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19/5/2021
By/Por:
Margarete Taqueti
O Cineasta e a Restauração

Ourives, relojoeiro, fotógrafo, inventor, cineasta, projecionista, músico e dono de sala de cinema, o inquieto Ludovico Persici nasceu em Alfredo Chaves em 1899 e faleceu em Matilde, onde se encontrava em tratamento de saúde, em 1949. Ludovico era o primogênito de uma prole de dezessete filhos, dos quais dez sobreviveram. Casou-se em 1924 com Eliza Fernandes D’Ávila, a quinta filha de uma família de sete irmãos. O casal não teve filhos.

“Curioso e dotado de notável inteligência e capacidade inventiva, o menino Ludovico frequenta desde muito pequeno a oficina de ourives e relojoeiro do pai, Erasmo Persici, imigrante italiano da Província de Parma. Manuseia ferramentas, desmonta e monta aparelhos buscando decifrar o mecanismo das peças. Segundo seu irmão e biógrafo, Arlindo Persici, é provável que o engenho e a arte tenham se manifestado em Ludovico Persici por volta dos 10 anos de idade, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória–Cachoeiro de Itapemirim, quando o garoto imitava ou tentava reproduzir cada etapa da construção instalando num barranco uma miniatura de cortes, túneis, dormentes, trilhos...Todavia, contrariando a autoridade paterna e não suportando a monotonia da escola e do lugar, abandona os estudos na terceira série primária e foge de casa várias vezes, fazendo com que o severo pai empreendesse verdadeira maratona à sua procura”.1

Ludovico conheceu o cinema muito jovem, aos 14 anos. Em 1913 foi levado para o Rio de Janeiro, para tornar-se ourives e se aperfeiçoar na arte da relojoaria com um grande mestre espanhol. Passou dois anos lá. De todas as novidades que a cidade grande lhe ofereceu, fascinou-se pelo cinematógrafo, tornando-se frequentador assíduo das sessões nos fins de semana. E não raramente assistia a mesma fita incontáveis vezes.

Pioneiro em todos os níveis, Ludovico Persici é a mola propulsora do programa Cine Memória Capixaba, cuja missão é conhecer e difundir a diversidade, a especificidade do nosso cinema e de encontrar as formas de preservá-lo. O único filme que resta de Persici, Cenas de Família, foi localizado e trazido pelo pesquisador doutor José Eugênio Vieira, durante levantamento de fontes primárias para estudo histórico do município capixaba de Castelo. Foi restaurado, de 2005 a 2008, com recursos da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Espírito Santo (Secult-ES). O processo foi encaminhado pela Coordenação de Cinema e Vídeo da Secretaria a partir do projeto Cine Memória Capixaba.

O original, em filme reversível 16mm, foi encontrado embrulhado com jornal numa sacola plástica. Era um rolo grudado, ressecado como um tijolo. Aos nossos olhos, era o negativo próprio para o “Cinematógrafo Guarany”, que Ludovico Persici construiu e patenteou no Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, no Rio de Janeiro, em 1927. Segundo o site do Dicionário de Fotografia Histórica Capixaba, a máquina “...filmava, projetava, copiava, media a metragem do filme, quadro a quadro. Era ainda dotada de uma campainha, que avisava o término da sessão cinematográfica”, tudo num único aparelho em formato compacto e portátil.2

Conhecia a dimensão da importância, e logo vi que precisava de investimento financeiro e tecnologia para resgatar a obra. Meses depois, em parcerias com diversos arquivos,3 a Secult organiza a Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema, produzida pelo Departamento de Audiovisual do Arquivo Nacional, no período de 20 a 31 de maio de 2004, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), com o apoio da imprensa local e institucional, alcançando sucesso de público. Além da programação de filmes de arquivo e duas exposições afins, incluímos quatro mesas temáticas de debates: A Censura no Cinema Brasileiro, A Resistência Cultural no ES, Políticas Públicas de Preservação Audiovisual e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação.

O acervo do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Apees) inclui uma cópia em 16mm de O Sonho e a Máquina, documentário de Alex Viany sobre Ludovico Persici. Feito em 1974, esse filme nos dá a dimensão da sua importância e da presença do estado do Espírito Santo na história do cinema brasileiro. Baseado em pesquisa do jornalista Rogério Medeiros, com fotografia elaborada de Hélio Silva, o filme foi produzido e distribuído pela Embrafilme, produzido pelo capixaba Ney Modenesi.

Os técnicos Clóvis Molinari e Mauro Domingues, do Arquivo Nacional, e Patrícia de Fillipi, da Cinemateca Brasileira, participaram das mesas de Políticas Públicas de Preservação de Filmes e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação como convidados especiais da Secult. Esse suporte técnico teve importância na indicação da Labo Cine do Brasil, no Rio de Janeiro, para a restauração do filme de Ludovico Persici. As justificativas advinham da importância da obra, de seu estado de conservação, da tecnologia exigida e da urgência necessária: a fila de espera na Cinemateca Brasileira para restauração de clássicos nacionais era extensa.

O trabalho de restauração do copião de Cenas de Família, iniciado no ano de 2005, teve a duração de aproximadamente três anos, e ao término desse período foram produzidos um master e um internegativo para a realização da cópia final em 16mm. Essa cópia foi digitalizada e posteriormente, junto com o internegativo, doada para o acervo do Arquivo Público do Espírito Santo.

A primeira exibição do filme Cenas de Família ocorreu em agosto de 2008, no Palácio Anchieta, sede do Governo Estadual, na ocasião do lançamento da segunda edição do livro História do Estado do Espírito Santo, de José Teixeira de Oliveira. Para essa exibição foi utilizada uma cópia digital sonorizada com uma coletânea de músicas de jazz, sob a coordenação do Gabinete da Casa Civil do Governo do Estado do Espírito Santo.

A segunda exibição foi em 2009, na abertura do Projeto Mova Caparaó (6ª. Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). Nesta ocasião, a cópia muda original foi projetada em filme, acompanhada pelo acordeom de Mirano Schuler. O evento foi realizado pela Secult-ES, no município de Alegre, no ano de 2009, sob a coordenação da autora.

As Ferrovias de Cenas de Família

O primeiro e-mail informando os procedimentos iniciados para a recuperação e restauração do filme trouxe algumas imagens em movimento. Em anexo, duas sequências do trem que, somadas, totalizavam cerca de um minuto. Durante aquela semana e na seguinte, assisti várias vezes as mesmas sequências, quadro a quadro, em busca de um vestígio que me levasse ao autor. De imediato, associei uma imagem congelada na tela a A Chegada do Trem na Estação, filme dos Irmãos Lumière de 1896.

“A Chegada do Trem” de Ludovico Persici em Cenas de Família seria uma citação premeditada? Uma homenagem aos pioneiros - de um inventor para outros - cada qual com o seu cinematógrafo e a estação ferroviária do seu tempo? Para Ludovico, uma diferença de 33 anos. Ele tinha então 28 anos.

A Estrada de Ferro Caravelas é o primeiro trecho ferroviário construído no Espírito Santo, ainda no período Provincial, e Cenas de Família contém o seu registro mais antigo. O Visconde de Mattosinhos, proprietário da empresa Companhia de Navegação e Estrada de Ferro Caravelas, foi o responsável pelo empreendimento. A construção do trecho ferroviário durou menos de dois anos. As obras foram iniciadas em janeiro de 1886 e concluídas em setembro de 1887. O objetivo da ferrovia era transportar o café da região de Alegre e Castelo para Cachoeiro de Itapemirim. De lá, por meio da navegação, para o Porto de Itapemirim, com destino ao Rio de Janeiro, onde seria exportado.4

A Estrada de Ferro Caravelas passou, a partir de 1907, para o controle da Leopoldina Railway. Contava com 71 km, partindo de Cachoeiro de Itapemirim com um ramal de 50 km para o Alegre e outro ramal de 21 km para Castelo, registrado no filme.

Naquele ano de 1927, Ludovico Persici residia em Conceição do Castelo, distrito de Cachoeiro de Itapemirim. Assim também, as “Jovens Castelenses” documentadas na rua e na praia de Marataízes, em Itapemirim e, provavelmente, os 3 amigos do trem, presentes em toda a viagem e em outros empreendimentos registrados no filme por Ludovico.

Até o final daquela década, a lavoura cafeeira capixaba se desenvolveu para colocar o Espírito Santo na esfera nacional, como o quarto produtor brasileiro. O sul do estado, representado pelo município de Cachoeiro de Itapemirim, tinha significativa importância nesse resultado.

Em 1928, criou-se o município de Castelo e o distrito de Conceição do Castelo passou a pertencer-lhe, sendo elevado à categoria de vila. Sua população descende predominantemente de italianos das províncias do nordeste da Itália. A colonização se originou especificamente na Serra do Castelo, que mais tarde daria nome à cidade, assim chamada devido à formação dos montes e vales, que lembravam os castelos medievais europeus.

Nas estações ferroviárias identificadas no trajeto do trem, percebemos, nessa ordem: Coutinho (00:52”),5 Castelo (02’:54”), Santo André (04’:02”)6 e Conduru (13’:08”). Excetuando Coutinho, as demais são vistas de costas ou ao largo do trem em movimento. Como os personagens desembarcam na estação Coutinho, observamos que embarcaram em Castelo, em direção ao município de Cachoeiro de Itapemirim.

Podemos distinguir dois filmes nessa locação: uma ficção e um documentário. Na ficção, o maquinista uniformizado desce do trem cercado por uma nuvem de vapor. Um homem de paletó e gravata o aguarda junto da linha. Um agente de trem uniformizado aproxima-se dos dois. Seguem em direção de uma locomotiva que está parada numa outra linha férrea, em sentido contrário. Um homem de terno está no chão, agarrado ao limpa-trilhos dessa locomotiva. Percebemos um ligeiríssimo tumulto entre o maquinista e esse homem, encenado para a câmera que deriva para a Estação Coutinho. Na plataforma da Estação, um homem de terno desce a rampa em direção à câmera. Plano geral da Estação Coutinho. Uma locomotiva a vapor puxando três carros de passageiros para na ferrovia.

Na ficção, o maquinista é interpretado pelo próprio Ludovico Persici. O homem que desce a rampa da estação e o homem de terno que assistimos agarrado à locomotiva são amigos e atores de Ludovico Persici que o acompanham na viagem do trem. Infelizmente, essa movimentada sequência externa na Estação Coutinho está danificada, com grande perda do conteúdo das cenas. Os planos externos da Estação Coutinho, para a ficção ou para o documentário “A Chegada do Trem”, são belos.

Trata-se da única locação onde a câmera está fora do trem. Além dos planos comentados nessa locação, dois planos fixos de apoio para a montagem desse documentário revelam os quatro amigos embarcados (incluindo Ludovico Persici, identificado por chapéu), vistos em pé, do lado de fora do carro de passageiros (04:57”). Foram provavelmente filmados neste set ou numa possível parada do trem na Estação Conduru (13’:08”). A câmera, que registra a maior parte das paisagens nessa viagem, cria um olhar subjetivo desses viajantes.

No contexto dessa viagem, acompanhamos o passeio de Ludovico e os três amigos na Rodovia Rio-Petrópolis, a primeira rodovia asfaltada do país, um marco da engenharia nacional, que só foi oficialmente inaugurada em agosto de 1928, pelo presidente Washington Luiz, o último presidente da República Velha, deposto pela Revolução de 30. O cidadão que se destaca pela estatura e idade registrado nesse passeio, suponho tratar-se  de um Agente de Privilégios, ou o próprio Leclerc, da Leclerc & Co. Estabelecidos na cidade do Rio de Janeiro, contratada para representar os interesses do inventor em outros países dentro dos prazos previstos no registro de patente para a invenção de "Aperfeiçoamento em apparelhos cinematógraphicos", em 16 de fevereiro de 1927.

No registro das imagens no copião de Ludovico Persici, em Cenas de Família é possível enxergar formas no espaço geográfico retratado que podem percorrer diferentes momentos históricos, desempenhando funções antigas ou novas, o que as tornam uma fonte de conhecimentos. Baseada nessa leitura, consideramos que as imagens para “A Chegada do Trem”, incluídas no copião de Cenas de Família, documentam a viagem de Ludovico Persici e seus amigos ao Rio de Janeiro para registrar o seu Aparelho Cinematográfico Guarany, em 1927.

As notas biográficas publicadas sobre a filmografia de Ludovico Persici destacam Bang-Bang, uma obra que roteirizou, produziu e dirigiu em 1926, tendo como atores os próprios amigos, para pôr em prática o seu invento. Tornava-se, assim, o pioneiro do cinema no Espírito Santo e um dos seus precursores até mesmo no Brasil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

3. Os parceiros foram o Arquivo Nacional, o Arquivo Público Estadual, a Cinemateca Brasileira e a Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo.

4. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

5. Antiga Estação de Mattosinhos (depois chamada Coutinho) Uma homenagem da Leopoldina Railway ao Governador Henrique Coutinho, pela cessão da Estrada de Ferro Caravelas.

6. Estação de Santo André (depois chamada Aracuí, hoje um bairro de Castelo).

O Cineasta e a Restauração

Ourives, relojoeiro, fotógrafo, inventor, cineasta, projecionista, músico e dono de sala de cinema, o inquieto Ludovico Persici nasceu em Alfredo Chaves em 1899 e faleceu em Matilde, onde se encontrava em tratamento de saúde, em 1949. Ludovico era o primogênito de uma prole de dezessete filhos, dos quais dez sobreviveram. Casou-se em 1924 com Eliza Fernandes D’Ávila, a quinta filha de uma família de sete irmãos. O casal não teve filhos.

“Curioso e dotado de notável inteligência e capacidade inventiva, o menino Ludovico frequenta desde muito pequeno a oficina de ourives e relojoeiro do pai, Erasmo Persici, imigrante italiano da Província de Parma. Manuseia ferramentas, desmonta e monta aparelhos buscando decifrar o mecanismo das peças. Segundo seu irmão e biógrafo, Arlindo Persici, é provável que o engenho e a arte tenham se manifestado em Ludovico Persici por volta dos 10 anos de idade, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória–Cachoeiro de Itapemirim, quando o garoto imitava ou tentava reproduzir cada etapa da construção instalando num barranco uma miniatura de cortes, túneis, dormentes, trilhos...Todavia, contrariando a autoridade paterna e não suportando a monotonia da escola e do lugar, abandona os estudos na terceira série primária e foge de casa várias vezes, fazendo com que o severo pai empreendesse verdadeira maratona à sua procura”.1

Ludovico conheceu o cinema muito jovem, aos 14 anos. Em 1913 foi levado para o Rio de Janeiro, para tornar-se ourives e se aperfeiçoar na arte da relojoaria com um grande mestre espanhol. Passou dois anos lá. De todas as novidades que a cidade grande lhe ofereceu, fascinou-se pelo cinematógrafo, tornando-se frequentador assíduo das sessões nos fins de semana. E não raramente assistia a mesma fita incontáveis vezes.

Pioneiro em todos os níveis, Ludovico Persici é a mola propulsora do programa Cine Memória Capixaba, cuja missão é conhecer e difundir a diversidade, a especificidade do nosso cinema e de encontrar as formas de preservá-lo. O único filme que resta de Persici, Cenas de Família, foi localizado e trazido pelo pesquisador doutor José Eugênio Vieira, durante levantamento de fontes primárias para estudo histórico do município capixaba de Castelo. Foi restaurado, de 2005 a 2008, com recursos da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Espírito Santo (Secult-ES). O processo foi encaminhado pela Coordenação de Cinema e Vídeo da Secretaria a partir do projeto Cine Memória Capixaba.

O original, em filme reversível 16mm, foi encontrado embrulhado com jornal numa sacola plástica. Era um rolo grudado, ressecado como um tijolo. Aos nossos olhos, era o negativo próprio para o “Cinematógrafo Guarany”, que Ludovico Persici construiu e patenteou no Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, no Rio de Janeiro, em 1927. Segundo o site do Dicionário de Fotografia Histórica Capixaba, a máquina “...filmava, projetava, copiava, media a metragem do filme, quadro a quadro. Era ainda dotada de uma campainha, que avisava o término da sessão cinematográfica”, tudo num único aparelho em formato compacto e portátil.2

Conhecia a dimensão da importância, e logo vi que precisava de investimento financeiro e tecnologia para resgatar a obra. Meses depois, em parcerias com diversos arquivos,3 a Secult organiza a Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema, produzida pelo Departamento de Audiovisual do Arquivo Nacional, no período de 20 a 31 de maio de 2004, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), com o apoio da imprensa local e institucional, alcançando sucesso de público. Além da programação de filmes de arquivo e duas exposições afins, incluímos quatro mesas temáticas de debates: A Censura no Cinema Brasileiro, A Resistência Cultural no ES, Políticas Públicas de Preservação Audiovisual e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação.

O acervo do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Apees) inclui uma cópia em 16mm de O Sonho e a Máquina, documentário de Alex Viany sobre Ludovico Persici. Feito em 1974, esse filme nos dá a dimensão da sua importância e da presença do estado do Espírito Santo na história do cinema brasileiro. Baseado em pesquisa do jornalista Rogério Medeiros, com fotografia elaborada de Hélio Silva, o filme foi produzido e distribuído pela Embrafilme, produzido pelo capixaba Ney Modenesi.

Os técnicos Clóvis Molinari e Mauro Domingues, do Arquivo Nacional, e Patrícia de Fillipi, da Cinemateca Brasileira, participaram das mesas de Políticas Públicas de Preservação de Filmes e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação como convidados especiais da Secult. Esse suporte técnico teve importância na indicação da Labo Cine do Brasil, no Rio de Janeiro, para a restauração do filme de Ludovico Persici. As justificativas advinham da importância da obra, de seu estado de conservação, da tecnologia exigida e da urgência necessária: a fila de espera na Cinemateca Brasileira para restauração de clássicos nacionais era extensa.

O trabalho de restauração do copião de Cenas de Família, iniciado no ano de 2005, teve a duração de aproximadamente três anos, e ao término desse período foram produzidos um master e um internegativo para a realização da cópia final em 16mm. Essa cópia foi digitalizada e posteriormente, junto com o internegativo, doada para o acervo do Arquivo Público do Espírito Santo.

A primeira exibição do filme Cenas de Família ocorreu em agosto de 2008, no Palácio Anchieta, sede do Governo Estadual, na ocasião do lançamento da segunda edição do livro História do Estado do Espírito Santo, de José Teixeira de Oliveira. Para essa exibição foi utilizada uma cópia digital sonorizada com uma coletânea de músicas de jazz, sob a coordenação do Gabinete da Casa Civil do Governo do Estado do Espírito Santo.

A segunda exibição foi em 2009, na abertura do Projeto Mova Caparaó (6ª. Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). Nesta ocasião, a cópia muda original foi projetada em filme, acompanhada pelo acordeom de Mirano Schuler. O evento foi realizado pela Secult-ES, no município de Alegre, no ano de 2009, sob a coordenação da autora.

As Ferrovias de Cenas de Família

O primeiro e-mail informando os procedimentos iniciados para a recuperação e restauração do filme trouxe algumas imagens em movimento. Em anexo, duas sequências do trem que, somadas, totalizavam cerca de um minuto. Durante aquela semana e na seguinte, assisti várias vezes as mesmas sequências, quadro a quadro, em busca de um vestígio que me levasse ao autor. De imediato, associei uma imagem congelada na tela a A Chegada do Trem na Estação, filme dos Irmãos Lumière de 1896.

“A Chegada do Trem” de Ludovico Persici em Cenas de Família seria uma citação premeditada? Uma homenagem aos pioneiros - de um inventor para outros - cada qual com o seu cinematógrafo e a estação ferroviária do seu tempo? Para Ludovico, uma diferença de 33 anos. Ele tinha então 28 anos.

A Estrada de Ferro Caravelas é o primeiro trecho ferroviário construído no Espírito Santo, ainda no período Provincial, e Cenas de Família contém o seu registro mais antigo. O Visconde de Mattosinhos, proprietário da empresa Companhia de Navegação e Estrada de Ferro Caravelas, foi o responsável pelo empreendimento. A construção do trecho ferroviário durou menos de dois anos. As obras foram iniciadas em janeiro de 1886 e concluídas em setembro de 1887. O objetivo da ferrovia era transportar o café da região de Alegre e Castelo para Cachoeiro de Itapemirim. De lá, por meio da navegação, para o Porto de Itapemirim, com destino ao Rio de Janeiro, onde seria exportado.4

A Estrada de Ferro Caravelas passou, a partir de 1907, para o controle da Leopoldina Railway. Contava com 71 km, partindo de Cachoeiro de Itapemirim com um ramal de 50 km para o Alegre e outro ramal de 21 km para Castelo, registrado no filme.

Naquele ano de 1927, Ludovico Persici residia em Conceição do Castelo, distrito de Cachoeiro de Itapemirim. Assim também, as “Jovens Castelenses” documentadas na rua e na praia de Marataízes, em Itapemirim e, provavelmente, os 3 amigos do trem, presentes em toda a viagem e em outros empreendimentos registrados no filme por Ludovico.

Até o final daquela década, a lavoura cafeeira capixaba se desenvolveu para colocar o Espírito Santo na esfera nacional, como o quarto produtor brasileiro. O sul do estado, representado pelo município de Cachoeiro de Itapemirim, tinha significativa importância nesse resultado.

Em 1928, criou-se o município de Castelo e o distrito de Conceição do Castelo passou a pertencer-lhe, sendo elevado à categoria de vila. Sua população descende predominantemente de italianos das províncias do nordeste da Itália. A colonização se originou especificamente na Serra do Castelo, que mais tarde daria nome à cidade, assim chamada devido à formação dos montes e vales, que lembravam os castelos medievais europeus.

Nas estações ferroviárias identificadas no trajeto do trem, percebemos, nessa ordem: Coutinho (00:52”),5 Castelo (02’:54”), Santo André (04’:02”)6 e Conduru (13’:08”). Excetuando Coutinho, as demais são vistas de costas ou ao largo do trem em movimento. Como os personagens desembarcam na estação Coutinho, observamos que embarcaram em Castelo, em direção ao município de Cachoeiro de Itapemirim.

Podemos distinguir dois filmes nessa locação: uma ficção e um documentário. Na ficção, o maquinista uniformizado desce do trem cercado por uma nuvem de vapor. Um homem de paletó e gravata o aguarda junto da linha. Um agente de trem uniformizado aproxima-se dos dois. Seguem em direção de uma locomotiva que está parada numa outra linha férrea, em sentido contrário. Um homem de terno está no chão, agarrado ao limpa-trilhos dessa locomotiva. Percebemos um ligeiríssimo tumulto entre o maquinista e esse homem, encenado para a câmera que deriva para a Estação Coutinho. Na plataforma da Estação, um homem de terno desce a rampa em direção à câmera. Plano geral da Estação Coutinho. Uma locomotiva a vapor puxando três carros de passageiros para na ferrovia.

Na ficção, o maquinista é interpretado pelo próprio Ludovico Persici. O homem que desce a rampa da estação e o homem de terno que assistimos agarrado à locomotiva são amigos e atores de Ludovico Persici que o acompanham na viagem do trem. Infelizmente, essa movimentada sequência externa na Estação Coutinho está danificada, com grande perda do conteúdo das cenas. Os planos externos da Estação Coutinho, para a ficção ou para o documentário “A Chegada do Trem”, são belos.

Trata-se da única locação onde a câmera está fora do trem. Além dos planos comentados nessa locação, dois planos fixos de apoio para a montagem desse documentário revelam os quatro amigos embarcados (incluindo Ludovico Persici, identificado por chapéu), vistos em pé, do lado de fora do carro de passageiros (04:57”). Foram provavelmente filmados neste set ou numa possível parada do trem na Estação Conduru (13’:08”). A câmera, que registra a maior parte das paisagens nessa viagem, cria um olhar subjetivo desses viajantes.

No contexto dessa viagem, acompanhamos o passeio de Ludovico e os três amigos na Rodovia Rio-Petrópolis, a primeira rodovia asfaltada do país, um marco da engenharia nacional, que só foi oficialmente inaugurada em agosto de 1928, pelo presidente Washington Luiz, o último presidente da República Velha, deposto pela Revolução de 30. O cidadão que se destaca pela estatura e idade registrado nesse passeio, suponho tratar-se  de um Agente de Privilégios, ou o próprio Leclerc, da Leclerc & Co. Estabelecidos na cidade do Rio de Janeiro, contratada para representar os interesses do inventor em outros países dentro dos prazos previstos no registro de patente para a invenção de "Aperfeiçoamento em apparelhos cinematógraphicos", em 16 de fevereiro de 1927.

No registro das imagens no copião de Ludovico Persici, em Cenas de Família é possível enxergar formas no espaço geográfico retratado que podem percorrer diferentes momentos históricos, desempenhando funções antigas ou novas, o que as tornam uma fonte de conhecimentos. Baseada nessa leitura, consideramos que as imagens para “A Chegada do Trem”, incluídas no copião de Cenas de Família, documentam a viagem de Ludovico Persici e seus amigos ao Rio de Janeiro para registrar o seu Aparelho Cinematográfico Guarany, em 1927.

As notas biográficas publicadas sobre a filmografia de Ludovico Persici destacam Bang-Bang, uma obra que roteirizou, produziu e dirigiu em 1926, tendo como atores os próprios amigos, para pôr em prática o seu invento. Tornava-se, assim, o pioneiro do cinema no Espírito Santo e um dos seus precursores até mesmo no Brasil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

3. Os parceiros foram o Arquivo Nacional, o Arquivo Público Estadual, a Cinemateca Brasileira e a Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo.

4. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

5. Antiga Estação de Mattosinhos (depois chamada Coutinho) Uma homenagem da Leopoldina Railway ao Governador Henrique Coutinho, pela cessão da Estrada de Ferro Caravelas.

6. Estação de Santo André (depois chamada Aracuí, hoje um bairro de Castelo).

The Filmmaker and the Restoration

Goldsmith, watchmaker, photographer, inventor, filmmaker, projectionist, musician and owner of a movie theater, the restless Ludovico Persici was born in 1899 in Alfredo Chaves, a municipality of Espírito Santo. Persici was the firstborn of seventeen offspring of whom ten survived. In 1924, he married Eliza Fernandes D’Ávila, the fifth daughter in a family of seven. The couple had no children.

Curious and gifted with remarkable intelligence and invention skills, Ludovico was still in his early years when he started attending the goldsmithing and watchmaking workshop of his father, Erasmo Persici, an Italian immigrant from the province of Parma. He handled tools and disassembled and assembled devices in order to better understand how they worked. According to his brother and biographer Arlindo Persici, it is likely that ingenuity and art manifested in Ludovico Persici around the age of 10 during the construction of the Vitória–Cachoeiro de Itapemirim Railway. The boy mimicked or tried to reproduce each stage of that construction by finding a gully to place a miniature of cuttings, tunnels, crossties, and rails… Nevertheless, going against his father’s authority and not enduring the monotony of his third year of primary school, Ludovico abandoned his studies and ran away from home several times. Ludovico was so hard to pin down that the strict father had to undertake a marathon in search of him.¹

Persici was young when he discovered cinema, only 14. In 1913, he was taken to Rio de Janeiro to become a goldsmith and to improve his skills in the art of watchmaking alongside a great Spanish master. He spent two years in Rio. Of all the novelties that the big city had to offer, the cinematograph was the one that fascinated him most. He became a frequent visitor to weekend movie house screenings, often watching the same films over and over again.

A pioneer in every respect, Ludovico Persici is the driving force behind the Cine Memória Capixaba program, whose mission is to discover and spread the diversity of Espírito Santo cinema and to find ways of preserving it. Persici’s only surviving film, Cenas de Família, was considered lost until PhD researcher José Eugênio Vieira discovered it while assessing primary sources for a historical study on Castelo, a municipality located in the state of Espírito Santo. The film was subsequently restored from 2004 to 2010 with funding from the Secretary of Culture of the Government of the State of Espírito Santo (Secult-ES).2 The process was carried out by the Secretary’s Coordination of Cinema and Video under the framework of the project Cine Memória Capixaba.

The original 16mm reversible film print of Cenas de Família was found wrapped inside a newspaper in a plastic bag. The print was stuck together and dried out like a brick. As far as we could tell upon first looking at the print, it was the negative of the first film shot with the “Cinematógrafo Guarany” [Guanarany Cinematograph], the camera Ludovico Persici built and patented at the Ministry of Agriculture, Industry, and Commerce, in Rio de Janeiro in 1927. According to the Dicionário Histórico Fotográfico Capixaba website, the machine “...filmed, projected, copied, and measured the film length frame by frame. It was also equipped with a bell, which announced the end of the cinematographic screening”.3 Persici managed to put all these features into a single portable device.

I was aware of how historically important this film was and soon realized that a major financial investment and the right technology would be needed to restore the work. Months after we discovered the film print, Secult-ES partnered with Brazilian film archives4 to put on Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema [Archival Film Screening Series: Censorship and Film]. The screening series took place in 2004 with the support of local and institutional press, achieving success among audiences. In addition to this program of archival films we put on four thematic discussion panels: Censorship in Brazilian Cinema, Cultural Resistance in Espírito Santo, Public Policies for Audiovisual Preservation and New Technologies Applied to Preservation.

One of the films shown at this screening series was O Sonho e a Máquina, a documentary by Alex Viany about Ludovico Persici. The film archive of the Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo [Public Archive of the State of Espírito Santo] holds a 16mm print of the film. Made in 1974, this film provides insight into Persici’s importance as well as Espírito Santo’s presence in the history of Brazilian cinema. Based on an investigation conducted by journalist Rogério Medeiros, this film was gorgeously shot by Hélio Silva, distributed by Embrafilme, and produced by capixaba Ney Modenesi.  

Technicians Clóvis Molinari and Mauro Domingues, from Arquivo Nacional, and Patrícia de Fillipi, from the Cinemateca Brasileira, participated in the Public Policies for Audiovisual Preservation and the New Technologies Applied to Preservation panels as Secult-ES’s special guests. Their technical support was key in allowing us to appoint Rio de Janeiro-based Labo Cine do Brasil as the laboratory to undertake the restoration of Ludovico Persici's film. The decision to work with Labo Cine was grounded in the historical importance of this film, the urgency to work on it, its poor conservation status, and the specific technology required in the restoration process. Cenas de Família received its name at Labo Cine, following the identification of frames portraying scenes of everyday family life.

The restoration work on the Cenas de Família’s print started in 2005 and lasted about three years. By the end of that time, a master print and an internegative were produced as a basis for the final copy in 16mm. This copy was digitized and later donated along with the internegative to the archives of Arquivo Público do Espírito Santo.

Cenas de Família’s first screening took place in August 2008 at the Anchieta Palace, headquarters of the State Government. The screening took place together with the release of the second edition of the book História do Estado do Espírito Santo [History of the State of Espírito Santo] by José Teixeira de Oliveira. A digital copy of the film was scored with a collection of jazz songs and then projected at this event, which was coordinated by the Office of the Civil House of the Government of the State of Espírito Santo. The second screening of Cenas de Família took place in 2009 at the opening of Projeto Mova Caparaó (6th Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). For this screening, the restored film print was shown and the projection of the original silent copy was backed up by the accordion of Mirano Schuler. The event was carried out by Secult-ES in the municipality of Alegre, under the coordination of the author of this text.

The Railways of Cenas de Família

The e-mail that first notified the beginning of the restoration process of Cenas de Família came along with a handful of preliminary moving images. Attached, we found two train sequences whose combined running time amounted to about a minute. Throughout that week and the following one, I watched these sequences several times, frame by frame, in search of a clue or remnant that could lead me to their author. Immediately, a particular image frozen on the screen seemed to echo Arrival of a Train at La Ciotat, the Lumière Brothers’ 1896 film.

Could Ludovico Persici's “A Chegada do Trem” [Arrival of a Train] in Cenas de Família be a premeditated quote? A tribute to the pioneers – from one inventor to a duo of inventors – each with their own cinematograph and the train station of their respective time? For Ludovico, there was a 33-year gap between himself and the Lumière Brothers’. He was then 28 years old.

The Caravelas Railway was the first train segment built in Espírito Santo, still in the Provincial period, and its images in Cenas de Família are its oldest records. The Viscount of Mattosinhos, who owned Companhia de Navegação and Estrada de Ferro Caravelas [Caravelas Railroad and Navigation Company], was responsible for the creation of the railway. The construction of the railway route took less than two years. The work began in January 1886 and was concluded in September 1887.5 The construction was for the transportation of coffee from the region of Alegre and Castelo to Cachoeiro de Itapemirim. A vessel loaded with the product would then head to the Port of Itapemirim and finally be bound for Rio de Janeiro, where the coffee would be exported.

The Caravelas Railway had come under the control of company Leopoldina Railway in 1907. It was 71 km long, starting from Cachoeiro de Itapemirim and splitting into a 50km long branch line to Alegre and another 21km long line to Castelo. The latter is the one documented in the film.

In the same year of 1927, Ludovico Persici was living in Conceição do Castelo, in the Cachoeiro de Itapemirim district. He was living there along with the “Jovens Castelenses” [young girls from Conceição do Castelo] documented on the street and on the beach of Marataízes. Also living there, presumably, were his three friends on the train, who are there throughout the whole trip and in other ventures recorded by Ludovico in the film.

By the end of that decade, coffee production in Espírito Santo had developed to the extent that the state had become the fourth-ranked producer in the country. The south of the state played a major role in this achievement on account of the coffee production levels within the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

In 1928, the county of Castelo was established and the district of Conceição do Castelo was made part of it, gaining the status of a village. Its population descends predominantly from Italians coming from Italy’s northeastern provinces. Colonization originated particularly in Serra do Castelo, which would later lend the city its name. It was so called due to the formation of hills and valleys that resembled European medieval castles.

While observing the railway stations as identified on the train’s path, we find the following sequence: Coutinho (00’52”),6 Castelo (02’54”), Santo André (04’02”)7 and Conduru (13’08”). Except for Coutinho, these stations are spotted from behind or along the moving train. As the characters disembark at Coutinho Station, this allows us to surmise that they came aboard in Castelo, towards the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

We can distinguish two films in this location: a fiction and a documentary. In the fiction, the driver in uniform gets off the train surrounded by a cloud of steam. A man in a jacket and tie awaits him by the line. A uniformed train agent comes close to both of them. They head towards a locomotive stopped on another railway line, in the opposite direction. A man in a suit is on the ground, clinging to the locomotive's track cleaner. We then notice a very brief turmoil between the driver and this man, staged for the camera while it drifts to Coutinho Station. On the station platform, a man in a suit goes down the ramp towards the camera. Wide shot of Coutinho Station. A three-car passenger steam locomotive stops at the railroad.

In the fiction, the driver is played by Ludovico Persici himself. The man who goes down the station ramp and the man in a suit whom we watch clinging to the locomotive are his friends and actors who accompany him on the train journey. Sadly, this eventful external sequence at Coutinho Station is damaged and the content of the scenes has undergone great loss. The external shots of the Coutinho Station are beautiful, either for the fiction or for the documentary “A Chegada do Trem”.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

We now join Ludovico and his three friends on a trip down the Rio-Petrópolis Highway, the first paved highway in the country and a landmark of national engineering. The Rio-Petrópolis Highway was only officially opened in August 1928 by President Washington Luiz, the last president of the República Velha [Old Republic], deposed by the Revolução de 30 [Revolution of 1930].

We believe that the images shot for “A Chegada do Trem”, included in the rough cut of Cenas de Família, document the trip of Ludovico Persici and his friends to copyright his Guarany Cinematographic Apparatus in Rio de Janeiro in 1927. The biographical notes published on Ludovico Persici’s filmography usually highlight Bang-Bang, a film which was scripted, produced and directed by Persici in 1926. Persici used his own friends as actors in order to put his invention into practice. He thus became the cinema pioneer in Espírito Santo and we might even say one of its precursors in Brazil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. TN. Mentions to local institutions, venues, grant and cultural programs and artistic or research works throughout this text may be directly translated to English, when this seems accurate and adequate. Otherwise, in case the original name in Portuguese is to be registered, necessary translation will be found in brackets for better understanding.

3. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

4. Institutions include Arquivo Nacional [National Archive], Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo (APEES) [Public Archive of the State of Espírito Santo], Cinemateca Brasileira and also the Legislative Assembly of the State of Espírito Santo (Ales).

5. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

6. Former Mattosinhos Station (later called Coutinho). A tribute by Leopoldina Railway to Governor Henrique Coutinho, on account of transferring the Caravelas Railway.

7. Santo André Station (later called Aracuí, which is currently the name of a neighborhood in Castelo).

The Filmmaker and the Restoration

Goldsmith, watchmaker, photographer, inventor, filmmaker, projectionist, musician and owner of a movie theater, the restless Ludovico Persici was born in 1899 in Alfredo Chaves, a municipality of Espírito Santo. Persici was the firstborn of seventeen offspring of whom ten survived. In 1924, he married Eliza Fernandes D’Ávila, the fifth daughter in a family of seven. The couple had no children.

Curious and gifted with remarkable intelligence and invention skills, Ludovico was still in his early years when he started attending the goldsmithing and watchmaking workshop of his father, Erasmo Persici, an Italian immigrant from the province of Parma. He handled tools and disassembled and assembled devices in order to better understand how they worked. According to his brother and biographer Arlindo Persici, it is likely that ingenuity and art manifested in Ludovico Persici around the age of 10 during the construction of the Vitória–Cachoeiro de Itapemirim Railway. The boy mimicked or tried to reproduce each stage of that construction by finding a gully to place a miniature of cuttings, tunnels, crossties, and rails… Nevertheless, going against his father’s authority and not enduring the monotony of his third year of primary school, Ludovico abandoned his studies and ran away from home several times. Ludovico was so hard to pin down that the strict father had to undertake a marathon in search of him.¹

Persici was young when he discovered cinema, only 14. In 1913, he was taken to Rio de Janeiro to become a goldsmith and to improve his skills in the art of watchmaking alongside a great Spanish master. He spent two years in Rio. Of all the novelties that the big city had to offer, the cinematograph was the one that fascinated him most. He became a frequent visitor to weekend movie house screenings, often watching the same films over and over again.

A pioneer in every respect, Ludovico Persici is the driving force behind the Cine Memória Capixaba program, whose mission is to discover and spread the diversity of Espírito Santo cinema and to find ways of preserving it. Persici’s only surviving film, Cenas de Família, was considered lost until PhD researcher José Eugênio Vieira discovered it while assessing primary sources for a historical study on Castelo, a municipality located in the state of Espírito Santo. The film was subsequently restored from 2004 to 2010 with funding from the Secretary of Culture of the Government of the State of Espírito Santo (Secult-ES).2 The process was carried out by the Secretary’s Coordination of Cinema and Video under the framework of the project Cine Memória Capixaba.

The original 16mm reversible film print of Cenas de Família was found wrapped inside a newspaper in a plastic bag. The print was stuck together and dried out like a brick. As far as we could tell upon first looking at the print, it was the negative of the first film shot with the “Cinematógrafo Guarany” [Guanarany Cinematograph], the camera Ludovico Persici built and patented at the Ministry of Agriculture, Industry, and Commerce, in Rio de Janeiro in 1927. According to the Dicionário Histórico Fotográfico Capixaba website, the machine “...filmed, projected, copied, and measured the film length frame by frame. It was also equipped with a bell, which announced the end of the cinematographic screening”.3 Persici managed to put all these features into a single portable device.

I was aware of how historically important this film was and soon realized that a major financial investment and the right technology would be needed to restore the work. Months after we discovered the film print, Secult-ES partnered with Brazilian film archives4 to put on Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema [Archival Film Screening Series: Censorship and Film]. The screening series took place in 2004 with the support of local and institutional press, achieving success among audiences. In addition to this program of archival films we put on four thematic discussion panels: Censorship in Brazilian Cinema, Cultural Resistance in Espírito Santo, Public Policies for Audiovisual Preservation and New Technologies Applied to Preservation.

One of the films shown at this screening series was O Sonho e a Máquina, a documentary by Alex Viany about Ludovico Persici. The film archive of the Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo [Public Archive of the State of Espírito Santo] holds a 16mm print of the film. Made in 1974, this film provides insight into Persici’s importance as well as Espírito Santo’s presence in the history of Brazilian cinema. Based on an investigation conducted by journalist Rogério Medeiros, this film was gorgeously shot by Hélio Silva, distributed by Embrafilme, and produced by capixaba Ney Modenesi.  

Technicians Clóvis Molinari and Mauro Domingues, from Arquivo Nacional, and Patrícia de Fillipi, from the Cinemateca Brasileira, participated in the Public Policies for Audiovisual Preservation and the New Technologies Applied to Preservation panels as Secult-ES’s special guests. Their technical support was key in allowing us to appoint Rio de Janeiro-based Labo Cine do Brasil as the laboratory to undertake the restoration of Ludovico Persici's film. The decision to work with Labo Cine was grounded in the historical importance of this film, the urgency to work on it, its poor conservation status, and the specific technology required in the restoration process. Cenas de Família received its name at Labo Cine, following the identification of frames portraying scenes of everyday family life.

The restoration work on the Cenas de Família’s print started in 2005 and lasted about three years. By the end of that time, a master print and an internegative were produced as a basis for the final copy in 16mm. This copy was digitized and later donated along with the internegative to the archives of Arquivo Público do Espírito Santo.

Cenas de Família’s first screening took place in August 2008 at the Anchieta Palace, headquarters of the State Government. The screening took place together with the release of the second edition of the book História do Estado do Espírito Santo [History of the State of Espírito Santo] by José Teixeira de Oliveira. A digital copy of the film was scored with a collection of jazz songs and then projected at this event, which was coordinated by the Office of the Civil House of the Government of the State of Espírito Santo. The second screening of Cenas de Família took place in 2009 at the opening of Projeto Mova Caparaó (6th Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). For this screening, the restored film print was shown and the projection of the original silent copy was backed up by the accordion of Mirano Schuler. The event was carried out by Secult-ES in the municipality of Alegre, under the coordination of the author of this text.

The Railways of Cenas de Família

The e-mail that first notified the beginning of the restoration process of Cenas de Família came along with a handful of preliminary moving images. Attached, we found two train sequences whose combined running time amounted to about a minute. Throughout that week and the following one, I watched these sequences several times, frame by frame, in search of a clue or remnant that could lead me to their author. Immediately, a particular image frozen on the screen seemed to echo Arrival of a Train at La Ciotat, the Lumière Brothers’ 1896 film.

Could Ludovico Persici's “A Chegada do Trem” [Arrival of a Train] in Cenas de Família be a premeditated quote? A tribute to the pioneers – from one inventor to a duo of inventors – each with their own cinematograph and the train station of their respective time? For Ludovico, there was a 33-year gap between himself and the Lumière Brothers’. He was then 28 years old.

The Caravelas Railway was the first train segment built in Espírito Santo, still in the Provincial period, and its images in Cenas de Família are its oldest records. The Viscount of Mattosinhos, who owned Companhia de Navegação and Estrada de Ferro Caravelas [Caravelas Railroad and Navigation Company], was responsible for the creation of the railway. The construction of the railway route took less than two years. The work began in January 1886 and was concluded in September 1887.5 The construction was for the transportation of coffee from the region of Alegre and Castelo to Cachoeiro de Itapemirim. A vessel loaded with the product would then head to the Port of Itapemirim and finally be bound for Rio de Janeiro, where the coffee would be exported.

The Caravelas Railway had come under the control of company Leopoldina Railway in 1907. It was 71 km long, starting from Cachoeiro de Itapemirim and splitting into a 50km long branch line to Alegre and another 21km long line to Castelo. The latter is the one documented in the film.

In the same year of 1927, Ludovico Persici was living in Conceição do Castelo, in the Cachoeiro de Itapemirim district. He was living there along with the “Jovens Castelenses” [young girls from Conceição do Castelo] documented on the street and on the beach of Marataízes. Also living there, presumably, were his three friends on the train, who are there throughout the whole trip and in other ventures recorded by Ludovico in the film.

By the end of that decade, coffee production in Espírito Santo had developed to the extent that the state had become the fourth-ranked producer in the country. The south of the state played a major role in this achievement on account of the coffee production levels within the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

In 1928, the county of Castelo was established and the district of Conceição do Castelo was made part of it, gaining the status of a village. Its population descends predominantly from Italians coming from Italy’s northeastern provinces. Colonization originated particularly in Serra do Castelo, which would later lend the city its name. It was so called due to the formation of hills and valleys that resembled European medieval castles.

While observing the railway stations as identified on the train’s path, we find the following sequence: Coutinho (00’52”),6 Castelo (02’54”), Santo André (04’02”)7 and Conduru (13’08”). Except for Coutinho, these stations are spotted from behind or along the moving train. As the characters disembark at Coutinho Station, this allows us to surmise that they came aboard in Castelo, towards the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

We can distinguish two films in this location: a fiction and a documentary. In the fiction, the driver in uniform gets off the train surrounded by a cloud of steam. A man in a jacket and tie awaits him by the line. A uniformed train agent comes close to both of them. They head towards a locomotive stopped on another railway line, in the opposite direction. A man in a suit is on the ground, clinging to the locomotive's track cleaner. We then notice a very brief turmoil between the driver and this man, staged for the camera while it drifts to Coutinho Station. On the station platform, a man in a suit goes down the ramp towards the camera. Wide shot of Coutinho Station. A three-car passenger steam locomotive stops at the railroad.

In the fiction, the driver is played by Ludovico Persici himself. The man who goes down the station ramp and the man in a suit whom we watch clinging to the locomotive are his friends and actors who accompany him on the train journey. Sadly, this eventful external sequence at Coutinho Station is damaged and the content of the scenes has undergone great loss. The external shots of the Coutinho Station are beautiful, either for the fiction or for the documentary “A Chegada do Trem”.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

We now join Ludovico and his three friends on a trip down the Rio-Petrópolis Highway, the first paved highway in the country and a landmark of national engineering. The Rio-Petrópolis Highway was only officially opened in August 1928 by President Washington Luiz, the last president of the República Velha [Old Republic], deposed by the Revolução de 30 [Revolution of 1930].

We believe that the images shot for “A Chegada do Trem”, included in the rough cut of Cenas de Família, document the trip of Ludovico Persici and his friends to copyright his Guarany Cinematographic Apparatus in Rio de Janeiro in 1927. The biographical notes published on Ludovico Persici’s filmography usually highlight Bang-Bang, a film which was scripted, produced and directed by Persici in 1926. Persici used his own friends as actors in order to put his invention into practice. He thus became the cinema pioneer in Espírito Santo and we might even say one of its precursors in Brazil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. TN. Mentions to local institutions, venues, grant and cultural programs and artistic or research works throughout this text may be directly translated to English, when this seems accurate and adequate. Otherwise, in case the original name in Portuguese is to be registered, necessary translation will be found in brackets for better understanding.

3. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

4. Institutions include Arquivo Nacional [National Archive], Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo (APEES) [Public Archive of the State of Espírito Santo], Cinemateca Brasileira and also the Legislative Assembly of the State of Espírito Santo (Ales).

5. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

6. Former Mattosinhos Station (later called Coutinho). A tribute by Leopoldina Railway to Governor Henrique Coutinho, on account of transferring the Caravelas Railway.

7. Santo André Station (later called Aracuí, which is currently the name of a neighborhood in Castelo).

PT/ENG
PT/ENG
19/5/2021
By/Por:
Margarete Taqueti
O Cineasta e a Restauração

Ourives, relojoeiro, fotógrafo, inventor, cineasta, projecionista, músico e dono de sala de cinema, o inquieto Ludovico Persici nasceu em Alfredo Chaves em 1899 e faleceu em Matilde, onde se encontrava em tratamento de saúde, em 1949. Ludovico era o primogênito de uma prole de dezessete filhos, dos quais dez sobreviveram. Casou-se em 1924 com Eliza Fernandes D’Ávila, a quinta filha de uma família de sete irmãos. O casal não teve filhos.

“Curioso e dotado de notável inteligência e capacidade inventiva, o menino Ludovico frequenta desde muito pequeno a oficina de ourives e relojoeiro do pai, Erasmo Persici, imigrante italiano da Província de Parma. Manuseia ferramentas, desmonta e monta aparelhos buscando decifrar o mecanismo das peças. Segundo seu irmão e biógrafo, Arlindo Persici, é provável que o engenho e a arte tenham se manifestado em Ludovico Persici por volta dos 10 anos de idade, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória–Cachoeiro de Itapemirim, quando o garoto imitava ou tentava reproduzir cada etapa da construção instalando num barranco uma miniatura de cortes, túneis, dormentes, trilhos...Todavia, contrariando a autoridade paterna e não suportando a monotonia da escola e do lugar, abandona os estudos na terceira série primária e foge de casa várias vezes, fazendo com que o severo pai empreendesse verdadeira maratona à sua procura”.1

Ludovico conheceu o cinema muito jovem, aos 14 anos. Em 1913 foi levado para o Rio de Janeiro, para tornar-se ourives e se aperfeiçoar na arte da relojoaria com um grande mestre espanhol. Passou dois anos lá. De todas as novidades que a cidade grande lhe ofereceu, fascinou-se pelo cinematógrafo, tornando-se frequentador assíduo das sessões nos fins de semana. E não raramente assistia a mesma fita incontáveis vezes.

Pioneiro em todos os níveis, Ludovico Persici é a mola propulsora do programa Cine Memória Capixaba, cuja missão é conhecer e difundir a diversidade, a especificidade do nosso cinema e de encontrar as formas de preservá-lo. O único filme que resta de Persici, Cenas de Família, foi localizado e trazido pelo pesquisador doutor José Eugênio Vieira, durante levantamento de fontes primárias para estudo histórico do município capixaba de Castelo. Foi restaurado, de 2005 a 2008, com recursos da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Espírito Santo (Secult-ES). O processo foi encaminhado pela Coordenação de Cinema e Vídeo da Secretaria a partir do projeto Cine Memória Capixaba.

O original, em filme reversível 16mm, foi encontrado embrulhado com jornal numa sacola plástica. Era um rolo grudado, ressecado como um tijolo. Aos nossos olhos, era o negativo próprio para o “Cinematógrafo Guarany”, que Ludovico Persici construiu e patenteou no Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, no Rio de Janeiro, em 1927. Segundo o site do Dicionário de Fotografia Histórica Capixaba, a máquina “...filmava, projetava, copiava, media a metragem do filme, quadro a quadro. Era ainda dotada de uma campainha, que avisava o término da sessão cinematográfica”, tudo num único aparelho em formato compacto e portátil.2

Conhecia a dimensão da importância, e logo vi que precisava de investimento financeiro e tecnologia para resgatar a obra. Meses depois, em parcerias com diversos arquivos,3 a Secult organiza a Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema, produzida pelo Departamento de Audiovisual do Arquivo Nacional, no período de 20 a 31 de maio de 2004, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), com o apoio da imprensa local e institucional, alcançando sucesso de público. Além da programação de filmes de arquivo e duas exposições afins, incluímos quatro mesas temáticas de debates: A Censura no Cinema Brasileiro, A Resistência Cultural no ES, Políticas Públicas de Preservação Audiovisual e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação.

O acervo do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Apees) inclui uma cópia em 16mm de O Sonho e a Máquina, documentário de Alex Viany sobre Ludovico Persici. Feito em 1974, esse filme nos dá a dimensão da sua importância e da presença do estado do Espírito Santo na história do cinema brasileiro. Baseado em pesquisa do jornalista Rogério Medeiros, com fotografia elaborada de Hélio Silva, o filme foi produzido e distribuído pela Embrafilme, produzido pelo capixaba Ney Modenesi.

Os técnicos Clóvis Molinari e Mauro Domingues, do Arquivo Nacional, e Patrícia de Fillipi, da Cinemateca Brasileira, participaram das mesas de Políticas Públicas de Preservação de Filmes e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação como convidados especiais da Secult. Esse suporte técnico teve importância na indicação da Labo Cine do Brasil, no Rio de Janeiro, para a restauração do filme de Ludovico Persici. As justificativas advinham da importância da obra, de seu estado de conservação, da tecnologia exigida e da urgência necessária: a fila de espera na Cinemateca Brasileira para restauração de clássicos nacionais era extensa.

O trabalho de restauração do copião de Cenas de Família, iniciado no ano de 2005, teve a duração de aproximadamente três anos, e ao término desse período foram produzidos um master e um internegativo para a realização da cópia final em 16mm. Essa cópia foi digitalizada e posteriormente, junto com o internegativo, doada para o acervo do Arquivo Público do Espírito Santo.

A primeira exibição do filme Cenas de Família ocorreu em agosto de 2008, no Palácio Anchieta, sede do Governo Estadual, na ocasião do lançamento da segunda edição do livro História do Estado do Espírito Santo, de José Teixeira de Oliveira. Para essa exibição foi utilizada uma cópia digital sonorizada com uma coletânea de músicas de jazz, sob a coordenação do Gabinete da Casa Civil do Governo do Estado do Espírito Santo.

A segunda exibição foi em 2009, na abertura do Projeto Mova Caparaó (6ª. Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). Nesta ocasião, a cópia muda original foi projetada em filme, acompanhada pelo acordeom de Mirano Schuler. O evento foi realizado pela Secult-ES, no município de Alegre, no ano de 2009, sob a coordenação da autora.

As Ferrovias de Cenas de Família

O primeiro e-mail informando os procedimentos iniciados para a recuperação e restauração do filme trouxe algumas imagens em movimento. Em anexo, duas sequências do trem que, somadas, totalizavam cerca de um minuto. Durante aquela semana e na seguinte, assisti várias vezes as mesmas sequências, quadro a quadro, em busca de um vestígio que me levasse ao autor. De imediato, associei uma imagem congelada na tela a A Chegada do Trem na Estação, filme dos Irmãos Lumière de 1896.

“A Chegada do Trem” de Ludovico Persici em Cenas de Família seria uma citação premeditada? Uma homenagem aos pioneiros - de um inventor para outros - cada qual com o seu cinematógrafo e a estação ferroviária do seu tempo? Para Ludovico, uma diferença de 33 anos. Ele tinha então 28 anos.

A Estrada de Ferro Caravelas é o primeiro trecho ferroviário construído no Espírito Santo, ainda no período Provincial, e Cenas de Família contém o seu registro mais antigo. O Visconde de Mattosinhos, proprietário da empresa Companhia de Navegação e Estrada de Ferro Caravelas, foi o responsável pelo empreendimento. A construção do trecho ferroviário durou menos de dois anos. As obras foram iniciadas em janeiro de 1886 e concluídas em setembro de 1887. O objetivo da ferrovia era transportar o café da região de Alegre e Castelo para Cachoeiro de Itapemirim. De lá, por meio da navegação, para o Porto de Itapemirim, com destino ao Rio de Janeiro, onde seria exportado.4

A Estrada de Ferro Caravelas passou, a partir de 1907, para o controle da Leopoldina Railway. Contava com 71 km, partindo de Cachoeiro de Itapemirim com um ramal de 50 km para o Alegre e outro ramal de 21 km para Castelo, registrado no filme.

Naquele ano de 1927, Ludovico Persici residia em Conceição do Castelo, distrito de Cachoeiro de Itapemirim. Assim também, as “Jovens Castelenses” documentadas na rua e na praia de Marataízes, em Itapemirim e, provavelmente, os 3 amigos do trem, presentes em toda a viagem e em outros empreendimentos registrados no filme por Ludovico.

Até o final daquela década, a lavoura cafeeira capixaba se desenvolveu para colocar o Espírito Santo na esfera nacional, como o quarto produtor brasileiro. O sul do estado, representado pelo município de Cachoeiro de Itapemirim, tinha significativa importância nesse resultado.

Em 1928, criou-se o município de Castelo e o distrito de Conceição do Castelo passou a pertencer-lhe, sendo elevado à categoria de vila. Sua população descende predominantemente de italianos das províncias do nordeste da Itália. A colonização se originou especificamente na Serra do Castelo, que mais tarde daria nome à cidade, assim chamada devido à formação dos montes e vales, que lembravam os castelos medievais europeus.

Nas estações ferroviárias identificadas no trajeto do trem, percebemos, nessa ordem: Coutinho (00:52”),5 Castelo (02’:54”), Santo André (04’:02”)6 e Conduru (13’:08”). Excetuando Coutinho, as demais são vistas de costas ou ao largo do trem em movimento. Como os personagens desembarcam na estação Coutinho, observamos que embarcaram em Castelo, em direção ao município de Cachoeiro de Itapemirim.

Podemos distinguir dois filmes nessa locação: uma ficção e um documentário. Na ficção, o maquinista uniformizado desce do trem cercado por uma nuvem de vapor. Um homem de paletó e gravata o aguarda junto da linha. Um agente de trem uniformizado aproxima-se dos dois. Seguem em direção de uma locomotiva que está parada numa outra linha férrea, em sentido contrário. Um homem de terno está no chão, agarrado ao limpa-trilhos dessa locomotiva. Percebemos um ligeiríssimo tumulto entre o maquinista e esse homem, encenado para a câmera que deriva para a Estação Coutinho. Na plataforma da Estação, um homem de terno desce a rampa em direção à câmera. Plano geral da Estação Coutinho. Uma locomotiva a vapor puxando três carros de passageiros para na ferrovia.

Na ficção, o maquinista é interpretado pelo próprio Ludovico Persici. O homem que desce a rampa da estação e o homem de terno que assistimos agarrado à locomotiva são amigos e atores de Ludovico Persici que o acompanham na viagem do trem. Infelizmente, essa movimentada sequência externa na Estação Coutinho está danificada, com grande perda do conteúdo das cenas. Os planos externos da Estação Coutinho, para a ficção ou para o documentário “A Chegada do Trem”, são belos.

Trata-se da única locação onde a câmera está fora do trem. Além dos planos comentados nessa locação, dois planos fixos de apoio para a montagem desse documentário revelam os quatro amigos embarcados (incluindo Ludovico Persici, identificado por chapéu), vistos em pé, do lado de fora do carro de passageiros (04:57”). Foram provavelmente filmados neste set ou numa possível parada do trem na Estação Conduru (13’:08”). A câmera, que registra a maior parte das paisagens nessa viagem, cria um olhar subjetivo desses viajantes.

No contexto dessa viagem, acompanhamos o passeio de Ludovico e os três amigos na Rodovia Rio-Petrópolis, a primeira rodovia asfaltada do país, um marco da engenharia nacional, que só foi oficialmente inaugurada em agosto de 1928, pelo presidente Washington Luiz, o último presidente da República Velha, deposto pela Revolução de 30. O cidadão que se destaca pela estatura e idade registrado nesse passeio, suponho tratar-se  de um Agente de Privilégios, ou o próprio Leclerc, da Leclerc & Co. Estabelecidos na cidade do Rio de Janeiro, contratada para representar os interesses do inventor em outros países dentro dos prazos previstos no registro de patente para a invenção de "Aperfeiçoamento em apparelhos cinematógraphicos", em 16 de fevereiro de 1927.

No registro das imagens no copião de Ludovico Persici, em Cenas de Família é possível enxergar formas no espaço geográfico retratado que podem percorrer diferentes momentos históricos, desempenhando funções antigas ou novas, o que as tornam uma fonte de conhecimentos. Baseada nessa leitura, consideramos que as imagens para “A Chegada do Trem”, incluídas no copião de Cenas de Família, documentam a viagem de Ludovico Persici e seus amigos ao Rio de Janeiro para registrar o seu Aparelho Cinematográfico Guarany, em 1927.

As notas biográficas publicadas sobre a filmografia de Ludovico Persici destacam Bang-Bang, uma obra que roteirizou, produziu e dirigiu em 1926, tendo como atores os próprios amigos, para pôr em prática o seu invento. Tornava-se, assim, o pioneiro do cinema no Espírito Santo e um dos seus precursores até mesmo no Brasil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

3. Os parceiros foram o Arquivo Nacional, o Arquivo Público Estadual, a Cinemateca Brasileira e a Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo.

4. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

5. Antiga Estação de Mattosinhos (depois chamada Coutinho) Uma homenagem da Leopoldina Railway ao Governador Henrique Coutinho, pela cessão da Estrada de Ferro Caravelas.

6. Estação de Santo André (depois chamada Aracuí, hoje um bairro de Castelo).

O Cineasta e a Restauração

Ourives, relojoeiro, fotógrafo, inventor, cineasta, projecionista, músico e dono de sala de cinema, o inquieto Ludovico Persici nasceu em Alfredo Chaves em 1899 e faleceu em Matilde, onde se encontrava em tratamento de saúde, em 1949. Ludovico era o primogênito de uma prole de dezessete filhos, dos quais dez sobreviveram. Casou-se em 1924 com Eliza Fernandes D’Ávila, a quinta filha de uma família de sete irmãos. O casal não teve filhos.

“Curioso e dotado de notável inteligência e capacidade inventiva, o menino Ludovico frequenta desde muito pequeno a oficina de ourives e relojoeiro do pai, Erasmo Persici, imigrante italiano da Província de Parma. Manuseia ferramentas, desmonta e monta aparelhos buscando decifrar o mecanismo das peças. Segundo seu irmão e biógrafo, Arlindo Persici, é provável que o engenho e a arte tenham se manifestado em Ludovico Persici por volta dos 10 anos de idade, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória–Cachoeiro de Itapemirim, quando o garoto imitava ou tentava reproduzir cada etapa da construção instalando num barranco uma miniatura de cortes, túneis, dormentes, trilhos...Todavia, contrariando a autoridade paterna e não suportando a monotonia da escola e do lugar, abandona os estudos na terceira série primária e foge de casa várias vezes, fazendo com que o severo pai empreendesse verdadeira maratona à sua procura”.1

Ludovico conheceu o cinema muito jovem, aos 14 anos. Em 1913 foi levado para o Rio de Janeiro, para tornar-se ourives e se aperfeiçoar na arte da relojoaria com um grande mestre espanhol. Passou dois anos lá. De todas as novidades que a cidade grande lhe ofereceu, fascinou-se pelo cinematógrafo, tornando-se frequentador assíduo das sessões nos fins de semana. E não raramente assistia a mesma fita incontáveis vezes.

Pioneiro em todos os níveis, Ludovico Persici é a mola propulsora do programa Cine Memória Capixaba, cuja missão é conhecer e difundir a diversidade, a especificidade do nosso cinema e de encontrar as formas de preservá-lo. O único filme que resta de Persici, Cenas de Família, foi localizado e trazido pelo pesquisador doutor José Eugênio Vieira, durante levantamento de fontes primárias para estudo histórico do município capixaba de Castelo. Foi restaurado, de 2005 a 2008, com recursos da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Espírito Santo (Secult-ES). O processo foi encaminhado pela Coordenação de Cinema e Vídeo da Secretaria a partir do projeto Cine Memória Capixaba.

O original, em filme reversível 16mm, foi encontrado embrulhado com jornal numa sacola plástica. Era um rolo grudado, ressecado como um tijolo. Aos nossos olhos, era o negativo próprio para o “Cinematógrafo Guarany”, que Ludovico Persici construiu e patenteou no Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, no Rio de Janeiro, em 1927. Segundo o site do Dicionário de Fotografia Histórica Capixaba, a máquina “...filmava, projetava, copiava, media a metragem do filme, quadro a quadro. Era ainda dotada de uma campainha, que avisava o término da sessão cinematográfica”, tudo num único aparelho em formato compacto e portátil.2

Conhecia a dimensão da importância, e logo vi que precisava de investimento financeiro e tecnologia para resgatar a obra. Meses depois, em parcerias com diversos arquivos,3 a Secult organiza a Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema, produzida pelo Departamento de Audiovisual do Arquivo Nacional, no período de 20 a 31 de maio de 2004, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), com o apoio da imprensa local e institucional, alcançando sucesso de público. Além da programação de filmes de arquivo e duas exposições afins, incluímos quatro mesas temáticas de debates: A Censura no Cinema Brasileiro, A Resistência Cultural no ES, Políticas Públicas de Preservação Audiovisual e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação.

O acervo do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Apees) inclui uma cópia em 16mm de O Sonho e a Máquina, documentário de Alex Viany sobre Ludovico Persici. Feito em 1974, esse filme nos dá a dimensão da sua importância e da presença do estado do Espírito Santo na história do cinema brasileiro. Baseado em pesquisa do jornalista Rogério Medeiros, com fotografia elaborada de Hélio Silva, o filme foi produzido e distribuído pela Embrafilme, produzido pelo capixaba Ney Modenesi.

Os técnicos Clóvis Molinari e Mauro Domingues, do Arquivo Nacional, e Patrícia de Fillipi, da Cinemateca Brasileira, participaram das mesas de Políticas Públicas de Preservação de Filmes e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação como convidados especiais da Secult. Esse suporte técnico teve importância na indicação da Labo Cine do Brasil, no Rio de Janeiro, para a restauração do filme de Ludovico Persici. As justificativas advinham da importância da obra, de seu estado de conservação, da tecnologia exigida e da urgência necessária: a fila de espera na Cinemateca Brasileira para restauração de clássicos nacionais era extensa.

O trabalho de restauração do copião de Cenas de Família, iniciado no ano de 2005, teve a duração de aproximadamente três anos, e ao término desse período foram produzidos um master e um internegativo para a realização da cópia final em 16mm. Essa cópia foi digitalizada e posteriormente, junto com o internegativo, doada para o acervo do Arquivo Público do Espírito Santo.

A primeira exibição do filme Cenas de Família ocorreu em agosto de 2008, no Palácio Anchieta, sede do Governo Estadual, na ocasião do lançamento da segunda edição do livro História do Estado do Espírito Santo, de José Teixeira de Oliveira. Para essa exibição foi utilizada uma cópia digital sonorizada com uma coletânea de músicas de jazz, sob a coordenação do Gabinete da Casa Civil do Governo do Estado do Espírito Santo.

A segunda exibição foi em 2009, na abertura do Projeto Mova Caparaó (6ª. Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). Nesta ocasião, a cópia muda original foi projetada em filme, acompanhada pelo acordeom de Mirano Schuler. O evento foi realizado pela Secult-ES, no município de Alegre, no ano de 2009, sob a coordenação da autora.

As Ferrovias de Cenas de Família

O primeiro e-mail informando os procedimentos iniciados para a recuperação e restauração do filme trouxe algumas imagens em movimento. Em anexo, duas sequências do trem que, somadas, totalizavam cerca de um minuto. Durante aquela semana e na seguinte, assisti várias vezes as mesmas sequências, quadro a quadro, em busca de um vestígio que me levasse ao autor. De imediato, associei uma imagem congelada na tela a A Chegada do Trem na Estação, filme dos Irmãos Lumière de 1896.

“A Chegada do Trem” de Ludovico Persici em Cenas de Família seria uma citação premeditada? Uma homenagem aos pioneiros - de um inventor para outros - cada qual com o seu cinematógrafo e a estação ferroviária do seu tempo? Para Ludovico, uma diferença de 33 anos. Ele tinha então 28 anos.

A Estrada de Ferro Caravelas é o primeiro trecho ferroviário construído no Espírito Santo, ainda no período Provincial, e Cenas de Família contém o seu registro mais antigo. O Visconde de Mattosinhos, proprietário da empresa Companhia de Navegação e Estrada de Ferro Caravelas, foi o responsável pelo empreendimento. A construção do trecho ferroviário durou menos de dois anos. As obras foram iniciadas em janeiro de 1886 e concluídas em setembro de 1887. O objetivo da ferrovia era transportar o café da região de Alegre e Castelo para Cachoeiro de Itapemirim. De lá, por meio da navegação, para o Porto de Itapemirim, com destino ao Rio de Janeiro, onde seria exportado.4

A Estrada de Ferro Caravelas passou, a partir de 1907, para o controle da Leopoldina Railway. Contava com 71 km, partindo de Cachoeiro de Itapemirim com um ramal de 50 km para o Alegre e outro ramal de 21 km para Castelo, registrado no filme.

Naquele ano de 1927, Ludovico Persici residia em Conceição do Castelo, distrito de Cachoeiro de Itapemirim. Assim também, as “Jovens Castelenses” documentadas na rua e na praia de Marataízes, em Itapemirim e, provavelmente, os 3 amigos do trem, presentes em toda a viagem e em outros empreendimentos registrados no filme por Ludovico.

Até o final daquela década, a lavoura cafeeira capixaba se desenvolveu para colocar o Espírito Santo na esfera nacional, como o quarto produtor brasileiro. O sul do estado, representado pelo município de Cachoeiro de Itapemirim, tinha significativa importância nesse resultado.

Em 1928, criou-se o município de Castelo e o distrito de Conceição do Castelo passou a pertencer-lhe, sendo elevado à categoria de vila. Sua população descende predominantemente de italianos das províncias do nordeste da Itália. A colonização se originou especificamente na Serra do Castelo, que mais tarde daria nome à cidade, assim chamada devido à formação dos montes e vales, que lembravam os castelos medievais europeus.

Nas estações ferroviárias identificadas no trajeto do trem, percebemos, nessa ordem: Coutinho (00:52”),5 Castelo (02’:54”), Santo André (04’:02”)6 e Conduru (13’:08”). Excetuando Coutinho, as demais são vistas de costas ou ao largo do trem em movimento. Como os personagens desembarcam na estação Coutinho, observamos que embarcaram em Castelo, em direção ao município de Cachoeiro de Itapemirim.

Podemos distinguir dois filmes nessa locação: uma ficção e um documentário. Na ficção, o maquinista uniformizado desce do trem cercado por uma nuvem de vapor. Um homem de paletó e gravata o aguarda junto da linha. Um agente de trem uniformizado aproxima-se dos dois. Seguem em direção de uma locomotiva que está parada numa outra linha férrea, em sentido contrário. Um homem de terno está no chão, agarrado ao limpa-trilhos dessa locomotiva. Percebemos um ligeiríssimo tumulto entre o maquinista e esse homem, encenado para a câmera que deriva para a Estação Coutinho. Na plataforma da Estação, um homem de terno desce a rampa em direção à câmera. Plano geral da Estação Coutinho. Uma locomotiva a vapor puxando três carros de passageiros para na ferrovia.

Na ficção, o maquinista é interpretado pelo próprio Ludovico Persici. O homem que desce a rampa da estação e o homem de terno que assistimos agarrado à locomotiva são amigos e atores de Ludovico Persici que o acompanham na viagem do trem. Infelizmente, essa movimentada sequência externa na Estação Coutinho está danificada, com grande perda do conteúdo das cenas. Os planos externos da Estação Coutinho, para a ficção ou para o documentário “A Chegada do Trem”, são belos.

Trata-se da única locação onde a câmera está fora do trem. Além dos planos comentados nessa locação, dois planos fixos de apoio para a montagem desse documentário revelam os quatro amigos embarcados (incluindo Ludovico Persici, identificado por chapéu), vistos em pé, do lado de fora do carro de passageiros (04:57”). Foram provavelmente filmados neste set ou numa possível parada do trem na Estação Conduru (13’:08”). A câmera, que registra a maior parte das paisagens nessa viagem, cria um olhar subjetivo desses viajantes.

No contexto dessa viagem, acompanhamos o passeio de Ludovico e os três amigos na Rodovia Rio-Petrópolis, a primeira rodovia asfaltada do país, um marco da engenharia nacional, que só foi oficialmente inaugurada em agosto de 1928, pelo presidente Washington Luiz, o último presidente da República Velha, deposto pela Revolução de 30. O cidadão que se destaca pela estatura e idade registrado nesse passeio, suponho tratar-se  de um Agente de Privilégios, ou o próprio Leclerc, da Leclerc & Co. Estabelecidos na cidade do Rio de Janeiro, contratada para representar os interesses do inventor em outros países dentro dos prazos previstos no registro de patente para a invenção de "Aperfeiçoamento em apparelhos cinematógraphicos", em 16 de fevereiro de 1927.

No registro das imagens no copião de Ludovico Persici, em Cenas de Família é possível enxergar formas no espaço geográfico retratado que podem percorrer diferentes momentos históricos, desempenhando funções antigas ou novas, o que as tornam uma fonte de conhecimentos. Baseada nessa leitura, consideramos que as imagens para “A Chegada do Trem”, incluídas no copião de Cenas de Família, documentam a viagem de Ludovico Persici e seus amigos ao Rio de Janeiro para registrar o seu Aparelho Cinematográfico Guarany, em 1927.

As notas biográficas publicadas sobre a filmografia de Ludovico Persici destacam Bang-Bang, uma obra que roteirizou, produziu e dirigiu em 1926, tendo como atores os próprios amigos, para pôr em prática o seu invento. Tornava-se, assim, o pioneiro do cinema no Espírito Santo e um dos seus precursores até mesmo no Brasil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

3. Os parceiros foram o Arquivo Nacional, o Arquivo Público Estadual, a Cinemateca Brasileira e a Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo.

4. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

5. Antiga Estação de Mattosinhos (depois chamada Coutinho) Uma homenagem da Leopoldina Railway ao Governador Henrique Coutinho, pela cessão da Estrada de Ferro Caravelas.

6. Estação de Santo André (depois chamada Aracuí, hoje um bairro de Castelo).

The Filmmaker and the Restoration

Goldsmith, watchmaker, photographer, inventor, filmmaker, projectionist, musician and owner of a movie theater, the restless Ludovico Persici was born in 1899 in Alfredo Chaves, a municipality of Espírito Santo. Persici was the firstborn of seventeen offspring of whom ten survived. In 1924, he married Eliza Fernandes D’Ávila, the fifth daughter in a family of seven. The couple had no children.

Curious and gifted with remarkable intelligence and invention skills, Ludovico was still in his early years when he started attending the goldsmithing and watchmaking workshop of his father, Erasmo Persici, an Italian immigrant from the province of Parma. He handled tools and disassembled and assembled devices in order to better understand how they worked. According to his brother and biographer Arlindo Persici, it is likely that ingenuity and art manifested in Ludovico Persici around the age of 10 during the construction of the Vitória–Cachoeiro de Itapemirim Railway. The boy mimicked or tried to reproduce each stage of that construction by finding a gully to place a miniature of cuttings, tunnels, crossties, and rails… Nevertheless, going against his father’s authority and not enduring the monotony of his third year of primary school, Ludovico abandoned his studies and ran away from home several times. Ludovico was so hard to pin down that the strict father had to undertake a marathon in search of him.¹

Persici was young when he discovered cinema, only 14. In 1913, he was taken to Rio de Janeiro to become a goldsmith and to improve his skills in the art of watchmaking alongside a great Spanish master. He spent two years in Rio. Of all the novelties that the big city had to offer, the cinematograph was the one that fascinated him most. He became a frequent visitor to weekend movie house screenings, often watching the same films over and over again.

A pioneer in every respect, Ludovico Persici is the driving force behind the Cine Memória Capixaba program, whose mission is to discover and spread the diversity of Espírito Santo cinema and to find ways of preserving it. Persici’s only surviving film, Cenas de Família, was considered lost until PhD researcher José Eugênio Vieira discovered it while assessing primary sources for a historical study on Castelo, a municipality located in the state of Espírito Santo. The film was subsequently restored from 2004 to 2010 with funding from the Secretary of Culture of the Government of the State of Espírito Santo (Secult-ES).2 The process was carried out by the Secretary’s Coordination of Cinema and Video under the framework of the project Cine Memória Capixaba.

The original 16mm reversible film print of Cenas de Família was found wrapped inside a newspaper in a plastic bag. The print was stuck together and dried out like a brick. As far as we could tell upon first looking at the print, it was the negative of the first film shot with the “Cinematógrafo Guarany” [Guanarany Cinematograph], the camera Ludovico Persici built and patented at the Ministry of Agriculture, Industry, and Commerce, in Rio de Janeiro in 1927. According to the Dicionário Histórico Fotográfico Capixaba website, the machine “...filmed, projected, copied, and measured the film length frame by frame. It was also equipped with a bell, which announced the end of the cinematographic screening”.3 Persici managed to put all these features into a single portable device.

I was aware of how historically important this film was and soon realized that a major financial investment and the right technology would be needed to restore the work. Months after we discovered the film print, Secult-ES partnered with Brazilian film archives4 to put on Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema [Archival Film Screening Series: Censorship and Film]. The screening series took place in 2004 with the support of local and institutional press, achieving success among audiences. In addition to this program of archival films we put on four thematic discussion panels: Censorship in Brazilian Cinema, Cultural Resistance in Espírito Santo, Public Policies for Audiovisual Preservation and New Technologies Applied to Preservation.

One of the films shown at this screening series was O Sonho e a Máquina, a documentary by Alex Viany about Ludovico Persici. The film archive of the Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo [Public Archive of the State of Espírito Santo] holds a 16mm print of the film. Made in 1974, this film provides insight into Persici’s importance as well as Espírito Santo’s presence in the history of Brazilian cinema. Based on an investigation conducted by journalist Rogério Medeiros, this film was gorgeously shot by Hélio Silva, distributed by Embrafilme, and produced by capixaba Ney Modenesi.  

Technicians Clóvis Molinari and Mauro Domingues, from Arquivo Nacional, and Patrícia de Fillipi, from the Cinemateca Brasileira, participated in the Public Policies for Audiovisual Preservation and the New Technologies Applied to Preservation panels as Secult-ES’s special guests. Their technical support was key in allowing us to appoint Rio de Janeiro-based Labo Cine do Brasil as the laboratory to undertake the restoration of Ludovico Persici's film. The decision to work with Labo Cine was grounded in the historical importance of this film, the urgency to work on it, its poor conservation status, and the specific technology required in the restoration process. Cenas de Família received its name at Labo Cine, following the identification of frames portraying scenes of everyday family life.

The restoration work on the Cenas de Família’s print started in 2005 and lasted about three years. By the end of that time, a master print and an internegative were produced as a basis for the final copy in 16mm. This copy was digitized and later donated along with the internegative to the archives of Arquivo Público do Espírito Santo.

Cenas de Família’s first screening took place in August 2008 at the Anchieta Palace, headquarters of the State Government. The screening took place together with the release of the second edition of the book História do Estado do Espírito Santo [History of the State of Espírito Santo] by José Teixeira de Oliveira. A digital copy of the film was scored with a collection of jazz songs and then projected at this event, which was coordinated by the Office of the Civil House of the Government of the State of Espírito Santo. The second screening of Cenas de Família took place in 2009 at the opening of Projeto Mova Caparaó (6th Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). For this screening, the restored film print was shown and the projection of the original silent copy was backed up by the accordion of Mirano Schuler. The event was carried out by Secult-ES in the municipality of Alegre, under the coordination of the author of this text.

The Railways of Cenas de Família

The e-mail that first notified the beginning of the restoration process of Cenas de Família came along with a handful of preliminary moving images. Attached, we found two train sequences whose combined running time amounted to about a minute. Throughout that week and the following one, I watched these sequences several times, frame by frame, in search of a clue or remnant that could lead me to their author. Immediately, a particular image frozen on the screen seemed to echo Arrival of a Train at La Ciotat, the Lumière Brothers’ 1896 film.

Could Ludovico Persici's “A Chegada do Trem” [Arrival of a Train] in Cenas de Família be a premeditated quote? A tribute to the pioneers – from one inventor to a duo of inventors – each with their own cinematograph and the train station of their respective time? For Ludovico, there was a 33-year gap between himself and the Lumière Brothers’. He was then 28 years old.

The Caravelas Railway was the first train segment built in Espírito Santo, still in the Provincial period, and its images in Cenas de Família are its oldest records. The Viscount of Mattosinhos, who owned Companhia de Navegação and Estrada de Ferro Caravelas [Caravelas Railroad and Navigation Company], was responsible for the creation of the railway. The construction of the railway route took less than two years. The work began in January 1886 and was concluded in September 1887.5 The construction was for the transportation of coffee from the region of Alegre and Castelo to Cachoeiro de Itapemirim. A vessel loaded with the product would then head to the Port of Itapemirim and finally be bound for Rio de Janeiro, where the coffee would be exported.

The Caravelas Railway had come under the control of company Leopoldina Railway in 1907. It was 71 km long, starting from Cachoeiro de Itapemirim and splitting into a 50km long branch line to Alegre and another 21km long line to Castelo. The latter is the one documented in the film.

In the same year of 1927, Ludovico Persici was living in Conceição do Castelo, in the Cachoeiro de Itapemirim district. He was living there along with the “Jovens Castelenses” [young girls from Conceição do Castelo] documented on the street and on the beach of Marataízes. Also living there, presumably, were his three friends on the train, who are there throughout the whole trip and in other ventures recorded by Ludovico in the film.

By the end of that decade, coffee production in Espírito Santo had developed to the extent that the state had become the fourth-ranked producer in the country. The south of the state played a major role in this achievement on account of the coffee production levels within the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

In 1928, the county of Castelo was established and the district of Conceição do Castelo was made part of it, gaining the status of a village. Its population descends predominantly from Italians coming from Italy’s northeastern provinces. Colonization originated particularly in Serra do Castelo, which would later lend the city its name. It was so called due to the formation of hills and valleys that resembled European medieval castles.

While observing the railway stations as identified on the train’s path, we find the following sequence: Coutinho (00’52”),6 Castelo (02’54”), Santo André (04’02”)7 and Conduru (13’08”). Except for Coutinho, these stations are spotted from behind or along the moving train. As the characters disembark at Coutinho Station, this allows us to surmise that they came aboard in Castelo, towards the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

We can distinguish two films in this location: a fiction and a documentary. In the fiction, the driver in uniform gets off the train surrounded by a cloud of steam. A man in a jacket and tie awaits him by the line. A uniformed train agent comes close to both of them. They head towards a locomotive stopped on another railway line, in the opposite direction. A man in a suit is on the ground, clinging to the locomotive's track cleaner. We then notice a very brief turmoil between the driver and this man, staged for the camera while it drifts to Coutinho Station. On the station platform, a man in a suit goes down the ramp towards the camera. Wide shot of Coutinho Station. A three-car passenger steam locomotive stops at the railroad.

In the fiction, the driver is played by Ludovico Persici himself. The man who goes down the station ramp and the man in a suit whom we watch clinging to the locomotive are his friends and actors who accompany him on the train journey. Sadly, this eventful external sequence at Coutinho Station is damaged and the content of the scenes has undergone great loss. The external shots of the Coutinho Station are beautiful, either for the fiction or for the documentary “A Chegada do Trem”.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

We now join Ludovico and his three friends on a trip down the Rio-Petrópolis Highway, the first paved highway in the country and a landmark of national engineering. The Rio-Petrópolis Highway was only officially opened in August 1928 by President Washington Luiz, the last president of the República Velha [Old Republic], deposed by the Revolução de 30 [Revolution of 1930].

We believe that the images shot for “A Chegada do Trem”, included in the rough cut of Cenas de Família, document the trip of Ludovico Persici and his friends to copyright his Guarany Cinematographic Apparatus in Rio de Janeiro in 1927. The biographical notes published on Ludovico Persici’s filmography usually highlight Bang-Bang, a film which was scripted, produced and directed by Persici in 1926. Persici used his own friends as actors in order to put his invention into practice. He thus became the cinema pioneer in Espírito Santo and we might even say one of its precursors in Brazil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. TN. Mentions to local institutions, venues, grant and cultural programs and artistic or research works throughout this text may be directly translated to English, when this seems accurate and adequate. Otherwise, in case the original name in Portuguese is to be registered, necessary translation will be found in brackets for better understanding.

3. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

4. Institutions include Arquivo Nacional [National Archive], Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo (APEES) [Public Archive of the State of Espírito Santo], Cinemateca Brasileira and also the Legislative Assembly of the State of Espírito Santo (Ales).

5. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

6. Former Mattosinhos Station (later called Coutinho). A tribute by Leopoldina Railway to Governor Henrique Coutinho, on account of transferring the Caravelas Railway.

7. Santo André Station (later called Aracuí, which is currently the name of a neighborhood in Castelo).

The Filmmaker and the Restoration

Goldsmith, watchmaker, photographer, inventor, filmmaker, projectionist, musician and owner of a movie theater, the restless Ludovico Persici was born in 1899 in Alfredo Chaves, a municipality of Espírito Santo. Persici was the firstborn of seventeen offspring of whom ten survived. In 1924, he married Eliza Fernandes D’Ávila, the fifth daughter in a family of seven. The couple had no children.

Curious and gifted with remarkable intelligence and invention skills, Ludovico was still in his early years when he started attending the goldsmithing and watchmaking workshop of his father, Erasmo Persici, an Italian immigrant from the province of Parma. He handled tools and disassembled and assembled devices in order to better understand how they worked. According to his brother and biographer Arlindo Persici, it is likely that ingenuity and art manifested in Ludovico Persici around the age of 10 during the construction of the Vitória–Cachoeiro de Itapemirim Railway. The boy mimicked or tried to reproduce each stage of that construction by finding a gully to place a miniature of cuttings, tunnels, crossties, and rails… Nevertheless, going against his father’s authority and not enduring the monotony of his third year of primary school, Ludovico abandoned his studies and ran away from home several times. Ludovico was so hard to pin down that the strict father had to undertake a marathon in search of him.¹

Persici was young when he discovered cinema, only 14. In 1913, he was taken to Rio de Janeiro to become a goldsmith and to improve his skills in the art of watchmaking alongside a great Spanish master. He spent two years in Rio. Of all the novelties that the big city had to offer, the cinematograph was the one that fascinated him most. He became a frequent visitor to weekend movie house screenings, often watching the same films over and over again.

A pioneer in every respect, Ludovico Persici is the driving force behind the Cine Memória Capixaba program, whose mission is to discover and spread the diversity of Espírito Santo cinema and to find ways of preserving it. Persici’s only surviving film, Cenas de Família, was considered lost until PhD researcher José Eugênio Vieira discovered it while assessing primary sources for a historical study on Castelo, a municipality located in the state of Espírito Santo. The film was subsequently restored from 2004 to 2010 with funding from the Secretary of Culture of the Government of the State of Espírito Santo (Secult-ES).2 The process was carried out by the Secretary’s Coordination of Cinema and Video under the framework of the project Cine Memória Capixaba.

The original 16mm reversible film print of Cenas de Família was found wrapped inside a newspaper in a plastic bag. The print was stuck together and dried out like a brick. As far as we could tell upon first looking at the print, it was the negative of the first film shot with the “Cinematógrafo Guarany” [Guanarany Cinematograph], the camera Ludovico Persici built and patented at the Ministry of Agriculture, Industry, and Commerce, in Rio de Janeiro in 1927. According to the Dicionário Histórico Fotográfico Capixaba website, the machine “...filmed, projected, copied, and measured the film length frame by frame. It was also equipped with a bell, which announced the end of the cinematographic screening”.3 Persici managed to put all these features into a single portable device.

I was aware of how historically important this film was and soon realized that a major financial investment and the right technology would be needed to restore the work. Months after we discovered the film print, Secult-ES partnered with Brazilian film archives4 to put on Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema [Archival Film Screening Series: Censorship and Film]. The screening series took place in 2004 with the support of local and institutional press, achieving success among audiences. In addition to this program of archival films we put on four thematic discussion panels: Censorship in Brazilian Cinema, Cultural Resistance in Espírito Santo, Public Policies for Audiovisual Preservation and New Technologies Applied to Preservation.

One of the films shown at this screening series was O Sonho e a Máquina, a documentary by Alex Viany about Ludovico Persici. The film archive of the Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo [Public Archive of the State of Espírito Santo] holds a 16mm print of the film. Made in 1974, this film provides insight into Persici’s importance as well as Espírito Santo’s presence in the history of Brazilian cinema. Based on an investigation conducted by journalist Rogério Medeiros, this film was gorgeously shot by Hélio Silva, distributed by Embrafilme, and produced by capixaba Ney Modenesi.  

Technicians Clóvis Molinari and Mauro Domingues, from Arquivo Nacional, and Patrícia de Fillipi, from the Cinemateca Brasileira, participated in the Public Policies for Audiovisual Preservation and the New Technologies Applied to Preservation panels as Secult-ES’s special guests. Their technical support was key in allowing us to appoint Rio de Janeiro-based Labo Cine do Brasil as the laboratory to undertake the restoration of Ludovico Persici's film. The decision to work with Labo Cine was grounded in the historical importance of this film, the urgency to work on it, its poor conservation status, and the specific technology required in the restoration process. Cenas de Família received its name at Labo Cine, following the identification of frames portraying scenes of everyday family life.

The restoration work on the Cenas de Família’s print started in 2005 and lasted about three years. By the end of that time, a master print and an internegative were produced as a basis for the final copy in 16mm. This copy was digitized and later donated along with the internegative to the archives of Arquivo Público do Espírito Santo.

Cenas de Família’s first screening took place in August 2008 at the Anchieta Palace, headquarters of the State Government. The screening took place together with the release of the second edition of the book História do Estado do Espírito Santo [History of the State of Espírito Santo] by José Teixeira de Oliveira. A digital copy of the film was scored with a collection of jazz songs and then projected at this event, which was coordinated by the Office of the Civil House of the Government of the State of Espírito Santo. The second screening of Cenas de Família took place in 2009 at the opening of Projeto Mova Caparaó (6th Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). For this screening, the restored film print was shown and the projection of the original silent copy was backed up by the accordion of Mirano Schuler. The event was carried out by Secult-ES in the municipality of Alegre, under the coordination of the author of this text.

The Railways of Cenas de Família

The e-mail that first notified the beginning of the restoration process of Cenas de Família came along with a handful of preliminary moving images. Attached, we found two train sequences whose combined running time amounted to about a minute. Throughout that week and the following one, I watched these sequences several times, frame by frame, in search of a clue or remnant that could lead me to their author. Immediately, a particular image frozen on the screen seemed to echo Arrival of a Train at La Ciotat, the Lumière Brothers’ 1896 film.

Could Ludovico Persici's “A Chegada do Trem” [Arrival of a Train] in Cenas de Família be a premeditated quote? A tribute to the pioneers – from one inventor to a duo of inventors – each with their own cinematograph and the train station of their respective time? For Ludovico, there was a 33-year gap between himself and the Lumière Brothers’. He was then 28 years old.

The Caravelas Railway was the first train segment built in Espírito Santo, still in the Provincial period, and its images in Cenas de Família are its oldest records. The Viscount of Mattosinhos, who owned Companhia de Navegação and Estrada de Ferro Caravelas [Caravelas Railroad and Navigation Company], was responsible for the creation of the railway. The construction of the railway route took less than two years. The work began in January 1886 and was concluded in September 1887.5 The construction was for the transportation of coffee from the region of Alegre and Castelo to Cachoeiro de Itapemirim. A vessel loaded with the product would then head to the Port of Itapemirim and finally be bound for Rio de Janeiro, where the coffee would be exported.

The Caravelas Railway had come under the control of company Leopoldina Railway in 1907. It was 71 km long, starting from Cachoeiro de Itapemirim and splitting into a 50km long branch line to Alegre and another 21km long line to Castelo. The latter is the one documented in the film.

In the same year of 1927, Ludovico Persici was living in Conceição do Castelo, in the Cachoeiro de Itapemirim district. He was living there along with the “Jovens Castelenses” [young girls from Conceição do Castelo] documented on the street and on the beach of Marataízes. Also living there, presumably, were his three friends on the train, who are there throughout the whole trip and in other ventures recorded by Ludovico in the film.

By the end of that decade, coffee production in Espírito Santo had developed to the extent that the state had become the fourth-ranked producer in the country. The south of the state played a major role in this achievement on account of the coffee production levels within the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

In 1928, the county of Castelo was established and the district of Conceição do Castelo was made part of it, gaining the status of a village. Its population descends predominantly from Italians coming from Italy’s northeastern provinces. Colonization originated particularly in Serra do Castelo, which would later lend the city its name. It was so called due to the formation of hills and valleys that resembled European medieval castles.

While observing the railway stations as identified on the train’s path, we find the following sequence: Coutinho (00’52”),6 Castelo (02’54”), Santo André (04’02”)7 and Conduru (13’08”). Except for Coutinho, these stations are spotted from behind or along the moving train. As the characters disembark at Coutinho Station, this allows us to surmise that they came aboard in Castelo, towards the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

We can distinguish two films in this location: a fiction and a documentary. In the fiction, the driver in uniform gets off the train surrounded by a cloud of steam. A man in a jacket and tie awaits him by the line. A uniformed train agent comes close to both of them. They head towards a locomotive stopped on another railway line, in the opposite direction. A man in a suit is on the ground, clinging to the locomotive's track cleaner. We then notice a very brief turmoil between the driver and this man, staged for the camera while it drifts to Coutinho Station. On the station platform, a man in a suit goes down the ramp towards the camera. Wide shot of Coutinho Station. A three-car passenger steam locomotive stops at the railroad.

In the fiction, the driver is played by Ludovico Persici himself. The man who goes down the station ramp and the man in a suit whom we watch clinging to the locomotive are his friends and actors who accompany him on the train journey. Sadly, this eventful external sequence at Coutinho Station is damaged and the content of the scenes has undergone great loss. The external shots of the Coutinho Station are beautiful, either for the fiction or for the documentary “A Chegada do Trem”.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

We now join Ludovico and his three friends on a trip down the Rio-Petrópolis Highway, the first paved highway in the country and a landmark of national engineering. The Rio-Petrópolis Highway was only officially opened in August 1928 by President Washington Luiz, the last president of the República Velha [Old Republic], deposed by the Revolução de 30 [Revolution of 1930].

We believe that the images shot for “A Chegada do Trem”, included in the rough cut of Cenas de Família, document the trip of Ludovico Persici and his friends to copyright his Guarany Cinematographic Apparatus in Rio de Janeiro in 1927. The biographical notes published on Ludovico Persici’s filmography usually highlight Bang-Bang, a film which was scripted, produced and directed by Persici in 1926. Persici used his own friends as actors in order to put his invention into practice. He thus became the cinema pioneer in Espírito Santo and we might even say one of its precursors in Brazil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. TN. Mentions to local institutions, venues, grant and cultural programs and artistic or research works throughout this text may be directly translated to English, when this seems accurate and adequate. Otherwise, in case the original name in Portuguese is to be registered, necessary translation will be found in brackets for better understanding.

3. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

4. Institutions include Arquivo Nacional [National Archive], Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo (APEES) [Public Archive of the State of Espírito Santo], Cinemateca Brasileira and also the Legislative Assembly of the State of Espírito Santo (Ales).

5. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

6. Former Mattosinhos Station (later called Coutinho). A tribute by Leopoldina Railway to Governor Henrique Coutinho, on account of transferring the Caravelas Railway.

7. Santo André Station (later called Aracuí, which is currently the name of a neighborhood in Castelo).

PT/ENG
PT/ENG
19/5/2021
By/Por:
Margarete Taqueti
O Cineasta e a Restauração

Ourives, relojoeiro, fotógrafo, inventor, cineasta, projecionista, músico e dono de sala de cinema, o inquieto Ludovico Persici nasceu em Alfredo Chaves em 1899 e faleceu em Matilde, onde se encontrava em tratamento de saúde, em 1949. Ludovico era o primogênito de uma prole de dezessete filhos, dos quais dez sobreviveram. Casou-se em 1924 com Eliza Fernandes D’Ávila, a quinta filha de uma família de sete irmãos. O casal não teve filhos.

“Curioso e dotado de notável inteligência e capacidade inventiva, o menino Ludovico frequenta desde muito pequeno a oficina de ourives e relojoeiro do pai, Erasmo Persici, imigrante italiano da Província de Parma. Manuseia ferramentas, desmonta e monta aparelhos buscando decifrar o mecanismo das peças. Segundo seu irmão e biógrafo, Arlindo Persici, é provável que o engenho e a arte tenham se manifestado em Ludovico Persici por volta dos 10 anos de idade, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória–Cachoeiro de Itapemirim, quando o garoto imitava ou tentava reproduzir cada etapa da construção instalando num barranco uma miniatura de cortes, túneis, dormentes, trilhos...Todavia, contrariando a autoridade paterna e não suportando a monotonia da escola e do lugar, abandona os estudos na terceira série primária e foge de casa várias vezes, fazendo com que o severo pai empreendesse verdadeira maratona à sua procura”.1

Ludovico conheceu o cinema muito jovem, aos 14 anos. Em 1913 foi levado para o Rio de Janeiro, para tornar-se ourives e se aperfeiçoar na arte da relojoaria com um grande mestre espanhol. Passou dois anos lá. De todas as novidades que a cidade grande lhe ofereceu, fascinou-se pelo cinematógrafo, tornando-se frequentador assíduo das sessões nos fins de semana. E não raramente assistia a mesma fita incontáveis vezes.

Pioneiro em todos os níveis, Ludovico Persici é a mola propulsora do programa Cine Memória Capixaba, cuja missão é conhecer e difundir a diversidade, a especificidade do nosso cinema e de encontrar as formas de preservá-lo. O único filme que resta de Persici, Cenas de Família, foi localizado e trazido pelo pesquisador doutor José Eugênio Vieira, durante levantamento de fontes primárias para estudo histórico do município capixaba de Castelo. Foi restaurado, de 2005 a 2008, com recursos da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Espírito Santo (Secult-ES). O processo foi encaminhado pela Coordenação de Cinema e Vídeo da Secretaria a partir do projeto Cine Memória Capixaba.

O original, em filme reversível 16mm, foi encontrado embrulhado com jornal numa sacola plástica. Era um rolo grudado, ressecado como um tijolo. Aos nossos olhos, era o negativo próprio para o “Cinematógrafo Guarany”, que Ludovico Persici construiu e patenteou no Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, no Rio de Janeiro, em 1927. Segundo o site do Dicionário de Fotografia Histórica Capixaba, a máquina “...filmava, projetava, copiava, media a metragem do filme, quadro a quadro. Era ainda dotada de uma campainha, que avisava o término da sessão cinematográfica”, tudo num único aparelho em formato compacto e portátil.2

Conhecia a dimensão da importância, e logo vi que precisava de investimento financeiro e tecnologia para resgatar a obra. Meses depois, em parcerias com diversos arquivos,3 a Secult organiza a Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema, produzida pelo Departamento de Audiovisual do Arquivo Nacional, no período de 20 a 31 de maio de 2004, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), com o apoio da imprensa local e institucional, alcançando sucesso de público. Além da programação de filmes de arquivo e duas exposições afins, incluímos quatro mesas temáticas de debates: A Censura no Cinema Brasileiro, A Resistência Cultural no ES, Políticas Públicas de Preservação Audiovisual e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação.

O acervo do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Apees) inclui uma cópia em 16mm de O Sonho e a Máquina, documentário de Alex Viany sobre Ludovico Persici. Feito em 1974, esse filme nos dá a dimensão da sua importância e da presença do estado do Espírito Santo na história do cinema brasileiro. Baseado em pesquisa do jornalista Rogério Medeiros, com fotografia elaborada de Hélio Silva, o filme foi produzido e distribuído pela Embrafilme, produzido pelo capixaba Ney Modenesi.

Os técnicos Clóvis Molinari e Mauro Domingues, do Arquivo Nacional, e Patrícia de Fillipi, da Cinemateca Brasileira, participaram das mesas de Políticas Públicas de Preservação de Filmes e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação como convidados especiais da Secult. Esse suporte técnico teve importância na indicação da Labo Cine do Brasil, no Rio de Janeiro, para a restauração do filme de Ludovico Persici. As justificativas advinham da importância da obra, de seu estado de conservação, da tecnologia exigida e da urgência necessária: a fila de espera na Cinemateca Brasileira para restauração de clássicos nacionais era extensa.

O trabalho de restauração do copião de Cenas de Família, iniciado no ano de 2005, teve a duração de aproximadamente três anos, e ao término desse período foram produzidos um master e um internegativo para a realização da cópia final em 16mm. Essa cópia foi digitalizada e posteriormente, junto com o internegativo, doada para o acervo do Arquivo Público do Espírito Santo.

A primeira exibição do filme Cenas de Família ocorreu em agosto de 2008, no Palácio Anchieta, sede do Governo Estadual, na ocasião do lançamento da segunda edição do livro História do Estado do Espírito Santo, de José Teixeira de Oliveira. Para essa exibição foi utilizada uma cópia digital sonorizada com uma coletânea de músicas de jazz, sob a coordenação do Gabinete da Casa Civil do Governo do Estado do Espírito Santo.

A segunda exibição foi em 2009, na abertura do Projeto Mova Caparaó (6ª. Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). Nesta ocasião, a cópia muda original foi projetada em filme, acompanhada pelo acordeom de Mirano Schuler. O evento foi realizado pela Secult-ES, no município de Alegre, no ano de 2009, sob a coordenação da autora.

As Ferrovias de Cenas de Família

O primeiro e-mail informando os procedimentos iniciados para a recuperação e restauração do filme trouxe algumas imagens em movimento. Em anexo, duas sequências do trem que, somadas, totalizavam cerca de um minuto. Durante aquela semana e na seguinte, assisti várias vezes as mesmas sequências, quadro a quadro, em busca de um vestígio que me levasse ao autor. De imediato, associei uma imagem congelada na tela a A Chegada do Trem na Estação, filme dos Irmãos Lumière de 1896.

“A Chegada do Trem” de Ludovico Persici em Cenas de Família seria uma citação premeditada? Uma homenagem aos pioneiros - de um inventor para outros - cada qual com o seu cinematógrafo e a estação ferroviária do seu tempo? Para Ludovico, uma diferença de 33 anos. Ele tinha então 28 anos.

A Estrada de Ferro Caravelas é o primeiro trecho ferroviário construído no Espírito Santo, ainda no período Provincial, e Cenas de Família contém o seu registro mais antigo. O Visconde de Mattosinhos, proprietário da empresa Companhia de Navegação e Estrada de Ferro Caravelas, foi o responsável pelo empreendimento. A construção do trecho ferroviário durou menos de dois anos. As obras foram iniciadas em janeiro de 1886 e concluídas em setembro de 1887. O objetivo da ferrovia era transportar o café da região de Alegre e Castelo para Cachoeiro de Itapemirim. De lá, por meio da navegação, para o Porto de Itapemirim, com destino ao Rio de Janeiro, onde seria exportado.4

A Estrada de Ferro Caravelas passou, a partir de 1907, para o controle da Leopoldina Railway. Contava com 71 km, partindo de Cachoeiro de Itapemirim com um ramal de 50 km para o Alegre e outro ramal de 21 km para Castelo, registrado no filme.

Naquele ano de 1927, Ludovico Persici residia em Conceição do Castelo, distrito de Cachoeiro de Itapemirim. Assim também, as “Jovens Castelenses” documentadas na rua e na praia de Marataízes, em Itapemirim e, provavelmente, os 3 amigos do trem, presentes em toda a viagem e em outros empreendimentos registrados no filme por Ludovico.

Até o final daquela década, a lavoura cafeeira capixaba se desenvolveu para colocar o Espírito Santo na esfera nacional, como o quarto produtor brasileiro. O sul do estado, representado pelo município de Cachoeiro de Itapemirim, tinha significativa importância nesse resultado.

Em 1928, criou-se o município de Castelo e o distrito de Conceição do Castelo passou a pertencer-lhe, sendo elevado à categoria de vila. Sua população descende predominantemente de italianos das províncias do nordeste da Itália. A colonização se originou especificamente na Serra do Castelo, que mais tarde daria nome à cidade, assim chamada devido à formação dos montes e vales, que lembravam os castelos medievais europeus.

Nas estações ferroviárias identificadas no trajeto do trem, percebemos, nessa ordem: Coutinho (00:52”),5 Castelo (02’:54”), Santo André (04’:02”)6 e Conduru (13’:08”). Excetuando Coutinho, as demais são vistas de costas ou ao largo do trem em movimento. Como os personagens desembarcam na estação Coutinho, observamos que embarcaram em Castelo, em direção ao município de Cachoeiro de Itapemirim.

Podemos distinguir dois filmes nessa locação: uma ficção e um documentário. Na ficção, o maquinista uniformizado desce do trem cercado por uma nuvem de vapor. Um homem de paletó e gravata o aguarda junto da linha. Um agente de trem uniformizado aproxima-se dos dois. Seguem em direção de uma locomotiva que está parada numa outra linha férrea, em sentido contrário. Um homem de terno está no chão, agarrado ao limpa-trilhos dessa locomotiva. Percebemos um ligeiríssimo tumulto entre o maquinista e esse homem, encenado para a câmera que deriva para a Estação Coutinho. Na plataforma da Estação, um homem de terno desce a rampa em direção à câmera. Plano geral da Estação Coutinho. Uma locomotiva a vapor puxando três carros de passageiros para na ferrovia.

Na ficção, o maquinista é interpretado pelo próprio Ludovico Persici. O homem que desce a rampa da estação e o homem de terno que assistimos agarrado à locomotiva são amigos e atores de Ludovico Persici que o acompanham na viagem do trem. Infelizmente, essa movimentada sequência externa na Estação Coutinho está danificada, com grande perda do conteúdo das cenas. Os planos externos da Estação Coutinho, para a ficção ou para o documentário “A Chegada do Trem”, são belos.

Trata-se da única locação onde a câmera está fora do trem. Além dos planos comentados nessa locação, dois planos fixos de apoio para a montagem desse documentário revelam os quatro amigos embarcados (incluindo Ludovico Persici, identificado por chapéu), vistos em pé, do lado de fora do carro de passageiros (04:57”). Foram provavelmente filmados neste set ou numa possível parada do trem na Estação Conduru (13’:08”). A câmera, que registra a maior parte das paisagens nessa viagem, cria um olhar subjetivo desses viajantes.

No contexto dessa viagem, acompanhamos o passeio de Ludovico e os três amigos na Rodovia Rio-Petrópolis, a primeira rodovia asfaltada do país, um marco da engenharia nacional, que só foi oficialmente inaugurada em agosto de 1928, pelo presidente Washington Luiz, o último presidente da República Velha, deposto pela Revolução de 30. O cidadão que se destaca pela estatura e idade registrado nesse passeio, suponho tratar-se  de um Agente de Privilégios, ou o próprio Leclerc, da Leclerc & Co. Estabelecidos na cidade do Rio de Janeiro, contratada para representar os interesses do inventor em outros países dentro dos prazos previstos no registro de patente para a invenção de "Aperfeiçoamento em apparelhos cinematógraphicos", em 16 de fevereiro de 1927.

No registro das imagens no copião de Ludovico Persici, em Cenas de Família é possível enxergar formas no espaço geográfico retratado que podem percorrer diferentes momentos históricos, desempenhando funções antigas ou novas, o que as tornam uma fonte de conhecimentos. Baseada nessa leitura, consideramos que as imagens para “A Chegada do Trem”, incluídas no copião de Cenas de Família, documentam a viagem de Ludovico Persici e seus amigos ao Rio de Janeiro para registrar o seu Aparelho Cinematográfico Guarany, em 1927.

As notas biográficas publicadas sobre a filmografia de Ludovico Persici destacam Bang-Bang, uma obra que roteirizou, produziu e dirigiu em 1926, tendo como atores os próprios amigos, para pôr em prática o seu invento. Tornava-se, assim, o pioneiro do cinema no Espírito Santo e um dos seus precursores até mesmo no Brasil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

3. Os parceiros foram o Arquivo Nacional, o Arquivo Público Estadual, a Cinemateca Brasileira e a Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo.

4. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

5. Antiga Estação de Mattosinhos (depois chamada Coutinho) Uma homenagem da Leopoldina Railway ao Governador Henrique Coutinho, pela cessão da Estrada de Ferro Caravelas.

6. Estação de Santo André (depois chamada Aracuí, hoje um bairro de Castelo).

O Cineasta e a Restauração

Ourives, relojoeiro, fotógrafo, inventor, cineasta, projecionista, músico e dono de sala de cinema, o inquieto Ludovico Persici nasceu em Alfredo Chaves em 1899 e faleceu em Matilde, onde se encontrava em tratamento de saúde, em 1949. Ludovico era o primogênito de uma prole de dezessete filhos, dos quais dez sobreviveram. Casou-se em 1924 com Eliza Fernandes D’Ávila, a quinta filha de uma família de sete irmãos. O casal não teve filhos.

“Curioso e dotado de notável inteligência e capacidade inventiva, o menino Ludovico frequenta desde muito pequeno a oficina de ourives e relojoeiro do pai, Erasmo Persici, imigrante italiano da Província de Parma. Manuseia ferramentas, desmonta e monta aparelhos buscando decifrar o mecanismo das peças. Segundo seu irmão e biógrafo, Arlindo Persici, é provável que o engenho e a arte tenham se manifestado em Ludovico Persici por volta dos 10 anos de idade, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória–Cachoeiro de Itapemirim, quando o garoto imitava ou tentava reproduzir cada etapa da construção instalando num barranco uma miniatura de cortes, túneis, dormentes, trilhos...Todavia, contrariando a autoridade paterna e não suportando a monotonia da escola e do lugar, abandona os estudos na terceira série primária e foge de casa várias vezes, fazendo com que o severo pai empreendesse verdadeira maratona à sua procura”.1

Ludovico conheceu o cinema muito jovem, aos 14 anos. Em 1913 foi levado para o Rio de Janeiro, para tornar-se ourives e se aperfeiçoar na arte da relojoaria com um grande mestre espanhol. Passou dois anos lá. De todas as novidades que a cidade grande lhe ofereceu, fascinou-se pelo cinematógrafo, tornando-se frequentador assíduo das sessões nos fins de semana. E não raramente assistia a mesma fita incontáveis vezes.

Pioneiro em todos os níveis, Ludovico Persici é a mola propulsora do programa Cine Memória Capixaba, cuja missão é conhecer e difundir a diversidade, a especificidade do nosso cinema e de encontrar as formas de preservá-lo. O único filme que resta de Persici, Cenas de Família, foi localizado e trazido pelo pesquisador doutor José Eugênio Vieira, durante levantamento de fontes primárias para estudo histórico do município capixaba de Castelo. Foi restaurado, de 2005 a 2008, com recursos da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Espírito Santo (Secult-ES). O processo foi encaminhado pela Coordenação de Cinema e Vídeo da Secretaria a partir do projeto Cine Memória Capixaba.

O original, em filme reversível 16mm, foi encontrado embrulhado com jornal numa sacola plástica. Era um rolo grudado, ressecado como um tijolo. Aos nossos olhos, era o negativo próprio para o “Cinematógrafo Guarany”, que Ludovico Persici construiu e patenteou no Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, no Rio de Janeiro, em 1927. Segundo o site do Dicionário de Fotografia Histórica Capixaba, a máquina “...filmava, projetava, copiava, media a metragem do filme, quadro a quadro. Era ainda dotada de uma campainha, que avisava o término da sessão cinematográfica”, tudo num único aparelho em formato compacto e portátil.2

Conhecia a dimensão da importância, e logo vi que precisava de investimento financeiro e tecnologia para resgatar a obra. Meses depois, em parcerias com diversos arquivos,3 a Secult organiza a Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema, produzida pelo Departamento de Audiovisual do Arquivo Nacional, no período de 20 a 31 de maio de 2004, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), com o apoio da imprensa local e institucional, alcançando sucesso de público. Além da programação de filmes de arquivo e duas exposições afins, incluímos quatro mesas temáticas de debates: A Censura no Cinema Brasileiro, A Resistência Cultural no ES, Políticas Públicas de Preservação Audiovisual e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação.

O acervo do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Apees) inclui uma cópia em 16mm de O Sonho e a Máquina, documentário de Alex Viany sobre Ludovico Persici. Feito em 1974, esse filme nos dá a dimensão da sua importância e da presença do estado do Espírito Santo na história do cinema brasileiro. Baseado em pesquisa do jornalista Rogério Medeiros, com fotografia elaborada de Hélio Silva, o filme foi produzido e distribuído pela Embrafilme, produzido pelo capixaba Ney Modenesi.

Os técnicos Clóvis Molinari e Mauro Domingues, do Arquivo Nacional, e Patrícia de Fillipi, da Cinemateca Brasileira, participaram das mesas de Políticas Públicas de Preservação de Filmes e Novas Tecnologias Aplicadas à Preservação como convidados especiais da Secult. Esse suporte técnico teve importância na indicação da Labo Cine do Brasil, no Rio de Janeiro, para a restauração do filme de Ludovico Persici. As justificativas advinham da importância da obra, de seu estado de conservação, da tecnologia exigida e da urgência necessária: a fila de espera na Cinemateca Brasileira para restauração de clássicos nacionais era extensa.

O trabalho de restauração do copião de Cenas de Família, iniciado no ano de 2005, teve a duração de aproximadamente três anos, e ao término desse período foram produzidos um master e um internegativo para a realização da cópia final em 16mm. Essa cópia foi digitalizada e posteriormente, junto com o internegativo, doada para o acervo do Arquivo Público do Espírito Santo.

A primeira exibição do filme Cenas de Família ocorreu em agosto de 2008, no Palácio Anchieta, sede do Governo Estadual, na ocasião do lançamento da segunda edição do livro História do Estado do Espírito Santo, de José Teixeira de Oliveira. Para essa exibição foi utilizada uma cópia digital sonorizada com uma coletânea de músicas de jazz, sob a coordenação do Gabinete da Casa Civil do Governo do Estado do Espírito Santo.

A segunda exibição foi em 2009, na abertura do Projeto Mova Caparaó (6ª. Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). Nesta ocasião, a cópia muda original foi projetada em filme, acompanhada pelo acordeom de Mirano Schuler. O evento foi realizado pela Secult-ES, no município de Alegre, no ano de 2009, sob a coordenação da autora.

As Ferrovias de Cenas de Família

O primeiro e-mail informando os procedimentos iniciados para a recuperação e restauração do filme trouxe algumas imagens em movimento. Em anexo, duas sequências do trem que, somadas, totalizavam cerca de um minuto. Durante aquela semana e na seguinte, assisti várias vezes as mesmas sequências, quadro a quadro, em busca de um vestígio que me levasse ao autor. De imediato, associei uma imagem congelada na tela a A Chegada do Trem na Estação, filme dos Irmãos Lumière de 1896.

“A Chegada do Trem” de Ludovico Persici em Cenas de Família seria uma citação premeditada? Uma homenagem aos pioneiros - de um inventor para outros - cada qual com o seu cinematógrafo e a estação ferroviária do seu tempo? Para Ludovico, uma diferença de 33 anos. Ele tinha então 28 anos.

A Estrada de Ferro Caravelas é o primeiro trecho ferroviário construído no Espírito Santo, ainda no período Provincial, e Cenas de Família contém o seu registro mais antigo. O Visconde de Mattosinhos, proprietário da empresa Companhia de Navegação e Estrada de Ferro Caravelas, foi o responsável pelo empreendimento. A construção do trecho ferroviário durou menos de dois anos. As obras foram iniciadas em janeiro de 1886 e concluídas em setembro de 1887. O objetivo da ferrovia era transportar o café da região de Alegre e Castelo para Cachoeiro de Itapemirim. De lá, por meio da navegação, para o Porto de Itapemirim, com destino ao Rio de Janeiro, onde seria exportado.4

A Estrada de Ferro Caravelas passou, a partir de 1907, para o controle da Leopoldina Railway. Contava com 71 km, partindo de Cachoeiro de Itapemirim com um ramal de 50 km para o Alegre e outro ramal de 21 km para Castelo, registrado no filme.

Naquele ano de 1927, Ludovico Persici residia em Conceição do Castelo, distrito de Cachoeiro de Itapemirim. Assim também, as “Jovens Castelenses” documentadas na rua e na praia de Marataízes, em Itapemirim e, provavelmente, os 3 amigos do trem, presentes em toda a viagem e em outros empreendimentos registrados no filme por Ludovico.

Até o final daquela década, a lavoura cafeeira capixaba se desenvolveu para colocar o Espírito Santo na esfera nacional, como o quarto produtor brasileiro. O sul do estado, representado pelo município de Cachoeiro de Itapemirim, tinha significativa importância nesse resultado.

Em 1928, criou-se o município de Castelo e o distrito de Conceição do Castelo passou a pertencer-lhe, sendo elevado à categoria de vila. Sua população descende predominantemente de italianos das províncias do nordeste da Itália. A colonização se originou especificamente na Serra do Castelo, que mais tarde daria nome à cidade, assim chamada devido à formação dos montes e vales, que lembravam os castelos medievais europeus.

Nas estações ferroviárias identificadas no trajeto do trem, percebemos, nessa ordem: Coutinho (00:52”),5 Castelo (02’:54”), Santo André (04’:02”)6 e Conduru (13’:08”). Excetuando Coutinho, as demais são vistas de costas ou ao largo do trem em movimento. Como os personagens desembarcam na estação Coutinho, observamos que embarcaram em Castelo, em direção ao município de Cachoeiro de Itapemirim.

Podemos distinguir dois filmes nessa locação: uma ficção e um documentário. Na ficção, o maquinista uniformizado desce do trem cercado por uma nuvem de vapor. Um homem de paletó e gravata o aguarda junto da linha. Um agente de trem uniformizado aproxima-se dos dois. Seguem em direção de uma locomotiva que está parada numa outra linha férrea, em sentido contrário. Um homem de terno está no chão, agarrado ao limpa-trilhos dessa locomotiva. Percebemos um ligeiríssimo tumulto entre o maquinista e esse homem, encenado para a câmera que deriva para a Estação Coutinho. Na plataforma da Estação, um homem de terno desce a rampa em direção à câmera. Plano geral da Estação Coutinho. Uma locomotiva a vapor puxando três carros de passageiros para na ferrovia.

Na ficção, o maquinista é interpretado pelo próprio Ludovico Persici. O homem que desce a rampa da estação e o homem de terno que assistimos agarrado à locomotiva são amigos e atores de Ludovico Persici que o acompanham na viagem do trem. Infelizmente, essa movimentada sequência externa na Estação Coutinho está danificada, com grande perda do conteúdo das cenas. Os planos externos da Estação Coutinho, para a ficção ou para o documentário “A Chegada do Trem”, são belos.

Trata-se da única locação onde a câmera está fora do trem. Além dos planos comentados nessa locação, dois planos fixos de apoio para a montagem desse documentário revelam os quatro amigos embarcados (incluindo Ludovico Persici, identificado por chapéu), vistos em pé, do lado de fora do carro de passageiros (04:57”). Foram provavelmente filmados neste set ou numa possível parada do trem na Estação Conduru (13’:08”). A câmera, que registra a maior parte das paisagens nessa viagem, cria um olhar subjetivo desses viajantes.

No contexto dessa viagem, acompanhamos o passeio de Ludovico e os três amigos na Rodovia Rio-Petrópolis, a primeira rodovia asfaltada do país, um marco da engenharia nacional, que só foi oficialmente inaugurada em agosto de 1928, pelo presidente Washington Luiz, o último presidente da República Velha, deposto pela Revolução de 30. O cidadão que se destaca pela estatura e idade registrado nesse passeio, suponho tratar-se  de um Agente de Privilégios, ou o próprio Leclerc, da Leclerc & Co. Estabelecidos na cidade do Rio de Janeiro, contratada para representar os interesses do inventor em outros países dentro dos prazos previstos no registro de patente para a invenção de "Aperfeiçoamento em apparelhos cinematógraphicos", em 16 de fevereiro de 1927.

No registro das imagens no copião de Ludovico Persici, em Cenas de Família é possível enxergar formas no espaço geográfico retratado que podem percorrer diferentes momentos históricos, desempenhando funções antigas ou novas, o que as tornam uma fonte de conhecimentos. Baseada nessa leitura, consideramos que as imagens para “A Chegada do Trem”, incluídas no copião de Cenas de Família, documentam a viagem de Ludovico Persici e seus amigos ao Rio de Janeiro para registrar o seu Aparelho Cinematográfico Guarany, em 1927.

As notas biográficas publicadas sobre a filmografia de Ludovico Persici destacam Bang-Bang, uma obra que roteirizou, produziu e dirigiu em 1926, tendo como atores os próprios amigos, para pôr em prática o seu invento. Tornava-se, assim, o pioneiro do cinema no Espírito Santo e um dos seus precursores até mesmo no Brasil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

3. Os parceiros foram o Arquivo Nacional, o Arquivo Público Estadual, a Cinemateca Brasileira e a Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo.

4. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

5. Antiga Estação de Mattosinhos (depois chamada Coutinho) Uma homenagem da Leopoldina Railway ao Governador Henrique Coutinho, pela cessão da Estrada de Ferro Caravelas.

6. Estação de Santo André (depois chamada Aracuí, hoje um bairro de Castelo).

The Filmmaker and the Restoration

Goldsmith, watchmaker, photographer, inventor, filmmaker, projectionist, musician and owner of a movie theater, the restless Ludovico Persici was born in 1899 in Alfredo Chaves, a municipality of Espírito Santo. Persici was the firstborn of seventeen offspring of whom ten survived. In 1924, he married Eliza Fernandes D’Ávila, the fifth daughter in a family of seven. The couple had no children.

Curious and gifted with remarkable intelligence and invention skills, Ludovico was still in his early years when he started attending the goldsmithing and watchmaking workshop of his father, Erasmo Persici, an Italian immigrant from the province of Parma. He handled tools and disassembled and assembled devices in order to better understand how they worked. According to his brother and biographer Arlindo Persici, it is likely that ingenuity and art manifested in Ludovico Persici around the age of 10 during the construction of the Vitória–Cachoeiro de Itapemirim Railway. The boy mimicked or tried to reproduce each stage of that construction by finding a gully to place a miniature of cuttings, tunnels, crossties, and rails… Nevertheless, going against his father’s authority and not enduring the monotony of his third year of primary school, Ludovico abandoned his studies and ran away from home several times. Ludovico was so hard to pin down that the strict father had to undertake a marathon in search of him.¹

Persici was young when he discovered cinema, only 14. In 1913, he was taken to Rio de Janeiro to become a goldsmith and to improve his skills in the art of watchmaking alongside a great Spanish master. He spent two years in Rio. Of all the novelties that the big city had to offer, the cinematograph was the one that fascinated him most. He became a frequent visitor to weekend movie house screenings, often watching the same films over and over again.

A pioneer in every respect, Ludovico Persici is the driving force behind the Cine Memória Capixaba program, whose mission is to discover and spread the diversity of Espírito Santo cinema and to find ways of preserving it. Persici’s only surviving film, Cenas de Família, was considered lost until PhD researcher José Eugênio Vieira discovered it while assessing primary sources for a historical study on Castelo, a municipality located in the state of Espírito Santo. The film was subsequently restored from 2004 to 2010 with funding from the Secretary of Culture of the Government of the State of Espírito Santo (Secult-ES).2 The process was carried out by the Secretary’s Coordination of Cinema and Video under the framework of the project Cine Memória Capixaba.

The original 16mm reversible film print of Cenas de Família was found wrapped inside a newspaper in a plastic bag. The print was stuck together and dried out like a brick. As far as we could tell upon first looking at the print, it was the negative of the first film shot with the “Cinematógrafo Guarany” [Guanarany Cinematograph], the camera Ludovico Persici built and patented at the Ministry of Agriculture, Industry, and Commerce, in Rio de Janeiro in 1927. According to the Dicionário Histórico Fotográfico Capixaba website, the machine “...filmed, projected, copied, and measured the film length frame by frame. It was also equipped with a bell, which announced the end of the cinematographic screening”.3 Persici managed to put all these features into a single portable device.

I was aware of how historically important this film was and soon realized that a major financial investment and the right technology would be needed to restore the work. Months after we discovered the film print, Secult-ES partnered with Brazilian film archives4 to put on Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema [Archival Film Screening Series: Censorship and Film]. The screening series took place in 2004 with the support of local and institutional press, achieving success among audiences. In addition to this program of archival films we put on four thematic discussion panels: Censorship in Brazilian Cinema, Cultural Resistance in Espírito Santo, Public Policies for Audiovisual Preservation and New Technologies Applied to Preservation.

One of the films shown at this screening series was O Sonho e a Máquina, a documentary by Alex Viany about Ludovico Persici. The film archive of the Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo [Public Archive of the State of Espírito Santo] holds a 16mm print of the film. Made in 1974, this film provides insight into Persici’s importance as well as Espírito Santo’s presence in the history of Brazilian cinema. Based on an investigation conducted by journalist Rogério Medeiros, this film was gorgeously shot by Hélio Silva, distributed by Embrafilme, and produced by capixaba Ney Modenesi.  

Technicians Clóvis Molinari and Mauro Domingues, from Arquivo Nacional, and Patrícia de Fillipi, from the Cinemateca Brasileira, participated in the Public Policies for Audiovisual Preservation and the New Technologies Applied to Preservation panels as Secult-ES’s special guests. Their technical support was key in allowing us to appoint Rio de Janeiro-based Labo Cine do Brasil as the laboratory to undertake the restoration of Ludovico Persici's film. The decision to work with Labo Cine was grounded in the historical importance of this film, the urgency to work on it, its poor conservation status, and the specific technology required in the restoration process. Cenas de Família received its name at Labo Cine, following the identification of frames portraying scenes of everyday family life.

The restoration work on the Cenas de Família’s print started in 2005 and lasted about three years. By the end of that time, a master print and an internegative were produced as a basis for the final copy in 16mm. This copy was digitized and later donated along with the internegative to the archives of Arquivo Público do Espírito Santo.

Cenas de Família’s first screening took place in August 2008 at the Anchieta Palace, headquarters of the State Government. The screening took place together with the release of the second edition of the book História do Estado do Espírito Santo [History of the State of Espírito Santo] by José Teixeira de Oliveira. A digital copy of the film was scored with a collection of jazz songs and then projected at this event, which was coordinated by the Office of the Civil House of the Government of the State of Espírito Santo. The second screening of Cenas de Família took place in 2009 at the opening of Projeto Mova Caparaó (6th Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). For this screening, the restored film print was shown and the projection of the original silent copy was backed up by the accordion of Mirano Schuler. The event was carried out by Secult-ES in the municipality of Alegre, under the coordination of the author of this text.

The Railways of Cenas de Família

The e-mail that first notified the beginning of the restoration process of Cenas de Família came along with a handful of preliminary moving images. Attached, we found two train sequences whose combined running time amounted to about a minute. Throughout that week and the following one, I watched these sequences several times, frame by frame, in search of a clue or remnant that could lead me to their author. Immediately, a particular image frozen on the screen seemed to echo Arrival of a Train at La Ciotat, the Lumière Brothers’ 1896 film.

Could Ludovico Persici's “A Chegada do Trem” [Arrival of a Train] in Cenas de Família be a premeditated quote? A tribute to the pioneers – from one inventor to a duo of inventors – each with their own cinematograph and the train station of their respective time? For Ludovico, there was a 33-year gap between himself and the Lumière Brothers’. He was then 28 years old.

The Caravelas Railway was the first train segment built in Espírito Santo, still in the Provincial period, and its images in Cenas de Família are its oldest records. The Viscount of Mattosinhos, who owned Companhia de Navegação and Estrada de Ferro Caravelas [Caravelas Railroad and Navigation Company], was responsible for the creation of the railway. The construction of the railway route took less than two years. The work began in January 1886 and was concluded in September 1887.5 The construction was for the transportation of coffee from the region of Alegre and Castelo to Cachoeiro de Itapemirim. A vessel loaded with the product would then head to the Port of Itapemirim and finally be bound for Rio de Janeiro, where the coffee would be exported.

The Caravelas Railway had come under the control of company Leopoldina Railway in 1907. It was 71 km long, starting from Cachoeiro de Itapemirim and splitting into a 50km long branch line to Alegre and another 21km long line to Castelo. The latter is the one documented in the film.

In the same year of 1927, Ludovico Persici was living in Conceição do Castelo, in the Cachoeiro de Itapemirim district. He was living there along with the “Jovens Castelenses” [young girls from Conceição do Castelo] documented on the street and on the beach of Marataízes. Also living there, presumably, were his three friends on the train, who are there throughout the whole trip and in other ventures recorded by Ludovico in the film.

By the end of that decade, coffee production in Espírito Santo had developed to the extent that the state had become the fourth-ranked producer in the country. The south of the state played a major role in this achievement on account of the coffee production levels within the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

In 1928, the county of Castelo was established and the district of Conceição do Castelo was made part of it, gaining the status of a village. Its population descends predominantly from Italians coming from Italy’s northeastern provinces. Colonization originated particularly in Serra do Castelo, which would later lend the city its name. It was so called due to the formation of hills and valleys that resembled European medieval castles.

While observing the railway stations as identified on the train’s path, we find the following sequence: Coutinho (00’52”),6 Castelo (02’54”), Santo André (04’02”)7 and Conduru (13’08”). Except for Coutinho, these stations are spotted from behind or along the moving train. As the characters disembark at Coutinho Station, this allows us to surmise that they came aboard in Castelo, towards the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

We can distinguish two films in this location: a fiction and a documentary. In the fiction, the driver in uniform gets off the train surrounded by a cloud of steam. A man in a jacket and tie awaits him by the line. A uniformed train agent comes close to both of them. They head towards a locomotive stopped on another railway line, in the opposite direction. A man in a suit is on the ground, clinging to the locomotive's track cleaner. We then notice a very brief turmoil between the driver and this man, staged for the camera while it drifts to Coutinho Station. On the station platform, a man in a suit goes down the ramp towards the camera. Wide shot of Coutinho Station. A three-car passenger steam locomotive stops at the railroad.

In the fiction, the driver is played by Ludovico Persici himself. The man who goes down the station ramp and the man in a suit whom we watch clinging to the locomotive are his friends and actors who accompany him on the train journey. Sadly, this eventful external sequence at Coutinho Station is damaged and the content of the scenes has undergone great loss. The external shots of the Coutinho Station are beautiful, either for the fiction or for the documentary “A Chegada do Trem”.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

We now join Ludovico and his three friends on a trip down the Rio-Petrópolis Highway, the first paved highway in the country and a landmark of national engineering. The Rio-Petrópolis Highway was only officially opened in August 1928 by President Washington Luiz, the last president of the República Velha [Old Republic], deposed by the Revolução de 30 [Revolution of 1930].

We believe that the images shot for “A Chegada do Trem”, included in the rough cut of Cenas de Família, document the trip of Ludovico Persici and his friends to copyright his Guarany Cinematographic Apparatus in Rio de Janeiro in 1927. The biographical notes published on Ludovico Persici’s filmography usually highlight Bang-Bang, a film which was scripted, produced and directed by Persici in 1926. Persici used his own friends as actors in order to put his invention into practice. He thus became the cinema pioneer in Espírito Santo and we might even say one of its precursors in Brazil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. TN. Mentions to local institutions, venues, grant and cultural programs and artistic or research works throughout this text may be directly translated to English, when this seems accurate and adequate. Otherwise, in case the original name in Portuguese is to be registered, necessary translation will be found in brackets for better understanding.

3. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

4. Institutions include Arquivo Nacional [National Archive], Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo (APEES) [Public Archive of the State of Espírito Santo], Cinemateca Brasileira and also the Legislative Assembly of the State of Espírito Santo (Ales).

5. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

6. Former Mattosinhos Station (later called Coutinho). A tribute by Leopoldina Railway to Governor Henrique Coutinho, on account of transferring the Caravelas Railway.

7. Santo André Station (later called Aracuí, which is currently the name of a neighborhood in Castelo).

The Filmmaker and the Restoration

Goldsmith, watchmaker, photographer, inventor, filmmaker, projectionist, musician and owner of a movie theater, the restless Ludovico Persici was born in 1899 in Alfredo Chaves, a municipality of Espírito Santo. Persici was the firstborn of seventeen offspring of whom ten survived. In 1924, he married Eliza Fernandes D’Ávila, the fifth daughter in a family of seven. The couple had no children.

Curious and gifted with remarkable intelligence and invention skills, Ludovico was still in his early years when he started attending the goldsmithing and watchmaking workshop of his father, Erasmo Persici, an Italian immigrant from the province of Parma. He handled tools and disassembled and assembled devices in order to better understand how they worked. According to his brother and biographer Arlindo Persici, it is likely that ingenuity and art manifested in Ludovico Persici around the age of 10 during the construction of the Vitória–Cachoeiro de Itapemirim Railway. The boy mimicked or tried to reproduce each stage of that construction by finding a gully to place a miniature of cuttings, tunnels, crossties, and rails… Nevertheless, going against his father’s authority and not enduring the monotony of his third year of primary school, Ludovico abandoned his studies and ran away from home several times. Ludovico was so hard to pin down that the strict father had to undertake a marathon in search of him.¹

Persici was young when he discovered cinema, only 14. In 1913, he was taken to Rio de Janeiro to become a goldsmith and to improve his skills in the art of watchmaking alongside a great Spanish master. He spent two years in Rio. Of all the novelties that the big city had to offer, the cinematograph was the one that fascinated him most. He became a frequent visitor to weekend movie house screenings, often watching the same films over and over again.

A pioneer in every respect, Ludovico Persici is the driving force behind the Cine Memória Capixaba program, whose mission is to discover and spread the diversity of Espírito Santo cinema and to find ways of preserving it. Persici’s only surviving film, Cenas de Família, was considered lost until PhD researcher José Eugênio Vieira discovered it while assessing primary sources for a historical study on Castelo, a municipality located in the state of Espírito Santo. The film was subsequently restored from 2004 to 2010 with funding from the Secretary of Culture of the Government of the State of Espírito Santo (Secult-ES).2 The process was carried out by the Secretary’s Coordination of Cinema and Video under the framework of the project Cine Memória Capixaba.

The original 16mm reversible film print of Cenas de Família was found wrapped inside a newspaper in a plastic bag. The print was stuck together and dried out like a brick. As far as we could tell upon first looking at the print, it was the negative of the first film shot with the “Cinematógrafo Guarany” [Guanarany Cinematograph], the camera Ludovico Persici built and patented at the Ministry of Agriculture, Industry, and Commerce, in Rio de Janeiro in 1927. According to the Dicionário Histórico Fotográfico Capixaba website, the machine “...filmed, projected, copied, and measured the film length frame by frame. It was also equipped with a bell, which announced the end of the cinematographic screening”.3 Persici managed to put all these features into a single portable device.

I was aware of how historically important this film was and soon realized that a major financial investment and the right technology would be needed to restore the work. Months after we discovered the film print, Secult-ES partnered with Brazilian film archives4 to put on Mostra de Cinema de Arquivo: A Censura e o Cinema [Archival Film Screening Series: Censorship and Film]. The screening series took place in 2004 with the support of local and institutional press, achieving success among audiences. In addition to this program of archival films we put on four thematic discussion panels: Censorship in Brazilian Cinema, Cultural Resistance in Espírito Santo, Public Policies for Audiovisual Preservation and New Technologies Applied to Preservation.

One of the films shown at this screening series was O Sonho e a Máquina, a documentary by Alex Viany about Ludovico Persici. The film archive of the Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo [Public Archive of the State of Espírito Santo] holds a 16mm print of the film. Made in 1974, this film provides insight into Persici’s importance as well as Espírito Santo’s presence in the history of Brazilian cinema. Based on an investigation conducted by journalist Rogério Medeiros, this film was gorgeously shot by Hélio Silva, distributed by Embrafilme, and produced by capixaba Ney Modenesi.  

Technicians Clóvis Molinari and Mauro Domingues, from Arquivo Nacional, and Patrícia de Fillipi, from the Cinemateca Brasileira, participated in the Public Policies for Audiovisual Preservation and the New Technologies Applied to Preservation panels as Secult-ES’s special guests. Their technical support was key in allowing us to appoint Rio de Janeiro-based Labo Cine do Brasil as the laboratory to undertake the restoration of Ludovico Persici's film. The decision to work with Labo Cine was grounded in the historical importance of this film, the urgency to work on it, its poor conservation status, and the specific technology required in the restoration process. Cenas de Família received its name at Labo Cine, following the identification of frames portraying scenes of everyday family life.

The restoration work on the Cenas de Família’s print started in 2005 and lasted about three years. By the end of that time, a master print and an internegative were produced as a basis for the final copy in 16mm. This copy was digitized and later donated along with the internegative to the archives of Arquivo Público do Espírito Santo.

Cenas de Família’s first screening took place in August 2008 at the Anchieta Palace, headquarters of the State Government. The screening took place together with the release of the second edition of the book História do Estado do Espírito Santo [History of the State of Espírito Santo] by José Teixeira de Oliveira. A digital copy of the film was scored with a collection of jazz songs and then projected at this event, which was coordinated by the Office of the Civil House of the Government of the State of Espírito Santo. The second screening of Cenas de Família took place in 2009 at the opening of Projeto Mova Caparaó (6th Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó). For this screening, the restored film print was shown and the projection of the original silent copy was backed up by the accordion of Mirano Schuler. The event was carried out by Secult-ES in the municipality of Alegre, under the coordination of the author of this text.

The Railways of Cenas de Família

The e-mail that first notified the beginning of the restoration process of Cenas de Família came along with a handful of preliminary moving images. Attached, we found two train sequences whose combined running time amounted to about a minute. Throughout that week and the following one, I watched these sequences several times, frame by frame, in search of a clue or remnant that could lead me to their author. Immediately, a particular image frozen on the screen seemed to echo Arrival of a Train at La Ciotat, the Lumière Brothers’ 1896 film.

Could Ludovico Persici's “A Chegada do Trem” [Arrival of a Train] in Cenas de Família be a premeditated quote? A tribute to the pioneers – from one inventor to a duo of inventors – each with their own cinematograph and the train station of their respective time? For Ludovico, there was a 33-year gap between himself and the Lumière Brothers’. He was then 28 years old.

The Caravelas Railway was the first train segment built in Espírito Santo, still in the Provincial period, and its images in Cenas de Família are its oldest records. The Viscount of Mattosinhos, who owned Companhia de Navegação and Estrada de Ferro Caravelas [Caravelas Railroad and Navigation Company], was responsible for the creation of the railway. The construction of the railway route took less than two years. The work began in January 1886 and was concluded in September 1887.5 The construction was for the transportation of coffee from the region of Alegre and Castelo to Cachoeiro de Itapemirim. A vessel loaded with the product would then head to the Port of Itapemirim and finally be bound for Rio de Janeiro, where the coffee would be exported.

The Caravelas Railway had come under the control of company Leopoldina Railway in 1907. It was 71 km long, starting from Cachoeiro de Itapemirim and splitting into a 50km long branch line to Alegre and another 21km long line to Castelo. The latter is the one documented in the film.

In the same year of 1927, Ludovico Persici was living in Conceição do Castelo, in the Cachoeiro de Itapemirim district. He was living there along with the “Jovens Castelenses” [young girls from Conceição do Castelo] documented on the street and on the beach of Marataízes. Also living there, presumably, were his three friends on the train, who are there throughout the whole trip and in other ventures recorded by Ludovico in the film.

By the end of that decade, coffee production in Espírito Santo had developed to the extent that the state had become the fourth-ranked producer in the country. The south of the state played a major role in this achievement on account of the coffee production levels within the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

In 1928, the county of Castelo was established and the district of Conceição do Castelo was made part of it, gaining the status of a village. Its population descends predominantly from Italians coming from Italy’s northeastern provinces. Colonization originated particularly in Serra do Castelo, which would later lend the city its name. It was so called due to the formation of hills and valleys that resembled European medieval castles.

While observing the railway stations as identified on the train’s path, we find the following sequence: Coutinho (00’52”),6 Castelo (02’54”), Santo André (04’02”)7 and Conduru (13’08”). Except for Coutinho, these stations are spotted from behind or along the moving train. As the characters disembark at Coutinho Station, this allows us to surmise that they came aboard in Castelo, towards the municipality of Cachoeiro de Itapemirim.

We can distinguish two films in this location: a fiction and a documentary. In the fiction, the driver in uniform gets off the train surrounded by a cloud of steam. A man in a jacket and tie awaits him by the line. A uniformed train agent comes close to both of them. They head towards a locomotive stopped on another railway line, in the opposite direction. A man in a suit is on the ground, clinging to the locomotive's track cleaner. We then notice a very brief turmoil between the driver and this man, staged for the camera while it drifts to Coutinho Station. On the station platform, a man in a suit goes down the ramp towards the camera. Wide shot of Coutinho Station. A three-car passenger steam locomotive stops at the railroad.

In the fiction, the driver is played by Ludovico Persici himself. The man who goes down the station ramp and the man in a suit whom we watch clinging to the locomotive are his friends and actors who accompany him on the train journey. Sadly, this eventful external sequence at Coutinho Station is damaged and the content of the scenes has undergone great loss. The external shots of the Coutinho Station are beautiful, either for the fiction or for the documentary “A Chegada do Trem”.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

This is the only location where the camera is off the train. In addition to the above-mentioned shots, two fixed shots recorded as supporting material display the four friends on board (including Ludovico Persici, the one who wears a hat) standing outside the passenger wagon (04’57”). They were probably filmed either on this very set or at a train stop at Conduru Station (13’08”). The camera, which records most landscapes of this route, shapes a subjective gaze of the travelers.

We now join Ludovico and his three friends on a trip down the Rio-Petrópolis Highway, the first paved highway in the country and a landmark of national engineering. The Rio-Petrópolis Highway was only officially opened in August 1928 by President Washington Luiz, the last president of the República Velha [Old Republic], deposed by the Revolução de 30 [Revolution of 1930].

We believe that the images shot for “A Chegada do Trem”, included in the rough cut of Cenas de Família, document the trip of Ludovico Persici and his friends to copyright his Guarany Cinematographic Apparatus in Rio de Janeiro in 1927. The biographical notes published on Ludovico Persici’s filmography usually highlight Bang-Bang, a film which was scripted, produced and directed by Persici in 1926. Persici used his own friends as actors in order to put his invention into practice. He thus became the cinema pioneer in Espírito Santo and we might even say one of its precursors in Brazil.

1. Lopes, Almerinda S. Memória Aprisionada - a visualidade fotográfica capixaba: 1850/1950. Vitória, Edufes, 2002.

2. TN. Mentions to local institutions, venues, grant and cultural programs and artistic or research works throughout this text may be directly translated to English, when this seems accurate and adequate. Otherwise, in case the original name in Portuguese is to be registered, necessary translation will be found in brackets for better understanding.

3. https://dicionariofotograficocapixaba.blogspot.com/2018/05/ludovico-persici.html?m=1

4. Institutions include Arquivo Nacional [National Archive], Arquivo Público Estadual do Estado do Espírito Santo (APEES) [Public Archive of the State of Espírito Santo], Cinemateca Brasileira and also the Legislative Assembly of the State of Espírito Santo (Ales).

5. Ferreira, C, S. Estrada de Ferro Caravelas: Trilhos pioneiros da trajetória socioeconômica do Sul do Espírito Santo. 2015. 125f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

6. Former Mattosinhos Station (later called Coutinho). A tribute by Leopoldina Railway to Governor Henrique Coutinho, on account of transferring the Caravelas Railway.

7. Santo André Station (later called Aracuí, which is currently the name of a neighborhood in Castelo).