of a wave.

Then I called Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, who had arrived from Italy; he had an Arriflex. Luiz Carlos Saldanha did the cinematography and camera, and the direct sound was done by José Ventura. Now, Hugo Carvana, Antônio Pitanga, who is from Bahia, and Odete Lara played the main roles; beyond them, there was Rogério Duarte, who is also from Bahia, Zé Medeiros, Hélio Oiticica, who is a painter, and the gang, Biju, Tineca, some people from Mangueira, and also Zelito, meaning not Doctor Zelito from the film, but Doctor Zelito from Mapa Filmes, and Chiquinho, who was in the Kombi.

And then time went by, because the film was left unfinished... Later I arrived in Havana, and did the sound at ICAIC... The synchronization was done by Raul Garcia, and I edited it with Tineca and Mireta. It was a co-production, and then Barceloni came in from Italy, and it ended up with the title Câncer. Rio de Janeiro. Shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro, a shoot that took four days to film and four years to edit and synchronize... It was finished in May 1972; from August 1968 to May 1972, Câncer.”

It is with this monologue, intoned in his own voice, that Glauber Rocha opens his feature film Câncer. In the images, we see precisely what is described at one point in the speech: Luiz Carlos Saldanha’s camera glides along a long table of intellectuals, gathered at Rio de Janeiro’s MAM before a large audience. In the juxtaposition created by the filmmaker, a viewer unfamiliar with his voice may momentarily come away with the impression that the monologue is being delivered by the speaker currently at the table, who happens to be the poet Ferreira Gullar. He speaks inaudibly while being observed by his peers, who lean over the tabletop. Before long, however, it becomes clear that image and voice are not synchronized, that they are not saying the same thing. This contrast permeates the entire feature, and is the result of its mode of production and completion.

Already in these opening minutes, Glauber Rocha throws the audience headfirst into the world of Câncer, one of his most distinctive films, one that differs from everything the director had made up to that point and, even while clearly marking its place within the “evolutionary line” of Glauber’s filmography, from what would come afterward as well. In a long monologue, a variety of functions are synthesized. The film has no title card or cast and crew credits at the beginning or end, but the monologue fulfills that function, something Glauber would later repeat, in a different way, in Jorjamado no Cinema, from 1979. Likewise, the speech that opens the feature also provides the historical context of its filming, which ultimately also serves to justify the inflamed filmic discourse that would become evident in the very next moments, and describes the first shots to appear on screen at the exact moment they are visually present. It also lays out the difficult process of editing the material, which lasted four years and spanned one of Glauber’s periods of exile, having been completed in Cuba, and juxtaposes this with the dynamism of the shoot. Four days to film, four years to edit and synchronize.

There is conflicting information about the filming of Câncer. While Glauber himself states, in the aforementioned monologue and in later remarks, that it took place in August 1968, researchers such as Gonzalo Aguilar say that the film was in fact shot in May of that year. According to Aguilar, the feature was filmed “in May 1968, one year after the premiere of Terra em Transe and before the beginning of Antônio das Mortes. Glauber shot it during the month he had before beginning the new shoot” (Aguilar, 2016, p. 99).1 Aguilar’s claim is supported by newspaper items such as those published in Diário de Notícias in May and June 1968, which were already reporting on the shoot and still referring to the film by its provisional title, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citing “between July 8 and 10” of that year as the speculated period for the feature’s release. The researcher Frederico Coelho, who identifies August as the month of filming and is therefore in agreement with the Glauberian “official version,” points out that this window between the premiere of Terra em Transe and the beginning of filming on Antônio das Mortes would have been a “forced season” that Glauber spent in Rio, and notes the presence, in Câncer, of the actors Hugo Carvana and Odete Lara as evidence that this season was already being spent with the cast of Antônio das Mortes, before the trip to the backlands of Bahia for that film’s shoot.2

One can only speculate as to why the date changed from May to August in the feature’s opening monologue, whether it was the result of a lapse in Glauber’s own memory or a deliberate game. Perhaps “August” refers to the prologue recorded at MAM, which was in fact filmed after principal photography. The fact remains that the filming of Câncer in the famous May of ’68, mentioned, in fact, in Glauber’s own monologue, would have been perfectly in tune with the atmosphere then boiling over around the world, beginning in France, and starting to bear fruit in Brazil from a cinematic point of view. In that same month of May, Neville D’Almeida was shooting Jardim de Guerra, and in November of that year, at the Festival de Brasília, a definitive landmark of Brazilian cinema, Rogério Sganzerla’s O Bandido da Luz Vermelha, would be publicly screened for the first time.

It is no exaggeration to list 1968 as a watershed year for Brazilian cinema. It is the year in which, beginning with the premiere of Sganzerla’s film, what came to be called “Cinema de Invenção,” or “Cinema Marginal,” exploded onto the scene. The term alluded to Ozualdo Candeias’s A Margem, released the previous year, but also to a certain sense of artistic marginality, toward which converged, for example, musicians who carried out their work on the margins of Bossa Nova and musical Tropicalism; visual artists and poets who conceived and executed their ideas on the margins of the conservative parameters then in force, even among those who had sworn to break with aesthetic conservatism, as in the case of the Neoconcrete movement; and filmmakers who were creating a new kind of cinema, on the margins of the Cinema Novo movement. At that moment, Cinema Novo was beginning to see its “hard core” dismantled, with its leading figures focusing their efforts on the industrialization of Brazilian cinema through the creation of a state audiovisual production and distribution company, with mixed capital, designed to foster and provide an outlet for national film production. This would come to fruition the following year with the emergence of Embrafilme, in truth a late incarnation of a preexisting institution, the Instituto Nacional do Cinema Educativo, INCE.3

Editor Geraldo Veloso, one of the figures who experienced firsthand, in the heat of those events, the transformations Brazilian cinema was undergoing, defined the films shot or released in 1968 as exponents of “a cinema that necessarily brought with it a political reflection on a decisive moment in the contemporary history of the world (and especially of Brazil, which ended the year with the implementation of AI-5)” (Veloso 2012, p. 15).4 The filming of Câncer in May of that year would function as a seed for “the origin of what would become the udigrúdi of Brazilian cinema, in which Glauber would not participate, and with which he would even engage in harsh polemics, because he considered the experience of Câncer to be just as valid as that of Antônio das Mortes.” (Aguilar, op. cit.).

The term udigrúdi, a corruption of “underground,” is in fact used by Glauber himself to designate so-called Cinema Marginal, minimizing the efforts both of the “hard core” of the new movement and of those around it, and claiming that “the young filmmakers [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville, and others of lesser talent rose up against Cinema Novo, announcing an old novelty: cheap cinema, handheld camera, and idea in the head.” According to the filmmaker, he himself was the true inventor of the Brazilian underground, precisely with Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

While the “young filmmakers” fervently joined, between the late 1960s and the mid-1970s, the disputes over who represented the true Brazilian cinematic avant-garde, trading barbs with Cinema Novo led by Glauber, at least in a less heated retrospective, in 1986, the role of Câncer was already recognized by Jairo Ferreira, one of the main theorists of Cinema Marginal. In Cinema de Invenção, a collection of old and new texts that helped solidify the movement’s theoretical framework, there is a brief chapter dedicated to Glauber Rocha and Câncer. While it does not avoid the earlier polemics, and stresses that “the experimental was truly born in Boca do Lixo in 1967 with Ozualdo Candeias’s A Margem [...],” (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, publishing his book after Glauber’s death, brings this dispute to a more or less conciliatory close, emphasizing Glauber’s inventiveness in the way the filmmaker operates within the sequence shots of Câncer and proposing, on that basis, that “cinephiles watch Câncer alongside the films of Hitch[cock] & Straub, as well as Julio Bressane’s O Anjo Nasceu/1969.” (ibid, p. 166).6 

Glauber’s view regarding a possible “authorship” of Brazilian underground cinema may seem mistaken, since Câncer only reached the public in 1972, by which point the Cinema de Invenção of Sganzerla, Bressane, and company had already been firmly established and had even released many of what would become its seminal films. However, it is difficult to say that Glauber would have seen his influence as completely retroactive, that is, as the influence of a film no one saw in 1968, released only in 1972, on the cinema made from 1968 onward, since, although the “founding fathers” of Cinema Marginal did not watch Câncer in 1968, the feature’s filming was openly publicized at the time, and some of the principles used by Glauber in the process did in fact become foundational principles of the movement responsible for films such as Cuidado, Madame (1970) and Copacabana Mon Amour (1970). Among these, one should emphasize a leaner production logic, less dependent on the structures of big-budget films, something that had been an initial precept of Cinema Novo, but which, by that point, had already been partially abandoned by it as the Cinema Novo filmmakers aligned themselves with the industrialization of Brazilian cinema in the lead-up to the founding of Embrafilme. One need only look at what the aforementioned Diário de Notícias was saying about Câncer as early as 1968.

“Odete Lara took part in Glauber Rocha’s experimental 16mm project, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante. Nelson Motta, always well informed and diligent, published an interview with Glauber: ‘I wanted to prove to myself that it is not necessary to shoot in 35mm, nor even to spend 100 million [cruzeiros], to make a good film’ [...]”

Influenced by Straub/Huillet and by the American underground, whose notable exponents include Jack Smith and Andy Warhol, Glauber made in Câncer something that can be summed up by what he said in an interview with Federico de Cárdenas and René Capriles: “the film has no story. It is three characters within a violent action. What I was seeking to do was a technical experiment, dealing with the problem of the endurance of the duration of the cinematic shot”.7 Without a script or pre-production, Câncer was shot almost entirely through improvisation, including improvised scenes: the actors, professional or not, improvised freely before Glauber’s camera.

What truly serves as the binding agent for shots that are distinct from one another and apparently unconnected at first is a central theme: violence, which the filmmaker dissects by placing it onscreen in various ways and from various angles.

There is, for example, social violence, manifested primarily in relation to Antônio Pitanga’s character, a poor Black man who, in search of work and a plate of food, ends up failing to achieve any effective results and moves toward total revolt and physical violence, which leads to tragic consequences.

One can also speak of the political violence employed by the ruling regime, when a character played by filmmaker Eduardo Coutinho is questioned about his supposed involvement with communism. And with Câncer having been shot on the eve of AI-5, it is well known that this kind of political inquisition by agents of the State was no small matter.

We can also cite gendered violence, when Hugo Carvana’s character says that Odete Lara’s character “deserves to be raped by four Black men in Flamengo jerseys on the Rio-Petrópolis highway,” in the midst of a conversation about fidelity and polygamy.

There is room, finally, but no less importantly, to speak of the violence of class struggle, which connects directly to the “social violence” mentioned earlier, when, beyond what Glauber himself already outlines in the opening monologue, Carvana says, in the aforementioned sequence with Odete Lara: “I am in favor of being brutally murdered by the masses, and of the masses eating all my entrails; of me, you, all of us being murdered and execrated. [...] We have nothing to do with the masses, we are two suckers, here, watching television at noon [...].” At this moment, Glauber, who considered himself “a sadist of the masses,”8 purges his own bourgeois guilt and makes a kind of inverse movement to what occurs in Black God, White Devil, when Antônio das Mortes, the character played by Maurício do Valle, massacres the followers of the popular religious leader inspired by Antônio Conselheiro of Canudos.

If Antônio das Mortes is representative of the typically Cinema Novo “contradictory character,” serving as an avatar for the dilemmas of the middle class even when present, filmically, in another context,9 as in Black God, White Devil itself, a cangaço film in which there is no middle class designated as such, in Câncer the conflict between classes unfolds in a significantly different way.

In the sequence in which Carvana and Odete Lara watch television, “the people” are cited as something distant, absent from the scene. Carvana sees the downfall of the bourgeoisie at the hands of the people as a way of rightly punishing the country’s more affluent classes for their own inertia and intellectual misery, expressed here through the act of idly watching television at noon, a time when the people are, for the most part, working. In other sequences, the people are physically represented by Pitanga’s character, as already discussed here, and he achieves his emancipation by murdering the character to whom he is subordinated at the end of the film, thereby completing the movement foreseen by Carvana’s character, even if it does not directly involve him or Odete Lara. Pitanga, despite the euphoria of the murder, does not have his problems solved here, remaining adrift despite his personal revenge.

One element that, while it may seem secondary to the viewer, was a fundamental factor in the filming process, must be taken into account when writing about Câncer, and may also serve as an object for reflections that go beyond these initial readings: the presence, in the film, of visual artist Hélio Oiticica.

Frederico Coelho proposes the thesis that Oiticica was responsible for bringing the most widely visible Brazilian art, which came largely from middle-class or upper-middle-class origins in the Rio-São Paulo axis, into contact with the reality of peripheral populations in the 1960s. Oiticica would have been the precursor of this movement when he began frequenting Morro da Mangueira, a favela in Rio de Janeiro, and became involved with the local population, finding affinity above all among the so-called malandragem and even among local petty criminals. The most notable example, amid Oiticica’s social relationships with peripheral criminality, is his friendship with the outlaw Cara de Cavalo, who, after being brutally murdered, was honored in two of the artist’s works, the best known of which is the flag Seja Marginal, Seja Herói.

Câncer was “partially filmed in the courtyard of Oiticica’s house,” in the Jardim Botânico neighborhood, in Rio de Janeiro’s South Zone, an affluent area of the city. By that point, the location “had already served as a clandestine meeting place where bohemians from the middle class mixed with residents of Mangueira.” Living with Oiticica at the time was the artist Rogério Duarte, who designed the poster for Black God, White Devil. Both appear in the film in brief roles, and Oiticica is responsible for bringing into the scene passistas from the samba school Estação Primeira de Mangueira, his friends, who also make appearances in the production. Samba, in fact, as an element of Câncer, and present in more than one sequence, is brought into the film as a whole through this connection made by Oiticica.

If, as Glauber aptly recalls in the monologue that opens Câncer, the film was “shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro,” the Glauber-Oiticica partnership was fundamental in bringing another dimension to the production with regard to elements related to social marginality. It was this partnership that led Câncer up into Rio’s favelas and incorporated Mangueira and samba into its already vigorous discourse of denunciation and revolution, which pulses with surprising vitality amid a series of improvisations.

In the opening monologue, the director states that the changes that swept through 1968 were “not really a revolution,” but rather an “agitation” promoted by a “radical middle class,” a “reformist liberal bourgeoisie,” in the manner of the French Revolution. From this point of departure, one possible path for inserting the people as agents of change is offered through a film that departs greatly from the conventional, both in language and in discourse. Not without attending to the dangers of violence devoid of political meaning, Glauber delivers in Câncer one of his most complex and stimulating works, even if it remains among his least discussed.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 See Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 See the chapter “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), in Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. In: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 See the chapter “Glauber Rocha, plano sequência”, in Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 From the text “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originally published in Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 In a letter to Carlos Diegues, cited by Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 See Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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13/5/2026
By/Por:
Igor Nolasco

"Era em Agosto de 1968... Era no Rio de Janeiro em agosto de 1968, uma agitação arretada, os estudantes na rua, os operários; tinha operário ocupando fábrica em Minas Gerais, operário ocupando fábrica em São Paulo, e estudantes fazendo agitação. Era a ditadura do Costa e Silva, que tinha sido o segundo ditador, depois de Castelo Branco, e tinha derrubado o presidente Jango, que estava fazendo a revolução em 64; não era o Marechal Castelo Branco, não, que este era um marechal reacionário... Então estava uma onda terrível, os estudantes na rua, o líder era Vladimir Palmeira; tinha Marcos Medeiros, Elinor Brito, o psicanalista Hélio Pellegrino, Franklin Martins, a barra pesada toda.

Mas não era mesmo uma revolução, quer dizer, era agitação, era... tinha o maio o francês também, estava uma onda arretada. Nego dizia o seguinte: que era revolução, mas era a classe média radical, burguesia liberal reformista na rua. E os operários... Tinha muito camponês morrendo de fome no nordeste. Que, aliás, continua morrendo de fome até hoje, estão morrendo há mais de 400 anos. E os intelectuais estavam lá, no Museu de Arte Moderna, naquela noite. Exatamente, discutindo sobre a arte, a arte revolucionária, porque estava começando o tropicalismo, uma onda arretada.

Aí eu chamei o Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, que tinha chegado da Itália; ele tinha uma Arriflex. O Luiz Carlos Saldanha fez a fotografia e a câmera, e o som direto foi feito por José Ventura. Agora, Hugo Carvana, Antônio Pitanga (que é baiano) e Odete Lara fizeram os papéis principais; no mais, Rogério Duarte (que é baiano também), Zé Medeiros, Hélio Oiticica (que é pintor) e o pessoal (Biju, Tineca, um pessoal da Mangueira), e mais Zelito (quer dizer, não Doutor Zelito do filme, Doutor Zelito da Mapa Filmes) e Chiquinho, que tava na Kombi.

E aí o tempo passou, porque ficou... Depois eu cheguei em Havana, aí fiz no ICAIC o som... A sincronização foi feita por Raul Garcia, e eu montei com a Tineca e a Mireta. Numa coprodução, e aí entrou o Barceloni na Itália e ficou com o título 'Câncer'. Rio de Janeiro. Filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro, uma filmagem que demorou quatro dias para filmar e quatro anos para montar e sincronizar... Terminou em maio de 72; de agosto de 68 a maio de 72, 'Câncer'."

É com esse monólogo, entoado por sua própria voz, que Glauber Rocha abre seu longa Câncer. Nas imagens, desenrola-se justamente o que é descrito em dado momento da fala: a câmera de Luiz Carlos Saldanha desliza por uma longa mesa de intelectuais, reunidos no MAM do Rio de Janeiro ante uma numerosa plateia. Na justaposição feita pelo cineasta, um espectador não familiarizado com sua voz pode acabar momentaneamente tendo a impressão de que o monólogo está sendo proferido pelo orador da vez em meio à mesa (que calha de ser o poeta Ferreira Gullar), que discursa, inaudível, enquanto é observado por seus pares, debruçados sobre o tampo da mesa. Não tarda, no entanto, a perceber que imagem e voz não estão sincronizados, que não dizem a mesma coisa. Esse contraste permeia todo o longa, sendo resultado de seu modo de produção e de finalização.

Logo nesses primeiros minutos, Glauber Rocha já atira o público de cabeça no mundo de Câncer, um de seus filmes mais distintos, que se diferencia de tudo o que o diretor havia feito até então e, mesmo demarcando sua posição em meio à "linha evolutiva" da filmografia glauberiana de modo bem claro, até mesmo do que veio depois. Em um longo monólogo, uma variedade de funções são sintetizadas. O filme não possui cartela de título ou créditos de elenco e equipe técnica ao início ou ao final, mas o monólogo cumpre essa função (algo que Glauber repetiria posteriormente, de um outro jeito, em Jorjamado no Cinema, de 1979). De igual maneira, a fala que inicia o longa também oferece o contexto histórico de sua filmagem – que acaba, também, por justificar o inflamado discurso fílmico que se faria evidente já nos próximos momentos – e descreve os primeiros planos a aparecerem em tela, exatamente enquanto estes estão visualmente presentes. Entrega, ademais, o processo dificultoso de montagem do material, que durou quatro anos e atravessou um dos períodos de exílio de Glauber, tendo sido finalizado em Cuba, e justapõe isso ao dinamismo das gravações. Quatro dias para filmar, quatro anos para montar e sincronizar.

Existem informações contraditórias sobre as filmagens de Câncer. Enquanto o próprio Glauber afirma, no supracitado monólogo e em declarações posteriores, que estas teriam se dado em agosto de 1968, pesquisadores como Gonzalo Aguilar dizem que o filme fora, na verdade, rodado em maio daquele ano. Segundo Aguilar, a gravação do longa teria ocorrido "em maio de 1968, um ano depois da estreia de 'Terra em transe' e antes do início de 'Antônio das Mortes'. Glauber filmou-o no mês que teve antes de começar a nova filmagem" (Aguilar, 2016, p. 99).1 A afirmação de Aguilar encontra respaldo em notícias de jornais como o Diário de Notícias, publicadas em maio e junho de 1968, já relatando as gravações e ainda se referindo ao filme pelo seu título provisório, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citando "entre 8 e 10 de julho" daquele ano como o período especulado para o lançamento do longa. O pesquisador Frederico Coelho (que firma agosto como o mês das filmagens, estando portanto de acordo com a "versão oficial" glauberiana) aponta que essa janela entre a estreia de Terra em Transe e o início das filmagens de Antônio das Mortes teria sido uma "temporada forçada" que Glauber passou no Rio, e sinaliza a presença, em Câncer, dos atores Hugo Carvana e Odete Lara como uma evidência de que essa temporada já estaria sendo passada com o elenco de Antônio das Mortes, antes da viagem ao sertão da Bahia para as gravações do mesmo.2

É de se especular o porquê da mudança de data de maio para agosto no monólogo de abertura do longa, se fruto um lapso de memória do próprio Glauber ou um joguete proposital. Talvez "agosto" se refira ao prólogo gravado no MAM, que de fato foi filmado posteriormente à fotografia principal. Fato é que as filmagens de Câncer no famoso maio de 68 (citado, inclusive, no próprio monólogo glauberiano) estariam perfeitamente sintonizadas com o clima que fervilhava no mundo, partindo da França, e começava a frutificar no Brasil, do ponto de vista cinematográfico. No mesmo mês de maio, Neville D'Almeida filmava o seu Jardim de Guerra, e em novembro daquele ano, no Festival de Brasília, seria exibido publicamente pela primeira vez um marco definitivo na cinematografia brasileira, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.

Não é exagero listar 1968 como um ano divisor de águas para o cinema brasileiro. É o ano em que, a partir da estreia do filme do Sganzerla, estoura o que passa a ser chamado de "Cinema de Invenção", ou "Cinema Marginal" – em alusão ao "A Margem", de Ozualdo Candeias, lançado no ano anterior, mas também em um certo senso de marginalidade artística, para o qual convergiam, por exemplo, músicos que tocavam seus trabalhos à margem da Bossa Nova e do Tropicalismo musical; artistas plásticos e poetas que pensavam e executavam suas ideias à margem dos parâmetros conservadores, então vigentes mesmo entre os que juraram romper com o conservadorismo estético (como o caso do movimento neoconcreto); e cineastas que realizavam um novo tipo de cinema, à margem do movimento do Cinema Novo. Naquele momento, este começava a ter seu "núcleo duro" desestruturado, com seus principais quadros focando seus esforços na industrialização do cinema brasileiro através da criação de uma produtora e distribuidora audiovisual estatal, de capital misto, para fomentar e dar vazão ao produto cinematográfico nacional — o que viria a se concretizar no ano seguinte, com o surgimento da Embrafilme, em verdade uma encarnação tardia de uma instituição já preexistente, o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE).3

O montador Geraldo Veloso, uma das figuras que vivenciou as transformações pelas quais o cinema brasileiro estava passando in loco no calor daqueles acontecimentos, definiu os filmes rodados ou lançados em 1968 como expoentes de "um cinema que necessariamente trazia uma reflexão política sobre um momento decisivo para a história contemporânea do mundo (e especialmente com o Brasil, que termina o ano com a instauração do AI-5)" (Veloso 2012, p. 15).4 As filmagens de Câncer em maio daquele ano funcionariam como uma semente para "a origem do que seria o udigrúdi do cinema brasileiro, do qual Glauber não participaria (e até polemizaria duramente) por considerar que a experiência de 'Câncer' é tão válida quanto a de 'Antônio das Mortes'" (Aguilar, op. cit.).

O termo udigrúdi, corruptela de underground, é utilizado pelo próprio Glauber, aliás, para designar o chamado Cinema Marginal, minimizando os esforços tanto do "núcleo duro" do novo movimento quanto dos que estavam ao seu redor, e alegando que "os jovens cineastas [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville e outros de menor talento levantaram-se contra o Cinema Novo, anunciando uma velha novidade: cinema barato, de câmera na mão e ideia na cabeça". Segundo o cineasta, seria ele o verdadeiro inventor do underground brasileiro, justamente com Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

A visão de Glauber acerca de uma possível "autoria" do cinema underground brasileiro pode parecer equivocada, uma vez que Câncer só chegou a público em 1972, quando o Cinema de Invenção de Sganzerla, Bressane e companhia já havia sido muito bem estabelecido e, inclusive, lançado boa parte do que viriam a ser seus filmes seminais. No entanto, é difícil dizer que Glauber veria sua influência como completamente retroativa (a de um filme que ninguém viu em 1968, lançado apenas em 1972, tendo influenciado o cinema que se fez a partir de 68) uma vez que, apesar dos "pais fundadores" do Cinema Marginal não terem assistido a Câncer em 1968, a filmagem do longa foi divulgada abertamente à época, e alguns dos preceitos utilizados por Glauber no processo de fato se tornaram princípios basilares do movimento responsável por filmes como Cuidado, Madame (1970) e Copacabana Mon Amour (1970). Entre estes, há de ser ressaltada uma lógica de produção mais enxuta e menos dependente das estruturas dos filmes de grande orçamento – o que foi um preceito inicial do Cinema Novo, mas que, àquela altura, já havia sido parcialmente abandonado por este na medida em que os cinemanovistas se afinaram à industrialização do cinema brasileiro ante a fundação da Embrafilme. Basta ver o que o já citado Diário de Notícias falava sobre Câncer, ainda em 1968.

"Odete Larta participou da experiência de Glauber Rocha em 16 mm, 'Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante'. Nelson Motta, sempre bem informado e diligente, publicou uma entrevista com Glauber: 'eu queria provar a mim mesmo que não é preciso filmar em 35 mm, nem mesmo gastar 100 milhões [de cruzeiros] para fazer um bom filme' [...]"

Influenciado por Straub/Huillet e pelo underground americano, que tinha então entre seus expoentes notórios Jack Smith e Andy Warhol, Glauber fez em Câncer algo que pode ser resumido pelo que disse em entrevista a Federico de Cárdenas e René Capriles: "o filme não tem história. São três personagens dentro de uma ação violenta. O que estava buscando fazer era uma experiência técnica, do problema da resistência da duração do plano cinematográfico". Sem roteiro ou pré-produção, Câncer foi rodado quase todo no improviso, inclusive de cena: os atores, profissionais ou não, improvisavam livremente ante a câmera glauberiana.

O que realmente serve como liga para planos distintos entre si e sem conexão inicial aparente é uma temática principal, a da violência, que é dissecada pelo cineasta ao ser colocada em tela de diversas maneiras e sob diversos aspectos.

Há, por exemplo, a violência social, manifestada principalmente no que é relativo ao personagem de Antônio Pitanga, um homem negro e pobre que, em busca de trabalho e de um prato de comida, acaba não conseguindo resultados efetivos e partindo para a revolta total e a violência física, que deságua em consequências trágicas.

Pode-se falar também da violência política empregada pelo regime de governo vigente, quando um personagem vivido pelo cineasta Eduardo Coutinho é questionado sobre seu suposto envolvimento com o comunismo – e com Câncer sendo rodado às vésperas do AI-5, é sabido que esse tipo de inquisição política por parte de agentes do Estado não significava pouca coisa.

Podemos ainda citar a violência de gênero, quando o personagem de Hugo Carvana diz que a personagem de Odete Lara "merece ser violentada por quatro crioulos com a camisa do Flamengo na estrada Rio-Petrópolis", em meio a uma conversa sobre fidelidade e poligamia.

Há espaço, por último (mas não menos importante), para se falar na violência da luta de classes (que se conecta de modo direto à "violência social" mencionada anteriormente), quando, para além do que já é delineado pelo próprio Glauber no monólogo de abertura, Carvana diz, na já mencionada sequência com Odete Lara: "Eu sou a favor de ser assassinado brutalmente pela massa, e a massa comer as minhas vísceras todas; eu, você, nós sermos assassinados e execrados. [...] Nós não temos nada a ver com a massa, nós somos dois otários, aqui, vendo televisão ao meio dia [...]". Nesse momento, Glauber, que se considerava "um sádico das massas",8 expurga sua própria culpa burguesa e faz uma espécie de movimento inverso ao que ocorre em Deus e o Diabo na Terra do Sol, quando Antônio das Mortes, personagem de Maurício do Valle, massacra os seguidores do líder religioso popular inspirado no Antônio Conselheiro de Canudos.

Se Antônio das Mortes é um representativo da "personagem contraditória" tipicamente cinemanovista, que serve como avatar para os dilemas da classe média mesmo quando estando presente, filmicamente, em outro contexto9 – como no próprio Deus e o Diabo, filme de cangaço onde não existe uma classe média designada como tal – em Câncer o conflito entre classes ocorre de maneira significativamente diferente.

Na sequência em que Carvana e Odete Lara assistem televisão, "o povo" é citado como algo distante, que não está presente em cena; Carvana enxerga na derrocada da burguesia pelo povo uma maneira de, com razão, castigar as classes mais abastadas do país por sua própria inércia e miséria intelectual (expressada, aqui, pelo ato de se estar assistindo televisão, vadiamente, ao meio dia, horário no qual o povo está majoritariamente trabalhando). Em outras sequências, o povo está representado fisicamente no personagem de Pitanga, conforme já discutido aqui, e este alcança sua emancipação ao assassinar o personagem a quem está subordinado, ao fim do filme, dando cabo ao movimento que é previsto pelo personagem de Carvana – ainda que não envolvendo diretamente ele ou Odete Lara. Pitanga, apesar da euforia do assassinato, não tem, aqui, seus problemas resolvidos, permanecendo à deriva apesar da vingança pessoal.

Um elemento que, se para o espectador pode ser secundário, para o processo de filmagem é um dado fundamental, há de ser considerado ao se escrever sobre Câncer, e pode servir também como objeto para elaborações que vão além dessas visões primárias: a presença, no filme, do artista visual Hélio Oiticica.

Frederico Coelho propõe a tese de que Oiticica seria o responsável por fazer com que a arte brasileira de maior alcance, que vem de uma origem majoritariamente da classe média ou média-alta dos eixos Rio-São Paulo, entrasse em contato com a realidade das populações periféricas na década de 1960. Oiticica teria sido o precursor desse movimento ao passar a frequentar o morro da Mangueira, favela no Rio de Janeiro, e enturmar-se com a população local, encontrando afinidade sobretudo entre a chamada "malandragem" e mesmo entre os pequenos criminosos locais. O destaque, em meio a essas relações sociais de Oiticica com a criminalidade periférica, está em sua amizade com o contraventor Cara de Cavalo — que, após ser brutalmente assassinado, foi homenageado em duas obras do artista, sendo a mais conhecida a bandeira "Seja Marginal, Seja Herói".

Câncer foi "parcialmente filmado no pátio da casa de Oiticica", no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade. Àquela altura, o local já promovia encontros entre a intelectualidade de classe média e os amigos mangueirenses do artista. Morando com Oiticica, naquele momento, estava o artista Rogério Duarte, autor do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ambos atuam no filme, em breves participações, e Oiticica é responsável por trazer para dentro de cena passistas da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. O samba, inclusive, enquanto elemento de Câncer – e estando presente em mais de uma sequência – é trazido ao filme, como um todo, por essa conexão feita por Oiticica.

Se, como Glauber bem lembra no monólogo que abre Câncer, o filme foi "filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro", a parceria Glauber-Oiticica foi fundamental para trazer à produção uma outra dimensão no que diz respeito aos elementos relacionados à marginalidade social. Foi essa parceria que fez com que Câncer subisse às favelas cariocas e que incorporasse a Mangueira e o samba a seu já vigoroso discurso de denúncia e revolução, que pulsa com surpreendente vitalidade em meio a uma série de improvisos.

No monólogo inicial o diretor afirma que as mudanças que tomaram conta do ano de 1968 não eram "mesmo uma revolução", sendo mais uma "agitação" promovida por uma "classe média radical", "burguesia liberal reformista", à moda da revolução francesa. Partindo disso, um caminho possível para a inserção do povo enquanto agente de mudança é dado através de um filme que foge, em muito, do convencional, tanto em linguagem quanto em discurso. Não sem se atentar aos perigos de uma violência sem significado político, Glauber entrega em Câncer um de seus trabalhos mais complexos e estimulantes, ainda que menos comentados.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 Ver Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 Ver o capítulo “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), em Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. Em: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 Ver o capítulo “Glauber Rocha, plano sequência”, em Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 No texto “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originalmente publicado em Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 Em carta a Carlos Diegues, citada em Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 Ver Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

"Era em Agosto de 1968... Era no Rio de Janeiro em agosto de 1968, uma agitação arretada, os estudantes na rua, os operários; tinha operário ocupando fábrica em Minas Gerais, operário ocupando fábrica em São Paulo, e estudantes fazendo agitação. Era a ditadura do Costa e Silva, que tinha sido o segundo ditador, depois de Castelo Branco, e tinha derrubado o presidente Jango, que estava fazendo a revolução em 64; não era o Marechal Castelo Branco, não, que este era um marechal reacionário... Então estava uma onda terrível, os estudantes na rua, o líder era Vladimir Palmeira; tinha Marcos Medeiros, Elinor Brito, o psicanalista Hélio Pellegrino, Franklin Martins, a barra pesada toda.

Mas não era mesmo uma revolução, quer dizer, era agitação, era... tinha o maio o francês também, estava uma onda arretada. Nego dizia o seguinte: que era revolução, mas era a classe média radical, burguesia liberal reformista na rua. E os operários... Tinha muito camponês morrendo de fome no nordeste. Que, aliás, continua morrendo de fome até hoje, estão morrendo há mais de 400 anos. E os intelectuais estavam lá, no Museu de Arte Moderna, naquela noite. Exatamente, discutindo sobre a arte, a arte revolucionária, porque estava começando o tropicalismo, uma onda arretada.

Aí eu chamei o Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, que tinha chegado da Itália;ele tinha uma Arriflex. O Luiz Carlos Saldanha fez a fotografia e a câmera, e o som direto foi feito por José Ventura. Agora, Hugo Carvana, Antônio Pitanga (que é baiano) e Odete Lara fizeram os papéis principais; no mais, Rogério Duarte (que é baiano também), Zé Medeiros, Hélio Oiticica (que é pintor) e o pessoal (Biju, Tineca, um pessoal da Mangueira), e mais Zelito (quer dizer, não Doutor Zelito do filme, Doutor Zelito da Mapa Filmes) e Chiquinho, que tava na Kombi.

E aí o tempo passou, porque ficou... Depois eu cheguei em Havana, aí fiz no ICAIC o som... A sincronização foi feita por Raul Garcia, e eu montei com a Tineca e a Mireta. Numa coprodução, e aí entrou o Barceloni na Itália e ficou com o título 'Câncer'. Rio de Janeiro. Filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro, uma filmagem que demorou quatro dias para filmar e quatro anos para montar e sincronizar... Terminou em maio de 72; de agosto de 68 a maio de 72, 'Câncer'."

É com esse monólogo, entoado por sua própria voz, que Glauber Rocha abre seu longa Câncer. Nas imagens, desenrola-se justamente o que é descrito em dado momento da fala: a câmera de Luiz Carlos Saldanha desliza por uma longa mesa de intelectuais, reunidos no MAM do Rio de Janeiro ante uma numerosa plateia. Na justaposição feita pelo cineasta, um espectador não familiarizado com sua voz pode acabar momentaneamente tendo a impressão de que o monólogo está sendo proferido pelo orador da vez em meio à mesa (que calha de ser o poeta Ferreira Gullar), que discursa, inaudível, enquanto é observado por seus pares, debruçados sobre o tampo da mesa. Não tarda, no entanto, a perceber que imagem e voz não estão sincronizados, que não dizem a mesma coisa. Esse contraste permeia todo o longa, sendo resultado de seu modo de produção e de finalização.

Logo nesses primeiros minutos, Glauber Rocha já atira o público de cabeça no mundo de Câncer, um de seus filmes mais distintos, que se diferencia de tudo o que o diretor havia feito até então e, mesmo demarcando sua posição em meio à "linha evolutiva" da filmografia glauberiana de modo bem claro, até mesmo do que veio depois. Em um longo monólogo, uma variedade de funções são sintetizadas. O filme não possui cartela de título ou créditos de elenco e equipe técnica ao início ou ao final, mas o monólogo cumpre essa função (algo que Glauber repetiria posteriormente, de um outro jeito, em Jorjamado no Cinema, de 1979). De igual maneira, a fala que inicia o longa também oferece o contexto histórico de sua filmagem – que acaba, também, por justificar o inflamado discurso fílmico que se faria evidente já nos próximos momentos – e descreve os primeiros planos a aparecerem em tela, exatamente enquanto estes estão visualmente presentes. Entrega, ademais, o processo dificultoso de montagem do material, que durou quatro anos e atravessou um dos períodos de exílio de Glauber, tendo sido finalizado em Cuba, e justapõe isso ao dinamismo das gravações. Quatro dias para filmar, quatro anos para montar e sincronizar.

Existem informações contraditórias sobre as filmagens de Câncer. Enquanto o próprio Glauber afirma, no supracitado monólogo e em declarações posteriores, que estas teriam se dado em agosto de 1968, pesquisadores como Gonzalo Aguilar dizem que o filme fora, na verdade, rodado em maio daquele ano. Segundo Aguilar, a gravação do longa teria ocorrido "em maio de 1968, um ano depois da estreia de 'Terra em transe' e antes do início de 'Antônio das Mortes'. Glauber filmou-o no mês que teve antes de começar a nova filmagem" (Aguilar, 2016, p. 99).1 A afirmação de Aguilar encontra respaldo em notícias de jornais como o Diário de Notícias, publicadas em maio e junho de 1968, já relatando as gravações e ainda se referindo ao filme pelo seu título provisório, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citando "entre 8 e 10 de julho" daquele ano como o período especulado para o lançamento do longa. O pesquisador Frederico Coelho (que firma agosto como o mês das filmagens, estando portanto de acordo com a "versão oficial" glauberiana) aponta que essa janela entre a estreia de Terra em Transe e o início das filmagens de Antônio das Mortes teria sido uma "temporada forçada" que Glauber passou no Rio, e sinaliza a presença, em Câncer, dos atores Hugo Carvana e Odete Lara como uma evidência de que essa temporada já estaria sendo passada com o elenco de Antônio das Mortes, antes da viagem ao sertão da Bahia para as gravações do mesmo.2

É de se especular o porquê da mudança de data de maio para agosto no monólogo de abertura do longa, se fruto um lapso de memória do próprio Glauber ou um joguete proposital. Talvez "agosto" se refira ao prólogo gravado no MAM, que de fato foi filmado posteriormente à fotografia principal. Fato é que as filmagens de Câncer no famoso maio de 68 (citado, inclusive, no próprio monólogo glauberiano) estariam perfeitamente sintonizadas com o clima que fervilhava no mundo, partindo da França, e começava a frutificar no Brasil, do ponto de vista cinematográfico. No mesmo mês de maio, Neville D'Almeida filmava o seu Jardim de Guerra, e em novembro daquele ano, no Festival de Brasília, seria exibido publicamente pela primeira vez um marco definitivo na cinematografia brasileira, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.

Não é exagero listar 1968 como um ano divisor de águas para o cinema brasileiro. É o ano em que, a partir da estreia do filme do Sganzerla, estoura o que passa a ser chamado de "Cinema de Invenção", ou "Cinema Marginal" – em alusão ao "A Margem", de Ozualdo Candeias, lançado no ano anterior, mas também em um certo senso de marginalidade artística, para o qual convergiam, por exemplo, músicos que tocavam seus trabalhos à margem da Bossa Nova e do Tropicalismo musical; artistas plásticos e poetas que pensavam e executavam suas ideias à margem dos parâmetros conservadores, então vigentes mesmo entre os que juraram romper com o conservadorismo estético (como o caso do movimento neoconcreto); e cineastas que realizavam um novo tipo de cinema, à margem do movimento do Cinema Novo. Naquele momento, este começava a ter seu "núcleo duro" desestruturado, com seus principais quadros focando seus esforços na industrialização do cinema brasileiro através da criação de uma produtora e distribuidora audiovisual estatal, de capital misto, para fomentar e dar vazão ao produto cinematográfico nacional — o que viria a se concretizar no ano seguinte, com o surgimento da Embrafilme, em verdade uma encarnação tardia de uma instituição já preexistente, o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE).3

O montador Geraldo Veloso, uma das figuras que vivenciou as transformações pelas quais o cinema brasileiro estava passando in loco no calor daqueles acontecimentos, definiu os filmes rodados ou lançados em 1968 como expoentes de "um cinema que necessariamente trazia uma reflexão política sobre um momento decisivo para a história contemporânea do mundo (e especialmente com o Brasil, que termina o ano com a instauração do AI-5)" (Veloso 2012, p. 15).4 As filmagens de Câncer em maio daquele ano funcionariam como uma semente para "a origem do que seria o udigrúdi do cinema brasileiro, do qual Glauber não participaria (e até polemizaria duramente) por considerar que a experiência de 'Câncer' é tão válida quanto a de 'Antônio das Mortes'"  (Aguilar, op. cit.).

O termo udigrúdi, corruptela de underground, é utilizado pelo próprio Glauber, aliás, para designar o chamado Cinema Marginal, minimizando os esforços tanto do "núcleo duro" do novo movimento quanto dos que estavam ao seu redor, e alegando que "os jovens cineastas [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville e outros de menor talento levantaram-se contra o Cinema Novo, anunciando uma velha novidade: cinema barato, de câmera na mão e ideia na cabeça". Segundo o cineasta, seria ele o verdadeiro inventor do underground brasileiro, justamente com Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

A visão de Glauber acerca de uma possível "autoria" do cinema underground brasileiro pode parecer equivocada, uma vez que Câncer só chegou a público em 1972, quando o Cinema de Invenção de Sganzerla, Bressane e companhia já havia sido muito bem estabelecido e, inclusive, lançado boa parte do que viriam a ser seus filmes seminais. No entanto, é difícil dizer que Glauber veria sua influência como completamente retroativa (a de um filme que ninguém viu em 1968, lançado apenas em 1972, tendo influenciado o cinema que se fez a partir de 68) uma vez que, apesar dos "pais fundadores" do Cinema Marginal não terem assistido a Câncer em 1968, a filmagem do longa foi divulgada abertamente à época, e alguns dos preceitos utilizados por Glauber no processo de fato se tornaram princípios basilares do movimento responsável por filmes como Cuidado, Madame (1970) e Copacabana Mon Amour (1970). Entre estes, há de ser ressaltada uma lógica de produção mais enxuta e menos dependente das estruturas dos filmes de grande orçamento – o que foi um preceito inicial do Cinema Novo, mas que, àquela altura, já havia sido parcialmente abandonado por este na medida em que os cinemanovistas se afinaram à industrialização do cinema brasileiro ante a fundação da Embrafilme. Basta ver o que o já citado Diário de Notícias falava sobre Câncer, ainda em 1968.

"Odete Larta participou da experiência de Glauber Rocha em 16 mm, 'Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante'. Nelson Motta, sempre bem informado e diligente, publicou uma entrevista com Glauber: 'eu queria provar a mim mesmo que não é preciso filmar em 35 mm, nem mesmo gastar 100 milhões [de cruzeiros] para fazer um bom filme' [...]"

Influenciado por Straub/Huillet e pelo underground americano, que tinha então entre seus expoentes notórios Jack Smith e Andy Warhol, Glauber fez em Câncer algo que pode ser resumido pelo que disse em entrevista a Federico de Cárdenas e René Capriles: "o filme não tem história. São três personagens dentro de uma ação violenta. O que estava buscando fazer era uma experiência técnica, do problema da resistência da duração do plano cinematográfico". Sem roteiro ou pré-produção, Câncer foi rodado quase todo no improviso, inclusive de cena: os atores, profissionais ou não, improvisavam livremente ante a câmera glauberiana.

O que realmente serve como liga para planos distintos entre si e sem conexão inicial aparente é uma temática principal, a da violência, que é dissecada pelo cineasta ao ser colocada em tela de diversas maneiras e sob diversos aspectos.

Há, por exemplo, a violência social, manifestada principalmente no que é relativo ao personagem de Antônio Pitanga, um homem negro e pobre que, em busca de trabalho e de um prato de comida, acaba não conseguindo resultados efetivos e partindo para a revolta total e a violência física, que deságua em consequências trágicas.

Pode-se falar também da violência política empregada pelo regime de governo vigente, quando um personagem vivido pelo cineasta Eduardo Coutinho é questionado sobre seu suposto envolvimento com o comunismo – e com Câncer sendo rodado às vésperas do AI-5, é sabido que esse tipo de inquisição política por parte de agentes do Estado não significava pouca coisa.

Podemos ainda citar a violência de gênero, quando o personagem de Hugo Carvana diz que a personagem de Odete Lara "merece ser violentada por quatro crioulos com a camisa do Flamengo na estrada Rio-Petrópolis", em meio a uma conversa sobre fidelidade e poligamia.

Há espaço, por último (mas não menos importante), para se falar na violência da luta de classes (que se conecta de modo direto à "violência social" mencionada anteriormente), quando, para além do que já é delineado pelo próprio Glauber no monólogo de abertura, Carvana diz, na já mencionada sequência com Odete Lara: "Eu sou a favor de ser assassinado brutalmente pela massa, e a massa comer as minhas vísceras todas; eu, você, nós sermos assassinados e execrados. [...] Nós não temos nada a ver com a massa, nós somos dois otários, aqui, vendo televisão ao meio dia [...]". Nesse momento, Glauber, que se considerava "um sádico das massas",8 expurga sua própria culpa burguesa e faz uma espécie de movimento inverso ao que ocorre em Deus e o Diabo na Terra do Sol, quando Antônio das Mortes, personagem de Maurício do Valle, massacra os seguidores do líder religioso popular inspirado no Antônio Conselheiro de Canudos.

Se Antônio das Mortes é um representativo da "personagem contraditória" tipicamente cinemanovista, que serve como avatar para os dilemas da classe média mesmo quando estando presente, filmicamente, em outro contexto9 – como no próprio Deus e o Diabo, filme de cangaço onde não existe uma classe média designada como tal – em Câncer o conflito entre classes ocorre de maneira significativamente diferente.

Na sequência em que Carvana e Odete Lara assistem televisão, "o povo" é citado como algo distante, que não está presente em cena; Carvana enxerga na derrocada da burguesia pelo povo uma maneira de, com razão, castigar as classes mais abastadas do país por sua própria inércia e miséria intelectual (expressada, aqui, pelo ato de se estar assistindo televisão, vadiamente, ao meio dia, horário no qual o povo está majoritariamente trabalhando). Em outras sequências, o povo está representado fisicamente no personagem de Pitanga, conforme já discutido aqui, e este alcança sua emancipação ao assassinar o personagem a quem está subordinado, ao fim do filme, dando cabo ao movimento que é previsto pelo personagem de Carvana – ainda que não envolvendo diretamente ele ou Odete Lara. Pitanga, apesar da euforia do assassinato, não tem, aqui, seus problemas resolvidos, permanecendo à deriva apesar da vingança pessoal.

Um elemento que, se para o espectador pode ser secundário, para o processo de filmagem é um dado fundamental, há de ser considerado ao se escrever sobre Câncer, e pode servir também como objeto para elaborações que vão além dessas visões primárias: a presença, no filme, do artista visual Hélio Oiticica.

Frederico Coelho propõe a tese de que Oiticica seria o responsável por fazer com que a arte brasileira de maior alcance, que vem de uma origem majoritariamente da classe média ou média-alta dos eixos Rio-São Paulo, entrasse em contato com a realidade das populações periféricas na década de 1960. Oiticica teria sido o precursor desse movimento ao passar a frequentar o morro da Mangueira, favela no Rio de Janeiro, e enturmar-se com a população local, encontrando afinidade sobretudo entre a chamada "malandragem" e mesmo entre os pequenos criminosos locais. O destaque, em meio a essas relações sociais de Oiticica com a criminalidade periférica, está em sua amizade com o contraventor Cara de Cavalo — que, após ser brutalmente assassinado, foi homenageado em duas obras do artista, sendo a mais conhecida a bandeira "Seja Marginal, Seja Herói".

Câncer foi "parcialmente filmado no pátio da casa de Oiticica", no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade. Àquela altura, o local já promovia encontros entre a intelectualidade de classe média e os amigos mangueirenses do artista. Morando com Oiticica, naquele momento, estava o artista Rogério Duarte, autor do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ambos atuam no filme, em breves participações, e Oiticica é responsável por trazer para dentro de cena passistas da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. O samba, inclusive, enquanto elemento de Câncer – e estando presente em mais de uma sequência – é trazido ao filme, como um todo, por essa conexão feita por Oiticica.

Se, como Glauber bem lembra no monólogo que abre Câncer, o filme foi "filmado ali pelo Rio de Janeiro, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, sobre aqueles marginais do Rio de Janeiro", a parceria Glauber-Oiticica foi fundamental para trazer à produção uma outra dimensão no que diz respeito aos elementos relacionados à marginalidade social. Foi essa parceria que fez com que Câncer subisse às favelas cariocas e que incorporasse a Mangueira e o samba a seu já vigoroso discurso de denúncia e revolução, que pulsa com surpreendente vitalidade em meio a uma série de improvisos.

No monólogo inicial o diretor afirma que as mudanças que tomaram conta do ano de 1968 não eram "mesmo uma revolução", sendo mais uma "agitação" promovida por uma "classe média radical", "burguesia liberal reformista", à moda da revolução francesa. Partindo disso, um caminho possível para a inserção do povo enquanto agente de mudança é dado através de um filme que foge, em muito, do convencional, tanto em linguagem quanto em discurso. Não sem se atentar aos perigos de uma violência sem significado político, Glauber entrega em Câncer um de seus trabalhos mais complexos e estimulantes, ainda que menos comentados.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 Ver Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 Ver o capítulo “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), em Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. Em: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 Ver o capítulo “Glauber Rocha, plano sequência”, em Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 No texto “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originalmente publicado em Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 Em carta a Carlos Diegues, citada em Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 Ver Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

“It was in August 1968... It was in Rio de Janeiro in August 1968, a hell of a commotion, students in the streets, workers too; there were workers occupying factories in Minas Gerais, workers occupying factories in São Paulo, and students stirring things up. It was the dictatorship of Costa e Silva, who had been the second dictator, after Castelo Branco, and had overthrown President Jango, who was making the revolution in 1964; it wasn’t Marshal Castelo Branco, no, because he was a reactionary marshal... So there was a terrible wave going on, students in the streets, the leader was Vladimir Palmeira; there was Marcos Medeiros, Elinor Brito, the psychoanalyst Hélio Pellegrino, Franklin Martins, the whole tough crowd.

But it wasn’t really a revolution, I mean, it was unrest, it was... there was the French May too, there was one hell of a wave going on. People would say the following: that it was revolution, but it was the radical middle class, the reformist liberal bourgeoisie in the streets. And the workers... There were many peasants starving to death in the Northeast. Which, by the way, continues to be the case today, they have been dying of hunger for more than 400 years. And the intellectuals were there, at the Museum of Modern Art, that night. Exactly, discussing art, revolutionary art, because Tropicalism was beginning, one hell of a wave.

Then I called Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, who had arrived from Italy; he had an Arriflex. Luiz Carlos Saldanha did the cinematography and camera, and the direct sound was done by José Ventura. Now, Hugo Carvana, Antônio Pitanga, who is from Bahia, and Odete Lara played the main roles; beyond them, there was Rogério Duarte, who is also from Bahia, Zé Medeiros, Hélio Oiticica, who is a painter, and the gang, Biju, Tineca, some people from Mangueira, and also Zelito, meaning not Doctor Zelito from the film, but Doctor Zelito from Mapa Filmes, and Chiquinho, who was in the Kombi.

And then time went by, because the film was left unfinished... Later I arrived in Havana, and did the sound at ICAIC... The synchronization was done by Raul Garcia, and I edited it with Tineca and Mireta. It was a co-production, and then Barceloni came in from Italy, and it ended up with the title Câncer. Rio de Janeiro. Shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro, a shoot that took four days to film and four years to edit and synchronize... It was finished in May 1972; from August 1968 to May 1972, Câncer.”

It is with this monologue, intoned in his own voice, that Glauber Rocha opens his feature film Câncer. In the images, we see precisely what is described at one point in the speech: Luiz Carlos Saldanha’s camera glides along a long table of intellectuals, gathered at Rio de Janeiro’s MAM before a large audience. In the juxtaposition created by the filmmaker, a viewer unfamiliar with his voice may momentarily come away with the impression that the monologue is being delivered by the speaker currently at the table, who happens to be the poet Ferreira Gullar. He speaks inaudibly while being observed by his peers, who lean over the tabletop. Before long, however, it becomes clear that image and voice are not synchronized, that they are not saying the same thing. This contrast permeates the entire feature, and is the result of its mode of production and completion.

Already in these opening minutes, Glauber Rocha throws the audience headfirst into the world of Câncer, one of his most distinctive films, one that differs from everything the director had made up to that point and, even while clearly marking its place within the “evolutionary line” of Glauber’s filmography, from what would come afterward as well. In a long monologue, a variety of functions are synthesized. The film has no title card or cast and crew credits at the beginning or end, but the monologue fulfills that function, something Glauber would later repeat, in a different way, in Jorjamado no Cinema, from 1979. Likewise, the speech that opens the feature also provides the historical context of its filming, which ultimately also serves to justify the inflamed filmic discourse that would become evident in the very next moments, and describes the first shots to appear on screen at the exact moment they are visually present. It also lays out the difficult process of editing the material, which lasted four years and spanned one of Glauber’s periods of exile, having been completed in Cuba, and juxtaposes this with the dynamism of the shoot. Four days to film, four years to edit and synchronize.

There is conflicting information about the filming of Câncer. While Glauber himself states, in the aforementioned monologue and in later remarks, that it took place in August 1968, researchers such as Gonzalo Aguilar say that the film was in fact shot in May of that year. According to Aguilar, the feature was filmed “in May 1968, one year after the premiere of Terra em Transe and before the beginning of Antônio das Mortes. Glauber shot it during the month he had before beginning the new shoot” (Aguilar, 2016, p. 99).1 Aguilar’s claim is supported by newspaper items such as those published in Diário de Notícias in May and June 1968, which were already reporting on the shoot and still referring to the film by its provisional title, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citing “between July 8 and 10” of that year as the speculated period for the feature’s release. The researcher Frederico Coelho, who identifies August as the month of filming and is therefore in agreement with the Glauberian “official version,” points out that this window between the premiere of Terra em Transe and the beginning of filming on Antônio das Mortes would have been a “forced season” that Glauber spent in Rio, and notes the presence, in Câncer, of the actors Hugo Carvana and Odete Lara as evidence that this season was already being spent with the cast of Antônio das Mortes, before the trip to the backlands of Bahia for that film’s shoot.2

One can only speculate as to why the date changed from May to August in the feature’s opening monologue, whether it was the result of a lapse in Glauber’s own memory or a deliberate game. Perhaps “August” refers to the prologue recorded at MAM, which was in fact filmed after principal photography. The fact remains that the filming of Câncer in the famous May of ’68, mentioned, in fact, in Glauber’s own monologue, would have been perfectly in tune with the atmosphere then boiling over around the world, beginning in France, and starting to bear fruit in Brazil from a cinematic point of view. In that same month of May, Neville D’Almeida was shooting Jardim de Guerra, and in November of that year, at the Festival de Brasília, a definitive landmark of Brazilian cinema, Rogério Sganzerla’s O Bandido da Luz Vermelha, would be publicly screened for the first time.

It is no exaggeration to list 1968 as a watershed year for Brazilian cinema. It is the year in which, beginning with the premiere of Sganzerla’s film, what came to be called “Cinema de Invenção,” or “Cinema Marginal,” exploded onto the scene. The term alluded to Ozualdo Candeias’s A Margem, released the previous year, but also to a certain sense of artistic marginality, toward which converged, for example, musicians who carried out their work on the margins of Bossa Nova and musical Tropicalism; visual artists and poets who conceived and executed their ideas on the margins of the conservative parameters then in force, even among those who had sworn to break with aesthetic conservatism, as in the case of the Neoconcrete movement; and filmmakers who were creating a new kind of cinema, on the margins of the Cinema Novo movement. At that moment, Cinema Novo was beginning to see its “hard core” dismantled, with its leading figures focusing their efforts on the industrialization of Brazilian cinema through the creation of a state audiovisual production and distribution company, with mixed capital, designed to foster and provide an outlet for national film production. This would come to fruition the following year with the emergence of Embrafilme, in truth a late incarnation of a preexisting institution, the Instituto Nacional do Cinema Educativo, INCE.3

Editor Geraldo Veloso, one of the figures who experienced firsthand, in the heat of those events, the transformations Brazilian cinema was undergoing, defined the films shot or released in 1968 as exponents of “a cinema that necessarily brought with it a political reflection on a decisive moment in the contemporary history of the world (and especially of Brazil, which ended the year with the implementation of AI-5)” (Veloso 2012, p. 15).4 The filming of Câncer in May of that year would function as a seed for “the origin of what would become the udigrúdi of Brazilian cinema, in which Glauber would not participate, and with which he would even engage in harsh polemics, because he considered the experience of Câncer to be just as valid as that of Antônio das Mortes.” (Aguilar, op. cit.).

The term udigrúdi, a corruption of “underground,” is in fact used by Glauber himself to designate so-called Cinema Marginal, minimizing the efforts both of the “hard core” of the new movement and of those around it, and claiming that “the young filmmakers [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville, and others of lesser talent rose up against Cinema Novo, announcing an old novelty: cheap cinema, handheld camera, and idea in the head.” According to the filmmaker, he himself was the true inventor of the Brazilian underground, precisely with Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

While the “young filmmakers” fervently joined, between the late 1960s and the mid-1970s, the disputes over who represented the true Brazilian cinematic avant-garde, trading barbs with Cinema Novo led by Glauber, at least in a less heated retrospective, in 1986, the role of Câncer was already recognized by Jairo Ferreira, one of the main theorists of Cinema Marginal. In Cinema de Invenção, a collection of old and new texts that helped solidify the movement’s theoretical framework, there is a brief chapter dedicated to Glauber Rocha and Câncer. While it does not avoid the earlier polemics, and stresses that “the experimental was truly born in Boca do Lixo in 1967 with Ozualdo Candeias’s A Margem [...],” (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, publishing his book after Glauber’s death, brings this dispute to a more or less conciliatory close, emphasizing Glauber’s inventiveness in the way the filmmaker operates within the sequence shots of Câncer and proposing, on that basis, that “cinephiles watch Câncer alongside the films of Hitch[cock] & Straub, as well as Julio Bressane’s O Anjo Nasceu/1969.” (ibid, p. 166).6 

Glauber’s view regarding a possible “authorship” of Brazilian underground cinema may seem mistaken, since Câncer only reached the public in 1972, by which point the Cinema de Invenção of Sganzerla, Bressane, and company had already been firmly established and had even released many of what would become its seminal films. However, it is difficult to say that Glauber would have seen his influence as completely retroactive, that is, as the influence of a film no one saw in 1968, released only in 1972, on the cinema made from 1968 onward, since, although the “founding fathers” of Cinema Marginal did not watch Câncer in 1968, the feature’s filming was openly publicized at the time, and some of the principles used by Glauber in the process did in fact become foundational principles of the movement responsible for films such as Cuidado, Madame (1970) and Copacabana Mon Amour (1970). Among these, one should emphasize a leaner production logic, less dependent on the structures of big-budget films, something that had been an initial precept of Cinema Novo, but which, by that point, had already been partially abandoned by it as the Cinema Novo filmmakers aligned themselves with the industrialization of Brazilian cinema in the lead-up to the founding of Embrafilme. One need only look at what the aforementioned Diário de Notícias was saying about Câncer as early as 1968.

“Odete Lara took part in Glauber Rocha’s experimental 16mm project, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante. Nelson Motta, always well informed and diligent, published an interview with Glauber: ‘I wanted to prove to myself that it is not necessary to shoot in 35mm, nor even to spend 100 million [cruzeiros], to make a good film’ [...]”

Influenced by Straub/Huillet and by the American underground, whose notable exponents include Jack Smith and Andy Warhol, Glauber made in Câncer something that can be summed up by what he said in an interview with Federico de Cárdenas and René Capriles: “the film has no story. It is three characters within a violent action. What I was seeking to do was a technical experiment, dealing with the problem of the endurance of the duration of the cinematic shot”.7 Without a script or pre-production, Câncer was shot almost entirely through improvisation, including improvised scenes: the actors, professional or not, improvised freely before Glauber’s camera.

What truly serves as the binding agent for shots that are distinct from one another and apparently unconnected at first is a central theme: violence, which the filmmaker dissects by placing it onscreen in various ways and from various angles.

There is, for example, social violence, manifested primarily in relation to Antônio Pitanga’s character, a poor Black man who, in search of work and a plate of food, ends up failing to achieve any effective results and moves toward total revolt and physical violence, which leads to tragic consequences.

One can also speak of the political violence employed by the ruling regime, when a character played by filmmaker Eduardo Coutinho is questioned about his supposed involvement with communism. And with Câncer having been shot on the eve of AI-5, it is well known that this kind of political inquisition by agents of the State was no small matter.

We can also cite gendered violence, when Hugo Carvana’s character says that Odete Lara’s character “deserves to be raped by four Black men in Flamengo jerseys on the Rio-Petrópolis highway,” in the midst of a conversation about fidelity and polygamy.

There is room, finally, but no less importantly, to speak of the violence of class struggle, which connects directly to the “social violence” mentioned earlier, when, beyond what Glauber himself already outlines in the opening monologue, Carvana says, in the aforementioned sequence with Odete Lara: “I am in favor of being brutally murdered by the masses, and of the masses eating all my entrails; of me, you, all of us being murdered and execrated. [...] We have nothing to do with the masses, we are two suckers, here, watching television at noon [...].” At this moment, Glauber, who considered himself “a sadist of the masses,”8 purges his own bourgeois guilt and makes a kind of inverse movement to what occurs in Black God, White Devil, when Antônio das Mortes, the character played by Maurício do Valle, massacres the followers of the popular religious leader inspired by Antônio Conselheiro of Canudos.

If Antônio das Mortes is representative of the typically Cinema Novo “contradictory character,” serving as an avatar for the dilemmas of the middle class even when present, filmically, in another context,9 as in Black God, White Devil itself, a cangaço film in which there is no middle class designated as such, in Câncer the conflict between classes unfolds in a significantly different way.

In the sequence in which Carvana and Odete Lara watch television, “the people” are cited as something distant, absent from the scene. Carvana sees the downfall of the bourgeoisie at the hands of the people as a way of rightly punishing the country’s more affluent classes for their own inertia and intellectual misery, expressed here through the act of idly watching television at noon, a time when the people are, for the most part, working. In other sequences, the people are physically represented by Pitanga’s character, as already discussed here, and he achieves his emancipation by murdering the character to whom he is subordinated at the end of the film, thereby completing the movement foreseen by Carvana’s character, even if it does not directly involve him or Odete Lara. Pitanga, despite the euphoria of the murder, does not have his problems solved here, remaining adrift despite his personal revenge.

One element that, while it may seem secondary to the viewer, was a fundamental factor in the filming process, must be taken into account when writing about Câncer, and may also serve as an object for reflections that go beyond these initial readings: the presence, in the film, of visual artist Hélio Oiticica.

Frederico Coelho proposes the thesis that Oiticica was responsible for bringing the most widely visible Brazilian art, which came largely from middle-class or upper-middle-class origins in the Rio-São Paulo axis, into contact with the reality of peripheral populations in the 1960s. Oiticica would have been the precursor of this movement when he began frequenting Morro da Mangueira, a favela in Rio de Janeiro, and became involved with the local population, finding affinity above all among the so-called malandragem and even among local petty criminals. The most notable example, amid Oiticica’s social relationships with peripheral criminality, is his friendship with the outlaw Cara de Cavalo, who, after being brutally murdered, was honored in two of the artist’s works, the best known of which is the flag Seja Marginal, Seja Herói.

Câncer was “partially filmed in the courtyard of Oiticica’s house,” in the Jardim Botânico neighborhood, in Rio de Janeiro’s South Zone, an affluent area of the city. By that point, the location “had already served as a clandestine meeting place where bohemians from the middle class mixed with residents of Mangueira.” Living with Oiticica at the time was the artist Rogério Duarte, who designed the poster for Black God, White Devil. Both appear in the film in brief roles, and Oiticica is responsible for bringing into the scene passistas from the samba school Estação Primeira de Mangueira, his friends, who also make appearances in the production. Samba, in fact, as an element of Câncer, and present in more than one sequence, is brought into the film as a whole through this connection made by Oiticica.

If, as Glauber aptly recalls in the monologue that opens Câncer, the film was “shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro,” the Glauber-Oiticica partnership was fundamental in bringing another dimension to the production with regard to elements related to social marginality. It was this partnership that led Câncer up into Rio’s favelas and incorporated Mangueira and samba into its already vigorous discourse of denunciation and revolution, which pulses with surprising vitality amid a series of improvisations.

In the opening monologue, the director states that the changes that swept through 1968 were “not really a revolution,” but rather an “agitation” promoted by a “radical middle class,” a “reformist liberal bourgeoisie,” in the manner of the French Revolution. From this point of departure, one possible path for inserting the people as agents of change is offered through a film that departs greatly from the conventional, both in language and in discourse. Not without attending to the dangers of violence devoid of political meaning, Glauber delivers in Câncer one of his most complex and stimulating works, even if it remains among his least discussed.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 See Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 See the chapter “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), in Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. In: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 See the chapter “Glauber Rocha, plano sequência”, in Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 From the text “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originally published in Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 In a letter to Carlos Diegues, cited by Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 See Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

“It was in August 1968... It was in Rio de Janeiro in August 1968, a hell of a commotion, students in the streets, workers too; there were workers occupying factories in Minas Gerais, workers occupying factories in São Paulo, and students stirring things up. It was the dictatorship of Costa e Silva, who had been the second dictator, after Castelo Branco, and had overthrown President Jango, who was making the revolution in 1964; it wasn’t Marshal Castelo Branco, no, because he was a reactionary marshal... So there was a terrible wave going on, students in the streets, the leader was Vladimir Palmeira; there was Marcos Medeiros, Elinor Brito, the psychoanalyst Hélio Pellegrino, Franklin Martins, the whole tough crowd.

But it wasn’t really a revolution, I mean, it was unrest, it was... there was the French May too, there was one hell of a wave going on. People would say the following: that it was revolution, but it was the radical middle class, the reformist liberal bourgeoisie in the streets. And the workers... There were many peasants starving to death in the Northeast. Which, by the way, continues to be the case today, they have been dying of hunger for more than 400 years. And the intellectuals were there, at the Museum of Modern Art, that night. Exactly, discussing art, revolutionary art, because Tropicalism was beginning, one hell of a wave.

Then I called Saldanha, Luiz Carlos Saldanha, who had arrived from Italy; he had an Arriflex. Luiz Carlos Saldanha did the cinematography and camera, and the direct sound was done by José Ventura. Now, Hugo Carvana, Antônio Pitanga, who is from Bahia, and Odete Lara played the main roles; beyond them, there was Rogério Duarte, who is also from Bahia, Zé Medeiros, Hélio Oiticica, who is a painter, and the gang, Biju, Tineca, some people from Mangueira, and also Zelito, meaning not Doctor Zelito from the film, but Doctor Zelito from Mapa Filmes, and Chiquinho, who was in the Kombi.

And then time went by, because the film was left unfinished... Later I arrived in Havana, and did the sound at ICAIC... The synchronization was done by Raul Garcia, and I edited it with Tineca and Mireta. It was a co-production, and then Barceloni came in from Italy, and it ended up with the title Câncer. Rio de Janeiro. Shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro, a shoot that took four days to film and four years to edit and synchronize... It was finished in May 1972; from August 1968 to May 1972, Câncer.”

It is with this monologue, intoned in his own voice, that Glauber Rocha opens his feature film Câncer. In the images, we see precisely what is described at one point in the speech: Luiz Carlos Saldanha’s camera glides along a long table of intellectuals, gathered at Rio de Janeiro’s MAM before a large audience. In the juxtaposition created by the filmmaker, a viewer unfamiliar with his voice may momentarily come away with the impression that the monologue is being delivered by the speaker currently at the table, who happens to be the poet Ferreira Gullar. He speaks inaudibly while being observed by his peers, who lean over the tabletop. Before long, however, it becomes clear that image and voice are not synchronized, that they are not saying the same thing. This contrast permeates the entire feature, and is the result of its mode of production and completion.

Already in these opening minutes, Glauber Rocha throws the audience headfirst into the world of Câncer, one of his most distinctive films, one that differs from everything the director had made up to that point and, even while clearly marking its place within the “evolutionary line” of Glauber’s filmography, from what would come afterward as well. In a long monologue, a variety of functions are synthesized. The film has no title card or cast and crew credits at the beginning or end, but the monologue fulfills that function, something Glauber would later repeat, in a different way, in Jorjamado no Cinema, from 1979. Likewise, the speech that opens the feature also provides the historical context of its filming, which ultimately also serves to justify the inflamed filmic discourse that would become evident in the very next moments, and describes the first shots to appear on screen at the exact moment they are visually present. It also lays out the difficult process of editing the material, which lasted four years and spanned one of Glauber’s periods of exile, having been completed in Cuba, and juxtaposes this with the dynamism of the shoot. Four days to film, four years to edit and synchronize.

There is conflicting information about the filming of Câncer. While Glauber himself states, in the aforementioned monologue and in later remarks, that it took place in August 1968, researchers such as Gonzalo Aguilar say that the film was in fact shot in May of that year. According to Aguilar, the feature was filmed “in May 1968, one year after the premiere of Terra em Transe and before the beginning of Antônio das Mortes. Glauber shot it during the month he had before beginning the new shoot” (Aguilar, 2016, p. 99).1 Aguilar’s claim is supported by newspaper items such as those published in Diário de Notícias in May and June 1968, which were already reporting on the shoot and still referring to the film by its provisional title, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante, citing “between July 8 and 10” of that year as the speculated period for the feature’s release. The researcher Frederico Coelho, who identifies August as the month of filming and is therefore in agreement with the Glauberian “official version,” points out that this window between the premiere of Terra em Transe and the beginning of filming on Antônio das Mortes would have been a “forced season” that Glauber spent in Rio, and notes the presence, in Câncer, of the actors Hugo Carvana and Odete Lara as evidence that this season was already being spent with the cast of Antônio das Mortes, before the trip to the backlands of Bahia for that film’s shoot.2

One can only speculate as to why the date changed from May to August in the feature’s opening monologue, whether it was the result of a lapse in Glauber’s own memory or a deliberate game. Perhaps “August” refers to the prologue recorded at MAM, which was in fact filmed after principal photography. The fact remains that the filming of Câncer in the famous May of ’68, mentioned, in fact, in Glauber’s own monologue, would have been perfectly in tune with the atmosphere then boiling over around the world, beginning in France, and starting to bear fruit in Brazil from a cinematic point of view. In that same month of May, Neville D’Almeida was shooting Jardim de Guerra, and in November of that year, at the Festival de Brasília, a definitive landmark of Brazilian cinema, Rogério Sganzerla’s O Bandido da Luz Vermelha, would be publicly screened for the first time.

It is no exaggeration to list 1968 as a watershed year for Brazilian cinema. It is the year in which, beginning with the premiere of Sganzerla’s film, what came to be called “Cinema de Invenção,” or “Cinema Marginal,” exploded onto the scene. The term alluded to Ozualdo Candeias’s A Margem, released the previous year, but also to a certain sense of artistic marginality, toward which converged, for example, musicians who carried out their work on the margins of Bossa Nova and musical Tropicalism; visual artists and poets who conceived and executed their ideas on the margins of the conservative parameters then in force, even among those who had sworn to break with aesthetic conservatism, as in the case of the Neoconcrete movement; and filmmakers who were creating a new kind of cinema, on the margins of the Cinema Novo movement. At that moment, Cinema Novo was beginning to see its “hard core” dismantled, with its leading figures focusing their efforts on the industrialization of Brazilian cinema through the creation of a state audiovisual production and distribution company, with mixed capital, designed to foster and provide an outlet for national film production. This would come to fruition the following year with the emergence of Embrafilme, in truth a late incarnation of a preexisting institution, the Instituto Nacional do Cinema Educativo, INCE.3

Editor Geraldo Veloso, one of the figures who experienced firsthand, in the heat of those events, the transformations Brazilian cinema was undergoing, defined the films shot or released in 1968 as exponents of “a cinema that necessarily brought with it a political reflection on a decisive moment in the contemporary history of the world (and especially of Brazil, which ended the year with the implementation of AI-5)” (Veloso 2012, p. 15).4 The filming of Câncer in May of that year would function as a seed for “the origin of what would become the udigrúdi of Brazilian cinema, in which Glauber would not participate, and with which he would even engage in harsh polemics, because he considered the experience of Câncer to be just as valid as that of Antônio das Mortes.” (Aguilar, op. cit.).

The term udigrúdi, a corruption of “underground,” is in fact used by Glauber himself to designate so-called Cinema Marginal, minimizing the efforts both of the “hard core” of the new movement and of those around it, and claiming that “the young filmmakers [Andrea] Tonacci, Sganzerla, [Julio] Bressane, Neville, and others of lesser talent rose up against Cinema Novo, announcing an old novelty: cheap cinema, handheld camera, and idea in the head.” According to the filmmaker, he himself was the true inventor of the Brazilian underground, precisely with Câncer.5

Se os "jovens cineastas" aderiram fervorosamente, entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970, às disputas sobre qual seria a verdadeira vanguarda cinematográfica brasileira, trocando farpas com o Cinema Novo capitaneado por Glauber, pelo menos em uma retrospectiva menos acalorada, em 1986, o papel de Câncer já era reconhecido por Jairo Ferreira, um dos principais teóricos do Cinema Marginal. Em "Cinema de Invenção", reunião de antigos e novos textos que serviu para solidificar o arcabouço teórico do movimento, há um breve capítulo dedicado a Glauber Rocha e seu Câncer. Se este não foge das polêmicas anteriores, e frisa que "o experimental nasceu mesmo foi na Boca do Lixo em 1967 com 'A Margem' de Ozualdo Candeias [...]" (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, que publica seu livro já após o falecimento de Glauber, coloca o ponto final nessa disputa de modo mais ou menos conciliador, frisando a inventividade glauberiana na maneira como o cineasta opera nos planos-sequência de Câncer e propondo, a partir disso, que "os cinéfilos assistam 'Câncer' junto aos filmes de Hitch[cock] & Straub mais 'O Anjo Nasceu'/1969, de Julio Bressane" (ibid, p. 166).6 

While the “young filmmakers” fervently joined, between the late 1960s and the mid-1970s, the disputes over who represented the true Brazilian cinematic avant-garde, trading barbs with Cinema Novo led by Glauber, at least in a less heated retrospective, in 1986, the role of Câncer was already recognized by Jairo Ferreira, one of the main theorists of Cinema Marginal. In Cinema de Invenção, a collection of old and new texts that helped solidify the movement’s theoretical framework, there is a brief chapter dedicated to Glauber Rocha and Câncer. While it does not avoid the earlier polemics, and stresses that “the experimental was truly born in Boca do Lixo in 1967 with Ozualdo Candeias’s A Margem [...],” (Ferreira, 1986, p. 163), Ferreira, publishing his book after Glauber’s death, brings this dispute to a more or less conciliatory close, emphasizing Glauber’s inventiveness in the way the filmmaker operates within the sequence shots of Câncer and proposing, on that basis, that “cinephiles watch Câncer alongside the films of Hitch[cock] & Straub, as well as Julio Bressane’s O Anjo Nasceu/1969.” (ibid, p. 166).6 

Glauber’s view regarding a possible “authorship” of Brazilian underground cinema may seem mistaken, since Câncer only reached the public in 1972, by which point the Cinema de Invenção of Sganzerla, Bressane, and company had already been firmly established and had even released many of what would become its seminal films. However, it is difficult to say that Glauber would have seen his influence as completely retroactive, that is, as the influence of a film no one saw in 1968, released only in 1972, on the cinema made from 1968 onward, since, although the “founding fathers” of Cinema Marginal did not watch Câncer in 1968, the feature’s filming was openly publicized at the time, and some of the principles used by Glauber in the process did in fact become foundational principles of the movement responsible for films such as Cuidado, Madame (1970) and Copacabana Mon Amour (1970). Among these, one should emphasize a leaner production logic, less dependent on the structures of big-budget films, something that had been an initial precept of Cinema Novo, but which, by that point, had already been partially abandoned by it as the Cinema Novo filmmakers aligned themselves with the industrialization of Brazilian cinema in the lead-up to the founding of Embrafilme. One need only look at what the aforementioned Diário de Notícias was saying about Câncer as early as 1968.

“Odete Lara took part in Glauber Rocha’s experimental 16mm project, Num dia alucinante a paisagem era um câncer fascinante. Nelson Motta, always well informed and diligent, published an interview with Glauber: ‘I wanted to prove to myself that it is not necessary to shoot in 35mm, nor even to spend 100 million [cruzeiros], to make a good film’ [...]”

Influenced by Straub/Huillet and by the American underground, whose notable exponents include Jack Smith and Andy Warhol, Glauber made in Câncer something that can be summed up by what he said in an interview with Federico de Cárdenas and René Capriles: “the film has no story. It is three characters within a violent action. What I was seeking to do was a technical experiment, dealing with the problem of the endurance of the duration of the cinematic shot”.7 Without a script or pre-production, Câncer was shot almost entirely through improvisation, including improvised scenes: the actors, professional or not, improvised freely before Glauber’s camera.

What truly serves as the binding agent for shots that are distinct from one another and apparently unconnected at first is a central theme: violence, which the filmmaker dissects by placing it onscreen in various ways and from various angles.

There is, for example, social violence, manifested primarily in relation to Antônio Pitanga’s character, a poor Black man who, in search of work and a plate of food, ends up failing to achieve any effective results and moves toward total revolt and physical violence, which leads to tragic consequences.

One can also speak of the political violence employed by the ruling regime, when a character played by filmmaker Eduardo Coutinho is questioned about his supposed involvement with communism. And with Câncer having been shot on the eve of AI-5, it is well known that this kind of political inquisition by agents of the State was no small matter.

We can also cite gendered violence, when Hugo Carvana’s character says that Odete Lara’s character “deserves to be raped by four Black men in Flamengo jerseys on the Rio-Petrópolis highway,” in the midst of a conversation about fidelity and polygamy.

There is room, finally, but no less importantly, to speak of the violence of class struggle, which connects directly to the “social violence” mentioned earlier, when, beyond what Glauber himself already outlines in the opening monologue, Carvana says, in the aforementioned sequence with Odete Lara: “I am in favor of being brutally murdered by the masses, and of the masses eating all my entrails; of me, you, all of us being murdered and execrated. [...] We have nothing to do with the masses, we are two suckers, here, watching television at noon [...].” At this moment, Glauber, who considered himself “a sadist of the masses,”8 purges his own bourgeois guilt and makes a kind of inverse movement to what occurs in Black God, White Devil, when Antônio das Mortes, the character played by Maurício do Valle, massacres the followers of the popular religious leader inspired by Antônio Conselheiro of Canudos.

If Antônio das Mortes is representative of the typically Cinema Novo “contradictory character,” serving as an avatar for the dilemmas of the middle class even when present, filmically, in another context,9 as in Black God, White Devil itself, a cangaço film in which there is no middle class designated as such, in Câncer the conflict between classes unfolds in a significantly different way.

In the sequence in which Carvana and Odete Lara watch television, “the people” are cited as something distant, absent from the scene. Carvana sees the downfall of the bourgeoisie at the hands of the people as a way of rightly punishing the country’s more affluent classes for their own inertia and intellectual misery, expressed here through the act of idly watching television at noon, a time when the people are, for the most part, working. In other sequences, the people are physically represented by Pitanga’s character, as already discussed here, and he achieves his emancipation by murdering the character to whom he is subordinated at the end of the film, thereby completing the movement foreseen by Carvana’s character, even if it does not directly involve him or Odete Lara. Pitanga, despite the euphoria of the murder, does not have his problems solved here, remaining adrift despite his personal revenge.

One element that, while it may seem secondary to the viewer, was a fundamental factor in the filming process, must be taken into account when writing about Câncer, and may also serve as an object for reflections that go beyond these initial readings: the presence, in the film, of visual artist Hélio Oiticica.

Frederico Coelho proposes the thesis that Oiticica was responsible for bringing the most widely visible Brazilian art, which came largely from middle-class or upper-middle-class origins in the Rio-São Paulo axis, into contact with the reality of peripheral populations in the 1960s. Oiticica would have been the precursor of this movement when he began frequenting Morro da Mangueira, a favela in Rio de Janeiro, and became involved with the local population, finding affinity above all among the so-called malandragem and even among local petty criminals. The most notable example, amid Oiticica’s social relationships with peripheral criminality, is his friendship with the outlaw Cara de Cavalo, who, after being brutally murdered, was honored in two of the artist’s works, the best known of which is the flag Seja Marginal, Seja Herói.

Câncer was “partially filmed in the courtyard of Oiticica’s house,” in the Jardim Botânico neighborhood, in Rio de Janeiro’s South Zone, an affluent area of the city. By that point, the location “had already served as a clandestine meeting place where bohemians from the middle class mixed with residents of Mangueira.” Living with Oiticica at the time was the artist Rogério Duarte, who designed the poster for Black God, White Devil. Both appear in the film in brief roles, and Oiticica is responsible for bringing into the scene passistas from the samba school Estação Primeira de Mangueira, his friends, who also make appearances in the production. Samba, in fact, as an element of Câncer, and present in more than one sequence, is brought into the film as a whole through this connection made by Oiticica.

If, as Glauber aptly recalls in the monologue that opens Câncer, the film was “shot there in Rio de Janeiro, in the favela, in the South Zone, in the North Zone, about those marginal figures of Rio de Janeiro,” the Glauber-Oiticica partnership was fundamental in bringing another dimension to the production with regard to elements related to social marginality. It was this partnership that led Câncer up into Rio’s favelas and incorporated Mangueira and samba into its already vigorous discourse of denunciation and revolution, which pulses with surprising vitality amid a series of improvisations.

In the opening monologue, the director states that the changes that swept through 1968 were “not really a revolution,” but rather an “agitation” promoted by a “radical middle class,” a “reformist liberal bourgeoisie,” in the manner of the French Revolution. From this point of departure, one possible path for inserting the people as agents of change is offered through a film that departs greatly from the conventional, both in language and in discourse. Not without attending to the dangers of violence devoid of political meaning, Glauber delivers in Câncer one of his most complex and stimulating works, even if it remains among his least discussed.

1  Aguiar, Gonzalo. Hélio Oiticica, a asa branca do êxtase: arte brasileira 1968-1980. Tradução ao português: Gênese Andrade. Rio de Janeiro: Editora Anfiteatro, 2016.

2 See Coelho, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010;

3 See the chapter “Roberto Farias e a Embrafilme” (p. 167-202), in Guedes, Wallace Andrioli. Política como produto: Pra Frente, Brasil, Roberto Farias e a ditadura militar. Curitiba: Appris, 2020.

4 Veloso, Geraldo. Jardim de Guerra (p. 15). In: Miranda, Danilo Santos (org). Neville D'Almeida Além Cinema: 17 de maio a 8 de julho de 2012. São Paulo: SESC, 2012.

5 Rocha, Glauber. Udigrudi: uma velha novidade. In: Arte em Revista, vol. 3, no. 5, p. 80-82, maio de 1981.

6 See the chapter “Glauber Rocha, plano sequência”, in Ferreira, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.

7 From the text “Glauber: el ‘transe’ da América Latina”. Originally published in Hablemos de Cine, Lima, nº 47, p. 34-38, maio-junho de 1969. In: Rocha, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

8 In a letter to Carlos Diegues, cited by Aguilar, op. cit., p. 121-122.

9 See Bernardet, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.