PT/ENG
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24/2/2026
By/Por:
Pedro Butcher

Em “A música no cinema – Os 100 primeiros anos” (2003), obra em dois volumes do jornalista e pesquisador João Máximo, John Neschling encerra o capítulo dedicado à relação entre a tradição sinfônica brasileira e o cinema, que tem como expressão máxima Heitor Villa-Lobos e se desdobra em Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro e Camargo Guarnieri. Não por acaso, todos esses compositores/maestros se associaram, com maior ou menor frequência, às tentativas dos produtores brasileiros de inserir o cinema nacional no modelo dos estúdios hollywoodianos, reproduzindo os modelos de produção e o formato narrativo dito “clássico”, no qual a trilha sonora orquestral tem papel definitivo (Mignone, sobretudo, compôs para a Cinédia e Vera Cruz).

De uma geração posterior, John Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, e mergulhou fundo nos estudos de piano, composição e regência, com passagens pela Europa e pelos EUA. Teve, como professores de regência, Hans Swarowski e Leonard Bernstein; foi maestro e diretor artístico de orquestras de prestígio na Europa, EUA e Brasil; e entre 1997 e 2008 esteve à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, numa gestão ao mesmo tempo celebrada por ter levado a orquestra ao patamar das melhores do mundo e condenada por conta do temperamento intempestivo e, segundo os críticos, autoritário de Neschling.

Antes de voltar suas energias para uma carreira internacional, a composição de trilhas para teatro e cinema ocupou uma posição central no trabalho de Neschling, sobretudo ao longo dos anos 1970 e 1980. Seu nome está associado a montagens teatrais importantes como As desgraças de uma criança (texto de Martins Pena, direção de Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (texto de Louis Verneuil, direção de Fernando Torres, 1973) e O patinho feio (musical infantil com texto e direção de Maria Clara Machado, 1976); além disso, assinou a direção musical das históricas montagens de A ópera do malandro (texto e canções de Chico Buarque, direção de Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978), e Rasga coração (texto de Oduvaldo Vianna Filho, direção de José Renato, 1979).

Para o cinema e a televisão, Neschling compôs a trilha de pouco mais de uma dezena de obras, com destaque absoluto para sua colaboração com o cineasta Hector Babenco, em três filmes: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981) e O Beijo da Mulher Aranha (1985) – neste último, em colaboração com Nando Carneiro. Talvez pelo fato de Babenco ter sido indicado ao Oscar e trilhado uma carreira internacional após a bem sucedida experiência de O Beijo da Mulher Aranha (uma típica produção cosmopolita de seu tempo, falada em inglês, filmada no Brasil e adaptada de um livro em espanhol), Babenco foi considerado “o mais hollywoodiano” dos diretores brasileiros (nacionalidade que adotou, apesar de ter nascido na Argentina).

No entanto, essa pode ser uma conclusão imediatista, e talvez uma observação mais atenta da música de Neschling e de seu uso nos filmes ajude a expandir horizontes. Tanto Lúcio Flavio como Pixote são adaptações de livros do jornalista José Louzeiro. O primeiro narra as desventuras de um dos mais atuantes assaltantes de banco do país, o segundo acompanha a trajetória de um menino abandonado, no tempo em que passa numa instituição do Estado e, depois de uma fuga em massa, pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A música de Neschling está em sintonia com a direção de Babenco, que, talvez, se aproxime mais de uma concepção neorrealista do que propriamente “clássica”. Nesses dois filmes, a realidade urbana brasileira se apresenta numa encenação crua e poética. De uma forma geral, nos filmes musicados por Neschling, a música contribui para dar o “tom” na abertura e, depois, aparece discreta e pontualmente, seja como ênfase para um momento crucial ou como respiro em um momento de pausa dramática. A estrutura sinfônica ganha contornos e ritmos brasileiros – Lúcio Flavio, por exemplo, conta com arranjos e um solo de safoxone de Paulo Moura. Nas narrativas ditas “clássicas”, a trilha costuma ser muito mais presente e enfática, de aspiração “universal”, atendendo às necessidades do melodrama. E mesmo que em O beijo da mulher aranha a música esteja mais presente, isso se dá em função das oportunidades oferecidas pela dramaturgia do filme, dividido entre o cotidiano de dois presidiários que ocupam uma cela e o universo imaginário dos filmes descritos por um deles, o travesti Molina (William Hurt, Oscar de melhor ator). Mas os interesses de Babenco e a forma de construção desse universo se mantêm: o foco em personagens marginais, e a busca por um olhar ao mesmo tempo realista e poético.

Neschling compôs ainda trilhas para Os condenados (direção de Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) e Bonitinha, mas ordinária (1981), ambos dirigidos por Braz Chediak; O cortiço (direção de Francisco Ramalho Junior”, 1978), Gaijin – Os caminhos da liberdade (direção de Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (direção de Jon Tob Azulay, 1996), Desmundo (direção de Alain Frestnot, 2002), e para a minissérie Os Maias (direção de Luiz Fernando Carvalho, 2001). Entre esses, cabe destacar especialmente os temas de abertura de Desmundo, com o uso de um coral, e especialmente belo prelúdio de Os Maias, cuja abertura presta uma homenagem explícita aos créditos iniciais de A época da inocência (direção de Martin Scorsese, 1993), com trilha de Elmer Bernstein e design de Saul Bass.

Referências:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

Em “A música no cinema – Os 100 primeiros anos” (2003), obra em dois volumes do jornalista e pesquisador João Máximo, John Neschling encerra o capítulo dedicado à relação entre a tradição sinfônica brasileira e o cinema, que tem como expressão máxima Heitor Villa-Lobos e se desdobra em Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro e Camargo Guarnieri. Não por acaso, todos esses compositores/maestros se associaram, com maior ou menor frequência, às tentativas dos produtores brasileiros de inserir o cinema nacional no modelo dos estúdios hollywoodianos, reproduzindo os modelos de produção e o formato narrativo dito “clássico”, no qual a trilha sonora orquestral tem papel definitivo (Mignone, sobretudo, compôs para a Cinédia e Vera Cruz).

De uma geração posterior, John Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, e mergulhou fundo nos estudos de piano, composição e regência, com passagens pela Europa e pelos EUA. Teve, como professores de regência, Hans Swarowski e Leonard Bernstein; foi maestro e diretor artístico de orquestras de prestígio na Europa, EUA e Brasil; e entre 1997 e 2008 esteve à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, numa gestão ao mesmo tempo celebrada por ter levado a orquestra ao patamar das melhores do mundo e condenada por conta do temperamento intempestivo e, segundo os críticos, autoritário de Neschling.

Antes de voltar suas energias para uma carreira internacional, a composição de trilhas para teatro e cinema ocupou uma posição central no trabalho de Neschling, sobretudo ao longo dos anos 1970 e 1980. Seu nome está associado a montagens teatrais importantes como As desgraças de uma criança (texto de Martins Pena, direção de Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (texto de Louis Verneuil, direção de Fernando Torres, 1973) e O patinho feio (musical infantil com texto e direção de Maria Clara Machado, 1976); além disso, assinou a direção musical das históricas montagens de A ópera do malandro (texto e canções de Chico Buarque, direção de Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978), e Rasga coração (texto de Oduvaldo Vianna Filho, direção de José Renato, 1979).

Para o cinema e a televisão, Neschling compôs a trilha de pouco mais de uma dezena de obras, com destaque absoluto para sua colaboração com o cineasta Hector Babenco, em três filmes: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981) e O Beijo da Mulher Aranha (1985) – neste último, em colaboração com Nando Carneiro. Talvez pelo fato de Babenco ter sido indicado ao Oscar e trilhado uma carreira internacional após a bem sucedida experiência de O Beijo da Mulher Aranha (uma típica produção cosmopolita de seu tempo, falada em inglês, filmada no Brasil e adaptada de um livro em espanhol), Babenco foi considerado “o mais hollywoodiano” dos diretores brasileiros (nacionalidade que adotou, apesar de ter nascido na Argentina).

No entanto, essa pode ser uma conclusão imediatista, e talvez uma observação mais atenta da música de Neschling e de seu uso nos filmes ajude a expandir horizontes. Tanto Lúcio Flavio como Pixote são adaptações de livros do jornalista José Louzeiro. O primeiro narra as desventuras de um dos mais atuantes assaltantes de banco do país, o segundo acompanha a trajetória de um menino abandonado, no tempo em que passa numa instituição do Estado e, depois de uma fuga em massa, pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A música de Neschling está em sintonia com a direção de Babenco, que, talvez, se aproxime mais de uma concepção neorrealista do que propriamente “clássica”. Nesses dois filmes, a realidade urbana brasileira se apresenta numa encenação crua e poética. De uma forma geral, nos filmes musicados por Neschling, a música contribui para dar o “tom” na abertura e, depois, aparece discreta e pontualmente, seja como ênfase para um momento crucial ou como respiro em um momento de pausa dramática. A estrutura sinfônica ganha contornos e ritmos brasileiros – Lúcio Flavio, por exemplo, conta com arranjos e um solo de safoxone de Paulo Moura. Nas narrativas ditas “clássicas”, a trilha costuma ser muito mais presente e enfática, de aspiração “universal”, atendendo às necessidades do melodrama. E mesmo que em O beijo da mulher aranha a música esteja mais presente, isso se dá em função das oportunidades oferecidas pela dramaturgia do filme, dividido entre o cotidiano de dois presidiários que ocupam uma cela e o universo imaginário dos filmes descritos por um deles, o travesti Molina (William Hurt, Oscar de melhor ator). Mas os interesses de Babenco e a forma de construção desse universo se mantêm: o foco em personagens marginais, e a busca por um olhar ao mesmo tempo realista e poético.

Neschling compôs ainda trilhas para Os condenados (direção de Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) e Bonitinha, mas ordinária (1981), ambos dirigidos por Braz Chediak; O cortiço (direção de Francisco Ramalho Junior”, 1978), Gaijin – Os caminhos da liberdade (direção de Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (direção de Jon Tob Azulay, 1996), Desmundo (direção de Alain Frestnot, 2002), e para a minissérie Os Maias (direção de Luiz Fernando Carvalho, 2001). Entre esses, cabe destacar especialmente os temas de abertura de Desmundo, com o uso de um coral, e especialmente belo prelúdio de Os Maias, cuja abertura presta uma homenagem explícita aos créditos iniciais de A época da inocência (direção de Martin Scorsese, 1993), com trilha de Elmer Bernstein e design de Saul Bass.

Referências:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

In "A música no cinema – Os 100 primeiros anos" (2003), a two volume work by journalist and researcher João Máximo, John Neschling closes the chapter devoted to the relationship between Brazil’s symphonic tradition and cinema, whose highest expression is Heitor Villa Lobos and which unfolds through Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro, and Camargo Guarnieri. Not by chance, all of these composers and conductors were associated, with greater or lesser frequency, with Brazilian producers’ attempts to insert national cinema into the Hollywood studio model, reproducing its production methods and the so called classical narrative format, in which the orchestral score plays a decisive role. (Mignone, above all, composed for Cinédia and Vera Cruz).

From a later generation, John Neschling was born in Rio de Janeiro in 1947 and immersed himself deeply in the study of piano, composition, and conducting, with periods in Europe and the United States. He studied conducting with Hans Swarowsky and Leonard Bernstein; served as conductor and artistic director of prestigious orchestras in Europe, the United States, and Brazil; and, between 1997 and 2008, led the São Paulo State Symphony Orchestra in a tenure that was at once celebrated for taking the ensemble to the level of the best orchestras in the world and condemned because of Neschling’s tempestuous temperament and, according to critics, authoritarian manner.

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

For film and television, Neschling composed scores for just over a dozen works, with absolute emphasis on his collaboration with filmmaker Hector Babenco on three films: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), and O Beijo da Mulher Aranha (1985) – on the latter, in collaboration with Nando Carneiro. Perhaps because Babenco received an Oscar nomination and went on to pursue an international career after the successful experience of O Beijo da Mulher Aranha (a typical cosmopolitan production of its time, in English, shot in Brazil, and adapted from a book in Spanish), Babenco came to be regarded as “the most Hollywood-like” of Brazilian directors (a nationality he adopted, despite having been born in Argentina).

However, that may be a hasty conclusion, and a closer look at Neschling’s music and the way it is used in these films may help broaden the horizon. Both Lúcio Flávio and Pixote are adaptations of books by journalist José Louzeiro. The first recounts the misadventures of one of the country’s most active bank robbers; the second follows the trajectory of an abandoned boy, during the time he spends in a state institution and then, after a mass escape, on the streets of São Paulo and Rio de Janeiro. Neschling’s music is in tune with Babenco’s direction, which may in fact be closer to a neorealist conception than to anything properly “classical.” In these two films, Brazilian urban reality is presented in a staging that is both raw and poetic.

In general, in the films scored by Neschling, the music helps set the “tone” in the opening and then appears discreetly and at specific moments, either to underscore a crucial scene or to provide breathing room in a moment of dramatic pause. The symphonic structure takes on Brazilian contours and rhythms — Lúcio Flávio, for example, includes arrangements and a saxophone solo by Paulo Moura. In so called “classical” narratives, the score is usually far more present and emphatic, with “universal” aspirations, serving the needs of melodrama. And even if in O Beijo da Mulher Aranha the music is more present, this is due to the opportunities offered by the film’s dramaturgy, divided between the daily life of two prisoners who share a cell and the imaginary universe of the films described by one of them, the transvestite Molina (William Hurt, Oscar for Best Actor). Yet Babenco’s interests, and the way this universe is constructed, remain the same: a focus on marginal characters and the pursuit of a gaze that is at once realistic and poetic.

Neschling also composed scores for Os condenados (directed by Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) and Bonitinha, mas ordinária (1981), both directed by Braz Chediak; O cortiço (directed by Francisco Ramalho Junior, 1978); Gaijin – Os caminhos da liberdade (directed by Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (directed by Jom Tob Azulay, 1996); Desmundo (directed by Alain Fresnot, 2002); and the miniseries Os Maias (directed by Luiz Fernando Carvalho, 2001). Among these, special mention should be made of the opening themes of Desmundo, which use a choir, and the especially beautiful prelude to Os Maias, whose opening pays explicit homage to the opening credits of A época da inocência (directed by Martin Scorsese, 1993), with a score by Elmer Bernstein and title design by Saul Bass.

References:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

In "A música no cinema – Os 100 primeiros anos" (2003), a two volume work by journalist and researcher João Máximo, John Neschling closes the chapter devoted to the relationship between Brazil’s symphonic tradition and cinema, whose highest expression is Heitor Villa Lobos and which unfolds through Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro, and Camargo Guarnieri. Not by chance, all of these composers and conductors were associated, with greater or lesser frequency, with Brazilian producers’ attempts to insert national cinema into the Hollywood studio model, reproducing its production methods and the so called classical narrative format, in which the orchestral score plays a decisive role. (Mignone, above all, composed for Cinédia and Vera Cruz).

From a later generation, John Neschling was born in Rio de Janeiro in 1947 and immersed himself deeply in the study of piano, composition, and conducting, with periods in Europe and the United States. He studied conducting with Hans Swarowsky and Leonard Bernstein; served as conductor and artistic director of prestigious orchestras in Europe, the United States, and Brazil; and, between 1997 and 2008, led the São Paulo State Symphony Orchestra in a tenure that was at once celebrated for taking the ensemble to the level of the best orchestras in the world and condemned because of Neschling’s tempestuous temperament and, according to critics, authoritarian manner.

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

For film and television, Neschling composed scores for just over a dozen works, with absolute emphasis on his collaboration with filmmaker Hector Babenco on three films: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), and O Beijo da Mulher Aranha (1985) – on the latter, in collaboration with Nando Carneiro. Perhaps because Babenco received an Oscar nomination and went on to pursue an international career after the successful experience of O Beijo da Mulher Aranha (a typical cosmopolitan production of its time, in English, shot in Brazil, and adapted from a book in Spanish), Babenco came to be regarded as “the most Hollywood-like” of Brazilian directors (a nationality he adopted, despite having been born in Argentina).

However, that may be a hasty conclusion, and a closer look at Neschling’s music and the way it is used in these films may help broaden the horizon. Both Lúcio Flávio and Pixote are adaptations of books by journalist José Louzeiro. The first recounts the misadventures of one of the country’s most active bank robbers; the second follows the trajectory of an abandoned boy, during the time he spends in a state institution and then, after a mass escape, on the streets of São Paulo and Rio de Janeiro. Neschling’s music is in tune with Babenco’s direction, which may in fact be closer to a neorealist conception than to anything properly “classical.” In these two films, Brazilian urban reality is presented in a staging that is both raw and poetic.

In general, in the films scored by Neschling, the music helps set the “tone” in the opening and then appears discreetly and at specific moments, either to underscore a crucial scene or to provide breathing room in a moment of dramatic pause. The symphonic structure takes on Brazilian contours and rhythms — Lúcio Flávio, for example, includes arrangements and a saxophone solo by Paulo Moura. In so called “classical” narratives, the score is usually far more present and emphatic, with “universal” aspirations, serving the needs of melodrama. And even if in O Beijo da Mulher Aranha the music is more present, this is due to the opportunities offered by the film’s dramaturgy, divided between the daily life of two prisoners who share a cell and the imaginary universe of the films described by one of them, the transvestite Molina (William Hurt, Oscar for Best Actor). Yet Babenco’s interests, and the way this universe is constructed, remain the same: a focus on marginal characters and the pursuit of a gaze that is at once realistic and poetic.

Neschling also composed scores for Os condenados (directed by Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) and Bonitinha, mas ordinária (1981), both directed by Braz Chediak; O cortiço (directed by Francisco Ramalho Junior, 1978); Gaijin – Os caminhos da liberdade (directed by Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (directed by Jom Tob Azulay, 1996); Desmundo (directed by Alain Fresnot, 2002); and the miniseries Os Maias (directed by Luiz Fernando Carvalho, 2001). Among these, special mention should be made of the opening themes of Desmundo, which use a choir, and the especially beautiful prelude to Os Maias, whose opening pays explicit homage to the opening credits of A época da inocência (directed by Martin Scorsese, 1993), with a score by Elmer Bernstein and title design by Saul Bass.

References:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

PT/ENG
PT/ENG
24/2/2026
By/Por:
Pedro Butcher

Em “A música no cinema – Os 100 primeiros anos” (2003), obra em dois volumes do jornalista e pesquisador João Máximo, John Neschling encerra o capítulo dedicado à relação entre a tradição sinfônica brasileira e o cinema, que tem como expressão máxima Heitor Villa-Lobos e se desdobra em Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro e Camargo Guarnieri. Não por acaso, todos esses compositores/maestros se associaram, com maior ou menor frequência, às tentativas dos produtores brasileiros de inserir o cinema nacional no modelo dos estúdios hollywoodianos, reproduzindo os modelos de produção e o formato narrativo dito “clássico”, no qual a trilha sonora orquestral tem papel definitivo (Mignone, sobretudo, compôs para a Cinédia e Vera Cruz).

De uma geração posterior, John Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, e mergulhou fundo nos estudos de piano, composição e regência, com passagens pela Europa e pelos EUA. Teve, como professores de regência, Hans Swarowski e Leonard Bernstein; foi maestro e diretor artístico de orquestras de prestígio na Europa, EUA e Brasil; e entre 1997 e 2008 esteve à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, numa gestão ao mesmo tempo celebrada por ter levado a orquestra ao patamar das melhores do mundo e condenada por conta do temperamento intempestivo e, segundo os críticos, autoritário de Neschling.

Antes de voltar suas energias para uma carreira internacional, a composição de trilhas para teatro e cinema ocupou uma posição central no trabalho de Neschling, sobretudo ao longo dos anos 1970 e 1980. Seu nome está associado a montagens teatrais importantes como As desgraças de uma criança (texto de Martins Pena, direção de Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (texto de Louis Verneuil, direção de Fernando Torres, 1973) e O patinho feio (musical infantil com texto e direção de Maria Clara Machado, 1976); além disso, assinou a direção musical das históricas montagens de A ópera do malandro (texto e canções de Chico Buarque, direção de Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978), e Rasga coração (texto de Oduvaldo Vianna Filho, direção de José Renato, 1979).

Para o cinema e a televisão, Neschling compôs a trilha de pouco mais de uma dezena de obras, com destaque absoluto para sua colaboração com o cineasta Hector Babenco, em três filmes: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981) e O Beijo da Mulher Aranha (1985) – neste último, em colaboração com Nando Carneiro. Talvez pelo fato de Babenco ter sido indicado ao Oscar e trilhado uma carreira internacional após a bem sucedida experiência de O Beijo da Mulher Aranha (uma típica produção cosmopolita de seu tempo, falada em inglês, filmada no Brasil e adaptada de um livro em espanhol), Babenco foi considerado “o mais hollywoodiano” dos diretores brasileiros (nacionalidade que adotou, apesar de ter nascido na Argentina).

No entanto, essa pode ser uma conclusão imediatista, e talvez uma observação mais atenta da música de Neschling e de seu uso nos filmes ajude a expandir horizontes. Tanto Lúcio Flavio como Pixote são adaptações de livros do jornalista José Louzeiro. O primeiro narra as desventuras de um dos mais atuantes assaltantes de banco do país, o segundo acompanha a trajetória de um menino abandonado, no tempo em que passa numa instituição do Estado e, depois de uma fuga em massa, pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A música de Neschling está em sintonia com a direção de Babenco, que, talvez, se aproxime mais de uma concepção neorrealista do que propriamente “clássica”. Nesses dois filmes, a realidade urbana brasileira se apresenta numa encenação crua e poética. De uma forma geral, nos filmes musicados por Neschling, a música contribui para dar o “tom” na abertura e, depois, aparece discreta e pontualmente, seja como ênfase para um momento crucial ou como respiro em um momento de pausa dramática. A estrutura sinfônica ganha contornos e ritmos brasileiros – Lúcio Flavio, por exemplo, conta com arranjos e um solo de safoxone de Paulo Moura. Nas narrativas ditas “clássicas”, a trilha costuma ser muito mais presente e enfática, de aspiração “universal”, atendendo às necessidades do melodrama. E mesmo que em O beijo da mulher aranha a música esteja mais presente, isso se dá em função das oportunidades oferecidas pela dramaturgia do filme, dividido entre o cotidiano de dois presidiários que ocupam uma cela e o universo imaginário dos filmes descritos por um deles, o travesti Molina (William Hurt, Oscar de melhor ator). Mas os interesses de Babenco e a forma de construção desse universo se mantêm: o foco em personagens marginais, e a busca por um olhar ao mesmo tempo realista e poético.

Neschling compôs ainda trilhas para Os condenados (direção de Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) e Bonitinha, mas ordinária (1981), ambos dirigidos por Braz Chediak; O cortiço (direção de Francisco Ramalho Junior”, 1978), Gaijin – Os caminhos da liberdade (direção de Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (direção de Jon Tob Azulay, 1996), Desmundo (direção de Alain Frestnot, 2002), e para a minissérie Os Maias (direção de Luiz Fernando Carvalho, 2001). Entre esses, cabe destacar especialmente os temas de abertura de Desmundo, com o uso de um coral, e especialmente belo prelúdio de Os Maias, cuja abertura presta uma homenagem explícita aos créditos iniciais de A época da inocência (direção de Martin Scorsese, 1993), com trilha de Elmer Bernstein e design de Saul Bass.

Referências:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

Em “A música no cinema – Os 100 primeiros anos” (2003), obra em dois volumes do jornalista e pesquisador João Máximo, John Neschling encerra o capítulo dedicado à relação entre a tradição sinfônica brasileira e o cinema, que tem como expressão máxima Heitor Villa-Lobos e se desdobra em Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro e Camargo Guarnieri. Não por acaso, todos esses compositores/maestros se associaram, com maior ou menor frequência, às tentativas dos produtores brasileiros de inserir o cinema nacional no modelo dos estúdios hollywoodianos, reproduzindo os modelos de produção e o formato narrativo dito “clássico”, no qual a trilha sonora orquestral tem papel definitivo (Mignone, sobretudo, compôs para a Cinédia e Vera Cruz).

De uma geração posterior, John Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, e mergulhou fundo nos estudos de piano, composição e regência, com passagens pela Europa e pelos EUA. Teve, como professores de regência, Hans Swarowski e Leonard Bernstein; foi maestro e diretor artístico de orquestras de prestígio na Europa, EUA e Brasil; e entre 1997 e 2008 esteve à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, numa gestão ao mesmo tempo celebrada por ter levado a orquestra ao patamar das melhores do mundo e condenada por conta do temperamento intempestivo e, segundo os críticos, autoritário de Neschling.

Antes de voltar suas energias para uma carreira internacional, a composição de trilhas para teatro e cinema ocupou uma posição central no trabalho de Neschling, sobretudo ao longo dos anos 1970 e 1980. Seu nome está associado a montagens teatrais importantes como As desgraças de uma criança (texto de Martins Pena, direção de Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (texto de Louis Verneuil, direção de Fernando Torres, 1973) e O patinho feio (musical infantil com texto e direção de Maria Clara Machado, 1976); além disso, assinou a direção musical das históricas montagens de A ópera do malandro (texto e canções de Chico Buarque, direção de Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978), e Rasga coração (texto de Oduvaldo Vianna Filho, direção de José Renato, 1979).

Para o cinema e a televisão, Neschling compôs a trilha de pouco mais de uma dezena de obras, com destaque absoluto para sua colaboração com o cineasta Hector Babenco, em três filmes: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981) e O Beijo da Mulher Aranha (1985) – neste último, em colaboração com Nando Carneiro. Talvez pelo fato de Babenco ter sido indicado ao Oscar e trilhado uma carreira internacional após a bem sucedida experiência de O Beijo da Mulher Aranha (uma típica produção cosmopolita de seu tempo, falada em inglês, filmada no Brasil e adaptada de um livro em espanhol), Babenco foi considerado “o mais hollywoodiano” dos diretores brasileiros (nacionalidade que adotou, apesar de ter nascido na Argentina).

No entanto, essa pode ser uma conclusão imediatista, e talvez uma observação mais atenta da música de Neschling e de seu uso nos filmes ajude a expandir horizontes. Tanto Lúcio Flavio como Pixote são adaptações de livros do jornalista José Louzeiro. O primeiro narra as desventuras de um dos mais atuantes assaltantes de banco do país, o segundo acompanha a trajetória de um menino abandonado, no tempo em que passa numa instituição do Estado e, depois de uma fuga em massa, pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A música de Neschling está em sintonia com a direção de Babenco, que, talvez, se aproxime mais de uma concepção neorrealista do que propriamente “clássica”. Nesses dois filmes, a realidade urbana brasileira se apresenta numa encenação crua e poética. De uma forma geral, nos filmes musicados por Neschling, a música contribui para dar o “tom” na abertura e, depois, aparece discreta e pontualmente, seja como ênfase para um momento crucial ou como respiro em um momento de pausa dramática. A estrutura sinfônica ganha contornos e ritmos brasileiros – Lúcio Flavio, por exemplo, conta com arranjos e um solo de safoxone de Paulo Moura. Nas narrativas ditas “clássicas”, a trilha costuma ser muito mais presente e enfática, de aspiração “universal”, atendendo às necessidades do melodrama. E mesmo que em O beijo da mulher aranha a música esteja mais presente, isso se dá em função das oportunidades oferecidas pela dramaturgia do filme, dividido entre o cotidiano de dois presidiários que ocupam uma cela e o universo imaginário dos filmes descritos por um deles, o travesti Molina (William Hurt, Oscar de melhor ator). Mas os interesses de Babenco e a forma de construção desse universo se mantêm: o foco em personagens marginais, e a busca por um olhar ao mesmo tempo realista e poético.

Neschling compôs ainda trilhas para Os condenados (direção de Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) e Bonitinha, mas ordinária (1981), ambos dirigidos por Braz Chediak; O cortiço (direção de Francisco Ramalho Junior”, 1978), Gaijin – Os caminhos da liberdade (direção de Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (direção de Jon Tob Azulay, 1996), Desmundo (direção de Alain Frestnot, 2002), e para a minissérie Os Maias (direção de Luiz Fernando Carvalho, 2001). Entre esses, cabe destacar especialmente os temas de abertura de Desmundo, com o uso de um coral, e especialmente belo prelúdio de Os Maias, cuja abertura presta uma homenagem explícita aos créditos iniciais de A época da inocência (direção de Martin Scorsese, 1993), com trilha de Elmer Bernstein e design de Saul Bass.

Referências:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

In "A música no cinema – Os 100 primeiros anos" (2003), a two volume work by journalist and researcher João Máximo, John Neschling closes the chapter devoted to the relationship between Brazil’s symphonic tradition and cinema, whose highest expression is Heitor Villa Lobos and which unfolds through Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro, and Camargo Guarnieri. Not by chance, all of these composers and conductors were associated, with greater or lesser frequency, with Brazilian producers’ attempts to insert national cinema into the Hollywood studio model, reproducing its production methods and the so called classical narrative format, in which the orchestral score plays a decisive role. (Mignone, above all, composed for Cinédia and Vera Cruz).

From a later generation, John Neschling was born in Rio de Janeiro in 1947 and immersed himself deeply in the study of piano, composition, and conducting, with periods in Europe and the United States. He studied conducting with Hans Swarowsky and Leonard Bernstein; served as conductor and artistic director of prestigious orchestras in Europe, the United States, and Brazil; and, between 1997 and 2008, led the São Paulo State Symphony Orchestra in a tenure that was at once celebrated for taking the ensemble to the level of the best orchestras in the world and condemned because of Neschling’s tempestuous temperament and, according to critics, authoritarian manner.

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

For film and television, Neschling composed scores for just over a dozen works, with absolute emphasis on his collaboration with filmmaker Hector Babenco on three films: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), and O Beijo da Mulher Aranha (1985) – on the latter, in collaboration with Nando Carneiro. Perhaps because Babenco received an Oscar nomination and went on to pursue an international career after the successful experience of O Beijo da Mulher Aranha (a typical cosmopolitan production of its time, in English, shot in Brazil, and adapted from a book in Spanish), Babenco came to be regarded as “the most Hollywood-like” of Brazilian directors (a nationality he adopted, despite having been born in Argentina).

However, that may be a hasty conclusion, and a closer look at Neschling’s music and the way it is used in these films may help broaden the horizon. Both Lúcio Flávio and Pixote are adaptations of books by journalist José Louzeiro. The first recounts the misadventures of one of the country’s most active bank robbers; the second follows the trajectory of an abandoned boy, during the time he spends in a state institution and then, after a mass escape, on the streets of São Paulo and Rio de Janeiro. Neschling’s music is in tune with Babenco’s direction, which may in fact be closer to a neorealist conception than to anything properly “classical.” In these two films, Brazilian urban reality is presented in a staging that is both raw and poetic.

In general, in the films scored by Neschling, the music helps set the “tone” in the opening and then appears discreetly and at specific moments, either to underscore a crucial scene or to provide breathing room in a moment of dramatic pause. The symphonic structure takes on Brazilian contours and rhythms — Lúcio Flávio, for example, includes arrangements and a saxophone solo by Paulo Moura. In so called “classical” narratives, the score is usually far more present and emphatic, with “universal” aspirations, serving the needs of melodrama. And even if in O Beijo da Mulher Aranha the music is more present, this is due to the opportunities offered by the film’s dramaturgy, divided between the daily life of two prisoners who share a cell and the imaginary universe of the films described by one of them, the transvestite Molina (William Hurt, Oscar for Best Actor). Yet Babenco’s interests, and the way this universe is constructed, remain the same: a focus on marginal characters and the pursuit of a gaze that is at once realistic and poetic.

Neschling also composed scores for Os condenados (directed by Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) and Bonitinha, mas ordinária (1981), both directed by Braz Chediak; O cortiço (directed by Francisco Ramalho Junior, 1978); Gaijin – Os caminhos da liberdade (directed by Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (directed by Jom Tob Azulay, 1996); Desmundo (directed by Alain Fresnot, 2002); and the miniseries Os Maias (directed by Luiz Fernando Carvalho, 2001). Among these, special mention should be made of the opening themes of Desmundo, which use a choir, and the especially beautiful prelude to Os Maias, whose opening pays explicit homage to the opening credits of A época da inocência (directed by Martin Scorsese, 1993), with a score by Elmer Bernstein and title design by Saul Bass.

References:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

In "A música no cinema – Os 100 primeiros anos" (2003), a two volume work by journalist and researcher João Máximo, John Neschling closes the chapter devoted to the relationship between Brazil’s symphonic tradition and cinema, whose highest expression is Heitor Villa Lobos and which unfolds through Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro, and Camargo Guarnieri. Not by chance, all of these composers and conductors were associated, with greater or lesser frequency, with Brazilian producers’ attempts to insert national cinema into the Hollywood studio model, reproducing its production methods and the so called classical narrative format, in which the orchestral score plays a decisive role. (Mignone, above all, composed for Cinédia and Vera Cruz).

From a later generation, John Neschling was born in Rio de Janeiro in 1947 and immersed himself deeply in the study of piano, composition, and conducting, with periods in Europe and the United States. He studied conducting with Hans Swarowsky and Leonard Bernstein; served as conductor and artistic director of prestigious orchestras in Europe, the United States, and Brazil; and, between 1997 and 2008, led the São Paulo State Symphony Orchestra in a tenure that was at once celebrated for taking the ensemble to the level of the best orchestras in the world and condemned because of Neschling’s tempestuous temperament and, according to critics, authoritarian manner.

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

For film and television, Neschling composed scores for just over a dozen works, with absolute emphasis on his collaboration with filmmaker Hector Babenco on three films: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), and O Beijo da Mulher Aranha (1985) – on the latter, in collaboration with Nando Carneiro. Perhaps because Babenco received an Oscar nomination and went on to pursue an international career after the successful experience of O Beijo da Mulher Aranha (a typical cosmopolitan production of its time, in English, shot in Brazil, and adapted from a book in Spanish), Babenco came to be regarded as “the most Hollywood-like” of Brazilian directors (a nationality he adopted, despite having been born in Argentina).

However, that may be a hasty conclusion, and a closer look at Neschling’s music and the way it is used in these films may help broaden the horizon. Both Lúcio Flávio and Pixote are adaptations of books by journalist José Louzeiro. The first recounts the misadventures of one of the country’s most active bank robbers; the second follows the trajectory of an abandoned boy, during the time he spends in a state institution and then, after a mass escape, on the streets of São Paulo and Rio de Janeiro. Neschling’s music is in tune with Babenco’s direction, which may in fact be closer to a neorealist conception than to anything properly “classical.” In these two films, Brazilian urban reality is presented in a staging that is both raw and poetic.

In general, in the films scored by Neschling, the music helps set the “tone” in the opening and then appears discreetly and at specific moments, either to underscore a crucial scene or to provide breathing room in a moment of dramatic pause. The symphonic structure takes on Brazilian contours and rhythms — Lúcio Flávio, for example, includes arrangements and a saxophone solo by Paulo Moura. In so called “classical” narratives, the score is usually far more present and emphatic, with “universal” aspirations, serving the needs of melodrama. And even if in O Beijo da Mulher Aranha the music is more present, this is due to the opportunities offered by the film’s dramaturgy, divided between the daily life of two prisoners who share a cell and the imaginary universe of the films described by one of them, the transvestite Molina (William Hurt, Oscar for Best Actor). Yet Babenco’s interests, and the way this universe is constructed, remain the same: a focus on marginal characters and the pursuit of a gaze that is at once realistic and poetic.

Neschling also composed scores for Os condenados (directed by Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) and Bonitinha, mas ordinária (1981), both directed by Braz Chediak; O cortiço (directed by Francisco Ramalho Junior, 1978); Gaijin – Os caminhos da liberdade (directed by Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (directed by Jom Tob Azulay, 1996); Desmundo (directed by Alain Fresnot, 2002); and the miniseries Os Maias (directed by Luiz Fernando Carvalho, 2001). Among these, special mention should be made of the opening themes of Desmundo, which use a choir, and the especially beautiful prelude to Os Maias, whose opening pays explicit homage to the opening credits of A época da inocência (directed by Martin Scorsese, 1993), with a score by Elmer Bernstein and title design by Saul Bass.

References:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

PT/ENG
PT/ENG
24/2/2026
By/Por:
Pedro Butcher

Em “A música no cinema – Os 100 primeiros anos” (2003), obra em dois volumes do jornalista e pesquisador João Máximo, John Neschling encerra o capítulo dedicado à relação entre a tradição sinfônica brasileira e o cinema, que tem como expressão máxima Heitor Villa-Lobos e se desdobra em Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro e Camargo Guarnieri. Não por acaso, todos esses compositores/maestros se associaram, com maior ou menor frequência, às tentativas dos produtores brasileiros de inserir o cinema nacional no modelo dos estúdios hollywoodianos, reproduzindo os modelos de produção e o formato narrativo dito “clássico”, no qual a trilha sonora orquestral tem papel definitivo (Mignone, sobretudo, compôs para a Cinédia e Vera Cruz).

De uma geração posterior, John Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, e mergulhou fundo nos estudos de piano, composição e regência, com passagens pela Europa e pelos EUA. Teve, como professores de regência, Hans Swarowski e Leonard Bernstein; foi maestro e diretor artístico de orquestras de prestígio na Europa, EUA e Brasil; e entre 1997 e 2008 esteve à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, numa gestão ao mesmo tempo celebrada por ter levado a orquestra ao patamar das melhores do mundo e condenada por conta do temperamento intempestivo e, segundo os críticos, autoritário de Neschling.

Antes de voltar suas energias para uma carreira internacional, a composição de trilhas para teatro e cinema ocupou uma posição central no trabalho de Neschling, sobretudo ao longo dos anos 1970 e 1980. Seu nome está associado a montagens teatrais importantes como As desgraças de uma criança (texto de Martins Pena, direção de Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (texto de Louis Verneuil, direção de Fernando Torres, 1973) e O patinho feio (musical infantil com texto e direção de Maria Clara Machado, 1976); além disso, assinou a direção musical das históricas montagens de A ópera do malandro (texto e canções de Chico Buarque, direção de Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978), e Rasga coração (texto de Oduvaldo Vianna Filho, direção de José Renato, 1979).

Para o cinema e a televisão, Neschling compôs a trilha de pouco mais de uma dezena de obras, com destaque absoluto para sua colaboração com o cineasta Hector Babenco, em três filmes: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981) e O Beijo da Mulher Aranha (1985) – neste último, em colaboração com Nando Carneiro. Talvez pelo fato de Babenco ter sido indicado ao Oscar e trilhado uma carreira internacional após a bem sucedida experiência de O Beijo da Mulher Aranha (uma típica produção cosmopolita de seu tempo, falada em inglês, filmada no Brasil e adaptada de um livro em espanhol), Babenco foi considerado “o mais hollywoodiano” dos diretores brasileiros (nacionalidade que adotou, apesar de ter nascido na Argentina).

No entanto, essa pode ser uma conclusão imediatista, e talvez uma observação mais atenta da música de Neschling e de seu uso nos filmes ajude a expandir horizontes. Tanto Lúcio Flavio como Pixote são adaptações de livros do jornalista José Louzeiro. O primeiro narra as desventuras de um dos mais atuantes assaltantes de banco do país, o segundo acompanha a trajetória de um menino abandonado, no tempo em que passa numa instituição do Estado e, depois de uma fuga em massa, pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A música de Neschling está em sintonia com a direção de Babenco, que, talvez, se aproxime mais de uma concepção neorrealista do que propriamente “clássica”. Nesses dois filmes, a realidade urbana brasileira se apresenta numa encenação crua e poética. De uma forma geral, nos filmes musicados por Neschling, a música contribui para dar o “tom” na abertura e, depois, aparece discreta e pontualmente, seja como ênfase para um momento crucial ou como respiro em um momento de pausa dramática. A estrutura sinfônica ganha contornos e ritmos brasileiros – Lúcio Flavio, por exemplo, conta com arranjos e um solo de safoxone de Paulo Moura. Nas narrativas ditas “clássicas”, a trilha costuma ser muito mais presente e enfática, de aspiração “universal”, atendendo às necessidades do melodrama. E mesmo que em O beijo da mulher aranha a música esteja mais presente, isso se dá em função das oportunidades oferecidas pela dramaturgia do filme, dividido entre o cotidiano de dois presidiários que ocupam uma cela e o universo imaginário dos filmes descritos por um deles, o travesti Molina (William Hurt, Oscar de melhor ator). Mas os interesses de Babenco e a forma de construção desse universo se mantêm: o foco em personagens marginais, e a busca por um olhar ao mesmo tempo realista e poético.

Neschling compôs ainda trilhas para Os condenados (direção de Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) e Bonitinha, mas ordinária (1981), ambos dirigidos por Braz Chediak; O cortiço (direção de Francisco Ramalho Junior”, 1978), Gaijin – Os caminhos da liberdade (direção de Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (direção de Jon Tob Azulay, 1996), Desmundo (direção de Alain Frestnot, 2002), e para a minissérie Os Maias (direção de Luiz Fernando Carvalho, 2001). Entre esses, cabe destacar especialmente os temas de abertura de Desmundo, com o uso de um coral, e especialmente belo prelúdio de Os Maias, cuja abertura presta uma homenagem explícita aos créditos iniciais de A época da inocência (direção de Martin Scorsese, 1993), com trilha de Elmer Bernstein e design de Saul Bass.

Referências:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

Em “A música no cinema – Os 100 primeiros anos” (2003), obra em dois volumes do jornalista e pesquisador João Máximo, John Neschling encerra o capítulo dedicado à relação entre a tradição sinfônica brasileira e o cinema, que tem como expressão máxima Heitor Villa-Lobos e se desdobra em Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro e Camargo Guarnieri. Não por acaso, todos esses compositores/maestros se associaram, com maior ou menor frequência, às tentativas dos produtores brasileiros de inserir o cinema nacional no modelo dos estúdios hollywoodianos, reproduzindo os modelos de produção e o formato narrativo dito “clássico”, no qual a trilha sonora orquestral tem papel definitivo (Mignone, sobretudo, compôs para a Cinédia e Vera Cruz).

De uma geração posterior, John Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, e mergulhou fundo nos estudos de piano, composição e regência, com passagens pela Europa e pelos EUA. Teve, como professores de regência, Hans Swarowski e Leonard Bernstein; foi maestro e diretor artístico de orquestras de prestígio na Europa, EUA e Brasil; e entre 1997 e 2008 esteve à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, numa gestão ao mesmo tempo celebrada por ter levado a orquestra ao patamar das melhores do mundo e condenada por conta do temperamento intempestivo e, segundo os críticos, autoritário de Neschling.

Antes de voltar suas energias para uma carreira internacional, a composição de trilhas para teatro e cinema ocupou uma posição central no trabalho de Neschling, sobretudo ao longo dos anos 1970 e 1980. Seu nome está associado a montagens teatrais importantes como As desgraças de uma criança (texto de Martins Pena, direção de Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (texto de Louis Verneuil, direção de Fernando Torres, 1973) e O patinho feio (musical infantil com texto e direção de Maria Clara Machado, 1976); além disso, assinou a direção musical das históricas montagens de A ópera do malandro (texto e canções de Chico Buarque, direção de Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978), e Rasga coração (texto de Oduvaldo Vianna Filho, direção de José Renato, 1979).

Para o cinema e a televisão, Neschling compôs a trilha de pouco mais de uma dezena de obras, com destaque absoluto para sua colaboração com o cineasta Hector Babenco, em três filmes: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981) e O Beijo da Mulher Aranha (1985) – neste último, em colaboração com Nando Carneiro. Talvez pelo fato de Babenco ter sido indicado ao Oscar e trilhado uma carreira internacional após a bem sucedida experiência de O Beijo da Mulher Aranha (uma típica produção cosmopolita de seu tempo, falada em inglês, filmada no Brasil e adaptada de um livro em espanhol), Babenco foi considerado “o mais hollywoodiano” dos diretores brasileiros (nacionalidade que adotou, apesar de ter nascido na Argentina).

No entanto, essa pode ser uma conclusão imediatista, e talvez uma observação mais atenta da música de Neschling e de seu uso nos filmes ajude a expandir horizontes. Tanto Lúcio Flavio como Pixote são adaptações de livros do jornalista José Louzeiro. O primeiro narra as desventuras de um dos mais atuantes assaltantes de banco do país, o segundo acompanha a trajetória de um menino abandonado, no tempo em que passa numa instituição do Estado e, depois de uma fuga em massa, pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A música de Neschling está em sintonia com a direção de Babenco, que, talvez, se aproxime mais de uma concepção neorrealista do que propriamente “clássica”. Nesses dois filmes, a realidade urbana brasileira se apresenta numa encenação crua e poética. De uma forma geral, nos filmes musicados por Neschling, a música contribui para dar o “tom” na abertura e, depois, aparece discreta e pontualmente, seja como ênfase para um momento crucial ou como respiro em um momento de pausa dramática. A estrutura sinfônica ganha contornos e ritmos brasileiros – Lúcio Flavio, por exemplo, conta com arranjos e um solo de safoxone de Paulo Moura. Nas narrativas ditas “clássicas”, a trilha costuma ser muito mais presente e enfática, de aspiração “universal”, atendendo às necessidades do melodrama. E mesmo que em O beijo da mulher aranha a música esteja mais presente, isso se dá em função das oportunidades oferecidas pela dramaturgia do filme, dividido entre o cotidiano de dois presidiários que ocupam uma cela e o universo imaginário dos filmes descritos por um deles, o travesti Molina (William Hurt, Oscar de melhor ator). Mas os interesses de Babenco e a forma de construção desse universo se mantêm: o foco em personagens marginais, e a busca por um olhar ao mesmo tempo realista e poético.

Neschling compôs ainda trilhas para Os condenados (direção de Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) e Bonitinha, mas ordinária (1981), ambos dirigidos por Braz Chediak; O cortiço (direção de Francisco Ramalho Junior”, 1978), Gaijin – Os caminhos da liberdade (direção de Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (direção de Jon Tob Azulay, 1996), Desmundo (direção de Alain Frestnot, 2002), e para a minissérie Os Maias (direção de Luiz Fernando Carvalho, 2001). Entre esses, cabe destacar especialmente os temas de abertura de Desmundo, com o uso de um coral, e especialmente belo prelúdio de Os Maias, cuja abertura presta uma homenagem explícita aos créditos iniciais de A época da inocência (direção de Martin Scorsese, 1993), com trilha de Elmer Bernstein e design de Saul Bass.

Referências:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

In "A música no cinema – Os 100 primeiros anos" (2003), a two volume work by journalist and researcher João Máximo, John Neschling closes the chapter devoted to the relationship between Brazil’s symphonic tradition and cinema, whose highest expression is Heitor Villa Lobos and which unfolds through Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro, and Camargo Guarnieri. Not by chance, all of these composers and conductors were associated, with greater or lesser frequency, with Brazilian producers’ attempts to insert national cinema into the Hollywood studio model, reproducing its production methods and the so called classical narrative format, in which the orchestral score plays a decisive role. (Mignone, above all, composed for Cinédia and Vera Cruz).

From a later generation, John Neschling was born in Rio de Janeiro in 1947 and immersed himself deeply in the study of piano, composition, and conducting, with periods in Europe and the United States. He studied conducting with Hans Swarowsky and Leonard Bernstein; served as conductor and artistic director of prestigious orchestras in Europe, the United States, and Brazil; and, between 1997 and 2008, led the São Paulo State Symphony Orchestra in a tenure that was at once celebrated for taking the ensemble to the level of the best orchestras in the world and condemned because of Neschling’s tempestuous temperament and, according to critics, authoritarian manner.

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

For film and television, Neschling composed scores for just over a dozen works, with absolute emphasis on his collaboration with filmmaker Hector Babenco on three films: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), and O Beijo da Mulher Aranha (1985) – on the latter, in collaboration with Nando Carneiro. Perhaps because Babenco received an Oscar nomination and went on to pursue an international career after the successful experience of O Beijo da Mulher Aranha (a typical cosmopolitan production of its time, in English, shot in Brazil, and adapted from a book in Spanish), Babenco came to be regarded as “the most Hollywood-like” of Brazilian directors (a nationality he adopted, despite having been born in Argentina).

However, that may be a hasty conclusion, and a closer look at Neschling’s music and the way it is used in these films may help broaden the horizon. Both Lúcio Flávio and Pixote are adaptations of books by journalist José Louzeiro. The first recounts the misadventures of one of the country’s most active bank robbers; the second follows the trajectory of an abandoned boy, during the time he spends in a state institution and then, after a mass escape, on the streets of São Paulo and Rio de Janeiro. Neschling’s music is in tune with Babenco’s direction, which may in fact be closer to a neorealist conception than to anything properly “classical.” In these two films, Brazilian urban reality is presented in a staging that is both raw and poetic.

In general, in the films scored by Neschling, the music helps set the “tone” in the opening and then appears discreetly and at specific moments, either to underscore a crucial scene or to provide breathing room in a moment of dramatic pause. The symphonic structure takes on Brazilian contours and rhythms — Lúcio Flávio, for example, includes arrangements and a saxophone solo by Paulo Moura. In so called “classical” narratives, the score is usually far more present and emphatic, with “universal” aspirations, serving the needs of melodrama. And even if in O Beijo da Mulher Aranha the music is more present, this is due to the opportunities offered by the film’s dramaturgy, divided between the daily life of two prisoners who share a cell and the imaginary universe of the films described by one of them, the transvestite Molina (William Hurt, Oscar for Best Actor). Yet Babenco’s interests, and the way this universe is constructed, remain the same: a focus on marginal characters and the pursuit of a gaze that is at once realistic and poetic.

Neschling also composed scores for Os condenados (directed by Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) and Bonitinha, mas ordinária (1981), both directed by Braz Chediak; O cortiço (directed by Francisco Ramalho Junior, 1978); Gaijin – Os caminhos da liberdade (directed by Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (directed by Jom Tob Azulay, 1996); Desmundo (directed by Alain Fresnot, 2002); and the miniseries Os Maias (directed by Luiz Fernando Carvalho, 2001). Among these, special mention should be made of the opening themes of Desmundo, which use a choir, and the especially beautiful prelude to Os Maias, whose opening pays explicit homage to the opening credits of A época da inocência (directed by Martin Scorsese, 1993), with a score by Elmer Bernstein and title design by Saul Bass.

References:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

In "A música no cinema – Os 100 primeiros anos" (2003), a two volume work by journalist and researcher João Máximo, John Neschling closes the chapter devoted to the relationship between Brazil’s symphonic tradition and cinema, whose highest expression is Heitor Villa Lobos and which unfolds through Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro, and Camargo Guarnieri. Not by chance, all of these composers and conductors were associated, with greater or lesser frequency, with Brazilian producers’ attempts to insert national cinema into the Hollywood studio model, reproducing its production methods and the so called classical narrative format, in which the orchestral score plays a decisive role. (Mignone, above all, composed for Cinédia and Vera Cruz).

From a later generation, John Neschling was born in Rio de Janeiro in 1947 and immersed himself deeply in the study of piano, composition, and conducting, with periods in Europe and the United States. He studied conducting with Hans Swarowsky and Leonard Bernstein; served as conductor and artistic director of prestigious orchestras in Europe, the United States, and Brazil; and, between 1997 and 2008, led the São Paulo State Symphony Orchestra in a tenure that was at once celebrated for taking the ensemble to the level of the best orchestras in the world and condemned because of Neschling’s tempestuous temperament and, according to critics, authoritarian manner.

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

For film and television, Neschling composed scores for just over a dozen works, with absolute emphasis on his collaboration with filmmaker Hector Babenco on three films: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), and O Beijo da Mulher Aranha (1985) – on the latter, in collaboration with Nando Carneiro. Perhaps because Babenco received an Oscar nomination and went on to pursue an international career after the successful experience of O Beijo da Mulher Aranha (a typical cosmopolitan production of its time, in English, shot in Brazil, and adapted from a book in Spanish), Babenco came to be regarded as “the most Hollywood-like” of Brazilian directors (a nationality he adopted, despite having been born in Argentina).

However, that may be a hasty conclusion, and a closer look at Neschling’s music and the way it is used in these films may help broaden the horizon. Both Lúcio Flávio and Pixote are adaptations of books by journalist José Louzeiro. The first recounts the misadventures of one of the country’s most active bank robbers; the second follows the trajectory of an abandoned boy, during the time he spends in a state institution and then, after a mass escape, on the streets of São Paulo and Rio de Janeiro. Neschling’s music is in tune with Babenco’s direction, which may in fact be closer to a neorealist conception than to anything properly “classical.” In these two films, Brazilian urban reality is presented in a staging that is both raw and poetic.

In general, in the films scored by Neschling, the music helps set the “tone” in the opening and then appears discreetly and at specific moments, either to underscore a crucial scene or to provide breathing room in a moment of dramatic pause. The symphonic structure takes on Brazilian contours and rhythms — Lúcio Flávio, for example, includes arrangements and a saxophone solo by Paulo Moura. In so called “classical” narratives, the score is usually far more present and emphatic, with “universal” aspirations, serving the needs of melodrama. And even if in O Beijo da Mulher Aranha the music is more present, this is due to the opportunities offered by the film’s dramaturgy, divided between the daily life of two prisoners who share a cell and the imaginary universe of the films described by one of them, the transvestite Molina (William Hurt, Oscar for Best Actor). Yet Babenco’s interests, and the way this universe is constructed, remain the same: a focus on marginal characters and the pursuit of a gaze that is at once realistic and poetic.

Neschling also composed scores for Os condenados (directed by Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) and Bonitinha, mas ordinária (1981), both directed by Braz Chediak; O cortiço (directed by Francisco Ramalho Junior, 1978); Gaijin – Os caminhos da liberdade (directed by Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (directed by Jom Tob Azulay, 1996); Desmundo (directed by Alain Fresnot, 2002); and the miniseries Os Maias (directed by Luiz Fernando Carvalho, 2001). Among these, special mention should be made of the opening themes of Desmundo, which use a choir, and the especially beautiful prelude to Os Maias, whose opening pays explicit homage to the opening credits of A época da inocência (directed by Martin Scorsese, 1993), with a score by Elmer Bernstein and title design by Saul Bass.

References:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

PT/ENG
PT/ENG
24/2/2026
By/Por:
Pedro Butcher

Em “A música no cinema – Os 100 primeiros anos” (2003), obra em dois volumes do jornalista e pesquisador João Máximo, John Neschling encerra o capítulo dedicado à relação entre a tradição sinfônica brasileira e o cinema, que tem como expressão máxima Heitor Villa-Lobos e se desdobra em Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro e Camargo Guarnieri. Não por acaso, todos esses compositores/maestros se associaram, com maior ou menor frequência, às tentativas dos produtores brasileiros de inserir o cinema nacional no modelo dos estúdios hollywoodianos, reproduzindo os modelos de produção e o formato narrativo dito “clássico”, no qual a trilha sonora orquestral tem papel definitivo (Mignone, sobretudo, compôs para a Cinédia e Vera Cruz).

De uma geração posterior, John Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, e mergulhou fundo nos estudos de piano, composição e regência, com passagens pela Europa e pelos EUA. Teve, como professores de regência, Hans Swarowski e Leonard Bernstein; foi maestro e diretor artístico de orquestras de prestígio na Europa, EUA e Brasil; e entre 1997 e 2008 esteve à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, numa gestão ao mesmo tempo celebrada por ter levado a orquestra ao patamar das melhores do mundo e condenada por conta do temperamento intempestivo e, segundo os críticos, autoritário de Neschling.

Antes de voltar suas energias para uma carreira internacional, a composição de trilhas para teatro e cinema ocupou uma posição central no trabalho de Neschling, sobretudo ao longo dos anos 1970 e 1980. Seu nome está associado a montagens teatrais importantes como As desgraças de uma criança (texto de Martins Pena, direção de Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (texto de Louis Verneuil, direção de Fernando Torres, 1973) e O patinho feio (musical infantil com texto e direção de Maria Clara Machado, 1976); além disso, assinou a direção musical das históricas montagens de A ópera do malandro (texto e canções de Chico Buarque, direção de Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978), e Rasga coração (texto de Oduvaldo Vianna Filho, direção de José Renato, 1979).

Para o cinema e a televisão, Neschling compôs a trilha de pouco mais de uma dezena de obras, com destaque absoluto para sua colaboração com o cineasta Hector Babenco, em três filmes: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981) e O Beijo da Mulher Aranha (1985) – neste último, em colaboração com Nando Carneiro. Talvez pelo fato de Babenco ter sido indicado ao Oscar e trilhado uma carreira internacional após a bem sucedida experiência de O Beijo da Mulher Aranha (uma típica produção cosmopolita de seu tempo, falada em inglês, filmada no Brasil e adaptada de um livro em espanhol), Babenco foi considerado “o mais hollywoodiano” dos diretores brasileiros (nacionalidade que adotou, apesar de ter nascido na Argentina).

No entanto, essa pode ser uma conclusão imediatista, e talvez uma observação mais atenta da música de Neschling e de seu uso nos filmes ajude a expandir horizontes. Tanto Lúcio Flavio como Pixote são adaptações de livros do jornalista José Louzeiro. O primeiro narra as desventuras de um dos mais atuantes assaltantes de banco do país, o segundo acompanha a trajetória de um menino abandonado, no tempo em que passa numa instituição do Estado e, depois de uma fuga em massa, pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A música de Neschling está em sintonia com a direção de Babenco, que, talvez, se aproxime mais de uma concepção neorrealista do que propriamente “clássica”. Nesses dois filmes, a realidade urbana brasileira se apresenta numa encenação crua e poética. De uma forma geral, nos filmes musicados por Neschling, a música contribui para dar o “tom” na abertura e, depois, aparece discreta e pontualmente, seja como ênfase para um momento crucial ou como respiro em um momento de pausa dramática. A estrutura sinfônica ganha contornos e ritmos brasileiros – Lúcio Flavio, por exemplo, conta com arranjos e um solo de safoxone de Paulo Moura. Nas narrativas ditas “clássicas”, a trilha costuma ser muito mais presente e enfática, de aspiração “universal”, atendendo às necessidades do melodrama. E mesmo que em O beijo da mulher aranha a música esteja mais presente, isso se dá em função das oportunidades oferecidas pela dramaturgia do filme, dividido entre o cotidiano de dois presidiários que ocupam uma cela e o universo imaginário dos filmes descritos por um deles, o travesti Molina (William Hurt, Oscar de melhor ator). Mas os interesses de Babenco e a forma de construção desse universo se mantêm: o foco em personagens marginais, e a busca por um olhar ao mesmo tempo realista e poético.

Neschling compôs ainda trilhas para Os condenados (direção de Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) e Bonitinha, mas ordinária (1981), ambos dirigidos por Braz Chediak; O cortiço (direção de Francisco Ramalho Junior”, 1978), Gaijin – Os caminhos da liberdade (direção de Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (direção de Jon Tob Azulay, 1996), Desmundo (direção de Alain Frestnot, 2002), e para a minissérie Os Maias (direção de Luiz Fernando Carvalho, 2001). Entre esses, cabe destacar especialmente os temas de abertura de Desmundo, com o uso de um coral, e especialmente belo prelúdio de Os Maias, cuja abertura presta uma homenagem explícita aos créditos iniciais de A época da inocência (direção de Martin Scorsese, 1993), com trilha de Elmer Bernstein e design de Saul Bass.

Referências:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

Em “A música no cinema – Os 100 primeiros anos” (2003), obra em dois volumes do jornalista e pesquisador João Máximo, John Neschling encerra o capítulo dedicado à relação entre a tradição sinfônica brasileira e o cinema, que tem como expressão máxima Heitor Villa-Lobos e se desdobra em Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro e Camargo Guarnieri. Não por acaso, todos esses compositores/maestros se associaram, com maior ou menor frequência, às tentativas dos produtores brasileiros de inserir o cinema nacional no modelo dos estúdios hollywoodianos, reproduzindo os modelos de produção e o formato narrativo dito “clássico”, no qual a trilha sonora orquestral tem papel definitivo (Mignone, sobretudo, compôs para a Cinédia e Vera Cruz).

De uma geração posterior, John Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, e mergulhou fundo nos estudos de piano, composição e regência, com passagens pela Europa e pelos EUA. Teve, como professores de regência, Hans Swarowski e Leonard Bernstein; foi maestro e diretor artístico de orquestras de prestígio na Europa, EUA e Brasil; e entre 1997 e 2008 esteve à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, numa gestão ao mesmo tempo celebrada por ter levado a orquestra ao patamar das melhores do mundo e condenada por conta do temperamento intempestivo e, segundo os críticos, autoritário de Neschling.

Antes de voltar suas energias para uma carreira internacional, a composição de trilhas para teatro e cinema ocupou uma posição central no trabalho de Neschling, sobretudo ao longo dos anos 1970 e 1980. Seu nome está associado a montagens teatrais importantes como As desgraças de uma criança (texto de Martins Pena, direção de Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (texto de Louis Verneuil, direção de Fernando Torres, 1973) e O patinho feio (musical infantil com texto e direção de Maria Clara Machado, 1976); além disso, assinou a direção musical das históricas montagens de A ópera do malandro (texto e canções de Chico Buarque, direção de Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978), e Rasga coração (texto de Oduvaldo Vianna Filho, direção de José Renato, 1979).

Para o cinema e a televisão, Neschling compôs a trilha de pouco mais de uma dezena de obras, com destaque absoluto para sua colaboração com o cineasta Hector Babenco, em três filmes: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981) e O Beijo da Mulher Aranha (1985) – neste último, em colaboração com Nando Carneiro. Talvez pelo fato de Babenco ter sido indicado ao Oscar e trilhado uma carreira internacional após a bem sucedida experiência de O Beijo da Mulher Aranha (uma típica produção cosmopolita de seu tempo, falada em inglês, filmada no Brasil e adaptada de um livro em espanhol), Babenco foi considerado “o mais hollywoodiano” dos diretores brasileiros (nacionalidade que adotou, apesar de ter nascido na Argentina).

No entanto, essa pode ser uma conclusão imediatista, e talvez uma observação mais atenta da música de Neschling e de seu uso nos filmes ajude a expandir horizontes. Tanto Lúcio Flavio como Pixote são adaptações de livros do jornalista José Louzeiro. O primeiro narra as desventuras de um dos mais atuantes assaltantes de banco do país, o segundo acompanha a trajetória de um menino abandonado, no tempo em que passa numa instituição do Estado e, depois de uma fuga em massa, pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A música de Neschling está em sintonia com a direção de Babenco, que, talvez, se aproxime mais de uma concepção neorrealista do que propriamente “clássica”. Nesses dois filmes, a realidade urbana brasileira se apresenta numa encenação crua e poética. De uma forma geral, nos filmes musicados por Neschling, a música contribui para dar o “tom” na abertura e, depois, aparece discreta e pontualmente, seja como ênfase para um momento crucial ou como respiro em um momento de pausa dramática. A estrutura sinfônica ganha contornos e ritmos brasileiros – Lúcio Flavio, por exemplo, conta com arranjos e um solo de safoxone de Paulo Moura. Nas narrativas ditas “clássicas”, a trilha costuma ser muito mais presente e enfática, de aspiração “universal”, atendendo às necessidades do melodrama. E mesmo que em O beijo da mulher aranha a música esteja mais presente, isso se dá em função das oportunidades oferecidas pela dramaturgia do filme, dividido entre o cotidiano de dois presidiários que ocupam uma cela e o universo imaginário dos filmes descritos por um deles, o travesti Molina (William Hurt, Oscar de melhor ator). Mas os interesses de Babenco e a forma de construção desse universo se mantêm: o foco em personagens marginais, e a busca por um olhar ao mesmo tempo realista e poético.

Neschling compôs ainda trilhas para Os condenados (direção de Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) e Bonitinha, mas ordinária (1981), ambos dirigidos por Braz Chediak; O cortiço (direção de Francisco Ramalho Junior”, 1978), Gaijin – Os caminhos da liberdade (direção de Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (direção de Jon Tob Azulay, 1996), Desmundo (direção de Alain Frestnot, 2002), e para a minissérie Os Maias (direção de Luiz Fernando Carvalho, 2001). Entre esses, cabe destacar especialmente os temas de abertura de Desmundo, com o uso de um coral, e especialmente belo prelúdio de Os Maias, cuja abertura presta uma homenagem explícita aos créditos iniciais de A época da inocência (direção de Martin Scorsese, 1993), com trilha de Elmer Bernstein e design de Saul Bass.

Referências:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

In "A música no cinema – Os 100 primeiros anos" (2003), a two volume work by journalist and researcher João Máximo, John Neschling closes the chapter devoted to the relationship between Brazil’s symphonic tradition and cinema, whose highest expression is Heitor Villa Lobos and which unfolds through Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro, and Camargo Guarnieri. Not by chance, all of these composers and conductors were associated, with greater or lesser frequency, with Brazilian producers’ attempts to insert national cinema into the Hollywood studio model, reproducing its production methods and the so called classical narrative format, in which the orchestral score plays a decisive role. (Mignone, above all, composed for Cinédia and Vera Cruz).

From a later generation, John Neschling was born in Rio de Janeiro in 1947 and immersed himself deeply in the study of piano, composition, and conducting, with periods in Europe and the United States. He studied conducting with Hans Swarowsky and Leonard Bernstein; served as conductor and artistic director of prestigious orchestras in Europe, the United States, and Brazil; and, between 1997 and 2008, led the São Paulo State Symphony Orchestra in a tenure that was at once celebrated for taking the ensemble to the level of the best orchestras in the world and condemned because of Neschling’s tempestuous temperament and, according to critics, authoritarian manner.

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

For film and television, Neschling composed scores for just over a dozen works, with absolute emphasis on his collaboration with filmmaker Hector Babenco on three films: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), and O Beijo da Mulher Aranha (1985) – on the latter, in collaboration with Nando Carneiro. Perhaps because Babenco received an Oscar nomination and went on to pursue an international career after the successful experience of O Beijo da Mulher Aranha (a typical cosmopolitan production of its time, in English, shot in Brazil, and adapted from a book in Spanish), Babenco came to be regarded as “the most Hollywood-like” of Brazilian directors (a nationality he adopted, despite having been born in Argentina).

However, that may be a hasty conclusion, and a closer look at Neschling’s music and the way it is used in these films may help broaden the horizon. Both Lúcio Flávio and Pixote are adaptations of books by journalist José Louzeiro. The first recounts the misadventures of one of the country’s most active bank robbers; the second follows the trajectory of an abandoned boy, during the time he spends in a state institution and then, after a mass escape, on the streets of São Paulo and Rio de Janeiro. Neschling’s music is in tune with Babenco’s direction, which may in fact be closer to a neorealist conception than to anything properly “classical.” In these two films, Brazilian urban reality is presented in a staging that is both raw and poetic.

In general, in the films scored by Neschling, the music helps set the “tone” in the opening and then appears discreetly and at specific moments, either to underscore a crucial scene or to provide breathing room in a moment of dramatic pause. The symphonic structure takes on Brazilian contours and rhythms — Lúcio Flávio, for example, includes arrangements and a saxophone solo by Paulo Moura. In so called “classical” narratives, the score is usually far more present and emphatic, with “universal” aspirations, serving the needs of melodrama. And even if in O Beijo da Mulher Aranha the music is more present, this is due to the opportunities offered by the film’s dramaturgy, divided between the daily life of two prisoners who share a cell and the imaginary universe of the films described by one of them, the transvestite Molina (William Hurt, Oscar for Best Actor). Yet Babenco’s interests, and the way this universe is constructed, remain the same: a focus on marginal characters and the pursuit of a gaze that is at once realistic and poetic.

Neschling also composed scores for Os condenados (directed by Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) and Bonitinha, mas ordinária (1981), both directed by Braz Chediak; O cortiço (directed by Francisco Ramalho Junior, 1978); Gaijin – Os caminhos da liberdade (directed by Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (directed by Jom Tob Azulay, 1996); Desmundo (directed by Alain Fresnot, 2002); and the miniseries Os Maias (directed by Luiz Fernando Carvalho, 2001). Among these, special mention should be made of the opening themes of Desmundo, which use a choir, and the especially beautiful prelude to Os Maias, whose opening pays explicit homage to the opening credits of A época da inocência (directed by Martin Scorsese, 1993), with a score by Elmer Bernstein and title design by Saul Bass.

References:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

In "A música no cinema – Os 100 primeiros anos" (2003), a two volume work by journalist and researcher João Máximo, John Neschling closes the chapter devoted to the relationship between Brazil’s symphonic tradition and cinema, whose highest expression is Heitor Villa Lobos and which unfolds through Francisco Mignone, César Guerra Peixe, Claudio Santoro, and Camargo Guarnieri. Not by chance, all of these composers and conductors were associated, with greater or lesser frequency, with Brazilian producers’ attempts to insert national cinema into the Hollywood studio model, reproducing its production methods and the so called classical narrative format, in which the orchestral score plays a decisive role. (Mignone, above all, composed for Cinédia and Vera Cruz).

From a later generation, John Neschling was born in Rio de Janeiro in 1947 and immersed himself deeply in the study of piano, composition, and conducting, with periods in Europe and the United States. He studied conducting with Hans Swarowsky and Leonard Bernstein; served as conductor and artistic director of prestigious orchestras in Europe, the United States, and Brazil; and, between 1997 and 2008, led the São Paulo State Symphony Orchestra in a tenure that was at once celebrated for taking the ensemble to the level of the best orchestras in the world and condemned because of Neschling’s tempestuous temperament and, according to critics, authoritarian manner.

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

Before turning his energies toward an international career, composing scores for theater and cinema held a central place in Neschling’s work, especially throughout the 1970s and 1980s. His name is associated with important stage productions such as As desgraças de uma criança (text by Martins Pena, directed by Antônio Pedro, 1973), O amante de madame Vidal (text by Louis Verneuil, directed by Fernando Torres, 1973), and O patinho feio (a children’s musical with text and direction by Maria Clara Machado, 1976). In addition, he served as musical director for the historic productions of A ópera do malandro (text and songs by Chico Buarque, directed by Luiz Antônio Martinez Corrêa, 1978) and Rasga coração (text by Oduvaldo Vianna Filho, directed by José Renato, 1979).

For film and television, Neschling composed scores for just over a dozen works, with absolute emphasis on his collaboration with filmmaker Hector Babenco on three films: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), and O Beijo da Mulher Aranha (1985) – on the latter, in collaboration with Nando Carneiro. Perhaps because Babenco received an Oscar nomination and went on to pursue an international career after the successful experience of O Beijo da Mulher Aranha (a typical cosmopolitan production of its time, in English, shot in Brazil, and adapted from a book in Spanish), Babenco came to be regarded as “the most Hollywood-like” of Brazilian directors (a nationality he adopted, despite having been born in Argentina).

However, that may be a hasty conclusion, and a closer look at Neschling’s music and the way it is used in these films may help broaden the horizon. Both Lúcio Flávio and Pixote are adaptations of books by journalist José Louzeiro. The first recounts the misadventures of one of the country’s most active bank robbers; the second follows the trajectory of an abandoned boy, during the time he spends in a state institution and then, after a mass escape, on the streets of São Paulo and Rio de Janeiro. Neschling’s music is in tune with Babenco’s direction, which may in fact be closer to a neorealist conception than to anything properly “classical.” In these two films, Brazilian urban reality is presented in a staging that is both raw and poetic.

In general, in the films scored by Neschling, the music helps set the “tone” in the opening and then appears discreetly and at specific moments, either to underscore a crucial scene or to provide breathing room in a moment of dramatic pause. The symphonic structure takes on Brazilian contours and rhythms — Lúcio Flávio, for example, includes arrangements and a saxophone solo by Paulo Moura. In so called “classical” narratives, the score is usually far more present and emphatic, with “universal” aspirations, serving the needs of melodrama. And even if in O Beijo da Mulher Aranha the music is more present, this is due to the opportunities offered by the film’s dramaturgy, divided between the daily life of two prisoners who share a cell and the imaginary universe of the films described by one of them, the transvestite Molina (William Hurt, Oscar for Best Actor). Yet Babenco’s interests, and the way this universe is constructed, remain the same: a focus on marginal characters and the pursuit of a gaze that is at once realistic and poetic.

Neschling also composed scores for Os condenados (directed by Zelito Viana, 1975); O grande desbum... (1978) and Bonitinha, mas ordinária (1981), both directed by Braz Chediak; O cortiço (directed by Francisco Ramalho Junior, 1978); Gaijin – Os caminhos da liberdade (directed by Tizuka Yamasaki, 1980); O judeu (directed by Jom Tob Azulay, 1996); Desmundo (directed by Alain Fresnot, 2002); and the miniseries Os Maias (directed by Luiz Fernando Carvalho, 2001). Among these, special mention should be made of the opening themes of Desmundo, which use a choir, and the especially beautiful prelude to Os Maias, whose opening pays explicit homage to the opening credits of A época da inocência (directed by Martin Scorsese, 1993), with a score by Elmer Bernstein and title design by Saul Bass.

References:

MÁXIMO, João. “A música do cinema – Os 100 primeiros anos”. Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

JOHN Neschling. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa400722/john-neschling>. Acesso em: 19 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7