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8/11/2020
By/Por:
Ines Aisengart Menezes

A Cinemateca Brasileira (CB) é a principal instituição de patrimônio audiovisual do Brasil e, em 2020, passa por sua pior crise. Como resultado, seu expressivo acervo audiovisual e documental está ameaçado, bem como seu complexo parque tecnológico e os saberes técnicos que o permeiam. No início do ano, uma enchente ocorreu em um galpão em uma de suas unidades, afetando drasticamente sobretudo parte de seu acervo de película e de equipamentos. Desde agosto de 2020, as instalações e os acervos estão sem acompanhamento técnico; e até a conclusão deste texto não há perspectiva de uma resolução imediata, condizente com a urgência. A inação e o descaso com a Cinemateca Brasileira são mais uma das perversidades do atual governo, e se soma ao desmonte estrutural do sistema público de saúde, educação e cultura,1 e ao projeto de ecocídio e genocídio da população indígena e negra; este último acelerado pela pandemia de Covid-19. A crise da Cinemateca tomou proporções inéditas em 2020, mas sua origem é anterior, perpassando a crise administrativa e política de 2013 e um incêndio no início de 2016. Este artigo tem como enfoque os trabalhos realizados na Cinemateca Brasileira a partir de meados de 2016, de grande fôlego e entusiasmo na retomada dos trabalhos; o desafio de sua continuidade com a redução da equipe em 2017; a suposta solução com um novo modelo de gestão em 2018; e a hecatombe de 2020.2 O texto também apresenta conjecturas sobre as relações entre o patrimônio audiovisual e a cadeia produtiva do audiovisual. A sucessão de crises ao longo dos 74 anos da instituição, acentuadas por quatro incêndios e a enchente, são de forma mais ampla, o que a museóloga brasiliense Fabiana Ferreira destaca em sua tese A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil (2020). Ela alega que “o único aspecto estável nas políticas públicas de preservação audiovisual é sua inconstância. Uma sucessão de desencontros e desarticulações por parte dos agentes políticos responsáveis pela criação e implementação de políticas sem um real projeto de Estado que atravessa governos” (2020, p.109). Segundo Hernani Heffner, não é somente a maior crise da Cinemateca Brasileira, mas a maior crise do patrimônio audiovisual brasileiro.3

Panorama das Últimas Duas Décadas

O Brasil é uma república federativa presidencialista, com 26 estados e um distrito federal, de dimensões continentais – o quinto maior país do mundo em extensão territorial. O país passou por dois processos de redemocratização, sendo o mais recente a partir de 1984, após a ditadura militar estabelecida em 1964. Neste novo século, o país contou com um crescimento econômico, teve significativa redução das desigualdades sociais e de índices de pobreza extrema, ampliação de universidades e um processo de fortalecimento da indústria do audiovisual, por meio de políticas e programas federais, com destaque para as políticas de investimento da Secretaria do Audiovisual (SAv) / Ministério da Cultura (MinC)4 e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA)5, o que gerou amadurecimento de profissionais, das empresas, e traduziu-se em um volume crescente de obras a cada ano. Eventuais recursos municipais e estaduais somavam-se aos federais. Laura Bezerra pondera que, enquanto o governo investia na descentralização das políticas de cultura, o mesmo não ocorria com a preservação (2015). Nesse período e a partir de sua inclusão no organograma da SAv, houve sólidos investimentos na Cinemateca Brasileira, mas foram diminutas as discussões políticas sobre a gestão do patrimônio, e acerca das ações e mecanismos necessários para que essa gestão fosse feita de forma profunda e mais ampla.6 – referência fundamental para o entendimento do tecido da crise atual. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira, “a Cinemateca não atua na criação e implementação de políticas de preservação, seja realizando discussões e dialogando com o setor, seja participando ativamente dos espaços políticos no âmbito federal, como o Conselho Nacional de Cinema, por exemplo. Também não houve diálogo estruturado com outras entidades gestoras de memória” (2020, p.108). A insuficiência do Estado na gestão do patrimônio acarreta graves reverberações, que abalam a cadeia produtiva do audiovisual – esta não parece vislumbrar a preservação como elemento integrante e necessário para a própria cadeia. Ainda, a crise da Cinemateca Brasileira torna-se mais um argumento para a descentralização (e incremento) de investimentos na gestão do patrimônio audiovisual em todo país.7 O Brasil possui uma miríade de instituições de patrimônio federais, estaduais, municipais e privadas que não estão no holofote, mas que também demandam ações e recursos urgentes.

As últimas décadas foram de constante amadurecimento da área de preservação audiovisual, com a instauração de programas de financiamento específicos; o impulso de publicações; a criação e crescimento da CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto, na qual ocorre o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais8 a formação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) e a elaboração do Plano Nacional de Preservação Audiovisual (PNPA);9 além do crescente número de eventos.

Cinemateca Brasileira – Breve Histórico

A Cinemateca Brasileira contou com diversos arranjos administrativos, tendo começado como uma organização da sociedade civil e, posteriormente, passou para a esfera pública. Seu longo histórico abarca muitos percalços com alguns respiros. O escritor, ensaísta, crítico, pesquisador, professor e militante Paulo Emílio Sales Gomes  (1916-1977) é o protagonista na criação, defesa e gestão da Cinemateca. A atuação de Paulo Emílio é mais ampla que a própria Cinemateca, é fundamental na valorização do cinema brasileiro – e em sua qualificação como documento histórico –, na defesa de sua preservação, na criação de cursos de cinema em universidades, atuante na política internacional – como membro regular do Comitê Executivo da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF), entre 1948 e 1964, e eventualmente como vice-presidente –, além de autor referência em estudos historiográficos de cinema, com suas publicações sobre o francês Jean Vigo e sobre o brasileiro Humberto Mauro. Como professor, foi muito importante pela formação de cinéfilos, intelectuais, críticos de cinema e preservacionistas – sendo que alguns deram continuidade a seu trabalho na Cinemateca Brasileira.

Considerando a profusão de publicações sobre a Cinemateca Brasileira em português, e o limitado repertório em inglês, e tratando-se de uma plataforma bilíngue, apresento um breve apanhado, com momentos-chave sobre a história da instituição. Em 1940, por iniciativa de intelectuais paulistanos, foi criado o Clube de Cinema de São Paulo. Promovia a exibição de filmes, conferências, debates e publicações. Foi fechado pela ditadura de Getúlio Vargas em 1941. Em 1946 Paulo Emílio vai para a França estudar no Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC) e torna-se ainda mais próximo da Cinemathèque française, instituição com a qual mantinha contato, pois já havia morado em Paris na década anterior, período em que sua paixão pelo cinema despertou. Nesse ano é criado o Segundo Clube de Cinema de São Paulo, dessa vez, além de contar com as atividades anteriores, também tinha a iniciativa de prospecção e preservação de materiais de obras brasileiras. Portanto, 1946 é considerado o marco da criação da instituição. O Clube é filiado à FIAF por Paulo Emílio em 1948. No ano seguinte, é criada a Filmoteca do (recém-criado) Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1956 desliga-se do museu e se converte em Cinemateca Brasileira, sociedade civil sem fins lucrativos. Neste ano é formado o Conselho Consultivo.10 Em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato de celulose, ocorre o primeiro incêndio no verão de 1957, que “destruiu integralmente a biblioteca, a fototeca, os arquivos gerais e a coleção de aparelhos para o futuro museu de cinema, assim como um terço do acervo de filmes” (Gomes, 1981, p. 75). A tragédia suscita o apoio e doações de entidades nacionais e estrangeiras, e a Cinemateca ganha um espaço no maior parque urbano de São Paulo, o Parque Ibirapuera. Em 1961 torna-se uma fundação sem fins lucrativos, fato importante para sua autonomia e para o levantamento de recursos públicos.

No ano seguinte, é criada a Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), entidade civil sem fins lucrativos, para auxiliar a Cinemateca na gestão de recursos financeiros e para desenvolver atividades de apoio à Fundação. Se inicialmente as ações de difusão eram o motor da Cinemateca, a partir da década de 1970, a preservação passa a ser seu eixo, em parte pelo estado de seu acervo. O final dos anos 1960 e meados dos 1970 é um período crítico, com poucos funcionários, por vezes em trabalho voluntário. Em 1963 a Cinemateca é desligada da FIAF, devido ao não pagamento das taxas de anuidade, retomando como observadora em 1979, e como membro pleno somente em 1984. O segundo incêndio ocorre no verão de 1969, pelo mesmo motivo que o anterior, com perda significativa de materiais documentais. Em 1977 o laboratório da instituição é iniciado, a partir de equipamentos de laboratórios comerciais desativados. Paulo Emílio falece nesse mesmo ano, de ataque cardíaco.

Em 1980 é inaugurado no Parque da Conceição o Centro de Operações, para trabalhos de documentação e pesquisa. O terceiro incêndio ocorre no outono de 1982. Como decorrência, um movimento pela incorporação ao poder público culmina na extinção da Fundação Cinemateca Brasileira e na incorporação, como órgão autônomo, à Fundação Nacional Pró-Memória, do governo federal, em 1984. Em 1989 é alugado um cinema11 em Pinheiros, bairro movimentado da cidade, que alavancou significativamente a cinefilia da cidade. Ao final desta década, seu quadro funcional conta com cerca de 40 pessoas, sendo 30 contratados, muitos ex-alunos de Paulo Emílio.

Em 1990 a Fundação Nacional Pró-Memória é extinta, e a Cinemateca é incorporada ao Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC), criado naquele ano, e quatro anos depois transformado em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 1997 é inaugurada sua sede definitiva,12 no antigo Matadouro da Vila Mariana, em terreno cedido pela prefeitura, após nove anos de reformas – com o devido tombamento do conjunto arquitetônico. A sede definitiva agrega os departamentos e salas de exibição antes espalhados pela cidade de São Paulo, e pode ser vista como elemento-chave no processo de consolidação da instituição, após décadas de escassez de recursos, precariedade de infraestrutura, mudanças na dinâmica administrativa e institucional.

Em 2001 é inaugurado seu depósito de matrizes, inicialmente com capacidade para 100 mil rolos de filme, com controle de temperatura e umidade. No mesmo ano é iniciado o projeto Censo Cinematográfico Brasileiro,13 com financiamento da BR Distribuidora14 O projeto foi um importante marco para a identificação e tratamento do acervo da instituição,15 e para a formação de mão de obra técnica. Ele “organizou-se sobre quatro eixos básicos: o levantamento e exame do acervo existente, concentrado e disperso; a duplicação de filmes amea[ça]dos de desaparecimento por seu estado de deterioração; a divulgação do trabalho e de seus resultados; o estudo de medidas legais para a proteção do patrimônio audiovisual” (Souza, 2009, p.258). Em 2003 a Cinemateca é incorporada à SAv/MinC, após deliberação do Conselho, considerando que o IPHAN não estava atendendo o escopo e não se envolvia nas estratégias da Cinemateca senão para aprovar planos de trabalho. Nos anos subsequentes, os recursos repassados pelo MinC aumentam gradualmente. Em 2003 é implementado um programa de estágio de curta duração para técnicos de outras instituições. De 2004 a 2006, o projeto Prospecção e Memória dá continuidade ao projeto do Censo, sobretudo em relação à catalografia de obras brasileiras, compiladas na base de dados Filmografia Brasileira.16

Em 2005 é criado o Sistema Brasileiro de Informações Audiovisuais (SiBIA), programa da SAv, com coordenação da CB, “programa que visa estabelecer uma rede que conta neste momento com a participação de mais de 30 instituições que se dedicam, prioritária ou subsidiariamente, à preservação de acervos de imagens em movimento em todo o Brasil”.17 A instituição é escolhida como sede do 62º Congresso da FIAF em 2006, cujo tema é “O futuro dos arquivos de filmes em um mundo do cinema digital: arquivos de filmes em transição”. No mesmo ano, à ocasião do 60º aniversário da instituição, com comitiva de ministros e secretários, Luiz Inácio Lula da Silva é o primeiro (e único) presidente do Brasil a visitar a CB. Em 2006 é publicado o Manual de Manuseio de Filmes e o Manual de Catalogação da instituição, normativas internas e importantes referências para as demais instituições brasileiras, sobretudo à época, ainda com poucas publicações técnicas em português. Em 2008 a SAC torna-se uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e, a partir de então, são volumosas as transferências de recursos para projetos na Cinemateca. Na gestão da SAC, são realizados projetos da próprio SAv – como meio de garantir agilidade na execução de programas do Ministério, como a Programadora Brasil.18 A partir de 2008 são publicados relatórios anuais de atividades.19, à exceção dos seguintes anos: 2013, 2015, 2018 e 2019. Como resultado do Censo, são confeccionados materiais de preservação e difusão no laboratório da instituição, e realizadas restaurações com recursos de projetos e programas. Em 2009 é lançado o Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro, caixa de DVDs com 27 títulos de filmes silenciosos com trilhas sonoras compostas especialmente para a edição. Em 2011 é inaugurada uma instalação secundária na Vila Leopoldina,20 para armazenamento de películas, documentos, equipamentos, dentre outros. Em 2012 é publicada a primeira edição da Revista da Cinemateca Brasileira e, no ano seguinte, sua segunda edição.21 Em 2013 é instaurada uma crise político-administrativa, com a sumária exoneração do diretor-executivo da instituição, sem o devido diálogo com o Conselho, sem as medidas adequadas para sua substituição ou um plano de transição. São realizadas sucessivas auditorias da Controladoria Geral da União em relação à execução de recursos da SAv pela SAC e à aquisição de acervos pela União.22 Ao final do ano, dos 124 funcionários ativos antes da crise, poucos permaneceram, dentre eles os 22 funcionários públicos diretamente vinculados ao ministério.23 A partir do relatório de 2014, é possível verificar que alguns (poucos) fluxos de trabalho continuaram. Destaco a interrupção de um fluxo não executado em 2014 (e 2015), que afetaria drasticamente o acervo:

No verão de 2016 ocorre o quarto incêndio, mais uma vez em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato. A perda foi estimada em 1003 rolos de filmes em nitrato de celulose, referentes a 731 títulos. Além da descontinuidade da revisão deste acervo com a crise de 2013, alguns anos depois foram descobertos alguns rolos recém-chegados à instituição, que foram alocados no depósito sem a devida remoção da embalagem de transporte. Isso poderia ter sido evitado se a equipe técnica tivesse sido encarregada de alocar e realocar as obras dentro dessa coleção de filmes. Esse descuido potencialmente criou condições para um microclima sujeito à autocombustão e pode ter sido o segundo fator responsável pelo incêndio. Porém, o fator primário sempre será a irresponsabilidade do poder público, ante a falta de condições para o exercício das atividades básicas da instituição.

Cinemateca Brasileira – de 2016 a 2017

O incêndio de 2016 coincide com a entrada de 11 técnicos, viabilizados por um contrato de serviços firmado entre a SAv/MinC e a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que entrou em vigor no final de 2015, com duração de um ano. Ao todo, até meados do ano, foram 42 técnicos contratados, que se somavam aos 15 servidores diretamente vinculados ao MinC. Foram também contratadas empresas terceirizadas de serviços essenciais (manutenção, limpeza, segurança e TI) e 7 técnicos para o fluxo de Depósito Legal,24 viabilizados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). No relatório anual de atividades de 2016, o tom da apresentação da diretora Olga Futemma25 é de otimismo e orgulho pelo cumprimento das metas estabelecidas no Plano de Trabalho do Contrato, com a devida indicação das dificuldades e desafios criados a partir da descontinuidade dos trabalhos nos anos anteriores. Destaque para os trabalhos realizados em decorrência do incêndio:

“balanço e comunicação das perdas […]; exame, separação por grau técnico e triagem para encaminhamento de materiais [...] para processamento laboratorial; alocação provisória dos 3 mil rolos de nitrato remanescentes; elaboração de projeto de implantação, no depósito incendiado, de dispositivos contra sinistros […]; reforma básica do depósito, realizada pela equipe da Cinemateca, para o retorno da coleção […]; descarte técnico de resíduos do incêndio”.

Apesar do desastre, não foram obtidos recursos junto ao MinC para dispositivos contra sinistros.26 Outro desafio explicitado por Futemma foi a situação do Laboratório de Imagem e Som: devido à paralisação anterior, o “cenário era desolador”, dizia. Para enfatizar sua importância: trata-se de um dos mais completos (e último?) laboratórios de processamento audiovisual fotoquímico da América do Sul, com possibilidade de processamento de película para película (35mm e 16mm, suporte p&b de todos os materiais e confecção de cópias de materiais cor); de película 8mm, 9,5mm, 16mm e 35mm para digital (HD, 2K, 4K, 6K); back-to-film, de digital para película 35mm; captura de diversos formatos em vídeo (U-Matic, Betacam SP, Betacam digital, DVCam, entre outros) para digital; manipulação digital de imagem e som, incluindo correção de cor e restauração. O maquinário foi trabalhado ao longo dos anos para processar materiais com deterioração avançada.27 Devido à ausência de equipe nos anos anteriores e à decorrente falta de manutenção e peças, não foi possível retomar alguns fluxos.

O acervo audiovisual contém cerca de 250 mil rolos, entre películas com suporte de nitrato, acetato de celulose e poliéster, além do expressivo acervo de fitas e rolos magnéticos, e aproximadamente 800 terabytes de arquivos digitais, sobretudo de materiais digitalizados do acervo e materiais encaminhados para Depósito Legal. O acervo documental abarca cerca de um milhão de documentos relativos ao audiovisual, como cartazes, fotografias, desenhos, livros, roteiros, periódicos, certificados de censura, material de imprensa, documentos de arquivos pessoais e institucionais.28 Ademais, há uma coleção de equipamentos, não catalogada, de tecnologias do audiovisual de diversas décadas. No período recente, a instituição dividia-se nos setores: preservação de filmes, centro de documentação e pesquisa, difusão – programação.29 e eventos, atendimento, administração, manutenção e tecnologia da informação.

No setor de Preservação de Filmes, diversos fluxos foram executados ao longo de 2016: acompanhamento da climatização dos depósitos, movimentação de materiais de acordo com suas características físicas ou deterioração, revisão da documentação, atendimento a solicitantes e duplicação emergencial de materiais, que será comentada adiante. Um fluxo de trabalho importante foi a documentação, de forma coletiva, de ações necessárias, mas para as quais não havia recursos suficientes. Depois de meses de manutenções corretivas e avaliação dos químicos e de película virgem no estoque, foi iniciado o processamento de materiais em avançado estágio de deterioração considerados únicos: “a seleção foi feita considerando as condições técnicas dos materiais, [com investimento de] menos tempo e recursos nas ações complementares de uma só obra para que seja possível viabilizar ações, embora incompletas, em um número mais amplo de materiais”, de acordo com o Relatório de 2016.30

Devido às metas estabelecidas no Plano de Trabalho e aos exíguos tempo e equipe disponíveis em 2016, a seleção de materiais para processamento em laboratório foi realizada por apenas um técnico, sem debates e discussões mais amplas sobre o processo de seleção. Houve a precaução de não selecionar longas ficcionais consagrados31 abrangendo “materiais de obras de ficção, documentários, cinejornais, filmes domésticos e filmes científicos” e “sem avaliação subjetiva do conteúdo das obras ou curadoria” (Relatório 2016). A seleção priorizou a urgência pela deterioração do material e não pelo conteúdo. O aspecto crítico nesse fluxo consiste no que não estava sendo selecionado, e que possivelmente estava incrementando ainda mais o ostracismo da obra. Ao longo do processo de análise, materiais indicados para duplicação eram avaliados como não processáveis e, pelo potencial de unicidade, ainda que com esperança no surgimento de algum material, impossível não encarar como a morte da obra. Inúmeros materiais estavam tão deteriorados que não possuíam condições de duplicação na íntegra, e os novos materiais gerados muitas vezes continham as marcas fotográficas da deterioração. Durante este fluxo, foi utilizado o estoque de película comprada nos anos anteriores – que foi findando ao longo dos anos, sem renovação.

As eventuais mortes de obras e as especificidades de processamento suscitaram a necessidade de criar uma metodologia que avaliasse e documentasse a situação da obra, a partir de determinado conjunto de materiais, para nortear as ações de preservação e acesso. Assim surgiu o que foi denominado como “status de preservação”, categoria que, além se integrar à documentação interna, foi incorporada nas comunicações aos detentores de direitos das obras, com observações como “indicada para processamento” ou “necessidade de prospecção de novos materiais”.32 Uma vez que essas categorias são mutáveis uma vez que a condição dos materiais pode mudar, a data do status era tão importante quanto o próprio status como informação.

A plataforma de dados da Cinemateca Brasileira é o WinIsis33 um software bastante limitado como ferramenta de análise de dados de forma mais complexa. A retomada de trabalhos de análise do acervo audiovisual, a criação de novos materiais e a movimentação demandavam atualização constante da base de dados de materiais audiovisuais, que foi interrompida devido à detecção de problemas estruturais na própria base – com o risco de corrupção de dados. Em paralelo, o projeto de código aberto e baseado na web Trac.34 foi estruturado e normatizado para documentação interna – essencialmente documentação fixa em formato Wiki e sistema de tarefas por tickets. Essa intranet “possibilita manter a horizontalidade da informação em relação aos demais setores, a colaboração na construção da documentação, a perenidade e a organização da informação em uma mesma plataforma, […] utilizada para documentar procedimentos internos diversos; normas e bulas de preenchimento de documentos; relatórios e textos referentes à instituição; informações referentes a solicitações externas e dados de materiais analisados e processados”, de acordo com o Relatório de 2017. O esforço por manter uma documentação interna acessível, horizontal e transparente, condizente com o caráter de uma instituição de memória, não alcançava as comunicações com a Acerp e os projetos elaborados pela equipe e encaminhados aos Ministérios. Um elemento importante para o progresso dos trabalhos foi o investimento em desenvolvimento de tecnologia, como documentado no Relatório de 2017, o que permitiu a análise de informações da base de dados de forma dinâmica e a busca por soluções para fomentar a autonomia da instituição.

Merece destaque o projeto ClimaCB, criado para o monitoramento on-line da climatização, uma combinação de software e hardware de código aberto, cujas orientações e códigos estariam disponíveis em Git, para a livre utilização. Infelizmente, a publicação não foi efetivada. A participação da CB à frente de discussões técnicas e na publicação de proposições e soluções tecnológicas é ansiada, considerando seu potencial caráter medular, no âmbito da preservação audiovisual.

No período de dois anos durante o Contrato de Prestação de Serviços, Olga Futemma mantinha reuniões com a equipe técnica para compartilhar notícias, impressões e estratégias. Os eventuais encontros reforçavam a noção da proporção e da força da equipe, e serviam como injeção de ânimo. Outro elemento importante de coesão como equipe foi a construção de um novo site – o anterior tinha navegabilidade e ferramentas obsoletas. Um momento de visibilidade foi a realização de uma vinheta pela equipe técnica, mostrando o histórico da logomarca da instituição, criada em 1954.35

A equipe do setor de Preservação tinha um equilíbrio entre técnicos antigos na instituição, que garantiam uma necessária continuidade de fluxos, e técnicos que ali trabalhavam pela primeira vez, que proporcionavam um frescor na avaliação de fluxos e processos do setor. As dificuldades nas relações interpessoais em anos anteriores e a insegurança ocasionada pela crise de 2013 eram as referências negativas a serem evitadas.

O ano de 2016 ficou marcado pela autonomia e intensa comunicação da equipe técnica, mas também pelos percalços. Em maio foi lançado um edital para seleção de uma Organização Social (OS) para empreender a gestão da CB, pela então equipe do MinC do governo Dilma Rousseff. Pouco depois ocorreu o golpe misógino, caracterizado como um processo de impeachment da presidenta. Tão logo o novo presidente assumiu, quis acabar com MinC, mas voltou atrás, após forte pressão popular. O novo Ministro da Cultura cancelou o edital da contração da OS para a CB, que foi lançado meses depois, com alterações.

Em julho houve mais uma surpresa: a eliminação, por uma reestruturação do MinC, de cinco cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) da instituição, ocupados então pela diretora e por técnicos. A direção da CB seria ocupada por uma indicação do Ministério, sem a devida expertise e sem a participação do Conselho, dado inédito à época. Foram enviadas cartas de associações e o Conselho da CB lançou um manifesto36 pela revogação das demissões e pela vinculação da Cinemateca ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), o que auxiliou a reversão do corte do DAS da diretora e viabilizou a contratação de técnicos que ocupavam outros cargos, de outra forma.

Nos meses seguintes foi batalhado junto à SAv/MinC uma forma de evitar o intervalo entre o contrato de prestação de serviços com a Acerp – que terminaria em dezembro – e a implementação do Contrato de Gestão com a OS vencedora do edital. A solução encontrada, um dia antes do término do contrato, foi sua extensão até abril de 2017, mas “como o valor residual não é suficiente para remunerar por quatro meses todos os técnicos anteriormente contratados, foi preciso reduzir a equipe (em cerca de 75%) e, como consequência, frentes de trabalho”, segundo o Relatório daquele ano. O ano terminou com uma mistura de entusiasmo, pela celebração do centenário de nascimento do Paulo Emílio – com o lançamento de um esmerado site,37 de cursos ao público externo e publicações –, e de desânimo pelo corte da equipe, que só seria retomada em proporção similar em junho de 2017. É visível o impacto da forte redução dos técnicos, em um comparativo dos fluxos de trabalho nos Relatórios de 2016 e 2017, como pode ser explicitado pelos resultados do laboratório de metragem de material processado:

Em maio de 2018 foi celebrado o contrato com a OS, seguido por uma cerimônia com a presença do então Ministro da Cultura, que clamou que “a crise acabou” com o novo modelo de gestão. A Acerp, titular do contrato de prestação de serviços desde 2016, foi a OS selecionada no Edital. No caso da Cinemateca Brasileira, a costura jurídica do contrato de gestão por OS iria contribuir para a crise atual: a legislação não permitia que a Acerp firmasse um contrato de gestão diretamente com o Ministério da Cultura (órgão ao qual a Cinemateca estava vinculada), pois já tinha um contrato com o Ministério da Educação (MEC), então a gestão da Cinemateca foi oficializada por um aditivo ao contrato principal.38

Após a assinatura, a Acerp designou uma nova diretora para a Cinemateca, sem consulta ao Conselho, então relegado ao ostracismo. A primeira ação da Acerp com forte impacto na dinâmica da equipe técnica foi o estabelecimento de um núcleo de Atendimento para se dedicar ao crescente número de solicitações, sobretudo de acesso ao acervo audiovisual. Os serviços dos demais setores e o acesso ao acervo documental continuavam sendo viabilizados, mas, com o novo fluxo, se formou um gargalo no acervo audiovisual. Toda solicitação era registrada, respondida e eventualmente atendida, em teoria, considerando a ordem de chegada, a possibilidade de execução e os tempos de tramitações dentro da instituição. Apesar desse protocolo estabelecido pela equipe, um sinal da subjugação da CB seria a intensificação de projetos furando a fila, por determinação do ministro ou da diretoria da Acerp, o que gerava desconforto e inconformidade em parte da equipe.

Para a equipe de Preservação, o núcleo de Atendimento significou não ter mais contato com pesquisadores e produtores, que estavam acostumados com a maior agilidade que a expressiva equipe conferia antes de 2013 – e ficavam frustrados com a limitada capacidade de resposta impressa pela equipe reduzida. Ademais, o diálogo com produtores e pesquisadores – e suas práticas – denotava incompreensão da importância da preservação. Ou ainda, uma visão curta, até em termos de mercado, como a demanda para retirada de materiais para digitalização e licenciamento sem o processamento tecnicamente necessário.39 Outro indício da incompreensão e desrespeito com o viés da preservação é a não execução das contrapartidas especificadas pela CB. Relação elegantemente comentada por Olga Futemma, no Relatório de 2016: “algumas das situações ruins que enfrentamos decorreram de: prazos exíguos; a total desconsideração da necessidade de uma contrapartida – não em termos monetários, pois a Cinemateca não pode cobrar [à época] , mas em ações que deveriam estar previstas em seus projetos e que permitissem ampliar o acervo […]; a incompreensão de que materiais únicos (de preservação) não devem sair do acervo sem supervisão […]”. Ela acrescenta que “é preciso, portanto, continuar a empreender esforços para a mudança da concepção do bem público como algo de que se possa dispor livremente para a consecução de projetos privados, e para a compreensão da necessidade de, ainda na fase de elaboração, consultar sobre a viabilidade do projeto com a Cinemateca, no que diz respeito aos materiais pretendidos e aos prazos necessários para sua disponibilização. São duas condições essenciais para um planejamento que beneficie o solicitante e o acervo”.

Em setembro de 2018, antigos membros do Conselho emitem uma Notificação Extrajudicial ao MinC, requerendo a “revogação dos atos […] e normas que violem a autonomia técnica, administrativa e financeira asseguradas na escritura de incorporação da Fundação Cinemateca Brasileira […], além de: 1) Constituição de novo Conselho Consultivo com observância à necessária autonomia do órgão; […] 3) Retorno da Cinemateca Brasileira à estrutura do IPHAN”. A notificação menciona ainda a “omissão da SAv diante do incêndio [de 2016 … e] que a Cinemateca Brasileira nem mais consta da estrutura do Ministério da Cultura e nem mereceu nenhum cargo público comissionado”.

Gestão por OS na Cinemateca Brasileira

No momento de maior solidez da instituição, na primeira década deste século, a manutenção de seu corpo funcional foi um desafio constante. Os técnicos eram contratados por projetos com duração específica, por diferentes formas de vinculação.40 Essa dinâmica imprime fragilidade e instabilidade aos fluxos de trabalho, compromete estratégias e soluções estruturais, além de vulnerabilizar a própria equipe técnica.41 O modelo de gestão por OS seria uma solução desejada para viabilizar a contratação da equipe técnica de forma estável, depois de anos de penúria, conforme evidenciado por Futemma em e-mail na lista da ABPA: “esta discussão [de modelo de gestão de OS] ocorre há oito anos, envolvendo MinC, SAv e Conselho e equipe da Cinemateca. Temos grandes expectativas de que, até o final deste ano, um novo modelo de gestão permita à Cinemateca Brasileira exercer todo o seu potencial em prol do patrimônio audiovisual brasileiro”.42

O modelo de gestão por OS foi a solução deliberada depois de muitos anos de instabilidade do corpo técnico. Essa perspectiva era calcada também na possível preferência de uma OS criada especialmente para gerir a CB, a Pró-Cinemateca, OS criada em 2014 por membros do conselho e da SAC, com a finalidade única de fazer a gestão da instituição, que potencialmente teria a participação de profissionais da área na construção de um Plano de Trabalho – documento medular para a gestão em si e um dos critérios de seleção no Edital. A Pró-Cinemateca se qualificou para o 1º Edital lançado, mas não para o 2º Edital, devido à nova exigência de experiência prévia da instituição na gestão de recursos públicos – não havia experiência da instituição, pois havia sido criada recentemente, mas dos representantes e conselheiros, sobretudo experiência na própria Cinemateca, o que, na prática, poderia ser mais relevante do que o histórico de gestão da empresa em si.

Hoje o modelo de gestão por OS, após controvérsias em torno da gestão de outras entidades públicas, casos de corrupção e uma série de publicações sobre o tema na academia e na internet, é rebatido de forma ampla.43 O modelo é especialmente arriscado para instituições de patrimônio cultural em um contexto de insuficiência de recursos do Governo, onde fluxos de trabalho essenciais para a conservação do acervo (muitas vezes custosos e de baixa visibilidade) podem ser ofuscados para o benefício de ações com maior visibilidade pública. A confecção de um plano de trabalho sem a participação efetiva da equipe técnica pode comprometer seus objetivos primordiais. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira:

“Um outro problema dessa gestão é que a justificativa da liberdade para captação de recursos por outras vias que não as estatais acaba também ficando à mercê do Estado. Isso se dá porque, no Brasil, o apoio das instituições privadas para a cultura não é tradição. A iniciativa privada no Brasil não apoia iniciativas culturais. Tradicionalmente, famílias milionárias e corporações brasileiras não realizam doações ou investimentos nos equipamentos de cultura, menos ainda para aqueles que não dão visibilidade à marca”. (2020, p.110)44

No caso da CB, a gestão por OS possibilitou a contratação por CLT45 de boa parte da equipe, cuja escolha felizmente coube aos coordenadores, sem a intervenção da Acerp. Porém, gradativamente o corpo técnico passou a ser condicionado às diretrizes da Acerp, condição que ficou evidente em reuniões internas, quando não era mais possível desempenhar um papel ativo na prospecção de acervos46 ou falar em nome da instituição sem o consentimento da Acerp. Sinais de mudança foram percebidos nos “modos sociais” da equipe, de forma distópica: a instalação de rede de câmeras como medida de segurança de acervo e equipamentos se concretizou com a gestão da Acerp – abarcando espaços anteriormente utilizados em pausa do trabalho, gerando desconforto com a vigia panóptica moderna.

Cursos internos de assuntos técnicos ou apresentação de fluxos e atividades entre os setores, que eram realizados desde 2017, foram suspensos. A captação de recursos para a Cinemateca constava entre as ações previstas pela Acerp, e o aproveitamento do acervo e das instalações era uma via rápida para esse fim, o que gerou longos períodos com um fluxo constante de montagem e desmontagem de estrutura para grandes eventos, com temáticas variadas, por vezes distante da cultura e do audiovisual. Como não foram emitidos relatórios de 2018 e 2019, na gestão da OS, não é possível o acesso à informação sobre esses eventos. A ausência de publicação de relatórios é um perigoso indício da falência do modelo de OS para a Cinemateca, pois são documentos fundamentais para prestação de contas e transparência da gestão da instituição. No período foram criados relatórios de cumprimento de metas para o Ministério, mas o caráter do documento é técnico e pouco informativo, além de não ser público. Foi proposto um Código de Ética e Conduta da Acerp para os funcionários da CB, apresentado em um evento sobre o compliance da empresa – a menção de crenças religiosas no evento foi uma demonstração significativa da distância entre a Acerp e a missão institucional da CB.47 Ainda, ficou explícita e evidente a inaptidão da empresa no desembaraço de burocracias para aquisição de equipamentos para o laboratório, o que afetou planos de trabalho desenhados segundo a disponibilidade de tais equipamentos. Solicitações de acesso ao acervo audiovisual para a utilização na programação da TV Escola tornaram-se prática corrente – enquanto a Acerp desatendia algumas necessidades apontadas pelo corpo técnico. As propostas da programação para a sala de cinema foram impactadas e condicionadas – como apresentar a ideia de uma mostra de Fassbinder para uma diretoria que fazia piada homofóbica nas situações de conversa fiada anteriores às reuniões?

O cancelamento em cima da hora da edição de 2019 da CryptoRave48 pela equipe da própria Cinemateca foi sintomático, por receio de represália. Um símbolo incontestável da ocupação pela Acerp foi a criação de um novo site, sem participação ativa do corpo técnico da Cinemateca nas decisões editoriais. Como exemplo de equívoco, a ferramenta dinâmica do calendário de programação não era compatível com a linguagem do novo site. Portanto, o novo site passou a ter um design mais atualizado, porém menos funcional. A Acerp de imediato implementou uma logomarca intermediária (dizeres ‘cinemateca brasileira’ em cor branca sobre fundo vermelho), em substituição da logomarca de 1954, criada pelo celebrado designer Alexandre Wollner. A Acerp encomendou o desenho de uma nova logomarca, apresentada ao corpo técnico sem espaço para deliberação, cujo conceito e diagramação surpreendem pela semelhança com a logo do Curta Cinema - Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro. Outro aspecto delicado, pois a Acerp é sediada no Rio de Janeiro e a Cinemateca em São Paulo.49 são os gastos de traslado, hospedagem e diárias de alimentação de diretores, gerentes e membros da consultoria jurídica entre as cidades – esses recursos acumulados significam um montante considerável, que poderia ter sido investido na própria Cinemateca.

Um símbolo inquestionável do insucesso do modelo de gestão de OS para a Cinemateca foi a dissolução do Conselho Consultivo, composto por representantes do poder público e da sociedade civil, cuja existência está prevista na ata de incorporação da instituição ao governo federal, de 1984. Sem diálogo com o Conselho, vários diretores foram apontados pela Acerp, sem experiência na área de memória ou preservação, e acabaram por alienar a equipe técnica dos rumos da instituição. Além disso, a Cinemateca, que historicamente se mantinha apartidária, por meio da Acerp, tornou-se o destino de pessoas associadas ao partido de extrema direita do presidente à época, em cargos diversos (administrativos e de comunicação, sobretudo), sem a expertise necessária nem entendimento da instituição, e que frequentemente apresentavam as áreas técnicas aos visitantes sem o devido acompanhamento da equipe técnica, fragilizando mais os esforços de conservação. Episódios com muita repercussão foram a presença de militares nas dependências da instituição50 e a tentativa fracassada de realização de uma mostra de filmes militares. Ao longo dos quatro anos da gestão da Acerp, a partir do exame da dinâmica interna, fica explícito o quanto a equipe técnica era autônoma e tinha projetos (Acerp como prestadora de serviço, de 2016 a 2018) e o quanto houve de perda da autonomia no modelo de gestão por OS (2018 em diante).

O limbo administrativo em que os dez servidores públicos alocados na instituição consiste em outra questão. Eles continuaram em seus postos desde o início da gestão por OS, quando a CB deixou de ser uma coordenação-geral da SAv do antigo MinC. Alguns dos servidores já estavam na instituição há mais de três décadas. Antes da assinatura do contrato, foi garantido aos servidores que, com a cessão para a OS, não teriam prejuízos em seus salários e benefícios. Contudo, após a assinatura do contrato, o entendimento mudou e a cessão nunca foi oficializada. Apesar dessa situação, o ministério orientou os servidores a prosseguirem com suas atividades na Cinemateca. Após um ano e meio de descaso e mensagens contraditórias, tiveram que abandonar de forma brusca a Cinemateca, para trabalhar no Escritório Regional do Sudeste do Ministério, em São Paulo – sem infraestrutura mínima para recebê-los. Além da súbita suspensão de sua atuação na CB, essas pessoas respondem a um processo de reposição ao erário, para devolução à União da Gratificação de Desempenho de Atividade Cultural (GDAC) – que representa parte significativa dos vencimentos – do período da assinatura do contrato de gestão da Acerp até a ida ao escritório do Ministério, por terem trabalhado “cedidos” para a OS.

Apesar de a Acerp ter assumido as relações institucionais de forma mais ampla, excepcionalmente a relação com a FIAF seguiu sendo feita por Olga Futemma e coordenadores, com a emissão de minuciosos relatórios anuais à Fundação e a pronta pesquisa de informações solicitadas por associações filiadas à FIAF. Porém, entre os anos 2016 a 2019, não foi possível a representação de Futemma ou dos coordenadores nos Congressos de Bologna, Los Angeles, Praga e Lausanne.

Crise de 2020

Em fevereiro de 2020 a instalação secundária na Vila Leopoldina foi afetada por uma enchente, devido às fortes chuvas e à ausência da gestão adequada de galerias pluviais do bairro, aliada à intensa poluição do rio Pinheiros, a menos de 0,5 km da Cinemateca. A água de esgoto atingiu mais de um metro de altura, destruindo parte do acervo de película e de equipamentos, inclusive últimos materiais de longas e curtas de ficção, muitos elementos únicos de cinejornais, publicidade e trailer. Os danos ao acervo documental não foram considerados significativos, por se tratar de material duplicado. Instalações e equipamentos do galpão foram afetados e danificados. Após uma higienização profunda no ambiente pela equipe de limpeza, uma parcela da equipe técnica foi deslocada para limpeza, organização e resgate dos materiais atingidos. Não foi executado um plano emergencial por parte da Acerp ou da SAv para a necessária avaliação e processamento dos acervos audiovisual e de equipamentos, os mais atingidos, como a contratação de uma equipe técnica extra de forma temporária ou, até, a permissão de voluntários.51 A catástrofe não foi noticiada espontaneamente devido à falta de articulação entre a SAv e a Acerp diante da tragédia. A equipe técnica não poderia tomar a iniciativa de tornar pública a enchente. A exígua equipe estabeleceu turnos diferenciados, considerando a alta toxicidade do ambiente e a carga exaustiva, acentuada pelas altas temperaturas do galpão sem climatização e com restrita ventilação.52 Materiais em película foram selecionados e transladados para a sede principal para avaliação e processamento no laboratório, mas havia pouca película disponível para duplicação emergencial de rolos únicos danificados. Pelo alcance dos danos no espaço da CB e, sobretudo, nos acervos audiovisual e de equipamentos, pela inação da SAv e da Acerp, e pela crise que se sucedeu depois, interrompendo o trabalho de resgate e pesquisa, essa enchente se equipara, como catástrofe, aos sucessivos incêndios sofridos pela instituição, que “são metáfora da fragilidade da construção de uma política de preservação audiovisual que se esvai em chamas a cada mudança de Governo, de criação de entidades, de novos agentes” (Ferreira, 2020, p.23).

Desde a crise de 2013, o orçamento repassado pelo Ministério foi aquém das necessidades, o que se traduziu em equipes menores que o planejado para execução dos planos de trabalho. Ao final de 2019 instalou-se mais uma crise, quando o então Ministro da Educação decidiu não dar continuidade ao projeto da TV Escola – objeto principal do contrato da Acerp com o MEC –, não renovando o Contrato de Gestão com a Acerp (supostamente por uma cizânia pessoal do Ministro com um dos diretores). Uma vez extinto o contrato-principal com o MEC, todos os demais contratos foram encerrados – apesar do aditivo referente à CB ter duração até 2021 – o que deixou a CB à deriva administrativamente. A Acerp passou alguns meses buscando contornar a decisão e tentando obter recursos com a SAv, com a Secretaria Especial da Cultura e com o Ministério do Turismo, sem sucesso. O ano de 2020 foi repleto de notícias absurdas de decisões do governo envolvendo a Cinemateca,53 causando comoção e repercussão em redes sociais e gerando matérias na mídia. Em abril a Acerp parou de pagar as empresas terceirizadas e a equipe técnica. Antigos membros do Conselho lançaram um manifesto em maio.54

Foi iniciada uma ação civil pública pelo Ministério Público Federal contra o governo federal, pedindo a renovação emergencial do contrato com a Acerp que, até o fechamento deste texto, tinha o entendimento de que a situação estaria sanada com a contratação dos serviços essenciais (segurança, bombeiro) – porém, a ação está em andamento e há expectativa de uma nova decisão favorável à CB. Foram formadas e fortalecidas redes de resistência e protesto, de forma difusa, com diversos atores, que estreitaram a comunicação ao longo do tempo: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, e representantes da Associação Paulista de Cineastas (Apaci),55 criando o movimento SOS Cinemateca. Estes grupos estiveram muitos ativos na realização de atos pela Cinemateca e na articulação política com gestores municipais e federais. Por parte do corpo técnico da CB, a porta voz não foi a gerência ou as coordenações, mas a representação de funcionários como um grupo.56

Os funcionários, que seguiam em trabalho remoto (quando possível), entram em greve em junho, com o auxílio efetivo do Sindicato. Neste mês é iniciada uma campanha por iniciativa dos trabalhadores da CB para arrecadar recursos para os colegas em situação mais vulnerável pela falta dos salários e benefícios, ainda mais fragilizados com a pandemia de Covid-19. A campanha teve numerosas contribuições de pessoas e instituições de todo o mundo.57 Foram feitas doações diretas à própria instituição, como a de um diretor anônimo, que doou para o conserto do gerador. Em julho foi realizado um debate na Câmara dos Deputados,58 com a presença de parlamentares, de diferentes atores da cadeia do audiovisual e da sociedade civil, um símbolo da repercussão e engajamento inéditos em torno da Cinemateca. De certa forma evidenciou também a necessidade de protagonismo e de didática por parte de profissionais da área pela profusão de termos inadequados e imprecisos ao defender a Cinemateca.59 A diretoria da Acerp emitiu poucos comunicados ao corpo técnico diretamente, e as informações eram repassadas, de forma irregular, pelos coordenadores. Em junho foi emitido um comunicado da diretoria (em documento não datado!), com solidariedade “com as dificuldades que todos estão passando, mas saibam que estamos fazendo o possível e impossível, estamos fazendo de tudo que está ao nosso alcance”, com o comprometimento de, “assim que receber do Governo Federal, a primeira providência será pagar salários e rescisões” – quando era notório que não haveria nenhum repasse por parte do Governo Federal. Considerando a ausência de recursos em 2020 para a Cinemateca, a enchente, a crise decorrente da pandemia de Covid-19, o trabalho remoto, a suspensão de salários e benefícios, o comunicado é um símbolo do descaso e desrespeito da Acerp com seu corpo funcional. Após a entrega de chaves da CB ao Ministério em 7 de agosto,60 a Acerp demitiu seus funcionários (sem pagamento de salários atrasados e verbas rescisórias).

Conforme notado na Carta de Gramado de 2020, “após inúmeros telefonemas, mensagens, consultas entre as partes e adiamentos, foram garantidos os serviços básicos e emergenciais de água e de luz […]; foram contratados os serviços de limpeza, embora a empresa não seja especializada; foram contratados serviços de manutenção dos equipamentos de climatização, embora a empresa não ofereça a expertise necessária; foram contratadas uma mini brigada anti-incêndio composta por dois funcionários e uma empresa de vigilância patrimonial das dependências. No entanto, entre as necessidades emergenciais falta o fundamental trabalho dos funcionários especializados sem os quais o acervo não estará preservado, mesmo com a retomada dos serviços básicos acima descritos”.61 Sem o acompanhamento técnico, o menor dos incidentes nas áreas de acervo pode gerar problemas com consequências drásticas e irreversíveis. Trata-se da primeira vez que em que é impossibilitada a entrada na instituição, por qualquer membro do corpo técnico.

À ocasião da entrega das chaves ao Ministério do Turismo, foi indicado que um edital para a contratação de uma nova OS seria lançado em breve, o que ainda não ocorreu. Há uma previsão orçamentária de R$ 12,5 milhões para a Cinemateca em 2020. Caso este recurso não seja utilizado ainda neste ano, não poderá ser somado aos parcos R$ 4 milhões previstos para 2021. Vereadores de São Paulo de diferentes partidos políticos organizaram um fundo de emendas parlamentares para a Cinemateca, com apoio da SPcine, empresa municipal de audiovisual de São Paulo. A aplicação de recursos municipais em uma instituição federal demanda uma articulação jurídica inédita, que está sendo construída pela SAC para a contratação emergencial de um pequeno corpo técnico. Hoje, os grupos da Sociedade Civil seguem ativos, com a tentativa de acionar entidades e dar continuidade à mobilização. A próxima grande ação está prevista para 27 de outubro, Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual - UNESCO.

É urgente a criação de uma solução imediata para a viabilização de uma equipe técnica ainda no ano de 2020, para que o acervo não siga desacompanhado. A criação de mecanismos para a gestão da instituição a médio e longo prazo, de forma resiliente e sustentável, condizente com a necessidade de constância dos trabalhos no acervo e de manutenção da equipe técnica também é urgente. Considera-se como necessária e fundamental a abertura de concursos públicos para os cargos técnicos, respeitando as especificidades, o que poderia conferir a desejada estabilidade. Conforme diagnosticado na Carta de Ouro Preto de 2020:

“preservação do patrimônio cultural é dever constitucional do Estado brasileiro e, portanto, é preciso recuperar o protagonismo do poder público na gestão de instituições de patrimônio audiovisual, retomando os processos de abertura de concursos públicos e de implementação de planos de gestão pensados em conjunto com a sociedade civil, diretiva prevista na Recomendação sobre a Salvaguarda e Conservação das Imagens em Movimento, da UNESCO, de 1980” (Carta de Ouro Preto de 2020)

Uma ideia recorrente nas numerosas discussões on-line é o retorno da Cinemateca Brasileira para uma instituição de memória e patrimônio do governo federal – IBRAM ou o IPHAN, ao qual a CB foi vinculada até 2003, quando passou a ser vinculada à SAv. Foi inclusive esse vínculo ao IPHAN que proporcionou a continuidade da CB no início da década de 1990, quando o governo federal promoveu um desmonte de políticas e instituições de cinema. O IBRAM é uma autarquia vinculada ao Ministério do Turismo, que abrange trinta museus federais.

Depósito Legal e o Mercado do Audiovisual

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Possivelmente a prosperidade do FSA (e o aumento de investimentos em desenvolvimento, produção, distribuição e exibição), unida à inação dos elos da cadeia produtiva do audiovisual em relação à preservação se relacionam diretamente com a dimensão da atual crise do patrimônio audiovisual. A ABPA reiteradamente tem pleiteado assento no Conselho Superior do Cinema (CSC) e no Comitê Gestor do FSA, sem sucesso. No debate “Fronteiras entre a indústria, mercado e arquivos – conteúdo, fomento e regulação”, na CineOP de 2018, um representante da indústria audiovisual no Comitê Gestor do FSA sugeriu a busca de outro caminho de financiamento para a preservação, distinto do FSA. Quando este profissional levanta essa possibilidade (e ele é só um exemplo da postura de outros produtores), não compreende a importância da preservação para toda a cadeia nem que também é sua função defender a Cinemateca, bem como outras políticas para a gestão do patrimônio audiovisual, de forma ampla. Nem que seja pelo viés personalista, considerando que algum asset seu possa estar lá: a matriz de uma imagem de arquivo para seu próximo filme como produtor; a matriz do seu filme de estreia dos anos 1980; ou os registros domésticos de sua família. Ou, ainda, pelo fato de que a atuação da Cinemateca em discussões, publicações, fóruns e em pesquisa de tecnologia possa beneficiá-lo de alguma forma. Como afirma Paulo Emílio, “não se faz bom cinema sem cultura cinematográfica e uma cultura viva exige simultaneamente o conhecimento do passado, a compreensão do presente e uma perspectiva para o futuro. Enganam-se os que confundem a ação das cinematecas com o saudosismo” (1982, p.96). A cadeia produtiva já resmungou62 quando foi debatida a necessidade de investimento no gigante passivo da preservação audiovisual para atender à própria cadeia produtiva e, até, explorar comercialmente os acervos. O business model não fecha enquanto não tivermos um investimento massivo para dar conta de décadas de dificuldades e estagnação. Eu resmungo de volta com esse gráfico:63

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Em abril de 2017, foi publicado o Plano Anual de Investimentos do FSA para o ano de 2017,64 no qual foram anunciados, como apoio, R$ 10,5 milhões para a Cinemateca Brasileira. O valor equivale a 1,4% do total anunciado no documento. O valor nunca foi executado, com a justificativa de que o recurso do não reembolsável65 teria terminado. Em maio de 2018 foi lançado o Plano Anual de Investimentos de 2018,66 com a previsão de R$ 23,375 milhões para investimentos em Preservação e memória. Em dezembro daquele ano foi lançado pela SAv o Edital de Restauro e Digitalização de Conteúdos Audiovisuais. Tratava-se de recursos para restauração ou digitalização de obras para empresas do audiovisual, com a possibilidade de retorno financeiro, e contou com a atuação de um grupo de trabalho com a participação de técnicos de preservação da Cinemateca Brasileira na construção do documento e das diretrizes técnicas para a digitalização e restauração. Sob a ótica de profissionais do setor, o Edital estava destinado somente a produtoras com o viés da distribuição, sendo a preservação secundária. O Edital foi suspenso cerca de quatro meses após a publicação pelo atual governo. Portanto, nenhum recurso do FSA de 2008 a 2018, de um total de um pouco mais de R$ 4,5 bilhões,67 foi de fato investido em preservação.

Atualmente a Cinemateca Brasileira é a única instituição habilitada a receber materiais em Depósito Legal. Desde 2016, a Ancine investiu não mais que R$ 2 milhões na contratação de equipe técnica para análise desses materiais, cujo fluxo de processamento mobiliza diversos setores e técnicos da instituição. Foi reportada alta taxa de reprovação dos materiais analisados e, segundo Gomes (2020), “parece ter como uma das principais causas o grande distanciamento e pouca informação de realizadores/produtores acerca, de maneira ampla, do papel de um arquivo audiovisual, e de maneira mais específica, dos princípios do Depósito Legal”. Contar com a expertise na análise dos materiais sem viabilizar recursos para a preservação desse acervo pode ser considerado como tiro no pé. Os materiais analisados estão inertes em estantes em um ambiente climatizado – à mercê da famosa morte silenciosa.68 É necessário que o mercado participe para garantir um aumento da taxa de aprovação e a criação de condições para preservação de materiais nato digitais no âmbito do Depósito Legal. De maneira ampla, a narrativa e a luta por políticas para o patrimônio audiovisual devem também ser do mercado.

É muito significativo o panorama da Cinemateca apresentado na Carta de Gramado 2020, elaborada pela frente SOS Cinemateca, com adesão de diversas associações – de outras cinematecas, de profissionais e empresas do audiovisual. Um sinal positivo é a inclusão de uma discussão sobre a crise na Semana ABC, organizada pela Associação Brasileira de Cinematografia (ABC), um dos mais significativos eventos em torno da realização audiovisual no Brasil. Mas ainda precisamos de maiores ações de aproximação e de reconhecimento de que esta crise da Cinemateca deve ser preocupação – e requer atuação – de todo o setor.

Conforme apontado na Carta de Ouro Preto de 2020, entre os pontos urgentes para implementação de uma política nacional para a área e os desafios a serem enfrentados está “reivindicar a criação de mecanismos para a ampliação da oferta de obras audiovisuais brasileiras nos catálogos de plataformas de streaming, tendo a garantia de inclusão de obras de diversas épocas, possibilitando o acesso ao vasto patrimônio audiovisual brasileiro”. Qual seria a relação da Netflix (usada aqui como modelo de plataforma), por exemplo, com a necessidade de investimento no patrimônio audiovisual brasileiro? Só uma oportunidade de benfeitoria mesmo, viável por sua presença na lista das 12 empresas que mais lucraram na pandemia. A proposta não é tão absurda, considerando que a empresa no Brasil criou um fundo emergencial de R$ 5 milhões para a indústria audiovisual brasileira, devido ao recesso no contexto da pandemia de Covid-19.69 Obras antigas disponíveis nas plataformas de streaming constituem uma preocupação nos Estados Unidos.70 Em geral, produtores brasileiros não contam com recursos para digitalização e finalização de filmes antigos capazes de atender aos parâmetros técnicos requeridos pela plataforma e, possivelmente, precisam de investimento em advogados para viabilizar o clearance.71 da obra. Que tal então a plataforma lançar uma linha de investimento para obras não contemporâneas? Trata-se de uma ideia que seria contemplada pelo Edital SAv/MinC/FSA nº 24 de dezembro de 2018, linha de Restauro e Digitalização de conteúdos audiovisuais, suspenso em 2019. A saúde das instituições de patrimônio audiovisual beneficia também as próprias plataformas de streaming a médio e longo prazo – considerando, por exemplo, a forte tendência de documentários em torno de imagens de arquivo.72 Como ilustração, o expressivo número dos documentários dos EUA disponíveis na Netflix Brasil, que possui imagens de arquivo como condutores da narrativa, como Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), e as séries Remastered (2018) e Explained (2018). No entanto, comparativamente são poucos os filmes e séries brasileiros que apresentam imagens de arquivo nessa medida, sendo uma exceção OBarato de Iacanga (2019, Thiago Mattar).73

Além da atividade do laboratório da Cinemateca para a preservação de seu acervo, chamo atenção para a confecção de cópias, como a coleção “Clássicos e Raros do Cinema Brasileiro”, iniciada em 2007, que teve sua 4ª edição em 2016, e aquelas feitas para celebrar o Dia internacional do Patrimônio Audiovisual. Destaco, como meio de registro, as cópias em 35mm e digital realizadas em 2016, tal qual consta no Relatório.

A confecção de cópias em 35mm é uma importante função de uma cinemateca com um laboratório fotoquímico, para a preservação e para proporcionar uma experiência de difusão em consonância com o formato original da obra. Considerando que o digital é a forma de ampla circulação, são confeccionados cópias em digital em diversos formatos/fins. No contexto da CB, o esforço de digitalização dessas obras se realizaria mais plenamente com alguma forma de difusão pré-estabelecida, idealmente com a devida curadoria e ações de contextualização. Atualmente, o caminho natural de difusão digital da CB é a inclusão na plataforma Banco de Conteúdos Culturais (BCC).74

Dez Filmes Importantes Para a História do Cinema Brasileiro Inacessíveis (ou quase) Digitalmente”, publicado em Cinelimite, expõe a inacessibilidade digital a alguns celebrados, cânones ou raridades de nossa filmografia. Além de ações para o acesso digital, é crucial avaliar se suas matrizes estão fora de risco iminente, e se demandam ações de preservação ou duplicação. A lista de Rafael de Luna me remeteu a “Filmes brasileiros considerados perdidos (ou prestes a sê-lo)”, publicada na extinta revista Contracampo.75

Distintivamente, a lista de 2001 era sobre a existência/perda de matrizes. Além de alguns títulos que eventualmente foram perdidos, outros tiveram seus (conhecidos) únicos materiais deteriorados, a ponto de inviabilizar um processamento em laboratório. Devido às crises da Cinemateca Brasileira, à paralisia dos trabalhos de pesquisa, das ações de preservação e do processamento laboratorial, a atualização da lista feita em 2001 por Hernani Heffner e Ruy Gardnier seria trágica em extensão e escopo. Seria papel de uma instituição nacional tornar esta lista pública. Além de prestar contas à sociedade brasileira sobre seu patrimônio audiovisual, também pode ser uma estratégia de localização de novos materiais junto a outras instituições e colecionadores privados no Brasil e no mundo. Ainda, e os tantos outros filmes e registros que escaparam de tal investigação e documentação e estão em ostracismo? Quantos filmes existem, cujos únicos materiais são cópias em bitolas inferiores, incompletos, muito deteriorados? Quantos registros audiovisuais brasileiros já perdemos?

Conclusão
“Se perdermos o passado, viveremos em um mundo Orwelliano do presente perpétuo, onde qualquer pessoa que controla o que está sendo divulgado poderá dizer o que é verdade e o que não é. É um mundo terrível, nós não queremos viver nesse mundo.” Brewster Kahle (2014, entrevista para Digital Amnesia, documentário da holandesa VPRO)
“Conhecimento só se efetiva quando é compartilhado” Hernani Heffner (2001, em conversa de corredor na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro)

O audiovisual digital tem sido ferramenta crucial nas lutas por direitos humanos em todos os cantos do país. São registros de despejos forçados de comunidades, da ocupação de aparelhos culturais ou educacionais como forma de protesto, de manifestações, de invasão de comunidades por forças policiais – com altos índices de homicídios da população local, inclusive crianças e jovens – registros da devastação ambiental fomentada pelo governo atual, da luta por direitos e pela demarcação de terras indígena, e de crimes contra os povos originários. O audiovisual também tem sido utilizado no empoderamento preto e na luta antirracista, na emancipação e afirmação das mulheres por igualdade de oportunidades e contra o machismo estrutural. As redes sociais, com uma profusão de talentos criativos e narrativas, proporcionam os maiores índices culturais desta época. No Brasil, em sentido geral, estas imagens seguem fora do escopo de prospecção das instituições brasileiras, e ainda é tímida a discussão em torno de seu arquivamento e pertencimento ao escopo do patrimônio audiovisual no Brasil. Na perspectiva da preservação, além de todos os desafios inerentes à preservação digital de dados,76 temos o aspecto da efemeridade, pelo vínculo dos dados às corporações.

Os mecanismos de tecnologia persuasiva das redes sociais são utilizados para conduzir comportamentos de indivíduos. Algoritmos são capazes de dar credibilidade ao inverídico, de alavancar o terraplanismo e de colocar #StopFakeNewsAboutAmazon como trend no Twitter, enquanto a boiada do ecocídio passa solta, e o mundo testemunha a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e outros Parques Nacionais destruídos.77 O computador quântico Rehoboam78 é uma alegoria do agora, em uma narrativa explicitada por Shoshana Zuboff em seu livro “Capitalismo de Vigilância”. Vimos, num crescente terror e violência, sucessivas vitórias eleitorais de partidos e movimentos políticos de extrema direita. A circulação de notícias falsas nas redes sociais aumentou o poder de destruição do Covid-19. A contrainformação, deep fake e robôs de fake news têm conexão com o mundo descrito por Brewster Kahle, fundador do Internet Archive, citado acima. Podemos perder o passado e, até, o presente, pela fragilidade do tecido da informação, pelo potencial de manipulação e pela desinformação.79 O atual presidente do Brasil, quando deputado, à ocasião do processo de impeachment/golpe da presidenta Dilma Rousseff, votou pela memória do maior torturador da ditadura militar, que comandou as sessões de tortura contra a ex-presidenta. Falhamos em não ter mostrado e visto o suficiente de O caso dos irmãos Naves (1957, Luis Sérgio Person), Iracema - uma transa amazônica (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), Eles não usam black-tie (1981, Leon Hirszman), Pra Frente, Brasil (1982, Roberto Farias), Cabra marcado para morrer (1984, Eduardo Coutinho), Que bom te ver viva (1989, Lúcia Murat), Ação entre amigos (1998, Beto Brant), Cidadão Boilesen (2009, Chaim Litewski).80 De forma que fosse impossível banalizar o ato na Câmara dos Deputados, de tal forma que nenhuma mulher votasse nele para presidente dois anos depois. Agora não podemos deixar de preservar estes filmes e os que virão depois de Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) e Torre das Donzelas (2019, Susanna Lira).

Uma parcela expressiva do patrimônio audiovisual brasileiro já se perdeu ao longo do século passado. Além dos recorrentes incêndios à época dos primeiros cinemas, das ondas de destruição ativas (de filmetes curtos na consolidação do longa-metragem como formato, do silencioso com a chegada do cinema falado, na substituição do nitrato pelo acetato), muitos acervos se dispersaram, foram desmantelados, escamoteados, e os que chegaram aos arquivos de filmes já chegaram debilitados. Ainda, a demora em reconhecer a importância do patrimônio audiovisual, a ausência de políticas públicas para a sua gestão e a oscilação de recursos nas instituições acarretaram mais perdas. Com o advento do digital, há um agravamento – tanto pela preservação do que hoje é prospectado quanto pelo que está fora do escopo de prospecção. A crise atual da Cinemateca é gravíssima e demanda medidas urgentes do poder público e da cadeia audiovisual. Apesar do poder de destruição do atual governo e da paralisia dos trabalhos por tantos meses, encorajada pelas muitas discussões que estão sendo realizadas, pelas articulações em andamento e pelos movimentos em apoio à Cinemateca, quero terminar com algum tom de otimismo. Por acreditar no potencial da Cinemateca para promover debates e exibição de filmes, para efetivar o acesso às mais olvidadas coleções, ser um espaço para pesquisa, prover referência imagética do passado e subsidiar pesquisa tecnológica; para cativar crianças e jovens com a telona, apresentar o pré-cinema e as tecnologias do audiovisual em um museu, e para engajar o bairro e a comunidade vizinha. Acrescente-se para vários outros modos de uso criativo do acervo e das ferramentas que demoraremos a exercer, devido às sucessivas crises que aumentam o passivo de trabalhos, aceleram a deterioração do acervo e limitam o poder de alcance da instituição. Neste momento fica ainda mais evidente o fato de que a Cinemateca está incluída no macro projeto de devastação da cultura e do patrimônio brasileiro e, a sua importância como uma força para reagir contra este projeto, portanto, cresce cada vez mais.

Agradeço Aline Machado pela revisão minuciosa.

1. O Ministério da Cultura foi extinto no primeiro dia do governo; foi incorporado inicialmente ao Ministério da Cidadania e, posteriormente, ao do Turismo. Até o momento, a Secretaria Especial da Cultura já teve cinco titulares sem comprovada expertise, e outras instituições de patrimônio cultural passam por agudas crises, como a Fundação Casa de Rui Barbosa e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv). A Agência Nacional do Cinema (Ancine) não repassou recursos já comprometidos e não lançou novos editais. Destaca-se que a Constituição Federal, que rege a democracia brasileira, prevê em seu Art. 215 que o “Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”; e em seu Art. 216, que o “poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro”.

2. De 2016 a 2020 trabalhei no departamento de Preservação de Filmes da Cinemateca Brasileira. Compartilho reflexões subjetivas a partir de minha experiência, com ênfase nas atividades do departamento.

3. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

4. Por meio de uma política descentralizadora do Ministério da Cultura foram lançados editais de desenvolvimento e produção, com cotas para estados usualmente com restrito investimento no audiovisual, e projetos de baixo orçamento, editais específicos para novos diretores, mulheres e povos nativos.

5. Regulamentado em 2007, o FSA é retroalimentado por um fluxo do imposto Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), coletado a partir de todas as janelas do audiovisual, e investido em novas produções, linhas de desenvolvimento, distribuição de produções para cinema e televisão e jogos eletrônicos. De 2008 a 2018 foram investidos, no total, cerca de R$ 4,5 bilhões.

6. Um exemplo emblemático desta dinâmica ocorreu em 2008, com a presença do então diretor-executivo da Cinemateca Brasileira na 3ª CineOP, cuja temática é Política Nacional de Preservação Audiovisual: necessidades e desafios. Ao longo do evento ele se posicionou com firmeza contra uma articulação das demais instituições, a criação de diálogo destas com o representante do Ministério da Cultura no evento e a criação da ABPA - Associação Brasileira de Preservação Audiovisual.

7. Dentre as propostas do Simpósio sobre o Cinema e a Memória do Brasil de 1979, consta “a criação e a dinamização de centros regionais de cultura cinematográfica constituídos por unidades de produção e por filmotecas (arquivos de cópias de filmes), com a função básica de prospecção, pesquisa e divulgação do acervo brasileiro [… e] o estabelecimento de um inventário [nacional]” (1981, 67). Laura Bezerra relata a “criação de um programa de apoio às cinematecas que, apesar de não ter implementado ações sistemáticas e abrangentes, destinou recursos para algumas ações setoriais” (2014, 120). A descentralização é necessária, considerando a continentalidade e pluralidade cultural do país, além de tecnicamente ser desejada em caso de sinistros.

8. A CineOP é um evento criado em 2006 e tornou-se o principal fórum de discussões e articulações em torno do patrimônio audiovisual e o ensino do audiovisual no Brasil. A cada ano é redigido um documento pelos participantes do Encontro, a Carta de Ouro Preto, com alertas e proposições para o campo.

9. A ABPA é uma associação de profissionais, independentemente do vínculo com instituições, e tem atuado em prol de políticas para o setor, na projeção do patrimônio audiovisual e na realização de projetos, como a tradução e publicação de textos técnicos. A ABPA criou em 2016 o PNPA, documento de diagnóstico e proposições de ações e políticas para o campo da preservação audiovisual. https://abpanet.org/

10. O papel principal do Conselho é atuar no desenvolvimento da Cinemateca. Seus membros são representantes dos poderes públicos da esfera federal, estadual e municipal, além de indivíduos da sociedade civil com atuação em cinema ou patrimônio. Curiosamente, nota-se uma predominância de homens dentre os conselheiros ao longo dos anos.

11. Atualmente é o Cinesala. Cinesala. Disponível em: http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

12. O matadouro teve suas atividades encerradas em 1927. O terreno estava sendo utilizado como depósito de equipamentos de iluminação pública.

13. A partir de ideia de Gilberto Gil, músico e então membro do conselho de assessoramento cultural da BR Distribuidora, e posteriormente Ministro da Cultura, de 2003 a 2008.

14. Empresa estatal que impulsionou a produção, distribuição, exibição, preservação e restauração do audiovisual – vinculada à Petrobras, empresa brasileira de energia, gás e petróleo.

15. Em colaboração com a CB, o projeto também foi realizado na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro, inclusive o inventário do acervo, inédito na instituição e processamento de materiais deteriorados. A Cinemateca do MAM estava subjugada à direção do Museu, que determinou, de forma arbitrária, que não teria condições de manter o acervo audiovisual (insolitamente após o inventário). Como resultado, parte do acervo foi alocada no Arquivo Nacional a partir de 2002 na mesma cidade, e parte foi recebida pela CB. Alguns detentores de materiais optaram por guardar consigo, muitas vezes em lugares inapropriados. Essa foi uma das maiores crises da instituição, de relevância histórica para o cinema brasileiro (sobretudo para o movimento do Cinema Novo) e para a preservação audiovisual, cuja direção passou por Cosme Alves Netto, com notória ligação com instituições internacionais. A partir de 1996, Hernani Heffner ingressa na instituição. Em 2020, passa por uma consolidação, com um novo prédio para o acervo documental e com mudanças estruturais na direção do Museu.

16. Segundo Souza, a Filmografia Brasileira foi iniciada por Caio Scheiby em fichas em papel e, nos anos 1980, foram publicados quatro cadernos com registros dos filmes produzidos até 1930 (2009, p.259). Atualmente, de acordo com o site da instituição, “contém informações de aproximadamente 42 mil títulos de todos os períodos da cinematografia nacional e da produção audiovisual mais ampla e recente, sejam curtas, médias ou longas-metragens; cinejornais; filmes publicitários, institucionais ou domésticos; e obras seriadas (para internet e televisão), com links para registros da base de dados de cartazes e referências de fontes utilizadas e consultadas”. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 13 ago. 2020.

17. Texto extraído da plenária realizada em 2008. Disponível em: http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. Acesso em: 2 ago. 2020. Segundo Laura Bezerra, “o SiBIA foi pensado e executado a partir da CB/SAv sem quaisquer debates e negociações com os atores envolvidos, o que contradiz o espírito democrático-participativo defendido e praticado em documentos e ações do MinC” (2014, 185). O II Encontro Nacional do SiBIA ocorre em 2009, com 33 instituições de todo o país, e suas propostas, que demandavam recursos e ações da SAv, não se efetivaram. O projeto é extinto em 2009, sem desdobramentos práticos.

18. A Programadora Brasil foi um projeto de difusão de filmes (animação, experimental, ficção, documentário), que atuou de 2006 a 2013, por meio da edição de DVDs para circuito não comercial (cineclubes, centros culturais, escolas, universidades), em um total de 970 obras divididas em 295 DVDs.

19. Relatórios institucionais da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

20. Esta unidade foi afetada pela enchente no início de 2020.

21. Revista da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

22. Acervos adquiridos pela União sob a guarda da Cinemateca: Estúdios Vera Cruz e Atlântida Cinematográfica (em 2009), Canal 100 e Glauber Rocha (em 2010), Goulart de Andrade e Dulce Damasceno de Brito (em 2011) e Norma Bengell (em 2012).

23. A paralisia afeta também o Centro Técnico do Audiovisual (CTAv), instituição no Rio de Janeiro, que correalizava diversos projetos da SAv com a CB.

24. Depósito Legal é o mecanismo de depósito de materiais comprobatórios da realização da obra audiovisual subvencionada com recursos federais, em instituições credenciadas pelo governo federal – até o momento, somente a CB. Após a aprovação do material (de acordo com diretrizes técnicas), a empresa produtora torna-se apta a receber a última parcela do investimento. Devido à redução do fluxo de análise na crise de 2013, foi gerado um passivo de materiais a serem analisados.

25. Olga Toshiko Futemma atua na Cinemateca Brasileira desde a década de 1980, com destaque para seu trabalho no Centro de Documentação e Pesquisa. Tornou-se diretora-executiva em 2004, diretora-adjunta de 2007 a 2013 e diretora de 2013 a 2018, quando se torna Gerente de Acervos. Participou do Comitê Executivo da Fiat a partir de 2009 até o ano de 2013.

26. Após o incêndio, foi mantida a mesma estrutura. De acordo com o Relatório da CB de 2016: “a edificação, desenhada nos anos de 1990, foi construída sem instalações elétricas ou hidráulicas, de modo a minimizar os riscos de acidente; sem climatização ativa, mas mantendo a temperatura interna com as menores variações possíveis e permitindo a circulação de ar, para evitar o acúmulo de gases resultantes da deterioração do suporte. Em caso de autocombustão […] inevitavelmente consumiria todo o conteúdo da câmara, mas não se espalharia para as outras adjacentes” – que foi o que ocorreu em 2016, o fogo consumiu apenas uma das quatro câmaras.

27. Como exemplo, o ARRISCAN, quando adquirido, foi adaptado para materiais deteriorados, o que permitiu o escaneamento de negativo com 4% de encolhimento, medida que seria considerada inviável para outros laboratórios.

28. Bases de dados do Centro de Documentação e Pesquisa. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 7 ago. 2020.

29. O setor de difusão seguiu praticando a premissa de exibição de filmes do acervo, respeitando seu suporte original, privilegiando o cinema brasileiro; e realizando mostras, com materiais do acervo ou de parceiros, ou recebendo festivais nas duas salas de cinema e na tela externa da Cinemateca – projeções em 16mm, 35mm e digital, e alguns formatos em vídeo analógico.

30. Ainda de acordo com o relatório, “o processo de duplicação emergencial difere da restauração de filmes, conceito este aplicado quando são confeccionadas novas matrizes de preservação, de imagem e som, e cópias de acesso, incluindo diferentes graus de manipulação para minimizar marcas do uso ou deterioração, buscando a forma como a obra foi difundida em seu lançamento original. Uma restauração usualmente reúne e compara diversos materiais para seleção dos melhores, enquanto a duplicação emergencial trata de uma copiagem de um suporte em deterioração avançada, geralmente único, para um outro, novo.”

31. Carlos Roberto de Souza destaca que “os trabalhos de pesquisa e historiográficos brasileiros realizados […] chamaram a atenção para o fato de que é um equívoco construir uma história do cinema brasileiro a partir do filme de ficção de longa metragem. A produção brasileira de maior volume foi sempre a de documentários e cinejornais, geralmente relegada a segundo plano pelos chamados historiadores clássicos, pela mídia e pelo público em geral. A realidade da produção reflete-se no acervo cinematográfico que chegou até nossos dias. O percentual de filmes de não-ficção ultrapassa avassaladoramente o de longas de ficção e continua o menos preservado. Isso não significa que todos os longas de ficção estejam preservados. Longe disso. A parcela mais tratada – nem sempre com os cuidados que merece – é a dos longas brasileiros consagrados.” (2009, p.261).

32. Posteriormente descobriu-se que há um campo homônimo na base Filmografia Brasileira, conduzida pelo Centro de Documentação e Pesquisa, que constava dentre os campos excluídos do fluxo à época. Tratava-se de um sistema numérico de 0 a 5. Considerando que os técnicos da Preservação que propuseram a metodologia não tinham experiência anterior na instituição, a proposição não seguiu o sistema numérico, mas categorias de texto. Como exemplo, as categorias ‘preservado no momento’ (considerando matrizes originais, intermediários e cópias de acesso em bom estado, por exemplo), ‘parcialmente preservado’, ‘não preservado’, ‘parcialmente perdido’, com a inclusão de adendos como ‘com defeitos’ (interferências na imagem ou som), ‘incompleto’, etc. O sistema permitiu agilidade nos fluxos de seleção de materiais para duplicação emergencial e pesquisa para acesso externo.

33. Ferramenta proposta pela Unesco em 1988, por seu caráter moldável, que se assemelha a cartões físicos de biblioteca individuais, com limitado cruzamento de informações.  

34. A ferramenta foi inicialmente pesquisada e selecionada pelas equipes do laboratório e de desenvolvimento anteriormente a 2016. Foi adotado pela equipe da preservação em 2016, perfil mais institucional em 2017 – trac.cb – em seguida pela equipe do Centro de Documentação e Pesquisa e, por último, e com uso comedido, pela equipe da difusão.

35. Precisamosfalar sobre... o logo da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. A logomarca é identificada por muitos por sua forma fálica, o que poderia ter contribuído para o grau de viralização e atenção à Cinemateca em 2016.

36. Manifesto pela Cinemateca Brasileira - 2016. Disponível em: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com. Acesso em: 20 jul. 2020.

37. 100 Paulo Emílio. Disponível em: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. Acesso em: 20 jul. 2020.

38. Questiona-se a legalidade da realização de um aditivo ao contrato principal. De qualquer forma, consideramos um ultraje que a gestão da Cinemateca Brasileira seja regida por um aditivo como instrumento legal.

39. Como ocorreu em casos de acesso aos originais para digitalização e licenciamento ao Canal Brasil, principal canal de televisão de obras brasileiras, que estava atualizando seu catálogo, anteriormente em resolução SD. A entrega ao Canal seria em HD ou superior, apesar de ser uma resolução datada. Os produtores optavam por resolução HD e não em 2K, por limitação de orçamento, mas além de ser mais relevante comercialmente a médio prazo, o 2K representa uma ação mais significativa de preservação, uma vez que seria um resguardo por mais tempo do material original em película – grande parte já em más condições.

40. Sobretudo a pejotização: a contratação de serviços de indivíduos por meio de empresas constituídas para tal.

41. Essa dinâmica de dispersão de força de trabalho é ainda mais perigosa no contexto da preservação digital, que demanda uma constante atualização de saberes devido, à incessante mudança da tecnologia e de práticas de mercado.

42. E-mail de 29 de junho de 2016. Disponível em: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Acesso em: 15 jul. 2020. Débora Butruce indica que o tema de gestão por OS foi debatido em um Grupo de Trabalho ao longo de alguns anos: 15ª CineOP. Instituições de patrimônio em risco: Caso Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. Além de Butruce, participaram do debate Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira e Eloá Chouzal, na mediação.

43. Jorge Barcellos resume da seguinte maneira: “[…] ao longo do tempo as OS tornam-se deficitárias e custosas”; e alerta que “segundo Alzira Angeli, da Controladoria Geral da União, estas organizações transformaram-se no novo nicho de mercado da corrupção e [segundo o historiador Francisco Marshall] “a iniciativa promove a degradação da gestão pública”. Disponível em: https://jorgebarcellos.pro.br. Acesso em: 20 ago. 2020. Como exceção, alguns museus no Estado de São Paulo seguem com êxito no modelo de gestão por OS.

44. Em contraste com o modelo estadunidense, no qual famílias bilionárias e grandes corporações subvencionam projetos e instituições de cultura e patrimônio, por fundações.

45. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com diversos benefícios ao trabalhador, como férias remuneradas, 13° salário, seguro-desemprego, auxílio-doença, salário-família, salário-maternidade e aposentadoria.  

46. A prospecção de materiais é uma função primordial da CB, por ser a principal instituição nacional e considerando o secular histórico de destruição e descaso com o patrimônio audiovisual brasileiro. Tornaram-se notórias notícias de acervos potencialmente valiosos nos últimos anos, e não foi possível a atuação de técnicos da CB. Por intermédio da Acerp, foi feita avaliação em um acervo no interior de São Paulo. O corpo técnico assumiu o contato com o Ministério das Relações Exteriores para a avaliação da listagem de acervos de cópias 35mm em Embaixadas do Brasil em Roma, Berlim e Haia para a repatriação. Acerp posteriormente assumiu o diálogo e não conseguiu efetivar o translado.

47. A Missão Institucional estava sendo consolidada em um documento, que não se efetivou na gestão da Acerp.

48. Fórum de discussão de liberdade, autonomia, segurança na Internet. CryptoRave. Disponível em: https://cryptorave.org. Acesso em: 15 ago. 2020.

49. A distância entre as duas cidades é de mais de 400 km, cerca de 1 hora de voo.

50. Militares fardados ocasionalmente visitavam a instituição. Um episódio tornou-se notório: a visita de um deputado, com mesmo sobrenome que seu tio-avô, o primeiro presidente da ditadura militar. Ele publicou um vídeo em redes sociais, dentro da CB e acompanhado por representantes da instituição, anunciando a mostra de filmes militares, reproduzindo o slogan de campanha do presidente e batendo continência. A série não foi realizada.

51. O que possibilitou uma efetiva resposta aos danos ao estúdio e ao acervo do fotógrafo Bob Wofelson, localizado nas mediações do galpão da Cinemateca, que contou com um número grande de voluntários sob coordenação da equipe técnica do Instituto Moreira Salles (IMS). Uma técnica da Cinemateca Brasileira estava entre as voluntárias (fora do horário de trabalho da CB). Essa foi a 2ª enchente que afetou o estúdio do fotógrafo. As enchentes na região são recorrentes, de maneira que esse relato é a crônica de uma tragédia anunciada.

52. O trabalho consistia em movimentar sacos com pilhas de latas de filmes cheias de água suja, abrir cada lata para verificar o estado do material, determinar destino ao material e organizar o acervo nas estantes. Em um primeiro momento, as equipes de limpeza e manutenção executaram uma força tarefa junto à equipe técnica para escoar a água, limpar estantes e ajudar na movimentação de sacos de filmes, porém antes que esse trabalho chegasse ao fim, essas equipes foram drasticamente reduzidas.

53. A primeira delas, referente à nomeação como diretora de uma atriz que desempenhava há dois meses o papel de Secretária Especial de Cultura em Brasília e queria retornar a São Paulo por questões pessoais. No entanto, não havia nenhum cargo legalmente disponível para ela assumir na CB naquela época e ela acabou não trabalhando na instituição.

54. Cinemateca Brasileira pede socorro. Acesso em: 9 set. 2020. Nesta data, o manifesto teve mais de 28,5 mil adesões.

55. Cinemateca Viva, grupo formado por Associação dos Moradores da Vila Mariana <http://www.cinematecaviva.com.br>; o grupo Cinemateca Acesa <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; e Cinemateca em Crise, criado em 2013, com atualizações com a crise de 2020 <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. A Apaci desde 2015 esteve ativa e em contato com a diretoria da CB, para garantia da execução dos trabalhos da instituição.

56. Trabalhadores da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/trabalhadorescb. Acesso em: 18 ago. 2020.

57. Cinemateca Brasileira - Trabalhadores em Emergência. Disponível em: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca. Acesso em: 30 ago. 2020.

58. A crise na cinemateca brasileira - Soluções Urgentes. Disponível em: https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. Acesso em: 30 ago. 2020. Gabriela Queiroz, coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa desde 2014 até 2020, representou a instituição.

59. Como exemplo, as afirmações de que “todo” o patrimônio audiovisual brasileiro está na CB, de que a instituição poderia pegar fogo se a luz fosse cortada (os depósitos de nitrato não possuem sistema elétrico); e a utilização do termo ‘laboratórios climatizados’ para designar ‘depósitos climatizados’.

60. A entrega de chaves foi marcada pela presença de agentes ostensivamente armados da Polícia Federal, que foram convocados com o pressuposto de que poderia haver resistência na entrega das chaves pela Acerp. As chaves foram entregues, os documentos foram assinados e foi realizada uma visita técnica. Mesmo que utilizada de forma coadjuvante, foi a primeira vez que intimidação policial ocorreu na instituição. A Acerp tentou obter ressarcimento dos valores investidos na CB em 2019 e 2020, alegadamente no total de R$ 14 milhões.

61. Carta de Gramado 2020. Disponível em: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado. Acesso em: 30 set. 2020.

62. Generalizações são arriscadas e podem ser equivocadas. Afinal, temos muitos produtores que entendem, enaltecem e investem em preservação, sobretudo depois da crise de 2020. Se essas palavras não fazem justiça à atuação de produtores em prol do patrimônio audiovisual, ficarei feliz em publicar meu equívoco. Mas esse texto foi fermentado pela frustração de ver a soberba da cadeia audiovisual, com suas festas, mercados, deals, marketshare, box office, hold back, catch up, pitch, players e recursos caudalosos, enquanto a menção a investimentos em preservação gerava tremores! Essa postura gananciosa da cadeia produtiva é um descaso em relação ao patrimônio audiovisual brasileiro e aos profissionais da área.

63. Fontes: sites do FSA e da Cinemateca Brasileira. Originalmente publicado em MENEZES, Ines Aisengart. O profissional atuante na preservação audiovisual. Museologia & Interdisciplinaridade. Vol. 8, nº15, Jan./ Jul. de 2019. Nota do original com correção: A Cinemateca Brasileira é a única instituição que recebe materiais em Depósito Legal e conforme Laura Bezerra (2015), seu orçamento representa quase que a totalidade de investimentos em preservação audiovisual, no período, no país. Desta forma, considero o gráfico uma ilustração direta do desnível de investimentos em produção e preservação audiovisual”. O gráfico alcança somente até 2017, pois a partir de então a Cinemateca Brasileira não publicou mais relatórios institucionais. Em 2019, no novo governo, foram interrompidos os repasses do FSA.

64. Documento SEI / ANCINE - 0413350 - Resolução CGFSA Nº 101 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos FSA 2017. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 101 - aprova PAI FSA 2017.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

65. Por meio de mecanismo não reembolsável, que não prevê o retorno em lucro financeiro, mas com outros desenhos de contrapartida.

66. Documento SEI / ANCINE - 0845324 - RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos de 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Plano Anual de Investimentos 2018.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

67. Recursos disponibilizados para Ações e Programas - 2008 a 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. Acesso em: 3 out. 2020. Valor completo informado nesta data de R$ 4.558.877.384,00.

68. De acordo com Gomes (2020), a maioria dos materiais recebidos em Depósito Legal está em HD externos, que necessitam verificação contínua – “materiais digitais, portanto, requerem checagens e migrações mais constantes, uma necessidade que a Cinemateca Brasileira ainda não pode atender, tanto por limitações do número de funcionários, quanto financeiras”. Parte da numerosa coleção em vídeo magnético da instituição é oriunda de Depósito Legal. De um modo geral, no período de 2016 a 2020, não foram realizadas ações de preservação das coleções em vídeo e digital, somente duplicação para acesso. Considerando a inação, de uma forma ampla e sistemática, em relação ao escopo do patrimônio concebido em digital, pode-se esperar uma superação das (notoriamente altas) taxas de perda em relação ao patrimônio em película – sobretudo em relação às primeiras produções criadas em digital.

69. ICAB e NETFLIX fazem parceria para criar FUNDO EMERGENCIAL de apoio a comunidade criativa brasileira. Disponível em: http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html. Acesso em: 27 set. 2020.

70. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. Disponível em: https://www-newsweek-com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. Acesso em: 27 set. 2020. Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Acesso em: 27 set. 2020. O repertório de filmes antigos é um nicho explorado por plataformas como The Criterion Channel e Mubi, entre outros.

71. Um aspecto sensível para a comercialização de obras antigas é a normatização, para emissão do Certificado de Produto Brasileira (CPB) e a documentação dos direitos, para viabilizar o licenciamento. Historicamente, muitos filmes foram realizados sem a devida documentação e muitas empresas se dissolveram sem a documentação de repasse dos direitos.

72. No contexto brasileiro, onde a primeira atividade como profissional é explicar qual a sua função como profissional, os documentários da Netflix com imagens de arquivo costurando sua narrativa costumam ser uma explicação para leigos sobre a importância da preservação do patrimônio.

73. Relatório de 2016: páginas 55 e 56. Correção ao conteúdo: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) é colorido, não p&b.

74. Aqui vale uma reflexão sobre a excelência catalográfica e a boa navegabilidade do projeto, mas a necessidade de revisão de especificidades técnicas e das dimensões do logo ocupando parte da imagem, experiência reportada como frustrante para muitos.

75. Filmes brasileiros considerados perdidos ou prestes a sê-lo. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm. Acesso em: 21 ago. 2020.

76. Como tecnologias proprietárias; obsolescência de formato de arquivo, codec, software, hardware; gerenciamento de metadados; migração, entre outros.

77. Além de catastrófico ambientalmente para a fauna e a flora, a devastação vai afetar diretamente o campo de preservação de patrimônio cultural, pela relação direta com o clima, como a variação maior de temperatura e umidade, por exemplo. Desconheço estudos no Brasil sobre a crise climática e a área de patrimônio. Mundo afora, destaco o Orphans 2020, em torno do qual ocorreram diversos debates.

78. Supercomputador de inteligência artificial da série da Westworld (2016, Jonathan Nolan), ambientada em quase quatro décadas no futuro.

79. Cujo símbolo é a ciência sendo desacreditada pelas redes sociais e meios de comunicação de mensagens (sobretudo WhatsApp, empresa adquirida pelo Facebook), tornando difícil a difusão de informações cientificamente fundamentadas, com olhar crítico na contenção da pandemia de Covid-19. Uma pesquisa realizada em vinte países mostra que brasileiros são os que menos acreditam em seus cientistas: Brasil de costas para a ciência. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia. Acesso em 30 set. 2020.

80. Filmografia Ditadura Brasil. Disponível em: http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html. Acesso em: 2 set. 2020.

BIBLIOGRAFIA

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

A Cinemateca Brasileira (CB) é a principal instituição de patrimônio audiovisual do Brasil e, em 2020, passa por sua pior crise. Como resultado, seu expressivo acervo audiovisual e documental está ameaçado, bem como seu complexo parque tecnológico e os saberes técnicos que o permeiam. No início do ano, uma enchente ocorreu em um galpão em uma de suas unidades, afetando drasticamente sobretudo parte de seu acervo de película e de equipamentos. Desde agosto de 2020, as instalações e os acervos estão sem acompanhamento técnico; e até a conclusão deste texto não há perspectiva de uma resolução imediata, condizente com a urgência. A inação e o descaso com a Cinemateca Brasileira são mais uma das perversidades do atual governo, e se soma ao desmonte estrutural do sistema público de saúde, educação e cultura,1 e ao projeto de ecocídio e genocídio da população indígena e negra; este último acelerado pela pandemia de Covid-19. A crise da Cinemateca tomou proporções inéditas em 2020, mas sua origem é anterior, perpassando a crise administrativa e política de 2013 e um incêndio no início de 2016. Este artigo tem como enfoque os trabalhos realizados na Cinemateca Brasileira a partir de meados de 2016, de grande fôlego e entusiasmo na retomada dos trabalhos; o desafio de sua continuidade com a redução da equipe em 2017; a suposta solução com um novo modelo de gestão em 2018; e a hecatombe de 2020.2 O texto também apresenta conjecturas sobre as relações entre o patrimônio audiovisual e a cadeia produtiva do audiovisual. A sucessão de crises ao longo dos 74 anos da instituição, acentuadas por quatro incêndios e a enchente, são de forma mais ampla, o que a museóloga brasiliense Fabiana Ferreira destaca em sua tese A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil (2020). Ela alega que “o único aspecto estável nas políticas públicas de preservação audiovisual é sua inconstância. Uma sucessão de desencontros e desarticulações por parte dos agentes políticos responsáveis pela criação e implementação de políticas sem um real projeto de Estado que atravessa governos” (2020, p.109). Segundo Hernani Heffner, não é somente a maior crise da Cinemateca Brasileira, mas a maior crise do patrimônio audiovisual brasileiro.3

Panorama das Últimas Duas Décadas

O Brasil é uma república federativa presidencialista, com 26 estados e um distrito federal, de dimensões continentais – o quinto maior país do mundo em extensão territorial. O país passou por dois processos de redemocratização, sendo o mais recente a partir de 1984, após a ditadura militar estabelecida em 1964. Neste novo século, o país contou com um crescimento econômico, teve significativa redução das desigualdades sociais e de índices de pobreza extrema, ampliação de universidades e um processo de fortalecimento da indústria do audiovisual, por meio de políticas e programas federais, com destaque para as políticas de investimento da Secretaria do Audiovisual (SAv) / Ministério da Cultura (MinC)4 e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA)5, o que gerou amadurecimento de profissionais, das empresas, e traduziu-se em um volume crescente de obras a cada ano. Eventuais recursos municipais e estaduais somavam-se aos federais. Laura Bezerra pondera que, enquanto o governo investia na descentralização das políticas de cultura, o mesmo não ocorria com a preservação (2015). Nesse período e a partir de sua inclusão no organograma da SAv, houve sólidos investimentos na Cinemateca Brasileira, mas foram diminutas as discussões políticas sobre a gestão do patrimônio, e acerca das ações e mecanismos necessários para que essa gestão fosse feita de forma profunda e mais ampla.6 – referência fundamental para o entendimento do tecido da crise atual. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira, “a Cinemateca não atua na criação e implementação de políticas de preservação, seja realizando discussões e dialogando com o setor, seja participando ativamente dos espaços políticos no âmbito federal, como o Conselho Nacional de Cinema, por exemplo. Também não houve diálogo estruturado com outras entidades gestoras de memória” (2020, p.108). A insuficiência do Estado na gestão do patrimônio acarreta graves reverberações, que abalam a cadeia produtiva do audiovisual – esta não parece vislumbrar a preservação como elemento integrante e necessário para a própria cadeia. Ainda, a crise da Cinemateca Brasileira torna-se mais um argumento para a descentralização (e incremento) de investimentos na gestão do patrimônio audiovisual em todo país.7 O Brasil possui uma miríade de instituições de patrimônio federais, estaduais, municipais e privadas que não estão no holofote, mas que também demandam ações e recursos urgentes.

As últimas décadas foram de constante amadurecimento da área de preservação audiovisual, com a instauração de programas de financiamento específicos; o impulso de publicações; a criação e crescimento da CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto, na qual ocorre o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais8 a formação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) e a elaboração do Plano Nacional de Preservação Audiovisual (PNPA);9 além do crescente número de eventos.

Cinemateca Brasileira – Breve Histórico

A Cinemateca Brasileira contou com diversos arranjos administrativos, tendo começado como uma organização da sociedade civil e, posteriormente, passou para a esfera pública. Seu longo histórico abarca muitos percalços com alguns respiros. O escritor, ensaísta, crítico, pesquisador, professor e militante Paulo Emílio Sales Gomes  (1916-1977) é o protagonista na criação, defesa e gestão da Cinemateca. A atuação de Paulo Emílio é mais ampla que a própria Cinemateca, é fundamental na valorização do cinema brasileiro – e em sua qualificação como documento histórico –, na defesa de sua preservação, na criação de cursos de cinema em universidades, atuante na política internacional – como membro regular do Comitê Executivo da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF), entre 1948 e 1964, e eventualmente como vice-presidente –, além de autor referência em estudos historiográficos de cinema, com suas publicações sobre o francês Jean Vigo e sobre o brasileiro Humberto Mauro. Como professor, foi muito importante pela formação de cinéfilos, intelectuais, críticos de cinema e preservacionistas – sendo que alguns deram continuidade a seu trabalho na Cinemateca Brasileira.

Considerando a profusão de publicações sobre a Cinemateca Brasileira em português, e o limitado repertório em inglês, e tratando-se de uma plataforma bilíngue, apresento um breve apanhado, com momentos-chave sobre a história da instituição. Em 1940, por iniciativa de intelectuais paulistanos, foi criado o Clube de Cinema de São Paulo. Promovia a exibição de filmes, conferências, debates e publicações. Foi fechado pela ditadura de Getúlio Vargas em 1941. Em 1946 Paulo Emílio vai para a França estudar no Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC) e torna-se ainda mais próximo da Cinemathèque française, instituição com a qual mantinha contato, pois já havia morado em Paris na década anterior, período em que sua paixão pelo cinema despertou. Nesse ano é criado o Segundo Clube de Cinema de São Paulo, dessa vez, além de contar com as atividades anteriores, também tinha a iniciativa de prospecção e preservação de materiais de obras brasileiras. Portanto, 1946 é considerado o marco da criação da instituição. O Clube é filiado à FIAF por Paulo Emílio em 1948. No ano seguinte, é criada a Filmoteca do (recém-criado) Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1956 desliga-se do museu e se converte em Cinemateca Brasileira, sociedade civil sem fins lucrativos. Neste ano é formado o Conselho Consultivo.10 Em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato de celulose, ocorre o primeiro incêndio no verão de 1957, que “destruiu integralmente a biblioteca, a fototeca, os arquivos gerais e a coleção de aparelhos para o futuro museu de cinema, assim como um terço do acervo de filmes” (Gomes, 1981, p. 75). A tragédia suscita o apoio e doações de entidades nacionais e estrangeiras, e a Cinemateca ganha um espaço no maior parque urbano de São Paulo, o Parque Ibirapuera. Em 1961 torna-se uma fundação sem fins lucrativos, fato importante para sua autonomia e para o levantamento de recursos públicos.

No ano seguinte, é criada a Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), entidade civil sem fins lucrativos, para auxiliar a Cinemateca na gestão de recursos financeiros e para desenvolver atividades de apoio à Fundação. Se inicialmente as ações de difusão eram o motor da Cinemateca, a partir da década de 1970, a preservação passa a ser seu eixo, em parte pelo estado de seu acervo. O final dos anos 1960 e meados dos 1970 é um período crítico, com poucos funcionários, por vezes em trabalho voluntário. Em 1963 a Cinemateca é desligada da FIAF, devido ao não pagamento das taxas de anuidade, retomando como observadora em 1979, e como membro pleno somente em 1984. O segundo incêndio ocorre no verão de 1969, pelo mesmo motivo que o anterior, com perda significativa de materiais documentais. Em 1977 o laboratório da instituição é iniciado, a partir de equipamentos de laboratórios comerciais desativados. Paulo Emílio falece nesse mesmo ano, de ataque cardíaco.

Em 1980 é inaugurado no Parque da Conceição o Centro de Operações, para trabalhos de documentação e pesquisa. O terceiro incêndio ocorre no outono de 1982. Como decorrência, um movimento pela incorporação ao poder público culmina na extinção da Fundação Cinemateca Brasileira e na incorporação, como órgão autônomo, à Fundação Nacional Pró-Memória, do governo federal, em 1984. Em 1989 é alugado um cinema11 em Pinheiros, bairro movimentado da cidade, que alavancou significativamente a cinefilia da cidade. Ao final desta década, seu quadro funcional conta com cerca de 40 pessoas, sendo 30 contratados, muitos ex-alunos de Paulo Emílio.

Em 1990 a Fundação Nacional Pró-Memória é extinta, e a Cinemateca é incorporada ao Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC), criado naquele ano, e quatro anos depois transformado em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 1997 é inaugurada sua sede definitiva,12 no antigo Matadouro da Vila Mariana, em terreno cedido pela prefeitura, após nove anos de reformas – com o devido tombamento do conjunto arquitetônico. A sede definitiva agrega os departamentos e salas de exibição antes espalhados pela cidade de São Paulo, e pode ser vista como elemento-chave no processo de consolidação da instituição, após décadas de escassez de recursos, precariedade de infraestrutura, mudanças na dinâmica administrativa e institucional.

Em 2001 é inaugurado seu depósito de matrizes, inicialmente com capacidade para 100 mil rolos de filme, com controle de temperatura e umidade. No mesmo ano é iniciado o projeto Censo Cinematográfico Brasileiro,13 com financiamento da BR Distribuidora14 O projeto foi um importante marco para a identificação e tratamento do acervo da instituição,15 e para a formação de mão de obra técnica. Ele “organizou-se sobre quatro eixos básicos: o levantamento e exame do acervo existente, concentrado e disperso; a duplicação de filmes amea[ça]dos de desaparecimento por seu estado de deterioração; a divulgação do trabalho e de seus resultados; o estudo de medidas legais para a proteção do patrimônio audiovisual” (Souza, 2009, p.258). Em 2003 a Cinemateca é incorporada à SAv/MinC, após deliberação do Conselho, considerando que o IPHAN não estava atendendo o escopo e não se envolvia nas estratégias da Cinemateca senão para aprovar planos de trabalho. Nos anos subsequentes, os recursos repassados pelo MinC aumentam gradualmente. Em 2003 é implementado um programa de estágio de curta duração para técnicos de outras instituições. De 2004 a 2006, o projeto Prospecção e Memória dá continuidade ao projeto do Censo, sobretudo em relação à catalografia de obras brasileiras, compiladas na base de dados Filmografia Brasileira.16

Em 2005 é criado o Sistema Brasileiro de Informações Audiovisuais (SiBIA), programa da SAv, com coordenação da CB, “programa que visa estabelecer uma rede que conta neste momento com a participação de mais de 30 instituições que se dedicam, prioritária ou subsidiariamente, à preservação de acervos de imagens em movimento em todo o Brasil”.17 A instituição é escolhida como sede do 62º Congresso da FIAF em 2006, cujo tema é “O futuro dos arquivos de filmes em um mundo do cinema digital: arquivos de filmes em transição”. No mesmo ano, à ocasião do 60º aniversário da instituição, com comitiva de ministros e secretários, Luiz Inácio Lula da Silva é o primeiro (e único) presidente do Brasil a visitar a CB. Em 2006 é publicado o Manual de Manuseio de Filmes e o Manual de Catalogação da instituição, normativas internas e importantes referências para as demais instituições brasileiras, sobretudo à época, ainda com poucas publicações técnicas em português. Em 2008 a SAC torna-se uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e, a partir de então, são volumosas as transferências de recursos para projetos na Cinemateca. Na gestão da SAC, são realizados projetos da próprio SAv – como meio de garantir agilidade na execução de programas do Ministério, como a Programadora Brasil.18 A partir de 2008 são publicados relatórios anuais de atividades.19, à exceção dos seguintes anos: 2013, 2015, 2018 e 2019. Como resultado do Censo, são confeccionados materiais de preservação e difusão no laboratório da instituição, e realizadas restaurações com recursos de projetos e programas. Em 2009 é lançado o Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro, caixa de DVDs com 27 títulos de filmes silenciosos com trilhas sonoras compostas especialmente para a edição. Em 2011 é inaugurada uma instalação secundária na Vila Leopoldina,20 para armazenamento de películas, documentos, equipamentos, dentre outros. Em 2012 é publicada a primeira edição da Revista da Cinemateca Brasileira e, no ano seguinte, sua segunda edição.21 Em 2013 é instaurada uma crise político-administrativa, com a sumária exoneração do diretor-executivo da instituição, sem o devido diálogo com o Conselho, sem as medidas adequadas para sua substituição ou um plano de transição. São realizadas sucessivas auditorias da Controladoria Geral da União em relação à execução de recursos da SAv pela SAC e à aquisição de acervos pela União.22 Ao final do ano, dos 124 funcionários ativos antes da crise, poucos permaneceram, dentre eles os 22 funcionários públicos diretamente vinculados ao ministério.23 A partir do relatório de 2014, é possível verificar que alguns (poucos) fluxos de trabalho continuaram. Destaco a interrupção de um fluxo não executado em 2014 (e 2015), que afetaria drasticamente o acervo:

No verão de 2016 ocorre o quarto incêndio, mais uma vez em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato. A perda foi estimada em 1003 rolos de filmes em nitrato de celulose, referentes a 731 títulos. Além da descontinuidade da revisão deste acervo com a crise de 2013, alguns anos depois foram descobertos alguns rolos recém-chegados à instituição, que foram alocados no depósito sem a devida remoção da embalagem de transporte. Isso poderia ter sido evitado se a equipe técnica tivesse sido encarregada de alocar e realocar as obras dentro dessa coleção de filmes. Esse descuido potencialmente criou condições para um microclima sujeito à autocombustão e pode ter sido o segundo fator responsável pelo incêndio. Porém, o fator primário sempre será a irresponsabilidade do poder público, ante a falta de condições para o exercício das atividades básicas da instituição.

Cinemateca Brasileira – de 2016 a 2017

O incêndio de 2016 coincide com a entrada de 11 técnicos, viabilizados por um contrato de serviços firmado entre a SAv/MinC e a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que entrou em vigor no final de 2015, com duração de um ano. Ao todo, até meados do ano, foram 42 técnicos contratados, que se somavam aos 15 servidores diretamente vinculados ao MinC. Foram também contratadas empresas terceirizadas de serviços essenciais (manutenção, limpeza, segurança e TI) e 7 técnicos para o fluxo de Depósito Legal,24 viabilizados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). No relatório anual de atividades de 2016, o tom da apresentação da diretora Olga Futemma25 é de otimismo e orgulho pelo cumprimento das metas estabelecidas no Plano de Trabalho do Contrato, com a devida indicação das dificuldades e desafios criados a partir da descontinuidade dos trabalhos nos anos anteriores. Destaque para os trabalhos realizados em decorrência do incêndio:

“balanço e comunicação das perdas […]; exame, separação por grau técnico e triagem para encaminhamento de materiais [...] para processamento laboratorial; alocação provisória dos 3 mil rolos de nitrato remanescentes; elaboração de projeto de implantação, no depósito incendiado, de dispositivos contra sinistros […]; reforma básica do depósito, realizada pela equipe da Cinemateca, para o retorno da coleção […]; descarte técnico de resíduos do incêndio”.

Apesar do desastre, não foram obtidos recursos junto ao MinC para dispositivos contra sinistros.26 Outro desafio explicitado por Futemma foi a situação do Laboratório de Imagem e Som: devido à paralisação anterior, o “cenário era desolador”, dizia. Para enfatizar sua importância: trata-se de um dos mais completos (e último?) laboratórios de processamento audiovisual fotoquímico da América do Sul, com possibilidade de processamento de película para película (35mm e 16mm, suporte p&b de todos os materiais e confecção de cópias de materiais cor); de película 8mm, 9,5mm, 16mm e 35mm para digital (HD, 2K, 4K, 6K); back-to-film, de digital para película 35mm; captura de diversos formatos em vídeo (U-Matic, Betacam SP, Betacam digital, DVCam, entre outros) para digital; manipulação digital de imagem e som, incluindo correção de cor e restauração. O maquinário foi trabalhado ao longo dos anos para processar materiais com deterioração avançada.27 Devido à ausência de equipe nos anos anteriores e à decorrente falta de manutenção e peças, não foi possível retomar alguns fluxos.

O acervo audiovisual contém cerca de 250 mil rolos, entre películas com suporte de nitrato, acetato de celulose e poliéster, além do expressivo acervo de fitas e rolos magnéticos, e aproximadamente 800 terabytes de arquivos digitais, sobretudo de materiais digitalizados do acervo e materiais encaminhados para Depósito Legal. O acervo documental abarca cerca de um milhão de documentos relativos ao audiovisual, como cartazes, fotografias, desenhos, livros, roteiros, periódicos, certificados de censura, material de imprensa, documentos de arquivos pessoais e institucionais.28 Ademais, há uma coleção de equipamentos, não catalogada, de tecnologias do audiovisual de diversas décadas. No período recente, a instituição dividia-se nos setores: preservação de filmes, centro de documentação e pesquisa, difusão – programação.29 e eventos, atendimento, administração, manutenção e tecnologia da informação.

No setor de Preservação de Filmes, diversos fluxos foram executados ao longo de 2016: acompanhamento da climatização dos depósitos, movimentação de materiais de acordo com suas características físicas ou deterioração, revisão da documentação, atendimento a solicitantes e duplicação emergencial de materiais, que será comentada adiante. Um fluxo de trabalho importante foi a documentação, de forma coletiva, de ações necessárias, mas para as quais não havia recursos suficientes. Depois de meses de manutenções corretivas e avaliação dos químicos e de película virgem no estoque, foi iniciado o processamento de materiais em avançado estágio de deterioração considerados únicos: “a seleção foi feita considerando as condições técnicas dos materiais, [com investimento de] menos tempo e recursos nas ações complementares de uma só obra para que seja possível viabilizar ações, embora incompletas, em um número mais amplo de materiais”, de acordo com o Relatório de 2016.30

Devido às metas estabelecidas no Plano de Trabalho e aos exíguos tempo e equipe disponíveis em 2016, a seleção de materiais para processamento em laboratório foi realizada por apenas um técnico, sem debates e discussões mais amplas sobre o processo de seleção. Houve a precaução de não selecionar longas ficcionais consagrados31 abrangendo “materiais de obras de ficção, documentários, cinejornais, filmes domésticos e filmes científicos” e “sem avaliação subjetiva do conteúdo das obras ou curadoria” (Relatório 2016). A seleção priorizou a urgência pela deterioração do material e não pelo conteúdo. O aspecto crítico nesse fluxo consiste no que não estava sendo selecionado, e que possivelmente estava incrementando ainda mais o ostracismo da obra. Ao longo do processo de análise, materiais indicados para duplicação eram avaliados como não processáveis e, pelo potencial de unicidade, ainda que com esperança no surgimento de algum material, impossível não encarar como a morte da obra. Inúmeros materiais estavam tão deteriorados que não possuíam condições de duplicação na íntegra, e os novos materiais gerados muitas vezes continham as marcas fotográficas da deterioração. Durante este fluxo, foi utilizado o estoque de película comprada nos anos anteriores – que foi findando ao longo dos anos, sem renovação.

As eventuais mortes de obras e as especificidades de processamento suscitaram a necessidade de criar uma metodologia que avaliasse e documentasse a situação da obra, a partir de determinado conjunto de materiais, para nortear as ações de preservação e acesso. Assim surgiu o que foi denominado como “status de preservação”, categoria que, além se integrar à documentação interna, foi incorporada nas comunicações aos detentores de direitos das obras, com observações como “indicada para processamento” ou “necessidade de prospecção de novos materiais”.32 Uma vez que essas categorias são mutáveis uma vez que a condição dos materiais pode mudar, a data do status era tão importante quanto o próprio status como informação.

A plataforma de dados da Cinemateca Brasileira é o WinIsis33 um software bastante limitado como ferramenta de análise de dados de forma mais complexa. A retomada de trabalhos de análise do acervo audiovisual, a criação de novos materiais e a movimentação demandavam atualização constante da base de dados de materiais audiovisuais, que foi interrompida devido à detecção de problemas estruturais na própria base – com o risco de corrupção de dados. Em paralelo, o projeto de código aberto e baseado na web Trac.34 foi estruturado e normatizado para documentação interna – essencialmente documentação fixa em formato Wiki e sistema de tarefas por tickets. Essa intranet “possibilita manter a horizontalidade da informação em relação aos demais setores, a colaboração na construção da documentação, a perenidade e a organização da informação em uma mesma plataforma, […] utilizada para documentar procedimentos internos diversos; normas e bulas de preenchimento de documentos; relatórios e textos referentes à instituição; informações referentes a solicitações externas e dados de materiais analisados e processados”, de acordo com o Relatório de 2017. O esforço por manter uma documentação interna acessível, horizontal e transparente, condizente com o caráter de uma instituição de memória, não alcançava as comunicações com a Acerp e os projetos elaborados pela equipe e encaminhados aos Ministérios. Um elemento importante para o progresso dos trabalhos foi o investimento em desenvolvimento de tecnologia, como documentado no Relatório de 2017, o que permitiu a análise de informações da base de dados de forma dinâmica e a busca por soluções para fomentar a autonomia da instituição.

Merece destaque o projeto ClimaCB, criado para o monitoramento on-line da climatização, uma combinação de software e hardware de código aberto, cujas orientações e códigos estariam disponíveis em Git, para a livre utilização. Infelizmente, a publicação não foi efetivada. A participação da CB à frente de discussões técnicas e na publicação de proposições e soluções tecnológicas é ansiada, considerando seu potencial caráter medular, no âmbito da preservação audiovisual.

No período de dois anos durante o Contrato de Prestação de Serviços, Olga Futemma mantinha reuniões com a equipe técnica para compartilhar notícias, impressões e estratégias. Os eventuais encontros reforçavam a noção da proporção e da força da equipe, e serviam como injeção de ânimo. Outro elemento importante de coesão como equipe foi a construção de um novo site – o anterior tinha navegabilidade e ferramentas obsoletas. Um momento de visibilidade foi a realização de uma vinheta pela equipe técnica, mostrando o histórico da logomarca da instituição, criada em 1954.35

A equipe do setor de Preservação tinha um equilíbrio entre técnicos antigos na instituição, que garantiam uma necessária continuidade de fluxos, e técnicos que ali trabalhavam pela primeira vez, que proporcionavam um frescor na avaliação de fluxos e processos do setor. As dificuldades nas relações interpessoais em anos anteriores e a insegurança ocasionada pela crise de 2013 eram as referências negativas a serem evitadas.

O ano de 2016 ficou marcado pela autonomia e intensa comunicação da equipe técnica, mas também pelos percalços. Em maio foi lançado um edital para seleção de uma Organização Social (OS) para empreender a gestão da CB, pela então equipe do MinC do governo Dilma Rousseff. Pouco depois ocorreu o golpe misógino, caracterizado como um processo de impeachment da presidenta. Tão logo o novo presidente assumiu, quis acabar com MinC, mas voltou atrás, após forte pressão popular. O novo Ministro da Cultura cancelou o edital da contração da OS para a CB, que foi lançado meses depois, com alterações.

Em julho houve mais uma surpresa: a eliminação, por uma reestruturação do MinC, de cinco cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) da instituição, ocupados então pela diretora e por técnicos. A direção da CB seria ocupada por uma indicação do Ministério, sem a devida expertise e sem a participação do Conselho, dado inédito à época. Foram enviadas cartas de associações e o Conselho da CB lançou um manifesto36 pela revogação das demissões e pela vinculação da Cinemateca ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), o que auxiliou a reversão do corte do DAS da diretora e viabilizou a contratação de técnicos que ocupavam outros cargos, de outra forma.

Nos meses seguintes foi batalhado junto à SAv/MinC uma forma de evitar o intervalo entre o contrato de prestação de serviços com a Acerp – que terminaria em dezembro – e a implementação do Contrato de Gestão com a OS vencedora do edital. A solução encontrada, um dia antes do término do contrato, foi sua extensão até abril de 2017, mas “como o valor residual não é suficiente para remunerar por quatro meses todos os técnicos anteriormente contratados, foi preciso reduzir a equipe (em cerca de 75%) e, como consequência, frentes de trabalho”, segundo o Relatório daquele ano. O ano terminou com uma mistura de entusiasmo, pela celebração do centenário de nascimento do Paulo Emílio – com o lançamento de um esmerado site,37 de cursos ao público externo e publicações –, e de desânimo pelo corte da equipe, que só seria retomada em proporção similar em junho de 2017. É visível o impacto da forte redução dos técnicos, em um comparativo dos fluxos de trabalho nos Relatórios de 2016 e 2017, como pode ser explicitado pelos resultados do laboratório de metragem de material processado:

Em maio de 2018 foi celebrado o contrato com a OS, seguido por uma cerimônia com a presença do então Ministro da Cultura, que clamou que “a crise acabou” com o novo modelo de gestão. A Acerp, titular do contrato de prestação de serviços desde 2016, foi a OS selecionada no Edital. No caso da Cinemateca Brasileira, a costura jurídica do contrato de gestão por OS iria contribuir para a crise atual: a legislação não permitia que a Acerp firmasse um contrato de gestão diretamente com o Ministério da Cultura (órgão ao qual a Cinemateca estava vinculada), pois já tinha um contrato com o Ministério da Educação (MEC), então a gestão da Cinemateca foi oficializada por um aditivo ao contrato principal.38

Após a assinatura, a Acerp designou uma nova diretora para a Cinemateca, sem consulta ao Conselho, então relegado ao ostracismo. A primeira ação da Acerp com forte impacto na dinâmica da equipe técnica foi o estabelecimento de um núcleo de Atendimento para se dedicar ao crescente número de solicitações, sobretudo de acesso ao acervo audiovisual. Os serviços dos demais setores e o acesso ao acervo documental continuavam sendo viabilizados, mas, com o novo fluxo, se formou um gargalo no acervo audiovisual. Toda solicitação era registrada, respondida e eventualmente atendida, em teoria, considerando a ordem de chegada, a possibilidade de execução e os tempos de tramitações dentro da instituição. Apesar desse protocolo estabelecido pela equipe, um sinal da subjugação da CB seria a intensificação de projetos furando a fila, por determinação do ministro ou da diretoria da Acerp, o que gerava desconforto e inconformidade em parte da equipe.

Para a equipe de Preservação, o núcleo de Atendimento significou não ter mais contato com pesquisadores e produtores, que estavam acostumados com a maior agilidade que a expressiva equipe conferia antes de 2013 – e ficavam frustrados com a limitada capacidade de resposta impressa pela equipe reduzida. Ademais, o diálogo com produtores e pesquisadores – e suas práticas – denotava incompreensão da importância da preservação. Ou ainda, uma visão curta, até em termos de mercado, como a demanda para retirada de materiais para digitalização e licenciamento sem o processamento tecnicamente necessário.39 Outro indício da incompreensão e desrespeito com o viés da preservação é a não execução das contrapartidas especificadas pela CB. Relação elegantemente comentada por Olga Futemma, no Relatório de 2016: “algumas das situações ruins que enfrentamos decorreram de: prazos exíguos; a total desconsideração da necessidade de uma contrapartida – não em termos monetários, pois a Cinemateca não pode cobrar [à época] , mas em ações que deveriam estar previstas em seus projetos e que permitissem ampliar o acervo […]; a incompreensão de que materiais únicos (de preservação) não devem sair do acervo sem supervisão […]”. Ela acrescenta que “é preciso, portanto, continuar a empreender esforços para a mudança da concepção do bem público como algo de que se possa dispor livremente para a consecução de projetos privados, e para a compreensão da necessidade de, ainda na fase de elaboração, consultar sobre a viabilidade do projeto com a Cinemateca, no que diz respeito aos materiais pretendidos e aos prazos necessários para sua disponibilização. São duas condições essenciais para um planejamento que beneficie o solicitante e o acervo”.

Em setembro de 2018, antigos membros do Conselho emitem uma Notificação Extrajudicial ao MinC, requerendo a “revogação dos atos […] e normas que violem a autonomia técnica, administrativa e financeira asseguradas na escritura de incorporação da Fundação Cinemateca Brasileira […], além de: 1) Constituição de novo Conselho Consultivo com observância à necessária autonomia do órgão; […] 3) Retorno da Cinemateca Brasileira à estrutura do IPHAN”. A notificação menciona ainda a “omissão da SAv diante do incêndio [de 2016 … e] que a Cinemateca Brasileira nem mais consta da estrutura do Ministério da Cultura e nem mereceu nenhum cargo público comissionado”.

Gestão por OS na Cinemateca Brasileira

No momento de maior solidez da instituição, na primeira década deste século, a manutenção de seu corpo funcional foi um desafio constante. Os técnicos eram contratados por projetos com duração específica, por diferentes formas de vinculação.40 Essa dinâmica imprime fragilidade e instabilidade aos fluxos de trabalho, compromete estratégias e soluções estruturais, além de vulnerabilizar a própria equipe técnica.41 O modelo de gestão por OS seria uma solução desejada para viabilizar a contratação da equipe técnica de forma estável, depois de anos de penúria, conforme evidenciado por Futemma em e-mail na lista da ABPA: “esta discussão [de modelo de gestão de OS] ocorre há oito anos, envolvendo MinC, SAv e Conselho e equipe da Cinemateca. Temos grandes expectativas de que, até o final deste ano, um novo modelo de gestão permita à Cinemateca Brasileira exercer todo o seu potencial em prol do patrimônio audiovisual brasileiro”.42

O modelo de gestão por OS foi a solução deliberada depois de muitos anos de instabilidade do corpo técnico. Essa perspectiva era calcada também na possível preferência de uma OS criada especialmente para gerir a CB, a Pró-Cinemateca, OS criada em 2014 por membros do conselho e da SAC, com a finalidade única de fazer a gestão da instituição, que potencialmente teria a participação de profissionais da área na construção de um Plano de Trabalho – documento medular para a gestão em si e um dos critérios de seleção no Edital. A Pró-Cinemateca se qualificou para o 1º Edital lançado, mas não para o 2º Edital, devido à nova exigência de experiência prévia da instituição na gestão de recursos públicos – não havia experiência da instituição, pois havia sido criada recentemente, mas dos representantes e conselheiros, sobretudo experiência na própria Cinemateca, o que, na prática, poderia ser mais relevante do que o histórico de gestão da empresa em si.

Hoje o modelo de gestão por OS, após controvérsias em torno da gestão de outras entidades públicas, casos de corrupção e uma série de publicações sobre o tema na academia e na internet, é rebatido de forma ampla.43 O modelo é especialmente arriscado para instituições de patrimônio cultural em um contexto de insuficiência de recursos do Governo, onde fluxos de trabalho essenciais para a conservação do acervo (muitas vezes custosos e de baixa visibilidade) podem ser ofuscados para o benefício de ações com maior visibilidade pública. A confecção de um plano de trabalho sem a participação efetiva da equipe técnica pode comprometer seus objetivos primordiais. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira:

“Um outro problema dessa gestão é que a justificativa da liberdade para captação de recursos por outras vias que não as estatais acaba também ficando à mercê do Estado. Isso se dá porque, no Brasil, o apoio das instituições privadas para a cultura não é tradição. A iniciativa privada no Brasil não apoia iniciativas culturais. Tradicionalmente, famílias milionárias e corporações brasileiras não realizam doações ou investimentos nos equipamentos de cultura, menos ainda para aqueles que não dão visibilidade à marca”. (2020, p.110)44

No caso da CB, a gestão por OS possibilitou a contratação por CLT45 de boa parte da equipe, cuja escolha felizmente coube aos coordenadores, sem a intervenção da Acerp. Porém, gradativamente o corpo técnico passou a ser condicionado às diretrizes da Acerp, condição que ficou evidente em reuniões internas, quando não era mais possível desempenhar um papel ativo na prospecção de acervos46 ou falar em nome da instituição sem o consentimento da Acerp. Sinais de mudança foram percebidos nos “modos sociais” da equipe, de forma distópica: a instalação de rede de câmeras como medida de segurança de acervo e equipamentos se concretizou com a gestão da Acerp – abarcando espaços anteriormente utilizados em pausa do trabalho, gerando desconforto com a vigia panóptica moderna.

Cursos internos de assuntos técnicos ou apresentação de fluxos e atividades entre os setores, que eram realizados desde 2017, foram suspensos. A captação de recursos para a Cinemateca constava entre as ações previstas pela Acerp, e o aproveitamento do acervo e das instalações era uma via rápida para esse fim, o que gerou longos períodos com um fluxo constante de montagem e desmontagem de estrutura para grandes eventos, com temáticas variadas, por vezes distante da cultura e do audiovisual. Como não foram emitidos relatórios de 2018 e 2019, na gestão da OS, não é possível o acesso à informação sobre esses eventos. A ausência de publicação de relatórios é um perigoso indício da falência do modelo de OS para a Cinemateca, pois são documentos fundamentais para prestação de contas e transparência da gestão da instituição. No período foram criados relatórios de cumprimento de metas para o Ministério, mas o caráter do documento é técnico e pouco informativo, além de não ser público. Foi proposto um Código de Ética e Conduta da Acerp para os funcionários da CB, apresentado em um evento sobre o compliance da empresa – a menção de crenças religiosas no evento foi uma demonstração significativa da distância entre a Acerp e a missão institucional da CB.47 Ainda, ficou explícita e evidente a inaptidão da empresa no desembaraço de burocracias para aquisição de equipamentos para o laboratório, o que afetou planos de trabalho desenhados segundo a disponibilidade de tais equipamentos. Solicitações de acesso ao acervo audiovisual para a utilização na programação da TV Escola tornaram-se prática corrente – enquanto a Acerp desatendia algumas necessidades apontadas pelo corpo técnico. As propostas da programação para a sala de cinema foram impactadas e condicionadas – como apresentar a ideia de uma mostra de Fassbinder para uma diretoria que fazia piada homofóbica nas situações de conversa fiada anteriores às reuniões?

O cancelamento em cima da hora da edição de 2019 da CryptoRave48 pela equipe da própria Cinemateca foi sintomático, por receio de represália. Um símbolo incontestável da ocupação pela Acerp foi a criação de um novo site, sem participação ativa do corpo técnico da Cinemateca nas decisões editoriais. Como exemplo de equívoco, a ferramenta dinâmica do calendário de programação não era compatível com a linguagem do novo site. Portanto, o novo site passou a ter um design mais atualizado, porém menos funcional. A Acerp de imediato implementou uma logomarca intermediária (dizeres ‘cinemateca brasileira’ em cor branca sobre fundo vermelho), em substituição da logomarca de 1954, criada pelo celebrado designer Alexandre Wollner. A Acerp encomendou o desenho de uma nova logomarca, apresentada ao corpo técnico sem espaço para deliberação, cujo conceito e diagramação surpreendem pela semelhança com a logo do Curta Cinema - Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro. Outro aspecto delicado, pois a Acerp é sediada no Rio de Janeiro e a Cinemateca em São Paulo.49 são os gastos de traslado, hospedagem e diárias de alimentação de diretores, gerentes e membros da consultoria jurídica entre as cidades – esses recursos acumulados significam um montante considerável, que poderia ter sido investido na própria Cinemateca.

Um símbolo inquestionável do insucesso do modelo de gestão de OS para a Cinemateca foi a dissolução do Conselho Consultivo, composto por representantes do poder público e da sociedade civil, cuja existência está prevista na ata de incorporação da instituição ao governo federal, de 1984. Sem diálogo com o Conselho, vários diretores foram apontados pela Acerp, sem experiência na área de memória ou preservação, e acabaram por alienar a equipe técnica dos rumos da instituição. Além disso, a Cinemateca, que historicamente se mantinha apartidária, por meio da Acerp, tornou-se o destino de pessoas associadas ao partido de extrema direita do presidente à época, em cargos diversos (administrativos e de comunicação, sobretudo), sem a expertise necessária nem entendimento da instituição, e que frequentemente apresentavam as áreas técnicas aos visitantes sem o devido acompanhamento da equipe técnica, fragilizando mais os esforços de conservação. Episódios com muita repercussão foram a presença de militares nas dependências da instituição50 e a tentativa fracassada de realização de uma mostra de filmes militares. Ao longo dos quatro anos da gestão da Acerp, a partir do exame da dinâmica interna, fica explícito o quanto a equipe técnica era autônoma e tinha projetos (Acerp como prestadora de serviço, de 2016 a 2018) e o quanto houve de perda da autonomia no modelo de gestão por OS (2018 em diante).

O limbo administrativo em que os dez servidores públicos alocados na instituição consiste em outra questão. Eles continuaram em seus postos desde o início da gestão por OS, quando a CB deixou de ser uma coordenação-geral da SAv do antigo MinC. Alguns dos servidores já estavam na instituição há mais de três décadas. Antes da assinatura do contrato, foi garantido aos servidores que, com a cessão para a OS, não teriam prejuízos em seus salários e benefícios. Contudo, após a assinatura do contrato, o entendimento mudou e a cessão nunca foi oficializada. Apesar dessa situação, o ministério orientou os servidores a prosseguirem com suas atividades na Cinemateca. Após um ano e meio de descaso e mensagens contraditórias, tiveram que abandonar de forma brusca a Cinemateca, para trabalhar no Escritório Regional do Sudeste do Ministério, em São Paulo – sem infraestrutura mínima para recebê-los. Além da súbita suspensão de sua atuação na CB, essas pessoas respondem a um processo de reposição ao erário, para devolução à União da Gratificação de Desempenho de Atividade Cultural (GDAC) – que representa parte significativa dos vencimentos – do período da assinatura do contrato de gestão da Acerp até a ida ao escritório do Ministério, por terem trabalhado “cedidos” para a OS.

Apesar de a Acerp ter assumido as relações institucionais de forma mais ampla, excepcionalmente a relação com a FIAF seguiu sendo feita por Olga Futemma e coordenadores, com a emissão de minuciosos relatórios anuais à Fundação e a pronta pesquisa de informações solicitadas por associações filiadas à FIAF. Porém, entre os anos 2016 a 2019, não foi possível a representação de Futemma ou dos coordenadores nos Congressos de Bologna, Los Angeles, Praga e Lausanne.

Crise de 2020

Em fevereiro de 2020 a instalação secundária na Vila Leopoldina foi afetada por uma enchente, devido às fortes chuvas e à ausência da gestão adequada de galerias pluviais do bairro, aliada à intensa poluição do rio Pinheiros, a menos de 0,5 km da Cinemateca. A água de esgoto atingiu mais de um metro de altura, destruindo parte do acervo de película e de equipamentos, inclusive últimos materiais de longas e curtas de ficção, muitos elementos únicos de cinejornais, publicidade e trailer. Os danos ao acervo documental não foram considerados significativos, por se tratar de material duplicado. Instalações e equipamentos do galpão foram afetados e danificados. Após uma higienização profunda no ambiente pela equipe de limpeza, uma parcela da equipe técnica foi deslocada para limpeza, organização e resgate dos materiais atingidos. Não foi executado um plano emergencial por parte da Acerp ou da SAv para a necessária avaliação e processamento dos acervos audiovisual e de equipamentos, os mais atingidos, como a contratação de uma equipe técnica extra de forma temporária ou, até, a permissão de voluntários.51 A catástrofe não foi noticiada espontaneamente devido à falta de articulação entre a SAv e a Acerp diante da tragédia. A equipe técnica não poderia tomar a iniciativa de tornar pública a enchente. A exígua equipe estabeleceu turnos diferenciados, considerando a alta toxicidade do ambiente e a carga exaustiva, acentuada pelas altas temperaturas do galpão sem climatização e com restrita ventilação.52 Materiais em película foram selecionados e transladados para a sede principal para avaliação e processamento no laboratório, mas havia pouca película disponível para duplicação emergencial de rolos únicos danificados. Pelo alcance dos danos no espaço da CB e, sobretudo, nos acervos audiovisual e de equipamentos, pela inação da SAv e da Acerp, e pela crise que se sucedeu depois, interrompendo o trabalho de resgate e pesquisa, essa enchente se equipara, como catástrofe, aos sucessivos incêndios sofridos pela instituição, que “são metáfora da fragilidade da construção de uma política de preservação audiovisual que se esvai em chamas a cada mudança de Governo, de criação de entidades, de novos agentes” (Ferreira, 2020, p.23).

Desde a crise de 2013, o orçamento repassado pelo Ministério foi aquém das necessidades, o que se traduziu em equipes menores que o planejado para execução dos planos de trabalho. Ao final de 2019 instalou-se mais uma crise, quando o então Ministro da Educação decidiu não dar continuidade ao projeto da TV Escola – objeto principal do contrato da Acerp com o MEC –, não renovando o Contrato de Gestão com a Acerp (supostamente por uma cizânia pessoal do Ministro com um dos diretores). Uma vez extinto o contrato-principal com o MEC, todos os demais contratos foram encerrados – apesar do aditivo referente à CB ter duração até 2021 – o que deixou a CB à deriva administrativamente. A Acerp passou alguns meses buscando contornar a decisão e tentando obter recursos com a SAv, com a Secretaria Especial da Cultura e com o Ministério do Turismo, sem sucesso. O ano de 2020 foi repleto de notícias absurdas de decisões do governo envolvendo a Cinemateca,53 causando comoção e repercussão em redes sociais e gerando matérias na mídia. Em abril a Acerp parou de pagar as empresas terceirizadas e a equipe técnica. Antigos membros do Conselho lançaram um manifesto em maio.54

Foi iniciada uma ação civil pública pelo Ministério Público Federal contra o governo federal, pedindo a renovação emergencial do contrato com a Acerp que, até o fechamento deste texto, tinha o entendimento de que a situação estaria sanada com a contratação dos serviços essenciais (segurança, bombeiro) – porém, a ação está em andamento e há expectativa de uma nova decisão favorável à CB. Foram formadas e fortalecidas redes de resistência e protesto, de forma difusa, com diversos atores, que estreitaram a comunicação ao longo do tempo: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, e representantes da Associação Paulista de Cineastas (Apaci),55 criando o movimento SOS Cinemateca. Estes grupos estiveram muitos ativos na realização de atos pela Cinemateca e na articulação política com gestores municipais e federais. Por parte do corpo técnico da CB, a porta voz não foi a gerência ou as coordenações, mas a representação de funcionários como um grupo.56

Os funcionários, que seguiam em trabalho remoto (quando possível), entram em greve em junho, com o auxílio efetivo do Sindicato. Neste mês é iniciada uma campanha por iniciativa dos trabalhadores da CB para arrecadar recursos para os colegas em situação mais vulnerável pela falta dos salários e benefícios, ainda mais fragilizados com a pandemia de Covid-19. A campanha teve numerosas contribuições de pessoas e instituições de todo o mundo.57 Foram feitas doações diretas à própria instituição, como a de um diretor anônimo, que doou para o conserto do gerador. Em julho foi realizado um debate na Câmara dos Deputados,58 com a presença de parlamentares, de diferentes atores da cadeia do audiovisual e da sociedade civil, um símbolo da repercussão e engajamento inéditos em torno da Cinemateca. De certa forma evidenciou também a necessidade de protagonismo e de didática por parte de profissionais da área pela profusão de termos inadequados e imprecisos ao defender a Cinemateca.59 A diretoria da Acerp emitiu poucos comunicados ao corpo técnico diretamente, e as informações eram repassadas, de forma irregular, pelos coordenadores. Em junho foi emitido um comunicado da diretoria (em documento não datado!), com solidariedade “com as dificuldades que todos estão passando, mas saibam que estamos fazendo o possível e impossível, estamos fazendo de tudo que está ao nosso alcance”, com o comprometimento de, “assim que receber do Governo Federal, a primeira providência será pagar salários e rescisões” – quando era notório que não haveria nenhum repasse por parte do Governo Federal. Considerando a ausência de recursos em 2020 para a Cinemateca, a enchente, a crise decorrente da pandemia de Covid-19, o trabalho remoto, a suspensão de salários e benefícios, o comunicado é um símbolo do descaso e desrespeito da Acerp com seu corpo funcional. Após a entrega de chaves da CB ao Ministério em 7 de agosto,60 a Acerp demitiu seus funcionários (sem pagamento de salários atrasados e verbas rescisórias).

Conforme notado na Carta de Gramado de 2020, “após inúmeros telefonemas, mensagens, consultas entre as partes e adiamentos, foram garantidos os serviços básicos e emergenciais de água e de luz […]; foram contratados os serviços de limpeza, embora a empresa não seja especializada; foram contratados serviços de manutenção dos equipamentos de climatização, embora a empresa não ofereça a expertise necessária; foram contratadas uma mini brigada anti-incêndio composta por dois funcionários e uma empresa de vigilância patrimonial das dependências. No entanto, entre as necessidades emergenciais falta o fundamental trabalho dos funcionários especializados sem os quais o acervo não estará preservado, mesmo com a retomada dos serviços básicos acima descritos”.61 Sem o acompanhamento técnico, o menor dos incidentes nas áreas de acervo pode gerar problemas com consequências drásticas e irreversíveis. Trata-se da primeira vez que em que é impossibilitada a entrada na instituição, por qualquer membro do corpo técnico.

À ocasião da entrega das chaves ao Ministério do Turismo, foi indicado que um edital para a contratação de uma nova OS seria lançado em breve, o que ainda não ocorreu. Há uma previsão orçamentária de R$ 12,5 milhões para a Cinemateca em 2020. Caso este recurso não seja utilizado ainda neste ano, não poderá ser somado aos parcos R$ 4 milhões previstos para 2021. Vereadores de São Paulo de diferentes partidos políticos organizaram um fundo de emendas parlamentares para a Cinemateca, com apoio da SPcine, empresa municipal de audiovisual de São Paulo. A aplicação de recursos municipais em uma instituição federal demanda uma articulação jurídica inédita, que está sendo construída pela SAC para a contratação emergencial de um pequeno corpo técnico. Hoje, os grupos da Sociedade Civil seguem ativos, com a tentativa de acionar entidades e dar continuidade à mobilização. A próxima grande ação está prevista para 27 de outubro, Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual - UNESCO.

É urgente a criação de uma solução imediata para a viabilização de uma equipe técnica ainda no ano de 2020, para que o acervo não siga desacompanhado. A criação de mecanismos para a gestão da instituição a médio e longo prazo, de forma resiliente e sustentável, condizente com a necessidade de constância dos trabalhos no acervo e de manutenção da equipe técnica também é urgente. Considera-se como necessária e fundamental a abertura de concursos públicos para os cargos técnicos, respeitando as especificidades, o que poderia conferir a desejada estabilidade. Conforme diagnosticado na Carta de Ouro Preto de 2020:

“preservação do patrimônio cultural é dever constitucional do Estado brasileiro e, portanto, é preciso recuperar o protagonismo do poder público na gestão de instituições de patrimônio audiovisual, retomando os processos de abertura de concursos públicos e de implementação de planos de gestão pensados em conjunto com a sociedade civil, diretiva prevista na Recomendação sobre a Salvaguarda e Conservação das Imagens em Movimento, da UNESCO, de 1980” (Carta de Ouro Preto de 2020)

Uma ideia recorrente nas numerosas discussões on-line é o retorno da Cinemateca Brasileira para uma instituição de memória e patrimônio do governo federal – IBRAM ou o IPHAN, ao qual a CB foi vinculada até 2003, quando passou a ser vinculada à SAv. Foi inclusive esse vínculo ao IPHAN que proporcionou a continuidade da CB no início da década de 1990, quando o governo federal promoveu um desmonte de políticas e instituições de cinema. O IBRAM é uma autarquia vinculada ao Ministério do Turismo, que abrange trinta museus federais.

Depósito Legal e o Mercado do Audiovisual

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Possivelmente a prosperidade do FSA (e o aumento de investimentos em desenvolvimento, produção, distribuição e exibição), unida à inação dos elos da cadeia produtiva do audiovisual em relação à preservação se relacionam diretamente com a dimensão da atual crise do patrimônio audiovisual. A ABPA reiteradamente tem pleiteado assento no Conselho Superior do Cinema (CSC) e no Comitê Gestor do FSA, sem sucesso. No debate “Fronteiras entre a indústria, mercado e arquivos – conteúdo, fomento e regulação”, na CineOP de 2018, um representante da indústria audiovisual no Comitê Gestor do FSA sugeriu a busca de outro caminho de financiamento para a preservação, distinto do FSA. Quando este profissional levanta essa possibilidade (e ele é só um exemplo da postura de outros produtores), não compreende a importância da preservação para toda a cadeia nem que também é sua função defender a Cinemateca, bem como outras políticas para a gestão do patrimônio audiovisual, de forma ampla. Nem que seja pelo viés personalista, considerando que algum asset seu possa estar lá: a matriz de uma imagem de arquivo para seu próximo filme como produtor; a matriz do seu filme de estreia dos anos 1980; ou os registros domésticos de sua família. Ou, ainda, pelo fato de que a atuação da Cinemateca em discussões, publicações, fóruns e em pesquisa de tecnologia possa beneficiá-lo de alguma forma. Como afirma Paulo Emílio, “não se faz bom cinema sem cultura cinematográfica e uma cultura viva exige simultaneamente o conhecimento do passado, a compreensão do presente e uma perspectiva para o futuro. Enganam-se os que confundem a ação das cinematecas com o saudosismo” (1982, p.96). A cadeia produtiva já resmungou62 quando foi debatida a necessidade de investimento no gigante passivo da preservação audiovisual para atender à própria cadeia produtiva e, até, explorar comercialmente os acervos. O business model não fecha enquanto não tivermos um investimento massivo para dar conta de décadas de dificuldades e estagnação. Eu resmungo de volta com esse gráfico:63

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Em abril de 2017, foi publicado o Plano Anual de Investimentos do FSA para o ano de 2017,64 no qual foram anunciados, como apoio, R$ 10,5 milhões para a Cinemateca Brasileira. O valor equivale a 1,4% do total anunciado no documento. O valor nunca foi executado, com a justificativa de que o recurso do não reembolsável65 teria terminado. Em maio de 2018 foi lançado o Plano Anual de Investimentos de 2018,66 com a previsão de R$ 23,375 milhões para investimentos em Preservação e memória. Em dezembro daquele ano foi lançado pela SAv o Edital de Restauro e Digitalização de Conteúdos Audiovisuais. Tratava-se de recursos para restauração ou digitalização de obras para empresas do audiovisual, com a possibilidade de retorno financeiro, e contou com a atuação de um grupo de trabalho com a participação de técnicos de preservação da Cinemateca Brasileira na construção do documento e das diretrizes técnicas para a digitalização e restauração. Sob a ótica de profissionais do setor, o Edital estava destinado somente a produtoras com o viés da distribuição, sendo a preservação secundária. O Edital foi suspenso cerca de quatro meses após a publicação pelo atual governo. Portanto, nenhum recurso do FSA de 2008 a 2018, de um total de um pouco mais de R$ 4,5 bilhões,67 foi de fato investido em preservação.

Atualmente a Cinemateca Brasileira é a única instituição habilitada a receber materiais em Depósito Legal. Desde 2016, a Ancine investiu não mais que R$ 2 milhões na contratação de equipe técnica para análise desses materiais, cujo fluxo de processamento mobiliza diversos setores e técnicos da instituição. Foi reportada alta taxa de reprovação dos materiais analisados e, segundo Gomes (2020), “parece ter como uma das principais causas o grande distanciamento e pouca informação de realizadores/produtores acerca, de maneira ampla, do papel de um arquivo audiovisual, e de maneira mais específica, dos princípios do Depósito Legal”. Contar com a expertise na análise dos materiais sem viabilizar recursos para a preservação desse acervo pode ser considerado como tiro no pé. Os materiais analisados estão inertes em estantes em um ambiente climatizado – à mercê da famosa morte silenciosa.68 É necessário que o mercado participe para garantir um aumento da taxa de aprovação e a criação de condições para preservação de materiais nato digitais no âmbito do Depósito Legal. De maneira ampla, a narrativa e a luta por políticas para o patrimônio audiovisual devem também ser do mercado.

É muito significativo o panorama da Cinemateca apresentado na Carta de Gramado 2020, elaborada pela frente SOS Cinemateca, com adesão de diversas associações – de outras cinematecas, de profissionais e empresas do audiovisual. Um sinal positivo é a inclusão de uma discussão sobre a crise na Semana ABC, organizada pela Associação Brasileira de Cinematografia (ABC), um dos mais significativos eventos em torno da realização audiovisual no Brasil. Mas ainda precisamos de maiores ações de aproximação e de reconhecimento de que esta crise da Cinemateca deve ser preocupação – e requer atuação – de todo o setor.

Conforme apontado na Carta de Ouro Preto de 2020, entre os pontos urgentes para implementação de uma política nacional para a área e os desafios a serem enfrentados está “reivindicar a criação de mecanismos para a ampliação da oferta de obras audiovisuais brasileiras nos catálogos de plataformas de streaming, tendo a garantia de inclusão de obras de diversas épocas, possibilitando o acesso ao vasto patrimônio audiovisual brasileiro”. Qual seria a relação da Netflix (usada aqui como modelo de plataforma), por exemplo, com a necessidade de investimento no patrimônio audiovisual brasileiro? Só uma oportunidade de benfeitoria mesmo, viável por sua presença na lista das 12 empresas que mais lucraram na pandemia. A proposta não é tão absurda, considerando que a empresa no Brasil criou um fundo emergencial de R$ 5 milhões para a indústria audiovisual brasileira, devido ao recesso no contexto da pandemia de Covid-19.69 Obras antigas disponíveis nas plataformas de streaming constituem uma preocupação nos Estados Unidos.70 Em geral, produtores brasileiros não contam com recursos para digitalização e finalização de filmes antigos capazes de atender aos parâmetros técnicos requeridos pela plataforma e, possivelmente, precisam de investimento em advogados para viabilizar o clearance.71 da obra. Que tal então a plataforma lançar uma linha de investimento para obras não contemporâneas? Trata-se de uma ideia que seria contemplada pelo Edital SAv/MinC/FSA nº 24 de dezembro de 2018, linha de Restauro e Digitalização de conteúdos audiovisuais, suspenso em 2019. A saúde das instituições de patrimônio audiovisual beneficia também as próprias plataformas de streaming a médio e longo prazo – considerando, por exemplo, a forte tendência de documentários em torno de imagens de arquivo.72 Como ilustração, o expressivo número dos documentários dos EUA disponíveis na Netflix Brasil, que possui imagens de arquivo como condutores da narrativa, como Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), e as séries Remastered (2018) e Explained (2018). No entanto, comparativamente são poucos os filmes e séries brasileiros que apresentam imagens de arquivo nessa medida, sendo uma exceção OBarato de Iacanga (2019, Thiago Mattar).73

Além da atividade do laboratório da Cinemateca para a preservação de seu acervo, chamo atenção para a confecção de cópias, como a coleção “Clássicos e Raros do Cinema Brasileiro”, iniciada em 2007, que teve sua 4ª edição em 2016, e aquelas feitas para celebrar o Dia internacional do Patrimônio Audiovisual. Destaco, como meio de registro, as cópias em 35mm e digital realizadas em 2016, tal qual consta no Relatório.

A confecção de cópias em 35mm é uma importante função de uma cinemateca com um laboratório fotoquímico, para a preservação e para proporcionar uma experiência de difusão em consonância com o formato original da obra. Considerando que o digital é a forma de ampla circulação, são confeccionados cópias em digital em diversos formatos/fins. No contexto da CB, o esforço de digitalização dessas obras se realizaria mais plenamente com alguma forma de difusão pré-estabelecida, idealmente com a devida curadoria e ações de contextualização. Atualmente, o caminho natural de difusão digital da CB é a inclusão na plataforma Banco de Conteúdos Culturais (BCC).74

Dez Filmes Importantes Para a História do Cinema Brasileiro Inacessíveis (ou quase) Digitalmente”, publicado em Cinelimite, expõe a inacessibilidade digital a alguns celebrados, cânones ou raridades de nossa filmografia. Além de ações para o acesso digital, é crucial avaliar se suas matrizes estão fora de risco iminente, e se demandam ações de preservação ou duplicação. A lista de Rafael de Luna me remeteu a “Filmes brasileiros considerados perdidos (ou prestes a sê-lo)”, publicada na extinta revista Contracampo.75

Distintivamente, a lista de 2001 era sobre a existência/perda de matrizes. Além de alguns títulos que eventualmente foram perdidos, outros tiveram seus (conhecidos) únicos materiais deteriorados, a ponto de inviabilizar um processamento em laboratório. Devido às crises da Cinemateca Brasileira, à paralisia dos trabalhos de pesquisa, das ações de preservação e do processamento laboratorial, a atualização da lista feita em 2001 por Hernani Heffner e Ruy Gardnier seria trágica em extensão e escopo. Seria papel de uma instituição nacional tornar esta lista pública. Além de prestar contas à sociedade brasileira sobre seu patrimônio audiovisual, também pode ser uma estratégia de localização de novos materiais junto a outras instituições e colecionadores privados no Brasil e no mundo. Ainda, e os tantos outros filmes e registros que escaparam de tal investigação e documentação e estão em ostracismo? Quantos filmes existem, cujos únicos materiais são cópias em bitolas inferiores, incompletos, muito deteriorados? Quantos registros audiovisuais brasileiros já perdemos?

Conclusão
“Se perdermos o passado, viveremos em um mundo Orwelliano do presente perpétuo, onde qualquer pessoa que controla o que está sendo divulgado poderá dizer o que é verdade e o que não é. É um mundo terrível, nós não queremos viver nesse mundo.” Brewster Kahle (2014, entrevista para Digital Amnesia, documentário da holandesa VPRO)
“Conhecimento só se efetiva quando é compartilhado” Hernani Heffner (2001, em conversa de corredor na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro)

O audiovisual digital tem sido ferramenta crucial nas lutas por direitos humanos em todos os cantos do país. São registros de despejos forçados de comunidades, da ocupação de aparelhos culturais ou educacionais como forma de protesto, de manifestações, de invasão de comunidades por forças policiais – com altos índices de homicídios da população local, inclusive crianças e jovens – registros da devastação ambiental fomentada pelo governo atual, da luta por direitos e pela demarcação de terras indígena, e de crimes contra os povos originários. O audiovisual também tem sido utilizado no empoderamento preto e na luta antirracista, na emancipação e afirmação das mulheres por igualdade de oportunidades e contra o machismo estrutural. As redes sociais, com uma profusão de talentos criativos e narrativas, proporcionam os maiores índices culturais desta época. No Brasil, em sentido geral, estas imagens seguem fora do escopo de prospecção das instituições brasileiras, e ainda é tímida a discussão em torno de seu arquivamento e pertencimento ao escopo do patrimônio audiovisual no Brasil. Na perspectiva da preservação, além de todos os desafios inerentes à preservação digital de dados,76 temos o aspecto da efemeridade, pelo vínculo dos dados às corporações.

Os mecanismos de tecnologia persuasiva das redes sociais são utilizados para conduzir comportamentos de indivíduos. Algoritmos são capazes de dar credibilidade ao inverídico, de alavancar o terraplanismo e de colocar #StopFakeNewsAboutAmazon como trend no Twitter, enquanto a boiada do ecocídio passa solta, e o mundo testemunha a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e outros Parques Nacionais destruídos.77 O computador quântico Rehoboam78 é uma alegoria do agora, em uma narrativa explicitada por Shoshana Zuboff em seu livro “Capitalismo de Vigilância”. Vimos, num crescente terror e violência, sucessivas vitórias eleitorais de partidos e movimentos políticos de extrema direita. A circulação de notícias falsas nas redes sociais aumentou o poder de destruição do Covid-19. A contrainformação, deep fake e robôs de fake news têm conexão com o mundo descrito por Brewster Kahle, fundador do Internet Archive, citado acima. Podemos perder o passado e, até, o presente, pela fragilidade do tecido da informação, pelo potencial de manipulação e pela desinformação.79 O atual presidente do Brasil, quando deputado, à ocasião do processo de impeachment/golpe da presidenta Dilma Rousseff, votou pela memória do maior torturador da ditadura militar, que comandou as sessões de tortura contra a ex-presidenta. Falhamos em não ter mostrado e visto o suficiente de O caso dos irmãos Naves (1957, Luis Sérgio Person), Iracema - uma transa amazônica (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), Eles não usam black-tie (1981, Leon Hirszman), Pra Frente, Brasil (1982, Roberto Farias), Cabra marcado para morrer (1984, Eduardo Coutinho), Que bom te ver viva (1989, Lúcia Murat), Ação entre amigos (1998, Beto Brant), Cidadão Boilesen (2009, Chaim Litewski).80 De forma que fosse impossível banalizar o ato na Câmara dos Deputados, de tal forma que nenhuma mulher votasse nele para presidente dois anos depois. Agora não podemos deixar de preservar estes filmes e os que virão depois de Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) e Torre das Donzelas (2019, Susanna Lira).

Uma parcela expressiva do patrimônio audiovisual brasileiro já se perdeu ao longo do século passado. Além dos recorrentes incêndios à época dos primeiros cinemas, das ondas de destruição ativas (de filmetes curtos na consolidação do longa-metragem como formato, do silencioso com a chegada do cinema falado, na substituição do nitrato pelo acetato), muitos acervos se dispersaram, foram desmantelados, escamoteados, e os que chegaram aos arquivos de filmes já chegaram debilitados. Ainda, a demora em reconhecer a importância do patrimônio audiovisual, a ausência de políticas públicas para a sua gestão e a oscilação de recursos nas instituições acarretaram mais perdas. Com o advento do digital, há um agravamento – tanto pela preservação do que hoje é prospectado quanto pelo que está fora do escopo de prospecção. A crise atual da Cinemateca é gravíssima e demanda medidas urgentes do poder público e da cadeia audiovisual. Apesar do poder de destruição do atual governo e da paralisia dos trabalhos por tantos meses, encorajada pelas muitas discussões que estão sendo realizadas, pelas articulações em andamento e pelos movimentos em apoio à Cinemateca, quero terminar com algum tom de otimismo. Por acreditar no potencial da Cinemateca para promover debates e exibição de filmes, para efetivar o acesso às mais olvidadas coleções, ser um espaço para pesquisa, prover referência imagética do passado e subsidiar pesquisa tecnológica; para cativar crianças e jovens com a telona, apresentar o pré-cinema e as tecnologias do audiovisual em um museu, e para engajar o bairro e a comunidade vizinha. Acrescente-se para vários outros modos de uso criativo do acervo e das ferramentas que demoraremos a exercer, devido às sucessivas crises que aumentam o passivo de trabalhos, aceleram a deterioração do acervo e limitam o poder de alcance da instituição. Neste momento fica ainda mais evidente o fato de que a Cinemateca está incluída no macro projeto de devastação da cultura e do patrimônio brasileiro e, a sua importância como uma força para reagir contra este projeto, portanto, cresce cada vez mais.

Agradeço Aline Machado pela revisão minuciosa.

1. O Ministério da Cultura foi extinto no primeiro dia do governo; foi incorporado inicialmente ao Ministério da Cidadania e, posteriormente, ao do Turismo. Até o momento, a Secretaria Especial da Cultura já teve cinco titulares sem comprovada expertise, e outras instituições de patrimônio cultural passam por agudas crises, como a Fundação Casa de Rui Barbosa e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv). A Agência Nacional do Cinema (Ancine) não repassou recursos já comprometidos e não lançou novos editais. Destaca-se que a Constituição Federal, que rege a democracia brasileira, prevê em seu Art. 215 que o “Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”; e em seu Art. 216, que o “poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro”.

2. De 2016 a 2020 trabalhei no departamento de Preservação de Filmes da Cinemateca Brasileira. Compartilho reflexões subjetivas a partir de minha experiência, com ênfase nas atividades do departamento.

3. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

4. Por meio de uma política descentralizadora do Ministério da Cultura foram lançados editais de desenvolvimento e produção, com cotas para estados usualmente com restrito investimento no audiovisual, e projetos de baixo orçamento, editais específicos para novos diretores, mulheres e povos nativos.

5. Regulamentado em 2007, o FSA é retroalimentado por um fluxo do imposto Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), coletado a partir de todas as janelas do audiovisual, e investido em novas produções, linhas de desenvolvimento, distribuição de produções para cinema e televisão e jogos eletrônicos. De 2008 a 2018 foram investidos, no total, cerca de R$ 4,5 bilhões.

6. Um exemplo emblemático desta dinâmica ocorreu em 2008, com a presença do então diretor-executivo da Cinemateca Brasileira na 3ª CineOP, cuja temática é Política Nacional de Preservação Audiovisual: necessidades e desafios. Ao longo do evento ele se posicionou com firmeza contra uma articulação das demais instituições, a criação de diálogo destas com o representante do Ministério da Cultura no evento e a criação da ABPA - Associação Brasileira de Preservação Audiovisual.

7. Dentre as propostas do Simpósio sobre o Cinema e a Memória do Brasil de 1979, consta “a criação e a dinamização de centros regionais de cultura cinematográfica constituídos por unidades de produção e por filmotecas (arquivos de cópias de filmes), com a função básica de prospecção, pesquisa e divulgação do acervo brasileiro [… e] o estabelecimento de um inventário [nacional]” (1981, 67). Laura Bezerra relata a “criação de um programa de apoio às cinematecas que, apesar de não ter implementado ações sistemáticas e abrangentes, destinou recursos para algumas ações setoriais” (2014, 120). A descentralização é necessária, considerando a continentalidade e pluralidade cultural do país, além de tecnicamente ser desejada em caso de sinistros.

8. A CineOP é um evento criado em 2006 e tornou-se o principal fórum de discussões e articulações em torno do patrimônio audiovisual e o ensino do audiovisual no Brasil. A cada ano é redigido um documento pelos participantes do Encontro, a Carta de Ouro Preto, com alertas e proposições para o campo.

9. A ABPA é uma associação de profissionais, independentemente do vínculo com instituições, e tem atuado em prol de políticas para o setor, na projeção do patrimônio audiovisual e na realização de projetos, como a tradução e publicação de textos técnicos. A ABPA criou em 2016 o PNPA, documento de diagnóstico e proposições de ações e políticas para o campo da preservação audiovisual. https://abpanet.org/

10. O papel principal do Conselho é atuar no desenvolvimento da Cinemateca. Seus membros são representantes dos poderes públicos da esfera federal, estadual e municipal, além de indivíduos da sociedade civil com atuação em cinema ou patrimônio. Curiosamente, nota-se uma predominância de homens dentre os conselheiros ao longo dos anos.

11. Atualmente é o Cinesala. Cinesala. Disponível em: http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

12. O matadouro teve suas atividades encerradas em 1927. O terreno estava sendo utilizado como depósito de equipamentos de iluminação pública.

13. A partir de ideia de Gilberto Gil, músico e então membro do conselho de assessoramento cultural da BR Distribuidora, e posteriormente Ministro da Cultura, de 2003 a 2008.

14. Empresa estatal que impulsionou a produção, distribuição, exibição, preservação e restauração do audiovisual – vinculada à Petrobras, empresa brasileira de energia, gás e petróleo.

15. Em colaboração com a CB, o projeto também foi realizado na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro, inclusive o inventário do acervo, inédito na instituição e processamento de materiais deteriorados. A Cinemateca do MAM estava subjugada à direção do Museu, que determinou, de forma arbitrária, que não teria condições de manter o acervo audiovisual (insolitamente após o inventário). Como resultado, parte do acervo foi alocada no Arquivo Nacional a partir de 2002 na mesma cidade, e parte foi recebida pela CB. Alguns detentores de materiais optaram por guardar consigo, muitas vezes em lugares inapropriados. Essa foi uma das maiores crises da instituição, de relevância histórica para o cinema brasileiro (sobretudo para o movimento do Cinema Novo) e para a preservação audiovisual, cuja direção passou por Cosme Alves Netto, com notória ligação com instituições internacionais. A partir de 1996, Hernani Heffner ingressa na instituição. Em 2020, passa por uma consolidação, com um novo prédio para o acervo documental e com mudanças estruturais na direção do Museu.

16. Segundo Souza, a Filmografia Brasileira foi iniciada por Caio Scheiby em fichas em papel e, nos anos 1980, foram publicados quatro cadernos com registros dos filmes produzidos até 1930 (2009, p.259). Atualmente, de acordo com o site da instituição, “contém informações de aproximadamente 42 mil títulos de todos os períodos da cinematografia nacional e da produção audiovisual mais ampla e recente, sejam curtas, médias ou longas-metragens; cinejornais; filmes publicitários, institucionais ou domésticos; e obras seriadas (para internet e televisão), com links para registros da base de dados de cartazes e referências de fontes utilizadas e consultadas”. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 13 ago. 2020.

17. Texto extraído da plenária realizada em 2008. Disponível em: http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. Acesso em: 2 ago. 2020. Segundo Laura Bezerra, “o SiBIA foi pensado e executado a partir da CB/SAv sem quaisquer debates e negociações com os atores envolvidos, o que contradiz o espírito democrático-participativo defendido e praticado em documentos e ações do MinC” (2014, 185). O II Encontro Nacional do SiBIA ocorre em 2009, com 33 instituições de todo o país, e suas propostas, que demandavam recursos e ações da SAv, não se efetivaram. O projeto é extinto em 2009, sem desdobramentos práticos.

18. A Programadora Brasil foi um projeto de difusão de filmes (animação, experimental, ficção, documentário), que atuou de 2006 a 2013, por meio da edição de DVDs para circuito não comercial (cineclubes, centros culturais, escolas, universidades), em um total de 970 obras divididas em 295 DVDs.

19. Relatórios institucionais da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

20. Esta unidade foi afetada pela enchente no início de 2020.

21. Revista da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

22. Acervos adquiridos pela União sob a guarda da Cinemateca: Estúdios Vera Cruz e Atlântida Cinematográfica (em 2009), Canal 100 e Glauber Rocha (em 2010), Goulart de Andrade e Dulce Damasceno de Brito (em 2011) e Norma Bengell (em 2012).

23. A paralisia afeta também o Centro Técnico do Audiovisual (CTAv), instituição no Rio de Janeiro, que correalizava diversos projetos da SAv com a CB.

24. Depósito Legal é o mecanismo de depósito de materiais comprobatórios da realização da obra audiovisual subvencionada com recursos federais, em instituições credenciadas pelo governo federal – até o momento, somente a CB. Após a aprovação do material (de acordo com diretrizes técnicas), a empresa produtora torna-se apta a receber a última parcela do investimento. Devido à redução do fluxo de análise na crise de 2013, foi gerado um passivo de materiais a serem analisados.

25. Olga Toshiko Futemma atua na Cinemateca Brasileira desde a década de 1980, com destaque para seu trabalho no Centro de Documentação e Pesquisa. Tornou-se diretora-executiva em 2004, diretora-adjunta de 2007 a 2013 e diretora de 2013 a 2018, quando se torna Gerente de Acervos. Participou do Comitê Executivo da Fiat a partir de 2009 até o ano de 2013.

26. Após o incêndio, foi mantida a mesma estrutura. De acordo com o Relatório da CB de 2016: “a edificação, desenhada nos anos de 1990, foi construída sem instalações elétricas ou hidráulicas, de modo a minimizar os riscos de acidente; sem climatização ativa, mas mantendo a temperatura interna com as menores variações possíveis e permitindo a circulação de ar, para evitar o acúmulo de gases resultantes da deterioração do suporte. Em caso de autocombustão […] inevitavelmente consumiria todo o conteúdo da câmara, mas não se espalharia para as outras adjacentes” – que foi o que ocorreu em 2016, o fogo consumiu apenas uma das quatro câmaras.

27. Como exemplo, o ARRISCAN, quando adquirido, foi adaptado para materiais deteriorados, o que permitiu o escaneamento de negativo com 4% de encolhimento, medida que seria considerada inviável para outros laboratórios.

28. Bases de dados do Centro de Documentação e Pesquisa. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 7 ago. 2020.

29. O setor de difusão seguiu praticando a premissa de exibição de filmes do acervo, respeitando seu suporte original, privilegiando o cinema brasileiro; e realizando mostras, com materiais do acervo ou de parceiros, ou recebendo festivais nas duas salas de cinema e na tela externa da Cinemateca – projeções em 16mm, 35mm e digital, e alguns formatos em vídeo analógico.

30. Ainda de acordo com o relatório, “o processo de duplicação emergencial difere da restauração de filmes, conceito este aplicado quando são confeccionadas novas matrizes de preservação, de imagem e som, e cópias de acesso, incluindo diferentes graus de manipulação para minimizar marcas do uso ou deterioração, buscando a forma como a obra foi difundida em seu lançamento original. Uma restauração usualmente reúne e compara diversos materiais para seleção dos melhores, enquanto a duplicação emergencial trata de uma copiagem de um suporte em deterioração avançada, geralmente único, para um outro, novo.”

31. Carlos Roberto de Souza destaca que “os trabalhos de pesquisa e historiográficos brasileiros realizados […] chamaram a atenção para o fato de que é um equívoco construir uma história do cinema brasileiro a partir do filme de ficção de longa metragem. A produção brasileira de maior volume foi sempre a de documentários e cinejornais, geralmente relegada a segundo plano pelos chamados historiadores clássicos, pela mídia e pelo público em geral. A realidade da produção reflete-se no acervo cinematográfico que chegou até nossos dias. O percentual de filmes de não-ficção ultrapassa avassaladoramente o de longas de ficção e continua o menos preservado. Isso não significa que todos os longas de ficção estejam preservados. Longe disso. A parcela mais tratada – nem sempre com os cuidados que merece – é a dos longas brasileiros consagrados.” (2009, p.261).

32. Posteriormente descobriu-se que há um campo homônimo na base Filmografia Brasileira, conduzida pelo Centro de Documentação e Pesquisa, que constava dentre os campos excluídos do fluxo à época. Tratava-se de um sistema numérico de 0 a 5. Considerando que os técnicos da Preservação que propuseram a metodologia não tinham experiência anterior na instituição, a proposição não seguiu o sistema numérico, mas categorias de texto. Como exemplo, as categorias ‘preservado no momento’ (considerando matrizes originais, intermediários e cópias de acesso em bom estado, por exemplo), ‘parcialmente preservado’, ‘não preservado’, ‘parcialmente perdido’, com a inclusão de adendos como ‘com defeitos’ (interferências na imagem ou som), ‘incompleto’, etc. O sistema permitiu agilidade nos fluxos de seleção de materiais para duplicação emergencial e pesquisa para acesso externo.

33. Ferramenta proposta pela Unesco em 1988, por seu caráter moldável, que se assemelha a cartões físicos de biblioteca individuais, com limitado cruzamento de informações.  

34. A ferramenta foi inicialmente pesquisada e selecionada pelas equipes do laboratório e de desenvolvimento anteriormente a 2016. Foi adotado pela equipe da preservação em 2016, perfil mais institucional em 2017 – trac.cb – em seguida pela equipe do Centro de Documentação e Pesquisa e, por último, e com uso comedido, pela equipe da difusão.

35. Precisamosfalar sobre... o logo da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. A logomarca é identificada pormuitos por sua forma fálica, o que poderia ter contribuído para o grau de viralização e atenção à Cinemateca em 2016.

36. Manifesto pela Cinemateca Brasileira - 2016. Disponível em: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com. Acesso em: 20 jul. 2020.

37. 100 Paulo Emílio. Disponível em: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. Acesso em: 20 jul. 2020.

38. Questiona-se a legalidade da realização de um aditivo ao contrato principal. De qualquer forma, consideramos um ultraje que a gestão da Cinemateca Brasileira seja regida por um aditivo como instrumento legal.

39. Como ocorreu em casos de acesso aos originais para digitalização e licenciamento ao Canal Brasil, principal canal de televisão de obras brasileiras, que estava atualizando seu catálogo, anteriormente em resolução SD. A entrega ao Canal seria em HD ou superior, apesar de ser uma resolução datada. Os produtores optavam por resolução HD e não em 2K, por limitação de orçamento, mas além de ser mais relevante comercialmente a médio prazo, o 2K representa uma ação mais significativa de preservação, uma vez que seria um resguardo por mais tempo do material original em película – grande parte já em más condições.

40. Sobretudo a pejotização: a contratação de serviços de indivíduos por meio de empresas constituídas para tal.

41. Essa dinâmica de dispersão de força de trabalho é ainda mais perigosa no contexto da preservação digital, que demanda uma constante atualização de saberes devido, à incessante mudança da tecnologia e de práticas de mercado.

42. E-mail de 29 de junho de 2016. Disponível em: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Acesso em: 15 jul. 2020. Débora Butruce indica que o tema de gestão por OS foi debatido em um Grupo de Trabalho ao longo de alguns anos: 15ª CineOP. Instituições de patrimônio em risco: Caso Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. Além de Butruce, participaram do debate Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira e Eloá Chouzal, na mediação.

43. Jorge Barcellos resume da seguinte maneira: “[…] ao longo do tempo as OS tornam-se deficitárias e custosas”; e alerta que “segundo Alzira Angeli, da Controladoria Geral da União, estas organizações transformaram-se no novo nicho de mercado da corrupção e [segundo o historiador Francisco Marshall] “a iniciativa promove a degradação da gestão pública”. Disponível em: https://jorgebarcellos.pro.br. Acesso em: 20 ago. 2020. Como exceção, alguns museus no Estado de São Paulo seguem com êxito no modelo de gestão por OS.

44. Em contraste com o modelo estadunidense, no qual famílias bilionárias e grandes corporações subvencionam projetos e instituições de cultura e patrimônio, por fundações.

45. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com diversos benefícios ao trabalhador, como férias remuneradas, 13° salário, seguro-desemprego, auxílio-doença, salário-família, salário-maternidade e aposentadoria.  

46. A prospecção de materiais é uma função primordial da CB, por ser a principal instituição nacional e considerando o secular histórico de destruição e descaso com o patrimônio audiovisual brasileiro. Tornaram-se notórias notícias de acervos potencialmente valiosos nos últimos anos, e não foi possível a atuação de técnicos da CB. Por intermédio da Acerp, foi feita avaliação em um acervo no interior de São Paulo. O corpo técnico assumiu o contato com o Ministério das Relações Exteriores para a avaliação da listagem de acervos de cópias 35mm em Embaixadas do Brasil em Roma, Berlim e Haia para a repatriação. Acerp posteriormente assumiu o diálogo e não conseguiu efetivar o translado.

47. A Missão Institucional estava sendo consolidada em um documento, que não se efetivou na gestão da Acerp.

48. Fórum de discussão de liberdade, autonomia, segurança na Internet. CryptoRave. Disponível em: https://cryptorave.org. Acesso em: 15 ago. 2020.

49. A distância entre as duas cidades é de mais de 400 km, cerca de 1 hora de voo.

50. Militares fardados ocasionalmente visitavam a instituição. Um episódio tornou-se notório: a visita de um deputado, com mesmo sobrenome que seu tio-avô, o primeiro presidente da ditadura militar. Ele publicou um vídeo em redes sociais, dentro da CB e acompanhado por representantes da instituição, anunciando a mostra de filmes militares, reproduzindo o slogan de campanha do presidente e batendo continência. A série não foi realizada.

51. O que possibilitou uma efetiva resposta aos danos ao estúdio e ao acervo do fotógrafo Bob Wofelson, localizado nas mediações do galpão da Cinemateca, que contou com um número grande de voluntários sob coordenação da equipe técnica do Instituto Moreira Salles (IMS). Uma técnica da Cinemateca Brasileira estava entre as voluntárias (fora do horário de trabalho da CB). Essa foi a 2ª enchente que afetou o estúdio do fotógrafo. As enchentes na região são recorrentes, de maneira que esse relato é a crônica de uma tragédia anunciada.

52. O trabalho consistia em movimentar sacos com pilhas de latas de filmes cheias de água suja, abrir cada lata para verificar o estado do material, determinar destino ao material e organizar o acervo nas estantes. Em um primeiro momento, as equipes de limpeza e manutenção executaram uma força tarefa junto à equipe técnica para escoar a água, limpar estantes e ajudar na movimentação de sacos de filmes, porém antes que esse trabalho chegasse ao fim, essas equipes foram drasticamente reduzidas.

53. A primeira delas, referente à nomeação como diretora de uma atriz que desempenhava há dois meses o papel de Secretária Especial de Cultura em Brasília e queria retornar a São Paulo por questões pessoais. No entanto, não havia nenhum cargo legalmente disponível para ela assumir na CB naquela época e ela acabou não trabalhando na instituição.

54. Cinemateca Brasileira pede socorro. Acesso em: 9 set. 2020. Nesta data, o manifesto teve mais de 28,5 mil adesões.

55. Cinemateca Viva, grupo formado por Associação dos Moradores da Vila Mariana <http://www.cinematecaviva.com.br>; o grupo Cinemateca Acesa <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; e Cinemateca em Crise, criado em 2013, com atualizações com a crise de 2020 <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. A Apaci desde 2015 esteve ativa e em contato com a diretoria da CB, para garantia da execução dos trabalhos da instituição.

56. Trabalhadores da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/trabalhadorescb. Acesso em: 18 ago. 2020.

57. Cinemateca Brasileira - Trabalhadores em Emergência. Disponível em: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca. Acesso em: 30 ago. 2020.

58. A crise na cinemateca brasileira - Soluções Urgentes. Disponível em: https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. Acesso em: 30 ago. 2020. Gabriela Queiroz, coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa desde 2014 até 2020, representou a instituição.

59. Como exemplo, as afirmações de que “todo” o patrimônio audiovisual brasileiro está na CB, de que a instituição poderia pegar fogo se a luz fosse cortada (os depósitos de nitrato não possuem sistema elétrico); e a utilização do termo ‘laboratórios climatizados’ para designar ‘depósitos climatizados’.

60. A entrega de chaves foi marcada pela presença de agentes ostensivamente armados da Polícia Federal, que foram convocados com o pressuposto de que poderia haver resistência na entrega das chaves pela Acerp. As chaves foram entregues, os documentos foram assinados e foi realizada uma visita técnica. Mesmo que utilizada de forma coadjuvante, foi a primeira vez que intimidação policial ocorreu na instituição. A Acerp tentou obter ressarcimento dos valores investidos na CB em 2019 e 2020, alegadamente no total de R$ 14 milhões.

61. Carta de Gramado 2020. Disponível em: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado. Acesso em: 30 set. 2020.

62. Generalizações são arriscadas e podem ser equivocadas. Afinal, temos muitos produtores que entendem, enaltecem e investem em preservação, sobretudo depois da crise de 2020. Se essas palavras não fazem justiça à atuação de produtores em prol do patrimônio audiovisual, ficarei feliz em publicar meu equívoco. Mas esse texto foi fermentado pela frustração de ver a soberba da cadeia audiovisual, com suas festas, mercados, deals, marketshare, box office, hold back, catch up, pitch, players e recursos caudalosos, enquanto a menção a investimentos em preservação gerava tremores! Essa postura gananciosa da cadeia produtiva é um descaso em relação ao patrimônio audiovisual brasileiro e aos profissionais da área.

63. Fontes: sites do FSA e da Cinemateca Brasileira. Originalmente publicado em MENEZES, Ines Aisengart. O profissional atuante na preservação audiovisual. Museologia & Interdisciplinaridade. Vol. 8, nº15, Jan./ Jul. de 2019. Nota do original com correção: A Cinemateca Brasileira é a única instituição que recebe materiais em Depósito Legal e conforme Laura Bezerra (2015), seu orçamento representa quase que a totalidade de investimentos em preservação audiovisual, no período, no país. Desta forma, considero o gráfico uma ilustração direta do desnível de investimentos em produção e preservação audiovisual”. O gráfico alcança somente até 2017, pois a partir de então a Cinemateca Brasileira não publicou mais relatórios institucionais. Em 2019, no novo governo, foram interrompidos os repasses do FSA.

64. Documento SEI / ANCINE - 0413350 - Resolução CGFSA Nº 101 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos FSA 2017. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 101 - aprova PAI FSA 2017.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

65. Por meio de mecanismo não reembolsável, que não prevê o retorno em lucro financeiro, mas com outros desenhos de contrapartida.

66. Documento SEI / ANCINE - 0845324 - RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos de 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Plano Anual de Investimentos 2018.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

67. Recursos disponibilizados para Ações e Programas - 2008 a 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. Acesso em: 3 out. 2020. Valor completo informado nesta data de R$ 4.558.877.384,00.

68. De acordo com Gomes (2020), a maioria dos materiais recebidos em Depósito Legal está em HD externos, que necessitam verificação contínua – “materiais digitais, portanto, requerem checagens e migrações mais constantes, uma necessidade que a Cinemateca Brasileira ainda não pode atender, tanto por limitações do número de funcionários, quanto financeiras”. Parte da numerosa coleção em vídeo magnético da instituição é oriunda de Depósito Legal. De um modo geral, no período de 2016 a 2020, não foram realizadas ações de preservação das coleções em vídeo e digital, somente duplicação para acesso. Considerando a inação, de uma forma ampla e sistemática, em relação ao escopo do patrimônio concebido em digital, pode-se esperar uma superação das (notoriamente altas) taxas de perda em relação ao patrimônio em película – sobretudo em relação às primeiras produções criadas em digital.

69. ICAB e NETFLIX fazem parceria para criar FUNDO EMERGENCIAL de apoio a comunidade criativa brasileira. Disponível em: http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html. Acesso em: 27 set. 2020.

70. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. Disponível em: https://www-newsweek-com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. Acesso em: 27 set. 2020. Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Acesso em: 27 set. 2020. O repertório de filmes antigos é um nicho explorado por plataformas como The Criterion Channel e Mubi, entre outros.

71. Um aspecto sensível para a comercialização de obras antigas é a normatização, para emissão do Certificado de Produto Brasileira (CPB) e a documentação dos direitos, para viabilizar o licenciamento. Historicamente, muitos filmes foram realizados sem a devida documentação e muitas empresas se dissolveram sem a documentação de repasse dos direitos.

72. No contexto brasileiro, onde a primeira atividade como profissional é explicar qual a sua função como profissional, os documentários da Netflix com imagens de arquivo costurando sua narrativa costumam ser uma explicação para leigos sobre a importância da preservação do patrimônio.

73. Relatório de 2016: páginas 55 e 56. Correção ao conteúdo: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) é colorido, não p&b.

74. Aqui vale uma reflexão sobre a excelência catalográfica e a boa navegabilidade do projeto, mas a necessidade de revisão de especificidades técnicas e das dimensões do logo ocupando parte da imagem, experiência reportada como frustrante para muitos.

75. Filmes brasileiros considerados perdidos ou prestes a sê-lo. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm. Acesso em: 21 ago. 2020.

76. Como tecnologias proprietárias; obsolescência de formato de arquivo, codec, software, hardware; gerenciamento de metadados; migração, entre outros.

77. Além de catastrófico ambientalmente para a fauna e a flora, a devastação vai afetar diretamente o campo de preservação de patrimônio cultural, pela relação direta com o clima, como a variação maior de temperatura e umidade, por exemplo. Desconheço estudos no Brasil sobre a crise climática e a área de patrimônio. Mundo afora, destaco o Orphans 2020, em torno do qual ocorreram diversos debates.

78. Supercomputador de inteligência artificial da série da Westworld (2016, Jonathan Nolan), ambientada em quase quatro décadas no futuro.

79. Cujo símbolo é a ciência sendo desacreditada pelas redes sociais e meios de comunicação de mensagens (sobretudo WhatsApp, empresa adquirida pelo Facebook), tornando difícil a difusão de informações cientificamente fundamentadas, com olhar crítico na contenção da pandemia de Covid-19. Uma pesquisa realizada em vinte países mostra que brasileiros são os que menos acreditam em seus cientistas: Brasil de costas para a ciência. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia. Acesso em 30 set. 2020.

80. Filmografia Ditadura Brasil. Disponível em: http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html. Acesso em: 2 set. 2020.

BIBLIOGRAFIA

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

The Cinemateca Brasileira (CB, or “Brazilian Cinematheque”), the leading audiovisual heritage institution in Brazil, is going through its worst-ever crisis in 2020. As a result, its extensive collection and elaborate technological machinery are threatened, as well as the knowledge that permeates from both. At the beginning of the year, a flood occurred in the Cinemateca’s warehouse, drastically affecting part of the film and equipment collection stored there. Since August 2020, the collection and facilities are without proper technical support; and at this moment of writing, there is no news of an immediate resolution that meets the urgency. Inaction and neglect with the Cinemateca Brasileira are just two examples of the Brazilian government’s perversities, which additionally include the structural dismantling of the public health, education, and cultural systems,1 and the ecocide and genocide of the country’s native and black populations, the latter of which has been accelerated by the Covid-19 pandemic. The Cinemateca crisis took on unprecedented proportions in 2020, but its origin came earlier, going through the administrative and political turmoil of 2013 and a fire in early 2016. This article discusses the work carried out at the institution in mid-2016, the challenge of its continuity after the team’s reduction in 2017, the alleged solution with a new management model in 2018, and the 2020 hecatomb.2 This text also presents a few conjectures about the relationship between Brazil’s audiovisual heritage and its audiovisual production industry. The series of crises over the last 74 years, marked by the four fires and the flood, are the broad consequence of what Brasília-based museologist Fabiana Ferreira highlights in her thesis “A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil” (2020).3 She claims, “the only stable aspect in public policies for audiovisual preservation is its inconstancy. A succession of disagreements and disarticulations by the political agents responsible for the creation and implementation of policies without a real national governmental project that crosses mandates” (2020, p.109). According to Hernani Heffner, chief curator of the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro, this is not only the biggest crisis in the history of the Cinemateca Brasileira, but also the biggest crisis of Brazilian audiovisual heritage.4

Overview of the Last Two Decades

Brazil is a federal republic of continental dimensions – the fifth-largest in territorial extension. It has 26 states and a federal district. The country has undergone two re-democratization processes, the most recent in 1984 after the end of the military dictatorship. In the 21st century, Brazil has had economic growth, a reduction of social gaps, and extreme-poverty rates. Universities flourished and the audiovisual industry solidified through new federal policies and programs as a result of the investment policies of the Audiovisual Secretariat (SAv) / Ministry of Culture (MinC),5 and the Audiovisual Sector Fund (FSA).6 These investments allowed new professionals to emerge in the film production sector and the consolidation of new film production companies, which, in turn, supplied an increasing number of new films each year. Eventual municipal and state resources for film production were added to the federal ones. However, Laura Bezerra observes that while the government invested in decentralizing cultural production policies, the same did not happen with film preservation (2015). While there were substantial investments in the Cinemateca Brasileira during this period and after the inclusion of the CB in the SAv’s organizational chart, there were also few political discussions about the implementation of policies and actions for the field in a profound way.7 This is a problem that is fundamental for understanding the development of the current crisis. As Fabiana Ferreira diagnosed, “The Cinemateca does not act in the creation and implementation of preservation policies, either by conducting discussions and holding dialogues with the sector or by actively participating in political spaces at the federal level, such as the National Film Council, for example. There was also no structured dialogue with other memory management entities” (2020, p.108). The State’s insufficiency in their management of Brazilian heritage causes profound reverberations, especially affecting the audiovisual production industry which seems to not recognize preservation as a necessary element for their works. Still, the current Cinemateca Brasileira crisis has become yet another argument for the decentralization (and increase) of investments in audiovisual heritage nationwide.8 Brazil has many federal, state, municipal, and private heritage institutions that are not in the spotlight and that also demand urgent actions and resources.

Over the last few decades, there has been constant maturation in the field of audiovisual preservation. For example, the establishment of specific financing programs; the distribution of new publications; the creation and growth of the festival Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), where the National Meeting of Archives and Audiovisual Collections takes place;9  the formation of the Brazilian Association for Audiovisual Preservation (ABPA) and the elaboration of the National Plan for Audiovisual Preservation (PNPA).10  Also, there has been a growing number of Preservation-related events each year.

Cinemateca Brasileira – A Brief History

The Cinemateca Brasileira has had several administrative arrangements. It began as a civil society organization and later moved to the public sphere. Its long history includes many setbacks with some positive developments. The writer, essayist, critic, researcher, professor, and activist Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977) is the protagonist in the creation, defense, and management of the Cinemateca Brasileira. Paulo Emílio’s impact on the field of Brazilian Cinema is broader than his work on the Cinemateca itself. His work was fundamental in the valorization of Brazilian cinema, in its qualification as a historical document, in the defense of its preservation, and in creating university cinema courses. Paulo Emílio was also active in international politics as a regular member of the Executive Committee of the International Federation of Film Archives (FIAF) between 1948 and 1964, eventually becoming the organization’s vice president. He is also a renowned author in historiographic studies of cinema, with publications on the French director Jean Vigo and the Brazilian filmmaker Humberto Mauro, among others. As a teacher, he was vital in the formation of numerous important scholars, film critics, and preservationists, such as Carlos Augusto Calil, Carlos Roberto de Sousa, Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet, Maria Rita Galvão, and Olga Futemma – some of whom continued his work at the Cinemateca Brasileira.

In consideration of the many publications on the Cinemateca Brasileira in Portuguese and the limited English repertoire that exists in comparison, what follows here is a brief overview of the institution’s key historical moments. In 1940, intellectuals from São Paulo created the Clube de Cinema de São Paulo (São Paulo Film Club), which promoted the exhibition of films, conferences, debates, and publications before being closed in 1941 by the country’s then-reigning dictatorship government. In 1946, Paulo Emílio went to France to study at the Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC). He grew even closer to the Cinemathèque française, an institution founded in 1936 with which he had contact since living in Paris during the previous decade – the period when his passion for cinema awoke. The second São Paulo Film Club was created in 1946, and in addition to its previous activities, it began to develop the initiative of prospecting and preserving materials from Brazilian films. 1946 is therefore considered to be the milestone year of the Cinemateca’s creation. Paulo Emílio affiliated the Club to FIAF in 1948. In the following year, the Film Library was created, and then connected to the newly created Museum of Modern Art of São Paulo. In 1956, the archive was detached from the museum and became the Cinemateca Brasileira, a non-profit civil society. The Advisory Council was formed the same year.11 As a result of the self-combustion of a cellulose nitrate reel, the Cinemateca’s first fire occurred in the summer of 1957, which “completely destroyed the library, the photo library, the general archives, and the collection of devices for the future cinema museum, as well as one-third of the film collection” (Gomes, 1981, p. 75). The tragedy elicited support and donations from national and foreign entities, and the Cinemateca resultingly gained space in the largest urban park in São Paulo, Ibirapuera Park. In 1961, the Cinemateca became a non-profit foundation, an essential status for its autonomy and ability to raise public resources.

In the following year, a new non-profit civil entity called the Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC, Portuguese for “Society of Friends of the Cinematheque”) was created to assist the Cinemateca in its management of financial resources and to develop various activities to support the Institution. Initially, the Cinemateca mainly held film screenings, but from the 1970s onwards preservation became its axis partly due to the declining state of its collection. The late 1960s and mid-1970s formed a critical period for the institution, as it had few employees and much voluntary work. Unfortunately, the Cinemateca was unable to pay its annuity fees, and therefore it was disconnected from FIAF in 1963. The CB became an observer in 1979 and received its full FIAF membership again in 1984. The Cinemateca’s second fire occurred in the summer of 1969 for the same reason the previous fire was triggered, resulting in the significant loss of film-related materials. In 1977, the institution’s Laboratory was created with equipment from commercial film laboratories that had been deactivated. Paulo Emílio passed away from a heart attack that same year.

In 1980, an operations Center was opened in São Paulo’s Conceição Park for documentation and research work. The third fire occurred in the autumn of 1982. As a result, a move was made to incorporate the Cinemateca into the public sphere. In 1984, the CB Foundation was extinguished, and the Cinemateca was attached, as an autonomous organ, to the National Pro-Memory Foundation. In 1989, a cinema12 theater was rented to screen the archive’s collection in the busy neighborhood of Pinheiros, which significantly leveraged São Paulo’s cinema scene. By the end of the decade, the Cinemateca staff consisted of about 40 people (many of them former students of Paulo Emílio), 30 of whom were hired with formal contracts.

In 1990, the government extinguished the National Pro-Memory Foundation and the Cinemateca was incorporated into the Brazilian Cultural Heritage Institute (IBPC). This organization transformed into the (still-active) National Institute of Historic and Artistic Heritage (IPHAN) four years later. In 1997, the Cinemateca’s current facility was founded, a heritage site converted from a slaughterhouse after nine years of reformations. The definitive headquarters13 aggregates the conservation and screening departments that had previously been scattered throughout the city of São Paulo. This centralizing was a crucial element in the institution’s consolidation process after decades of scarce resources, precarious infrastructure, and oscillations in institutional dynamics.

In 2001, a vault with a proper climatization system was inaugurated with an initial capacity of one hundred thousand reels. In the same year, the Brazilian Cinematographic Census project began14 with funding from BR Distribuidora.15 The Brazilian Cinematographic Census project was an essential step for appraisal and basic conservation procedures in the collection,16 and the training of technicians. The project “was organized around four basic axes: the appraisal and examination of the existing collection, which was previously concentrated and dispersed; the duplication of reels threatened by deterioration; the dissemination of the work and its results; the study of legal measures for the protection of audiovisual heritage” (Souza, 2009, p.258). In 2003, upon resolving that IPHAN was not meeting the scope of its tasks, and after deliberation by the Council, the CB was attached to SAv/MinC. In the following years, the resources transferred by MinC gradually increased. In 2003, the CB implemented a short internship program for technicians from other institutions. From 2004 to 2006, the Prospecção e Memória (Prospecting and Memory) project followed the Census project, especially concerning the cataloguing of Brazilian movies compiled in the Cinemateca’s Filmografia Brasileira (Brazilian Filmography) database.17

In 2005, SAv created the Brazilian Audiovisual Information System (SiBIA) which was coordinated by the CB. It was “a program that aimed to establish a network that currently counts on more than 30 institutions that dedicate themselves, primarily or in subsidiary fashion, to the preservation of moving image collections throughout Brazil”.18 In 2006, the CB hosted the 62nd FIAF Congress, “The Future of Film Archives in a Digital Cinema World: Film Archives in Transition”. In that same year, on the institution’s 60th anniversary, Luiz Inácio Lula da Silva became the first (and only) president of Brazil to personally visit the CB, with representatives’ delegation. In 2006, the CB published the “Manual de Manuseio de Películas Cinematográficas” and the “Manual de Catalogação de Filmes” da instituição (Film Handling Manual and Cataloging Manual), which became a primary reference for other preservation institutions, as scarce technical publications existed in Portuguese at the time. In 2008, SAC became a Public Interest Civil Organization (OSCIP) and, since then, the transferring of resources to projects carried out at the Cinemateca has been massive. Under SAC management, SAv’s projects were carried out in an agile way, unlike the Ministry’s bureaucracy. At that time, many of SAv’s programs were achieved at the Cinemateca, such as “Programadora Brasil”.19 As of 2008, annual reports that described the archive’s operations throughout the year were published online,20 except for the following years: 2013, 2015, 2018, and 2019. As a result of the census, the lab preserved and restored numerous films and created new access materials. In 2009, the CB launched the DVD box set “Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema), with 27 early films accompanied by new soundtracks. In 2011, a secondary site was opened in the neighborhood of Vila Leopoldina21 to store films, documents, and equipment. In 2012, the first edition of the magazine Revista da Cinemateca Brasileira was published and in the following year, its second edition was published.22 In 2013, a political-administrative crisis was initiated, and the Cinemateca’s executive director was dismissed without due dialogue with the Council or appropriate measures taken for finding his replacement or formulating a transition plan. The Comptroller General of Brazil carried out several audits regarding SAv resources executed by SAC and the acquisition of collections by the government.23 At the end of the year, of the 124 employees that had been working before the crisis, just a few remained, including 22 public servants directly linked to the Ministry.24 From the 2014 Report, it is possible to verify that some of the institutional workflow continued. Below, I present data that reflect the interruption of work in 2014 (and 2015). This work stoppage would drastically affect the CB’s collection:25

In the summer of 2016, the Cinemateca’s fourth fire occurred, again due to a nitrate reel’s self-combustion. The loss was estimated at a total of 1003 reels of cellulose nitrate films referent to 731 titles. In addition to the discontinuation of the nitrate collection analysis after the 2013 crisis, technicians realized a few years later that someone had allocated new reels at the Cinemateca’s nitrate vault without the proper removal of the transport packaging. This could have been avoided if the technical team had been tasked with allocating and reallocating works within this film collection. This oversight potentially created conditions for a microclimate prone to self-combustion, and it could have been the second factor responsible for the fire. However, the first and most important factor for the fire will always be the government's neglect, given the lack of resources for the institution’s primary activities.

Cinemateca Brasileira –  2016 and 2017

The 2016 fire coincided with hiring 11 new technicians, an action made possible by a one-year contract signed between SAv/MinC and the Educational Communication of the Roquette Pinto Association (Acerp) at the end of 2015. Altogether, until the middle of the year, 42 technicians were hired, in addition to the 15 public servants directly linked to MinC. Third-party companies were contracted for essential services (maintenance, cleaning, security, and IT). Seven technicians were also hired for the flow of Legal Deposit,26 made possible by the Brazilian Film Agency (Ancine). The tone set by Cinemateca Brasileira director Olga Futemma27 in the 2016 Report is one of optimism and pride in meeting the goals established in the contract’s Work Plan, though there are due signs of the difficulties and challenges created from the discontinuity of work in the previous years in the report as well. A highlight of the work carried out as a result of the fire:

“Appraisal and reporting the losses […]; examination, separation by technical deterioration [...] for lab processing; provisional allocation of the remaining 3,000 nitrate reels; creation of a project, for the burnt vault, for fire prevention devices [...]; basic renovation of the vault, carried out by the Cinemateca’s team, for the return of the collection [...]; technical disposal of fire residues”.

Despite the disaster, MinC did not provide resources for preventing further fires.28 Another challenge explained by Futemma was the situation of the Laboratory, which had undergone a work stoppage. “The scenario was heartbreaking”, she claimed. To stress its importance: The Laboratory at the Cinemateca Brasileira is the most complete (and possibly last) of the photochemical labs in South America. It has the ability to process film-to-film, including 35mm and 16mm, b&w of all materials and color prints. The Lab can process smaller gauge film formats such as 8mm, 9.5mm, and 16mm film as well. In addition to its capacity to specifically work with film, the Lab also contains a wealth of digital equipment. These include the ability to scan 35mm film-to-digital (HD, 2K, 4K, 6K) and the ability to print digital back-to-film, such as printing digital to 35mm film. The Lab can scan several video formats to digital, including U-Matic, Betacam SP, Digital Betacam, DVCam, and others. It also has the capacity to conduct digital image and sound manipulation, including color correction and restoration. The machinery has even been outfitted over the years to process materials with advanced deterioration.29 However, due to the lack of staff over previous years and the resulting lack of maintenance and parts, it became impossible to resume some of these workflows.

The Cinemateca’s current audiovisual collection comprises about 250 thousand nitrate, acetate, and polyester film reels, in addition to a large gathering of magnetic tapes and reels, and approximately 800 terabytes of digital data – mainly comprised of digitized materials from the collection and Legal Deposit materials. The film-related collection comprises about one million documents, such as posters, photographs, drawings, books, scripts, periodicals, censorship certificates, press materials, and documents from personal and institutional archives.30 There is also a non-cataloged equipment collection. In recent times, the institution’s resources and activities were divided among the following departments: Film Preservation, Documentation and Research Center, Access – Programming31 and Events, Administration, Maintenance and IT.

In the Film Preservation sector, several task flows were executed throughout 2016: monitoring of the climate control of the deposits, movement of materials according to their physical state of deterioration, documentation review, applicant services, and emergency duplication of materials (which will be discussed more later on). A significant element of our workflow was to document mandatory preservation actions in a collective fashion, a task for which the Cinemateca lacked sufficient resources. After months of corrective maintenance and evaluation of lab chemicals and raw film stock, the processing of deteriorated film materials began: per the 2016 report, “the selection was made by considering the technical conditions of the materials, [with an investment of] less time and resources in the complementary actions of a single work so that it would be possible to make feasible actions, although incomplete, in a wider number of materials”.32

Due to goals established in the Work Plan and the limited available time and staff in 2016, the selection of films for processing in the Lab was only carried out by one technician. However, the ideal context would be one in which there were institutional debates and discussions about the film selection process. Attention was taken not to select consecrated narrative feature films,33 but instead, to cover “material from fiction films, documentaries, newsreels, domestic films, and scientific films… without subjective evaluation of the content of the works or any curatorship” (2016 Report). The selection prioritized the state of deterioration of the materials and not their content. An aspect of this workflow worth being critical of is that many worthy films were not being selected, which possibly further increased their ostracism. Throughout the analysis process, some materials were evaluated as not processable. Since these films were considered unique, if they were not processed and restored, it would represent the death of the images and sounds they contain. Countless materials so deteriorated that they did not meet the conditions for a complete duplication. Also, newly generated materials often contained photographic marks of deterioration that were existent in the material prior to them. During this workflow, the film stock purchased in previous years was used. However, a few years later, the archive ran out of raw film stock for its workflow.

The eventual losses of films and the specificities of processing them raised awareness around the need to create a standardized methodology for evaluating and documenting films. Because every film is its own unique material, this standardized methodology could help guide preservation and access actions. The “preservation status” was thus created, and this categorization was integrated into the film’s internal documentation and incorporated into communications with the rights holders. This documentation would include the categorization of the preservation status, like “partially preserved” and “partially lost”, with recommendations such as lab processing or research for new materials.34 Since these categories would frequently vary throughout the year as the materials’ physical conditions could change, the original date that a film’s status was proclaimed was as important as the actual status itself.

The database solution used at the Cinemateca Brasileira was WinIsis,35 which is a poor tool for complex data analysis. Several workflows – analysis, outflow of materials, and creation of new materials – required constant updating of the audiovisual database, which was interrupted because of the institution’s broad structural problems. In parallel, the open-source and Web-based project Trac36 was purposed and standardized for internal documentation workflow on the intranet. Trac was basically a Wiki documentation and ticket system. According to the 2017 Report, this intranet “makes it possible to maintain information horizontally among sectors, collaboration in the construction of documentation, the continuity, and organization of information on the same platform, […] used to document different internal procedures; norms and instructions for internal documentation; reports and texts related to the institution; information related to external requests and data of materials analyzed and processed”. The effort to keep internal documentation accessible, horizontal, and transparent, consistent with a memory institution’s role, did not comprise communications with Acerp and the projects sent to the Ministries. An essential element for those years was the investment in technological development, as documented in the 2017 report, which allowed the analysis of information from the database in a dynamic way and the research for solutions to foster the institution’s autonomy.

The ClimaCB project is worth mentioning, as it allowed for the online monitoring of climate control. It is a combination of open-source software and hardware that would list which guidelines and codes would be available in Git for free use. Unfortunately, the project was not published. Considering the potential cardinal role of the CB within the scope of Brazilian audiovisual heritage, it is clear that participation in technical discussions and the publication of proposals and technological solutions are both wanted and needed.

During the two years under the Service Contract, Olga Futemma held meetings with the technical staff to share news, impressions, and strategies. The meetings reinforced the notion of the team’s proportion and strength and served as an injection of spirit. Another positive development that brought the preservation team together was the Cinemateca’s new website, as the previous site had had obsolete navigation and tools. A moment of heightened visibility came when a short video made by the technical team showing the history of the institution’s logo dating back to 1954 became widely shared on the internet.37

The staff in the Film Preservation department was balanced between former technicians who ensured the continuation of workflows and new technicians who provided fresh evaluations for the workflows. The difficulties in creating interpersonal relationships during previous years and feelings of insecurity over the 2013 crisis were negative aspects that we avoided discussing within the workspace.

2016 was marked by the autonomy and intense communication of the technical team, but also by setbacks. In May, MinC published a public tender for electing a Social Organization (SO) to undertake the CB’s management. This was still during the Presidency of Dilma Rousseff. Shortly afterward, a misogynist coup occurred – by dint of the process of impeachment which eventually led to Rousseff’s ousting and the taking of power by her former vice president. Shortly after he took office, he tried to end MinC, but reversed this position in response to intense popular pressure. The new Minister of Culture canceled the public tender for electing a Social Organization for the Cinemateca Brasileira, and it was released months later with changes.

July 2016 brought one more surprise: after a restructuring of MinC, five positions at the Cinemateca were eliminated. At the time, these positions were occupied by the director and experienced technicians. A new director would be indicated by the Ministry, without the necessary expertise and without the Council’s participation, a move considered to be unprecedented at the time. Audiovisual associations issued letters against this announcement and the Council issued a manifesto38 in favor of revoking the layoffs and proposing a partnering with the Brazilian Museum Institute (IBRAM). The stance eventually led to the reversing of the dismissals and a rehiring of the director and technicians.

In the following months, the CB and SAv/MinC jointly sought to prevent a gap between the expiration of the Service Contract with Acerp, which would end in December, and the new management determined by the selected SO after the public tender. A solution was finally found a day before the contract’s expiration – an extension until April 2017. But, “as the residual value is not enough to remunerate for four months all technicians previously hired, it was necessary to reduce the staff (by about 75%) and, as a consequence, workflows”, according to that year’s report. The year ended with mixed enthusiasm for the future of the CB. While there was Paulo Emílio’s centenary celebration, which included the launch of a series-specific website,39 courses for the general public and publications devoted to Paulo Emílio’s work, there was also discouragement for the downsizing of the Cinemateca’s team, as the staff would not be the same size again until June 2017. The impact on the CB of the substantial reduction in technicians is evident, as can be observed in this 2016 and 2017 lab processing chart which reflects the amount of processed material:

In May 2018, the contract with the SO for the CB’s management was signed, followed by a ceremony attended by the then-Minister of Culture, who claimed that “the crisis is over” thanks to the new management model. Acerp, which managed the CB via a Service Contract that began in 2016, was the SO selected in the public tender. In the case of the Cinemateca Brasileira, this legal indenture would contribute to the current crisis. It was not legally possible for Acerp to directly sign a contract with the Ministry of Culture (to which the Cinemateca was linked) due to its preexisting contract with the Ministry of Education (MEC). Thus, the management of the Cinemateca was officially fulfilled by an amendment to the main contract.40

After the contract’s signing, Acerp appointed a new director without the deliberation of the Council, which was then ostracized from further organizational discussions. Acerp’s first action that had a substantial impact on the dynamics of the institution’s technical team was creating a new customer service department, installed for meeting the growing number of outside requests, especially requests for access to the Cinemateca’s audiovisual collection. The other sectors’ services and fulfilling access requests never stopped; the main bottleneck was providing access to the audiovisual collection. Every collection request was in theory recorded, answered, and eventually met in the order of their arrival, the possibility of completing the request, and the processing time to complete it. Despite this protocol established by the team, a sign of the CB’s subjugation would be the intensification of projects becoming prioritized over others, as determined by the Minister or the board of Acerp. This non-conformity with the institution’s protocols generated personal discomfort among the preservation team.

For the Film Preservation department workers, the new customer service meant there would be no more contact with researchers and producers, who were used to the greater agility in meeting their requests that the larger staff provided before 2013 and were frustrated by the reduced team’s limited response. Besides, the dialogue with producers and researchers about their practices showed a lack of understanding of preservation’s importance. Furthermore, this dialogue proved to be shortsighted from a market perspective when accessing materials held in the CB for digitization without proper processing.41 Another indication of incomprehension and disrespect for the preservation team was that the agreed upon financial compensation that the institution was expecting never arrived. This matter was elegantly noted by Olga Futemma, who stated in the 2016 Report: “some of the bad situations we faced were due to: tight deadlines; the total disregard of the need for compensation – not in monetary terms, since the Cinemateca cannot charge [for admissions, loans, or services at the time], but in actions that should have been foreseen in its projects and that would allow expanding the collection [...]; the misunderstanding that unique (preservation) materials should not leave the collection without supervision […]”. She added that “it is necessary, therefore, to continue to make efforts to change the conception of the public good as something that can be freely available for the achievement of private projects, and for the understanding of the need, still in the elaboration phase, to consult with the Cinemateca on the feasibility of the project in concerning the intended materials and the deadlines necessary for their availability. These are two necessary conditions for planning whose meeting benefit both the requester and the collection”.

In September 2018, former members of the Board issued an Extrajudicial Notification to MinC, requesting the “revocation of acts […] and rules that violate the technical, administrative and financial autonomy ensured in the deed of incorporation of the Cinemateca Brasileira Foundation […], in addition to: 1) The constitution of a new advisory council in compliance with the necessary autonomy of the body; […] 3) Return of the Cinemateca Brasileira to the structure of IPHAN”. The notification also mentions the “SAv’s omission in the face of the [2016] fire […], and that the Cinemateca Brasileira is no longer part of the structure of the Ministry of Culture and has not earned any public positions”.

Cinemateca Brasileira’s Management by the Social Organization

At the time of the Cinemateca Brasileira’s consolidation in the first decade of this century, maintaining its technical staff was a constant challenge. The technicians were hired for projects with specific durations via different forms of hiring.42 This dynamic created fragility and instability in workflows and compromised strategies and structural solutions, in addition to leaving the technical team in vulnerable positions.43 The SO management model would be the desired solution to enable the stabilizing of the technical team’s employment statuses after years of scarcity. Futemma evidenced this hope in an e-mail sent to the ABPA listserv: “This discussion [of the SO management model] has been taking place for eight years, involving MinC, SAv, the Council and the Cinemateca team. We have great expectations that, by the end of this year, a new management model will allow the Cinemateca Brasileira to exercise its full potential in favor of Brazilian audiovisual heritage”.44

The SO management model was the solution deliberated upon after a period of instability among the Cinemateca’s technical staff. It came with the possible preference of a SO created especially for the management of the CB, Pró-Cinemateca, built in 2014 by members of the Council and SAC with the sole purpose of managing the Cinemateca. It would potentially have the participation of professionals from the field in the construction of a Work Plan – the core document for the management itself and one of the selection criteria in the public tender. Pró-Cinemateca qualified for the first tender call, but it could not advance in the second tender call due to a new requirement for previous experience of the institution in the management of public resources. The Pró-Cinemateca itself had no experience, as it had only been created recently. Still, its representatives had spent many years at the Cinemateca’s Council, which, in practice, could have been argued as a more relevant credential than the company’s management history.

Today, following the emergence of controversies surrounding the management of other public entities, cases of corruption, and a series of publications made in the Academy and on the internet, the SO management model is widely questioned.45 It has been shown to be particularly risky for cultural heritage institutions with insufficient government funds, contexts in which essential conservation workflows (often costly and of low visibility) can be overshadowed for the benefit of actions with greater visibility. The elaboration of a work plan without the technical team’s effective participation can compromise its primary objectives. As diagnosed by Fabiana Ferreira:

“Another problem with this tenure is, claiming people are free to raise funds through means other than the State ignores that they also end up at the mercy of the State. Because, in Brazil, there is no tradition of private institutions supporting culture. The private sector in Brazil does not support cultural initiatives. Traditionally, millionaire families and Brazilian corporations do not make donations or investments in cultural equipment, even less for those who do not give visibility to the brand”. (2020, p.110)

In the CB’s case, the management by the SO enabled the CLT (Consolidation of Labor Laws)46 hiring of a good part of the team, whose choice, fortunately, fell to the institution’s coordinators without the intervention of Acerp. However, the technical staff gradually became conditioned to the Acerp guidelines. This conditioning was evident during internal meetings, where it was no longer possible to play an active role in collection prospection47 or to speak on behalf of the institution without Acerp’s consent. Signs of change were perceived in the team’s modes of social interaction in a dystopian way. For example, a camera network to oversee the collection and equipment was installed by Acerp and covered spaces previously used during work breaks. This modern panoptic lookout generated discomfort among us.

Internal courses on technical subjects or on workflows and activities between sectors, which had been held regularly since 2017, were suspended. Fundraising for the Cinemateca was among the actions sought by Acerp, and the usages of the collection and facilities proved to be a quick means to this end, thus generating long periods with a constant flow of production of major events that held varied themes, sometimes apart from the cultural and audiovisual spheres. Since Acerp did not issue the 2018 and 2019 Reports, access to information about these events is not possible to obtain. The absence of the publication of annual Reports is a dangerous indication of the failure of the SO model for the Cinemateca, as they have been essential documents for accountability and transparency of the institution’s management. During the SO period, Acerp issued reports for the Ministry on the performance of Work Plan goals. However, these documents are quite technical and not very informative, in addition to being inaccessible today to the general public. Acerp proposed a Code of Ethics and Conduct for CB employees, presented at an event on company compliance – the sole enunciation of religious beliefs48 was a significant demonstration of the distance between Acerp and the CB’s institutional mission.49 Plus, Acerp’s inability to clear bureaucracies for equipment acquisition for the Lab was evident, which affected work plans that were reliant upon such equipment’s availability. Requests for access to the audiovisual collection by TV Escola for use in their programming became routine, while Acerp meanwhile ignored some work-related needs pointed out by the technical staff. Film programming proposals were negatively impacted by the presence of Acerp. After all, how does one present the idea of ​​a Fassbinder series to a board that made homophobic jokes during small talk before meetings?

The late self-cancellation of CryptoRave’s50 2019 edition by the Cinemateca team for fear of reprisal was symptomatic. An undeniable symbol of the occupation by Acerp was the creation of a new institutional website without the active participation of the CB’s technical staff in editorial decisions. As an example of this fiasco, Acerp implemented a new website without the previous dynamic calendar tool. Resultingly, the new website has a more updated design but is less functional than the previous site had been. Also, Acerp immediately implemented an intermediate logo (‘cinemateca brasileira’ in white on a red background), replacing the 1954 logo which was created by the celebrated designer Alexandre Wollner. Acerp commissioned a new logo design that was presented to the technical staff, and allowed us no time to deliberate as to whether or not we approved of it. The fresh concept and layout were surprisingly similar to the logo of the Curta Cinema - International Short Film Festival in Rio de Janeiro. Acerp is in fact headquartered in Rio de Janeiro and the Cinemateca Brasileira in São Paulo,51 which produced another convoluted aspect: the expenses of transportation, accommodation, and meal tickets for directors, managers, and legal consultants between the two cities, which altogether sum up to a considerable amount. Rather than spend this money on transportation, it could have been invested in the CB itself.

An unquestionable symbol of the SO management model’s failure for the Cinemateca was the dissolution of the Council, constituted of representatives of the government and civil society. The CB’s 1984 legal document of incorporation to the federal government determined the existence of the Council. Acerp, acting without the Council’s input, appointed several directors who had no experience in heritage or preservation fields. This appointment further alienated the technical team who worked to manage the CB. In addition to all of this, the Cinemateca – a historically non-partisan institution – became, through Acerp, the destination of people linked with the extreme right-wing political party of the acting Brazilian president. These people assumed various administrative and communicative positions at the institution without any proven expertise. The newcomers would frequently present the institution’s vaults to visitors without a technician’s due presence, further undermining conservation efforts. The presence of military personnel at the Cinemateca52 and their failed attempt to organize a military film series gained broad reverberations. During the first two years of Acerp’s management (2016-2018), the technical team was autonomous and in control of projects. However, there was a major loss of autonomy in the SO management model from 2018 onwards.

The administrative limbo of ten public servants who were allocated to the institution found themselves in is another important matter. Since the beginning of the SO management, when the CB ceased to have administrative backing under the former SAv/MinC, these people had remained in their positions. Some of them had served at the institution for more than three decades. Before the SO amendment was signed, they were guaranteed that they would not receive losses in their salaries and benefits. However, after the amendment was signed, the governmental understanding changed, and their assignment to Acerp was never made official. Despite this situation, the Ministry instructed these workers to continue with their activities at the Cinemateca. After a year and a half of neglect and contradictory messages, they had to abruptly abandon their functions at the CB to work at the Southeast Ministry’s Regional Office in São Paulo without any infrastructure to welcome them. In addition to this sudden displacement, they were forced to acquiesce to a legal process based on the necessity of returning a bonus earned during the period that they had worked at the CB under the SO administration – a bonus which represented a significant part of their salaries.

Although Acerp assumed the institutional relations more broadly, the Cinemateca’s relationship with FIAF continued to be maintained by Olga Futemma and fellow coordinators, who issued thorough annual reports to FIAF and the prompt inspection of information requested by affiliates. However, between 2016 and 2019, neither Futemma or the coordinators represented the CB at the FIAF congresses held in Bologna, Los Angeles, Prague, or Lausanne.

2020 Crisis

In February 2020, the CB’s off-site facility in Vila Leopoldina was badly affected by a flood from heavy rains and lack of proper management of the storm sewer, combined with the intense pollution of the Pinheiros River, less than half a mile away. The sewage water reached more than a meter in height and destroyed a part of the film and equipment collection, including the last surviving materials of some narrative short and feature-length films, as well as many unique elements of newsreels, advertising materials, and trailers. The Documentation and Research Center assessed the damage such that it was not considered to be significant, since the majority of what had been destroyed was duplicated material. The flood damaged shed facilities and equipment. After thoroughgoing sanitation of the facility by the cleaning team, a part of the technical staff was deployed to clean, organize, and rescue the affected materials. Acerp or SAv did not carry out an emergency plan for the urgent assessment and processing of the site’s audiovisual and equipment collections (which had been the most affected by the flooding), such as hiring an extra technical team temporarily or even granting permission for the obtaining of volunteer work.53 The catastrophe was not immediately reported due to the lack of coordination between SAv and Acerp, and the technical team was not permitted to make news of the flood available to the public. The small team established different shifts in consideration of the high toxicity of the environment and the exhaustive work involved, with their efforts made all the more difficult by the warehouse’s high temperatures without air conditioning and local ventilation.54 Film materials were selected and transferred to the main headquarters for evaluation and processing in the Lab, but the raw film stock was running low. The damage of the audiovisual and equipment collections in the facility, the inaction of SAv and Acerp, the crisis which would subsequently occur, and the interruption of the rescue and research work ultimately makes this flood equivalent in nature to a catastrophe like the Cinemateca’s fires. Per Fabiana Ferreira, such disasters “are a metaphor for the fragility of the making of an audiovisual preservation policy that goes up in flames with each change of Government, of the creation of entities, of new agents” (2020, p.23).

Since the 2013 crisis, the Ministry’s funds have fallen short, which has resulted in smaller teams than were anticipated for the work plans. At the end of 2019, there was yet another crisis, when the then-Minister of Education (MEC) decided not to continue the TV Escola project – the main object of Acerp’s contract with MEC – and did not renew the SO Contract with Acerp. Once the MEC’s main contract was extinguished, all other agreements were also terminated. This is despite the CB-specific amendment ostensibly being valid until 2021. As a result of this termination, the administration of the CB was left adrift. Acerp spent a few months trying to circumvent the decision and to obtain funds from SAv, the Special Secretariat for Culture, and the Ministry of Tourism, but without success. The year 2020 was filled with absurd news of government decisions involving the CB, causing commotion in the filmmaking community and becoming widely covered on media outlets and social networks.55 In April, Acerp stopped paying outsourced companies and technical staff. Former members of the Council launched a manifesto in May.56

The Federal Prosecution Service initiated civil legal action against the Brazilian federal government in the interest of compelling an emergency renewal of the contract with Acerp. By the end of October 2020, the understanding has been a settled situation involving contracting essential services such as security personnel and firefighters. However, the action is still in progress, and the expectation exists for a new decision that will be favorable to the CB. Resistance and protest networks have been formed and strengthened, diffusely, with multiple participants who have narrowed their communication efforts over time: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, and representatives of the São Paulo Association of Filmmakers (Apaci) - SOS Cinemateca.57 These groups have been active in performing demonstrations on behalf of the Cinemateca and building connections with municipal and federal government representatives. During this time, the CB’s spokesperson has not been the manager or the coordinators, but rather a diffuse representation of employees.58

The technical team continued to work remotely (when possible) soon after the COVID-19 pandemic began and went on strike in June with the Union’s practical assistance. A campaign was then initiated by CB workers to raise funds for colleagues who were left in the most vulnerable situation due to the lack of payed salaries right during the outbreak of the COVID-19 pandemic. The campaign received numerous contributions from individuals and institutions around the world.59 Direct donations were made directly to the CB, such as one from a Brazilian director who donated a sum for repairing a generator and wished to keep his contribution anonymous. In July, a debate was held in the Chamber of Deputies60 with the presence of government representatives and different players in the audiovisual industry and a number of other civil society members. The discussion served as a symbol of the unprecedented repercussion and engagement around the Cinemateca. In a way, it also highlighted the need for preservationists to ensure that the language and information spoken about the CB was factually accurate.61

There were few instances of direct communication between Acerp’s board of directors and the CB technical staff, and the coordinators were sharing news related to the institution in a sporadic fashion. In June, Acerp’s directors issued an undated statement (undated!) expressing solidarity on “difficulties that everyone is going through,” claiming, “do know that we are doing ... everything that is within our reach”. The statement included the commitment that “as soon as we receive funds from the Federal Government, the first step will be to pay salaries and termination packages” – even though it had already been made explicit that there would be no funds transferred by the government. Considering the lack of resources in 2020 for the Cinemateca, the flood, the crisis arising from the Covid-19 pandemic, remote work, and the suspension of wages and benefits, this statement symbolizes the neglect and disrespect that Acerp showed the CB staff. After handing over the Cinemateca’s keys to the Ministry on August 7,62 Acerp unsurprisingly and abruptly fired all of its and the Cinemateca’s employees without arrears and severance pay.

As noted in the 2020 Gramado Letter (published just after the annual Gramado Film Festival), “after countless phone calls, messages, consultations between the parties and postponements, basic and emergency water and electricity services were guaranteed […]; cleaning services were contracted, although the company is not specialized; maintenance services for climatization equipment were contracted, although the company does not offer the necessary expertise; a small fire brigade composed of two employees and a property surveillance company were hired. However, specialized employees’ primordial work is lacking among the emergency needs, without which the collection will not be preserved, even with the resumption of the basic services described above”.63 Without technical monitoring, the smallest of incidents in the collection areas can hold drastic and irreversible consequences. This is the first time in the history of the Cinemateca that any of its technical staff members have been restricted from entering the institution.

Together with the news of the handover of the Cinemateca’s keys to the Ministry of Tourism, it was made clear that a new SO public tender announcement would soon be launched. This announcement has not yet occurred. There is a budget forecast of R$ 12.5 million [about USD 2.3 million] for the Cinemateca in 2020. If not used this year, this value cannot be added to the sparse R$4 million [about USD 720 thousand] foreseen for 2021. São Paulo councilors from different political parties organized a parliamentary amendments fund for the Cinemateca, with support from Spcine, the predominant audiovisual agency in the city of São Paulo. The deploying of municipal resources towards a federal institution requires an unprecedented legal articulation, which is being made by SAC for the emergency hiring of a small technical body. Today, civil society groups are still active, with an attempt underway to activate entities and continue the mobilization.

It is imperative to create an immediate solution to make a technical team viable in 2020 so that the Cinemateca’s collection does not remain unaccompanied. Furthermore, mechanisms are needed for the continuance of middle and long-term management, in a resilient and sustainable manner that can prove consistent with the need for constant maintenance of the collection and continuance of the technical team. It is considered fundamental to open and create calls for civil service examinations for job positions that could confer the desired stability. As diagnosed in the 2020 Ouro Preto Letter:

“Preservation of cultural heritage is a constitutional duty of the Brazilian State and, therefore, it is necessary to recover the role of the public power in the management of audiovisual heritage institutions, resuming the processes of opening public tenders for job positions and implementing management plans designed together with civil society, a directive provided for in the 1980 UNESCO Recommendation for the Safeguarding and Preservation of Moving Images

An idea that has appeared throughout numerous online discussions is the return of CB to a federal government heritage institution such as IBRAM or IPHAN, to which the CB was linked until 2003, when it became the responsibility of SAv. This link to IPHAN provided continuity for the CB in the early 1990s when the federal government promoted the dismantling of cinema and institutional policies. IBRAM is an autonomous organization linked to the Ministry of Tourism, which covers thirty national museums.

Legal Deposit and the Audiovisual Industry

Despite the unquestionable duty of the State (and its evident neglect), I emphasize that interest and concern about an effective preservation policy must be seen as relevant by all sections of the audiovisual industry. We must challenge the generally held assumption that the “symbolic asset of memory is inferior to the symbolic asset of a feature film shown in shopping mall cinema venues” (Ferreira, 2020, p.111). This value was built, for decades, by the industry itself. It is possible that the FSA’s prosperity (and the increase in investments in development, production, distribution, and exhibition), together with the inaction of the audiovisual industry concerning preservation, are directly related to the dimension of the current Brazilian audiovisual heritage crisis. ABPA has repeatedly pleaded for seats on the Superior Council of Cinema and on the FSA Fund Committee, without success. In the 2018 CineOP debate “Frontiers between Industry, Market, and Archives – Content, Promotion and Regulation”, a representative of the FSA Fund Committee suggested for preservationists to search for a different financing source for preservation, distinct from the FSA. When a professional raises such a possibility (and his attitude is common among producers), he does so without understanding the importance of preservation for the entire industry, nor his role in defending the Cinemateca and audiovisual heritage policies. Let this defense be made from the personalized perspective, considering that some of his assets may be held at the Cinemateca: footage for his next film as a producer, the origins of his debut feature, or his family’s home movies. The Cinemateca’s activities in discussions, publications, forums, and technology research could also benefit him in other ways. As Paulo Emílio wrote, “You can’t make good cinema without a cinematographic culture, and a living culture simultaneously requires knowledge of the past, an understanding of the present, and a perspective for the future. Those who confuse the action of cinematheques with nostalgia are mistaken” (1982, p.96). The production industry grumbled64 when debating the need for investments to deal with the giant backlog of audiovisual works which need to be preserved in order to serve the production industry. Such preservation benefits this industry as they are then able to commercially utilize the collections. The business model does not close until we have a massive investment to deal with decades of setbacks and stagnation. I grumble back with this chart:65

In April 2017, the FSA’s 2017 Annual Investment Plan66 comprised R$ 10.5 million [about USD 1.9 million] for the Cinemateca Brasileira. This announced value for the CB was equivalent to 1.4% of the total announced in the document. The amount was never paid, with the justification that the non-refundable funds67 ran out. In May 2018, the FSA 2018 Annual Investment Plan68 appointed R$ 23.375 million [about USD 4.1 million] for investments in Preservation. In December of that year, SAv published a tender for Restoration and Digitization of Audiovisual Content. These were funds that allegedly held a return on investments made by audiovisual companies in restoration or digitization. A preservationist workgroup and CB technicians aided in construction of the document and the digitization and restoration technical guidelines. From the preservationist’s perspective, the tender was intended only for producers with a distribution bias and held the preservation aspect as secondary. The current government suspended the tender about four months after its publication. Therefore, out of a possible sum totaling over R$ 4.5 billion69 [about USD 801 million], no FSA funds whatsoever were actually invested in preservation between 2008 and 2018.

Currently, the Cinemateca Brasileira is the onlyx institution nominated to accept Legal Deposit materials. Since 2016, Ancine has invested no more than R$ 2 million [about USD 356 thousand] in hiring a technical team to analyze materials. New technicians must be hired specially for this, as the Legal Deposit workflow mobilizes several sectors and technicians. Over the years, the CB reported a high failure rate of materials analyzed. According to Gomes (2020), “one of the main causes seems to be the great distance and little information from directors/producers about, in a broad way, the role of an audiovisual archive, and more specifically, the principles of the Legal Deposit”. The expertise in analysis of materials without funds for preserving the Legal Deposit collection can be metaphorically considered through the gesture of slashing one’s own throat. The analyzed materials are left inert on shelves in an air-conditioned vault at the mercy of the famous “silent death”.70 The industry must take part in actions towards the improvement of approval rates and creating conditions for preserving digital-born materials within the scope of the Legal Deposit. Broadly, the narrative and the struggle for policies related to audiovisual heritage must also be formulated and driven from within the industry.

The panorama of the Cinemateca presented in the 2020 Gramado Letter is very significant, with several associations listed as signatories, including other film archives, professional TV networks, and audiovisual companies. A positive sign was a discussion about the crisis during the ABC Week of 2020 (organized by the Brazilian Cinematography Association [ABC]), which is considered to be one of Brazil’s most significant events devoted to audiovisual production. But we still need tremendous action to get closer towards recognizing that this crisis at the Cinemateca Brasileira must remain a concern for the entire industry.

The 2020 Ouro Preto Letter highlights, among many urgent matters, the implementation of a national policy for the area of cultural preservation. The letter outlines some of challenges which will be faced, such as “to claim the creation of mechanisms, to expand the offerings of Brazilian audiovisual works in the catalogs of streaming platforms, with the guarantee of inclusion of works from different periods that can allow access to the vast Brazilian audiovisual heritage”. What would be the suggestion proposed by Netflix (used here as a platform model), for example, regarding the need for investment in Brazilian audiovisual heritage? Such an investment would only provide an opportunity for company-improvement, made viable by Netflix’s presence among the 12 companies that profited most during the current pandemic.The proposal is not so absurd, considering that the company’s Brazilian wing created a R$ 5 million [about USD 891 thousand] emergency fund for the Brazilian audiovisual industry due to the recess in the context of the Covid-19 pandemic.71 The availability of older works on streaming platforms is also a point of concern in the United States.72 In general, Brazilian producers do not have resources for digitizing older titles in ways capable of meeting the platform’s technical parameters and, need to potentially spend whatever resources they do have on lawyers who can help them with rights clearances.73 So, how about the platform launches an investment line for non-contemporary works? This idea would be contemplated by the 2018 SAv/MinC/FSA tender for “Restoration and Digitization of Audiovisual Content”, suspended in 2019. The strength of the audiovisual heritage institutions also would benefit the streaming platforms themselves in the middle term, considering the strong contemporary trend of documentaries based in archival images.74 As an illustration, there is a significant number of U.S. documentaries available on Netflix Brasil that use archival images to build their narratives such as Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), the documentary series Remastered (2018), and Explained (2018). However, there are comparatively few Brazilian films and series that feature archival images to this extent, one exception being Thiago Mattar’s Taking Iacanga (2019).

In addition to the CB Lab’s conservation of its collection, I call attention to the confection of new film prints and digital copies, such as those pertaining to the collection Classics and Rarities of Brazilian Cinema, (which was founded in 2007 and underwent its fourth edition in 2016) and those made in celebration of the annual International Day of Audiovisual Heritage. As a means of registration, I highlight the 35mm and digital prints made in 2016, as contained in the Report.75

Creating new 35 mm prints is one of the crucial roles of a film archive with a photochemical lab, as it is vital to provide an experience in line with the original screening format of a film. Considering how digital exists for the sake of broader circulation, digital access files are made in different formats. In the context of the CB, the effort to digitize films made on film would be carried out more fully with some form of pre-established screening event, ideally with formal curatorship and due contextualization for the works. Currently, the clearest path to digital diffusion of CB assets comes via the institution’s own online Cultural Content Bank (BCC).76

Rafael de Luna Freire’s Cinelimite article "Ten Brazilian Films that Remain in the Shadows due to Poor Accessibility" discussed digital inaccessibility for a combination of canonical titles and rarities throughout the history of Brazilian cinema. In addition to creating effective digital access actions, it is crucial to assess whether original film materials exist beyond imminent risk or whether they in fact require urgent preservation or duplication measures. Rafael de Luna’s list evoked the text “Brazilian films considered lost (or about to be lost)”, published in 2001 in the now-extinct Web magazine Contracampo.77

Differently, the 2001 list was about the existence or loss of preservation materials. In addition to some titles that were eventually lost, others had their (known) unique materials deteriorated to the point of making lab processing unfeasible. In light of the Cinemateca Brasileira crises and the paralysis of research work, preservation actions, and laboratory processing, the act of updating the list made by Hernani Heffner and Ruy Gardnier at that time would be of tragic scope. It would be a national institution’s role to make this list public. Besides remaining accountable to Brazilian society about its audiovisual heritage, this work could also prove to be a strategy for locating previously unknown materials held at other institutions and private collectors both in Brazil and worldwide. Yet, what about the many other films and audiovisual records that have escaped such inquiries and remain ostracized? How many films exist today whose only surviving materials are believed to be incomplete and severely deteriorated prints in inferior gauges? How many Brazilian audiovisual records have we lost?

Conclusion

“If we lose the past, we will live in an Orwellian world of the perpetual present. So, where anybody that controls what’s currently being put out there will be able to say what it’s true and what is not. And this is a dreadful world; we don't want to live in that world.”Brewster Kahle (2014, interview for Digital Amnesia, documentary by the Dutch VPRO)
“Knowledge is effective only when it is shared.”Hernani Heffner (2001, in a hallway conversation at the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro)

Digital audiovisual records have served as crucial tools in the fight for human rights in all national corners. They include records of things such as forced evictions, occupations of cultural or educational sites as a form of protest, demonstrations, invasions of communities by police forces (with high homicide rates among local populations, including children and young people), acts of environmental devastation fostered by the current government, struggles for native people rights and the demarcation of native lands, and crimes against native peoples. These audiovisual registers also function as tools for black empowerment and anti-racist movements, for the emancipation and affirmation of women for opportunities, and against structural sexism. With a profusion of creative talents and narratives, social networks gather the most distinguished cultural indexes of this time. In Brazil, in general, these network’s images remain outside the scope of prospection by Brazilian institutions, with the discussion around their archiving and incorporation within the scope of Brazilian audiovisual heritage still proceeding in a merely tentative fashion. From the preservation perspective, aside from all the challenges inherent to digital data preservation,78 ephemerality exists due to the corporate practices of social networks (which wipe content according to their terms of service).

Social media uses persuasive technology mechanisms to drive individual’s behaviors. Algorithms can give credibility to the untrue, boost flat-earth theory, and put #StopFakeNewsAboutAmazon as a trending topic on Twitter. At the same time, ecocide is loose, and the whole world watches as flames engulf the Amazon, the Cerrado, the Pantanal, and other Brazilian national parks.79 The quantum computer Rehoboam80 is an allegory of the now, in a narrative made explicit by Shoshana Zuboff in her book “Surveillance Capitalism”. We observed successive electoral victories by ultra-right political parties and movements with growing levels of terror and violence. The circulation of fake news on social media has increased the destructive power of Covid-19. Counter-information, deep fake, and fake news robots are connected to the world described by Brewster Kahle, founder of Internet Archive, quoted above. We can lose the past and the present due to frailties inherent in today’s sources of information, with their potential for manipulation and misinformation.81 When the current Brazilian president was a deputy, during the congressional voting process held during the impeachment trial of President Dilma Rousseff, he voted for the memory of the military dictatorship’s greatest torturer, who led the former “Presidenta” torture sessions. At the Cinemateca, we failed to frequently screen and watch the anti-dictatorship films Case of the Naves Brothers (1967, Luis Sérgio Person), Iracema: An Amazonian Transaction (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), They Don’t Wear Black Tie (1981, Leon Hirszman), Go Ahead, Brazil! (1982, Roberto Farias), Twenty Years Later (1984, Eduardo Coutinho), How Nice to See You Alive (1989, Lúcia Murat), Friendly Fire (1998, Beto Brant), and Citizen Boilesen (2009, Chaim Litewski),82 in order to make it impossible to trivialize his actions in the Chamber of Deputies and make it such that no woman would vote for him for president two years afterward. Now we cannot fail to preserve these films and those that have come after, such as Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) and Maiden’s Tower (2019, Susanna Lira).

A significant portion of the Brazilian audiovisual heritage has already been lost over the past century. In addition to recurring fires that destroyed collections of early Brazilian cinema, there have been diverse waves of destruction throughout film history (of short films through the consolidation of the feature as a market format, to silent films after the emergence of talkies, to the replacement of nitrate by acetate), many collections have been dispersed, dismantled, and concealed. Numerous works that came to the film archives arrived in an already feeble state. Still, the delay in recognizing the importance of audiovisual heritage, the absence of public policies for its management, and the oscillation of funding to heritage institutions have led to further losses. With the advent of digital, there is an escalated move towards preserving both what is currently being prospected and what lies outside the current prospection scope. The Cinemateca’s current crisis is severe, and it demands urgent measures from public authorities and the audiovisual industry. Despite the government’s destructive power and the ongoing paralysis of the work, I would like to end with an optimistic tone, one that has been encouraged by many online discussions, articulations, and increasing support about audiovisual preservation in Brazil. Many have advocated for their belief in the Cinemateca’s potential to promote debates and screenings, grant access to the most forgotten collections, provide a space for research, offer a visual reference for the past, and subsidize technological research. People believe in its capacity to captivate children and young audiences with the big screen, present pre-cinema and audiovisual technologies in a museum, and engage the institution’s neighborhood and surrounding community. All of these potentialities of the institution, in addition to numerous other creative uses of its collection and the tools that we might be able to use in the future, have been marred by the successive crises and ever increasing backlog. As a result, we have seen the acceleration of the collection’s deterioration, and limitation of the institution’s reach. It has become even more evident over time that the Cinemateca has been included within a macro-project of the devastation of Brazilian culture and heritage, and its importance as a force for reacting against this project therefore grows larger and larger.

Thanks to Aaron Cutler and William Plotnick for the thorough review.

1.  The Ministry of Culture was abolished on the first day of the current government, then initially incorporated into the Ministry of Citizenship and, later, to the Ministry of Tourism. So far, the Special Secretariat for Culture has had five incumbents without proven expertise. Other cultural heritage institutions are experiencing acute crises, such as the Fundação Casa de Rui Barbosa and the Centro Técnico Audiovisual (CTAv). The Brazilian Film Agency (Ancine) did not transfer funds already committed to the Cinemateca Brasileira and did not issue new film production tenders. It is noteworthy that the Federal Constitution which governs Brazilian democracy claims the “State will guarantee to everyone the full exercise of cultural rights and access to the sources of national culture and will support and encourage the valorization and diffusion of cultural manifestations” (Art. 215). They add that, “the public power, with the collaboration of the community, will promote and protect Brazilian cultural heritage” (Art. 216).

2. From 2016 to 2020, I worked in the Film Preservation department at the Cinemateca Brasileira. I share personal views based on this experience, with an emphasis on the department’s activities.

3. Eng: “The Cinemateca Brasileira and public policies for the preservation of audiovisual heritage in Brazil”.

4. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

5. Through the Ministry of Culture’s policy of decentralization, development and production programs were created with quotas for states which habitually have been restricted from investing in audiovisual production. Also, a policy has been put in place that covers low-budget projects and quotas for new directors, female filmmakers, and native people.

6. Regulated in 2007, the FSA is fed by the Contribution to the Development of a National Film Industry (Condecine) and a tax collected from all media distributions systems. These funds are then invested in new productions mainly in cinema, television and electronic games. From 2008 to 2018, a total of approximately R$ 4.5 billion was invested [about USD $713 million].

7. An emblematic example of this dynamic occurred in 2008, with the presence of the Executive Director of the Cinemateca Brasileira at the 3rd annual CineOP. The theme of CineOP that year was National Audiovisual Preservation Policy: Needs and challenges. Throughout the event, the Executive Director took a firm stand on opposing the articulation of other audiovisual heritage institutions with the Ministry of Culture’s representatives, and the creation of the Brazilian Association of Audiovisual Preservation (ABPA).

8. Among the proposals of the 1979 Symposium on Cinema and Memory in Brazil was, “The creation and promotion of regional centers of cinematographic culture constituted by production units and by film libraries (archives of copies of films), with the basic function of prospecting, research and dissemination of the Brazilian collection [… and] the establishment of an [national] inventory” (1981, 67). Laura Bezerra stated that the “creation of a program to boost filmographies that, despite not having implemented systematic and comprehensive actions, allocated resources for some sectorial actions” (2014, 120). Decentralization is necessary, considering the country’s continental nature and cultural plurality, besides being technically susceptible to disasters.

9. CineOP was created in 2006 and has become the main forum for discussions and articulations on audiovisual heritage and education in Brazil. Each year the Ouro Preto Letter is issued by the meeting’s participants, with alerts and proposals for the audio-visual heritage field.

10. ABPA is an association of film preservation professionals, regardless of their formal occupation. ABPA has worked in favor of developing new and better film preservation policies, the promotion of audiovisual heritage, and the translation and publication of technical film preservation texts. In 2016, ABPA created the PNPA, a document that contains diagnoses and proposals for actions and policies within the field of audiovisual preservation. https://abpanet.org/

11. The Council’s central role is to work to help develop the Cinemateca. Its members are representatives of the public sphere and individuals from civil society who are linked to the cinema or cultural heritage industries. Dismally, men have been predominant among council members over the years.

12. Currently, this theater is called Cinesala. http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

13. The original slaughterhouse had its activities closed in 1927. The space was then used as a deposit for the city hall’s lighting equipment.

14. The Brazilian Cinematographic Census project was based on the idea of Gilberto Gil, musician and then a member of the cultural advisory board of BR Distribuidora. Gil would later become the Minister of Culture from 2003 to 2008.

15. State company Petrobras – linked to providing energy, gas, and oil in Brazil – boosted the production, distribution, exhibition, preservation, and restoration of Brazilian cinema.  

16. In collaboration with the CB, the appraisal project was also carried out at the Cinemateca do MAM (Museum of Modern Art) in Rio de Janeiro. The project involved the (unprecedented) inventory of the Cinemateca do MAM collection with deteriorated materials sent to the CB’s lab. The Museum director determined, arbitrarily, that the Cinemateca could not maintain its audiovisual collection (after the inventory was made). As a result, the National Archive (in Rio de Janeiro) and the CB each received parts of the collection. Rather than having them sent to Rio de Janeiro, some film material owners chose to keep their assets with them, often in inappropriate places. That was one of the Cinemateca’s biggest crises, which is historically relevant for Brazilian cinema (especially for the Cinema Novo movement) and the audiovisual preservation area. The Cinemateca do MAM was directed by Cosme Alves Netto, who had a special connection with international institutions. Hernani Heffner joined the institution in 1996. In 2020, the Cinemateca do MAM underwent a consolidation, with a new building for the film collection and some structural changes in the Museum’s direction.

17. According to Souza, the Brazilian Filmography was started by Caio Scheiby on paper cards, and, in the 1980s, four notebooks were published with records of films produced until 1930 (2009, p.259). Currently, according to the CB’s website, “it contains information on approximately 42 thousand titles from all periods of national cinematography and the most recent and widest audiovisual production, whether short, medium or feature films; newsreels; advertising, institutional or domestic films; and serial works (for internet and television), with links to records in the database of posters and references to sources used and consulted”. Filmografia Brasileira. August 2020. Available at: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

18.Text extracted from 2008 plenary. SiBIA. August 2020. http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. According to Laura Bezerra, “SiBIA was conceived and executed by CB/SAv without any debates and negotiations with the players involved, which contradicts the democratic-participative spirit defended and practiced in MinC documents and actions” (2014, 185). The 2009 meeting had 33 institutions from all over the country, and its proposals, which demanded SAv resources and actions, were not carried out. The project was extinguished in 2009, without practical advancements.

19. Programadora Brasil was a project for the diffusion of animation, experimental, fiction, and documentary films, active from 2006 to2013, through the printing of DVDs for non-commercial circuits (film clubs, cultural centers, schools, universities), in a total of 970 works divided across 295 DVDs.

20. Cinemateca Brasileira Institutional Reports. July 2020. Available at: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

21. This unit was affected by flooding in early 2020.

22. Cinemateca Brasileira magazine. Available at: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

23. Collections acquired by the government under theCinemateca’s custody: Estúdio Vera Cruz and Atlântida Cinematográfica (in2009), Canal 100 and Glauber Rocha (in 2010), Goulart de Andrade and Dulce Damasceno de Brito (in 2011) and Norma Bengell (in 2012).

24. The interruption also affected the work of the CentroTécnico do Audiovisual (CTAv, or “Audiovisual Technical Center”), in Rio deJaneiro, which was involved in several SAv projects with CB.

25. 2014 Report - details on pages 12 and 14 on the“analysis of preventive conservation of cellulose nitrate”.

26. Legal Deposit is the mechanism for depositing public-funded audiovisual materials in institutions accredited by the federal government. Until today, only the CB falls under that category. After the approval of the material (according to technical guidelines), the producing company becomes able to receive the last instalment of the financing. Due to the drastic reduction in analysis after the 2013 crisis, the backlog of materials became enormous.  

27. Olga Toshiko Futemma began working at the Cinemateca Brasileira in the 1980s, with particular excellence in her work at the Documentation and Research Center. She became the institution’s executive director in 2004, its deputy director from 2007 to 2013, and its director from 2013 to 2018, at which point she became the Collections Manager. She took part in the FIAF Executive Committee from 2009 until 2013.  

28. After the fire, the vault received the same structure as before. According to the 2016 Report: “the building, designed in the 1990s, was built without electrical or hydraulic installations, in order to minimize the risk of an accident; without active air conditioning, but maintaining the internal temperature with the smallest possible variations and allowing air circulation to avoid the accumulation of gases resulting from deterioration. In the case of self-combustion [...] it would inevitably consume the entire contents of the vault, but it would not spread to the adjacent vaults” – which characterizes what happened in 2016, when the fire consumed only one of the four vaults and did not spread to the others.

29. For example, ARRISCAN, when acquired, was adapted for deteriorated materials, which allowed the scanning of negatives with 4% shrinkage, a measure that would be considered infeasible for other laboratories.

30. Databases of the Documentation and Research Center. August 2020. https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

31. The Programming department continued to show films from the collection, with respect for the original projection format to the best extent possible and privileging Brazilian cinema. It also organized film series with prints loaned from partnering organizations and held screenings in the Cinemateca’s two theaters and on its outdoor screen. The films projected were on 16mm and 35mm prints, as well as digital and video formats.

32. Also, according to the 2016 Report: “the emergency duplication process differs from the film restoration, which involves producing new preservation dupes, both image and sound, and screening copies. It also includes different sorts of manipulation to minimize handling or deterioration marks, approximating its original theatrical release characteristics. A restoration project usually compares different materials, while emergency duplication deals with copying advanced deteriorating material, typically unique, to a new one.”

33. Carlos Roberto de Souza points out that “The Brazilian research and historiographic works carried out […] drew attention to the fact that it is a mistake to build a history of Brazilian filmography with a basis in fiction or narrative feature-length films. The highest volume of Brazilian production has always been of documentaries and newsreels, generally relegated to the background by so-called classical historians, the media, and the general public. The reality of production is reflected in the cinematographic collection that has reached our days. The percentage of nonfiction films exceeds that of feature films and remains the least preserved. That does not mean that all fiction features are preserved. Far from it. Yet the most treated part – and not always with the care it deserves – is that of the consecrated Brazilian features.” (2009, p.261).

34. Later, the team discovered a homonymous field in the Brazilian Filmography database, conducted by the Documentation and Research Center, which was no longer in the workflow. It was a numerical system from 0 to 5. Considering that the Preservation technicians who proposed the methodology had no previous experience at the CB, the categorization did not follow the numerical method, but instead followed text categories. As an example, the categories included “preserved at the moment” (considering original materials, intermediaries, and prints in good condition, for example), “partially preserved”, “not preserved”, “partially lost”, with supplemental information such as “with defects” (image or sound interference), “incomplete”, etc. The system provided quickness in the selection for emergency duplication and research for external access.  

35. WinIsis is a software proposed by Unesco in 1988 and adopted by the CB due to its shapable character. It resembles individual physical library cards, with limited data examination.

36. Trac was initially adopted by the lab and development teams before 2016. The preservation team adopted it in 2016. In 2017, an institutional profile was created, then the Documentation and Research Center profile, and lastly, the Access department profile.

37. We need to talk about ... the Brazilian Cinematheque logo. July 2020. https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. The alleged phallic form of the logo could have contributed to the degree of viralization and public awareness of the Cinemateca in 2016.

38. Manifesto for the Cinemateca Brasileira - 2016. July 2020: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com.

39. 100 Paulo Emílio. Available at: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. July 2020.

40. The legality of amending the main contract is questionable. In any case, we consider it an outrage that an amendment governs the Cinemateca Brasileira as a legal instrument.

41. As occurred in access to original film materials for their digitization and licensing to Canal Brasil, the leading television channel for Brazilian films. The broadcast company was updating its catalog, which was previously in SD resolution. The delivery of films to Canal Brasil would be in HD (1080p) or higher, despite HD being an outdated resolution. Producers opted for HD resolution and not 2K due to budget limitations. Still, in addition to being more commercially relevant in the middle term, 2K represents a more significant preservation action since it would be a longer safeguard of the original material – much of which was already in bad condition.  

42. Especially what can be called pejotization, in reference to “juridical person”, or the legal status of a physical person: The hiring of services from individuals through companies set up for this purpose.  

43. This dynamic of dispersing the workforce is even more dangerous in the context of digital preservation, which demands a constant updating of knowledge due to the ongoing changes in technology and industry practices.

44. E-mail from 29 June 2016. July 2020: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Débora Butruce indicates that a Working Group debated the theme of management by OS over several years: 15th CineOP. At-risk cultural heritage institutions: The Case of the Cinematreca Brasileira. Available at: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. In addition to Butruce, the conversation’s participants included Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira and Eloá Chouzal.

45. Jorge Barcellos sums it up by saying that “Over time, [the Social Organization] became deficient and costly”. He warns that “according to Alzira Angeli, from the Comptroller General of the Union, these organizations have become the new market niche for corruption and [according to historian Francisco Marshall] the initiative promotes the degradation of public management”. August 2020. https://jorgebarcellos.pro.br. As an exception, some museums in the State of São Paulo successfully follow the management model by OS.

46. Consolidation of Labor Laws (CLT) has several benefits to the employee, such as paid vacations, a bonus salary (equivalent to a month’s pay), unemployment insurance, sickness benefits, family salary, maternity salary, and retirement funds.

47. I understand collection prospecting as a fundamental role of the CB, since the Cinemateca is the central national institution, and especially in consideration of the history of destruction and neglect of Brazilian audiovisual heritage. In recent years, news of potentially valuable collections became public, and CB technicians could not act independently under the Acerp administration. Through Acerp, for instance, the technical staff evaluated a collection in the São Paulo countryside. The technical team contacted the Ministry of Foreign Affairs to assess a list of 35mm prints held at the Brazilian embassies in Rome, Berlin, and The Hague. Acerp later took over the connection and was unable to carry out the repatriation.

48. It was reported by many colleagues that the person in charge of such event said ‘God was the first CEO, and theBible was the early compliance’, among other inappropriate comments for an event at an heritage institution.

49. An Institutional Mission document was being consolidated, which was not carried out during the time of Acerp’s management.

50. CryptoRave is a forum for freedom, autonomy, and security on the Internet. CryptoRave. August 2020. https://cryptorave.org.

51. The distance between the two cities is about 268 miles/1-hour flight.  

52. Military personnel in uniform occasionally visited the institution. One episode became notorious: The visit of a deputy who held the same last name as his great-uncle, the first president of the military dictatorship. The deputy published a video on a social network from inside the CB and accompanied by representatives of the institution in which he announced the upcoming exhibitions of military films, reproduced the president’s campaign slogan and saluted the camera. The film series has not been realized.

53. Several volunteers working within the Instituto Moreira Salles’s (IMS) technical coordination team performed an effective response to damages to the studio and photography collection of the São Paulo-born photographer Bob Wolfelson, which was located near the Cinemateca’s damaged area. A technician from the Cinemateca Brasileira was among the volunteers (who operated outside of CB working hours). The event was the second flood that affected the photographer’s studio. Floods in the region are recurrent, so this brief report is a chronicle of a predestined tragedy.  

54. The work consisted of moving bags with piles of cans filled with dirty water, opening each can to check the material’s condition, determining the destination of the material, and organizing the collection on the shelves. At first, the cleaning and maintenance teams performed a task force with the technical team to drain the water, clean shelves, and help move bags of films, but before this work came to an end, these teams were drastically reduced in size.

55. The first of these news items related to the appointment of an actress as the Cinemateca’s director. This actress had played the role of Special Secretary of Culture for two months in the capital city of Brasília and wanted to return to São Paulo for personal reasons. However, no position was legally available for her to assume at the CBat that time, and she ultimately never came to work at the institution.

56. “Cinemateca Brasileira asks for help.”. Sept. 2020. At the time of this writing, the manifesto has received more than 28,500 signatories.

57. Cinemateca Viva, a group formed by the Vila Mariana Residents’ Association (the neighborhood where CB is at <http://www.cinematecaviva.com.br>; The Cinemateca Acesa group <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; and Cinemateca in Crise, created in 2013, with updates on the crisis of 2020: <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. Apaci since 2015 has been active and in contact with the CB board of directors to guarantee the execution of the institution’s work.

58. Cinemateca Brasileira workers. August 2020. https://twitter.com/trabalhadorescb.

59. Cinemateca Brasileira - Emergency Workers. August 2020: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca.

60. The crisis in the Cinemateca Brasileira - Urgent Solutions.August 2020. https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. 2020. Gabriela Queiroz, the Documentation and Research Center coordinator from 2014 to 2020, represented the institution.

61. Some examples: The claim that “all” of the Brazilian audiovisual heritage is housed at CB; the assertion that the institution could catch fire if its light and gas services were cut off for lack of payments (the nitrate deposits do not have any electrical circuit); and the use of the term ‘air-conditioned laboratories’ to designate‘ air-conditioned vaults’.

62. The handover of the keys included the presence of ostensibly armed agents of the Federal Police, summoned with the assumption that there could be resistance by agents of Acerp. Acerp handed over the keys, documents were signed, and the government carried out a technical visit. Even as a sideshow, it was the first time that police intimidation occurred at the Cinemateca. Acerp tried to obtain reimbursement of the amounts invested in the CB in 2019 and 2020, allegedly totaling R$ 14million [about USD 2.6 million].

63. Gramado Letter 2020. Available at: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado.

64. Generalizations are risky and can go wrong. After all, we have many producers who understand, praise, and invest in preservation efforts, especially following the 2020 crisis. If my words do not do justice to producers’ performance in favor of audiovisual heritage, then I will be happy to publish my mistake. But this text was fermented by the frustration of seeing the superb state of the audiovisual industry, with its happy hours, markets, deals, and enormous resources, while the mention of preservation investments generated tremors! The production industry’s greedy attitude relates to the neglect of the Brazilian audiovisual heritage and its preservationists.

65. Sources: FSA and CinematecaBrasileira websites. Published initially in The professional working in audiovisual preservation. Museology & Interdisciplinary. Vol. 8, nº 15, 2019. The chart was initially presented with the Brazilian currency (Real) and was converted to USD for this text. The exchange rate was from the last business day of each year. Original note with a correction: Cinemateca Brasileira is the only institution that receives materials in Legal Deposit and according to Laura Bezerra (2015), its budget represents almost the totality of investments in audiovisual preservation in Brazil during the cited period. In this way, I consider the chart to be a direct illustration of the gap between investments made in audiovisual production and in preservation”.The diagram proceeds only until 2017, since CB has not published any more report since that time. In 2019, under the newly elected government, FSA funding ceased.

66. Document SEI / ANCINE - 0413350 - CGFSA Resolution Nº 101- Approval of the 2017 Annual Investment Plan.October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANº 101 - approves PAI FSA 2017.pdf.

67. The non-refundable mechanism does not presuppose a return on financial profit, but offers other counterpart plans.

68. Document SEI / ANCINE - 0845324 - CGFSA RESOLUTION Nº155 - Approval of the 2018 Annual Investment Plan. October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANo. 155 - Annual Investment Plan 2018.pdf.

69. Resources made available for Actions and Programs - 2008to 2018. October 2020. https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. The full amount informed on this date was R$ 4,558,877,384.00.

70. According to Gomes (2020), most of the materials received in Legal Deposit is stored on external hard drives, which need continuous verification – “digital materials, therefore, require more constant checks and migrations, a need that the Cinemateca Brasileira cannot yet meet, both due to limitations in the number of employees and to financial limitations”. Part of the institution’s large magnetic video collection comes from the Legal Deposit. In general, from 2016 to 2020, no actions were taken to preserve the video and digital collections, only duplication of materials for access purposes. Considering the inaction, broadly and systematically, with the scope of the heritage conceived in digital, one cannot expect to overcome the(notoriously high) loss rates of the Brazilian audiovisual heritage –especially its first digital productions.

71. “ICAB and NETFLIX partner to create an EMERGENCY FUND to support the Brazilian creative community.” September 2020. http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html.

72. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. September 2020. https://www.newsweek.com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. / Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. September 2020. https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Much more money is invested in providing classic film as a streamable option in the US as it is in Brazil, especially Brazilian classics. In the US, the repertoire of old films is a niche explored by platforms such as The Criterion Channel and Mubi, among others.

73. A sensitive aspect for the distribution of older films is the issuance of the Brazilian Product Certificate (CPB), which requires documentation stating the rights holders for specific films. Historically, Brazilian film productions lacked proper documentation, and many companies were dissolved without the transfer of rights of their assets.

74. In the Brazilian context, where the first activity as a preservationist is to explain your role as a professional, Netflix documentaries that contain archival images as an important element of their narrative are often a good way to explain the importance of heritage preservation to many people.

75. 2016 Report: pages 55 and 56. Correction to the content: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) is color, not b&w – a Jaws spoof.

76. Here it is worth reflecting not only on the catalog’s excellence in terms of title availability and content navigability, but also the need to review technical specificities and the dimensions of the watermark logo filling part of the film image, an experience reported as frustrating for many site visitors.

77. Brazilian films considered lost or about to be lost. August 2020. http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm.

78. Proprietary technologies, obsolescence of file format, codec, software, hardware, metadata management, migration.

79. In addition to being catastrophic for fauna and flora, the devastation will directly affect the cultural heritage preservation field due to this field’s direct relationship with the climate, with issues such as larger variations in temperature and humidity taking on special importance. I am unaware of studies in Brazil on the climate crisis and its impact on the area of ​​heritage. From among discussions held in other countries, I would highlight the 2020 realization of the Orphan Film Symposium.

80. The artificial intelligence supercomputer of Westworld (2016,Jonathan Nolan), set in almost four decades in the future.

71. The symbol of misinformation is the science being discredited by social networks and messaging media (especially WhatsApp, a company acquired by Facebook), which makes the act of disseminating scientific information on containing the Covid-19 pandemic more difficult. Research carried out in twenty countries shows that Brazilians believe in their scientists the least among citizens of any country: Brazil with its back to science. September 2020. https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia.

80. Filmography Dictatorship Brazil. September 2020. http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html.

BIBLIOGRAPHY

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

The Cinemateca Brasileira (CB, or “Brazilian Cinematheque”), the leading audiovisual heritage institution in Brazil, is going through its worst-ever crisis in 2020. As a result, its extensive collection and elaborate technological machinery are threatened, as well as the knowledge that permeates from both. At the beginning of the year, a flood occurred in the Cinemateca’s warehouse, drastically affecting part of the film and equipment collection stored there. Since August 2020, the collection and facilities are without proper technical support; and at this moment of writing, there is no news of an immediate resolution that meets the urgency. Inaction and neglect with the Cinemateca Brasileira are just two examples of the Brazilian government’s perversities, which additionally include the structural dismantling of the public health, education, and cultural systems,1 and the ecocide and genocide of the country’s native and black populations, the latter of which has been accelerated by the Covid-19 pandemic. The Cinemateca crisis took on unprecedented proportions in 2020, but its origin came earlier, going through the administrative and political turmoil of 2013 and a fire in early 2016. This article discusses the work carried out at the institution in mid-2016, the challenge of its continuity after the team’s reduction in 2017, the alleged solution with a new management model in 2018, and the 2020 hecatomb.2 This text also presents a few conjectures about the relationship between Brazil’s audiovisual heritage and its audiovisual production industry. The series of crises over the last 74 years, marked by the four fires and the flood, are the broad consequence of what Brasília-based museologist Fabiana Ferreira highlights in her thesis “A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil” (2020).3 She claims, “the only stable aspect in public policies for audiovisual preservation is its inconstancy. A succession of disagreements and disarticulations by the political agents responsible for the creation and implementation of policies without a real national governmental project that crosses mandates” (2020, p.109). According to Hernani Heffner, chief curator of the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro, this is not only the biggest crisis in the history of the Cinemateca Brasileira, but also the biggest crisis of Brazilian audiovisual heritage.4

Overview of the Last Two Decades

Brazil is a federal republic of continental dimensions – the fifth-largest in territorial extension. It has 26 states and a federal district. The country has undergone two re-democratization processes, the most recent in 1984 after the end of the military dictatorship. In the 21st century, Brazil has had economic growth, a reduction of social gaps, and extreme-poverty rates. Universities flourished and the audiovisual industry solidified through new federal policies and programs as a result of the investment policies of the Audiovisual Secretariat (SAv) / Ministry of Culture (MinC),5 and the Audiovisual Sector Fund (FSA).6 These investments allowed new professionals to emerge in the film production sector and the consolidation of new film production companies, which, in turn, supplied an increasing number of new films each year. Eventual municipal and state resources for film production were added to the federal ones. However, Laura Bezerra observes that while the government invested in decentralizing cultural production policies, the same did not happen with film preservation (2015). While there were substantial investments in the Cinemateca Brasileira during this period and after the inclusion of the CB in the SAv’s organizational chart, there were also few political discussions about the implementation of policies and actions for the field in a profound way.7 This is a problem that is fundamental for understanding the development of the current crisis. As Fabiana Ferreira diagnosed, “The Cinemateca does not act in the creation and implementation of preservation policies, either by conducting discussions and holding dialogues with the sector or by actively participating in political spaces at the federal level, such as the National Film Council, for example. There was also no structured dialogue with other memory management entities” (2020, p.108). The State’s insufficiency in their management of Brazilian heritage causes profound reverberations, especially affecting the audiovisual production industry which seems to not recognize preservation as a necessary element for their works. Still, the current Cinemateca Brasileira crisis has become yet another argument for the decentralization (and increase) of investments in audiovisual heritage nationwide.8 Brazil has many federal, state, municipal, and private heritage institutions that are not in the spotlight and that also demand urgent actions and resources.

Over the last few decades, there has been constant maturation in the field of audiovisual preservation. For example, the establishment of specific financing programs; the distribution of new publications; the creation and growth of the festival Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), where the National Meeting of Archives and Audiovisual Collections takes place;9  the formation of the Brazilian Association for Audiovisual Preservation (ABPA) and the elaboration of the National Plan for Audiovisual Preservation (PNPA).10  Also, there has been a growing number of Preservation-related events each year.

Cinemateca Brasileira – A Brief History

The Cinemateca Brasileira has had several administrative arrangements. It began as a civil society organization and later moved to the public sphere. Its long history includes many setbacks with some positive developments. The writer, essayist, critic, researcher, professor, and activist Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977) is the protagonist in the creation, defense, and management of the Cinemateca Brasileira. Paulo Emílio’s impact on the field of Brazilian Cinema is broader than his work on the Cinemateca itself. His work was fundamental in the valorization of Brazilian cinema, in its qualification as a historical document, in the defense of its preservation, and in creating university cinema courses. Paulo Emílio was also active in international politics as a regular member of the Executive Committee of the International Federation of Film Archives (FIAF) between 1948 and 1964, eventually becoming the organization’s vice president. He is also a renowned author in historiographic studies of cinema, with publications on the French director Jean Vigo and the Brazilian filmmaker Humberto Mauro, among others. As a teacher, he was vital in the formation of numerous important scholars, film critics, and preservationists, such as Carlos Augusto Calil, Carlos Roberto de Sousa, Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet, Maria Rita Galvão, and Olga Futemma – some of whom continued his work at the Cinemateca Brasileira.

In consideration of the many publications on the Cinemateca Brasileira in Portuguese and the limited English repertoire that exists in comparison, what follows here is a brief overview of the institution’s key historical moments. In 1940, intellectuals from São Paulo created the Clube de Cinema de São Paulo (São Paulo Film Club), which promoted the exhibition of films, conferences, debates, and publications before being closed in 1941 by the country’s then-reigning dictatorship government. In 1946, Paulo Emílio went to France to study at the Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC). He grew even closer to the Cinemathèque française, an institution founded in 1936 with which he had contact since living in Paris during the previous decade – the period when his passion for cinema awoke. The second São Paulo Film Club was created in 1946, and in addition to its previous activities, it began to develop the initiative of prospecting and preserving materials from Brazilian films. 1946 is therefore considered to be the milestone year of the Cinemateca’s creation. Paulo Emílio affiliated the Club to FIAF in 1948. In the following year, the Film Library was created, and then connected to the newly created Museum of Modern Art of São Paulo. In 1956, the archive was detached from the museum and became the Cinemateca Brasileira, a non-profit civil society. The Advisory Council was formed the same year.11 As a result of the self-combustion of a cellulose nitrate reel, the Cinemateca’s first fire occurred in the summer of 1957, which “completely destroyed the library, the photo library, the general archives, and the collection of devices for the future cinema museum, as well as one-third of the film collection” (Gomes, 1981, p. 75). The tragedy elicited support and donations from national and foreign entities, and the Cinemateca resultingly gained space in the largest urban park in São Paulo, Ibirapuera Park. In 1961, the Cinemateca became a non-profit foundation, an essential status for its autonomy and ability to raise public resources.

In the following year, a new non-profit civil entity called the Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC, Portuguese for “Society of Friends of the Cinematheque”) was created to assist the Cinemateca in its management of financial resources and to develop various activities to support the Institution. Initially, the Cinemateca mainly held film screenings, but from the 1970s onwards preservation became its axis partly due to the declining state of its collection. The late 1960s and mid-1970s formed a critical period for the institution, as it had few employees and much voluntary work. Unfortunately, the Cinemateca was unable to pay its annuity fees, and therefore it was disconnected from FIAF in 1963. The CB became an observer in 1979 and received its full FIAF membership again in 1984. The Cinemateca’s second fire occurred in the summer of 1969 for the same reason the previous fire was triggered, resulting in the significant loss of film-related materials. In 1977, the institution’s Laboratory was created with equipment from commercial film laboratories that had been deactivated. Paulo Emílio passed away from a heart attack that same year.

In 1980, an operations Center was opened in São Paulo’s Conceição Park for documentation and research work. The third fire occurred in the autumn of 1982. As a result, a move was made to incorporate the Cinemateca into the public sphere. In 1984, the CB Foundation was extinguished, and the Cinemateca was attached, as an autonomous organ, to the National Pro-Memory Foundation. In 1989, a cinema12 theater was rented to screen the archive’s collection in the busy neighborhood of Pinheiros, which significantly leveraged São Paulo’s cinema scene. By the end of the decade, the Cinemateca staff consisted of about 40 people (many of them former students of Paulo Emílio), 30 of whom were hired with formal contracts.

In 1990, the government extinguished the National Pro-Memory Foundation and the Cinemateca was incorporated into the Brazilian Cultural Heritage Institute (IBPC). This organization transformed into the (still-active) National Institute of Historic and Artistic Heritage (IPHAN) four years later. In 1997, the Cinemateca’s current facility was founded, a heritage site converted from a slaughterhouse after nine years of reformations. The definitive headquarters13 aggregates the conservation and screening departments that had previously been scattered throughout the city of São Paulo. This centralizing was a crucial element in the institution’s consolidation process after decades of scarce resources, precarious infrastructure, and oscillations in institutional dynamics.

In 2001, a vault with a proper climatization system was inaugurated with an initial capacity of one hundred thousand reels. In the same year, the Brazilian Cinematographic Census project began14 with funding from BR Distribuidora.15 The Brazilian Cinematographic Census project was an essential step for appraisal and basic conservation procedures in the collection,16 and the training of technicians. The project “was organized around four basic axes: the appraisal and examination of the existing collection, which was previously concentrated and dispersed; the duplication of reels threatened by deterioration; the dissemination of the work and its results; the study of legal measures for the protection of audiovisual heritage” (Souza, 2009, p.258). In 2003, upon resolving that IPHAN was not meeting the scope of its tasks, and after deliberation by the Council, the CB was attached to SAv/MinC. In the following years, the resources transferred by MinC gradually increased. In 2003, the CB implemented a short internship program for technicians from other institutions. From 2004 to 2006, the Prospecção e Memória (Prospecting and Memory) project followed the Census project, especially concerning the cataloguing of Brazilian movies compiled in the Cinemateca’s Filmografia Brasileira (Brazilian Filmography) database.17

In 2005, SAv created the Brazilian Audiovisual Information System (SiBIA) which was coordinated by the CB. It was “a program that aimed to establish a network that currently counts on more than 30 institutions that dedicate themselves, primarily or in subsidiary fashion, to the preservation of moving image collections throughout Brazil”.18 In 2006, the CB hosted the 62nd FIAF Congress, “The Future of Film Archives in a Digital Cinema World: Film Archives in Transition”. In that same year, on the institution’s 60th anniversary, Luiz Inácio Lula da Silva became the first (and only) president of Brazil to personally visit the CB, with representatives’ delegation. In 2006, the CB published the “Manual de Manuseio de Películas Cinematográficas” and the “Manual de Catalogação de Filmes” da instituição (Film Handling Manual and Cataloging Manual), which became a primary reference for other preservation institutions, as scarce technical publications existed in Portuguese at the time. In 2008, SAC became a Public Interest Civil Organization (OSCIP) and, since then, the transferring of resources to projects carried out at the Cinemateca has been massive. Under SAC management, SAv’s projects were carried out in an agile way, unlike the Ministry’s bureaucracy. At that time, many of SAv’s programs were achieved at the Cinemateca, such as “Programadora Brasil”.19 As of 2008, annual reports that described the archive’s operations throughout the year were published online,20 except for the following years: 2013, 2015, 2018, and 2019. As a result of the census, the lab preserved and restored numerous films and created new access materials. In 2009, the CB launched the DVD box set “Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema), with 27 early films accompanied by new soundtracks. In 2011, a secondary site was opened in the neighborhood of Vila Leopoldina21 to store films, documents, and equipment. In 2012, the first edition of the magazine Revista da Cinemateca Brasileira was published and in the following year, its second edition was published.22 In 2013, a political-administrative crisis was initiated, and the Cinemateca’s executive director was dismissed without due dialogue with the Council or appropriate measures taken for finding his replacement or formulating a transition plan. The Comptroller General of Brazil carried out several audits regarding SAv resources executed by SAC and the acquisition of collections by the government.23 At the end of the year, of the 124 employees that had been working before the crisis, just a few remained, including 22 public servants directly linked to the Ministry.24 From the 2014 Report, it is possible to verify that some of the institutional workflow continued. Below, I present data that reflect the interruption of work in 2014 (and 2015). This work stoppage would drastically affect the CB’s collection:25

In the summer of 2016, the Cinemateca’s fourth fire occurred, again due to a nitrate reel’s self-combustion. The loss was estimated at a total of 1003 reels of cellulose nitrate films referent to 731 titles. In addition to the discontinuation of the nitrate collection analysis after the 2013 crisis, technicians realized a few years later that someone had allocated new reels at the Cinemateca’s nitrate vault without the proper removal of the transport packaging. This could have been avoided if the technical team had been tasked with allocating and reallocating works within this film collection. This oversight potentially created conditions for a microclimate prone to self-combustion, and it could have been the second factor responsible for the fire. However, the first and most important factor for the fire will always be the government's neglect, given the lack of resources for the institution’s primary activities.

Cinemateca Brasileira –  2016 and 2017

The 2016 fire coincided with hiring 11 new technicians, an action made possible by a one-year contract signed between SAv/MinC and the Educational Communication of the Roquette Pinto Association (Acerp) at the end of 2015. Altogether, until the middle of the year, 42 technicians were hired, in addition to the 15 public servants directly linked to MinC. Third-party companies were contracted for essential services (maintenance, cleaning, security, and IT). Seven technicians were also hired for the flow of Legal Deposit,26 made possible by the Brazilian Film Agency (Ancine). The tone set by Cinemateca Brasileira director Olga Futemma27 in the 2016 Report is one of optimism and pride in meeting the goals established in the contract’s Work Plan, though there are due signs of the difficulties and challenges created from the discontinuity of work in the previous years in the report as well. A highlight of the work carried out as a result of the fire:

“Appraisal and reporting the losses […]; examination, separation by technical deterioration [...] for lab processing; provisional allocation of the remaining 3,000 nitrate reels; creation of a project, for the burnt vault, for fire prevention devices [...]; basic renovation of the vault, carried out by the Cinemateca’s team, for the return of the collection [...]; technical disposal of fire residues”.

Despite the disaster, MinC did not provide resources for preventing further fires.28 Another challenge explained by Futemma was the situation of the Laboratory, which had undergone a work stoppage. “The scenario was heartbreaking”, she claimed. To stress its importance: The Laboratory at the Cinemateca Brasileira is the most complete (and possibly last) of the photochemical labs in South America. It has the ability to process film-to-film, including 35mm and 16mm, b&w of all materials and color prints. The Lab can process smaller gauge film formats such as 8mm, 9.5mm, and 16mm film as well. In addition to its capacity to specifically work with film, the Lab also contains a wealth of digital equipment. These include the ability to scan 35mm film-to-digital (HD, 2K, 4K, 6K) and the ability to print digital back-to-film, such as printing digital to 35mm film. The Lab can scan several video formats to digital, including U-Matic, Betacam SP, Digital Betacam, DVCam, and others. It also has the capacity to conduct digital image and sound manipulation, including color correction and restoration. The machinery has even been outfitted over the years to process materials with advanced deterioration.29 However, due to the lack of staff over previous years and the resulting lack of maintenance and parts, it became impossible to resume some of these workflows.

The Cinemateca’s current audiovisual collection comprises about 250 thousand nitrate, acetate, and polyester film reels, in addition to a large gathering of magnetic tapes and reels, and approximately 800 terabytes of digital data – mainly comprised of digitized materials from the collection and Legal Deposit materials. The film-related collection comprises about one million documents, such as posters, photographs, drawings, books, scripts, periodicals, censorship certificates, press materials, and documents from personal and institutional archives.30 There is also a non-cataloged equipment collection. In recent times, the institution’s resources and activities were divided among the following departments: Film Preservation, Documentation and Research Center, Access – Programming31 and Events, Administration, Maintenance and IT.

In the Film Preservation sector, several task flows were executed throughout 2016: monitoring of the climate control of the deposits, movement of materials according to their physical state of deterioration, documentation review, applicant services, and emergency duplication of materials (which will be discussed more later on). A significant element of our workflow was to document mandatory preservation actions in a collective fashion, a task for which the Cinemateca lacked sufficient resources. After months of corrective maintenance and evaluation of lab chemicals and raw film stock, the processing of deteriorated film materials began: per the 2016 report, “the selection was made by considering the technical conditions of the materials, [with an investment of] less time and resources in the complementary actions of a single work so that it would be possible to make feasible actions, although incomplete, in a wider number of materials”.32

Due to goals established in the Work Plan and the limited available time and staff in 2016, the selection of films for processing in the Lab was only carried out by one technician. However, the ideal context would be one in which there were institutional debates and discussions about the film selection process. Attention was taken not to select consecrated narrative feature films,33 but instead, to cover “material from fiction films, documentaries, newsreels, domestic films, and scientific films… without subjective evaluation of the content of the works or any curatorship” (2016 Report). The selection prioritized the state of deterioration of the materials and not their content. An aspect of this workflow worth being critical of is that many worthy films were not being selected, which possibly further increased their ostracism. Throughout the analysis process, some materials were evaluated as not processable. Since these films were considered unique, if they were not processed and restored, it would represent the death of the images and sounds they contain. Countless materials so deteriorated that they did not meet the conditions for a complete duplication. Also, newly generated materials often contained photographic marks of deterioration that were existent in the material prior to them. During this workflow, the film stock purchased in previous years was used. However, a few years later, the archive ran out of raw film stock for its workflow.

The eventual losses of films and the specificities of processing them raised awareness around the need to create a standardized methodology for evaluating and documenting films. Because every film is its own unique material, this standardized methodology could help guide preservation and access actions. The “preservation status” was thus created, and this categorization was integrated into the film’s internal documentation and incorporated into communications with the rights holders. This documentation would include the categorization of the preservation status, like “partially preserved” and “partially lost”, with recommendations such as lab processing or research for new materials.34 Since these categories would frequently vary throughout the year as the materials’ physical conditions could change, the original date that a film’s status was proclaimed was as important as the actual status itself.

The database solution used at the Cinemateca Brasileira was WinIsis,35 which is a poor tool for complex data analysis. Several workflows – analysis, outflow of materials, and creation of new materials – required constant updating of the audiovisual database, which was interrupted because of the institution’s broad structural problems. In parallel, the open-source and Web-based project Trac36 was purposed and standardized for internal documentation workflow on the intranet. Trac was basically a Wiki documentation and ticket system. According to the 2017 Report, this intranet “makes it possible to maintain information horizontally among sectors, collaboration in the construction of documentation, the continuity, and organization of information on the same platform, […] used to document different internal procedures; norms and instructions for internal documentation; reports and texts related to the institution; information related to external requests and data of materials analyzed and processed”. The effort to keep internal documentation accessible, horizontal, and transparent, consistent with a memory institution’s role, did not comprise communications with Acerp and the projects sent to the Ministries. An essential element for those years was the investment in technological development, as documented in the 2017 report, which allowed the analysis of information from the database in a dynamic way and the research for solutions to foster the institution’s autonomy.

The ClimaCB project is worth mentioning, as it allowed for the online monitoring of climate control. It is a combination of open-source software and hardware that would list which guidelines and codes would be available in Git for free use. Unfortunately, the project was not published. Considering the potential cardinal role of the CB within the scope of Brazilian audiovisual heritage, it is clear that participation in technical discussions and the publication of proposals and technological solutions are both wanted and needed.

During the two years under the Service Contract, Olga Futemma held meetings with the technical staff to share news, impressions, and strategies. The meetings reinforced the notion of the team’s proportion and strength and served as an injection of spirit. Another positive development that brought the preservation team together was the Cinemateca’s new website, as the previous site had had obsolete navigation and tools. A moment of heightened visibility came when a short video made by the technical team showing the history of the institution’s logo dating back to 1954 became widely shared on the internet.37

The staff in the Film Preservation department was balanced between former technicians who ensured the continuation of workflows and new technicians who provided fresh evaluations for the workflows. The difficulties in creating interpersonal relationships during previous years and feelings of insecurity over the 2013 crisis were negative aspects that we avoided discussing within the workspace.

2016 was marked by the autonomy and intense communication of the technical team, but also by setbacks. In May, MinC published a public tender for electing a Social Organization (SO) to undertake the CB’s management. This was still during the Presidency of Dilma Rousseff. Shortly afterward, a misogynist coup occurred – by dint of the process of impeachment which eventually led to Rousseff’s ousting and the taking of power by her former vice president. Shortly after he took office, he tried to end MinC, but reversed this position in response to intense popular pressure. The new Minister of Culture canceled the public tender for electing a Social Organization for the Cinemateca Brasileira, and it was released months later with changes.

July 2016 brought one more surprise: after a restructuring of MinC, five positions at the Cinemateca were eliminated. At the time, these positions were occupied by the director and experienced technicians. A new director would be indicated by the Ministry, without the necessary expertise and without the Council’s participation, a move considered to be unprecedented at the time. Audiovisual associations issued letters against this announcement and the Council issued a manifesto38 in favor of revoking the layoffs and proposing a partnering with the Brazilian Museum Institute (IBRAM). The stance eventually led to the reversing of the dismissals and a rehiring of the director and technicians.

In the following months, the CB and SAv/MinC jointly sought to prevent a gap between the expiration of the Service Contract with Acerp, which would end in December, and the new management determined by the selected SO after the public tender. A solution was finally found a day before the contract’s expiration – an extension until April 2017. But, “as the residual value is not enough to remunerate for four months all technicians previously hired, it was necessary to reduce the staff (by about 75%) and, as a consequence, workflows”, according to that year’s report. The year ended with mixed enthusiasm for the future of the CB. While there was Paulo Emílio’s centenary celebration, which included the launch of a series-specific website,39 courses for the general public and publications devoted to Paulo Emílio’s work, there was also discouragement for the downsizing of the Cinemateca’s team, as the staff would not be the same size again until June 2017. The impact on the CB of the substantial reduction in technicians is evident, as can be observed in this 2016 and 2017 lab processing chart which reflects the amount of processed material:

In May 2018, the contract with the SO for the CB’s management was signed, followed by a ceremony attended by the then-Minister of Culture, who claimed that “the crisis is over” thanks to the new management model. Acerp, which managed the CB via a Service Contract that began in 2016, was the SO selected in the public tender. In the case of the Cinemateca Brasileira, this legal indenture would contribute to the current crisis. It was not legally possible for Acerp to directly sign a contract with the Ministry of Culture (to which the Cinemateca was linked) due to its preexisting contract with the Ministry of Education (MEC). Thus, the management of the Cinemateca was officially fulfilled by an amendment to the main contract.40

After the contract’s signing, Acerp appointed a new director without the deliberation of the Council, which was then ostracized from further organizational discussions. Acerp’s first action that had a substantial impact on the dynamics of the institution’s technical team was creating a new customer service department, installed for meeting the growing number of outside requests, especially requests for access to the Cinemateca’s audiovisual collection. The other sectors’ services and fulfilling access requests never stopped; the main bottleneck was providing access to the audiovisual collection. Every collection request was in theory recorded, answered, and eventually met in the order of their arrival, the possibility of completing the request, and the processing time to complete it. Despite this protocol established by the team, a sign of the CB’s subjugation would be the intensification of projects becoming prioritized over others, as determined by the Minister or the board of Acerp. This non-conformity with the institution’s protocols generated personal discomfort among the preservation team.

For the Film Preservation department workers, the new customer service meant there would be no more contact with researchers and producers, who were used to the greater agility in meeting their requests that the larger staff provided before 2013 and were frustrated by the reduced team’s limited response. Besides, the dialogue with producers and researchers about their practices showed a lack of understanding of preservation’s importance. Furthermore, this dialogue proved to be shortsighted from a market perspective when accessing materials held in the CB for digitization without proper processing.41 Another indication of incomprehension and disrespect for the preservation team was that the agreed upon financial compensation that the institution was expecting never arrived. This matter was elegantly noted by Olga Futemma, who stated in the 2016 Report: “some of the bad situations we faced were due to: tight deadlines; the total disregard of the need for compensation – not in monetary terms, since the Cinemateca cannot charge [for admissions, loans, or services at the time], but in actions that should have been foreseen in its projects and that would allow expanding the collection [...]; the misunderstanding that unique (preservation) materials should not leave the collection without supervision […]”. She added that “it is necessary, therefore, to continue to make efforts to change the conception of the public good as something that can be freely available for the achievement of private projects, and for the understanding of the need, still in the elaboration phase, to consult with the Cinemateca on the feasibility of the project in concerning the intended materials and the deadlines necessary for their availability. These are two necessary conditions for planning whose meeting benefit both the requester and the collection”.

In September 2018, former members of the Board issued an Extrajudicial Notification to MinC, requesting the “revocation of acts […] and rules that violate the technical, administrative and financial autonomy ensured in the deed of incorporation of the Cinemateca Brasileira Foundation […], in addition to: 1) The constitution of a new advisory council in compliance with the necessary autonomy of the body; […] 3) Return of the Cinemateca Brasileira to the structure of IPHAN”. The notification also mentions the “SAv’s omission in the face of the [2016] fire […], and that the Cinemateca Brasileira is no longer part of the structure of the Ministry of Culture and has not earned any public positions”.

Cinemateca Brasileira’s Management by the Social Organization

At the time of the Cinemateca Brasileira’s consolidation in the first decade of this century, maintaining its technical staff was a constant challenge. The technicians were hired for projects with specific durations via different forms of hiring.42 This dynamic created fragility and instability in workflows and compromised strategies and structural solutions, in addition to leaving the technical team in vulnerable positions.43 The SO management model would be the desired solution to enable the stabilizing of the technical team’s employment statuses after years of scarcity. Futemma evidenced this hope in an e-mail sent to the ABPA listserv: “This discussion [of the SO management model] has been taking place for eight years, involving MinC, SAv, the Council and the Cinemateca team. We have great expectations that, by the end of this year, a new management model will allow the Cinemateca Brasileira to exercise its full potential in favor of Brazilian audiovisual heritage”.44

The SO management model was the solution deliberated upon after a period of instability among the Cinemateca’s technical staff. It came with the possible preference of a SO created especially for the management of the CB, Pró-Cinemateca, built in 2014 by members of the Council and SAC with the sole purpose of managing the Cinemateca. It would potentially have the participation of professionals from the field in the construction of a Work Plan – the core document for the management itself and one of the selection criteria in the public tender. Pró-Cinemateca qualified for the first tender call, but it could not advance in the second tender call due to a new requirement for previous experience of the institution in the management of public resources. The Pró-Cinemateca itself had no experience, as it had only been created recently. Still, its representatives had spent many years at the Cinemateca’s Council, which, in practice, could have been argued as a more relevant credential than the company’s management history.

Today, following the emergence of controversies surrounding the management of other public entities, cases of corruption, and a series of publications made in the Academy and on the internet, the SO management model is widely questioned.45 It has been shown to be particularly risky for cultural heritage institutions with insufficient government funds, contexts in which essential conservation workflows (often costly and of low visibility) can be overshadowed for the benefit of actions with greater visibility. The elaboration of a work plan without the technical team’s effective participation can compromise its primary objectives. As diagnosed by Fabiana Ferreira:

“Another problem with this tenure is, claiming people are free to raise funds through means other than the State ignores that they also end up at the mercy of the State. Because, in Brazil, there is no tradition of private institutions supporting culture. The private sector in Brazil does not support cultural initiatives. Traditionally, millionaire families and Brazilian corporations do not make donations or investments in cultural equipment, even less for those who do not give visibility to the brand”. (2020, p.110)

In the CB’s case, the management by the SO enabled the CLT (Consolidation of Labor Laws)46 hiring of a good part of the team, whose choice, fortunately, fell to the institution’s coordinators without the intervention of Acerp. However, the technical staff gradually became conditioned to the Acerp guidelines. This conditioning was evident during internal meetings, where it was no longer possible to play an active role in collection prospection47 or to speak on behalf of the institution without Acerp’s consent. Signs of change were perceived in the team’s modes of social interaction in a dystopian way. For example, a camera network to oversee the collection and equipment was installed by Acerp and covered spaces previously used during work breaks. This modern panoptic lookout generated discomfort among us.

Internal courses on technical subjects or on workflows and activities between sectors, which had been held regularly since 2017, were suspended. Fundraising for the Cinemateca was among the actions sought by Acerp, and the usages of the collection and facilities proved to be a quick means to this end, thus generating long periods with a constant flow of production of major events that held varied themes, sometimes apart from the cultural and audiovisual spheres. Since Acerp did not issue the 2018 and 2019 Reports, access to information about these events is not possible to obtain. The absence of the publication of annual Reports is a dangerous indication of the failure of the SO model for the Cinemateca, as they have been essential documents for accountability and transparency of the institution’s management. During the SO period, Acerp issued reports for the Ministry on the performance of Work Plan goals. However, these documents are quite technical and not very informative, in addition to being inaccessible today to the general public. Acerp proposed a Code of Ethics and Conduct for CB employees, presented at an event on company compliance – the sole enunciation of religious beliefs48 was a significant demonstration of the distance between Acerp and the CB’s institutional mission.49 Plus, Acerp’s inability to clear bureaucracies for equipment acquisition for the Lab was evident, which affected work plans that were reliant upon such equipment’s availability. Requests for access to the audiovisual collection by TV Escola for use in their programming became routine, while Acerp meanwhile ignored some work-related needs pointed out by the technical staff. Film programming proposals were negatively impacted by the presence of Acerp. After all, how does one present the idea of ​​a Fassbinder series to a board that made homophobic jokes during small talk before meetings?

The late self-cancellation of CryptoRave’s50 2019 edition by the Cinemateca team for fear of reprisal was symptomatic. An undeniable symbol of the occupation by Acerp was the creation of a new institutional website without the active participation of the CB’s technical staff in editorial decisions. As an example of this fiasco, Acerp implemented a new website without the previous dynamic calendar tool. Resultingly, the new website has a more updated design but is less functional than the previous site had been. Also, Acerp immediately implemented an intermediate logo (‘cinemateca brasileira’ in white on a red background), replacing the 1954 logo which was created by the celebrated designer Alexandre Wollner. Acerp commissioned a new logo design that was presented to the technical staff, and allowed us no time to deliberate as to whether or not we approved of it. The fresh concept and layout were surprisingly similar to the logo of the Curta Cinema - International Short Film Festival in Rio de Janeiro. Acerp is in fact headquartered in Rio de Janeiro and the Cinemateca Brasileira in São Paulo,51 which produced another convoluted aspect: the expenses of transportation, accommodation, and meal tickets for directors, managers, and legal consultants between the two cities, which altogether sum up to a considerable amount. Rather than spend this money on transportation, it could have been invested in the CB itself.

An unquestionable symbol of the SO management model’s failure for the Cinemateca was the dissolution of the Council, constituted of representatives of the government and civil society. The CB’s 1984 legal document of incorporation to the federal government determined the existence of the Council. Acerp, acting without the Council’s input, appointed several directors who had no experience in heritage or preservation fields. This appointment further alienated the technical team who worked to manage the CB. In addition to all of this, the Cinemateca – a historically non-partisan institution – became, through Acerp, the destination of people linked with the extreme right-wing political party of the acting Brazilian president. These people assumed various administrative and communicative positions at the institution without any proven expertise. The newcomers would frequently present the institution’s vaults to visitors without a technician’s due presence, further undermining conservation efforts. The presence of military personnel at the Cinemateca52 and their failed attempt to organize a military film series gained broad reverberations. During the first two years of Acerp’s management (2016-2018), the technical team was autonomous and in control of projects. However, there was a major loss of autonomy in the SO management model from 2018 onwards.

The administrative limbo of ten public servants who were allocated to the institution found themselves in is another important matter. Since the beginning of the SO management, when the CB ceased to have administrative backing under the former SAv/MinC, these people had remained in their positions. Some of them had served at the institution for more than three decades. Before the SO amendment was signed, they were guaranteed that they would not receive losses in their salaries and benefits. However, after the amendment was signed, the governmental understanding changed, and their assignment to Acerp was never made official. Despite this situation, the Ministry instructed these workers to continue with their activities at the Cinemateca. After a year and a half of neglect and contradictory messages, they had to abruptly abandon their functions at the CB to work at the Southeast Ministry’s Regional Office in São Paulo without any infrastructure to welcome them. In addition to this sudden displacement, they were forced to acquiesce to a legal process based on the necessity of returning a bonus earned during the period that they had worked at the CB under the SO administration – a bonus which represented a significant part of their salaries.

Although Acerp assumed the institutional relations more broadly, the Cinemateca’s relationship with FIAF continued to be maintained by Olga Futemma and fellow coordinators, who issued thorough annual reports to FIAF and the prompt inspection of information requested by affiliates. However, between 2016 and 2019, neither Futemma or the coordinators represented the CB at the FIAF congresses held in Bologna, Los Angeles, Prague, or Lausanne.

2020 Crisis

In February 2020, the CB’s off-site facility in Vila Leopoldina was badly affected by a flood from heavy rains and lack of proper management of the storm sewer, combined with the intense pollution of the Pinheiros River, less than half a mile away. The sewage water reached more than a meter in height and destroyed a part of the film and equipment collection, including the last surviving materials of some narrative short and feature-length films, as well as many unique elements of newsreels, advertising materials, and trailers. The Documentation and Research Center assessed the damage such that it was not considered to be significant, since the majority of what had been destroyed was duplicated material. The flood damaged shed facilities and equipment. After thoroughgoing sanitation of the facility by the cleaning team, a part of the technical staff was deployed to clean, organize, and rescue the affected materials. Acerp or SAv did not carry out an emergency plan for the urgent assessment and processing of the site’s audiovisual and equipment collections (which had been the most affected by the flooding), such as hiring an extra technical team temporarily or even granting permission for the obtaining of volunteer work.53 The catastrophe was not immediately reported due to the lack of coordination between SAv and Acerp, and the technical team was not permitted to make news of the flood available to the public. The small team established different shifts in consideration of the high toxicity of the environment and the exhaustive work involved, with their efforts made all the more difficult by the warehouse’s high temperatures without air conditioning and local ventilation.54 Film materials were selected and transferred to the main headquarters for evaluation and processing in the Lab, but the raw film stock was running low. The damage of the audiovisual and equipment collections in the facility, the inaction of SAv and Acerp, the crisis which would subsequently occur, and the interruption of the rescue and research work ultimately makes this flood equivalent in nature to a catastrophe like the Cinemateca’s fires. Per Fabiana Ferreira, such disasters “are a metaphor for the fragility of the making of an audiovisual preservation policy that goes up in flames with each change of Government, of the creation of entities, of new agents” (2020, p.23).

Since the 2013 crisis, the Ministry’s funds have fallen short, which has resulted in smaller teams than were anticipated for the work plans. At the end of 2019, there was yet another crisis, when the then-Minister of Education (MEC) decided not to continue the TV Escola project – the main object of Acerp’s contract with MEC – and did not renew the SO Contract with Acerp. Once the MEC’s main contract was extinguished, all other agreements were also terminated. This is despite the CB-specific amendment ostensibly being valid until 2021. As a result of this termination, the administration of the CB was left adrift. Acerp spent a few months trying to circumvent the decision and to obtain funds from SAv, the Special Secretariat for Culture, and the Ministry of Tourism, but without success. The year 2020 was filled with absurd news of government decisions involving the CB, causing commotion in the filmmaking community and becoming widely covered on media outlets and social networks.55 In April, Acerp stopped paying outsourced companies and technical staff. Former members of the Council launched a manifesto in May.56

The Federal Prosecution Service initiated civil legal action against the Brazilian federal government in the interest of compelling an emergency renewal of the contract with Acerp. By the end of October 2020, the understanding has been a settled situation involving contracting essential services such as security personnel and firefighters. However, the action is still in progress, and the expectation exists for a new decision that will be favorable to the CB. Resistance and protest networks have been formed and strengthened, diffusely, with multiple participants who have narrowed their communication efforts over time: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, and representatives of the São Paulo Association of Filmmakers (Apaci) - SOS Cinemateca.57 These groups have been active in performing demonstrations on behalf of the Cinemateca and building connections with municipal and federal government representatives. During this time, the CB’s spokesperson has not been the manager or the coordinators, but rather a diffuse representation of employees.58

The technical team continued to work remotely (when possible) soon after the COVID-19 pandemic began and went on strike in June with the Union’s practical assistance. A campaign was then initiated by CB workers to raise funds for colleagues who were left in the most vulnerable situation due to the lack of payed salaries right during the outbreak of the COVID-19 pandemic. The campaign received numerous contributions from individuals and institutions around the world.59 Direct donations were made directly to the CB, such as one from a Brazilian director who donated a sum for repairing a generator and wished to keep his contribution anonymous. In July, a debate was held in the Chamber of Deputies60 with the presence of government representatives and different players in the audiovisual industry and a number of other civil society members. The discussion served as a symbol of the unprecedented repercussion and engagement around the Cinemateca. In a way, it also highlighted the need for preservationists to ensure that the language and information spoken about the CB was factually accurate.61

There were few instances of direct communication between Acerp’s board of directors and the CB technical staff, and the coordinators were sharing news related to the institution in a sporadic fashion. In June, Acerp’s directors issued an undated statement (undated!) expressing solidarity on “difficulties that everyone is going through,” claiming, “do know that we are doing ... everything that is within our reach”. The statement included the commitment that “as soon as we receive funds from the Federal Government, the first step will be to pay salaries and termination packages” – even though it had already been made explicit that there would be no funds transferred by the government. Considering the lack of resources in 2020 for the Cinemateca, the flood, the crisis arising from the Covid-19 pandemic, remote work, and the suspension of wages and benefits, this statement symbolizes the neglect and disrespect that Acerp showed the CB staff. After handing over the Cinemateca’s keys to the Ministry on August 7,62 Acerp unsurprisingly and abruptly fired all of its and the Cinemateca’s employees without arrears and severance pay.

As noted in the 2020 Gramado Letter (published just after the annual Gramado Film Festival), “after countless phone calls, messages, consultations between the parties and postponements, basic and emergency water and electricity services were guaranteed […]; cleaning services were contracted, although the company is not specialized; maintenance services for climatization equipment were contracted, although the company does not offer the necessary expertise; a small fire brigade composed of two employees and a property surveillance company were hired. However, specialized employees’ primordial work is lacking among the emergency needs, without which the collection will not be preserved, even with the resumption of the basic services described above”.63 Without technical monitoring, the smallest of incidents in the collection areas can hold drastic and irreversible consequences. This is the first time in the history of the Cinemateca that any of its technical staff members have been restricted from entering the institution.

Together with the news of the handover of the Cinemateca’s keys to the Ministry of Tourism, it was made clear that a new SO public tender announcement would soon be launched. This announcement has not yet occurred. There is a budget forecast of R$ 12.5 million [about USD 2.3 million] for the Cinemateca in 2020. If not used this year, this value cannot be added to the sparse R$4 million [about USD 720 thousand] foreseen for 2021. São Paulo councilors from different political parties organized a parliamentary amendments fund for the Cinemateca, with support from Spcine, the predominant audiovisual agency in the city of São Paulo. The deploying of municipal resources towards a federal institution requires an unprecedented legal articulation, which is being made by SAC for the emergency hiring of a small technical body. Today, civil society groups are still active, with an attempt underway to activate entities and continue the mobilization.

It is imperative to create an immediate solution to make a technical team viable in 2020 so that the Cinemateca’s collection does not remain unaccompanied. Furthermore, mechanisms are needed for the continuance of middle and long-term management, in a resilient and sustainable manner that can prove consistent with the need for constant maintenance of the collection and continuance of the technical team. It is considered fundamental to open and create calls for civil service examinations for job positions that could confer the desired stability. As diagnosed in the 2020 Ouro Preto Letter:

“Preservation of cultural heritage is a constitutional duty of the Brazilian State and, therefore, it is necessary to recover the role of the public power in the management of audiovisual heritage institutions, resuming the processes of opening public tenders for job positions and implementing management plans designed together with civil society, a directive provided for in the 1980 UNESCO Recommendation for the Safeguarding and Preservation of Moving Images

An idea that has appeared throughout numerous online discussions is the return of CB to a federal government heritage institution such as IBRAM or IPHAN, to which the CB was linked until 2003, when it became the responsibility of SAv. This link to IPHAN provided continuity for the CB in the early 1990s when the federal government promoted the dismantling of cinema and institutional policies. IBRAM is an autonomous organization linked to the Ministry of Tourism, which covers thirty national museums.

Legal Deposit and the Audiovisual Industry

Despite the unquestionable duty of the State (and its evident neglect), I emphasize that interest and concern about an effective preservation policy must be seen as relevant by all sections of the audiovisual industry. We must challenge the generally held assumption that the “symbolic asset of memory is inferior to the symbolic asset of a feature film shown in shopping mall cinema venues” (Ferreira, 2020, p.111). This value was built, for decades, by the industry itself. It is possible that the FSA’s prosperity (and the increase in investments in development, production, distribution, and exhibition), together with the inaction of the audiovisual industry concerning preservation, are directly related to the dimension of the current Brazilian audiovisual heritage crisis. ABPA has repeatedly pleaded for seats on the Superior Council of Cinema and on the FSA Fund Committee, without success. In the 2018 CineOP debate “Frontiers between Industry, Market, and Archives – Content, Promotion and Regulation”, a representative of the FSA Fund Committee suggested for preservationists to search for a different financing source for preservation, distinct from the FSA. When a professional raises such a possibility (and his attitude is common among producers), he does so without understanding the importance of preservation for the entire industry, nor his role in defending the Cinemateca and audiovisual heritage policies. Let this defense be made from the personalized perspective, considering that some of his assets may be held at the Cinemateca: footage for his next film as a producer, the origins of his debut feature, or his family’s home movies. The Cinemateca’s activities in discussions, publications, forums, and technology research could also benefit him in other ways. As Paulo Emílio wrote, “You can’t make good cinema without a cinematographic culture, and a living culture simultaneously requires knowledge of the past, an understanding of the present, and a perspective for the future. Those who confuse the action of cinematheques with nostalgia are mistaken” (1982, p.96). The production industry grumbled64 when debating the need for investments to deal with the giant backlog of audiovisual works which need to be preserved in order to serve the production industry. Such preservation benefits this industry as they are then able to commercially utilize the collections. The business model does not close until we have a massive investment to deal with decades of setbacks and stagnation. I grumble back with this chart:65

In April 2017, the FSA’s 2017 Annual Investment Plan66 comprised R$ 10.5 million [about USD 1.9 million] for the Cinemateca Brasileira. This announced value for the CB was equivalent to 1.4% of the total announced in the document. The amount was never paid, with the justification that the non-refundable funds67 ran out. In May 2018, the FSA 2018 Annual Investment Plan68 appointed R$ 23.375 million [about USD 4.1 million] for investments in Preservation. In December of that year, SAv published a tender for Restoration and Digitization of Audiovisual Content. These were funds that allegedly held a return on investments made by audiovisual companies in restoration or digitization. A preservationist workgroup and CB technicians aided in construction of the document and the digitization and restoration technical guidelines. From the preservationist’s perspective, the tender was intended only for producers with a distribution bias and held the preservation aspect as secondary. The current government suspended the tender about four months after its publication. Therefore, out of a possible sum totaling over R$ 4.5 billion69 [about USD 801 million], no FSA funds whatsoever were actually invested in preservation between 2008 and 2018.

Currently, the Cinemateca Brasileira is the onlyx institution nominated to accept Legal Deposit materials. Since 2016, Ancine has invested no more than R$ 2 million [about USD 356 thousand] in hiring a technical team to analyze materials. New technicians must be hired specially for this, as the Legal Deposit workflow mobilizes several sectors and technicians. Over the years, the CB reported a high failure rate of materials analyzed. According to Gomes (2020), “one of the main causes seems to be the great distance and little information from directors/producers about, in a broad way, the role of an audiovisual archive, and more specifically, the principles of the Legal Deposit”. The expertise in analysis of materials without funds for preserving the Legal Deposit collection can be metaphorically considered through the gesture of slashing one’s own throat. The analyzed materials are left inert on shelves in an air-conditioned vault at the mercy of the famous “silent death”.70 The industry must take part in actions towards the improvement of approval rates and creating conditions for preserving digital-born materials within the scope of the Legal Deposit. Broadly, the narrative and the struggle for policies related to audiovisual heritage must also be formulated and driven from within the industry.

The panorama of the Cinemateca presented in the 2020 Gramado Letter is very significant, with several associations listed as signatories, including other film archives, professional TV networks, and audiovisual companies. A positive sign was a discussion about the crisis during the ABC Week of 2020 (organized by the Brazilian Cinematography Association [ABC]), which is considered to be one of Brazil’s most significant events devoted to audiovisual production. But we still need tremendous action to get closer towards recognizing that this crisis at the Cinemateca Brasileira must remain a concern for the entire industry.

The 2020 Ouro Preto Letter highlights, among many urgent matters, the implementation of a national policy for the area of cultural preservation. The letter outlines some of challenges which will be faced, such as “to claim the creation of mechanisms, to expand the offerings of Brazilian audiovisual works in the catalogs of streaming platforms, with the guarantee of inclusion of works from different periods that can allow access to the vast Brazilian audiovisual heritage”. What would be the suggestion proposed by Netflix (used here as a platform model), for example, regarding the need for investment in Brazilian audiovisual heritage? Such an investment would only provide an opportunity for company-improvement, made viable by Netflix’s presence among the 12 companies that profited most during the current pandemic.The proposal is not so absurd, considering that the company’s Brazilian wing created a R$ 5 million [about USD 891 thousand] emergency fund for the Brazilian audiovisual industry due to the recess in the context of the Covid-19 pandemic.71 The availability of older works on streaming platforms is also a point of concern in the United States.72 In general, Brazilian producers do not have resources for digitizing older titles in ways capable of meeting the platform’s technical parameters and, need to potentially spend whatever resources they do have on lawyers who can help them with rights clearances.73 So, how about the platform launches an investment line for non-contemporary works? This idea would be contemplated by the 2018 SAv/MinC/FSA tender for “Restoration and Digitization of Audiovisual Content”, suspended in 2019. The strength of the audiovisual heritage institutions also would benefit the streaming platforms themselves in the middle term, considering the strong contemporary trend of documentaries based in archival images.74 As an illustration, there is a significant number of U.S. documentaries available on Netflix Brasil that use archival images to build their narratives such as Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), the documentary series Remastered (2018), and Explained (2018). However, there are comparatively few Brazilian films and series that feature archival images to this extent, one exception being Thiago Mattar’s Taking Iacanga (2019).

In addition to the CB Lab’s conservation of its collection, I call attention to the confection of new film prints and digital copies, such as those pertaining to the collection Classics and Rarities of Brazilian Cinema, (which was founded in 2007 and underwent its fourth edition in 2016) and those made in celebration of the annual International Day of Audiovisual Heritage. As a means of registration, I highlight the 35mm and digital prints made in 2016, as contained in the Report.75

Creating new 35 mm prints is one of the crucial roles of a film archive with a photochemical lab, as it is vital to provide an experience in line with the original screening format of a film. Considering how digital exists for the sake of broader circulation, digital access files are made in different formats. In the context of the CB, the effort to digitize films made on film would be carried out more fully with some form of pre-established screening event, ideally with formal curatorship and due contextualization for the works. Currently, the clearest path to digital diffusion of CB assets comes via the institution’s own online Cultural Content Bank (BCC).76

Rafael de Luna Freire’s Cinelimite article "Ten Brazilian Films that Remain in the Shadows due to Poor Accessibility" discussed digital inaccessibility for a combination of canonical titles and rarities throughout the history of Brazilian cinema. In addition to creating effective digital access actions, it is crucial to assess whether original film materials exist beyond imminent risk or whether they in fact require urgent preservation or duplication measures. Rafael de Luna’s list evoked the text “Brazilian films considered lost (or about to be lost)”, published in 2001 in the now-extinct Web magazine Contracampo.77

Differently, the 2001 list was about the existence or loss of preservation materials. In addition to some titles that were eventually lost, others had their (known) unique materials deteriorated to the point of making lab processing unfeasible. In light of the Cinemateca Brasileira crises and the paralysis of research work, preservation actions, and laboratory processing, the act of updating the list made by Hernani Heffner and Ruy Gardnier at that time would be of tragic scope. It would be a national institution’s role to make this list public. Besides remaining accountable to Brazilian society about its audiovisual heritage, this work could also prove to be a strategy for locating previously unknown materials held at other institutions and private collectors both in Brazil and worldwide. Yet, what about the many other films and audiovisual records that have escaped such inquiries and remain ostracized? How many films exist today whose only surviving materials are believed to be incomplete and severely deteriorated prints in inferior gauges? How many Brazilian audiovisual records have we lost?

Conclusion

“If we lose the past, we will live in an Orwellian world of the perpetual present. So, where anybody that controls what’s currently being put out there will be able to say what it’s true and what is not. And this is a dreadful world; we don't want to live in that world.”Brewster Kahle (2014, interview for Digital Amnesia, documentary by the Dutch VPRO)
“Knowledge is effective only when it is shared.”Hernani Heffner (2001, in a hallway conversation at the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro)

Digital audiovisual records have served as crucial tools in the fight for human rights in all national corners. They include records of things such as forced evictions, occupations of cultural or educational sites as a form of protest, demonstrations, invasions of communities by police forces (with high homicide rates among local populations, including children and young people), acts of environmental devastation fostered by the current government, struggles for native people rights and the demarcation of native lands, and crimes against native peoples. These audiovisual registers also function as tools for black empowerment and anti-racist movements, for the emancipation and affirmation of women for opportunities, and against structural sexism. With a profusion of creative talents and narratives, social networks gather the most distinguished cultural indexes of this time. In Brazil, in general, these network’s images remain outside the scope of prospection by Brazilian institutions, with the discussion around their archiving and incorporation within the scope of Brazilian audiovisual heritage still proceeding in a merely tentative fashion. From the preservation perspective, aside from all the challenges inherent to digital data preservation,78 ephemerality exists due to the corporate practices of social networks (which wipe content according to their terms of service).

Social media uses persuasive technology mechanisms to drive individual’s behaviors. Algorithms can give credibility to the untrue, boost flat-earth theory, and put #StopFakeNewsAboutAmazon as a trending topic on Twitter. At the same time, ecocide is loose, and the whole world watches as flames engulf the Amazon, the Cerrado, the Pantanal, and other Brazilian national parks.79 The quantum computer Rehoboam80 is an allegory of the now, in a narrative made explicit by Shoshana Zuboff in her book “Surveillance Capitalism”. We observed successive electoral victories by ultra-right political parties and movements with growing levels of terror and violence. The circulation of fake news on social media has increased the destructive power of Covid-19. Counter-information, deep fake, and fake news robots are connected to the world described by Brewster Kahle, founder of Internet Archive, quoted above. We can lose the past and the present due to frailties inherent in today’s sources of information, with their potential for manipulation and misinformation.81 When the current Brazilian president was a deputy, during the congressional voting process held during the impeachment trial of President Dilma Rousseff, he voted for the memory of the military dictatorship’s greatest torturer, who led the former “Presidenta” torture sessions. At the Cinemateca, we failed to frequently screen and watch the anti-dictatorship films Case of the Naves Brothers (1967, Luis Sérgio Person), Iracema: An Amazonian Transaction (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), They Don’t Wear Black Tie (1981, Leon Hirszman), Go Ahead, Brazil! (1982, Roberto Farias), Twenty Years Later (1984, Eduardo Coutinho), How Nice to See You Alive (1989, Lúcia Murat), Friendly Fire (1998, Beto Brant), and Citizen Boilesen (2009, Chaim Litewski),82 in order to make it impossible to trivialize his actions in the Chamber of Deputies and make it such that no woman would vote for him for president two years afterward. Now we cannot fail to preserve these films and those that have come after, such as Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) and Maiden’s Tower (2019, Susanna Lira).

A significant portion of the Brazilian audiovisual heritage has already been lost over the past century. In addition to recurring fires that destroyed collections of early Brazilian cinema, there have been diverse waves of destruction throughout film history (of short films through the consolidation of the feature as a market format, to silent films after the emergence of talkies, to the replacement of nitrate by acetate), many collections have been dispersed, dismantled, and concealed. Numerous works that came to the film archives arrived in an already feeble state. Still, the delay in recognizing the importance of audiovisual heritage, the absence of public policies for its management, and the oscillation of funding to heritage institutions have led to further losses. With the advent of digital, there is an escalated move towards preserving both what is currently being prospected and what lies outside the current prospection scope. The Cinemateca’s current crisis is severe, and it demands urgent measures from public authorities and the audiovisual industry. Despite the government’s destructive power and the ongoing paralysis of the work, I would like to end with an optimistic tone, one that has been encouraged by many online discussions, articulations, and increasing support about audiovisual preservation in Brazil. Many have advocated for their belief in the Cinemateca’s potential to promote debates and screenings, grant access to the most forgotten collections, provide a space for research, offer a visual reference for the past, and subsidize technological research. People believe in its capacity to captivate children and young audiences with the big screen, present pre-cinema and audiovisual technologies in a museum, and engage the institution’s neighborhood and surrounding community. All of these potentialities of the institution, in addition to numerous other creative uses of its collection and the tools that we might be able to use in the future, have been marred by the successive crises and ever increasing backlog. As a result, we have seen the acceleration of the collection’s deterioration, and limitation of the institution’s reach. It has become even more evident over time that the Cinemateca has been included within a macro-project of the devastation of Brazilian culture and heritage, and its importance as a force for reacting against this project therefore grows larger and larger.

Thanks to Aaron Cutler and William Plotnick for the thorough review.

1.  The Ministry of Culture was abolished on the first day of the current government, then initially incorporated into the Ministry of Citizenship and, later, to the Ministry of Tourism. So far, the Special Secretariat for Culture has had five incumbents without proven expertise. Other cultural heritage institutions are experiencing acute crises, such as the Fundação Casa de Rui Barbosa and the Centro Técnico Audiovisual (CTAv). The Brazilian Film Agency (Ancine) did not transfer funds already committed to the Cinemateca Brasileira and did not issue new film production tenders. It is noteworthy that the Federal Constitution which governs Brazilian democracy claims the “State will guarantee to everyone the full exercise of cultural rights and access to the sources of national culture and will support and encourage the valorization and diffusion of cultural manifestations” (Art. 215). They add that, “the public power, with the collaboration of the community, will promote and protect Brazilian cultural heritage” (Art. 216).

2. From 2016 to 2020, I worked in the Film Preservation department at the Cinemateca Brasileira. I share personal views based on this experience, with an emphasis on the department’s activities.

3. Eng: “The Cinemateca Brasileira and public policies for the preservation of audiovisual heritage in Brazil”.

4. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

5. Through the Ministry of Culture’s policy of decentralization, development and production programs were created with quotas for states which habitually have been restricted from investing in audiovisual production. Also, a policy has been put in place that covers low-budget projects and quotas for new directors, female filmmakers, and native people.

6. Regulated in 2007, the FSA is fed by the Contribution to the Development of a National Film Industry (Condecine) and a tax collected from all media distributions systems. These funds are then invested in new productions mainly in cinema, television and electronic games. From 2008 to 2018, a total of approximately R$ 4.5 billion was invested [about USD $713 million].

7. An emblematic example of this dynamic occurred in 2008, with the presence of the Executive Director of the Cinemateca Brasileira at the 3rd annual CineOP. The theme of CineOP that year was National Audiovisual Preservation Policy: Needs and challenges. Throughout the event, the Executive Director took a firm stand on opposing the articulation of other audiovisual heritage institutions with the Ministry of Culture’s representatives, and the creation of the Brazilian Association of Audiovisual Preservation (ABPA).

8. Among the proposals of the 1979 Symposium on Cinema and Memory in Brazil was, “The creation and promotion of regional centers of cinematographic culture constituted by production units and by film libraries (archives of copies of films), with the basic function of prospecting, research and dissemination of the Brazilian collection [… and] the establishment of an [national] inventory” (1981, 67). Laura Bezerra stated that the “creation of a program to boost filmographies that, despite not having implemented systematic and comprehensive actions, allocated resources for some sectorial actions” (2014, 120). Decentralization is necessary, considering the country’s continental nature and cultural plurality, besides being technically susceptible to disasters.

9. CineOP was created in 2006 and has become the main forum for discussions and articulations on audiovisual heritage and education in Brazil. Each year the Ouro Preto Letter is issued by the meeting’s participants, with alerts and proposals for the audio-visual heritage field.

10. ABPA is an association of film preservation professionals, regardless of their formal occupation. ABPA has worked in favor of developing new and better film preservation policies, the promotion of audiovisual heritage, and the translation and publication of technical film preservation texts. In 2016, ABPA created the PNPA, a document that contains diagnoses and proposals for actions and policies within the field of audiovisual preservation. https://abpanet.org/

11. The Council’s central role is to work to help develop the Cinemateca. Its members are representatives of the public sphere and individuals from civil society who are linked to the cinema or cultural heritage industries. Dismally, men have been predominant among council members over the years.

12. Currently, this theater is called Cinesala. http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

13. The original slaughterhouse had its activities closed in 1927. The space was then used as a deposit for the city hall’s lighting equipment.

14. The Brazilian Cinematographic Census project was based on the idea of Gilberto Gil, musician and then a member of the cultural advisory board of BR Distribuidora. Gil would later become the Minister of Culture from 2003 to 2008.

15. State company Petrobras – linked to providing energy, gas, and oil in Brazil – boosted the production, distribution, exhibition, preservation, and restoration of Brazilian cinema.  

16. In collaboration with the CB, the appraisal project was also carried out at the Cinemateca do MAM (Museum of Modern Art) in Rio de Janeiro. The project involved the (unprecedented) inventory of the Cinemateca do MAM collection with deteriorated materials sent to the CB’s lab. The Museum director determined, arbitrarily, that the Cinemateca could not maintain its audiovisual collection (after the inventory was made). As a result, the National Archive (in Rio de Janeiro) and the CB each received parts of the collection. Rather than having them sent to Rio de Janeiro, some film material owners chose to keep their assets with them, often in inappropriate places. That was one of the Cinemateca’s biggest crises, which is historically relevant for Brazilian cinema (especially for the Cinema Novo movement) and the audiovisual preservation area. The Cinemateca do MAM was directed by Cosme Alves Netto, who had a special connection with international institutions. Hernani Heffner joined the institution in 1996. In 2020, the Cinemateca do MAM underwent a consolidation, with a new building for the film collection and some structural changes in the Museum’s direction.

17. According to Souza, the Brazilian Filmography was started by Caio Scheiby on paper cards, and, in the 1980s, four notebooks were published with records of films produced until 1930 (2009, p.259). Currently, according to the CB’s website, “it contains information on approximately 42 thousand titles from all periods of national cinematography and the most recent and widest audiovisual production, whether short, medium or feature films; newsreels; advertising, institutional or domestic films; and serial works (for internet and television), with links to records in the database of posters and references to sources used and consulted”. Filmografia Brasileira. August 2020. Available at: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

18.Text extracted from 2008 plenary. SiBIA. August 2020. http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. According to Laura Bezerra, “SiBIA was conceived and executed by CB/SAv without any debates and negotiations with the players involved, which contradicts the democratic-participative spirit defended and practiced in MinC documents and actions” (2014, 185). The 2009 meeting had 33 institutions from all over the country, and its proposals, which demanded SAv resources and actions, were not carried out. The project was extinguished in 2009, without practical advancements.

19. Programadora Brasil was a project for the diffusion of animation, experimental, fiction, and documentary films, active from 2006 to2013, through the printing of DVDs for non-commercial circuits (film clubs, cultural centers, schools, universities), in a total of 970 works divided across 295 DVDs.

20. Cinemateca Brasileira Institutional Reports. July 2020. Available at: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

21. This unit was affected by flooding in early 2020.

22. Cinemateca Brasileira magazine. Available at: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

23. Collections acquired by the government under theCinemateca’s custody: Estúdio Vera Cruz and Atlântida Cinematográfica (in2009), Canal 100 and Glauber Rocha (in 2010), Goulart de Andrade and Dulce Damasceno de Brito (in 2011) and Norma Bengell (in 2012).

24. The interruption also affected the work of the CentroTécnico do Audiovisual (CTAv, or “Audiovisual Technical Center”), in Rio deJaneiro, which was involved in several SAv projects with CB.

25. 2014 Report - details on pages 12 and 14 on the“analysis of preventive conservation of cellulose nitrate”.

26. Legal Deposit is the mechanism for depositing public-funded audiovisual materials in institutions accredited by the federal government. Until today, only the CB falls under that category. After the approval of the material (according to technical guidelines), the producing company becomes able to receive the last instalment of the financing. Due to the drastic reduction in analysis after the 2013 crisis, the backlog of materials became enormous.  

27. Olga Toshiko Futemma began working at the Cinemateca Brasileira in the 1980s, with particular excellence in her work at the Documentation and Research Center. She became the institution’s executive director in 2004, its deputy director from 2007 to 2013, and its director from 2013 to 2018, at which point she became the Collections Manager. She took part in the FIAF Executive Committee from 2009 until 2013.  

28. After the fire, the vault received the same structure as before. According to the 2016 Report: “the building, designed in the 1990s, was built without electrical or hydraulic installations, in order to minimize the risk of an accident; without active air conditioning, but maintaining the internal temperature with the smallest possible variations and allowing air circulation to avoid the accumulation of gases resulting from deterioration. In the case of self-combustion [...] it would inevitably consume the entire contents of the vault, but it would not spread to the adjacent vaults” – which characterizes what happened in 2016, when the fire consumed only one of the four vaults and did not spread to the others.

29. For example, ARRISCAN, when acquired, was adapted for deteriorated materials, which allowed the scanning of negatives with 4% shrinkage, a measure that would be considered infeasible for other laboratories.

30. Databases of the Documentation and Research Center. August 2020. https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

31. The Programming department continued to show films from the collection, with respect for the original projection format to the best extent possible and privileging Brazilian cinema. It also organized film series with prints loaned from partnering organizations and held screenings in the Cinemateca’s two theaters and on its outdoor screen. The films projected were on 16mm and 35mm prints, as well as digital and video formats.

32. Also, according to the 2016 Report: “the emergency duplication process differs from the film restoration, which involves producing new preservation dupes, both image and sound, and screening copies. It also includes different sorts of manipulation to minimize handling or deterioration marks, approximating its original theatrical release characteristics. A restoration project usually compares different materials, while emergency duplication deals with copying advanced deteriorating material, typically unique, to a new one.”

33. Carlos Roberto de Souza points out that “The Brazilian research and historiographic works carried out […] drew attention to the fact that it is a mistake to build a history of Brazilian filmography with a basis in fiction or narrative feature-length films. The highest volume of Brazilian production has always been of documentaries and newsreels, generally relegated to the background by so-called classical historians, the media, and the general public. The reality of production is reflected in the cinematographic collection that has reached our days. The percentage of nonfiction films exceeds that of feature films and remains the least preserved. That does not mean that all fiction features are preserved. Far from it. Yet the most treated part – and not always with the care it deserves – is that of the consecrated Brazilian features.” (2009, p.261).

34. Later, the team discovered a homonymous field in the Brazilian Filmography database, conducted by the Documentation and Research Center, which was no longer in the workflow. It was a numerical system from 0 to 5. Considering that the Preservation technicians who proposed the methodology had no previous experience at the CB, the categorization did not follow the numerical method, but instead followed text categories. As an example, the categories included “preserved at the moment” (considering original materials, intermediaries, and prints in good condition, for example), “partially preserved”, “not preserved”, “partially lost”, with supplemental information such as “with defects” (image or sound interference), “incomplete”, etc. The system provided quickness in the selection for emergency duplication and research for external access.  

35. WinIsis is a software proposed by Unesco in 1988 and adopted by the CB due to its shapable character. It resembles individual physical library cards, with limited data examination.

36. Trac was initially adopted by the lab and development teams before 2016. The preservation team adopted it in 2016. In 2017, an institutional profile was created, then the Documentation and Research Center profile, and lastly, the Access department profile.

37. We need to talk about ... the Brazilian Cinematheque logo. July 2020. https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. The alleged phallic form of the logo could have contributed to the degree of viralization and public awareness of the Cinemateca in 2016.

38. Manifesto for the Cinemateca Brasileira - 2016. July 2020: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com.

39. 100 Paulo Emílio. Available at: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. July 2020.

40. The legality of amending the main contract is questionable. In any case, we consider it an outrage that an amendment governs the Cinemateca Brasileira as a legal instrument.

41. As occurred in access to original film materials for their digitization and licensing to Canal Brasil, the leading television channel for Brazilian films. The broadcast company was updating its catalog, which was previously in SD resolution. The delivery of films to Canal Brasil would be in HD (1080p) or higher, despite HD being an outdated resolution. Producers opted for HD resolution and not 2K due to budget limitations. Still, in addition to being more commercially relevant in the middle term, 2K represents a more significant preservation action since it would be a longer safeguard of the original material – much of which was already in bad condition.  

42. Especially what can be called pejotization, in reference to “juridical person”, or the legal status of a physical person: The hiring of services from individuals through companies set up for this purpose.  

43. This dynamic of dispersing the workforce is even more dangerous in the context of digital preservation, which demands a constant updating of knowledge due to the ongoing changes in technology and industry practices.

44. E-mail from 29 June 2016. July 2020: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Débora Butruce indicates that a Working Group debated the theme of management by OS over several years: 15th CineOP. At-risk cultural heritage institutions: The Case of the Cinematreca Brasileira. Available at: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. In addition to Butruce, the conversation’s participants included Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira and Eloá Chouzal.

45. Jorge Barcellos sums it up by saying that “Over time, [the Social Organization] became deficient and costly”. He warns that “according to Alzira Angeli, from the Comptroller General of the Union, these organizations have become the new market niche for corruption and [according to historian Francisco Marshall] the initiative promotes the degradation of public management”. August 2020. https://jorgebarcellos.pro.br. As an exception, some museums in the State of São Paulo successfully follow the management model by OS.

46. Consolidation of Labor Laws (CLT) has several benefits to the employee, such as paid vacations, a bonus salary (equivalent to a month’s pay), unemployment insurance, sickness benefits, family salary, maternity salary, and retirement funds.

47. I understand collection prospecting as a fundamental role of the CB, since the Cinemateca is the central national institution, and especially in consideration of the history of destruction and neglect of Brazilian audiovisual heritage. In recent years, news of potentially valuable collections became public, and CB technicians could not act independently under the Acerp administration. Through Acerp, for instance, the technical staff evaluated a collection in the São Paulo countryside. The technical team contacted the Ministry of Foreign Affairs to assess a list of 35mm prints held at the Brazilian embassies in Rome, Berlin, and The Hague. Acerp later took over the connection and was unable to carry out the repatriation.

48. It was reported by many colleagues that the person in charge of such event said ‘God was the first CEO, and theBible was the early compliance’, among other inappropriate comments for an event at an heritage institution.

49. An Institutional Mission document was being consolidated, which was not carried out during the time of Acerp’s management.

50. CryptoRave is a forum for freedom, autonomy, and security on the Internet. CryptoRave. August 2020. https://cryptorave.org.

51. The distance between the two cities is about 268 miles/1-hour flight.  

52. Military personnel in uniform occasionally visited the institution. One episode became notorious: The visit of a deputy who held the same last name as his great-uncle, the first president of the military dictatorship. The deputy published a video on a social network from inside the CB and accompanied by representatives of the institution in which he announced the upcoming exhibitions of military films, reproduced the president’s campaign slogan and saluted the camera. The film series has not been realized.

53. Several volunteers working within the Instituto Moreira Salles’s (IMS) technical coordination team performed an effective response to damages to the studio and photography collection of the São Paulo-born photographer Bob Wolfelson, which was located near the Cinemateca’s damaged area. A technician from the Cinemateca Brasileira was among the volunteers (who operated outside of CB working hours). The event was the second flood that affected the photographer’s studio. Floods in the region are recurrent, so this brief report is a chronicle of a predestined tragedy.  

54. The work consisted of moving bags with piles of cans filled with dirty water, opening each can to check the material’s condition, determining the destination of the material, and organizing the collection on the shelves. At first, the cleaning and maintenance teams performed a task force with the technical team to drain the water, clean shelves, and help move bags of films, but before this work came to an end, these teams were drastically reduced in size.

55. The first of these news items related to the appointment of an actress as the Cinemateca’s director. This actress had played the role of Special Secretary of Culture for two months in the capital city of Brasília and wanted to return to São Paulo for personal reasons. However, no position was legally available for her to assume at the CBat that time, and she ultimately never came to work at the institution.

56. “Cinemateca Brasileira asks for help.”. Sept. 2020. At the time of this writing, the manifesto has received more than 28,500 signatories.

57. Cinemateca Viva, a group formed by the Vila Mariana Residents’ Association (the neighborhood where CB is at <http://www.cinematecaviva.com.br>; The Cinemateca Acesa group <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; and Cinemateca in Crise, created in 2013, with updates on the crisis of 2020: <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. Apaci since 2015 has been active and in contact with the CB board of directors to guarantee the execution of the institution’s work.

58. Cinemateca Brasileira workers. August 2020. https://twitter.com/trabalhadorescb.

59. Cinemateca Brasileira - Emergency Workers. August 2020: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca.

60. The crisis in the Cinemateca Brasileira - Urgent Solutions.August 2020. https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. 2020. Gabriela Queiroz, the Documentation and Research Center coordinator from 2014 to 2020, represented the institution.

61. Some examples: The claim that “all” of the Brazilian audiovisual heritage is housed at CB; the assertion that the institution could catch fire if its light and gas services were cut off for lack of payments (the nitrate deposits do not have any electrical circuit); and the use of the term ‘air-conditioned laboratories’ to designate‘ air-conditioned vaults’.

62. The handover of the keys included the presence of ostensibly armed agents of the Federal Police, summoned with the assumption that there could be resistance by agents of Acerp. Acerp handed over the keys, documents were signed, and the government carried out a technical visit. Even as a sideshow, it was the first time that police intimidation occurred at the Cinemateca. Acerp tried to obtain reimbursement of the amounts invested in the CB in 2019 and 2020, allegedly totaling R$ 14million [about USD 2.6 million].

63. Gramado Letter 2020. Available at: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado.

64. Generalizations are risky and can go wrong. After all, we have many producers who understand, praise, and invest in preservation efforts, especially following the 2020 crisis. If my words do not do justice to producers’ performance in favor of audiovisual heritage, then I will be happy to publish my mistake. But this text was fermented by the frustration of seeing the superb state of the audiovisual industry, with its happy hours, markets, deals, and enormous resources, while the mention of preservation investments generated tremors! The production industry’s greedy attitude relates to the neglect of the Brazilian audiovisual heritage and its preservationists.

65. Sources: FSA and CinematecaBrasileira websites. Published initially in The professional working in audiovisual preservation. Museology & Interdisciplinary. Vol. 8, nº 15, 2019. The chart was initially presented with the Brazilian currency (Real) and was converted to USD for this text. The exchange rate was from the last business day of each year. Original note with a correction: Cinemateca Brasileira is the only institution that receives materials in Legal Deposit and according to Laura Bezerra (2015), its budget represents almost the totality of investments in audiovisual preservation in Brazil during the cited period. In this way, I consider the chart to be a direct illustration of the gap between investments made in audiovisual production and in preservation”.The diagram proceeds only until 2017, since CB has not published any more report since that time. In 2019, under the newly elected government, FSA funding ceased.

66. Document SEI / ANCINE - 0413350 - CGFSA Resolution Nº 101- Approval of the 2017 Annual Investment Plan.October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANº 101 - approves PAI FSA 2017.pdf.

67. The non-refundable mechanism does not presuppose a return on financial profit, but offers other counterpart plans.

68. Document SEI / ANCINE - 0845324 - CGFSA RESOLUTION Nº155 - Approval of the 2018 Annual Investment Plan. October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANo. 155 - Annual Investment Plan 2018.pdf.

69. Resources made available for Actions and Programs - 2008to 2018. October 2020. https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. The full amount informed on this date was R$ 4,558,877,384.00.

70. According to Gomes (2020), most of the materials received in Legal Deposit is stored on external hard drives, which need continuous verification – “digital materials, therefore, require more constant checks and migrations, a need that the Cinemateca Brasileira cannot yet meet, both due to limitations in the number of employees and to financial limitations”. Part of the institution’s large magnetic video collection comes from the Legal Deposit. In general, from 2016 to 2020, no actions were taken to preserve the video and digital collections, only duplication of materials for access purposes. Considering the inaction, broadly and systematically, with the scope of the heritage conceived in digital, one cannot expect to overcome the(notoriously high) loss rates of the Brazilian audiovisual heritage –especially its first digital productions.

71. “ICAB and NETFLIX partner to create an EMERGENCY FUND to support the Brazilian creative community.” September 2020. http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html.

72. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. September 2020. https://www.newsweek.com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. / Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. September 2020. https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Much more money is invested in providing classic film as a streamable option in the US as it is in Brazil, especially Brazilian classics. In the US, the repertoire of old films is a niche explored by platforms such as The Criterion Channel and Mubi, among others.

73. A sensitive aspect for the distribution of older films is the issuance of the Brazilian Product Certificate (CPB), which requires documentation stating the rights holders for specific films. Historically, Brazilian film productions lacked proper documentation, and many companies were dissolved without the transfer of rights of their assets.

74. In the Brazilian context, where the first activity as a preservationist is to explain your role as a professional, Netflix documentaries that contain archival images as an important element of their narrative are often a good way to explain the importance of heritage preservation to many people.

75. 2016 Report: pages 55 and 56. Correction to the content: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) is color, not b&w – a Jaws spoof.

76. Here it is worth reflecting not only on the catalog’s excellence in terms of title availability and content navigability, but also the need to review technical specificities and the dimensions of the watermark logo filling part of the film image, an experience reported as frustrating for many site visitors.

77. Brazilian films considered lost or about to be lost. August 2020. http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm.

78. Proprietary technologies, obsolescence of file format, codec, software, hardware, metadata management, migration.

79. In addition to being catastrophic for fauna and flora, the devastation will directly affect the cultural heritage preservation field due to this field’s direct relationship with the climate, with issues such as larger variations in temperature and humidity taking on special importance. I am unaware of studies in Brazil on the climate crisis and its impact on the area of ​​heritage. From among discussions held in other countries, I would highlight the 2020 realization of the Orphan Film Symposium.

80. The artificial intelligence supercomputer of Westworld (2016,Jonathan Nolan), set in almost four decades in the future.

71. The symbol of misinformation is the science being discredited by social networks and messaging media (especially WhatsApp, a company acquired by Facebook), which makes the act of disseminating scientific information on containing the Covid-19 pandemic more difficult. Research carried out in twenty countries shows that Brazilians believe in their scientists the least among citizens of any country: Brazil with its back to science. September 2020. https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia.

80. Filmography Dictatorship Brazil. September 2020. http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html.

BIBLIOGRAPHY

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

PT/ENG
PT/ENG
8/11/2020
By/Por:
Ines Aisengart Menezes

A Cinemateca Brasileira (CB) é a principal instituição de patrimônio audiovisual do Brasil e, em 2020, passa por sua pior crise. Como resultado, seu expressivo acervo audiovisual e documental está ameaçado, bem como seu complexo parque tecnológico e os saberes técnicos que o permeiam. No início do ano, uma enchente ocorreu em um galpão em uma de suas unidades, afetando drasticamente sobretudo parte de seu acervo de película e de equipamentos. Desde agosto de 2020, as instalações e os acervos estão sem acompanhamento técnico; e até a conclusão deste texto não há perspectiva de uma resolução imediata, condizente com a urgência. A inação e o descaso com a Cinemateca Brasileira são mais uma das perversidades do atual governo, e se soma ao desmonte estrutural do sistema público de saúde, educação e cultura,1 e ao projeto de ecocídio e genocídio da população indígena e negra; este último acelerado pela pandemia de Covid-19. A crise da Cinemateca tomou proporções inéditas em 2020, mas sua origem é anterior, perpassando a crise administrativa e política de 2013 e um incêndio no início de 2016. Este artigo tem como enfoque os trabalhos realizados na Cinemateca Brasileira a partir de meados de 2016, de grande fôlego e entusiasmo na retomada dos trabalhos; o desafio de sua continuidade com a redução da equipe em 2017; a suposta solução com um novo modelo de gestão em 2018; e a hecatombe de 2020.2 O texto também apresenta conjecturas sobre as relações entre o patrimônio audiovisual e a cadeia produtiva do audiovisual. A sucessão de crises ao longo dos 74 anos da instituição, acentuadas por quatro incêndios e a enchente, são de forma mais ampla, o que a museóloga brasiliense Fabiana Ferreira destaca em sua tese A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil (2020). Ela alega que “o único aspecto estável nas políticas públicas de preservação audiovisual é sua inconstância. Uma sucessão de desencontros e desarticulações por parte dos agentes políticos responsáveis pela criação e implementação de políticas sem um real projeto de Estado que atravessa governos” (2020, p.109). Segundo Hernani Heffner, não é somente a maior crise da Cinemateca Brasileira, mas a maior crise do patrimônio audiovisual brasileiro.3

Panorama das Últimas Duas Décadas

O Brasil é uma república federativa presidencialista, com 26 estados e um distrito federal, de dimensões continentais – o quinto maior país do mundo em extensão territorial. O país passou por dois processos de redemocratização, sendo o mais recente a partir de 1984, após a ditadura militar estabelecida em 1964. Neste novo século, o país contou com um crescimento econômico, teve significativa redução das desigualdades sociais e de índices de pobreza extrema, ampliação de universidades e um processo de fortalecimento da indústria do audiovisual, por meio de políticas e programas federais, com destaque para as políticas de investimento da Secretaria do Audiovisual (SAv) / Ministério da Cultura (MinC)4 e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA)5, o que gerou amadurecimento de profissionais, das empresas, e traduziu-se em um volume crescente de obras a cada ano. Eventuais recursos municipais e estaduais somavam-se aos federais. Laura Bezerra pondera que, enquanto o governo investia na descentralização das políticas de cultura, o mesmo não ocorria com a preservação (2015). Nesse período e a partir de sua inclusão no organograma da SAv, houve sólidos investimentos na Cinemateca Brasileira, mas foram diminutas as discussões políticas sobre a gestão do patrimônio, e acerca das ações e mecanismos necessários para que essa gestão fosse feita de forma profunda e mais ampla.6 – referência fundamental para o entendimento do tecido da crise atual. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira, “a Cinemateca não atua na criação e implementação de políticas de preservação, seja realizando discussões e dialogando com o setor, seja participando ativamente dos espaços políticos no âmbito federal, como o Conselho Nacional de Cinema, por exemplo. Também não houve diálogo estruturado com outras entidades gestoras de memória” (2020, p.108). A insuficiência do Estado na gestão do patrimônio acarreta graves reverberações, que abalam a cadeia produtiva do audiovisual – esta não parece vislumbrar a preservação como elemento integrante e necessário para a própria cadeia. Ainda, a crise da Cinemateca Brasileira torna-se mais um argumento para a descentralização (e incremento) de investimentos na gestão do patrimônio audiovisual em todo país.7 O Brasil possui uma miríade de instituições de patrimônio federais, estaduais, municipais e privadas que não estão no holofote, mas que também demandam ações e recursos urgentes.

As últimas décadas foram de constante amadurecimento da área de preservação audiovisual, com a instauração de programas de financiamento específicos; o impulso de publicações; a criação e crescimento da CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto, na qual ocorre o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais8 a formação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) e a elaboração do Plano Nacional de Preservação Audiovisual (PNPA);9 além do crescente número de eventos.

Cinemateca Brasileira – Breve Histórico

A Cinemateca Brasileira contou com diversos arranjos administrativos, tendo começado como uma organização da sociedade civil e, posteriormente, passou para a esfera pública. Seu longo histórico abarca muitos percalços com alguns respiros. O escritor, ensaísta, crítico, pesquisador, professor e militante Paulo Emílio Sales Gomes  (1916-1977) é o protagonista na criação, defesa e gestão da Cinemateca. A atuação de Paulo Emílio é mais ampla que a própria Cinemateca, é fundamental na valorização do cinema brasileiro – e em sua qualificação como documento histórico –, na defesa de sua preservação, na criação de cursos de cinema em universidades, atuante na política internacional – como membro regular do Comitê Executivo da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF), entre 1948 e 1964, e eventualmente como vice-presidente –, além de autor referência em estudos historiográficos de cinema, com suas publicações sobre o francês Jean Vigo e sobre o brasileiro Humberto Mauro. Como professor, foi muito importante pela formação de cinéfilos, intelectuais, críticos de cinema e preservacionistas – sendo que alguns deram continuidade a seu trabalho na Cinemateca Brasileira.

Considerando a profusão de publicações sobre a Cinemateca Brasileira em português, e o limitado repertório em inglês, e tratando-se de uma plataforma bilíngue, apresento um breve apanhado, com momentos-chave sobre a história da instituição. Em 1940, por iniciativa de intelectuais paulistanos, foi criado o Clube de Cinema de São Paulo. Promovia a exibição de filmes, conferências, debates e publicações. Foi fechado pela ditadura de Getúlio Vargas em 1941. Em 1946 Paulo Emílio vai para a França estudar no Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC) e torna-se ainda mais próximo da Cinemathèque française, instituição com a qual mantinha contato, pois já havia morado em Paris na década anterior, período em que sua paixão pelo cinema despertou. Nesse ano é criado o Segundo Clube de Cinema de São Paulo, dessa vez, além de contar com as atividades anteriores, também tinha a iniciativa de prospecção e preservação de materiais de obras brasileiras. Portanto, 1946 é considerado o marco da criação da instituição. O Clube é filiado à FIAF por Paulo Emílio em 1948. No ano seguinte, é criada a Filmoteca do (recém-criado) Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1956 desliga-se do museu e se converte em Cinemateca Brasileira, sociedade civil sem fins lucrativos. Neste ano é formado o Conselho Consultivo.10 Em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato de celulose, ocorre o primeiro incêndio no verão de 1957, que “destruiu integralmente a biblioteca, a fototeca, os arquivos gerais e a coleção de aparelhos para o futuro museu de cinema, assim como um terço do acervo de filmes” (Gomes, 1981, p. 75). A tragédia suscita o apoio e doações de entidades nacionais e estrangeiras, e a Cinemateca ganha um espaço no maior parque urbano de São Paulo, o Parque Ibirapuera. Em 1961 torna-se uma fundação sem fins lucrativos, fato importante para sua autonomia e para o levantamento de recursos públicos.

No ano seguinte, é criada a Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), entidade civil sem fins lucrativos, para auxiliar a Cinemateca na gestão de recursos financeiros e para desenvolver atividades de apoio à Fundação. Se inicialmente as ações de difusão eram o motor da Cinemateca, a partir da década de 1970, a preservação passa a ser seu eixo, em parte pelo estado de seu acervo. O final dos anos 1960 e meados dos 1970 é um período crítico, com poucos funcionários, por vezes em trabalho voluntário. Em 1963 a Cinemateca é desligada da FIAF, devido ao não pagamento das taxas de anuidade, retomando como observadora em 1979, e como membro pleno somente em 1984. O segundo incêndio ocorre no verão de 1969, pelo mesmo motivo que o anterior, com perda significativa de materiais documentais. Em 1977 o laboratório da instituição é iniciado, a partir de equipamentos de laboratórios comerciais desativados. Paulo Emílio falece nesse mesmo ano, de ataque cardíaco.

Em 1980 é inaugurado no Parque da Conceição o Centro de Operações, para trabalhos de documentação e pesquisa. O terceiro incêndio ocorre no outono de 1982. Como decorrência, um movimento pela incorporação ao poder público culmina na extinção da Fundação Cinemateca Brasileira e na incorporação, como órgão autônomo, à Fundação Nacional Pró-Memória, do governo federal, em 1984. Em 1989 é alugado um cinema11 em Pinheiros, bairro movimentado da cidade, que alavancou significativamente a cinefilia da cidade. Ao final desta década, seu quadro funcional conta com cerca de 40 pessoas, sendo 30 contratados, muitos ex-alunos de Paulo Emílio.

Em 1990 a Fundação Nacional Pró-Memória é extinta, e a Cinemateca é incorporada ao Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC), criado naquele ano, e quatro anos depois transformado em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 1997 é inaugurada sua sede definitiva,12 no antigo Matadouro da Vila Mariana, em terreno cedido pela prefeitura, após nove anos de reformas – com o devido tombamento do conjunto arquitetônico. A sede definitiva agrega os departamentos e salas de exibição antes espalhados pela cidade de São Paulo, e pode ser vista como elemento-chave no processo de consolidação da instituição, após décadas de escassez de recursos, precariedade de infraestrutura, mudanças na dinâmica administrativa e institucional.

Em 2001 é inaugurado seu depósito de matrizes, inicialmente com capacidade para 100 mil rolos de filme, com controle de temperatura e umidade. No mesmo ano é iniciado o projeto Censo Cinematográfico Brasileiro,13 com financiamento da BR Distribuidora14 O projeto foi um importante marco para a identificação e tratamento do acervo da instituição,15 e para a formação de mão de obra técnica. Ele “organizou-se sobre quatro eixos básicos: o levantamento e exame do acervo existente, concentrado e disperso; a duplicação de filmes amea[ça]dos de desaparecimento por seu estado de deterioração; a divulgação do trabalho e de seus resultados; o estudo de medidas legais para a proteção do patrimônio audiovisual” (Souza, 2009, p.258). Em 2003 a Cinemateca é incorporada à SAv/MinC, após deliberação do Conselho, considerando que o IPHAN não estava atendendo o escopo e não se envolvia nas estratégias da Cinemateca senão para aprovar planos de trabalho. Nos anos subsequentes, os recursos repassados pelo MinC aumentam gradualmente. Em 2003 é implementado um programa de estágio de curta duração para técnicos de outras instituições. De 2004 a 2006, o projeto Prospecção e Memória dá continuidade ao projeto do Censo, sobretudo em relação à catalografia de obras brasileiras, compiladas na base de dados Filmografia Brasileira.16

Em 2005 é criado o Sistema Brasileiro de Informações Audiovisuais (SiBIA), programa da SAv, com coordenação da CB, “programa que visa estabelecer uma rede que conta neste momento com a participação de mais de 30 instituições que se dedicam, prioritária ou subsidiariamente, à preservação de acervos de imagens em movimento em todo o Brasil”.17 A instituição é escolhida como sede do 62º Congresso da FIAF em 2006, cujo tema é “O futuro dos arquivos de filmes em um mundo do cinema digital: arquivos de filmes em transição”. No mesmo ano, à ocasião do 60º aniversário da instituição, com comitiva de ministros e secretários, Luiz Inácio Lula da Silva é o primeiro (e único) presidente do Brasil a visitar a CB. Em 2006 é publicado o Manual de Manuseio de Filmes e o Manual de Catalogação da instituição, normativas internas e importantes referências para as demais instituições brasileiras, sobretudo à época, ainda com poucas publicações técnicas em português. Em 2008 a SAC torna-se uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e, a partir de então, são volumosas as transferências de recursos para projetos na Cinemateca. Na gestão da SAC, são realizados projetos da próprio SAv – como meio de garantir agilidade na execução de programas do Ministério, como a Programadora Brasil.18 A partir de 2008 são publicados relatórios anuais de atividades.19, à exceção dos seguintes anos: 2013, 2015, 2018 e 2019. Como resultado do Censo, são confeccionados materiais de preservação e difusão no laboratório da instituição, e realizadas restaurações com recursos de projetos e programas. Em 2009 é lançado o Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro, caixa de DVDs com 27 títulos de filmes silenciosos com trilhas sonoras compostas especialmente para a edição. Em 2011 é inaugurada uma instalação secundária na Vila Leopoldina,20 para armazenamento de películas, documentos, equipamentos, dentre outros. Em 2012 é publicada a primeira edição da Revista da Cinemateca Brasileira e, no ano seguinte, sua segunda edição.21 Em 2013 é instaurada uma crise político-administrativa, com a sumária exoneração do diretor-executivo da instituição, sem o devido diálogo com o Conselho, sem as medidas adequadas para sua substituição ou um plano de transição. São realizadas sucessivas auditorias da Controladoria Geral da União em relação à execução de recursos da SAv pela SAC e à aquisição de acervos pela União.22 Ao final do ano, dos 124 funcionários ativos antes da crise, poucos permaneceram, dentre eles os 22 funcionários públicos diretamente vinculados ao ministério.23 A partir do relatório de 2014, é possível verificar que alguns (poucos) fluxos de trabalho continuaram. Destaco a interrupção de um fluxo não executado em 2014 (e 2015), que afetaria drasticamente o acervo:

No verão de 2016 ocorre o quarto incêndio, mais uma vez em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato. A perda foi estimada em 1003 rolos de filmes em nitrato de celulose, referentes a 731 títulos. Além da descontinuidade da revisão deste acervo com a crise de 2013, alguns anos depois foram descobertos alguns rolos recém-chegados à instituição, que foram alocados no depósito sem a devida remoção da embalagem de transporte. Isso poderia ter sido evitado se a equipe técnica tivesse sido encarregada de alocar e realocar as obras dentro dessa coleção de filmes. Esse descuido potencialmente criou condições para um microclima sujeito à autocombustão e pode ter sido o segundo fator responsável pelo incêndio. Porém, o fator primário sempre será a irresponsabilidade do poder público, ante a falta de condições para o exercício das atividades básicas da instituição.

Cinemateca Brasileira – de 2016 a 2017

O incêndio de 2016 coincide com a entrada de 11 técnicos, viabilizados por um contrato de serviços firmado entre a SAv/MinC e a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que entrou em vigor no final de 2015, com duração de um ano. Ao todo, até meados do ano, foram 42 técnicos contratados, que se somavam aos 15 servidores diretamente vinculados ao MinC. Foram também contratadas empresas terceirizadas de serviços essenciais (manutenção, limpeza, segurança e TI) e 7 técnicos para o fluxo de Depósito Legal,24 viabilizados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). No relatório anual de atividades de 2016, o tom da apresentação da diretora Olga Futemma25 é de otimismo e orgulho pelo cumprimento das metas estabelecidas no Plano de Trabalho do Contrato, com a devida indicação das dificuldades e desafios criados a partir da descontinuidade dos trabalhos nos anos anteriores. Destaque para os trabalhos realizados em decorrência do incêndio:

“balanço e comunicação das perdas […]; exame, separação por grau técnico e triagem para encaminhamento de materiais [...] para processamento laboratorial; alocação provisória dos 3 mil rolos de nitrato remanescentes; elaboração de projeto de implantação, no depósito incendiado, de dispositivos contra sinistros […]; reforma básica do depósito, realizada pela equipe da Cinemateca, para o retorno da coleção […]; descarte técnico de resíduos do incêndio”.

Apesar do desastre, não foram obtidos recursos junto ao MinC para dispositivos contra sinistros.26 Outro desafio explicitado por Futemma foi a situação do Laboratório de Imagem e Som: devido à paralisação anterior, o “cenário era desolador”, dizia. Para enfatizar sua importância: trata-se de um dos mais completos (e último?) laboratórios de processamento audiovisual fotoquímico da América do Sul, com possibilidade de processamento de película para película (35mm e 16mm, suporte p&b de todos os materiais e confecção de cópias de materiais cor); de película 8mm, 9,5mm, 16mm e 35mm para digital (HD, 2K, 4K, 6K); back-to-film, de digital para película 35mm; captura de diversos formatos em vídeo (U-Matic, Betacam SP, Betacam digital, DVCam, entre outros) para digital; manipulação digital de imagem e som, incluindo correção de cor e restauração. O maquinário foi trabalhado ao longo dos anos para processar materiais com deterioração avançada.27 Devido à ausência de equipe nos anos anteriores e à decorrente falta de manutenção e peças, não foi possível retomar alguns fluxos.

O acervo audiovisual contém cerca de 250 mil rolos, entre películas com suporte de nitrato, acetato de celulose e poliéster, além do expressivo acervo de fitas e rolos magnéticos, e aproximadamente 800 terabytes de arquivos digitais, sobretudo de materiais digitalizados do acervo e materiais encaminhados para Depósito Legal. O acervo documental abarca cerca de um milhão de documentos relativos ao audiovisual, como cartazes, fotografias, desenhos, livros, roteiros, periódicos, certificados de censura, material de imprensa, documentos de arquivos pessoais e institucionais.28 Ademais, há uma coleção de equipamentos, não catalogada, de tecnologias do audiovisual de diversas décadas. No período recente, a instituição dividia-se nos setores: preservação de filmes, centro de documentação e pesquisa, difusão – programação.29 e eventos, atendimento, administração, manutenção e tecnologia da informação.

No setor de Preservação de Filmes, diversos fluxos foram executados ao longo de 2016: acompanhamento da climatização dos depósitos, movimentação de materiais de acordo com suas características físicas ou deterioração, revisão da documentação, atendimento a solicitantes e duplicação emergencial de materiais, que será comentada adiante. Um fluxo de trabalho importante foi a documentação, de forma coletiva, de ações necessárias, mas para as quais não havia recursos suficientes. Depois de meses de manutenções corretivas e avaliação dos químicos e de película virgem no estoque, foi iniciado o processamento de materiais em avançado estágio de deterioração considerados únicos: “a seleção foi feita considerando as condições técnicas dos materiais, [com investimento de] menos tempo e recursos nas ações complementares de uma só obra para que seja possível viabilizar ações, embora incompletas, em um número mais amplo de materiais”, de acordo com o Relatório de 2016.30

Devido às metas estabelecidas no Plano de Trabalho e aos exíguos tempo e equipe disponíveis em 2016, a seleção de materiais para processamento em laboratório foi realizada por apenas um técnico, sem debates e discussões mais amplas sobre o processo de seleção. Houve a precaução de não selecionar longas ficcionais consagrados31 abrangendo “materiais de obras de ficção, documentários, cinejornais, filmes domésticos e filmes científicos” e “sem avaliação subjetiva do conteúdo das obras ou curadoria” (Relatório 2016). A seleção priorizou a urgência pela deterioração do material e não pelo conteúdo. O aspecto crítico nesse fluxo consiste no que não estava sendo selecionado, e que possivelmente estava incrementando ainda mais o ostracismo da obra. Ao longo do processo de análise, materiais indicados para duplicação eram avaliados como não processáveis e, pelo potencial de unicidade, ainda que com esperança no surgimento de algum material, impossível não encarar como a morte da obra. Inúmeros materiais estavam tão deteriorados que não possuíam condições de duplicação na íntegra, e os novos materiais gerados muitas vezes continham as marcas fotográficas da deterioração. Durante este fluxo, foi utilizado o estoque de película comprada nos anos anteriores – que foi findando ao longo dos anos, sem renovação.

As eventuais mortes de obras e as especificidades de processamento suscitaram a necessidade de criar uma metodologia que avaliasse e documentasse a situação da obra, a partir de determinado conjunto de materiais, para nortear as ações de preservação e acesso. Assim surgiu o que foi denominado como “status de preservação”, categoria que, além se integrar à documentação interna, foi incorporada nas comunicações aos detentores de direitos das obras, com observações como “indicada para processamento” ou “necessidade de prospecção de novos materiais”.32 Uma vez que essas categorias são mutáveis uma vez que a condição dos materiais pode mudar, a data do status era tão importante quanto o próprio status como informação.

A plataforma de dados da Cinemateca Brasileira é o WinIsis33 um software bastante limitado como ferramenta de análise de dados de forma mais complexa. A retomada de trabalhos de análise do acervo audiovisual, a criação de novos materiais e a movimentação demandavam atualização constante da base de dados de materiais audiovisuais, que foi interrompida devido à detecção de problemas estruturais na própria base – com o risco de corrupção de dados. Em paralelo, o projeto de código aberto e baseado na web Trac.34 foi estruturado e normatizado para documentação interna – essencialmente documentação fixa em formato Wiki e sistema de tarefas por tickets. Essa intranet “possibilita manter a horizontalidade da informação em relação aos demais setores, a colaboração na construção da documentação, a perenidade e a organização da informação em uma mesma plataforma, […] utilizada para documentar procedimentos internos diversos; normas e bulas de preenchimento de documentos; relatórios e textos referentes à instituição; informações referentes a solicitações externas e dados de materiais analisados e processados”, de acordo com o Relatório de 2017. O esforço por manter uma documentação interna acessível, horizontal e transparente, condizente com o caráter de uma instituição de memória, não alcançava as comunicações com a Acerp e os projetos elaborados pela equipe e encaminhados aos Ministérios. Um elemento importante para o progresso dos trabalhos foi o investimento em desenvolvimento de tecnologia, como documentado no Relatório de 2017, o que permitiu a análise de informações da base de dados de forma dinâmica e a busca por soluções para fomentar a autonomia da instituição.

Merece destaque o projeto ClimaCB, criado para o monitoramento on-line da climatização, uma combinação de software e hardware de código aberto, cujas orientações e códigos estariam disponíveis em Git, para a livre utilização. Infelizmente, a publicação não foi efetivada. A participação da CB à frente de discussões técnicas e na publicação de proposições e soluções tecnológicas é ansiada, considerando seu potencial caráter medular, no âmbito da preservação audiovisual.

No período de dois anos durante o Contrato de Prestação de Serviços, Olga Futemma mantinha reuniões com a equipe técnica para compartilhar notícias, impressões e estratégias. Os eventuais encontros reforçavam a noção da proporção e da força da equipe, e serviam como injeção de ânimo. Outro elemento importante de coesão como equipe foi a construção de um novo site – o anterior tinha navegabilidade e ferramentas obsoletas. Um momento de visibilidade foi a realização de uma vinheta pela equipe técnica, mostrando o histórico da logomarca da instituição, criada em 1954.35

A equipe do setor de Preservação tinha um equilíbrio entre técnicos antigos na instituição, que garantiam uma necessária continuidade de fluxos, e técnicos que ali trabalhavam pela primeira vez, que proporcionavam um frescor na avaliação de fluxos e processos do setor. As dificuldades nas relações interpessoais em anos anteriores e a insegurança ocasionada pela crise de 2013 eram as referências negativas a serem evitadas.

O ano de 2016 ficou marcado pela autonomia e intensa comunicação da equipe técnica, mas também pelos percalços. Em maio foi lançado um edital para seleção de uma Organização Social (OS) para empreender a gestão da CB, pela então equipe do MinC do governo Dilma Rousseff. Pouco depois ocorreu o golpe misógino, caracterizado como um processo de impeachment da presidenta. Tão logo o novo presidente assumiu, quis acabar com MinC, mas voltou atrás, após forte pressão popular. O novo Ministro da Cultura cancelou o edital da contração da OS para a CB, que foi lançado meses depois, com alterações.

Em julho houve mais uma surpresa: a eliminação, por uma reestruturação do MinC, de cinco cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) da instituição, ocupados então pela diretora e por técnicos. A direção da CB seria ocupada por uma indicação do Ministério, sem a devida expertise e sem a participação do Conselho, dado inédito à época. Foram enviadas cartas de associações e o Conselho da CB lançou um manifesto36 pela revogação das demissões e pela vinculação da Cinemateca ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), o que auxiliou a reversão do corte do DAS da diretora e viabilizou a contratação de técnicos que ocupavam outros cargos, de outra forma.

Nos meses seguintes foi batalhado junto à SAv/MinC uma forma de evitar o intervalo entre o contrato de prestação de serviços com a Acerp – que terminaria em dezembro – e a implementação do Contrato de Gestão com a OS vencedora do edital. A solução encontrada, um dia antes do término do contrato, foi sua extensão até abril de 2017, mas “como o valor residual não é suficiente para remunerar por quatro meses todos os técnicos anteriormente contratados, foi preciso reduzir a equipe (em cerca de 75%) e, como consequência, frentes de trabalho”, segundo o Relatório daquele ano. O ano terminou com uma mistura de entusiasmo, pela celebração do centenário de nascimento do Paulo Emílio – com o lançamento de um esmerado site,37 de cursos ao público externo e publicações –, e de desânimo pelo corte da equipe, que só seria retomada em proporção similar em junho de 2017. É visível o impacto da forte redução dos técnicos, em um comparativo dos fluxos de trabalho nos Relatórios de 2016 e 2017, como pode ser explicitado pelos resultados do laboratório de metragem de material processado:

Em maio de 2018 foi celebrado o contrato com a OS, seguido por uma cerimônia com a presença do então Ministro da Cultura, que clamou que “a crise acabou” com o novo modelo de gestão. A Acerp, titular do contrato de prestação de serviços desde 2016, foi a OS selecionada no Edital. No caso da Cinemateca Brasileira, a costura jurídica do contrato de gestão por OS iria contribuir para a crise atual: a legislação não permitia que a Acerp firmasse um contrato de gestão diretamente com o Ministério da Cultura (órgão ao qual a Cinemateca estava vinculada), pois já tinha um contrato com o Ministério da Educação (MEC), então a gestão da Cinemateca foi oficializada por um aditivo ao contrato principal.38

Após a assinatura, a Acerp designou uma nova diretora para a Cinemateca, sem consulta ao Conselho, então relegado ao ostracismo. A primeira ação da Acerp com forte impacto na dinâmica da equipe técnica foi o estabelecimento de um núcleo de Atendimento para se dedicar ao crescente número de solicitações, sobretudo de acesso ao acervo audiovisual. Os serviços dos demais setores e o acesso ao acervo documental continuavam sendo viabilizados, mas, com o novo fluxo, se formou um gargalo no acervo audiovisual. Toda solicitação era registrada, respondida e eventualmente atendida, em teoria, considerando a ordem de chegada, a possibilidade de execução e os tempos de tramitações dentro da instituição. Apesar desse protocolo estabelecido pela equipe, um sinal da subjugação da CB seria a intensificação de projetos furando a fila, por determinação do ministro ou da diretoria da Acerp, o que gerava desconforto e inconformidade em parte da equipe.

Para a equipe de Preservação, o núcleo de Atendimento significou não ter mais contato com pesquisadores e produtores, que estavam acostumados com a maior agilidade que a expressiva equipe conferia antes de 2013 – e ficavam frustrados com a limitada capacidade de resposta impressa pela equipe reduzida. Ademais, o diálogo com produtores e pesquisadores – e suas práticas – denotava incompreensão da importância da preservação. Ou ainda, uma visão curta, até em termos de mercado, como a demanda para retirada de materiais para digitalização e licenciamento sem o processamento tecnicamente necessário.39 Outro indício da incompreensão e desrespeito com o viés da preservação é a não execução das contrapartidas especificadas pela CB. Relação elegantemente comentada por Olga Futemma, no Relatório de 2016: “algumas das situações ruins que enfrentamos decorreram de: prazos exíguos; a total desconsideração da necessidade de uma contrapartida – não em termos monetários, pois a Cinemateca não pode cobrar [à época] , mas em ações que deveriam estar previstas em seus projetos e que permitissem ampliar o acervo […]; a incompreensão de que materiais únicos (de preservação) não devem sair do acervo sem supervisão […]”. Ela acrescenta que “é preciso, portanto, continuar a empreender esforços para a mudança da concepção do bem público como algo de que se possa dispor livremente para a consecução de projetos privados, e para a compreensão da necessidade de, ainda na fase de elaboração, consultar sobre a viabilidade do projeto com a Cinemateca, no que diz respeito aos materiais pretendidos e aos prazos necessários para sua disponibilização. São duas condições essenciais para um planejamento que beneficie o solicitante e o acervo”.

Em setembro de 2018, antigos membros do Conselho emitem uma Notificação Extrajudicial ao MinC, requerendo a “revogação dos atos […] e normas que violem a autonomia técnica, administrativa e financeira asseguradas na escritura de incorporação da Fundação Cinemateca Brasileira […], além de: 1) Constituição de novo Conselho Consultivo com observância à necessária autonomia do órgão; […] 3) Retorno da Cinemateca Brasileira à estrutura do IPHAN”. A notificação menciona ainda a “omissão da SAv diante do incêndio [de 2016 … e] que a Cinemateca Brasileira nem mais consta da estrutura do Ministério da Cultura e nem mereceu nenhum cargo público comissionado”.

Gestão por OS na Cinemateca Brasileira

No momento de maior solidez da instituição, na primeira década deste século, a manutenção de seu corpo funcional foi um desafio constante. Os técnicos eram contratados por projetos com duração específica, por diferentes formas de vinculação.40 Essa dinâmica imprime fragilidade e instabilidade aos fluxos de trabalho, compromete estratégias e soluções estruturais, além de vulnerabilizar a própria equipe técnica.41 O modelo de gestão por OS seria uma solução desejada para viabilizar a contratação da equipe técnica de forma estável, depois de anos de penúria, conforme evidenciado por Futemma em e-mail na lista da ABPA: “esta discussão [de modelo de gestão de OS] ocorre há oito anos, envolvendo MinC, SAv e Conselho e equipe da Cinemateca. Temos grandes expectativas de que, até o final deste ano, um novo modelo de gestão permita à Cinemateca Brasileira exercer todo o seu potencial em prol do patrimônio audiovisual brasileiro”.42

O modelo de gestão por OS foi a solução deliberada depois de muitos anos de instabilidade do corpo técnico. Essa perspectiva era calcada também na possível preferência de uma OS criada especialmente para gerir a CB, a Pró-Cinemateca, OS criada em 2014 por membros do conselho e da SAC, com a finalidade única de fazer a gestão da instituição, que potencialmente teria a participação de profissionais da área na construção de um Plano de Trabalho – documento medular para a gestão em si e um dos critérios de seleção no Edital. A Pró-Cinemateca se qualificou para o 1º Edital lançado, mas não para o 2º Edital, devido à nova exigência de experiência prévia da instituição na gestão de recursos públicos – não havia experiência da instituição, pois havia sido criada recentemente, mas dos representantes e conselheiros, sobretudo experiência na própria Cinemateca, o que, na prática, poderia ser mais relevante do que o histórico de gestão da empresa em si.

Hoje o modelo de gestão por OS, após controvérsias em torno da gestão de outras entidades públicas, casos de corrupção e uma série de publicações sobre o tema na academia e na internet, é rebatido de forma ampla.43 O modelo é especialmente arriscado para instituições de patrimônio cultural em um contexto de insuficiência de recursos do Governo, onde fluxos de trabalho essenciais para a conservação do acervo (muitas vezes custosos e de baixa visibilidade) podem ser ofuscados para o benefício de ações com maior visibilidade pública. A confecção de um plano de trabalho sem a participação efetiva da equipe técnica pode comprometer seus objetivos primordiais. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira:

“Um outro problema dessa gestão é que a justificativa da liberdade para captação de recursos por outras vias que não as estatais acaba também ficando à mercê do Estado. Isso se dá porque, no Brasil, o apoio das instituições privadas para a cultura não é tradição. A iniciativa privada no Brasil não apoia iniciativas culturais. Tradicionalmente, famílias milionárias e corporações brasileiras não realizam doações ou investimentos nos equipamentos de cultura, menos ainda para aqueles que não dão visibilidade à marca”. (2020, p.110)44

No caso da CB, a gestão por OS possibilitou a contratação por CLT45 de boa parte da equipe, cuja escolha felizmente coube aos coordenadores, sem a intervenção da Acerp. Porém, gradativamente o corpo técnico passou a ser condicionado às diretrizes da Acerp, condição que ficou evidente em reuniões internas, quando não era mais possível desempenhar um papel ativo na prospecção de acervos46 ou falar em nome da instituição sem o consentimento da Acerp. Sinais de mudança foram percebidos nos “modos sociais” da equipe, de forma distópica: a instalação de rede de câmeras como medida de segurança de acervo e equipamentos se concretizou com a gestão da Acerp – abarcando espaços anteriormente utilizados em pausa do trabalho, gerando desconforto com a vigia panóptica moderna.

Cursos internos de assuntos técnicos ou apresentação de fluxos e atividades entre os setores, que eram realizados desde 2017, foram suspensos. A captação de recursos para a Cinemateca constava entre as ações previstas pela Acerp, e o aproveitamento do acervo e das instalações era uma via rápida para esse fim, o que gerou longos períodos com um fluxo constante de montagem e desmontagem de estrutura para grandes eventos, com temáticas variadas, por vezes distante da cultura e do audiovisual. Como não foram emitidos relatórios de 2018 e 2019, na gestão da OS, não é possível o acesso à informação sobre esses eventos. A ausência de publicação de relatórios é um perigoso indício da falência do modelo de OS para a Cinemateca, pois são documentos fundamentais para prestação de contas e transparência da gestão da instituição. No período foram criados relatórios de cumprimento de metas para o Ministério, mas o caráter do documento é técnico e pouco informativo, além de não ser público. Foi proposto um Código de Ética e Conduta da Acerp para os funcionários da CB, apresentado em um evento sobre o compliance da empresa – a menção de crenças religiosas no evento foi uma demonstração significativa da distância entre a Acerp e a missão institucional da CB.47 Ainda, ficou explícita e evidente a inaptidão da empresa no desembaraço de burocracias para aquisição de equipamentos para o laboratório, o que afetou planos de trabalho desenhados segundo a disponibilidade de tais equipamentos. Solicitações de acesso ao acervo audiovisual para a utilização na programação da TV Escola tornaram-se prática corrente – enquanto a Acerp desatendia algumas necessidades apontadas pelo corpo técnico. As propostas da programação para a sala de cinema foram impactadas e condicionadas – como apresentar a ideia de uma mostra de Fassbinder para uma diretoria que fazia piada homofóbica nas situações de conversa fiada anteriores às reuniões?

O cancelamento em cima da hora da edição de 2019 da CryptoRave48 pela equipe da própria Cinemateca foi sintomático, por receio de represália. Um símbolo incontestável da ocupação pela Acerp foi a criação de um novo site, sem participação ativa do corpo técnico da Cinemateca nas decisões editoriais. Como exemplo de equívoco, a ferramenta dinâmica do calendário de programação não era compatível com a linguagem do novo site. Portanto, o novo site passou a ter um design mais atualizado, porém menos funcional. A Acerp de imediato implementou uma logomarca intermediária (dizeres ‘cinemateca brasileira’ em cor branca sobre fundo vermelho), em substituição da logomarca de 1954, criada pelo celebrado designer Alexandre Wollner. A Acerp encomendou o desenho de uma nova logomarca, apresentada ao corpo técnico sem espaço para deliberação, cujo conceito e diagramação surpreendem pela semelhança com a logo do Curta Cinema - Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro. Outro aspecto delicado, pois a Acerp é sediada no Rio de Janeiro e a Cinemateca em São Paulo.49 são os gastos de traslado, hospedagem e diárias de alimentação de diretores, gerentes e membros da consultoria jurídica entre as cidades – esses recursos acumulados significam um montante considerável, que poderia ter sido investido na própria Cinemateca.

Um símbolo inquestionável do insucesso do modelo de gestão de OS para a Cinemateca foi a dissolução do Conselho Consultivo, composto por representantes do poder público e da sociedade civil, cuja existência está prevista na ata de incorporação da instituição ao governo federal, de 1984. Sem diálogo com o Conselho, vários diretores foram apontados pela Acerp, sem experiência na área de memória ou preservação, e acabaram por alienar a equipe técnica dos rumos da instituição. Além disso, a Cinemateca, que historicamente se mantinha apartidária, por meio da Acerp, tornou-se o destino de pessoas associadas ao partido de extrema direita do presidente à época, em cargos diversos (administrativos e de comunicação, sobretudo), sem a expertise necessária nem entendimento da instituição, e que frequentemente apresentavam as áreas técnicas aos visitantes sem o devido acompanhamento da equipe técnica, fragilizando mais os esforços de conservação. Episódios com muita repercussão foram a presença de militares nas dependências da instituição50 e a tentativa fracassada de realização de uma mostra de filmes militares. Ao longo dos quatro anos da gestão da Acerp, a partir do exame da dinâmica interna, fica explícito o quanto a equipe técnica era autônoma e tinha projetos (Acerp como prestadora de serviço, de 2016 a 2018) e o quanto houve de perda da autonomia no modelo de gestão por OS (2018 em diante).

O limbo administrativo em que os dez servidores públicos alocados na instituição consiste em outra questão. Eles continuaram em seus postos desde o início da gestão por OS, quando a CB deixou de ser uma coordenação-geral da SAv do antigo MinC. Alguns dos servidores já estavam na instituição há mais de três décadas. Antes da assinatura do contrato, foi garantido aos servidores que, com a cessão para a OS, não teriam prejuízos em seus salários e benefícios. Contudo, após a assinatura do contrato, o entendimento mudou e a cessão nunca foi oficializada. Apesar dessa situação, o ministério orientou os servidores a prosseguirem com suas atividades na Cinemateca. Após um ano e meio de descaso e mensagens contraditórias, tiveram que abandonar de forma brusca a Cinemateca, para trabalhar no Escritório Regional do Sudeste do Ministério, em São Paulo – sem infraestrutura mínima para recebê-los. Além da súbita suspensão de sua atuação na CB, essas pessoas respondem a um processo de reposição ao erário, para devolução à União da Gratificação de Desempenho de Atividade Cultural (GDAC) – que representa parte significativa dos vencimentos – do período da assinatura do contrato de gestão da Acerp até a ida ao escritório do Ministério, por terem trabalhado “cedidos” para a OS.

Apesar de a Acerp ter assumido as relações institucionais de forma mais ampla, excepcionalmente a relação com a FIAF seguiu sendo feita por Olga Futemma e coordenadores, com a emissão de minuciosos relatórios anuais à Fundação e a pronta pesquisa de informações solicitadas por associações filiadas à FIAF. Porém, entre os anos 2016 a 2019, não foi possível a representação de Futemma ou dos coordenadores nos Congressos de Bologna, Los Angeles, Praga e Lausanne.

Crise de 2020

Em fevereiro de 2020 a instalação secundária na Vila Leopoldina foi afetada por uma enchente, devido às fortes chuvas e à ausência da gestão adequada de galerias pluviais do bairro, aliada à intensa poluição do rio Pinheiros, a menos de 0,5 km da Cinemateca. A água de esgoto atingiu mais de um metro de altura, destruindo parte do acervo de película e de equipamentos, inclusive últimos materiais de longas e curtas de ficção, muitos elementos únicos de cinejornais, publicidade e trailer. Os danos ao acervo documental não foram considerados significativos, por se tratar de material duplicado. Instalações e equipamentos do galpão foram afetados e danificados. Após uma higienização profunda no ambiente pela equipe de limpeza, uma parcela da equipe técnica foi deslocada para limpeza, organização e resgate dos materiais atingidos. Não foi executado um plano emergencial por parte da Acerp ou da SAv para a necessária avaliação e processamento dos acervos audiovisual e de equipamentos, os mais atingidos, como a contratação de uma equipe técnica extra de forma temporária ou, até, a permissão de voluntários.51 A catástrofe não foi noticiada espontaneamente devido à falta de articulação entre a SAv e a Acerp diante da tragédia. A equipe técnica não poderia tomar a iniciativa de tornar pública a enchente. A exígua equipe estabeleceu turnos diferenciados, considerando a alta toxicidade do ambiente e a carga exaustiva, acentuada pelas altas temperaturas do galpão sem climatização e com restrita ventilação.52 Materiais em película foram selecionados e transladados para a sede principal para avaliação e processamento no laboratório, mas havia pouca película disponível para duplicação emergencial de rolos únicos danificados. Pelo alcance dos danos no espaço da CB e, sobretudo, nos acervos audiovisual e de equipamentos, pela inação da SAv e da Acerp, e pela crise que se sucedeu depois, interrompendo o trabalho de resgate e pesquisa, essa enchente se equipara, como catástrofe, aos sucessivos incêndios sofridos pela instituição, que “são metáfora da fragilidade da construção de uma política de preservação audiovisual que se esvai em chamas a cada mudança de Governo, de criação de entidades, de novos agentes” (Ferreira, 2020, p.23).

Desde a crise de 2013, o orçamento repassado pelo Ministério foi aquém das necessidades, o que se traduziu em equipes menores que o planejado para execução dos planos de trabalho. Ao final de 2019 instalou-se mais uma crise, quando o então Ministro da Educação decidiu não dar continuidade ao projeto da TV Escola – objeto principal do contrato da Acerp com o MEC –, não renovando o Contrato de Gestão com a Acerp (supostamente por uma cizânia pessoal do Ministro com um dos diretores). Uma vez extinto o contrato-principal com o MEC, todos os demais contratos foram encerrados – apesar do aditivo referente à CB ter duração até 2021 – o que deixou a CB à deriva administrativamente. A Acerp passou alguns meses buscando contornar a decisão e tentando obter recursos com a SAv, com a Secretaria Especial da Cultura e com o Ministério do Turismo, sem sucesso. O ano de 2020 foi repleto de notícias absurdas de decisões do governo envolvendo a Cinemateca,53 causando comoção e repercussão em redes sociais e gerando matérias na mídia. Em abril a Acerp parou de pagar as empresas terceirizadas e a equipe técnica. Antigos membros do Conselho lançaram um manifesto em maio.54

Foi iniciada uma ação civil pública pelo Ministério Público Federal contra o governo federal, pedindo a renovação emergencial do contrato com a Acerp que, até o fechamento deste texto, tinha o entendimento de que a situação estaria sanada com a contratação dos serviços essenciais (segurança, bombeiro) – porém, a ação está em andamento e há expectativa de uma nova decisão favorável à CB. Foram formadas e fortalecidas redes de resistência e protesto, de forma difusa, com diversos atores, que estreitaram a comunicação ao longo do tempo: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, e representantes da Associação Paulista de Cineastas (Apaci),55 criando o movimento SOS Cinemateca. Estes grupos estiveram muitos ativos na realização de atos pela Cinemateca e na articulação política com gestores municipais e federais. Por parte do corpo técnico da CB, a porta voz não foi a gerência ou as coordenações, mas a representação de funcionários como um grupo.56

Os funcionários, que seguiam em trabalho remoto (quando possível), entram em greve em junho, com o auxílio efetivo do Sindicato. Neste mês é iniciada uma campanha por iniciativa dos trabalhadores da CB para arrecadar recursos para os colegas em situação mais vulnerável pela falta dos salários e benefícios, ainda mais fragilizados com a pandemia de Covid-19. A campanha teve numerosas contribuições de pessoas e instituições de todo o mundo.57 Foram feitas doações diretas à própria instituição, como a de um diretor anônimo, que doou para o conserto do gerador. Em julho foi realizado um debate na Câmara dos Deputados,58 com a presença de parlamentares, de diferentes atores da cadeia do audiovisual e da sociedade civil, um símbolo da repercussão e engajamento inéditos em torno da Cinemateca. De certa forma evidenciou também a necessidade de protagonismo e de didática por parte de profissionais da área pela profusão de termos inadequados e imprecisos ao defender a Cinemateca.59 A diretoria da Acerp emitiu poucos comunicados ao corpo técnico diretamente, e as informações eram repassadas, de forma irregular, pelos coordenadores. Em junho foi emitido um comunicado da diretoria (em documento não datado!), com solidariedade “com as dificuldades que todos estão passando, mas saibam que estamos fazendo o possível e impossível, estamos fazendo de tudo que está ao nosso alcance”, com o comprometimento de, “assim que receber do Governo Federal, a primeira providência será pagar salários e rescisões” – quando era notório que não haveria nenhum repasse por parte do Governo Federal. Considerando a ausência de recursos em 2020 para a Cinemateca, a enchente, a crise decorrente da pandemia de Covid-19, o trabalho remoto, a suspensão de salários e benefícios, o comunicado é um símbolo do descaso e desrespeito da Acerp com seu corpo funcional. Após a entrega de chaves da CB ao Ministério em 7 de agosto,60 a Acerp demitiu seus funcionários (sem pagamento de salários atrasados e verbas rescisórias).

Conforme notado na Carta de Gramado de 2020, “após inúmeros telefonemas, mensagens, consultas entre as partes e adiamentos, foram garantidos os serviços básicos e emergenciais de água e de luz […]; foram contratados os serviços de limpeza, embora a empresa não seja especializada; foram contratados serviços de manutenção dos equipamentos de climatização, embora a empresa não ofereça a expertise necessária; foram contratadas uma mini brigada anti-incêndio composta por dois funcionários e uma empresa de vigilância patrimonial das dependências. No entanto, entre as necessidades emergenciais falta o fundamental trabalho dos funcionários especializados sem os quais o acervo não estará preservado, mesmo com a retomada dos serviços básicos acima descritos”.61 Sem o acompanhamento técnico, o menor dos incidentes nas áreas de acervo pode gerar problemas com consequências drásticas e irreversíveis. Trata-se da primeira vez que em que é impossibilitada a entrada na instituição, por qualquer membro do corpo técnico.

À ocasião da entrega das chaves ao Ministério do Turismo, foi indicado que um edital para a contratação de uma nova OS seria lançado em breve, o que ainda não ocorreu. Há uma previsão orçamentária de R$ 12,5 milhões para a Cinemateca em 2020. Caso este recurso não seja utilizado ainda neste ano, não poderá ser somado aos parcos R$ 4 milhões previstos para 2021. Vereadores de São Paulo de diferentes partidos políticos organizaram um fundo de emendas parlamentares para a Cinemateca, com apoio da SPcine, empresa municipal de audiovisual de São Paulo. A aplicação de recursos municipais em uma instituição federal demanda uma articulação jurídica inédita, que está sendo construída pela SAC para a contratação emergencial de um pequeno corpo técnico. Hoje, os grupos da Sociedade Civil seguem ativos, com a tentativa de acionar entidades e dar continuidade à mobilização. A próxima grande ação está prevista para 27 de outubro, Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual - UNESCO.

É urgente a criação de uma solução imediata para a viabilização de uma equipe técnica ainda no ano de 2020, para que o acervo não siga desacompanhado. A criação de mecanismos para a gestão da instituição a médio e longo prazo, de forma resiliente e sustentável, condizente com a necessidade de constância dos trabalhos no acervo e de manutenção da equipe técnica também é urgente. Considera-se como necessária e fundamental a abertura de concursos públicos para os cargos técnicos, respeitando as especificidades, o que poderia conferir a desejada estabilidade. Conforme diagnosticado na Carta de Ouro Preto de 2020:

“preservação do patrimônio cultural é dever constitucional do Estado brasileiro e, portanto, é preciso recuperar o protagonismo do poder público na gestão de instituições de patrimônio audiovisual, retomando os processos de abertura de concursos públicos e de implementação de planos de gestão pensados em conjunto com a sociedade civil, diretiva prevista na Recomendação sobre a Salvaguarda e Conservação das Imagens em Movimento, da UNESCO, de 1980” (Carta de Ouro Preto de 2020)

Uma ideia recorrente nas numerosas discussões on-line é o retorno da Cinemateca Brasileira para uma instituição de memória e patrimônio do governo federal – IBRAM ou o IPHAN, ao qual a CB foi vinculada até 2003, quando passou a ser vinculada à SAv. Foi inclusive esse vínculo ao IPHAN que proporcionou a continuidade da CB no início da década de 1990, quando o governo federal promoveu um desmonte de políticas e instituições de cinema. O IBRAM é uma autarquia vinculada ao Ministério do Turismo, que abrange trinta museus federais.

Depósito Legal e o Mercado do Audiovisual

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Possivelmente a prosperidade do FSA (e o aumento de investimentos em desenvolvimento, produção, distribuição e exibição), unida à inação dos elos da cadeia produtiva do audiovisual em relação à preservação se relacionam diretamente com a dimensão da atual crise do patrimônio audiovisual. A ABPA reiteradamente tem pleiteado assento no Conselho Superior do Cinema (CSC) e no Comitê Gestor do FSA, sem sucesso. No debate “Fronteiras entre a indústria, mercado e arquivos – conteúdo, fomento e regulação”, na CineOP de 2018, um representante da indústria audiovisual no Comitê Gestor do FSA sugeriu a busca de outro caminho de financiamento para a preservação, distinto do FSA. Quando este profissional levanta essa possibilidade (e ele é só um exemplo da postura de outros produtores), não compreende a importância da preservação para toda a cadeia nem que também é sua função defender a Cinemateca, bem como outras políticas para a gestão do patrimônio audiovisual, de forma ampla. Nem que seja pelo viés personalista, considerando que algum asset seu possa estar lá: a matriz de uma imagem de arquivo para seu próximo filme como produtor; a matriz do seu filme de estreia dos anos 1980; ou os registros domésticos de sua família. Ou, ainda, pelo fato de que a atuação da Cinemateca em discussões, publicações, fóruns e em pesquisa de tecnologia possa beneficiá-lo de alguma forma. Como afirma Paulo Emílio, “não se faz bom cinema sem cultura cinematográfica e uma cultura viva exige simultaneamente o conhecimento do passado, a compreensão do presente e uma perspectiva para o futuro. Enganam-se os que confundem a ação das cinematecas com o saudosismo” (1982, p.96). A cadeia produtiva já resmungou62 quando foi debatida a necessidade de investimento no gigante passivo da preservação audiovisual para atender à própria cadeia produtiva e, até, explorar comercialmente os acervos. O business model não fecha enquanto não tivermos um investimento massivo para dar conta de décadas de dificuldades e estagnação. Eu resmungo de volta com esse gráfico:63

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Em abril de 2017, foi publicado o Plano Anual de Investimentos do FSA para o ano de 2017,64 no qual foram anunciados, como apoio, R$ 10,5 milhões para a Cinemateca Brasileira. O valor equivale a 1,4% do total anunciado no documento. O valor nunca foi executado, com a justificativa de que o recurso do não reembolsável65 teria terminado. Em maio de 2018 foi lançado o Plano Anual de Investimentos de 2018,66 com a previsão de R$ 23,375 milhões para investimentos em Preservação e memória. Em dezembro daquele ano foi lançado pela SAv o Edital de Restauro e Digitalização de Conteúdos Audiovisuais. Tratava-se de recursos para restauração ou digitalização de obras para empresas do audiovisual, com a possibilidade de retorno financeiro, e contou com a atuação de um grupo de trabalho com a participação de técnicos de preservação da Cinemateca Brasileira na construção do documento e das diretrizes técnicas para a digitalização e restauração. Sob a ótica de profissionais do setor, o Edital estava destinado somente a produtoras com o viés da distribuição, sendo a preservação secundária. O Edital foi suspenso cerca de quatro meses após a publicação pelo atual governo. Portanto, nenhum recurso do FSA de 2008 a 2018, de um total de um pouco mais de R$ 4,5 bilhões,67 foi de fato investido em preservação.

Atualmente a Cinemateca Brasileira é a única instituição habilitada a receber materiais em Depósito Legal. Desde 2016, a Ancine investiu não mais que R$ 2 milhões na contratação de equipe técnica para análise desses materiais, cujo fluxo de processamento mobiliza diversos setores e técnicos da instituição. Foi reportada alta taxa de reprovação dos materiais analisados e, segundo Gomes (2020), “parece ter como uma das principais causas o grande distanciamento e pouca informação de realizadores/produtores acerca, de maneira ampla, do papel de um arquivo audiovisual, e de maneira mais específica, dos princípios do Depósito Legal”. Contar com a expertise na análise dos materiais sem viabilizar recursos para a preservação desse acervo pode ser considerado como tiro no pé. Os materiais analisados estão inertes em estantes em um ambiente climatizado – à mercê da famosa morte silenciosa.68 É necessário que o mercado participe para garantir um aumento da taxa de aprovação e a criação de condições para preservação de materiais nato digitais no âmbito do Depósito Legal. De maneira ampla, a narrativa e a luta por políticas para o patrimônio audiovisual devem também ser do mercado.

É muito significativo o panorama da Cinemateca apresentado na Carta de Gramado 2020, elaborada pela frente SOS Cinemateca, com adesão de diversas associações – de outras cinematecas, de profissionais e empresas do audiovisual. Um sinal positivo é a inclusão de uma discussão sobre a crise na Semana ABC, organizada pela Associação Brasileira de Cinematografia (ABC), um dos mais significativos eventos em torno da realização audiovisual no Brasil. Mas ainda precisamos de maiores ações de aproximação e de reconhecimento de que esta crise da Cinemateca deve ser preocupação – e requer atuação – de todo o setor.

Conforme apontado na Carta de Ouro Preto de 2020, entre os pontos urgentes para implementação de uma política nacional para a área e os desafios a serem enfrentados está “reivindicar a criação de mecanismos para a ampliação da oferta de obras audiovisuais brasileiras nos catálogos de plataformas de streaming, tendo a garantia de inclusão de obras de diversas épocas, possibilitando o acesso ao vasto patrimônio audiovisual brasileiro”. Qual seria a relação da Netflix (usada aqui como modelo de plataforma), por exemplo, com a necessidade de investimento no patrimônio audiovisual brasileiro? Só uma oportunidade de benfeitoria mesmo, viável por sua presença na lista das 12 empresas que mais lucraram na pandemia. A proposta não é tão absurda, considerando que a empresa no Brasil criou um fundo emergencial de R$ 5 milhões para a indústria audiovisual brasileira, devido ao recesso no contexto da pandemia de Covid-19.69 Obras antigas disponíveis nas plataformas de streaming constituem uma preocupação nos Estados Unidos.70 Em geral, produtores brasileiros não contam com recursos para digitalização e finalização de filmes antigos capazes de atender aos parâmetros técnicos requeridos pela plataforma e, possivelmente, precisam de investimento em advogados para viabilizar o clearance.71 da obra. Que tal então a plataforma lançar uma linha de investimento para obras não contemporâneas? Trata-se de uma ideia que seria contemplada pelo Edital SAv/MinC/FSA nº 24 de dezembro de 2018, linha de Restauro e Digitalização de conteúdos audiovisuais, suspenso em 2019. A saúde das instituições de patrimônio audiovisual beneficia também as próprias plataformas de streaming a médio e longo prazo – considerando, por exemplo, a forte tendência de documentários em torno de imagens de arquivo.72 Como ilustração, o expressivo número dos documentários dos EUA disponíveis na Netflix Brasil, que possui imagens de arquivo como condutores da narrativa, como Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), e as séries Remastered (2018) e Explained (2018). No entanto, comparativamente são poucos os filmes e séries brasileiros que apresentam imagens de arquivo nessa medida, sendo uma exceção OBarato de Iacanga (2019, Thiago Mattar).73

Além da atividade do laboratório da Cinemateca para a preservação de seu acervo, chamo atenção para a confecção de cópias, como a coleção “Clássicos e Raros do Cinema Brasileiro”, iniciada em 2007, que teve sua 4ª edição em 2016, e aquelas feitas para celebrar o Dia internacional do Patrimônio Audiovisual. Destaco, como meio de registro, as cópias em 35mm e digital realizadas em 2016, tal qual consta no Relatório.

A confecção de cópias em 35mm é uma importante função de uma cinemateca com um laboratório fotoquímico, para a preservação e para proporcionar uma experiência de difusão em consonância com o formato original da obra. Considerando que o digital é a forma de ampla circulação, são confeccionados cópias em digital em diversos formatos/fins. No contexto da CB, o esforço de digitalização dessas obras se realizaria mais plenamente com alguma forma de difusão pré-estabelecida, idealmente com a devida curadoria e ações de contextualização. Atualmente, o caminho natural de difusão digital da CB é a inclusão na plataforma Banco de Conteúdos Culturais (BCC).74

Dez Filmes Importantes Para a História do Cinema Brasileiro Inacessíveis (ou quase) Digitalmente”, publicado em Cinelimite, expõe a inacessibilidade digital a alguns celebrados, cânones ou raridades de nossa filmografia. Além de ações para o acesso digital, é crucial avaliar se suas matrizes estão fora de risco iminente, e se demandam ações de preservação ou duplicação. A lista de Rafael de Luna me remeteu a “Filmes brasileiros considerados perdidos (ou prestes a sê-lo)”, publicada na extinta revista Contracampo.75

Distintivamente, a lista de 2001 era sobre a existência/perda de matrizes. Além de alguns títulos que eventualmente foram perdidos, outros tiveram seus (conhecidos) únicos materiais deteriorados, a ponto de inviabilizar um processamento em laboratório. Devido às crises da Cinemateca Brasileira, à paralisia dos trabalhos de pesquisa, das ações de preservação e do processamento laboratorial, a atualização da lista feita em 2001 por Hernani Heffner e Ruy Gardnier seria trágica em extensão e escopo. Seria papel de uma instituição nacional tornar esta lista pública. Além de prestar contas à sociedade brasileira sobre seu patrimônio audiovisual, também pode ser uma estratégia de localização de novos materiais junto a outras instituições e colecionadores privados no Brasil e no mundo. Ainda, e os tantos outros filmes e registros que escaparam de tal investigação e documentação e estão em ostracismo? Quantos filmes existem, cujos únicos materiais são cópias em bitolas inferiores, incompletos, muito deteriorados? Quantos registros audiovisuais brasileiros já perdemos?

Conclusão
“Se perdermos o passado, viveremos em um mundo Orwelliano do presente perpétuo, onde qualquer pessoa que controla o que está sendo divulgado poderá dizer o que é verdade e o que não é. É um mundo terrível, nós não queremos viver nesse mundo.” Brewster Kahle (2014, entrevista para Digital Amnesia, documentário da holandesa VPRO)
“Conhecimento só se efetiva quando é compartilhado” Hernani Heffner (2001, em conversa de corredor na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro)

O audiovisual digital tem sido ferramenta crucial nas lutas por direitos humanos em todos os cantos do país. São registros de despejos forçados de comunidades, da ocupação de aparelhos culturais ou educacionais como forma de protesto, de manifestações, de invasão de comunidades por forças policiais – com altos índices de homicídios da população local, inclusive crianças e jovens – registros da devastação ambiental fomentada pelo governo atual, da luta por direitos e pela demarcação de terras indígena, e de crimes contra os povos originários. O audiovisual também tem sido utilizado no empoderamento preto e na luta antirracista, na emancipação e afirmação das mulheres por igualdade de oportunidades e contra o machismo estrutural. As redes sociais, com uma profusão de talentos criativos e narrativas, proporcionam os maiores índices culturais desta época. No Brasil, em sentido geral, estas imagens seguem fora do escopo de prospecção das instituições brasileiras, e ainda é tímida a discussão em torno de seu arquivamento e pertencimento ao escopo do patrimônio audiovisual no Brasil. Na perspectiva da preservação, além de todos os desafios inerentes à preservação digital de dados,76 temos o aspecto da efemeridade, pelo vínculo dos dados às corporações.

Os mecanismos de tecnologia persuasiva das redes sociais são utilizados para conduzir comportamentos de indivíduos. Algoritmos são capazes de dar credibilidade ao inverídico, de alavancar o terraplanismo e de colocar #StopFakeNewsAboutAmazon como trend no Twitter, enquanto a boiada do ecocídio passa solta, e o mundo testemunha a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e outros Parques Nacionais destruídos.77 O computador quântico Rehoboam78 é uma alegoria do agora, em uma narrativa explicitada por Shoshana Zuboff em seu livro “Capitalismo de Vigilância”. Vimos, num crescente terror e violência, sucessivas vitórias eleitorais de partidos e movimentos políticos de extrema direita. A circulação de notícias falsas nas redes sociais aumentou o poder de destruição do Covid-19. A contrainformação, deep fake e robôs de fake news têm conexão com o mundo descrito por Brewster Kahle, fundador do Internet Archive, citado acima. Podemos perder o passado e, até, o presente, pela fragilidade do tecido da informação, pelo potencial de manipulação e pela desinformação.79 O atual presidente do Brasil, quando deputado, à ocasião do processo de impeachment/golpe da presidenta Dilma Rousseff, votou pela memória do maior torturador da ditadura militar, que comandou as sessões de tortura contra a ex-presidenta. Falhamos em não ter mostrado e visto o suficiente de O caso dos irmãos Naves (1957, Luis Sérgio Person), Iracema - uma transa amazônica (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), Eles não usam black-tie (1981, Leon Hirszman), Pra Frente, Brasil (1982, Roberto Farias), Cabra marcado para morrer (1984, Eduardo Coutinho), Que bom te ver viva (1989, Lúcia Murat), Ação entre amigos (1998, Beto Brant), Cidadão Boilesen (2009, Chaim Litewski).80 De forma que fosse impossível banalizar o ato na Câmara dos Deputados, de tal forma que nenhuma mulher votasse nele para presidente dois anos depois. Agora não podemos deixar de preservar estes filmes e os que virão depois de Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) e Torre das Donzelas (2019, Susanna Lira).

Uma parcela expressiva do patrimônio audiovisual brasileiro já se perdeu ao longo do século passado. Além dos recorrentes incêndios à época dos primeiros cinemas, das ondas de destruição ativas (de filmetes curtos na consolidação do longa-metragem como formato, do silencioso com a chegada do cinema falado, na substituição do nitrato pelo acetato), muitos acervos se dispersaram, foram desmantelados, escamoteados, e os que chegaram aos arquivos de filmes já chegaram debilitados. Ainda, a demora em reconhecer a importância do patrimônio audiovisual, a ausência de políticas públicas para a sua gestão e a oscilação de recursos nas instituições acarretaram mais perdas. Com o advento do digital, há um agravamento – tanto pela preservação do que hoje é prospectado quanto pelo que está fora do escopo de prospecção. A crise atual da Cinemateca é gravíssima e demanda medidas urgentes do poder público e da cadeia audiovisual. Apesar do poder de destruição do atual governo e da paralisia dos trabalhos por tantos meses, encorajada pelas muitas discussões que estão sendo realizadas, pelas articulações em andamento e pelos movimentos em apoio à Cinemateca, quero terminar com algum tom de otimismo. Por acreditar no potencial da Cinemateca para promover debates e exibição de filmes, para efetivar o acesso às mais olvidadas coleções, ser um espaço para pesquisa, prover referência imagética do passado e subsidiar pesquisa tecnológica; para cativar crianças e jovens com a telona, apresentar o pré-cinema e as tecnologias do audiovisual em um museu, e para engajar o bairro e a comunidade vizinha. Acrescente-se para vários outros modos de uso criativo do acervo e das ferramentas que demoraremos a exercer, devido às sucessivas crises que aumentam o passivo de trabalhos, aceleram a deterioração do acervo e limitam o poder de alcance da instituição. Neste momento fica ainda mais evidente o fato de que a Cinemateca está incluída no macro projeto de devastação da cultura e do patrimônio brasileiro e, a sua importância como uma força para reagir contra este projeto, portanto, cresce cada vez mais.

Agradeço Aline Machado pela revisão minuciosa.

1. O Ministério da Cultura foi extinto no primeiro dia do governo; foi incorporado inicialmente ao Ministério da Cidadania e, posteriormente, ao do Turismo. Até o momento, a Secretaria Especial da Cultura já teve cinco titulares sem comprovada expertise, e outras instituições de patrimônio cultural passam por agudas crises, como a Fundação Casa de Rui Barbosa e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv). A Agência Nacional do Cinema (Ancine) não repassou recursos já comprometidos e não lançou novos editais. Destaca-se que a Constituição Federal, que rege a democracia brasileira, prevê em seu Art. 215 que o “Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”; e em seu Art. 216, que o “poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro”.

2. De 2016 a 2020 trabalhei no departamento de Preservação de Filmes da Cinemateca Brasileira. Compartilho reflexões subjetivas a partir de minha experiência, com ênfase nas atividades do departamento.

3. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

4. Por meio de uma política descentralizadora do Ministério da Cultura foram lançados editais de desenvolvimento e produção, com cotas para estados usualmente com restrito investimento no audiovisual, e projetos de baixo orçamento, editais específicos para novos diretores, mulheres e povos nativos.

5. Regulamentado em 2007, o FSA é retroalimentado por um fluxo do imposto Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), coletado a partir de todas as janelas do audiovisual, e investido em novas produções, linhas de desenvolvimento, distribuição de produções para cinema e televisão e jogos eletrônicos. De 2008 a 2018 foram investidos, no total, cerca de R$ 4,5 bilhões.

6. Um exemplo emblemático desta dinâmica ocorreu em 2008, com a presença do então diretor-executivo da Cinemateca Brasileira na 3ª CineOP, cuja temática é Política Nacional de Preservação Audiovisual: necessidades e desafios. Ao longo do evento ele se posicionou com firmeza contra uma articulação das demais instituições, a criação de diálogo destas com o representante do Ministério da Cultura no evento e a criação da ABPA - Associação Brasileira de Preservação Audiovisual.

7. Dentre as propostas do Simpósio sobre o Cinema e a Memória do Brasil de 1979, consta “a criação e a dinamização de centros regionais de cultura cinematográfica constituídos por unidades de produção e por filmotecas (arquivos de cópias de filmes), com a função básica de prospecção, pesquisa e divulgação do acervo brasileiro [… e] o estabelecimento de um inventário [nacional]” (1981, 67). Laura Bezerra relata a “criação de um programa de apoio às cinematecas que, apesar de não ter implementado ações sistemáticas e abrangentes, destinou recursos para algumas ações setoriais” (2014, 120). A descentralização é necessária, considerando a continentalidade e pluralidade cultural do país, além de tecnicamente ser desejada em caso de sinistros.

8. A CineOP é um evento criado em 2006 e tornou-se o principal fórum de discussões e articulações em torno do patrimônio audiovisual e o ensino do audiovisual no Brasil. A cada ano é redigido um documento pelos participantes do Encontro, a Carta de Ouro Preto, com alertas e proposições para o campo.

9. A ABPA é uma associação de profissionais, independentemente do vínculo com instituições, e tem atuado em prol de políticas para o setor, na projeção do patrimônio audiovisual e na realização de projetos, como a tradução e publicação de textos técnicos. A ABPA criou em 2016 o PNPA, documento de diagnóstico e proposições de ações e políticas para o campo da preservação audiovisual. https://abpanet.org/

10. O papel principal do Conselho é atuar no desenvolvimento da Cinemateca. Seus membros são representantes dos poderes públicos da esfera federal, estadual e municipal, além de indivíduos da sociedade civil com atuação em cinema ou patrimônio. Curiosamente, nota-se uma predominância de homens dentre os conselheiros ao longo dos anos.

11. Atualmente é o Cinesala. Cinesala. Disponível em: http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

12. O matadouro teve suas atividades encerradas em 1927. O terreno estava sendo utilizado como depósito de equipamentos de iluminação pública.

13. A partir de ideia de Gilberto Gil, músico e então membro do conselho de assessoramento cultural da BR Distribuidora, e posteriormente Ministro da Cultura, de 2003 a 2008.

14. Empresa estatal que impulsionou a produção, distribuição, exibição, preservação e restauração do audiovisual – vinculada à Petrobras, empresa brasileira de energia, gás e petróleo.

15. Em colaboração com a CB, o projeto também foi realizado na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro, inclusive o inventário do acervo, inédito na instituição e processamento de materiais deteriorados. A Cinemateca do MAM estava subjugada à direção do Museu, que determinou, de forma arbitrária, que não teria condições de manter o acervo audiovisual (insolitamente após o inventário). Como resultado, parte do acervo foi alocada no Arquivo Nacional a partir de 2002 na mesma cidade, e parte foi recebida pela CB. Alguns detentores de materiais optaram por guardar consigo, muitas vezes em lugares inapropriados. Essa foi uma das maiores crises da instituição, de relevância histórica para o cinema brasileiro (sobretudo para o movimento do Cinema Novo) e para a preservação audiovisual, cuja direção passou por Cosme Alves Netto, com notória ligação com instituições internacionais. A partir de 1996, Hernani Heffner ingressa na instituição. Em 2020, passa por uma consolidação, com um novo prédio para o acervo documental e com mudanças estruturais na direção do Museu.

16. Segundo Souza, a Filmografia Brasileira foi iniciada por Caio Scheiby em fichas em papel e, nos anos 1980, foram publicados quatro cadernos com registros dos filmes produzidos até 1930 (2009, p.259). Atualmente, de acordo com o site da instituição, “contém informações de aproximadamente 42 mil títulos de todos os períodos da cinematografia nacional e da produção audiovisual mais ampla e recente, sejam curtas, médias ou longas-metragens; cinejornais; filmes publicitários, institucionais ou domésticos; e obras seriadas (para internet e televisão), com links para registros da base de dados de cartazes e referências de fontes utilizadas e consultadas”. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 13 ago. 2020.

17. Texto extraído da plenária realizada em 2008. Disponível em: http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. Acesso em: 2 ago. 2020. Segundo Laura Bezerra, “o SiBIA foi pensado e executado a partir da CB/SAv sem quaisquer debates e negociações com os atores envolvidos, o que contradiz o espírito democrático-participativo defendido e praticado em documentos e ações do MinC” (2014, 185). O II Encontro Nacional do SiBIA ocorre em 2009, com 33 instituições de todo o país, e suas propostas, que demandavam recursos e ações da SAv, não se efetivaram. O projeto é extinto em 2009, sem desdobramentos práticos.

18. A Programadora Brasil foi um projeto de difusão de filmes (animação, experimental, ficção, documentário), que atuou de 2006 a 2013, por meio da edição de DVDs para circuito não comercial (cineclubes, centros culturais, escolas, universidades), em um total de 970 obras divididas em 295 DVDs.

19. Relatórios institucionais da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

20. Esta unidade foi afetada pela enchente no início de 2020.

21. Revista da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

22. Acervos adquiridos pela União sob a guarda da Cinemateca: Estúdios Vera Cruz e Atlântida Cinematográfica (em 2009), Canal 100 e Glauber Rocha (em 2010), Goulart de Andrade e Dulce Damasceno de Brito (em 2011) e Norma Bengell (em 2012).

23. A paralisia afeta também o Centro Técnico do Audiovisual (CTAv), instituição no Rio de Janeiro, que correalizava diversos projetos da SAv com a CB.

24. Depósito Legal é o mecanismo de depósito de materiais comprobatórios da realização da obra audiovisual subvencionada com recursos federais, em instituições credenciadas pelo governo federal – até o momento, somente a CB. Após a aprovação do material (de acordo com diretrizes técnicas), a empresa produtora torna-se apta a receber a última parcela do investimento. Devido à redução do fluxo de análise na crise de 2013, foi gerado um passivo de materiais a serem analisados.

25. Olga Toshiko Futemma atua na Cinemateca Brasileira desde a década de 1980, com destaque para seu trabalho no Centro de Documentação e Pesquisa. Tornou-se diretora-executiva em 2004, diretora-adjunta de 2007 a 2013 e diretora de 2013 a 2018, quando se torna Gerente de Acervos. Participou do Comitê Executivo da Fiat a partir de 2009 até o ano de 2013.

26. Após o incêndio, foi mantida a mesma estrutura. De acordo com o Relatório da CB de 2016: “a edificação, desenhada nos anos de 1990, foi construída sem instalações elétricas ou hidráulicas, de modo a minimizar os riscos de acidente; sem climatização ativa, mas mantendo a temperatura interna com as menores variações possíveis e permitindo a circulação de ar, para evitar o acúmulo de gases resultantes da deterioração do suporte. Em caso de autocombustão […] inevitavelmente consumiria todo o conteúdo da câmara, mas não se espalharia para as outras adjacentes” – que foi o que ocorreu em 2016, o fogo consumiu apenas uma das quatro câmaras.

27. Como exemplo, o ARRISCAN, quando adquirido, foi adaptado para materiais deteriorados, o que permitiu o escaneamento de negativo com 4% de encolhimento, medida que seria considerada inviável para outros laboratórios.

28. Bases de dados do Centro de Documentação e Pesquisa. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 7 ago. 2020.

29. O setor de difusão seguiu praticando a premissa de exibição de filmes do acervo, respeitando seu suporte original, privilegiando o cinema brasileiro; e realizando mostras, com materiais do acervo ou de parceiros, ou recebendo festivais nas duas salas de cinema e na tela externa da Cinemateca – projeções em 16mm, 35mm e digital, e alguns formatos em vídeo analógico.

30. Ainda de acordo com o relatório, “o processo de duplicação emergencial difere da restauração de filmes, conceito este aplicado quando são confeccionadas novas matrizes de preservação, de imagem e som, e cópias de acesso, incluindo diferentes graus de manipulação para minimizar marcas do uso ou deterioração, buscando a forma como a obra foi difundida em seu lançamento original. Uma restauração usualmente reúne e compara diversos materiais para seleção dos melhores, enquanto a duplicação emergencial trata de uma copiagem de um suporte em deterioração avançada, geralmente único, para um outro, novo.”

31. Carlos Roberto de Souza destaca que “os trabalhos de pesquisa e historiográficos brasileiros realizados […] chamaram a atenção para o fato de que é um equívoco construir uma história do cinema brasileiro a partir do filme de ficção de longa metragem. A produção brasileira de maior volume foi sempre a de documentários e cinejornais, geralmente relegada a segundo plano pelos chamados historiadores clássicos, pela mídia e pelo público em geral. A realidade da produção reflete-se no acervo cinematográfico que chegou até nossos dias. O percentual de filmes de não-ficção ultrapassa avassaladoramente o de longas de ficção e continua o menos preservado. Isso não significa que todos os longas de ficção estejam preservados. Longe disso. A parcela mais tratada – nem sempre com os cuidados que merece – é a dos longas brasileiros consagrados.” (2009, p.261).

32. Posteriormente descobriu-se que há um campo homônimo na base Filmografia Brasileira, conduzida pelo Centro de Documentação e Pesquisa, que constava dentre os campos excluídos do fluxo à época. Tratava-se de um sistema numérico de 0 a 5. Considerando que os técnicos da Preservação que propuseram a metodologia não tinham experiência anterior na instituição, a proposição não seguiu o sistema numérico, mas categorias de texto. Como exemplo, as categorias ‘preservado no momento’ (considerando matrizes originais, intermediários e cópias de acesso em bom estado, por exemplo), ‘parcialmente preservado’, ‘não preservado’, ‘parcialmente perdido’, com a inclusão de adendos como ‘com defeitos’ (interferências na imagem ou som), ‘incompleto’, etc. O sistema permitiu agilidade nos fluxos de seleção de materiais para duplicação emergencial e pesquisa para acesso externo.

33. Ferramenta proposta pela Unesco em 1988, por seu caráter moldável, que se assemelha a cartões físicos de biblioteca individuais, com limitado cruzamento de informações.  

34. A ferramenta foi inicialmente pesquisada e selecionada pelas equipes do laboratório e de desenvolvimento anteriormente a 2016. Foi adotado pela equipe da preservação em 2016, perfil mais institucional em 2017 – trac.cb – em seguida pela equipe do Centro de Documentação e Pesquisa e, por último, e com uso comedido, pela equipe da difusão.

35. Precisamosfalar sobre... o logo da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. A logomarca é identificada por muitos por sua forma fálica, o que poderia ter contribuído para o grau de viralização e atenção à Cinemateca em 2016.

36. Manifesto pela Cinemateca Brasileira - 2016. Disponível em: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com. Acesso em: 20 jul. 2020.

37. 100 Paulo Emílio. Disponível em: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. Acesso em: 20 jul. 2020.

38. Questiona-se a legalidade da realização de um aditivo ao contrato principal. De qualquer forma, consideramos um ultraje que a gestão da Cinemateca Brasileira seja regida por um aditivo como instrumento legal.

39. Como ocorreu em casos de acesso aos originais para digitalização e licenciamento ao Canal Brasil, principal canal de televisão de obras brasileiras, que estava atualizando seu catálogo, anteriormente em resolução SD. A entrega ao Canal seria em HD ou superior, apesar de ser uma resolução datada. Os produtores optavam por resolução HD e não em 2K, por limitação de orçamento, mas além de ser mais relevante comercialmente a médio prazo, o 2K representa uma ação mais significativa de preservação, uma vez que seria um resguardo por mais tempo do material original em película – grande parte já em más condições.

40. Sobretudo a pejotização: a contratação de serviços de indivíduos por meio de empresas constituídas para tal.

41. Essa dinâmica de dispersão de força de trabalho é ainda mais perigosa no contexto da preservação digital, que demanda uma constante atualização de saberes devido, à incessante mudança da tecnologia e de práticas de mercado.

42. E-mail de 29 de junho de 2016. Disponível em: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Acesso em: 15 jul. 2020. Débora Butruce indica que o tema de gestão por OS foi debatido em um Grupo de Trabalho ao longo de alguns anos: 15ª CineOP. Instituições de patrimônio em risco: Caso Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. Além de Butruce, participaram do debate Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira e Eloá Chouzal, na mediação.

43. Jorge Barcellos resume da seguinte maneira: “[…] ao longo do tempo as OS tornam-se deficitárias e custosas”; e alerta que “segundo Alzira Angeli, da Controladoria Geral da União, estas organizações transformaram-se no novo nicho de mercado da corrupção e [segundo o historiador Francisco Marshall] “a iniciativa promove a degradação da gestão pública”. Disponível em: https://jorgebarcellos.pro.br. Acesso em: 20 ago. 2020. Como exceção, alguns museus no Estado de São Paulo seguem com êxito no modelo de gestão por OS.

44. Em contraste com o modelo estadunidense, no qual famílias bilionárias e grandes corporações subvencionam projetos e instituições de cultura e patrimônio, por fundações.

45. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com diversos benefícios ao trabalhador, como férias remuneradas, 13° salário, seguro-desemprego, auxílio-doença, salário-família, salário-maternidade e aposentadoria.  

46. A prospecção de materiais é uma função primordial da CB, por ser a principal instituição nacional e considerando o secular histórico de destruição e descaso com o patrimônio audiovisual brasileiro. Tornaram-se notórias notícias de acervos potencialmente valiosos nos últimos anos, e não foi possível a atuação de técnicos da CB. Por intermédio da Acerp, foi feita avaliação em um acervo no interior de São Paulo. O corpo técnico assumiu o contato com o Ministério das Relações Exteriores para a avaliação da listagem de acervos de cópias 35mm em Embaixadas do Brasil em Roma, Berlim e Haia para a repatriação. Acerp posteriormente assumiu o diálogo e não conseguiu efetivar o translado.

47. A Missão Institucional estava sendo consolidada em um documento, que não se efetivou na gestão da Acerp.

48. Fórum de discussão de liberdade, autonomia, segurança na Internet. CryptoRave. Disponível em: https://cryptorave.org. Acesso em: 15 ago. 2020.

49. A distância entre as duas cidades é de mais de 400 km, cerca de 1 hora de voo.

50. Militares fardados ocasionalmente visitavam a instituição. Um episódio tornou-se notório: a visita de um deputado, com mesmo sobrenome que seu tio-avô, o primeiro presidente da ditadura militar. Ele publicou um vídeo em redes sociais, dentro da CB e acompanhado por representantes da instituição, anunciando a mostra de filmes militares, reproduzindo o slogan de campanha do presidente e batendo continência. A série não foi realizada.

51. O que possibilitou uma efetiva resposta aos danos ao estúdio e ao acervo do fotógrafo Bob Wofelson, localizado nas mediações do galpão da Cinemateca, que contou com um número grande de voluntários sob coordenação da equipe técnica do Instituto Moreira Salles (IMS). Uma técnica da Cinemateca Brasileira estava entre as voluntárias (fora do horário de trabalho da CB). Essa foi a 2ª enchente que afetou o estúdio do fotógrafo. As enchentes na região são recorrentes, de maneira que esse relato é a crônica de uma tragédia anunciada.

52. O trabalho consistia em movimentar sacos com pilhas de latas de filmes cheias de água suja, abrir cada lata para verificar o estado do material, determinar destino ao material e organizar o acervo nas estantes. Em um primeiro momento, as equipes de limpeza e manutenção executaram uma força tarefa junto à equipe técnica para escoar a água, limpar estantes e ajudar na movimentação de sacos de filmes, porém antes que esse trabalho chegasse ao fim, essas equipes foram drasticamente reduzidas.

53. A primeira delas, referente à nomeação como diretora de uma atriz que desempenhava há dois meses o papel de Secretária Especial de Cultura em Brasília e queria retornar a São Paulo por questões pessoais. No entanto, não havia nenhum cargo legalmente disponível para ela assumir na CB naquela época e ela acabou não trabalhando na instituição.

54. Cinemateca Brasileira pede socorro. Acesso em: 9 set. 2020. Nesta data, o manifesto teve mais de 28,5 mil adesões.

55. Cinemateca Viva, grupo formado por Associação dos Moradores da Vila Mariana <http://www.cinematecaviva.com.br>; o grupo Cinemateca Acesa <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; e Cinemateca em Crise, criado em 2013, com atualizações com a crise de 2020 <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. A Apaci desde 2015 esteve ativa e em contato com a diretoria da CB, para garantia da execução dos trabalhos da instituição.

56. Trabalhadores da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/trabalhadorescb. Acesso em: 18 ago. 2020.

57. Cinemateca Brasileira - Trabalhadores em Emergência. Disponível em: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca. Acesso em: 30 ago. 2020.

58. A crise na cinemateca brasileira - Soluções Urgentes. Disponível em: https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. Acesso em: 30 ago. 2020. Gabriela Queiroz, coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa desde 2014 até 2020, representou a instituição.

59. Como exemplo, as afirmações de que “todo” o patrimônio audiovisual brasileiro está na CB, de que a instituição poderia pegar fogo se a luz fosse cortada (os depósitos de nitrato não possuem sistema elétrico); e a utilização do termo ‘laboratórios climatizados’ para designar ‘depósitos climatizados’.

60. A entrega de chaves foi marcada pela presença de agentes ostensivamente armados da Polícia Federal, que foram convocados com o pressuposto de que poderia haver resistência na entrega das chaves pela Acerp. As chaves foram entregues, os documentos foram assinados e foi realizada uma visita técnica. Mesmo que utilizada de forma coadjuvante, foi a primeira vez que intimidação policial ocorreu na instituição. A Acerp tentou obter ressarcimento dos valores investidos na CB em 2019 e 2020, alegadamente no total de R$ 14 milhões.

61. Carta de Gramado 2020. Disponível em: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado. Acesso em: 30 set. 2020.

62. Generalizações são arriscadas e podem ser equivocadas. Afinal, temos muitos produtores que entendem, enaltecem e investem em preservação, sobretudo depois da crise de 2020. Se essas palavras não fazem justiça à atuação de produtores em prol do patrimônio audiovisual, ficarei feliz em publicar meu equívoco. Mas esse texto foi fermentado pela frustração de ver a soberba da cadeia audiovisual, com suas festas, mercados, deals, marketshare, box office, hold back, catch up, pitch, players e recursos caudalosos, enquanto a menção a investimentos em preservação gerava tremores! Essa postura gananciosa da cadeia produtiva é um descaso em relação ao patrimônio audiovisual brasileiro e aos profissionais da área.

63. Fontes: sites do FSA e da Cinemateca Brasileira. Originalmente publicado em MENEZES, Ines Aisengart. O profissional atuante na preservação audiovisual. Museologia & Interdisciplinaridade. Vol. 8, nº15, Jan./ Jul. de 2019. Nota do original com correção: A Cinemateca Brasileira é a única instituição que recebe materiais em Depósito Legal e conforme Laura Bezerra (2015), seu orçamento representa quase que a totalidade de investimentos em preservação audiovisual, no período, no país. Desta forma, considero o gráfico uma ilustração direta do desnível de investimentos em produção e preservação audiovisual”. O gráfico alcança somente até 2017, pois a partir de então a Cinemateca Brasileira não publicou mais relatórios institucionais. Em 2019, no novo governo, foram interrompidos os repasses do FSA.

64. Documento SEI / ANCINE - 0413350 - Resolução CGFSA Nº 101 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos FSA 2017. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 101 - aprova PAI FSA 2017.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

65. Por meio de mecanismo não reembolsável, que não prevê o retorno em lucro financeiro, mas com outros desenhos de contrapartida.

66. Documento SEI / ANCINE - 0845324 - RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos de 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Plano Anual de Investimentos 2018.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

67. Recursos disponibilizados para Ações e Programas - 2008 a 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. Acesso em: 3 out. 2020. Valor completo informado nesta data de R$ 4.558.877.384,00.

68. De acordo com Gomes (2020), a maioria dos materiais recebidos em Depósito Legal está em HD externos, que necessitam verificação contínua – “materiais digitais, portanto, requerem checagens e migrações mais constantes, uma necessidade que a Cinemateca Brasileira ainda não pode atender, tanto por limitações do número de funcionários, quanto financeiras”. Parte da numerosa coleção em vídeo magnético da instituição é oriunda de Depósito Legal. De um modo geral, no período de 2016 a 2020, não foram realizadas ações de preservação das coleções em vídeo e digital, somente duplicação para acesso. Considerando a inação, de uma forma ampla e sistemática, em relação ao escopo do patrimônio concebido em digital, pode-se esperar uma superação das (notoriamente altas) taxas de perda em relação ao patrimônio em película – sobretudo em relação às primeiras produções criadas em digital.

69. ICAB e NETFLIX fazem parceria para criar FUNDO EMERGENCIAL de apoio a comunidade criativa brasileira. Disponível em: http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html. Acesso em: 27 set. 2020.

70. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. Disponível em: https://www-newsweek-com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. Acesso em: 27 set. 2020. Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Acesso em: 27 set. 2020. O repertório de filmes antigos é um nicho explorado por plataformas como The Criterion Channel e Mubi, entre outros.

71. Um aspecto sensível para a comercialização de obras antigas é a normatização, para emissão do Certificado de Produto Brasileira (CPB) e a documentação dos direitos, para viabilizar o licenciamento. Historicamente, muitos filmes foram realizados sem a devida documentação e muitas empresas se dissolveram sem a documentação de repasse dos direitos.

72. No contexto brasileiro, onde a primeira atividade como profissional é explicar qual a sua função como profissional, os documentários da Netflix com imagens de arquivo costurando sua narrativa costumam ser uma explicação para leigos sobre a importância da preservação do patrimônio.

73. Relatório de 2016: páginas 55 e 56. Correção ao conteúdo: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) é colorido, não p&b.

74. Aqui vale uma reflexão sobre a excelência catalográfica e a boa navegabilidade do projeto, mas a necessidade de revisão de especificidades técnicas e das dimensões do logo ocupando parte da imagem, experiência reportada como frustrante para muitos.

75. Filmes brasileiros considerados perdidos ou prestes a sê-lo. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm. Acesso em: 21 ago. 2020.

76. Como tecnologias proprietárias; obsolescência de formato de arquivo, codec, software, hardware; gerenciamento de metadados; migração, entre outros.

77. Além de catastrófico ambientalmente para a fauna e a flora, a devastação vai afetar diretamente o campo de preservação de patrimônio cultural, pela relação direta com o clima, como a variação maior de temperatura e umidade, por exemplo. Desconheço estudos no Brasil sobre a crise climática e a área de patrimônio. Mundo afora, destaco o Orphans 2020, em torno do qual ocorreram diversos debates.

78. Supercomputador de inteligência artificial da série da Westworld (2016, Jonathan Nolan), ambientada em quase quatro décadas no futuro.

79. Cujo símbolo é a ciência sendo desacreditada pelas redes sociais e meios de comunicação de mensagens (sobretudo WhatsApp, empresa adquirida pelo Facebook), tornando difícil a difusão de informações cientificamente fundamentadas, com olhar crítico na contenção da pandemia de Covid-19. Uma pesquisa realizada em vinte países mostra que brasileiros são os que menos acreditam em seus cientistas: Brasil de costas para a ciência. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia. Acesso em 30 set. 2020.

80. Filmografia Ditadura Brasil. Disponível em: http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html. Acesso em: 2 set. 2020.

BIBLIOGRAFIA

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

A Cinemateca Brasileira (CB) é a principal instituição de patrimônio audiovisual do Brasil e, em 2020, passa por sua pior crise. Como resultado, seu expressivo acervo audiovisual e documental está ameaçado, bem como seu complexo parque tecnológico e os saberes técnicos que o permeiam. No início do ano, uma enchente ocorreu em um galpão em uma de suas unidades, afetando drasticamente sobretudo parte de seu acervo de película e de equipamentos. Desde agosto de 2020, as instalações e os acervos estão sem acompanhamento técnico; e até a conclusão deste texto não há perspectiva de uma resolução imediata, condizente com a urgência. A inação e o descaso com a Cinemateca Brasileira são mais uma das perversidades do atual governo, e se soma ao desmonte estrutural do sistema público de saúde, educação e cultura,1 e ao projeto de ecocídio e genocídio da população indígena e negra; este último acelerado pela pandemia de Covid-19. A crise da Cinemateca tomou proporções inéditas em 2020, mas sua origem é anterior, perpassando a crise administrativa e política de 2013 e um incêndio no início de 2016. Este artigo tem como enfoque os trabalhos realizados na Cinemateca Brasileira a partir de meados de 2016, de grande fôlego e entusiasmo na retomada dos trabalhos; o desafio de sua continuidade com a redução da equipe em 2017; a suposta solução com um novo modelo de gestão em 2018; e a hecatombe de 2020.2 O texto também apresenta conjecturas sobre as relações entre o patrimônio audiovisual e a cadeia produtiva do audiovisual. A sucessão de crises ao longo dos 74 anos da instituição, acentuadas por quatro incêndios e a enchente, são de forma mais ampla, o que a museóloga brasiliense Fabiana Ferreira destaca em sua tese A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil (2020). Ela alega que “o único aspecto estável nas políticas públicas de preservação audiovisual é sua inconstância. Uma sucessão de desencontros e desarticulações por parte dos agentes políticos responsáveis pela criação e implementação de políticas sem um real projeto de Estado que atravessa governos” (2020, p.109). Segundo Hernani Heffner, não é somente a maior crise da Cinemateca Brasileira, mas a maior crise do patrimônio audiovisual brasileiro.3

Panorama das Últimas Duas Décadas

O Brasil é uma república federativa presidencialista, com 26 estados e um distrito federal, de dimensões continentais – o quinto maior país do mundo em extensão territorial. O país passou por dois processos de redemocratização, sendo o mais recente a partir de 1984, após a ditadura militar estabelecida em 1964. Neste novo século, o país contou com um crescimento econômico, teve significativa redução das desigualdades sociais e de índices de pobreza extrema, ampliação de universidades e um processo de fortalecimento da indústria do audiovisual, por meio de políticas e programas federais, com destaque para as políticas de investimento da Secretaria do Audiovisual (SAv) / Ministério da Cultura (MinC)4 e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA)5, o que gerou amadurecimento de profissionais, das empresas, e traduziu-se em um volume crescente de obras a cada ano. Eventuais recursos municipais e estaduais somavam-se aos federais. Laura Bezerra pondera que, enquanto o governo investia na descentralização das políticas de cultura, o mesmo não ocorria com a preservação (2015). Nesse período e a partir de sua inclusão no organograma da SAv, houve sólidos investimentos na Cinemateca Brasileira, mas foram diminutas as discussões políticas sobre a gestão do patrimônio, e acerca das ações e mecanismos necessários para que essa gestão fosse feita de forma profunda e mais ampla.6 – referência fundamental para o entendimento do tecido da crise atual. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira, “a Cinemateca não atua na criação e implementação de políticas de preservação, seja realizando discussões e dialogando com o setor, seja participando ativamente dos espaços políticos no âmbito federal, como o Conselho Nacional de Cinema, por exemplo. Também não houve diálogo estruturado com outras entidades gestoras de memória” (2020, p.108). A insuficiência do Estado na gestão do patrimônio acarreta graves reverberações, que abalam a cadeia produtiva do audiovisual – esta não parece vislumbrar a preservação como elemento integrante e necessário para a própria cadeia. Ainda, a crise da Cinemateca Brasileira torna-se mais um argumento para a descentralização (e incremento) de investimentos na gestão do patrimônio audiovisual em todo país.7 O Brasil possui uma miríade de instituições de patrimônio federais, estaduais, municipais e privadas que não estão no holofote, mas que também demandam ações e recursos urgentes.

As últimas décadas foram de constante amadurecimento da área de preservação audiovisual, com a instauração de programas de financiamento específicos; o impulso de publicações; a criação e crescimento da CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto, na qual ocorre o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais8 a formação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) e a elaboração do Plano Nacional de Preservação Audiovisual (PNPA);9 além do crescente número de eventos.

Cinemateca Brasileira – Breve Histórico

A Cinemateca Brasileira contou com diversos arranjos administrativos, tendo começado como uma organização da sociedade civil e, posteriormente, passou para a esfera pública. Seu longo histórico abarca muitos percalços com alguns respiros. O escritor, ensaísta, crítico, pesquisador, professor e militante Paulo Emílio Sales Gomes  (1916-1977) é o protagonista na criação, defesa e gestão da Cinemateca. A atuação de Paulo Emílio é mais ampla que a própria Cinemateca, é fundamental na valorização do cinema brasileiro – e em sua qualificação como documento histórico –, na defesa de sua preservação, na criação de cursos de cinema em universidades, atuante na política internacional – como membro regular do Comitê Executivo da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF), entre 1948 e 1964, e eventualmente como vice-presidente –, além de autor referência em estudos historiográficos de cinema, com suas publicações sobre o francês Jean Vigo e sobre o brasileiro Humberto Mauro. Como professor, foi muito importante pela formação de cinéfilos, intelectuais, críticos de cinema e preservacionistas – sendo que alguns deram continuidade a seu trabalho na Cinemateca Brasileira.

Considerando a profusão de publicações sobre a Cinemateca Brasileira em português, e o limitado repertório em inglês, e tratando-se de uma plataforma bilíngue, apresento um breve apanhado, com momentos-chave sobre a história da instituição. Em 1940, por iniciativa de intelectuais paulistanos, foi criado o Clube de Cinema de São Paulo. Promovia a exibição de filmes, conferências, debates e publicações. Foi fechado pela ditadura de Getúlio Vargas em 1941. Em 1946 Paulo Emílio vai para a França estudar no Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC) e torna-se ainda mais próximo da Cinemathèque française, instituição com a qual mantinha contato, pois já havia morado em Paris na década anterior, período em que sua paixão pelo cinema despertou. Nesse ano é criado o Segundo Clube de Cinema de São Paulo, dessa vez, além de contar com as atividades anteriores, também tinha a iniciativa de prospecção e preservação de materiais de obras brasileiras. Portanto, 1946 é considerado o marco da criação da instituição. O Clube é filiado à FIAF por Paulo Emílio em 1948. No ano seguinte, é criada a Filmoteca do (recém-criado) Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1956 desliga-se do museu e se converte em Cinemateca Brasileira, sociedade civil sem fins lucrativos. Neste ano é formado o Conselho Consultivo.10 Em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato de celulose, ocorre o primeiro incêndio no verão de 1957, que “destruiu integralmente a biblioteca, a fototeca, os arquivos gerais e a coleção de aparelhos para o futuro museu de cinema, assim como um terço do acervo de filmes” (Gomes, 1981, p. 75). A tragédia suscita o apoio e doações de entidades nacionais e estrangeiras, e a Cinemateca ganha um espaço no maior parque urbano de São Paulo, o Parque Ibirapuera. Em 1961 torna-se uma fundação sem fins lucrativos, fato importante para sua autonomia e para o levantamento de recursos públicos.

No ano seguinte, é criada a Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), entidade civil sem fins lucrativos, para auxiliar a Cinemateca na gestão de recursos financeiros e para desenvolver atividades de apoio à Fundação. Se inicialmente as ações de difusão eram o motor da Cinemateca, a partir da década de 1970, a preservação passa a ser seu eixo, em parte pelo estado de seu acervo. O final dos anos 1960 e meados dos 1970 é um período crítico, com poucos funcionários, por vezes em trabalho voluntário. Em 1963 a Cinemateca é desligada da FIAF, devido ao não pagamento das taxas de anuidade, retomando como observadora em 1979, e como membro pleno somente em 1984. O segundo incêndio ocorre no verão de 1969, pelo mesmo motivo que o anterior, com perda significativa de materiais documentais. Em 1977 o laboratório da instituição é iniciado, a partir de equipamentos de laboratórios comerciais desativados. Paulo Emílio falece nesse mesmo ano, de ataque cardíaco.

Em 1980 é inaugurado no Parque da Conceição o Centro de Operações, para trabalhos de documentação e pesquisa. O terceiro incêndio ocorre no outono de 1982. Como decorrência, um movimento pela incorporação ao poder público culmina na extinção da Fundação Cinemateca Brasileira e na incorporação, como órgão autônomo, à Fundação Nacional Pró-Memória, do governo federal, em 1984. Em 1989 é alugado um cinema11 em Pinheiros, bairro movimentado da cidade, que alavancou significativamente a cinefilia da cidade. Ao final desta década, seu quadro funcional conta com cerca de 40 pessoas, sendo 30 contratados, muitos ex-alunos de Paulo Emílio.

Em 1990 a Fundação Nacional Pró-Memória é extinta, e a Cinemateca é incorporada ao Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC), criado naquele ano, e quatro anos depois transformado em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 1997 é inaugurada sua sede definitiva,12 no antigo Matadouro da Vila Mariana, em terreno cedido pela prefeitura, após nove anos de reformas – com o devido tombamento do conjunto arquitetônico. A sede definitiva agrega os departamentos e salas de exibição antes espalhados pela cidade de São Paulo, e pode ser vista como elemento-chave no processo de consolidação da instituição, após décadas de escassez de recursos, precariedade de infraestrutura, mudanças na dinâmica administrativa e institucional.

Em 2001 é inaugurado seu depósito de matrizes, inicialmente com capacidade para 100 mil rolos de filme, com controle de temperatura e umidade. No mesmo ano é iniciado o projeto Censo Cinematográfico Brasileiro,13 com financiamento da BR Distribuidora14 O projeto foi um importante marco para a identificação e tratamento do acervo da instituição,15 e para a formação de mão de obra técnica. Ele “organizou-se sobre quatro eixos básicos: o levantamento e exame do acervo existente, concentrado e disperso; a duplicação de filmes amea[ça]dos de desaparecimento por seu estado de deterioração; a divulgação do trabalho e de seus resultados; o estudo de medidas legais para a proteção do patrimônio audiovisual” (Souza, 2009, p.258). Em 2003 a Cinemateca é incorporada à SAv/MinC, após deliberação do Conselho, considerando que o IPHAN não estava atendendo o escopo e não se envolvia nas estratégias da Cinemateca senão para aprovar planos de trabalho. Nos anos subsequentes, os recursos repassados pelo MinC aumentam gradualmente. Em 2003 é implementado um programa de estágio de curta duração para técnicos de outras instituições. De 2004 a 2006, o projeto Prospecção e Memória dá continuidade ao projeto do Censo, sobretudo em relação à catalografia de obras brasileiras, compiladas na base de dados Filmografia Brasileira.16

Em 2005 é criado o Sistema Brasileiro de Informações Audiovisuais (SiBIA), programa da SAv, com coordenação da CB, “programa que visa estabelecer uma rede que conta neste momento com a participação de mais de 30 instituições que se dedicam, prioritária ou subsidiariamente, à preservação de acervos de imagens em movimento em todo o Brasil”.17 A instituição é escolhida como sede do 62º Congresso da FIAF em 2006, cujo tema é “O futuro dos arquivos de filmes em um mundo do cinema digital: arquivos de filmes em transição”. No mesmo ano, à ocasião do 60º aniversário da instituição, com comitiva de ministros e secretários, Luiz Inácio Lula da Silva é o primeiro (e único) presidente do Brasil a visitar a CB. Em 2006 é publicado o Manual de Manuseio de Filmes e o Manual de Catalogação da instituição, normativas internas e importantes referências para as demais instituições brasileiras, sobretudo à época, ainda com poucas publicações técnicas em português. Em 2008 a SAC torna-se uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e, a partir de então, são volumosas as transferências de recursos para projetos na Cinemateca. Na gestão da SAC, são realizados projetos da próprio SAv – como meio de garantir agilidade na execução de programas do Ministério, como a Programadora Brasil.18 A partir de 2008 são publicados relatórios anuais de atividades.19, à exceção dos seguintes anos: 2013, 2015, 2018 e 2019. Como resultado do Censo, são confeccionados materiais de preservação e difusão no laboratório da instituição, e realizadas restaurações com recursos de projetos e programas. Em 2009 é lançado o Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro, caixa de DVDs com 27 títulos de filmes silenciosos com trilhas sonoras compostas especialmente para a edição. Em 2011 é inaugurada uma instalação secundária na Vila Leopoldina,20 para armazenamento de películas, documentos, equipamentos, dentre outros. Em 2012 é publicada a primeira edição da Revista da Cinemateca Brasileira e, no ano seguinte, sua segunda edição.21 Em 2013 é instaurada uma crise político-administrativa, com a sumária exoneração do diretor-executivo da instituição, sem o devido diálogo com o Conselho, sem as medidas adequadas para sua substituição ou um plano de transição. São realizadas sucessivas auditorias da Controladoria Geral da União em relação à execução de recursos da SAv pela SAC e à aquisição de acervos pela União.22 Ao final do ano, dos 124 funcionários ativos antes da crise, poucos permaneceram, dentre eles os 22 funcionários públicos diretamente vinculados ao ministério.23 A partir do relatório de 2014, é possível verificar que alguns (poucos) fluxos de trabalho continuaram. Destaco a interrupção de um fluxo não executado em 2014 (e 2015), que afetaria drasticamente o acervo:

No verão de 2016 ocorre o quarto incêndio, mais uma vez em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato. A perda foi estimada em 1003 rolos de filmes em nitrato de celulose, referentes a 731 títulos. Além da descontinuidade da revisão deste acervo com a crise de 2013, alguns anos depois foram descobertos alguns rolos recém-chegados à instituição, que foram alocados no depósito sem a devida remoção da embalagem de transporte. Isso poderia ter sido evitado se a equipe técnica tivesse sido encarregada de alocar e realocar as obras dentro dessa coleção de filmes. Esse descuido potencialmente criou condições para um microclima sujeito à autocombustão e pode ter sido o segundo fator responsável pelo incêndio. Porém, o fator primário sempre será a irresponsabilidade do poder público, ante a falta de condições para o exercício das atividades básicas da instituição.

Cinemateca Brasileira – de 2016 a 2017

O incêndio de 2016 coincide com a entrada de 11 técnicos, viabilizados por um contrato de serviços firmado entre a SAv/MinC e a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que entrou em vigor no final de 2015, com duração de um ano. Ao todo, até meados do ano, foram 42 técnicos contratados, que se somavam aos 15 servidores diretamente vinculados ao MinC. Foram também contratadas empresas terceirizadas de serviços essenciais (manutenção, limpeza, segurança e TI) e 7 técnicos para o fluxo de Depósito Legal,24 viabilizados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). No relatório anual de atividades de 2016, o tom da apresentação da diretora Olga Futemma25 é de otimismo e orgulho pelo cumprimento das metas estabelecidas no Plano de Trabalho do Contrato, com a devida indicação das dificuldades e desafios criados a partir da descontinuidade dos trabalhos nos anos anteriores. Destaque para os trabalhos realizados em decorrência do incêndio:

“balanço e comunicação das perdas […]; exame, separação por grau técnico e triagem para encaminhamento de materiais [...] para processamento laboratorial; alocação provisória dos 3 mil rolos de nitrato remanescentes; elaboração de projeto de implantação, no depósito incendiado, de dispositivos contra sinistros […]; reforma básica do depósito, realizada pela equipe da Cinemateca, para o retorno da coleção […]; descarte técnico de resíduos do incêndio”.

Apesar do desastre, não foram obtidos recursos junto ao MinC para dispositivos contra sinistros.26 Outro desafio explicitado por Futemma foi a situação do Laboratório de Imagem e Som: devido à paralisação anterior, o “cenário era desolador”, dizia. Para enfatizar sua importância: trata-se de um dos mais completos (e último?) laboratórios de processamento audiovisual fotoquímico da América do Sul, com possibilidade de processamento de película para película (35mm e 16mm, suporte p&b de todos os materiais e confecção de cópias de materiais cor); de película 8mm, 9,5mm, 16mm e 35mm para digital (HD, 2K, 4K, 6K); back-to-film, de digital para película 35mm; captura de diversos formatos em vídeo (U-Matic, Betacam SP, Betacam digital, DVCam, entre outros) para digital; manipulação digital de imagem e som, incluindo correção de cor e restauração. O maquinário foi trabalhado ao longo dos anos para processar materiais com deterioração avançada.27 Devido à ausência de equipe nos anos anteriores e à decorrente falta de manutenção e peças, não foi possível retomar alguns fluxos.

O acervo audiovisual contém cerca de 250 mil rolos, entre películas com suporte de nitrato, acetato de celulose e poliéster, além do expressivo acervo de fitas e rolos magnéticos, e aproximadamente 800 terabytes de arquivos digitais, sobretudo de materiais digitalizados do acervo e materiais encaminhados para Depósito Legal. O acervo documental abarca cerca de um milhão de documentos relativos ao audiovisual, como cartazes, fotografias, desenhos, livros, roteiros, periódicos, certificados de censura, material de imprensa, documentos de arquivos pessoais e institucionais.28 Ademais, há uma coleção de equipamentos, não catalogada, de tecnologias do audiovisual de diversas décadas. No período recente, a instituição dividia-se nos setores: preservação de filmes, centro de documentação e pesquisa, difusão – programação.29 e eventos, atendimento, administração, manutenção e tecnologia da informação.

No setor de Preservação de Filmes, diversos fluxos foram executados ao longo de 2016: acompanhamento da climatização dos depósitos, movimentação de materiais de acordo com suas características físicas ou deterioração, revisão da documentação, atendimento a solicitantes e duplicação emergencial de materiais, que será comentada adiante. Um fluxo de trabalho importante foi a documentação, de forma coletiva, de ações necessárias, mas para as quais não havia recursos suficientes. Depois de meses de manutenções corretivas e avaliação dos químicos e de película virgem no estoque, foi iniciado o processamento de materiais em avançado estágio de deterioração considerados únicos: “a seleção foi feita considerando as condições técnicas dos materiais, [com investimento de] menos tempo e recursos nas ações complementares de uma só obra para que seja possível viabilizar ações, embora incompletas, em um número mais amplo de materiais”, de acordo com o Relatório de 2016.30

Devido às metas estabelecidas no Plano de Trabalho e aos exíguos tempo e equipe disponíveis em 2016, a seleção de materiais para processamento em laboratório foi realizada por apenas um técnico, sem debates e discussões mais amplas sobre o processo de seleção. Houve a precaução de não selecionar longas ficcionais consagrados31 abrangendo “materiais de obras de ficção, documentários, cinejornais, filmes domésticos e filmes científicos” e “sem avaliação subjetiva do conteúdo das obras ou curadoria” (Relatório 2016). A seleção priorizou a urgência pela deterioração do material e não pelo conteúdo. O aspecto crítico nesse fluxo consiste no que não estava sendo selecionado, e que possivelmente estava incrementando ainda mais o ostracismo da obra. Ao longo do processo de análise, materiais indicados para duplicação eram avaliados como não processáveis e, pelo potencial de unicidade, ainda que com esperança no surgimento de algum material, impossível não encarar como a morte da obra. Inúmeros materiais estavam tão deteriorados que não possuíam condições de duplicação na íntegra, e os novos materiais gerados muitas vezes continham as marcas fotográficas da deterioração. Durante este fluxo, foi utilizado o estoque de película comprada nos anos anteriores – que foi findando ao longo dos anos, sem renovação.

As eventuais mortes de obras e as especificidades de processamento suscitaram a necessidade de criar uma metodologia que avaliasse e documentasse a situação da obra, a partir de determinado conjunto de materiais, para nortear as ações de preservação e acesso. Assim surgiu o que foi denominado como “status de preservação”, categoria que, além se integrar à documentação interna, foi incorporada nas comunicações aos detentores de direitos das obras, com observações como “indicada para processamento” ou “necessidade de prospecção de novos materiais”.32 Uma vez que essas categorias são mutáveis uma vez que a condição dos materiais pode mudar, a data do status era tão importante quanto o próprio status como informação.

A plataforma de dados da Cinemateca Brasileira é o WinIsis33 um software bastante limitado como ferramenta de análise de dados de forma mais complexa. A retomada de trabalhos de análise do acervo audiovisual, a criação de novos materiais e a movimentação demandavam atualização constante da base de dados de materiais audiovisuais, que foi interrompida devido à detecção de problemas estruturais na própria base – com o risco de corrupção de dados. Em paralelo, o projeto de código aberto e baseado na web Trac.34 foi estruturado e normatizado para documentação interna – essencialmente documentação fixa em formato Wiki e sistema de tarefas por tickets. Essa intranet “possibilita manter a horizontalidade da informação em relação aos demais setores, a colaboração na construção da documentação, a perenidade e a organização da informação em uma mesma plataforma, […] utilizada para documentar procedimentos internos diversos; normas e bulas de preenchimento de documentos; relatórios e textos referentes à instituição; informações referentes a solicitações externas e dados de materiais analisados e processados”, de acordo com o Relatório de 2017. O esforço por manter uma documentação interna acessível, horizontal e transparente, condizente com o caráter de uma instituição de memória, não alcançava as comunicações com a Acerp e os projetos elaborados pela equipe e encaminhados aos Ministérios. Um elemento importante para o progresso dos trabalhos foi o investimento em desenvolvimento de tecnologia, como documentado no Relatório de 2017, o que permitiu a análise de informações da base de dados de forma dinâmica e a busca por soluções para fomentar a autonomia da instituição.

Merece destaque o projeto ClimaCB, criado para o monitoramento on-line da climatização, uma combinação de software e hardware de código aberto, cujas orientações e códigos estariam disponíveis em Git, para a livre utilização. Infelizmente, a publicação não foi efetivada. A participação da CB à frente de discussões técnicas e na publicação de proposições e soluções tecnológicas é ansiada, considerando seu potencial caráter medular, no âmbito da preservação audiovisual.

No período de dois anos durante o Contrato de Prestação de Serviços, Olga Futemma mantinha reuniões com a equipe técnica para compartilhar notícias, impressões e estratégias. Os eventuais encontros reforçavam a noção da proporção e da força da equipe, e serviam como injeção de ânimo. Outro elemento importante de coesão como equipe foi a construção de um novo site – o anterior tinha navegabilidade e ferramentas obsoletas. Um momento de visibilidade foi a realização de uma vinheta pela equipe técnica, mostrando o histórico da logomarca da instituição, criada em 1954.35

A equipe do setor de Preservação tinha um equilíbrio entre técnicos antigos na instituição, que garantiam uma necessária continuidade de fluxos, e técnicos que ali trabalhavam pela primeira vez, que proporcionavam um frescor na avaliação de fluxos e processos do setor. As dificuldades nas relações interpessoais em anos anteriores e a insegurança ocasionada pela crise de 2013 eram as referências negativas a serem evitadas.

O ano de 2016 ficou marcado pela autonomia e intensa comunicação da equipe técnica, mas também pelos percalços. Em maio foi lançado um edital para seleção de uma Organização Social (OS) para empreender a gestão da CB, pela então equipe do MinC do governo Dilma Rousseff. Pouco depois ocorreu o golpe misógino, caracterizado como um processo de impeachment da presidenta. Tão logo o novo presidente assumiu, quis acabar com MinC, mas voltou atrás, após forte pressão popular. O novo Ministro da Cultura cancelou o edital da contração da OS para a CB, que foi lançado meses depois, com alterações.

Em julho houve mais uma surpresa: a eliminação, por uma reestruturação do MinC, de cinco cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) da instituição, ocupados então pela diretora e por técnicos. A direção da CB seria ocupada por uma indicação do Ministério, sem a devida expertise e sem a participação do Conselho, dado inédito à época. Foram enviadas cartas de associações e o Conselho da CB lançou um manifesto36 pela revogação das demissões e pela vinculação da Cinemateca ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), o que auxiliou a reversão do corte do DAS da diretora e viabilizou a contratação de técnicos que ocupavam outros cargos, de outra forma.

Nos meses seguintes foi batalhado junto à SAv/MinC uma forma de evitar o intervalo entre o contrato de prestação de serviços com a Acerp – que terminaria em dezembro – e a implementação do Contrato de Gestão com a OS vencedora do edital. A solução encontrada, um dia antes do término do contrato, foi sua extensão até abril de 2017, mas “como o valor residual não é suficiente para remunerar por quatro meses todos os técnicos anteriormente contratados, foi preciso reduzir a equipe (em cerca de 75%) e, como consequência, frentes de trabalho”, segundo o Relatório daquele ano. O ano terminou com uma mistura de entusiasmo, pela celebração do centenário de nascimento do Paulo Emílio – com o lançamento de um esmerado site,37 de cursos ao público externo e publicações –, e de desânimo pelo corte da equipe, que só seria retomada em proporção similar em junho de 2017. É visível o impacto da forte redução dos técnicos, em um comparativo dos fluxos de trabalho nos Relatórios de 2016 e 2017, como pode ser explicitado pelos resultados do laboratório de metragem de material processado:

Em maio de 2018 foi celebrado o contrato com a OS, seguido por uma cerimônia com a presença do então Ministro da Cultura, que clamou que “a crise acabou” com o novo modelo de gestão. A Acerp, titular do contrato de prestação de serviços desde 2016, foi a OS selecionada no Edital. No caso da Cinemateca Brasileira, a costura jurídica do contrato de gestão por OS iria contribuir para a crise atual: a legislação não permitia que a Acerp firmasse um contrato de gestão diretamente com o Ministério da Cultura (órgão ao qual a Cinemateca estava vinculada), pois já tinha um contrato com o Ministério da Educação (MEC), então a gestão da Cinemateca foi oficializada por um aditivo ao contrato principal.38

Após a assinatura, a Acerp designou uma nova diretora para a Cinemateca, sem consulta ao Conselho, então relegado ao ostracismo. A primeira ação da Acerp com forte impacto na dinâmica da equipe técnica foi o estabelecimento de um núcleo de Atendimento para se dedicar ao crescente número de solicitações, sobretudo de acesso ao acervo audiovisual. Os serviços dos demais setores e o acesso ao acervo documental continuavam sendo viabilizados, mas, com o novo fluxo, se formou um gargalo no acervo audiovisual. Toda solicitação era registrada, respondida e eventualmente atendida, em teoria, considerando a ordem de chegada, a possibilidade de execução e os tempos de tramitações dentro da instituição. Apesar desse protocolo estabelecido pela equipe, um sinal da subjugação da CB seria a intensificação de projetos furando a fila, por determinação do ministro ou da diretoria da Acerp, o que gerava desconforto e inconformidade em parte da equipe.

Para a equipe de Preservação, o núcleo de Atendimento significou não ter mais contato com pesquisadores e produtores, que estavam acostumados com a maior agilidade que a expressiva equipe conferia antes de 2013 – e ficavam frustrados com a limitada capacidade de resposta impressa pela equipe reduzida. Ademais, o diálogo com produtores e pesquisadores – e suas práticas – denotava incompreensão da importância da preservação. Ou ainda, uma visão curta, até em termos de mercado, como a demanda para retirada de materiais para digitalização e licenciamento sem o processamento tecnicamente necessário.39 Outro indício da incompreensão e desrespeito com o viés da preservação é a não execução das contrapartidas especificadas pela CB. Relação elegantemente comentada por Olga Futemma, no Relatório de 2016: “algumas das situações ruins que enfrentamos decorreram de: prazos exíguos; a total desconsideração da necessidade de uma contrapartida – não em termos monetários, pois a Cinemateca não pode cobrar [à época] , mas em ações que deveriam estar previstas em seus projetos e que permitissem ampliar o acervo […]; a incompreensão de que materiais únicos (de preservação) não devem sair do acervo sem supervisão […]”. Ela acrescenta que “é preciso, portanto, continuar a empreender esforços para a mudança da concepção do bem público como algo de que se possa dispor livremente para a consecução de projetos privados, e para a compreensão da necessidade de, ainda na fase de elaboração, consultar sobre a viabilidade do projeto com a Cinemateca, no que diz respeito aos materiais pretendidos e aos prazos necessários para sua disponibilização. São duas condições essenciais para um planejamento que beneficie o solicitante e o acervo”.

Em setembro de 2018, antigos membros do Conselho emitem uma Notificação Extrajudicial ao MinC, requerendo a “revogação dos atos […] e normas que violem a autonomia técnica, administrativa e financeira asseguradas na escritura de incorporação da Fundação Cinemateca Brasileira […], além de: 1) Constituição de novo Conselho Consultivo com observância à necessária autonomia do órgão; […] 3) Retorno da Cinemateca Brasileira à estrutura do IPHAN”. A notificação menciona ainda a “omissão da SAv diante do incêndio [de 2016 … e] que a Cinemateca Brasileira nem mais consta da estrutura do Ministério da Cultura e nem mereceu nenhum cargo público comissionado”.

Gestão por OS na Cinemateca Brasileira

No momento de maior solidez da instituição, na primeira década deste século, a manutenção de seu corpo funcional foi um desafio constante. Os técnicos eram contratados por projetos com duração específica, por diferentes formas de vinculação.40 Essa dinâmica imprime fragilidade e instabilidade aos fluxos de trabalho, compromete estratégias e soluções estruturais, além de vulnerabilizar a própria equipe técnica.41 O modelo de gestão por OS seria uma solução desejada para viabilizar a contratação da equipe técnica de forma estável, depois de anos de penúria, conforme evidenciado por Futemma em e-mail na lista da ABPA: “esta discussão [de modelo de gestão de OS] ocorre há oito anos, envolvendo MinC, SAv e Conselho e equipe da Cinemateca. Temos grandes expectativas de que, até o final deste ano, um novo modelo de gestão permita à Cinemateca Brasileira exercer todo o seu potencial em prol do patrimônio audiovisual brasileiro”.42

O modelo de gestão por OS foi a solução deliberada depois de muitos anos de instabilidade do corpo técnico. Essa perspectiva era calcada também na possível preferência de uma OS criada especialmente para gerir a CB, a Pró-Cinemateca, OS criada em 2014 por membros do conselho e da SAC, com a finalidade única de fazer a gestão da instituição, que potencialmente teria a participação de profissionais da área na construção de um Plano de Trabalho – documento medular para a gestão em si e um dos critérios de seleção no Edital. A Pró-Cinemateca se qualificou para o 1º Edital lançado, mas não para o 2º Edital, devido à nova exigência de experiência prévia da instituição na gestão de recursos públicos – não havia experiência da instituição, pois havia sido criada recentemente, mas dos representantes e conselheiros, sobretudo experiência na própria Cinemateca, o que, na prática, poderia ser mais relevante do que o histórico de gestão da empresa em si.

Hoje o modelo de gestão por OS, após controvérsias em torno da gestão de outras entidades públicas, casos de corrupção e uma série de publicações sobre o tema na academia e na internet, é rebatido de forma ampla.43 O modelo é especialmente arriscado para instituições de patrimônio cultural em um contexto de insuficiência de recursos do Governo, onde fluxos de trabalho essenciais para a conservação do acervo (muitas vezes custosos e de baixa visibilidade) podem ser ofuscados para o benefício de ações com maior visibilidade pública. A confecção de um plano de trabalho sem a participação efetiva da equipe técnica pode comprometer seus objetivos primordiais. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira:

“Um outro problema dessa gestão é que a justificativa da liberdade para captação de recursos por outras vias que não as estatais acaba também ficando à mercê do Estado. Isso se dá porque, no Brasil, o apoio das instituições privadas para a cultura não é tradição. A iniciativa privada no Brasil não apoia iniciativas culturais. Tradicionalmente, famílias milionárias e corporações brasileiras não realizam doações ou investimentos nos equipamentos de cultura, menos ainda para aqueles que não dão visibilidade à marca”. (2020, p.110)44

No caso da CB, a gestão por OS possibilitou a contratação por CLT45 de boa parte da equipe, cuja escolha felizmente coube aos coordenadores, sem a intervenção da Acerp. Porém, gradativamente o corpo técnico passou a ser condicionado às diretrizes da Acerp, condição que ficou evidente em reuniões internas, quando não era mais possível desempenhar um papel ativo na prospecção de acervos46 ou falar em nome da instituição sem o consentimento da Acerp. Sinais de mudança foram percebidos nos “modos sociais” da equipe, de forma distópica: a instalação de rede de câmeras como medida de segurança de acervo e equipamentos se concretizou com a gestão da Acerp – abarcando espaços anteriormente utilizados em pausa do trabalho, gerando desconforto com a vigia panóptica moderna.

Cursos internos de assuntos técnicos ou apresentação de fluxos e atividades entre os setores, que eram realizados desde 2017, foram suspensos. A captação de recursos para a Cinemateca constava entre as ações previstas pela Acerp, e o aproveitamento do acervo e das instalações era uma via rápida para esse fim, o que gerou longos períodos com um fluxo constante de montagem e desmontagem de estrutura para grandes eventos, com temáticas variadas, por vezes distante da cultura e do audiovisual. Como não foram emitidos relatórios de 2018 e 2019, na gestão da OS, não é possível o acesso à informação sobre esses eventos. A ausência de publicação de relatórios é um perigoso indício da falência do modelo de OS para a Cinemateca, pois são documentos fundamentais para prestação de contas e transparência da gestão da instituição. No período foram criados relatórios de cumprimento de metas para o Ministério, mas o caráter do documento é técnico e pouco informativo, além de não ser público. Foi proposto um Código de Ética e Conduta da Acerp para os funcionários da CB, apresentado em um evento sobre o compliance da empresa – a menção de crenças religiosas no evento foi uma demonstração significativa da distância entre a Acerp e a missão institucional da CB.47 Ainda, ficou explícita e evidente a inaptidão da empresa no desembaraço de burocracias para aquisição de equipamentos para o laboratório, o que afetou planos de trabalho desenhados segundo a disponibilidade de tais equipamentos. Solicitações de acesso ao acervo audiovisual para a utilização na programação da TV Escola tornaram-se prática corrente – enquanto a Acerp desatendia algumas necessidades apontadas pelo corpo técnico. As propostas da programação para a sala de cinema foram impactadas e condicionadas – como apresentar a ideia de uma mostra de Fassbinder para uma diretoria que fazia piada homofóbica nas situações de conversa fiada anteriores às reuniões?

O cancelamento em cima da hora da edição de 2019 da CryptoRave48 pela equipe da própria Cinemateca foi sintomático, por receio de represália. Um símbolo incontestável da ocupação pela Acerp foi a criação de um novo site, sem participação ativa do corpo técnico da Cinemateca nas decisões editoriais. Como exemplo de equívoco, a ferramenta dinâmica do calendário de programação não era compatível com a linguagem do novo site. Portanto, o novo site passou a ter um design mais atualizado, porém menos funcional. A Acerp de imediato implementou uma logomarca intermediária (dizeres ‘cinemateca brasileira’ em cor branca sobre fundo vermelho), em substituição da logomarca de 1954, criada pelo celebrado designer Alexandre Wollner. A Acerp encomendou o desenho de uma nova logomarca, apresentada ao corpo técnico sem espaço para deliberação, cujo conceito e diagramação surpreendem pela semelhança com a logo do Curta Cinema - Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro. Outro aspecto delicado, pois a Acerp é sediada no Rio de Janeiro e a Cinemateca em São Paulo.49 são os gastos de traslado, hospedagem e diárias de alimentação de diretores, gerentes e membros da consultoria jurídica entre as cidades – esses recursos acumulados significam um montante considerável, que poderia ter sido investido na própria Cinemateca.

Um símbolo inquestionável do insucesso do modelo de gestão de OS para a Cinemateca foi a dissolução do Conselho Consultivo, composto por representantes do poder público e da sociedade civil, cuja existência está prevista na ata de incorporação da instituição ao governo federal, de 1984. Sem diálogo com o Conselho, vários diretores foram apontados pela Acerp, sem experiência na área de memória ou preservação, e acabaram por alienar a equipe técnica dos rumos da instituição. Além disso, a Cinemateca, que historicamente se mantinha apartidária, por meio da Acerp, tornou-se o destino de pessoas associadas ao partido de extrema direita do presidente à época, em cargos diversos (administrativos e de comunicação, sobretudo), sem a expertise necessária nem entendimento da instituição, e que frequentemente apresentavam as áreas técnicas aos visitantes sem o devido acompanhamento da equipe técnica, fragilizando mais os esforços de conservação. Episódios com muita repercussão foram a presença de militares nas dependências da instituição50 e a tentativa fracassada de realização de uma mostra de filmes militares. Ao longo dos quatro anos da gestão da Acerp, a partir do exame da dinâmica interna, fica explícito o quanto a equipe técnica era autônoma e tinha projetos (Acerp como prestadora de serviço, de 2016 a 2018) e o quanto houve de perda da autonomia no modelo de gestão por OS (2018 em diante).

O limbo administrativo em que os dez servidores públicos alocados na instituição consiste em outra questão. Eles continuaram em seus postos desde o início da gestão por OS, quando a CB deixou de ser uma coordenação-geral da SAv do antigo MinC. Alguns dos servidores já estavam na instituição há mais de três décadas. Antes da assinatura do contrato, foi garantido aos servidores que, com a cessão para a OS, não teriam prejuízos em seus salários e benefícios. Contudo, após a assinatura do contrato, o entendimento mudou e a cessão nunca foi oficializada. Apesar dessa situação, o ministério orientou os servidores a prosseguirem com suas atividades na Cinemateca. Após um ano e meio de descaso e mensagens contraditórias, tiveram que abandonar de forma brusca a Cinemateca, para trabalhar no Escritório Regional do Sudeste do Ministério, em São Paulo – sem infraestrutura mínima para recebê-los. Além da súbita suspensão de sua atuação na CB, essas pessoas respondem a um processo de reposição ao erário, para devolução à União da Gratificação de Desempenho de Atividade Cultural (GDAC) – que representa parte significativa dos vencimentos – do período da assinatura do contrato de gestão da Acerp até a ida ao escritório do Ministério, por terem trabalhado “cedidos” para a OS.

Apesar de a Acerp ter assumido as relações institucionais de forma mais ampla, excepcionalmente a relação com a FIAF seguiu sendo feita por Olga Futemma e coordenadores, com a emissão de minuciosos relatórios anuais à Fundação e a pronta pesquisa de informações solicitadas por associações filiadas à FIAF. Porém, entre os anos 2016 a 2019, não foi possível a representação de Futemma ou dos coordenadores nos Congressos de Bologna, Los Angeles, Praga e Lausanne.

Crise de 2020

Em fevereiro de 2020 a instalação secundária na Vila Leopoldina foi afetada por uma enchente, devido às fortes chuvas e à ausência da gestão adequada de galerias pluviais do bairro, aliada à intensa poluição do rio Pinheiros, a menos de 0,5 km da Cinemateca. A água de esgoto atingiu mais de um metro de altura, destruindo parte do acervo de película e de equipamentos, inclusive últimos materiais de longas e curtas de ficção, muitos elementos únicos de cinejornais, publicidade e trailer. Os danos ao acervo documental não foram considerados significativos, por se tratar de material duplicado. Instalações e equipamentos do galpão foram afetados e danificados. Após uma higienização profunda no ambiente pela equipe de limpeza, uma parcela da equipe técnica foi deslocada para limpeza, organização e resgate dos materiais atingidos. Não foi executado um plano emergencial por parte da Acerp ou da SAv para a necessária avaliação e processamento dos acervos audiovisual e de equipamentos, os mais atingidos, como a contratação de uma equipe técnica extra de forma temporária ou, até, a permissão de voluntários.51 A catástrofe não foi noticiada espontaneamente devido à falta de articulação entre a SAv e a Acerp diante da tragédia. A equipe técnica não poderia tomar a iniciativa de tornar pública a enchente. A exígua equipe estabeleceu turnos diferenciados, considerando a alta toxicidade do ambiente e a carga exaustiva, acentuada pelas altas temperaturas do galpão sem climatização e com restrita ventilação.52 Materiais em película foram selecionados e transladados para a sede principal para avaliação e processamento no laboratório, mas havia pouca película disponível para duplicação emergencial de rolos únicos danificados. Pelo alcance dos danos no espaço da CB e, sobretudo, nos acervos audiovisual e de equipamentos, pela inação da SAv e da Acerp, e pela crise que se sucedeu depois, interrompendo o trabalho de resgate e pesquisa, essa enchente se equipara, como catástrofe, aos sucessivos incêndios sofridos pela instituição, que “são metáfora da fragilidade da construção de uma política de preservação audiovisual que se esvai em chamas a cada mudança de Governo, de criação de entidades, de novos agentes” (Ferreira, 2020, p.23).

Desde a crise de 2013, o orçamento repassado pelo Ministério foi aquém das necessidades, o que se traduziu em equipes menores que o planejado para execução dos planos de trabalho. Ao final de 2019 instalou-se mais uma crise, quando o então Ministro da Educação decidiu não dar continuidade ao projeto da TV Escola – objeto principal do contrato da Acerp com o MEC –, não renovando o Contrato de Gestão com a Acerp (supostamente por uma cizânia pessoal do Ministro com um dos diretores). Uma vez extinto o contrato-principal com o MEC, todos os demais contratos foram encerrados – apesar do aditivo referente à CB ter duração até 2021 – o que deixou a CB à deriva administrativamente. A Acerp passou alguns meses buscando contornar a decisão e tentando obter recursos com a SAv, com a Secretaria Especial da Cultura e com o Ministério do Turismo, sem sucesso. O ano de 2020 foi repleto de notícias absurdas de decisões do governo envolvendo a Cinemateca,53 causando comoção e repercussão em redes sociais e gerando matérias na mídia. Em abril a Acerp parou de pagar as empresas terceirizadas e a equipe técnica. Antigos membros do Conselho lançaram um manifesto em maio.54

Foi iniciada uma ação civil pública pelo Ministério Público Federal contra o governo federal, pedindo a renovação emergencial do contrato com a Acerp que, até o fechamento deste texto, tinha o entendimento de que a situação estaria sanada com a contratação dos serviços essenciais (segurança, bombeiro) – porém, a ação está em andamento e há expectativa de uma nova decisão favorável à CB. Foram formadas e fortalecidas redes de resistência e protesto, de forma difusa, com diversos atores, que estreitaram a comunicação ao longo do tempo: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, e representantes da Associação Paulista de Cineastas (Apaci),55 criando o movimento SOS Cinemateca. Estes grupos estiveram muitos ativos na realização de atos pela Cinemateca e na articulação política com gestores municipais e federais. Por parte do corpo técnico da CB, a porta voz não foi a gerência ou as coordenações, mas a representação de funcionários como um grupo.56

Os funcionários, que seguiam em trabalho remoto (quando possível), entram em greve em junho, com o auxílio efetivo do Sindicato. Neste mês é iniciada uma campanha por iniciativa dos trabalhadores da CB para arrecadar recursos para os colegas em situação mais vulnerável pela falta dos salários e benefícios, ainda mais fragilizados com a pandemia de Covid-19. A campanha teve numerosas contribuições de pessoas e instituições de todo o mundo.57 Foram feitas doações diretas à própria instituição, como a de um diretor anônimo, que doou para o conserto do gerador. Em julho foi realizado um debate na Câmara dos Deputados,58 com a presença de parlamentares, de diferentes atores da cadeia do audiovisual e da sociedade civil, um símbolo da repercussão e engajamento inéditos em torno da Cinemateca. De certa forma evidenciou também a necessidade de protagonismo e de didática por parte de profissionais da área pela profusão de termos inadequados e imprecisos ao defender a Cinemateca.59 A diretoria da Acerp emitiu poucos comunicados ao corpo técnico diretamente, e as informações eram repassadas, de forma irregular, pelos coordenadores. Em junho foi emitido um comunicado da diretoria (em documento não datado!), com solidariedade “com as dificuldades que todos estão passando, mas saibam que estamos fazendo o possível e impossível, estamos fazendo de tudo que está ao nosso alcance”, com o comprometimento de, “assim que receber do Governo Federal, a primeira providência será pagar salários e rescisões” – quando era notório que não haveria nenhum repasse por parte do Governo Federal. Considerando a ausência de recursos em 2020 para a Cinemateca, a enchente, a crise decorrente da pandemia de Covid-19, o trabalho remoto, a suspensão de salários e benefícios, o comunicado é um símbolo do descaso e desrespeito da Acerp com seu corpo funcional. Após a entrega de chaves da CB ao Ministério em 7 de agosto,60 a Acerp demitiu seus funcionários (sem pagamento de salários atrasados e verbas rescisórias).

Conforme notado na Carta de Gramado de 2020, “após inúmeros telefonemas, mensagens, consultas entre as partes e adiamentos, foram garantidos os serviços básicos e emergenciais de água e de luz […]; foram contratados os serviços de limpeza, embora a empresa não seja especializada; foram contratados serviços de manutenção dos equipamentos de climatização, embora a empresa não ofereça a expertise necessária; foram contratadas uma mini brigada anti-incêndio composta por dois funcionários e uma empresa de vigilância patrimonial das dependências. No entanto, entre as necessidades emergenciais falta o fundamental trabalho dos funcionários especializados sem os quais o acervo não estará preservado, mesmo com a retomada dos serviços básicos acima descritos”.61 Sem o acompanhamento técnico, o menor dos incidentes nas áreas de acervo pode gerar problemas com consequências drásticas e irreversíveis. Trata-se da primeira vez que em que é impossibilitada a entrada na instituição, por qualquer membro do corpo técnico.

À ocasião da entrega das chaves ao Ministério do Turismo, foi indicado que um edital para a contratação de uma nova OS seria lançado em breve, o que ainda não ocorreu. Há uma previsão orçamentária de R$ 12,5 milhões para a Cinemateca em 2020. Caso este recurso não seja utilizado ainda neste ano, não poderá ser somado aos parcos R$ 4 milhões previstos para 2021. Vereadores de São Paulo de diferentes partidos políticos organizaram um fundo de emendas parlamentares para a Cinemateca, com apoio da SPcine, empresa municipal de audiovisual de São Paulo. A aplicação de recursos municipais em uma instituição federal demanda uma articulação jurídica inédita, que está sendo construída pela SAC para a contratação emergencial de um pequeno corpo técnico. Hoje, os grupos da Sociedade Civil seguem ativos, com a tentativa de acionar entidades e dar continuidade à mobilização. A próxima grande ação está prevista para 27 de outubro, Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual - UNESCO.

É urgente a criação de uma solução imediata para a viabilização de uma equipe técnica ainda no ano de 2020, para que o acervo não siga desacompanhado. A criação de mecanismos para a gestão da instituição a médio e longo prazo, de forma resiliente e sustentável, condizente com a necessidade de constância dos trabalhos no acervo e de manutenção da equipe técnica também é urgente. Considera-se como necessária e fundamental a abertura de concursos públicos para os cargos técnicos, respeitando as especificidades, o que poderia conferir a desejada estabilidade. Conforme diagnosticado na Carta de Ouro Preto de 2020:

“preservação do patrimônio cultural é dever constitucional do Estado brasileiro e, portanto, é preciso recuperar o protagonismo do poder público na gestão de instituições de patrimônio audiovisual, retomando os processos de abertura de concursos públicos e de implementação de planos de gestão pensados em conjunto com a sociedade civil, diretiva prevista na Recomendação sobre a Salvaguarda e Conservação das Imagens em Movimento, da UNESCO, de 1980” (Carta de Ouro Preto de 2020)

Uma ideia recorrente nas numerosas discussões on-line é o retorno da Cinemateca Brasileira para uma instituição de memória e patrimônio do governo federal – IBRAM ou o IPHAN, ao qual a CB foi vinculada até 2003, quando passou a ser vinculada à SAv. Foi inclusive esse vínculo ao IPHAN que proporcionou a continuidade da CB no início da década de 1990, quando o governo federal promoveu um desmonte de políticas e instituições de cinema. O IBRAM é uma autarquia vinculada ao Ministério do Turismo, que abrange trinta museus federais.

Depósito Legal e o Mercado do Audiovisual

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Possivelmente a prosperidade do FSA (e o aumento de investimentos em desenvolvimento, produção, distribuição e exibição), unida à inação dos elos da cadeia produtiva do audiovisual em relação à preservação se relacionam diretamente com a dimensão da atual crise do patrimônio audiovisual. A ABPA reiteradamente tem pleiteado assento no Conselho Superior do Cinema (CSC) e no Comitê Gestor do FSA, sem sucesso. No debate “Fronteiras entre a indústria, mercado e arquivos – conteúdo, fomento e regulação”, na CineOP de 2018, um representante da indústria audiovisual no Comitê Gestor do FSA sugeriu a busca de outro caminho de financiamento para a preservação, distinto do FSA. Quando este profissional levanta essa possibilidade (e ele é só um exemplo da postura de outros produtores), não compreende a importância da preservação para toda a cadeia nem que também é sua função defender a Cinemateca, bem como outras políticas para a gestão do patrimônio audiovisual, de forma ampla. Nem que seja pelo viés personalista, considerando que algum asset seu possa estar lá: a matriz de uma imagem de arquivo para seu próximo filme como produtor; a matriz do seu filme de estreia dos anos 1980; ou os registros domésticos de sua família. Ou, ainda, pelo fato de que a atuação da Cinemateca em discussões, publicações, fóruns e em pesquisa de tecnologia possa beneficiá-lo de alguma forma. Como afirma Paulo Emílio, “não se faz bom cinema sem cultura cinematográfica e uma cultura viva exige simultaneamente o conhecimento do passado, a compreensão do presente e uma perspectiva para o futuro. Enganam-se os que confundem a ação das cinematecas com o saudosismo” (1982, p.96). A cadeia produtiva já resmungou62 quando foi debatida a necessidade de investimento no gigante passivo da preservação audiovisual para atender à própria cadeia produtiva e, até, explorar comercialmente os acervos. O business model não fecha enquanto não tivermos um investimento massivo para dar conta de décadas de dificuldades e estagnação. Eu resmungo de volta com esse gráfico:63

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Em abril de 2017, foi publicado o Plano Anual de Investimentos do FSA para o ano de 2017,64 no qual foram anunciados, como apoio, R$ 10,5 milhões para a Cinemateca Brasileira. O valor equivale a 1,4% do total anunciado no documento. O valor nunca foi executado, com a justificativa de que o recurso do não reembolsável65 teria terminado. Em maio de 2018 foi lançado o Plano Anual de Investimentos de 2018,66 com a previsão de R$ 23,375 milhões para investimentos em Preservação e memória. Em dezembro daquele ano foi lançado pela SAv o Edital de Restauro e Digitalização de Conteúdos Audiovisuais. Tratava-se de recursos para restauração ou digitalização de obras para empresas do audiovisual, com a possibilidade de retorno financeiro, e contou com a atuação de um grupo de trabalho com a participação de técnicos de preservação da Cinemateca Brasileira na construção do documento e das diretrizes técnicas para a digitalização e restauração. Sob a ótica de profissionais do setor, o Edital estava destinado somente a produtoras com o viés da distribuição, sendo a preservação secundária. O Edital foi suspenso cerca de quatro meses após a publicação pelo atual governo. Portanto, nenhum recurso do FSA de 2008 a 2018, de um total de um pouco mais de R$ 4,5 bilhões,67 foi de fato investido em preservação.

Atualmente a Cinemateca Brasileira é a única instituição habilitada a receber materiais em Depósito Legal. Desde 2016, a Ancine investiu não mais que R$ 2 milhões na contratação de equipe técnica para análise desses materiais, cujo fluxo de processamento mobiliza diversos setores e técnicos da instituição. Foi reportada alta taxa de reprovação dos materiais analisados e, segundo Gomes (2020), “parece ter como uma das principais causas o grande distanciamento e pouca informação de realizadores/produtores acerca, de maneira ampla, do papel de um arquivo audiovisual, e de maneira mais específica, dos princípios do Depósito Legal”. Contar com a expertise na análise dos materiais sem viabilizar recursos para a preservação desse acervo pode ser considerado como tiro no pé. Os materiais analisados estão inertes em estantes em um ambiente climatizado – à mercê da famosa morte silenciosa.68 É necessário que o mercado participe para garantir um aumento da taxa de aprovação e a criação de condições para preservação de materiais nato digitais no âmbito do Depósito Legal. De maneira ampla, a narrativa e a luta por políticas para o patrimônio audiovisual devem também ser do mercado.

É muito significativo o panorama da Cinemateca apresentado na Carta de Gramado 2020, elaborada pela frente SOS Cinemateca, com adesão de diversas associações – de outras cinematecas, de profissionais e empresas do audiovisual. Um sinal positivo é a inclusão de uma discussão sobre a crise na Semana ABC, organizada pela Associação Brasileira de Cinematografia (ABC), um dos mais significativos eventos em torno da realização audiovisual no Brasil. Mas ainda precisamos de maiores ações de aproximação e de reconhecimento de que esta crise da Cinemateca deve ser preocupação – e requer atuação – de todo o setor.

Conforme apontado na Carta de Ouro Preto de 2020, entre os pontos urgentes para implementação de uma política nacional para a área e os desafios a serem enfrentados está “reivindicar a criação de mecanismos para a ampliação da oferta de obras audiovisuais brasileiras nos catálogos de plataformas de streaming, tendo a garantia de inclusão de obras de diversas épocas, possibilitando o acesso ao vasto patrimônio audiovisual brasileiro”. Qual seria a relação da Netflix (usada aqui como modelo de plataforma), por exemplo, com a necessidade de investimento no patrimônio audiovisual brasileiro? Só uma oportunidade de benfeitoria mesmo, viável por sua presença na lista das 12 empresas que mais lucraram na pandemia. A proposta não é tão absurda, considerando que a empresa no Brasil criou um fundo emergencial de R$ 5 milhões para a indústria audiovisual brasileira, devido ao recesso no contexto da pandemia de Covid-19.69 Obras antigas disponíveis nas plataformas de streaming constituem uma preocupação nos Estados Unidos.70 Em geral, produtores brasileiros não contam com recursos para digitalização e finalização de filmes antigos capazes de atender aos parâmetros técnicos requeridos pela plataforma e, possivelmente, precisam de investimento em advogados para viabilizar o clearance.71 da obra. Que tal então a plataforma lançar uma linha de investimento para obras não contemporâneas? Trata-se de uma ideia que seria contemplada pelo Edital SAv/MinC/FSA nº 24 de dezembro de 2018, linha de Restauro e Digitalização de conteúdos audiovisuais, suspenso em 2019. A saúde das instituições de patrimônio audiovisual beneficia também as próprias plataformas de streaming a médio e longo prazo – considerando, por exemplo, a forte tendência de documentários em torno de imagens de arquivo.72 Como ilustração, o expressivo número dos documentários dos EUA disponíveis na Netflix Brasil, que possui imagens de arquivo como condutores da narrativa, como Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), e as séries Remastered (2018) e Explained (2018). No entanto, comparativamente são poucos os filmes e séries brasileiros que apresentam imagens de arquivo nessa medida, sendo uma exceção OBarato de Iacanga (2019, Thiago Mattar).73

Além da atividade do laboratório da Cinemateca para a preservação de seu acervo, chamo atenção para a confecção de cópias, como a coleção “Clássicos e Raros do Cinema Brasileiro”, iniciada em 2007, que teve sua 4ª edição em 2016, e aquelas feitas para celebrar o Dia internacional do Patrimônio Audiovisual. Destaco, como meio de registro, as cópias em 35mm e digital realizadas em 2016, tal qual consta no Relatório.

A confecção de cópias em 35mm é uma importante função de uma cinemateca com um laboratório fotoquímico, para a preservação e para proporcionar uma experiência de difusão em consonância com o formato original da obra. Considerando que o digital é a forma de ampla circulação, são confeccionados cópias em digital em diversos formatos/fins. No contexto da CB, o esforço de digitalização dessas obras se realizaria mais plenamente com alguma forma de difusão pré-estabelecida, idealmente com a devida curadoria e ações de contextualização. Atualmente, o caminho natural de difusão digital da CB é a inclusão na plataforma Banco de Conteúdos Culturais (BCC).74

Dez Filmes Importantes Para a História do Cinema Brasileiro Inacessíveis (ou quase) Digitalmente”, publicado em Cinelimite, expõe a inacessibilidade digital a alguns celebrados, cânones ou raridades de nossa filmografia. Além de ações para o acesso digital, é crucial avaliar se suas matrizes estão fora de risco iminente, e se demandam ações de preservação ou duplicação. A lista de Rafael de Luna me remeteu a “Filmes brasileiros considerados perdidos (ou prestes a sê-lo)”, publicada na extinta revista Contracampo.75

Distintivamente, a lista de 2001 era sobre a existência/perda de matrizes. Além de alguns títulos que eventualmente foram perdidos, outros tiveram seus (conhecidos) únicos materiais deteriorados, a ponto de inviabilizar um processamento em laboratório. Devido às crises da Cinemateca Brasileira, à paralisia dos trabalhos de pesquisa, das ações de preservação e do processamento laboratorial, a atualização da lista feita em 2001 por Hernani Heffner e Ruy Gardnier seria trágica em extensão e escopo. Seria papel de uma instituição nacional tornar esta lista pública. Além de prestar contas à sociedade brasileira sobre seu patrimônio audiovisual, também pode ser uma estratégia de localização de novos materiais junto a outras instituições e colecionadores privados no Brasil e no mundo. Ainda, e os tantos outros filmes e registros que escaparam de tal investigação e documentação e estão em ostracismo? Quantos filmes existem, cujos únicos materiais são cópias em bitolas inferiores, incompletos, muito deteriorados? Quantos registros audiovisuais brasileiros já perdemos?

Conclusão
“Se perdermos o passado, viveremos em um mundo Orwelliano do presente perpétuo, onde qualquer pessoa que controla o que está sendo divulgado poderá dizer o que é verdade e o que não é. É um mundo terrível, nós não queremos viver nesse mundo.” Brewster Kahle (2014, entrevista para Digital Amnesia, documentário da holandesa VPRO)
“Conhecimento só se efetiva quando é compartilhado” Hernani Heffner (2001, em conversa de corredor na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro)

O audiovisual digital tem sido ferramenta crucial nas lutas por direitos humanos em todos os cantos do país. São registros de despejos forçados de comunidades, da ocupação de aparelhos culturais ou educacionais como forma de protesto, de manifestações, de invasão de comunidades por forças policiais – com altos índices de homicídios da população local, inclusive crianças e jovens – registros da devastação ambiental fomentada pelo governo atual, da luta por direitos e pela demarcação de terras indígena, e de crimes contra os povos originários. O audiovisual também tem sido utilizado no empoderamento preto e na luta antirracista, na emancipação e afirmação das mulheres por igualdade de oportunidades e contra o machismo estrutural. As redes sociais, com uma profusão de talentos criativos e narrativas, proporcionam os maiores índices culturais desta época. No Brasil, em sentido geral, estas imagens seguem fora do escopo de prospecção das instituições brasileiras, e ainda é tímida a discussão em torno de seu arquivamento e pertencimento ao escopo do patrimônio audiovisual no Brasil. Na perspectiva da preservação, além de todos os desafios inerentes à preservação digital de dados,76 temos o aspecto da efemeridade, pelo vínculo dos dados às corporações.

Os mecanismos de tecnologia persuasiva das redes sociais são utilizados para conduzir comportamentos de indivíduos. Algoritmos são capazes de dar credibilidade ao inverídico, de alavancar o terraplanismo e de colocar #StopFakeNewsAboutAmazon como trend no Twitter, enquanto a boiada do ecocídio passa solta, e o mundo testemunha a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e outros Parques Nacionais destruídos.77 O computador quântico Rehoboam78 é uma alegoria do agora, em uma narrativa explicitada por Shoshana Zuboff em seu livro “Capitalismo de Vigilância”. Vimos, num crescente terror e violência, sucessivas vitórias eleitorais de partidos e movimentos políticos de extrema direita. A circulação de notícias falsas nas redes sociais aumentou o poder de destruição do Covid-19. A contrainformação, deep fake e robôs de fake news têm conexão com o mundo descrito por Brewster Kahle, fundador do Internet Archive, citado acima. Podemos perder o passado e, até, o presente, pela fragilidade do tecido da informação, pelo potencial de manipulação e pela desinformação.79 O atual presidente do Brasil, quando deputado, à ocasião do processo de impeachment/golpe da presidenta Dilma Rousseff, votou pela memória do maior torturador da ditadura militar, que comandou as sessões de tortura contra a ex-presidenta. Falhamos em não ter mostrado e visto o suficiente de O caso dos irmãos Naves (1957, Luis Sérgio Person), Iracema - uma transa amazônica (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), Eles não usam black-tie (1981, Leon Hirszman), Pra Frente, Brasil (1982, Roberto Farias), Cabra marcado para morrer (1984, Eduardo Coutinho), Que bom te ver viva (1989, Lúcia Murat), Ação entre amigos (1998, Beto Brant), Cidadão Boilesen (2009, Chaim Litewski).80 De forma que fosse impossível banalizar o ato na Câmara dos Deputados, de tal forma que nenhuma mulher votasse nele para presidente dois anos depois. Agora não podemos deixar de preservar estes filmes e os que virão depois de Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) e Torre das Donzelas (2019, Susanna Lira).

Uma parcela expressiva do patrimônio audiovisual brasileiro já se perdeu ao longo do século passado. Além dos recorrentes incêndios à época dos primeiros cinemas, das ondas de destruição ativas (de filmetes curtos na consolidação do longa-metragem como formato, do silencioso com a chegada do cinema falado, na substituição do nitrato pelo acetato), muitos acervos se dispersaram, foram desmantelados, escamoteados, e os que chegaram aos arquivos de filmes já chegaram debilitados. Ainda, a demora em reconhecer a importância do patrimônio audiovisual, a ausência de políticas públicas para a sua gestão e a oscilação de recursos nas instituições acarretaram mais perdas. Com o advento do digital, há um agravamento – tanto pela preservação do que hoje é prospectado quanto pelo que está fora do escopo de prospecção. A crise atual da Cinemateca é gravíssima e demanda medidas urgentes do poder público e da cadeia audiovisual. Apesar do poder de destruição do atual governo e da paralisia dos trabalhos por tantos meses, encorajada pelas muitas discussões que estão sendo realizadas, pelas articulações em andamento e pelos movimentos em apoio à Cinemateca, quero terminar com algum tom de otimismo. Por acreditar no potencial da Cinemateca para promover debates e exibição de filmes, para efetivar o acesso às mais olvidadas coleções, ser um espaço para pesquisa, prover referência imagética do passado e subsidiar pesquisa tecnológica; para cativar crianças e jovens com a telona, apresentar o pré-cinema e as tecnologias do audiovisual em um museu, e para engajar o bairro e a comunidade vizinha. Acrescente-se para vários outros modos de uso criativo do acervo e das ferramentas que demoraremos a exercer, devido às sucessivas crises que aumentam o passivo de trabalhos, aceleram a deterioração do acervo e limitam o poder de alcance da instituição. Neste momento fica ainda mais evidente o fato de que a Cinemateca está incluída no macro projeto de devastação da cultura e do patrimônio brasileiro e, a sua importância como uma força para reagir contra este projeto, portanto, cresce cada vez mais.

Agradeço Aline Machado pela revisão minuciosa.

1. O Ministério da Cultura foi extinto no primeiro dia do governo; foi incorporado inicialmente ao Ministério da Cidadania e, posteriormente, ao do Turismo. Até o momento, a Secretaria Especial da Cultura já teve cinco titulares sem comprovada expertise, e outras instituições de patrimônio cultural passam por agudas crises, como a Fundação Casa de Rui Barbosa e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv). A Agência Nacional do Cinema (Ancine) não repassou recursos já comprometidos e não lançou novos editais. Destaca-se que a Constituição Federal, que rege a democracia brasileira, prevê em seu Art. 215 que o “Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”; e em seu Art. 216, que o “poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro”.

2. De 2016 a 2020 trabalhei no departamento de Preservação de Filmes da Cinemateca Brasileira. Compartilho reflexões subjetivas a partir de minha experiência, com ênfase nas atividades do departamento.

3. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

4. Por meio de uma política descentralizadora do Ministério da Cultura foram lançados editais de desenvolvimento e produção, com cotas para estados usualmente com restrito investimento no audiovisual, e projetos de baixo orçamento, editais específicos para novos diretores, mulheres e povos nativos.

5. Regulamentado em 2007, o FSA é retroalimentado por um fluxo do imposto Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), coletado a partir de todas as janelas do audiovisual, e investido em novas produções, linhas de desenvolvimento, distribuição de produções para cinema e televisão e jogos eletrônicos. De 2008 a 2018 foram investidos, no total, cerca de R$ 4,5 bilhões.

6. Um exemplo emblemático desta dinâmica ocorreu em 2008, com a presença do então diretor-executivo da Cinemateca Brasileira na 3ª CineOP, cuja temática é Política Nacional de Preservação Audiovisual: necessidades e desafios. Ao longo do evento ele se posicionou com firmeza contra uma articulação das demais instituições, a criação de diálogo destas com o representante do Ministério da Cultura no evento e a criação da ABPA - Associação Brasileira de Preservação Audiovisual.

7. Dentre as propostas do Simpósio sobre o Cinema e a Memória do Brasil de 1979, consta “a criação e a dinamização de centros regionais de cultura cinematográfica constituídos por unidades de produção e por filmotecas (arquivos de cópias de filmes), com a função básica de prospecção, pesquisa e divulgação do acervo brasileiro [… e] o estabelecimento de um inventário [nacional]” (1981, 67). Laura Bezerra relata a “criação de um programa de apoio às cinematecas que, apesar de não ter implementado ações sistemáticas e abrangentes, destinou recursos para algumas ações setoriais” (2014, 120). A descentralização é necessária, considerando a continentalidade e pluralidade cultural do país, além de tecnicamente ser desejada em caso de sinistros.

8. A CineOP é um evento criado em 2006 e tornou-se o principal fórum de discussões e articulações em torno do patrimônio audiovisual e o ensino do audiovisual no Brasil. A cada ano é redigido um documento pelos participantes do Encontro, a Carta de Ouro Preto, com alertas e proposições para o campo.

9. A ABPA é uma associação de profissionais, independentemente do vínculo com instituições, e tem atuado em prol de políticas para o setor, na projeção do patrimônio audiovisual e na realização de projetos, como a tradução e publicação de textos técnicos. A ABPA criou em 2016 o PNPA, documento de diagnóstico e proposições de ações e políticas para o campo da preservação audiovisual. https://abpanet.org/

10. O papel principal do Conselho é atuar no desenvolvimento da Cinemateca. Seus membros são representantes dos poderes públicos da esfera federal, estadual e municipal, além de indivíduos da sociedade civil com atuação em cinema ou patrimônio. Curiosamente, nota-se uma predominância de homens dentre os conselheiros ao longo dos anos.

11. Atualmente é o Cinesala. Cinesala. Disponível em: http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

12. O matadouro teve suas atividades encerradas em 1927. O terreno estava sendo utilizado como depósito de equipamentos de iluminação pública.

13. A partir de ideia de Gilberto Gil, músico e então membro do conselho de assessoramento cultural da BR Distribuidora, e posteriormente Ministro da Cultura, de 2003 a 2008.

14. Empresa estatal que impulsionou a produção, distribuição, exibição, preservação e restauração do audiovisual – vinculada à Petrobras, empresa brasileira de energia, gás e petróleo.

15. Em colaboração com a CB, o projeto também foi realizado na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro, inclusive o inventário do acervo, inédito na instituição e processamento de materiais deteriorados. A Cinemateca do MAM estava subjugada à direção do Museu, que determinou, de forma arbitrária, que não teria condições de manter o acervo audiovisual (insolitamente após o inventário). Como resultado, parte do acervo foi alocada no Arquivo Nacional a partir de 2002 na mesma cidade, e parte foi recebida pela CB. Alguns detentores de materiais optaram por guardar consigo, muitas vezes em lugares inapropriados. Essa foi uma das maiores crises da instituição, de relevância histórica para o cinema brasileiro (sobretudo para o movimento do Cinema Novo) e para a preservação audiovisual, cuja direção passou por Cosme Alves Netto, com notória ligação com instituições internacionais. A partir de 1996, Hernani Heffner ingressa na instituição. Em 2020, passa por uma consolidação, com um novo prédio para o acervo documental e com mudanças estruturais na direção do Museu.

16. Segundo Souza, a Filmografia Brasileira foi iniciada por Caio Scheiby em fichas em papel e, nos anos 1980, foram publicados quatro cadernos com registros dos filmes produzidos até 1930 (2009, p.259). Atualmente, de acordo com o site da instituição, “contém informações de aproximadamente 42 mil títulos de todos os períodos da cinematografia nacional e da produção audiovisual mais ampla e recente, sejam curtas, médias ou longas-metragens; cinejornais; filmes publicitários, institucionais ou domésticos; e obras seriadas (para internet e televisão), com links para registros da base de dados de cartazes e referências de fontes utilizadas e consultadas”. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 13 ago. 2020.

17. Texto extraído da plenária realizada em 2008. Disponível em: http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. Acesso em: 2 ago. 2020. Segundo Laura Bezerra, “o SiBIA foi pensado e executado a partir da CB/SAv sem quaisquer debates e negociações com os atores envolvidos, o que contradiz o espírito democrático-participativo defendido e praticado em documentos e ações do MinC” (2014, 185). O II Encontro Nacional do SiBIA ocorre em 2009, com 33 instituições de todo o país, e suas propostas, que demandavam recursos e ações da SAv, não se efetivaram. O projeto é extinto em 2009, sem desdobramentos práticos.

18. A Programadora Brasil foi um projeto de difusão de filmes (animação, experimental, ficção, documentário), que atuou de 2006 a 2013, por meio da edição de DVDs para circuito não comercial (cineclubes, centros culturais, escolas, universidades), em um total de 970 obras divididas em 295 DVDs.

19. Relatórios institucionais da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

20. Esta unidade foi afetada pela enchente no início de 2020.

21. Revista da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

22. Acervos adquiridos pela União sob a guarda da Cinemateca: Estúdios Vera Cruz e Atlântida Cinematográfica (em 2009), Canal 100 e Glauber Rocha (em 2010), Goulart de Andrade e Dulce Damasceno de Brito (em 2011) e Norma Bengell (em 2012).

23. A paralisia afeta também o Centro Técnico do Audiovisual (CTAv), instituição no Rio de Janeiro, que correalizava diversos projetos da SAv com a CB.

24. Depósito Legal é o mecanismo de depósito de materiais comprobatórios da realização da obra audiovisual subvencionada com recursos federais, em instituições credenciadas pelo governo federal – até o momento, somente a CB. Após a aprovação do material (de acordo com diretrizes técnicas), a empresa produtora torna-se apta a receber a última parcela do investimento. Devido à redução do fluxo de análise na crise de 2013, foi gerado um passivo de materiais a serem analisados.

25. Olga Toshiko Futemma atua na Cinemateca Brasileira desde a década de 1980, com destaque para seu trabalho no Centro de Documentação e Pesquisa. Tornou-se diretora-executiva em 2004, diretora-adjunta de 2007 a 2013 e diretora de 2013 a 2018, quando se torna Gerente de Acervos. Participou do Comitê Executivo da Fiat a partir de 2009 até o ano de 2013.

26. Após o incêndio, foi mantida a mesma estrutura. De acordo com o Relatório da CB de 2016: “a edificação, desenhada nos anos de 1990, foi construída sem instalações elétricas ou hidráulicas, de modo a minimizar os riscos de acidente; sem climatização ativa, mas mantendo a temperatura interna com as menores variações possíveis e permitindo a circulação de ar, para evitar o acúmulo de gases resultantes da deterioração do suporte. Em caso de autocombustão […] inevitavelmente consumiria todo o conteúdo da câmara, mas não se espalharia para as outras adjacentes” – que foi o que ocorreu em 2016, o fogo consumiu apenas uma das quatro câmaras.

27. Como exemplo, o ARRISCAN, quando adquirido, foi adaptado para materiais deteriorados, o que permitiu o escaneamento de negativo com 4% de encolhimento, medida que seria considerada inviável para outros laboratórios.

28. Bases de dados do Centro de Documentação e Pesquisa. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 7 ago. 2020.

29. O setor de difusão seguiu praticando a premissa de exibição de filmes do acervo, respeitando seu suporte original, privilegiando o cinema brasileiro; e realizando mostras, com materiais do acervo ou de parceiros, ou recebendo festivais nas duas salas de cinema e na tela externa da Cinemateca – projeções em 16mm, 35mm e digital, e alguns formatos em vídeo analógico.

30. Ainda de acordo com o relatório, “o processo de duplicação emergencial difere da restauração de filmes, conceito este aplicado quando são confeccionadas novas matrizes de preservação, de imagem e som, e cópias de acesso, incluindo diferentes graus de manipulação para minimizar marcas do uso ou deterioração, buscando a forma como a obra foi difundida em seu lançamento original. Uma restauração usualmente reúne e compara diversos materiais para seleção dos melhores, enquanto a duplicação emergencial trata de uma copiagem de um suporte em deterioração avançada, geralmente único, para um outro, novo.”

31. Carlos Roberto de Souza destaca que “os trabalhos de pesquisa e historiográficos brasileiros realizados […] chamaram a atenção para o fato de que é um equívoco construir uma história do cinema brasileiro a partir do filme de ficção de longa metragem. A produção brasileira de maior volume foi sempre a de documentários e cinejornais, geralmente relegada a segundo plano pelos chamados historiadores clássicos, pela mídia e pelo público em geral. A realidade da produção reflete-se no acervo cinematográfico que chegou até nossos dias. O percentual de filmes de não-ficção ultrapassa avassaladoramente o de longas de ficção e continua o menos preservado. Isso não significa que todos os longas de ficção estejam preservados. Longe disso. A parcela mais tratada – nem sempre com os cuidados que merece – é a dos longas brasileiros consagrados.” (2009, p.261).

32. Posteriormente descobriu-se que há um campo homônimo na base Filmografia Brasileira, conduzida pelo Centro de Documentação e Pesquisa, que constava dentre os campos excluídos do fluxo à época. Tratava-se de um sistema numérico de 0 a 5. Considerando que os técnicos da Preservação que propuseram a metodologia não tinham experiência anterior na instituição, a proposição não seguiu o sistema numérico, mas categorias de texto. Como exemplo, as categorias ‘preservado no momento’ (considerando matrizes originais, intermediários e cópias de acesso em bom estado, por exemplo), ‘parcialmente preservado’, ‘não preservado’, ‘parcialmente perdido’, com a inclusão de adendos como ‘com defeitos’ (interferências na imagem ou som), ‘incompleto’, etc. O sistema permitiu agilidade nos fluxos de seleção de materiais para duplicação emergencial e pesquisa para acesso externo.

33. Ferramenta proposta pela Unesco em 1988, por seu caráter moldável, que se assemelha a cartões físicos de biblioteca individuais, com limitado cruzamento de informações.  

34. A ferramenta foi inicialmente pesquisada e selecionada pelas equipes do laboratório e de desenvolvimento anteriormente a 2016. Foi adotado pela equipe da preservação em 2016, perfil mais institucional em 2017 – trac.cb – em seguida pela equipe do Centro de Documentação e Pesquisa e, por último, e com uso comedido, pela equipe da difusão.

35. Precisamosfalar sobre... o logo da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. A logomarca é identificada pormuitos por sua forma fálica, o que poderia ter contribuído para o grau de viralização e atenção à Cinemateca em 2016.

36. Manifesto pela Cinemateca Brasileira - 2016. Disponível em: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com. Acesso em: 20 jul. 2020.

37. 100 Paulo Emílio. Disponível em: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. Acesso em: 20 jul. 2020.

38. Questiona-se a legalidade da realização de um aditivo ao contrato principal. De qualquer forma, consideramos um ultraje que a gestão da Cinemateca Brasileira seja regida por um aditivo como instrumento legal.

39. Como ocorreu em casos de acesso aos originais para digitalização e licenciamento ao Canal Brasil, principal canal de televisão de obras brasileiras, que estava atualizando seu catálogo, anteriormente em resolução SD. A entrega ao Canal seria em HD ou superior, apesar de ser uma resolução datada. Os produtores optavam por resolução HD e não em 2K, por limitação de orçamento, mas além de ser mais relevante comercialmente a médio prazo, o 2K representa uma ação mais significativa de preservação, uma vez que seria um resguardo por mais tempo do material original em película – grande parte já em más condições.

40. Sobretudo a pejotização: a contratação de serviços de indivíduos por meio de empresas constituídas para tal.

41. Essa dinâmica de dispersão de força de trabalho é ainda mais perigosa no contexto da preservação digital, que demanda uma constante atualização de saberes devido, à incessante mudança da tecnologia e de práticas de mercado.

42. E-mail de 29 de junho de 2016. Disponível em: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Acesso em: 15 jul. 2020. Débora Butruce indica que o tema de gestão por OS foi debatido em um Grupo de Trabalho ao longo de alguns anos: 15ª CineOP. Instituições de patrimônio em risco: Caso Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. Além de Butruce, participaram do debate Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira e Eloá Chouzal, na mediação.

43. Jorge Barcellos resume da seguinte maneira: “[…] ao longo do tempo as OS tornam-se deficitárias e custosas”; e alerta que “segundo Alzira Angeli, da Controladoria Geral da União, estas organizações transformaram-se no novo nicho de mercado da corrupção e [segundo o historiador Francisco Marshall] “a iniciativa promove a degradação da gestão pública”. Disponível em: https://jorgebarcellos.pro.br. Acesso em: 20 ago. 2020. Como exceção, alguns museus no Estado de São Paulo seguem com êxito no modelo de gestão por OS.

44. Em contraste com o modelo estadunidense, no qual famílias bilionárias e grandes corporações subvencionam projetos e instituições de cultura e patrimônio, por fundações.

45. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com diversos benefícios ao trabalhador, como férias remuneradas, 13° salário, seguro-desemprego, auxílio-doença, salário-família, salário-maternidade e aposentadoria.  

46. A prospecção de materiais é uma função primordial da CB, por ser a principal instituição nacional e considerando o secular histórico de destruição e descaso com o patrimônio audiovisual brasileiro. Tornaram-se notórias notícias de acervos potencialmente valiosos nos últimos anos, e não foi possível a atuação de técnicos da CB. Por intermédio da Acerp, foi feita avaliação em um acervo no interior de São Paulo. O corpo técnico assumiu o contato com o Ministério das Relações Exteriores para a avaliação da listagem de acervos de cópias 35mm em Embaixadas do Brasil em Roma, Berlim e Haia para a repatriação. Acerp posteriormente assumiu o diálogo e não conseguiu efetivar o translado.

47. A Missão Institucional estava sendo consolidada em um documento, que não se efetivou na gestão da Acerp.

48. Fórum de discussão de liberdade, autonomia, segurança na Internet. CryptoRave. Disponível em: https://cryptorave.org. Acesso em: 15 ago. 2020.

49. A distância entre as duas cidades é de mais de 400 km, cerca de 1 hora de voo.

50. Militares fardados ocasionalmente visitavam a instituição. Um episódio tornou-se notório: a visita de um deputado, com mesmo sobrenome que seu tio-avô, o primeiro presidente da ditadura militar. Ele publicou um vídeo em redes sociais, dentro da CB e acompanhado por representantes da instituição, anunciando a mostra de filmes militares, reproduzindo o slogan de campanha do presidente e batendo continência. A série não foi realizada.

51. O que possibilitou uma efetiva resposta aos danos ao estúdio e ao acervo do fotógrafo Bob Wofelson, localizado nas mediações do galpão da Cinemateca, que contou com um número grande de voluntários sob coordenação da equipe técnica do Instituto Moreira Salles (IMS). Uma técnica da Cinemateca Brasileira estava entre as voluntárias (fora do horário de trabalho da CB). Essa foi a 2ª enchente que afetou o estúdio do fotógrafo. As enchentes na região são recorrentes, de maneira que esse relato é a crônica de uma tragédia anunciada.

52. O trabalho consistia em movimentar sacos com pilhas de latas de filmes cheias de água suja, abrir cada lata para verificar o estado do material, determinar destino ao material e organizar o acervo nas estantes. Em um primeiro momento, as equipes de limpeza e manutenção executaram uma força tarefa junto à equipe técnica para escoar a água, limpar estantes e ajudar na movimentação de sacos de filmes, porém antes que esse trabalho chegasse ao fim, essas equipes foram drasticamente reduzidas.

53. A primeira delas, referente à nomeação como diretora de uma atriz que desempenhava há dois meses o papel de Secretária Especial de Cultura em Brasília e queria retornar a São Paulo por questões pessoais. No entanto, não havia nenhum cargo legalmente disponível para ela assumir na CB naquela época e ela acabou não trabalhando na instituição.

54. Cinemateca Brasileira pede socorro. Acesso em: 9 set. 2020. Nesta data, o manifesto teve mais de 28,5 mil adesões.

55. Cinemateca Viva, grupo formado por Associação dos Moradores da Vila Mariana <http://www.cinematecaviva.com.br>; o grupo Cinemateca Acesa <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; e Cinemateca em Crise, criado em 2013, com atualizações com a crise de 2020 <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. A Apaci desde 2015 esteve ativa e em contato com a diretoria da CB, para garantia da execução dos trabalhos da instituição.

56. Trabalhadores da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/trabalhadorescb. Acesso em: 18 ago. 2020.

57. Cinemateca Brasileira - Trabalhadores em Emergência. Disponível em: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca. Acesso em: 30 ago. 2020.

58. A crise na cinemateca brasileira - Soluções Urgentes. Disponível em: https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. Acesso em: 30 ago. 2020. Gabriela Queiroz, coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa desde 2014 até 2020, representou a instituição.

59. Como exemplo, as afirmações de que “todo” o patrimônio audiovisual brasileiro está na CB, de que a instituição poderia pegar fogo se a luz fosse cortada (os depósitos de nitrato não possuem sistema elétrico); e a utilização do termo ‘laboratórios climatizados’ para designar ‘depósitos climatizados’.

60. A entrega de chaves foi marcada pela presença de agentes ostensivamente armados da Polícia Federal, que foram convocados com o pressuposto de que poderia haver resistência na entrega das chaves pela Acerp. As chaves foram entregues, os documentos foram assinados e foi realizada uma visita técnica. Mesmo que utilizada de forma coadjuvante, foi a primeira vez que intimidação policial ocorreu na instituição. A Acerp tentou obter ressarcimento dos valores investidos na CB em 2019 e 2020, alegadamente no total de R$ 14 milhões.

61. Carta de Gramado 2020. Disponível em: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado. Acesso em: 30 set. 2020.

62. Generalizações são arriscadas e podem ser equivocadas. Afinal, temos muitos produtores que entendem, enaltecem e investem em preservação, sobretudo depois da crise de 2020. Se essas palavras não fazem justiça à atuação de produtores em prol do patrimônio audiovisual, ficarei feliz em publicar meu equívoco. Mas esse texto foi fermentado pela frustração de ver a soberba da cadeia audiovisual, com suas festas, mercados, deals, marketshare, box office, hold back, catch up, pitch, players e recursos caudalosos, enquanto a menção a investimentos em preservação gerava tremores! Essa postura gananciosa da cadeia produtiva é um descaso em relação ao patrimônio audiovisual brasileiro e aos profissionais da área.

63. Fontes: sites do FSA e da Cinemateca Brasileira. Originalmente publicado em MENEZES, Ines Aisengart. O profissional atuante na preservação audiovisual. Museologia & Interdisciplinaridade. Vol. 8, nº15, Jan./ Jul. de 2019. Nota do original com correção: A Cinemateca Brasileira é a única instituição que recebe materiais em Depósito Legal e conforme Laura Bezerra (2015), seu orçamento representa quase que a totalidade de investimentos em preservação audiovisual, no período, no país. Desta forma, considero o gráfico uma ilustração direta do desnível de investimentos em produção e preservação audiovisual”. O gráfico alcança somente até 2017, pois a partir de então a Cinemateca Brasileira não publicou mais relatórios institucionais. Em 2019, no novo governo, foram interrompidos os repasses do FSA.

64. Documento SEI / ANCINE - 0413350 - Resolução CGFSA Nº 101 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos FSA 2017. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 101 - aprova PAI FSA 2017.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

65. Por meio de mecanismo não reembolsável, que não prevê o retorno em lucro financeiro, mas com outros desenhos de contrapartida.

66. Documento SEI / ANCINE - 0845324 - RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos de 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Plano Anual de Investimentos 2018.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

67. Recursos disponibilizados para Ações e Programas - 2008 a 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. Acesso em: 3 out. 2020. Valor completo informado nesta data de R$ 4.558.877.384,00.

68. De acordo com Gomes (2020), a maioria dos materiais recebidos em Depósito Legal está em HD externos, que necessitam verificação contínua – “materiais digitais, portanto, requerem checagens e migrações mais constantes, uma necessidade que a Cinemateca Brasileira ainda não pode atender, tanto por limitações do número de funcionários, quanto financeiras”. Parte da numerosa coleção em vídeo magnético da instituição é oriunda de Depósito Legal. De um modo geral, no período de 2016 a 2020, não foram realizadas ações de preservação das coleções em vídeo e digital, somente duplicação para acesso. Considerando a inação, de uma forma ampla e sistemática, em relação ao escopo do patrimônio concebido em digital, pode-se esperar uma superação das (notoriamente altas) taxas de perda em relação ao patrimônio em película – sobretudo em relação às primeiras produções criadas em digital.

69. ICAB e NETFLIX fazem parceria para criar FUNDO EMERGENCIAL de apoio a comunidade criativa brasileira. Disponível em: http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html. Acesso em: 27 set. 2020.

70. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. Disponível em: https://www-newsweek-com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. Acesso em: 27 set. 2020. Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Acesso em: 27 set. 2020. O repertório de filmes antigos é um nicho explorado por plataformas como The Criterion Channel e Mubi, entre outros.

71. Um aspecto sensível para a comercialização de obras antigas é a normatização, para emissão do Certificado de Produto Brasileira (CPB) e a documentação dos direitos, para viabilizar o licenciamento. Historicamente, muitos filmes foram realizados sem a devida documentação e muitas empresas se dissolveram sem a documentação de repasse dos direitos.

72. No contexto brasileiro, onde a primeira atividade como profissional é explicar qual a sua função como profissional, os documentários da Netflix com imagens de arquivo costurando sua narrativa costumam ser uma explicação para leigos sobre a importância da preservação do patrimônio.

73. Relatório de 2016: páginas 55 e 56. Correção ao conteúdo: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) é colorido, não p&b.

74. Aqui vale uma reflexão sobre a excelência catalográfica e a boa navegabilidade do projeto, mas a necessidade de revisão de especificidades técnicas e das dimensões do logo ocupando parte da imagem, experiência reportada como frustrante para muitos.

75. Filmes brasileiros considerados perdidos ou prestes a sê-lo. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm. Acesso em: 21 ago. 2020.

76. Como tecnologias proprietárias; obsolescência de formato de arquivo, codec, software, hardware; gerenciamento de metadados; migração, entre outros.

77. Além de catastrófico ambientalmente para a fauna e a flora, a devastação vai afetar diretamente o campo de preservação de patrimônio cultural, pela relação direta com o clima, como a variação maior de temperatura e umidade, por exemplo. Desconheço estudos no Brasil sobre a crise climática e a área de patrimônio. Mundo afora, destaco o Orphans 2020, em torno do qual ocorreram diversos debates.

78. Supercomputador de inteligência artificial da série da Westworld (2016, Jonathan Nolan), ambientada em quase quatro décadas no futuro.

79. Cujo símbolo é a ciência sendo desacreditada pelas redes sociais e meios de comunicação de mensagens (sobretudo WhatsApp, empresa adquirida pelo Facebook), tornando difícil a difusão de informações cientificamente fundamentadas, com olhar crítico na contenção da pandemia de Covid-19. Uma pesquisa realizada em vinte países mostra que brasileiros são os que menos acreditam em seus cientistas: Brasil de costas para a ciência. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia. Acesso em 30 set. 2020.

80. Filmografia Ditadura Brasil. Disponível em: http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html. Acesso em: 2 set. 2020.

BIBLIOGRAFIA

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

The Cinemateca Brasileira (CB, or “Brazilian Cinematheque”), the leading audiovisual heritage institution in Brazil, is going through its worst-ever crisis in 2020. As a result, its extensive collection and elaborate technological machinery are threatened, as well as the knowledge that permeates from both. At the beginning of the year, a flood occurred in the Cinemateca’s warehouse, drastically affecting part of the film and equipment collection stored there. Since August 2020, the collection and facilities are without proper technical support; and at this moment of writing, there is no news of an immediate resolution that meets the urgency. Inaction and neglect with the Cinemateca Brasileira are just two examples of the Brazilian government’s perversities, which additionally include the structural dismantling of the public health, education, and cultural systems,1 and the ecocide and genocide of the country’s native and black populations, the latter of which has been accelerated by the Covid-19 pandemic. The Cinemateca crisis took on unprecedented proportions in 2020, but its origin came earlier, going through the administrative and political turmoil of 2013 and a fire in early 2016. This article discusses the work carried out at the institution in mid-2016, the challenge of its continuity after the team’s reduction in 2017, the alleged solution with a new management model in 2018, and the 2020 hecatomb.2 This text also presents a few conjectures about the relationship between Brazil’s audiovisual heritage and its audiovisual production industry. The series of crises over the last 74 years, marked by the four fires and the flood, are the broad consequence of what Brasília-based museologist Fabiana Ferreira highlights in her thesis “A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil” (2020).3 She claims, “the only stable aspect in public policies for audiovisual preservation is its inconstancy. A succession of disagreements and disarticulations by the political agents responsible for the creation and implementation of policies without a real national governmental project that crosses mandates” (2020, p.109). According to Hernani Heffner, chief curator of the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro, this is not only the biggest crisis in the history of the Cinemateca Brasileira, but also the biggest crisis of Brazilian audiovisual heritage.4

Overview of the Last Two Decades

Brazil is a federal republic of continental dimensions – the fifth-largest in territorial extension. It has 26 states and a federal district. The country has undergone two re-democratization processes, the most recent in 1984 after the end of the military dictatorship. In the 21st century, Brazil has had economic growth, a reduction of social gaps, and extreme-poverty rates. Universities flourished and the audiovisual industry solidified through new federal policies and programs as a result of the investment policies of the Audiovisual Secretariat (SAv) / Ministry of Culture (MinC),5 and the Audiovisual Sector Fund (FSA).6 These investments allowed new professionals to emerge in the film production sector and the consolidation of new film production companies, which, in turn, supplied an increasing number of new films each year. Eventual municipal and state resources for film production were added to the federal ones. However, Laura Bezerra observes that while the government invested in decentralizing cultural production policies, the same did not happen with film preservation (2015). While there were substantial investments in the Cinemateca Brasileira during this period and after the inclusion of the CB in the SAv’s organizational chart, there were also few political discussions about the implementation of policies and actions for the field in a profound way.7 This is a problem that is fundamental for understanding the development of the current crisis. As Fabiana Ferreira diagnosed, “The Cinemateca does not act in the creation and implementation of preservation policies, either by conducting discussions and holding dialogues with the sector or by actively participating in political spaces at the federal level, such as the National Film Council, for example. There was also no structured dialogue with other memory management entities” (2020, p.108). The State’s insufficiency in their management of Brazilian heritage causes profound reverberations, especially affecting the audiovisual production industry which seems to not recognize preservation as a necessary element for their works. Still, the current Cinemateca Brasileira crisis has become yet another argument for the decentralization (and increase) of investments in audiovisual heritage nationwide.8 Brazil has many federal, state, municipal, and private heritage institutions that are not in the spotlight and that also demand urgent actions and resources.

Over the last few decades, there has been constant maturation in the field of audiovisual preservation. For example, the establishment of specific financing programs; the distribution of new publications; the creation and growth of the festival Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), where the National Meeting of Archives and Audiovisual Collections takes place;9  the formation of the Brazilian Association for Audiovisual Preservation (ABPA) and the elaboration of the National Plan for Audiovisual Preservation (PNPA).10  Also, there has been a growing number of Preservation-related events each year.

Cinemateca Brasileira – A Brief History

The Cinemateca Brasileira has had several administrative arrangements. It began as a civil society organization and later moved to the public sphere. Its long history includes many setbacks with some positive developments. The writer, essayist, critic, researcher, professor, and activist Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977) is the protagonist in the creation, defense, and management of the Cinemateca Brasileira. Paulo Emílio’s impact on the field of Brazilian Cinema is broader than his work on the Cinemateca itself. His work was fundamental in the valorization of Brazilian cinema, in its qualification as a historical document, in the defense of its preservation, and in creating university cinema courses. Paulo Emílio was also active in international politics as a regular member of the Executive Committee of the International Federation of Film Archives (FIAF) between 1948 and 1964, eventually becoming the organization’s vice president. He is also a renowned author in historiographic studies of cinema, with publications on the French director Jean Vigo and the Brazilian filmmaker Humberto Mauro, among others. As a teacher, he was vital in the formation of numerous important scholars, film critics, and preservationists, such as Carlos Augusto Calil, Carlos Roberto de Sousa, Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet, Maria Rita Galvão, and Olga Futemma – some of whom continued his work at the Cinemateca Brasileira.

In consideration of the many publications on the Cinemateca Brasileira in Portuguese and the limited English repertoire that exists in comparison, what follows here is a brief overview of the institution’s key historical moments. In 1940, intellectuals from São Paulo created the Clube de Cinema de São Paulo (São Paulo Film Club), which promoted the exhibition of films, conferences, debates, and publications before being closed in 1941 by the country’s then-reigning dictatorship government. In 1946, Paulo Emílio went to France to study at the Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC). He grew even closer to the Cinemathèque française, an institution founded in 1936 with which he had contact since living in Paris during the previous decade – the period when his passion for cinema awoke. The second São Paulo Film Club was created in 1946, and in addition to its previous activities, it began to develop the initiative of prospecting and preserving materials from Brazilian films. 1946 is therefore considered to be the milestone year of the Cinemateca’s creation. Paulo Emílio affiliated the Club to FIAF in 1948. In the following year, the Film Library was created, and then connected to the newly created Museum of Modern Art of São Paulo. In 1956, the archive was detached from the museum and became the Cinemateca Brasileira, a non-profit civil society. The Advisory Council was formed the same year.11 As a result of the self-combustion of a cellulose nitrate reel, the Cinemateca’s first fire occurred in the summer of 1957, which “completely destroyed the library, the photo library, the general archives, and the collection of devices for the future cinema museum, as well as one-third of the film collection” (Gomes, 1981, p. 75). The tragedy elicited support and donations from national and foreign entities, and the Cinemateca resultingly gained space in the largest urban park in São Paulo, Ibirapuera Park. In 1961, the Cinemateca became a non-profit foundation, an essential status for its autonomy and ability to raise public resources.

In the following year, a new non-profit civil entity called the Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC, Portuguese for “Society of Friends of the Cinematheque”) was created to assist the Cinemateca in its management of financial resources and to develop various activities to support the Institution. Initially, the Cinemateca mainly held film screenings, but from the 1970s onwards preservation became its axis partly due to the declining state of its collection. The late 1960s and mid-1970s formed a critical period for the institution, as it had few employees and much voluntary work. Unfortunately, the Cinemateca was unable to pay its annuity fees, and therefore it was disconnected from FIAF in 1963. The CB became an observer in 1979 and received its full FIAF membership again in 1984. The Cinemateca’s second fire occurred in the summer of 1969 for the same reason the previous fire was triggered, resulting in the significant loss of film-related materials. In 1977, the institution’s Laboratory was created with equipment from commercial film laboratories that had been deactivated. Paulo Emílio passed away from a heart attack that same year.

In 1980, an operations Center was opened in São Paulo’s Conceição Park for documentation and research work. The third fire occurred in the autumn of 1982. As a result, a move was made to incorporate the Cinemateca into the public sphere. In 1984, the CB Foundation was extinguished, and the Cinemateca was attached, as an autonomous organ, to the National Pro-Memory Foundation. In 1989, a cinema12 theater was rented to screen the archive’s collection in the busy neighborhood of Pinheiros, which significantly leveraged São Paulo’s cinema scene. By the end of the decade, the Cinemateca staff consisted of about 40 people (many of them former students of Paulo Emílio), 30 of whom were hired with formal contracts.

In 1990, the government extinguished the National Pro-Memory Foundation and the Cinemateca was incorporated into the Brazilian Cultural Heritage Institute (IBPC). This organization transformed into the (still-active) National Institute of Historic and Artistic Heritage (IPHAN) four years later. In 1997, the Cinemateca’s current facility was founded, a heritage site converted from a slaughterhouse after nine years of reformations. The definitive headquarters13 aggregates the conservation and screening departments that had previously been scattered throughout the city of São Paulo. This centralizing was a crucial element in the institution’s consolidation process after decades of scarce resources, precarious infrastructure, and oscillations in institutional dynamics.

In 2001, a vault with a proper climatization system was inaugurated with an initial capacity of one hundred thousand reels. In the same year, the Brazilian Cinematographic Census project began14 with funding from BR Distribuidora.15 The Brazilian Cinematographic Census project was an essential step for appraisal and basic conservation procedures in the collection,16 and the training of technicians. The project “was organized around four basic axes: the appraisal and examination of the existing collection, which was previously concentrated and dispersed; the duplication of reels threatened by deterioration; the dissemination of the work and its results; the study of legal measures for the protection of audiovisual heritage” (Souza, 2009, p.258). In 2003, upon resolving that IPHAN was not meeting the scope of its tasks, and after deliberation by the Council, the CB was attached to SAv/MinC. In the following years, the resources transferred by MinC gradually increased. In 2003, the CB implemented a short internship program for technicians from other institutions. From 2004 to 2006, the Prospecção e Memória (Prospecting and Memory) project followed the Census project, especially concerning the cataloguing of Brazilian movies compiled in the Cinemateca’s Filmografia Brasileira (Brazilian Filmography) database.17

In 2005, SAv created the Brazilian Audiovisual Information System (SiBIA) which was coordinated by the CB. It was “a program that aimed to establish a network that currently counts on more than 30 institutions that dedicate themselves, primarily or in subsidiary fashion, to the preservation of moving image collections throughout Brazil”.18 In 2006, the CB hosted the 62nd FIAF Congress, “The Future of Film Archives in a Digital Cinema World: Film Archives in Transition”. In that same year, on the institution’s 60th anniversary, Luiz Inácio Lula da Silva became the first (and only) president of Brazil to personally visit the CB, with representatives’ delegation. In 2006, the CB published the “Manual de Manuseio de Películas Cinematográficas” and the “Manual de Catalogação de Filmes” da instituição (Film Handling Manual and Cataloging Manual), which became a primary reference for other preservation institutions, as scarce technical publications existed in Portuguese at the time. In 2008, SAC became a Public Interest Civil Organization (OSCIP) and, since then, the transferring of resources to projects carried out at the Cinemateca has been massive. Under SAC management, SAv’s projects were carried out in an agile way, unlike the Ministry’s bureaucracy. At that time, many of SAv’s programs were achieved at the Cinemateca, such as “Programadora Brasil”.19 As of 2008, annual reports that described the archive’s operations throughout the year were published online,20 except for the following years: 2013, 2015, 2018, and 2019. As a result of the census, the lab preserved and restored numerous films and created new access materials. In 2009, the CB launched the DVD box set “Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema), with 27 early films accompanied by new soundtracks. In 2011, a secondary site was opened in the neighborhood of Vila Leopoldina21 to store films, documents, and equipment. In 2012, the first edition of the magazine Revista da Cinemateca Brasileira was published and in the following year, its second edition was published.22 In 2013, a political-administrative crisis was initiated, and the Cinemateca’s executive director was dismissed without due dialogue with the Council or appropriate measures taken for finding his replacement or formulating a transition plan. The Comptroller General of Brazil carried out several audits regarding SAv resources executed by SAC and the acquisition of collections by the government.23 At the end of the year, of the 124 employees that had been working before the crisis, just a few remained, including 22 public servants directly linked to the Ministry.24 From the 2014 Report, it is possible to verify that some of the institutional workflow continued. Below, I present data that reflect the interruption of work in 2014 (and 2015). This work stoppage would drastically affect the CB’s collection:25

In the summer of 2016, the Cinemateca’s fourth fire occurred, again due to a nitrate reel’s self-combustion. The loss was estimated at a total of 1003 reels of cellulose nitrate films referent to 731 titles. In addition to the discontinuation of the nitrate collection analysis after the 2013 crisis, technicians realized a few years later that someone had allocated new reels at the Cinemateca’s nitrate vault without the proper removal of the transport packaging. This could have been avoided if the technical team had been tasked with allocating and reallocating works within this film collection. This oversight potentially created conditions for a microclimate prone to self-combustion, and it could have been the second factor responsible for the fire. However, the first and most important factor for the fire will always be the government's neglect, given the lack of resources for the institution’s primary activities.

Cinemateca Brasileira –  2016 and 2017

The 2016 fire coincided with hiring 11 new technicians, an action made possible by a one-year contract signed between SAv/MinC and the Educational Communication of the Roquette Pinto Association (Acerp) at the end of 2015. Altogether, until the middle of the year, 42 technicians were hired, in addition to the 15 public servants directly linked to MinC. Third-party companies were contracted for essential services (maintenance, cleaning, security, and IT). Seven technicians were also hired for the flow of Legal Deposit,26 made possible by the Brazilian Film Agency (Ancine). The tone set by Cinemateca Brasileira director Olga Futemma27 in the 2016 Report is one of optimism and pride in meeting the goals established in the contract’s Work Plan, though there are due signs of the difficulties and challenges created from the discontinuity of work in the previous years in the report as well. A highlight of the work carried out as a result of the fire:

“Appraisal and reporting the losses […]; examination, separation by technical deterioration [...] for lab processing; provisional allocation of the remaining 3,000 nitrate reels; creation of a project, for the burnt vault, for fire prevention devices [...]; basic renovation of the vault, carried out by the Cinemateca’s team, for the return of the collection [...]; technical disposal of fire residues”.

Despite the disaster, MinC did not provide resources for preventing further fires.28 Another challenge explained by Futemma was the situation of the Laboratory, which had undergone a work stoppage. “The scenario was heartbreaking”, she claimed. To stress its importance: The Laboratory at the Cinemateca Brasileira is the most complete (and possibly last) of the photochemical labs in South America. It has the ability to process film-to-film, including 35mm and 16mm, b&w of all materials and color prints. The Lab can process smaller gauge film formats such as 8mm, 9.5mm, and 16mm film as well. In addition to its capacity to specifically work with film, the Lab also contains a wealth of digital equipment. These include the ability to scan 35mm film-to-digital (HD, 2K, 4K, 6K) and the ability to print digital back-to-film, such as printing digital to 35mm film. The Lab can scan several video formats to digital, including U-Matic, Betacam SP, Digital Betacam, DVCam, and others. It also has the capacity to conduct digital image and sound manipulation, including color correction and restoration. The machinery has even been outfitted over the years to process materials with advanced deterioration.29 However, due to the lack of staff over previous years and the resulting lack of maintenance and parts, it became impossible to resume some of these workflows.

The Cinemateca’s current audiovisual collection comprises about 250 thousand nitrate, acetate, and polyester film reels, in addition to a large gathering of magnetic tapes and reels, and approximately 800 terabytes of digital data – mainly comprised of digitized materials from the collection and Legal Deposit materials. The film-related collection comprises about one million documents, such as posters, photographs, drawings, books, scripts, periodicals, censorship certificates, press materials, and documents from personal and institutional archives.30 There is also a non-cataloged equipment collection. In recent times, the institution’s resources and activities were divided among the following departments: Film Preservation, Documentation and Research Center, Access – Programming31 and Events, Administration, Maintenance and IT.

In the Film Preservation sector, several task flows were executed throughout 2016: monitoring of the climate control of the deposits, movement of materials according to their physical state of deterioration, documentation review, applicant services, and emergency duplication of materials (which will be discussed more later on). A significant element of our workflow was to document mandatory preservation actions in a collective fashion, a task for which the Cinemateca lacked sufficient resources. After months of corrective maintenance and evaluation of lab chemicals and raw film stock, the processing of deteriorated film materials began: per the 2016 report, “the selection was made by considering the technical conditions of the materials, [with an investment of] less time and resources in the complementary actions of a single work so that it would be possible to make feasible actions, although incomplete, in a wider number of materials”.32

Due to goals established in the Work Plan and the limited available time and staff in 2016, the selection of films for processing in the Lab was only carried out by one technician. However, the ideal context would be one in which there were institutional debates and discussions about the film selection process. Attention was taken not to select consecrated narrative feature films,33 but instead, to cover “material from fiction films, documentaries, newsreels, domestic films, and scientific films… without subjective evaluation of the content of the works or any curatorship” (2016 Report). The selection prioritized the state of deterioration of the materials and not their content. An aspect of this workflow worth being critical of is that many worthy films were not being selected, which possibly further increased their ostracism. Throughout the analysis process, some materials were evaluated as not processable. Since these films were considered unique, if they were not processed and restored, it would represent the death of the images and sounds they contain. Countless materials so deteriorated that they did not meet the conditions for a complete duplication. Also, newly generated materials often contained photographic marks of deterioration that were existent in the material prior to them. During this workflow, the film stock purchased in previous years was used. However, a few years later, the archive ran out of raw film stock for its workflow.

The eventual losses of films and the specificities of processing them raised awareness around the need to create a standardized methodology for evaluating and documenting films. Because every film is its own unique material, this standardized methodology could help guide preservation and access actions. The “preservation status” was thus created, and this categorization was integrated into the film’s internal documentation and incorporated into communications with the rights holders. This documentation would include the categorization of the preservation status, like “partially preserved” and “partially lost”, with recommendations such as lab processing or research for new materials.34 Since these categories would frequently vary throughout the year as the materials’ physical conditions could change, the original date that a film’s status was proclaimed was as important as the actual status itself.

The database solution used at the Cinemateca Brasileira was WinIsis,35 which is a poor tool for complex data analysis. Several workflows – analysis, outflow of materials, and creation of new materials – required constant updating of the audiovisual database, which was interrupted because of the institution’s broad structural problems. In parallel, the open-source and Web-based project Trac36 was purposed and standardized for internal documentation workflow on the intranet. Trac was basically a Wiki documentation and ticket system. According to the 2017 Report, this intranet “makes it possible to maintain information horizontally among sectors, collaboration in the construction of documentation, the continuity, and organization of information on the same platform, […] used to document different internal procedures; norms and instructions for internal documentation; reports and texts related to the institution; information related to external requests and data of materials analyzed and processed”. The effort to keep internal documentation accessible, horizontal, and transparent, consistent with a memory institution’s role, did not comprise communications with Acerp and the projects sent to the Ministries. An essential element for those years was the investment in technological development, as documented in the 2017 report, which allowed the analysis of information from the database in a dynamic way and the research for solutions to foster the institution’s autonomy.

The ClimaCB project is worth mentioning, as it allowed for the online monitoring of climate control. It is a combination of open-source software and hardware that would list which guidelines and codes would be available in Git for free use. Unfortunately, the project was not published. Considering the potential cardinal role of the CB within the scope of Brazilian audiovisual heritage, it is clear that participation in technical discussions and the publication of proposals and technological solutions are both wanted and needed.

During the two years under the Service Contract, Olga Futemma held meetings with the technical staff to share news, impressions, and strategies. The meetings reinforced the notion of the team’s proportion and strength and served as an injection of spirit. Another positive development that brought the preservation team together was the Cinemateca’s new website, as the previous site had had obsolete navigation and tools. A moment of heightened visibility came when a short video made by the technical team showing the history of the institution’s logo dating back to 1954 became widely shared on the internet.37

The staff in the Film Preservation department was balanced between former technicians who ensured the continuation of workflows and new technicians who provided fresh evaluations for the workflows. The difficulties in creating interpersonal relationships during previous years and feelings of insecurity over the 2013 crisis were negative aspects that we avoided discussing within the workspace.

2016 was marked by the autonomy and intense communication of the technical team, but also by setbacks. In May, MinC published a public tender for electing a Social Organization (SO) to undertake the CB’s management. This was still during the Presidency of Dilma Rousseff. Shortly afterward, a misogynist coup occurred – by dint of the process of impeachment which eventually led to Rousseff’s ousting and the taking of power by her former vice president. Shortly after he took office, he tried to end MinC, but reversed this position in response to intense popular pressure. The new Minister of Culture canceled the public tender for electing a Social Organization for the Cinemateca Brasileira, and it was released months later with changes.

July 2016 brought one more surprise: after a restructuring of MinC, five positions at the Cinemateca were eliminated. At the time, these positions were occupied by the director and experienced technicians. A new director would be indicated by the Ministry, without the necessary expertise and without the Council’s participation, a move considered to be unprecedented at the time. Audiovisual associations issued letters against this announcement and the Council issued a manifesto38 in favor of revoking the layoffs and proposing a partnering with the Brazilian Museum Institute (IBRAM). The stance eventually led to the reversing of the dismissals and a rehiring of the director and technicians.

In the following months, the CB and SAv/MinC jointly sought to prevent a gap between the expiration of the Service Contract with Acerp, which would end in December, and the new management determined by the selected SO after the public tender. A solution was finally found a day before the contract’s expiration – an extension until April 2017. But, “as the residual value is not enough to remunerate for four months all technicians previously hired, it was necessary to reduce the staff (by about 75%) and, as a consequence, workflows”, according to that year’s report. The year ended with mixed enthusiasm for the future of the CB. While there was Paulo Emílio’s centenary celebration, which included the launch of a series-specific website,39 courses for the general public and publications devoted to Paulo Emílio’s work, there was also discouragement for the downsizing of the Cinemateca’s team, as the staff would not be the same size again until June 2017. The impact on the CB of the substantial reduction in technicians is evident, as can be observed in this 2016 and 2017 lab processing chart which reflects the amount of processed material:

In May 2018, the contract with the SO for the CB’s management was signed, followed by a ceremony attended by the then-Minister of Culture, who claimed that “the crisis is over” thanks to the new management model. Acerp, which managed the CB via a Service Contract that began in 2016, was the SO selected in the public tender. In the case of the Cinemateca Brasileira, this legal indenture would contribute to the current crisis. It was not legally possible for Acerp to directly sign a contract with the Ministry of Culture (to which the Cinemateca was linked) due to its preexisting contract with the Ministry of Education (MEC). Thus, the management of the Cinemateca was officially fulfilled by an amendment to the main contract.40

After the contract’s signing, Acerp appointed a new director without the deliberation of the Council, which was then ostracized from further organizational discussions. Acerp’s first action that had a substantial impact on the dynamics of the institution’s technical team was creating a new customer service department, installed for meeting the growing number of outside requests, especially requests for access to the Cinemateca’s audiovisual collection. The other sectors’ services and fulfilling access requests never stopped; the main bottleneck was providing access to the audiovisual collection. Every collection request was in theory recorded, answered, and eventually met in the order of their arrival, the possibility of completing the request, and the processing time to complete it. Despite this protocol established by the team, a sign of the CB’s subjugation would be the intensification of projects becoming prioritized over others, as determined by the Minister or the board of Acerp. This non-conformity with the institution’s protocols generated personal discomfort among the preservation team.

For the Film Preservation department workers, the new customer service meant there would be no more contact with researchers and producers, who were used to the greater agility in meeting their requests that the larger staff provided before 2013 and were frustrated by the reduced team’s limited response. Besides, the dialogue with producers and researchers about their practices showed a lack of understanding of preservation’s importance. Furthermore, this dialogue proved to be shortsighted from a market perspective when accessing materials held in the CB for digitization without proper processing.41 Another indication of incomprehension and disrespect for the preservation team was that the agreed upon financial compensation that the institution was expecting never arrived. This matter was elegantly noted by Olga Futemma, who stated in the 2016 Report: “some of the bad situations we faced were due to: tight deadlines; the total disregard of the need for compensation – not in monetary terms, since the Cinemateca cannot charge [for admissions, loans, or services at the time], but in actions that should have been foreseen in its projects and that would allow expanding the collection [...]; the misunderstanding that unique (preservation) materials should not leave the collection without supervision […]”. She added that “it is necessary, therefore, to continue to make efforts to change the conception of the public good as something that can be freely available for the achievement of private projects, and for the understanding of the need, still in the elaboration phase, to consult with the Cinemateca on the feasibility of the project in concerning the intended materials and the deadlines necessary for their availability. These are two necessary conditions for planning whose meeting benefit both the requester and the collection”.

In September 2018, former members of the Board issued an Extrajudicial Notification to MinC, requesting the “revocation of acts […] and rules that violate the technical, administrative and financial autonomy ensured in the deed of incorporation of the Cinemateca Brasileira Foundation […], in addition to: 1) The constitution of a new advisory council in compliance with the necessary autonomy of the body; […] 3) Return of the Cinemateca Brasileira to the structure of IPHAN”. The notification also mentions the “SAv’s omission in the face of the [2016] fire […], and that the Cinemateca Brasileira is no longer part of the structure of the Ministry of Culture and has not earned any public positions”.

Cinemateca Brasileira’s Management by the Social Organization

At the time of the Cinemateca Brasileira’s consolidation in the first decade of this century, maintaining its technical staff was a constant challenge. The technicians were hired for projects with specific durations via different forms of hiring.42 This dynamic created fragility and instability in workflows and compromised strategies and structural solutions, in addition to leaving the technical team in vulnerable positions.43 The SO management model would be the desired solution to enable the stabilizing of the technical team’s employment statuses after years of scarcity. Futemma evidenced this hope in an e-mail sent to the ABPA listserv: “This discussion [of the SO management model] has been taking place for eight years, involving MinC, SAv, the Council and the Cinemateca team. We have great expectations that, by the end of this year, a new management model will allow the Cinemateca Brasileira to exercise its full potential in favor of Brazilian audiovisual heritage”.44

The SO management model was the solution deliberated upon after a period of instability among the Cinemateca’s technical staff. It came with the possible preference of a SO created especially for the management of the CB, Pró-Cinemateca, built in 2014 by members of the Council and SAC with the sole purpose of managing the Cinemateca. It would potentially have the participation of professionals from the field in the construction of a Work Plan – the core document for the management itself and one of the selection criteria in the public tender. Pró-Cinemateca qualified for the first tender call, but it could not advance in the second tender call due to a new requirement for previous experience of the institution in the management of public resources. The Pró-Cinemateca itself had no experience, as it had only been created recently. Still, its representatives had spent many years at the Cinemateca’s Council, which, in practice, could have been argued as a more relevant credential than the company’s management history.

Today, following the emergence of controversies surrounding the management of other public entities, cases of corruption, and a series of publications made in the Academy and on the internet, the SO management model is widely questioned.45 It has been shown to be particularly risky for cultural heritage institutions with insufficient government funds, contexts in which essential conservation workflows (often costly and of low visibility) can be overshadowed for the benefit of actions with greater visibility. The elaboration of a work plan without the technical team’s effective participation can compromise its primary objectives. As diagnosed by Fabiana Ferreira:

“Another problem with this tenure is, claiming people are free to raise funds through means other than the State ignores that they also end up at the mercy of the State. Because, in Brazil, there is no tradition of private institutions supporting culture. The private sector in Brazil does not support cultural initiatives. Traditionally, millionaire families and Brazilian corporations do not make donations or investments in cultural equipment, even less for those who do not give visibility to the brand”. (2020, p.110)

In the CB’s case, the management by the SO enabled the CLT (Consolidation of Labor Laws)46 hiring of a good part of the team, whose choice, fortunately, fell to the institution’s coordinators without the intervention of Acerp. However, the technical staff gradually became conditioned to the Acerp guidelines. This conditioning was evident during internal meetings, where it was no longer possible to play an active role in collection prospection47 or to speak on behalf of the institution without Acerp’s consent. Signs of change were perceived in the team’s modes of social interaction in a dystopian way. For example, a camera network to oversee the collection and equipment was installed by Acerp and covered spaces previously used during work breaks. This modern panoptic lookout generated discomfort among us.

Internal courses on technical subjects or on workflows and activities between sectors, which had been held regularly since 2017, were suspended. Fundraising for the Cinemateca was among the actions sought by Acerp, and the usages of the collection and facilities proved to be a quick means to this end, thus generating long periods with a constant flow of production of major events that held varied themes, sometimes apart from the cultural and audiovisual spheres. Since Acerp did not issue the 2018 and 2019 Reports, access to information about these events is not possible to obtain. The absence of the publication of annual Reports is a dangerous indication of the failure of the SO model for the Cinemateca, as they have been essential documents for accountability and transparency of the institution’s management. During the SO period, Acerp issued reports for the Ministry on the performance of Work Plan goals. However, these documents are quite technical and not very informative, in addition to being inaccessible today to the general public. Acerp proposed a Code of Ethics and Conduct for CB employees, presented at an event on company compliance – the sole enunciation of religious beliefs48 was a significant demonstration of the distance between Acerp and the CB’s institutional mission.49 Plus, Acerp’s inability to clear bureaucracies for equipment acquisition for the Lab was evident, which affected work plans that were reliant upon such equipment’s availability. Requests for access to the audiovisual collection by TV Escola for use in their programming became routine, while Acerp meanwhile ignored some work-related needs pointed out by the technical staff. Film programming proposals were negatively impacted by the presence of Acerp. After all, how does one present the idea of ​​a Fassbinder series to a board that made homophobic jokes during small talk before meetings?

The late self-cancellation of CryptoRave’s50 2019 edition by the Cinemateca team for fear of reprisal was symptomatic. An undeniable symbol of the occupation by Acerp was the creation of a new institutional website without the active participation of the CB’s technical staff in editorial decisions. As an example of this fiasco, Acerp implemented a new website without the previous dynamic calendar tool. Resultingly, the new website has a more updated design but is less functional than the previous site had been. Also, Acerp immediately implemented an intermediate logo (‘cinemateca brasileira’ in white on a red background), replacing the 1954 logo which was created by the celebrated designer Alexandre Wollner. Acerp commissioned a new logo design that was presented to the technical staff, and allowed us no time to deliberate as to whether or not we approved of it. The fresh concept and layout were surprisingly similar to the logo of the Curta Cinema - International Short Film Festival in Rio de Janeiro. Acerp is in fact headquartered in Rio de Janeiro and the Cinemateca Brasileira in São Paulo,51 which produced another convoluted aspect: the expenses of transportation, accommodation, and meal tickets for directors, managers, and legal consultants between the two cities, which altogether sum up to a considerable amount. Rather than spend this money on transportation, it could have been invested in the CB itself.

An unquestionable symbol of the SO management model’s failure for the Cinemateca was the dissolution of the Council, constituted of representatives of the government and civil society. The CB’s 1984 legal document of incorporation to the federal government determined the existence of the Council. Acerp, acting without the Council’s input, appointed several directors who had no experience in heritage or preservation fields. This appointment further alienated the technical team who worked to manage the CB. In addition to all of this, the Cinemateca – a historically non-partisan institution – became, through Acerp, the destination of people linked with the extreme right-wing political party of the acting Brazilian president. These people assumed various administrative and communicative positions at the institution without any proven expertise. The newcomers would frequently present the institution’s vaults to visitors without a technician’s due presence, further undermining conservation efforts. The presence of military personnel at the Cinemateca52 and their failed attempt to organize a military film series gained broad reverberations. During the first two years of Acerp’s management (2016-2018), the technical team was autonomous and in control of projects. However, there was a major loss of autonomy in the SO management model from 2018 onwards.

The administrative limbo of ten public servants who were allocated to the institution found themselves in is another important matter. Since the beginning of the SO management, when the CB ceased to have administrative backing under the former SAv/MinC, these people had remained in their positions. Some of them had served at the institution for more than three decades. Before the SO amendment was signed, they were guaranteed that they would not receive losses in their salaries and benefits. However, after the amendment was signed, the governmental understanding changed, and their assignment to Acerp was never made official. Despite this situation, the Ministry instructed these workers to continue with their activities at the Cinemateca. After a year and a half of neglect and contradictory messages, they had to abruptly abandon their functions at the CB to work at the Southeast Ministry’s Regional Office in São Paulo without any infrastructure to welcome them. In addition to this sudden displacement, they were forced to acquiesce to a legal process based on the necessity of returning a bonus earned during the period that they had worked at the CB under the SO administration – a bonus which represented a significant part of their salaries.

Although Acerp assumed the institutional relations more broadly, the Cinemateca’s relationship with FIAF continued to be maintained by Olga Futemma and fellow coordinators, who issued thorough annual reports to FIAF and the prompt inspection of information requested by affiliates. However, between 2016 and 2019, neither Futemma or the coordinators represented the CB at the FIAF congresses held in Bologna, Los Angeles, Prague, or Lausanne.

2020 Crisis

In February 2020, the CB’s off-site facility in Vila Leopoldina was badly affected by a flood from heavy rains and lack of proper management of the storm sewer, combined with the intense pollution of the Pinheiros River, less than half a mile away. The sewage water reached more than a meter in height and destroyed a part of the film and equipment collection, including the last surviving materials of some narrative short and feature-length films, as well as many unique elements of newsreels, advertising materials, and trailers. The Documentation and Research Center assessed the damage such that it was not considered to be significant, since the majority of what had been destroyed was duplicated material. The flood damaged shed facilities and equipment. After thoroughgoing sanitation of the facility by the cleaning team, a part of the technical staff was deployed to clean, organize, and rescue the affected materials. Acerp or SAv did not carry out an emergency plan for the urgent assessment and processing of the site’s audiovisual and equipment collections (which had been the most affected by the flooding), such as hiring an extra technical team temporarily or even granting permission for the obtaining of volunteer work.53 The catastrophe was not immediately reported due to the lack of coordination between SAv and Acerp, and the technical team was not permitted to make news of the flood available to the public. The small team established different shifts in consideration of the high toxicity of the environment and the exhaustive work involved, with their efforts made all the more difficult by the warehouse’s high temperatures without air conditioning and local ventilation.54 Film materials were selected and transferred to the main headquarters for evaluation and processing in the Lab, but the raw film stock was running low. The damage of the audiovisual and equipment collections in the facility, the inaction of SAv and Acerp, the crisis which would subsequently occur, and the interruption of the rescue and research work ultimately makes this flood equivalent in nature to a catastrophe like the Cinemateca’s fires. Per Fabiana Ferreira, such disasters “are a metaphor for the fragility of the making of an audiovisual preservation policy that goes up in flames with each change of Government, of the creation of entities, of new agents” (2020, p.23).

Since the 2013 crisis, the Ministry’s funds have fallen short, which has resulted in smaller teams than were anticipated for the work plans. At the end of 2019, there was yet another crisis, when the then-Minister of Education (MEC) decided not to continue the TV Escola project – the main object of Acerp’s contract with MEC – and did not renew the SO Contract with Acerp. Once the MEC’s main contract was extinguished, all other agreements were also terminated. This is despite the CB-specific amendment ostensibly being valid until 2021. As a result of this termination, the administration of the CB was left adrift. Acerp spent a few months trying to circumvent the decision and to obtain funds from SAv, the Special Secretariat for Culture, and the Ministry of Tourism, but without success. The year 2020 was filled with absurd news of government decisions involving the CB, causing commotion in the filmmaking community and becoming widely covered on media outlets and social networks.55 In April, Acerp stopped paying outsourced companies and technical staff. Former members of the Council launched a manifesto in May.56

The Federal Prosecution Service initiated civil legal action against the Brazilian federal government in the interest of compelling an emergency renewal of the contract with Acerp. By the end of October 2020, the understanding has been a settled situation involving contracting essential services such as security personnel and firefighters. However, the action is still in progress, and the expectation exists for a new decision that will be favorable to the CB. Resistance and protest networks have been formed and strengthened, diffusely, with multiple participants who have narrowed their communication efforts over time: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, and representatives of the São Paulo Association of Filmmakers (Apaci) - SOS Cinemateca.57 These groups have been active in performing demonstrations on behalf of the Cinemateca and building connections with municipal and federal government representatives. During this time, the CB’s spokesperson has not been the manager or the coordinators, but rather a diffuse representation of employees.58

The technical team continued to work remotely (when possible) soon after the COVID-19 pandemic began and went on strike in June with the Union’s practical assistance. A campaign was then initiated by CB workers to raise funds for colleagues who were left in the most vulnerable situation due to the lack of payed salaries right during the outbreak of the COVID-19 pandemic. The campaign received numerous contributions from individuals and institutions around the world.59 Direct donations were made directly to the CB, such as one from a Brazilian director who donated a sum for repairing a generator and wished to keep his contribution anonymous. In July, a debate was held in the Chamber of Deputies60 with the presence of government representatives and different players in the audiovisual industry and a number of other civil society members. The discussion served as a symbol of the unprecedented repercussion and engagement around the Cinemateca. In a way, it also highlighted the need for preservationists to ensure that the language and information spoken about the CB was factually accurate.61

There were few instances of direct communication between Acerp’s board of directors and the CB technical staff, and the coordinators were sharing news related to the institution in a sporadic fashion. In June, Acerp’s directors issued an undated statement (undated!) expressing solidarity on “difficulties that everyone is going through,” claiming, “do know that we are doing ... everything that is within our reach”. The statement included the commitment that “as soon as we receive funds from the Federal Government, the first step will be to pay salaries and termination packages” – even though it had already been made explicit that there would be no funds transferred by the government. Considering the lack of resources in 2020 for the Cinemateca, the flood, the crisis arising from the Covid-19 pandemic, remote work, and the suspension of wages and benefits, this statement symbolizes the neglect and disrespect that Acerp showed the CB staff. After handing over the Cinemateca’s keys to the Ministry on August 7,62 Acerp unsurprisingly and abruptly fired all of its and the Cinemateca’s employees without arrears and severance pay.

As noted in the 2020 Gramado Letter (published just after the annual Gramado Film Festival), “after countless phone calls, messages, consultations between the parties and postponements, basic and emergency water and electricity services were guaranteed […]; cleaning services were contracted, although the company is not specialized; maintenance services for climatization equipment were contracted, although the company does not offer the necessary expertise; a small fire brigade composed of two employees and a property surveillance company were hired. However, specialized employees’ primordial work is lacking among the emergency needs, without which the collection will not be preserved, even with the resumption of the basic services described above”.63 Without technical monitoring, the smallest of incidents in the collection areas can hold drastic and irreversible consequences. This is the first time in the history of the Cinemateca that any of its technical staff members have been restricted from entering the institution.

Together with the news of the handover of the Cinemateca’s keys to the Ministry of Tourism, it was made clear that a new SO public tender announcement would soon be launched. This announcement has not yet occurred. There is a budget forecast of R$ 12.5 million [about USD 2.3 million] for the Cinemateca in 2020. If not used this year, this value cannot be added to the sparse R$4 million [about USD 720 thousand] foreseen for 2021. São Paulo councilors from different political parties organized a parliamentary amendments fund for the Cinemateca, with support from Spcine, the predominant audiovisual agency in the city of São Paulo. The deploying of municipal resources towards a federal institution requires an unprecedented legal articulation, which is being made by SAC for the emergency hiring of a small technical body. Today, civil society groups are still active, with an attempt underway to activate entities and continue the mobilization.

It is imperative to create an immediate solution to make a technical team viable in 2020 so that the Cinemateca’s collection does not remain unaccompanied. Furthermore, mechanisms are needed for the continuance of middle and long-term management, in a resilient and sustainable manner that can prove consistent with the need for constant maintenance of the collection and continuance of the technical team. It is considered fundamental to open and create calls for civil service examinations for job positions that could confer the desired stability. As diagnosed in the 2020 Ouro Preto Letter:

“Preservation of cultural heritage is a constitutional duty of the Brazilian State and, therefore, it is necessary to recover the role of the public power in the management of audiovisual heritage institutions, resuming the processes of opening public tenders for job positions and implementing management plans designed together with civil society, a directive provided for in the 1980 UNESCO Recommendation for the Safeguarding and Preservation of Moving Images

An idea that has appeared throughout numerous online discussions is the return of CB to a federal government heritage institution such as IBRAM or IPHAN, to which the CB was linked until 2003, when it became the responsibility of SAv. This link to IPHAN provided continuity for the CB in the early 1990s when the federal government promoted the dismantling of cinema and institutional policies. IBRAM is an autonomous organization linked to the Ministry of Tourism, which covers thirty national museums.

Legal Deposit and the Audiovisual Industry

Despite the unquestionable duty of the State (and its evident neglect), I emphasize that interest and concern about an effective preservation policy must be seen as relevant by all sections of the audiovisual industry. We must challenge the generally held assumption that the “symbolic asset of memory is inferior to the symbolic asset of a feature film shown in shopping mall cinema venues” (Ferreira, 2020, p.111). This value was built, for decades, by the industry itself. It is possible that the FSA’s prosperity (and the increase in investments in development, production, distribution, and exhibition), together with the inaction of the audiovisual industry concerning preservation, are directly related to the dimension of the current Brazilian audiovisual heritage crisis. ABPA has repeatedly pleaded for seats on the Superior Council of Cinema and on the FSA Fund Committee, without success. In the 2018 CineOP debate “Frontiers between Industry, Market, and Archives – Content, Promotion and Regulation”, a representative of the FSA Fund Committee suggested for preservationists to search for a different financing source for preservation, distinct from the FSA. When a professional raises such a possibility (and his attitude is common among producers), he does so without understanding the importance of preservation for the entire industry, nor his role in defending the Cinemateca and audiovisual heritage policies. Let this defense be made from the personalized perspective, considering that some of his assets may be held at the Cinemateca: footage for his next film as a producer, the origins of his debut feature, or his family’s home movies. The Cinemateca’s activities in discussions, publications, forums, and technology research could also benefit him in other ways. As Paulo Emílio wrote, “You can’t make good cinema without a cinematographic culture, and a living culture simultaneously requires knowledge of the past, an understanding of the present, and a perspective for the future. Those who confuse the action of cinematheques with nostalgia are mistaken” (1982, p.96). The production industry grumbled64 when debating the need for investments to deal with the giant backlog of audiovisual works which need to be preserved in order to serve the production industry. Such preservation benefits this industry as they are then able to commercially utilize the collections. The business model does not close until we have a massive investment to deal with decades of setbacks and stagnation. I grumble back with this chart:65

In April 2017, the FSA’s 2017 Annual Investment Plan66 comprised R$ 10.5 million [about USD 1.9 million] for the Cinemateca Brasileira. This announced value for the CB was equivalent to 1.4% of the total announced in the document. The amount was never paid, with the justification that the non-refundable funds67 ran out. In May 2018, the FSA 2018 Annual Investment Plan68 appointed R$ 23.375 million [about USD 4.1 million] for investments in Preservation. In December of that year, SAv published a tender for Restoration and Digitization of Audiovisual Content. These were funds that allegedly held a return on investments made by audiovisual companies in restoration or digitization. A preservationist workgroup and CB technicians aided in construction of the document and the digitization and restoration technical guidelines. From the preservationist’s perspective, the tender was intended only for producers with a distribution bias and held the preservation aspect as secondary. The current government suspended the tender about four months after its publication. Therefore, out of a possible sum totaling over R$ 4.5 billion69 [about USD 801 million], no FSA funds whatsoever were actually invested in preservation between 2008 and 2018.

Currently, the Cinemateca Brasileira is the onlyx institution nominated to accept Legal Deposit materials. Since 2016, Ancine has invested no more than R$ 2 million [about USD 356 thousand] in hiring a technical team to analyze materials. New technicians must be hired specially for this, as the Legal Deposit workflow mobilizes several sectors and technicians. Over the years, the CB reported a high failure rate of materials analyzed. According to Gomes (2020), “one of the main causes seems to be the great distance and little information from directors/producers about, in a broad way, the role of an audiovisual archive, and more specifically, the principles of the Legal Deposit”. The expertise in analysis of materials without funds for preserving the Legal Deposit collection can be metaphorically considered through the gesture of slashing one’s own throat. The analyzed materials are left inert on shelves in an air-conditioned vault at the mercy of the famous “silent death”.70 The industry must take part in actions towards the improvement of approval rates and creating conditions for preserving digital-born materials within the scope of the Legal Deposit. Broadly, the narrative and the struggle for policies related to audiovisual heritage must also be formulated and driven from within the industry.

The panorama of the Cinemateca presented in the 2020 Gramado Letter is very significant, with several associations listed as signatories, including other film archives, professional TV networks, and audiovisual companies. A positive sign was a discussion about the crisis during the ABC Week of 2020 (organized by the Brazilian Cinematography Association [ABC]), which is considered to be one of Brazil’s most significant events devoted to audiovisual production. But we still need tremendous action to get closer towards recognizing that this crisis at the Cinemateca Brasileira must remain a concern for the entire industry.

The 2020 Ouro Preto Letter highlights, among many urgent matters, the implementation of a national policy for the area of cultural preservation. The letter outlines some of challenges which will be faced, such as “to claim the creation of mechanisms, to expand the offerings of Brazilian audiovisual works in the catalogs of streaming platforms, with the guarantee of inclusion of works from different periods that can allow access to the vast Brazilian audiovisual heritage”. What would be the suggestion proposed by Netflix (used here as a platform model), for example, regarding the need for investment in Brazilian audiovisual heritage? Such an investment would only provide an opportunity for company-improvement, made viable by Netflix’s presence among the 12 companies that profited most during the current pandemic.The proposal is not so absurd, considering that the company’s Brazilian wing created a R$ 5 million [about USD 891 thousand] emergency fund for the Brazilian audiovisual industry due to the recess in the context of the Covid-19 pandemic.71 The availability of older works on streaming platforms is also a point of concern in the United States.72 In general, Brazilian producers do not have resources for digitizing older titles in ways capable of meeting the platform’s technical parameters and, need to potentially spend whatever resources they do have on lawyers who can help them with rights clearances.73 So, how about the platform launches an investment line for non-contemporary works? This idea would be contemplated by the 2018 SAv/MinC/FSA tender for “Restoration and Digitization of Audiovisual Content”, suspended in 2019. The strength of the audiovisual heritage institutions also would benefit the streaming platforms themselves in the middle term, considering the strong contemporary trend of documentaries based in archival images.74 As an illustration, there is a significant number of U.S. documentaries available on Netflix Brasil that use archival images to build their narratives such as Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), the documentary series Remastered (2018), and Explained (2018). However, there are comparatively few Brazilian films and series that feature archival images to this extent, one exception being Thiago Mattar’s Taking Iacanga (2019).

In addition to the CB Lab’s conservation of its collection, I call attention to the confection of new film prints and digital copies, such as those pertaining to the collection Classics and Rarities of Brazilian Cinema, (which was founded in 2007 and underwent its fourth edition in 2016) and those made in celebration of the annual International Day of Audiovisual Heritage. As a means of registration, I highlight the 35mm and digital prints made in 2016, as contained in the Report.75

Creating new 35 mm prints is one of the crucial roles of a film archive with a photochemical lab, as it is vital to provide an experience in line with the original screening format of a film. Considering how digital exists for the sake of broader circulation, digital access files are made in different formats. In the context of the CB, the effort to digitize films made on film would be carried out more fully with some form of pre-established screening event, ideally with formal curatorship and due contextualization for the works. Currently, the clearest path to digital diffusion of CB assets comes via the institution’s own online Cultural Content Bank (BCC).76

Rafael de Luna Freire’s Cinelimite article "Ten Brazilian Films that Remain in the Shadows due to Poor Accessibility" discussed digital inaccessibility for a combination of canonical titles and rarities throughout the history of Brazilian cinema. In addition to creating effective digital access actions, it is crucial to assess whether original film materials exist beyond imminent risk or whether they in fact require urgent preservation or duplication measures. Rafael de Luna’s list evoked the text “Brazilian films considered lost (or about to be lost)”, published in 2001 in the now-extinct Web magazine Contracampo.77

Differently, the 2001 list was about the existence or loss of preservation materials. In addition to some titles that were eventually lost, others had their (known) unique materials deteriorated to the point of making lab processing unfeasible. In light of the Cinemateca Brasileira crises and the paralysis of research work, preservation actions, and laboratory processing, the act of updating the list made by Hernani Heffner and Ruy Gardnier at that time would be of tragic scope. It would be a national institution’s role to make this list public. Besides remaining accountable to Brazilian society about its audiovisual heritage, this work could also prove to be a strategy for locating previously unknown materials held at other institutions and private collectors both in Brazil and worldwide. Yet, what about the many other films and audiovisual records that have escaped such inquiries and remain ostracized? How many films exist today whose only surviving materials are believed to be incomplete and severely deteriorated prints in inferior gauges? How many Brazilian audiovisual records have we lost?

Conclusion

“If we lose the past, we will live in an Orwellian world of the perpetual present. So, where anybody that controls what’s currently being put out there will be able to say what it’s true and what is not. And this is a dreadful world; we don't want to live in that world.”Brewster Kahle (2014, interview for Digital Amnesia, documentary by the Dutch VPRO)
“Knowledge is effective only when it is shared.”Hernani Heffner (2001, in a hallway conversation at the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro)

Digital audiovisual records have served as crucial tools in the fight for human rights in all national corners. They include records of things such as forced evictions, occupations of cultural or educational sites as a form of protest, demonstrations, invasions of communities by police forces (with high homicide rates among local populations, including children and young people), acts of environmental devastation fostered by the current government, struggles for native people rights and the demarcation of native lands, and crimes against native peoples. These audiovisual registers also function as tools for black empowerment and anti-racist movements, for the emancipation and affirmation of women for opportunities, and against structural sexism. With a profusion of creative talents and narratives, social networks gather the most distinguished cultural indexes of this time. In Brazil, in general, these network’s images remain outside the scope of prospection by Brazilian institutions, with the discussion around their archiving and incorporation within the scope of Brazilian audiovisual heritage still proceeding in a merely tentative fashion. From the preservation perspective, aside from all the challenges inherent to digital data preservation,78 ephemerality exists due to the corporate practices of social networks (which wipe content according to their terms of service).

Social media uses persuasive technology mechanisms to drive individual’s behaviors. Algorithms can give credibility to the untrue, boost flat-earth theory, and put #StopFakeNewsAboutAmazon as a trending topic on Twitter. At the same time, ecocide is loose, and the whole world watches as flames engulf the Amazon, the Cerrado, the Pantanal, and other Brazilian national parks.79 The quantum computer Rehoboam80 is an allegory of the now, in a narrative made explicit by Shoshana Zuboff in her book “Surveillance Capitalism”. We observed successive electoral victories by ultra-right political parties and movements with growing levels of terror and violence. The circulation of fake news on social media has increased the destructive power of Covid-19. Counter-information, deep fake, and fake news robots are connected to the world described by Brewster Kahle, founder of Internet Archive, quoted above. We can lose the past and the present due to frailties inherent in today’s sources of information, with their potential for manipulation and misinformation.81 When the current Brazilian president was a deputy, during the congressional voting process held during the impeachment trial of President Dilma Rousseff, he voted for the memory of the military dictatorship’s greatest torturer, who led the former “Presidenta” torture sessions. At the Cinemateca, we failed to frequently screen and watch the anti-dictatorship films Case of the Naves Brothers (1967, Luis Sérgio Person), Iracema: An Amazonian Transaction (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), They Don’t Wear Black Tie (1981, Leon Hirszman), Go Ahead, Brazil! (1982, Roberto Farias), Twenty Years Later (1984, Eduardo Coutinho), How Nice to See You Alive (1989, Lúcia Murat), Friendly Fire (1998, Beto Brant), and Citizen Boilesen (2009, Chaim Litewski),82 in order to make it impossible to trivialize his actions in the Chamber of Deputies and make it such that no woman would vote for him for president two years afterward. Now we cannot fail to preserve these films and those that have come after, such as Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) and Maiden’s Tower (2019, Susanna Lira).

A significant portion of the Brazilian audiovisual heritage has already been lost over the past century. In addition to recurring fires that destroyed collections of early Brazilian cinema, there have been diverse waves of destruction throughout film history (of short films through the consolidation of the feature as a market format, to silent films after the emergence of talkies, to the replacement of nitrate by acetate), many collections have been dispersed, dismantled, and concealed. Numerous works that came to the film archives arrived in an already feeble state. Still, the delay in recognizing the importance of audiovisual heritage, the absence of public policies for its management, and the oscillation of funding to heritage institutions have led to further losses. With the advent of digital, there is an escalated move towards preserving both what is currently being prospected and what lies outside the current prospection scope. The Cinemateca’s current crisis is severe, and it demands urgent measures from public authorities and the audiovisual industry. Despite the government’s destructive power and the ongoing paralysis of the work, I would like to end with an optimistic tone, one that has been encouraged by many online discussions, articulations, and increasing support about audiovisual preservation in Brazil. Many have advocated for their belief in the Cinemateca’s potential to promote debates and screenings, grant access to the most forgotten collections, provide a space for research, offer a visual reference for the past, and subsidize technological research. People believe in its capacity to captivate children and young audiences with the big screen, present pre-cinema and audiovisual technologies in a museum, and engage the institution’s neighborhood and surrounding community. All of these potentialities of the institution, in addition to numerous other creative uses of its collection and the tools that we might be able to use in the future, have been marred by the successive crises and ever increasing backlog. As a result, we have seen the acceleration of the collection’s deterioration, and limitation of the institution’s reach. It has become even more evident over time that the Cinemateca has been included within a macro-project of the devastation of Brazilian culture and heritage, and its importance as a force for reacting against this project therefore grows larger and larger.

Thanks to Aaron Cutler and William Plotnick for the thorough review.

1.  The Ministry of Culture was abolished on the first day of the current government, then initially incorporated into the Ministry of Citizenship and, later, to the Ministry of Tourism. So far, the Special Secretariat for Culture has had five incumbents without proven expertise. Other cultural heritage institutions are experiencing acute crises, such as the Fundação Casa de Rui Barbosa and the Centro Técnico Audiovisual (CTAv). The Brazilian Film Agency (Ancine) did not transfer funds already committed to the Cinemateca Brasileira and did not issue new film production tenders. It is noteworthy that the Federal Constitution which governs Brazilian democracy claims the “State will guarantee to everyone the full exercise of cultural rights and access to the sources of national culture and will support and encourage the valorization and diffusion of cultural manifestations” (Art. 215). They add that, “the public power, with the collaboration of the community, will promote and protect Brazilian cultural heritage” (Art. 216).

2. From 2016 to 2020, I worked in the Film Preservation department at the Cinemateca Brasileira. I share personal views based on this experience, with an emphasis on the department’s activities.

3. Eng: “The Cinemateca Brasileira and public policies for the preservation of audiovisual heritage in Brazil”.

4. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

5. Through the Ministry of Culture’s policy of decentralization, development and production programs were created with quotas for states which habitually have been restricted from investing in audiovisual production. Also, a policy has been put in place that covers low-budget projects and quotas for new directors, female filmmakers, and native people.

6. Regulated in 2007, the FSA is fed by the Contribution to the Development of a National Film Industry (Condecine) and a tax collected from all media distributions systems. These funds are then invested in new productions mainly in cinema, television and electronic games. From 2008 to 2018, a total of approximately R$ 4.5 billion was invested [about USD $713 million].

7. An emblematic example of this dynamic occurred in 2008, with the presence of the Executive Director of the Cinemateca Brasileira at the 3rd annual CineOP. The theme of CineOP that year was National Audiovisual Preservation Policy: Needs and challenges. Throughout the event, the Executive Director took a firm stand on opposing the articulation of other audiovisual heritage institutions with the Ministry of Culture’s representatives, and the creation of the Brazilian Association of Audiovisual Preservation (ABPA).

8. Among the proposals of the 1979 Symposium on Cinema and Memory in Brazil was, “The creation and promotion of regional centers of cinematographic culture constituted by production units and by film libraries (archives of copies of films), with the basic function of prospecting, research and dissemination of the Brazilian collection [… and] the establishment of an [national] inventory” (1981, 67). Laura Bezerra stated that the “creation of a program to boost filmographies that, despite not having implemented systematic and comprehensive actions, allocated resources for some sectorial actions” (2014, 120). Decentralization is necessary, considering the country’s continental nature and cultural plurality, besides being technically susceptible to disasters.

9. CineOP was created in 2006 and has become the main forum for discussions and articulations on audiovisual heritage and education in Brazil. Each year the Ouro Preto Letter is issued by the meeting’s participants, with alerts and proposals for the audio-visual heritage field.

10. ABPA is an association of film preservation professionals, regardless of their formal occupation. ABPA has worked in favor of developing new and better film preservation policies, the promotion of audiovisual heritage, and the translation and publication of technical film preservation texts. In 2016, ABPA created the PNPA, a document that contains diagnoses and proposals for actions and policies within the field of audiovisual preservation. https://abpanet.org/

11. The Council’s central role is to work to help develop the Cinemateca. Its members are representatives of the public sphere and individuals from civil society who are linked to the cinema or cultural heritage industries. Dismally, men have been predominant among council members over the years.

12. Currently, this theater is called Cinesala. http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

13. The original slaughterhouse had its activities closed in 1927. The space was then used as a deposit for the city hall’s lighting equipment.

14. The Brazilian Cinematographic Census project was based on the idea of Gilberto Gil, musician and then a member of the cultural advisory board of BR Distribuidora. Gil would later become the Minister of Culture from 2003 to 2008.

15. State company Petrobras – linked to providing energy, gas, and oil in Brazil – boosted the production, distribution, exhibition, preservation, and restoration of Brazilian cinema.  

16. In collaboration with the CB, the appraisal project was also carried out at the Cinemateca do MAM (Museum of Modern Art) in Rio de Janeiro. The project involved the (unprecedented) inventory of the Cinemateca do MAM collection with deteriorated materials sent to the CB’s lab. The Museum director determined, arbitrarily, that the Cinemateca could not maintain its audiovisual collection (after the inventory was made). As a result, the National Archive (in Rio de Janeiro) and the CB each received parts of the collection. Rather than having them sent to Rio de Janeiro, some film material owners chose to keep their assets with them, often in inappropriate places. That was one of the Cinemateca’s biggest crises, which is historically relevant for Brazilian cinema (especially for the Cinema Novo movement) and the audiovisual preservation area. The Cinemateca do MAM was directed by Cosme Alves Netto, who had a special connection with international institutions. Hernani Heffner joined the institution in 1996. In 2020, the Cinemateca do MAM underwent a consolidation, with a new building for the film collection and some structural changes in the Museum’s direction.

17. According to Souza, the Brazilian Filmography was started by Caio Scheiby on paper cards, and, in the 1980s, four notebooks were published with records of films produced until 1930 (2009, p.259). Currently, according to the CB’s website, “it contains information on approximately 42 thousand titles from all periods of national cinematography and the most recent and widest audiovisual production, whether short, medium or feature films; newsreels; advertising, institutional or domestic films; and serial works (for internet and television), with links to records in the database of posters and references to sources used and consulted”. Filmografia Brasileira. August 2020. Available at: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

18.Text extracted from 2008 plenary. SiBIA. August 2020. http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. According to Laura Bezerra, “SiBIA was conceived and executed by CB/SAv without any debates and negotiations with the players involved, which contradicts the democratic-participative spirit defended and practiced in MinC documents and actions” (2014, 185). The 2009 meeting had 33 institutions from all over the country, and its proposals, which demanded SAv resources and actions, were not carried out. The project was extinguished in 2009, without practical advancements.

19. Programadora Brasil was a project for the diffusion of animation, experimental, fiction, and documentary films, active from 2006 to2013, through the printing of DVDs for non-commercial circuits (film clubs, cultural centers, schools, universities), in a total of 970 works divided across 295 DVDs.

20. Cinemateca Brasileira Institutional Reports. July 2020. Available at: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

21. This unit was affected by flooding in early 2020.

22. Cinemateca Brasileira magazine. Available at: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

23. Collections acquired by the government under theCinemateca’s custody: Estúdio Vera Cruz and Atlântida Cinematográfica (in2009), Canal 100 and Glauber Rocha (in 2010), Goulart de Andrade and Dulce Damasceno de Brito (in 2011) and Norma Bengell (in 2012).

24. The interruption also affected the work of the CentroTécnico do Audiovisual (CTAv, or “Audiovisual Technical Center”), in Rio deJaneiro, which was involved in several SAv projects with CB.

25. 2014 Report - details on pages 12 and 14 on the“analysis of preventive conservation of cellulose nitrate”.

26. Legal Deposit is the mechanism for depositing public-funded audiovisual materials in institutions accredited by the federal government. Until today, only the CB falls under that category. After the approval of the material (according to technical guidelines), the producing company becomes able to receive the last instalment of the financing. Due to the drastic reduction in analysis after the 2013 crisis, the backlog of materials became enormous.  

27. Olga Toshiko Futemma began working at the Cinemateca Brasileira in the 1980s, with particular excellence in her work at the Documentation and Research Center. She became the institution’s executive director in 2004, its deputy director from 2007 to 2013, and its director from 2013 to 2018, at which point she became the Collections Manager. She took part in the FIAF Executive Committee from 2009 until 2013.  

28. After the fire, the vault received the same structure as before. According to the 2016 Report: “the building, designed in the 1990s, was built without electrical or hydraulic installations, in order to minimize the risk of an accident; without active air conditioning, but maintaining the internal temperature with the smallest possible variations and allowing air circulation to avoid the accumulation of gases resulting from deterioration. In the case of self-combustion [...] it would inevitably consume the entire contents of the vault, but it would not spread to the adjacent vaults” – which characterizes what happened in 2016, when the fire consumed only one of the four vaults and did not spread to the others.

29. For example, ARRISCAN, when acquired, was adapted for deteriorated materials, which allowed the scanning of negatives with 4% shrinkage, a measure that would be considered infeasible for other laboratories.

30. Databases of the Documentation and Research Center. August 2020. https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

31. The Programming department continued to show films from the collection, with respect for the original projection format to the best extent possible and privileging Brazilian cinema. It also organized film series with prints loaned from partnering organizations and held screenings in the Cinemateca’s two theaters and on its outdoor screen. The films projected were on 16mm and 35mm prints, as well as digital and video formats.

32. Also, according to the 2016 Report: “the emergency duplication process differs from the film restoration, which involves producing new preservation dupes, both image and sound, and screening copies. It also includes different sorts of manipulation to minimize handling or deterioration marks, approximating its original theatrical release characteristics. A restoration project usually compares different materials, while emergency duplication deals with copying advanced deteriorating material, typically unique, to a new one.”

33. Carlos Roberto de Souza points out that “The Brazilian research and historiographic works carried out […] drew attention to the fact that it is a mistake to build a history of Brazilian filmography with a basis in fiction or narrative feature-length films. The highest volume of Brazilian production has always been of documentaries and newsreels, generally relegated to the background by so-called classical historians, the media, and the general public. The reality of production is reflected in the cinematographic collection that has reached our days. The percentage of nonfiction films exceeds that of feature films and remains the least preserved. That does not mean that all fiction features are preserved. Far from it. Yet the most treated part – and not always with the care it deserves – is that of the consecrated Brazilian features.” (2009, p.261).

34. Later, the team discovered a homonymous field in the Brazilian Filmography database, conducted by the Documentation and Research Center, which was no longer in the workflow. It was a numerical system from 0 to 5. Considering that the Preservation technicians who proposed the methodology had no previous experience at the CB, the categorization did not follow the numerical method, but instead followed text categories. As an example, the categories included “preserved at the moment” (considering original materials, intermediaries, and prints in good condition, for example), “partially preserved”, “not preserved”, “partially lost”, with supplemental information such as “with defects” (image or sound interference), “incomplete”, etc. The system provided quickness in the selection for emergency duplication and research for external access.  

35. WinIsis is a software proposed by Unesco in 1988 and adopted by the CB due to its shapable character. It resembles individual physical library cards, with limited data examination.

36. Trac was initially adopted by the lab and development teams before 2016. The preservation team adopted it in 2016. In 2017, an institutional profile was created, then the Documentation and Research Center profile, and lastly, the Access department profile.

37. We need to talk about ... the Brazilian Cinematheque logo. July 2020. https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. The alleged phallic form of the logo could have contributed to the degree of viralization and public awareness of the Cinemateca in 2016.

38. Manifesto for the Cinemateca Brasileira - 2016. July 2020: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com.

39. 100 Paulo Emílio. Available at: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. July 2020.

40. The legality of amending the main contract is questionable. In any case, we consider it an outrage that an amendment governs the Cinemateca Brasileira as a legal instrument.

41. As occurred in access to original film materials for their digitization and licensing to Canal Brasil, the leading television channel for Brazilian films. The broadcast company was updating its catalog, which was previously in SD resolution. The delivery of films to Canal Brasil would be in HD (1080p) or higher, despite HD being an outdated resolution. Producers opted for HD resolution and not 2K due to budget limitations. Still, in addition to being more commercially relevant in the middle term, 2K represents a more significant preservation action since it would be a longer safeguard of the original material – much of which was already in bad condition.  

42. Especially what can be called pejotization, in reference to “juridical person”, or the legal status of a physical person: The hiring of services from individuals through companies set up for this purpose.  

43. This dynamic of dispersing the workforce is even more dangerous in the context of digital preservation, which demands a constant updating of knowledge due to the ongoing changes in technology and industry practices.

44. E-mail from 29 June 2016. July 2020: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Débora Butruce indicates that a Working Group debated the theme of management by OS over several years: 15th CineOP. At-risk cultural heritage institutions: The Case of the Cinematreca Brasileira. Available at: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. In addition to Butruce, the conversation’s participants included Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira and Eloá Chouzal.

45. Jorge Barcellos sums it up by saying that “Over time, [the Social Organization] became deficient and costly”. He warns that “according to Alzira Angeli, from the Comptroller General of the Union, these organizations have become the new market niche for corruption and [according to historian Francisco Marshall] the initiative promotes the degradation of public management”. August 2020. https://jorgebarcellos.pro.br. As an exception, some museums in the State of São Paulo successfully follow the management model by OS.

46. Consolidation of Labor Laws (CLT) has several benefits to the employee, such as paid vacations, a bonus salary (equivalent to a month’s pay), unemployment insurance, sickness benefits, family salary, maternity salary, and retirement funds.

47. I understand collection prospecting as a fundamental role of the CB, since the Cinemateca is the central national institution, and especially in consideration of the history of destruction and neglect of Brazilian audiovisual heritage. In recent years, news of potentially valuable collections became public, and CB technicians could not act independently under the Acerp administration. Through Acerp, for instance, the technical staff evaluated a collection in the São Paulo countryside. The technical team contacted the Ministry of Foreign Affairs to assess a list of 35mm prints held at the Brazilian embassies in Rome, Berlin, and The Hague. Acerp later took over the connection and was unable to carry out the repatriation.

48. It was reported by many colleagues that the person in charge of such event said ‘God was the first CEO, and theBible was the early compliance’, among other inappropriate comments for an event at an heritage institution.

49. An Institutional Mission document was being consolidated, which was not carried out during the time of Acerp’s management.

50. CryptoRave is a forum for freedom, autonomy, and security on the Internet. CryptoRave. August 2020. https://cryptorave.org.

51. The distance between the two cities is about 268 miles/1-hour flight.  

52. Military personnel in uniform occasionally visited the institution. One episode became notorious: The visit of a deputy who held the same last name as his great-uncle, the first president of the military dictatorship. The deputy published a video on a social network from inside the CB and accompanied by representatives of the institution in which he announced the upcoming exhibitions of military films, reproduced the president’s campaign slogan and saluted the camera. The film series has not been realized.

53. Several volunteers working within the Instituto Moreira Salles’s (IMS) technical coordination team performed an effective response to damages to the studio and photography collection of the São Paulo-born photographer Bob Wolfelson, which was located near the Cinemateca’s damaged area. A technician from the Cinemateca Brasileira was among the volunteers (who operated outside of CB working hours). The event was the second flood that affected the photographer’s studio. Floods in the region are recurrent, so this brief report is a chronicle of a predestined tragedy.  

54. The work consisted of moving bags with piles of cans filled with dirty water, opening each can to check the material’s condition, determining the destination of the material, and organizing the collection on the shelves. At first, the cleaning and maintenance teams performed a task force with the technical team to drain the water, clean shelves, and help move bags of films, but before this work came to an end, these teams were drastically reduced in size.

55. The first of these news items related to the appointment of an actress as the Cinemateca’s director. This actress had played the role of Special Secretary of Culture for two months in the capital city of Brasília and wanted to return to São Paulo for personal reasons. However, no position was legally available for her to assume at the CBat that time, and she ultimately never came to work at the institution.

56. “Cinemateca Brasileira asks for help.”. Sept. 2020. At the time of this writing, the manifesto has received more than 28,500 signatories.

57. Cinemateca Viva, a group formed by the Vila Mariana Residents’ Association (the neighborhood where CB is at <http://www.cinematecaviva.com.br>; The Cinemateca Acesa group <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; and Cinemateca in Crise, created in 2013, with updates on the crisis of 2020: <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. Apaci since 2015 has been active and in contact with the CB board of directors to guarantee the execution of the institution’s work.

58. Cinemateca Brasileira workers. August 2020. https://twitter.com/trabalhadorescb.

59. Cinemateca Brasileira - Emergency Workers. August 2020: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca.

60. The crisis in the Cinemateca Brasileira - Urgent Solutions.August 2020. https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. 2020. Gabriela Queiroz, the Documentation and Research Center coordinator from 2014 to 2020, represented the institution.

61. Some examples: The claim that “all” of the Brazilian audiovisual heritage is housed at CB; the assertion that the institution could catch fire if its light and gas services were cut off for lack of payments (the nitrate deposits do not have any electrical circuit); and the use of the term ‘air-conditioned laboratories’ to designate‘ air-conditioned vaults’.

62. The handover of the keys included the presence of ostensibly armed agents of the Federal Police, summoned with the assumption that there could be resistance by agents of Acerp. Acerp handed over the keys, documents were signed, and the government carried out a technical visit. Even as a sideshow, it was the first time that police intimidation occurred at the Cinemateca. Acerp tried to obtain reimbursement of the amounts invested in the CB in 2019 and 2020, allegedly totaling R$ 14million [about USD 2.6 million].

63. Gramado Letter 2020. Available at: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado.

64. Generalizations are risky and can go wrong. After all, we have many producers who understand, praise, and invest in preservation efforts, especially following the 2020 crisis. If my words do not do justice to producers’ performance in favor of audiovisual heritage, then I will be happy to publish my mistake. But this text was fermented by the frustration of seeing the superb state of the audiovisual industry, with its happy hours, markets, deals, and enormous resources, while the mention of preservation investments generated tremors! The production industry’s greedy attitude relates to the neglect of the Brazilian audiovisual heritage and its preservationists.

65. Sources: FSA and CinematecaBrasileira websites. Published initially in The professional working in audiovisual preservation. Museology & Interdisciplinary. Vol. 8, nº 15, 2019. The chart was initially presented with the Brazilian currency (Real) and was converted to USD for this text. The exchange rate was from the last business day of each year. Original note with a correction: Cinemateca Brasileira is the only institution that receives materials in Legal Deposit and according to Laura Bezerra (2015), its budget represents almost the totality of investments in audiovisual preservation in Brazil during the cited period. In this way, I consider the chart to be a direct illustration of the gap between investments made in audiovisual production and in preservation”.The diagram proceeds only until 2017, since CB has not published any more report since that time. In 2019, under the newly elected government, FSA funding ceased.

66. Document SEI / ANCINE - 0413350 - CGFSA Resolution Nº 101- Approval of the 2017 Annual Investment Plan.October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANº 101 - approves PAI FSA 2017.pdf.

67. The non-refundable mechanism does not presuppose a return on financial profit, but offers other counterpart plans.

68. Document SEI / ANCINE - 0845324 - CGFSA RESOLUTION Nº155 - Approval of the 2018 Annual Investment Plan. October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANo. 155 - Annual Investment Plan 2018.pdf.

69. Resources made available for Actions and Programs - 2008to 2018. October 2020. https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. The full amount informed on this date was R$ 4,558,877,384.00.

70. According to Gomes (2020), most of the materials received in Legal Deposit is stored on external hard drives, which need continuous verification – “digital materials, therefore, require more constant checks and migrations, a need that the Cinemateca Brasileira cannot yet meet, both due to limitations in the number of employees and to financial limitations”. Part of the institution’s large magnetic video collection comes from the Legal Deposit. In general, from 2016 to 2020, no actions were taken to preserve the video and digital collections, only duplication of materials for access purposes. Considering the inaction, broadly and systematically, with the scope of the heritage conceived in digital, one cannot expect to overcome the(notoriously high) loss rates of the Brazilian audiovisual heritage –especially its first digital productions.

71. “ICAB and NETFLIX partner to create an EMERGENCY FUND to support the Brazilian creative community.” September 2020. http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html.

72. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. September 2020. https://www.newsweek.com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. / Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. September 2020. https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Much more money is invested in providing classic film as a streamable option in the US as it is in Brazil, especially Brazilian classics. In the US, the repertoire of old films is a niche explored by platforms such as The Criterion Channel and Mubi, among others.

73. A sensitive aspect for the distribution of older films is the issuance of the Brazilian Product Certificate (CPB), which requires documentation stating the rights holders for specific films. Historically, Brazilian film productions lacked proper documentation, and many companies were dissolved without the transfer of rights of their assets.

74. In the Brazilian context, where the first activity as a preservationist is to explain your role as a professional, Netflix documentaries that contain archival images as an important element of their narrative are often a good way to explain the importance of heritage preservation to many people.

75. 2016 Report: pages 55 and 56. Correction to the content: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) is color, not b&w – a Jaws spoof.

76. Here it is worth reflecting not only on the catalog’s excellence in terms of title availability and content navigability, but also the need to review technical specificities and the dimensions of the watermark logo filling part of the film image, an experience reported as frustrating for many site visitors.

77. Brazilian films considered lost or about to be lost. August 2020. http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm.

78. Proprietary technologies, obsolescence of file format, codec, software, hardware, metadata management, migration.

79. In addition to being catastrophic for fauna and flora, the devastation will directly affect the cultural heritage preservation field due to this field’s direct relationship with the climate, with issues such as larger variations in temperature and humidity taking on special importance. I am unaware of studies in Brazil on the climate crisis and its impact on the area of ​​heritage. From among discussions held in other countries, I would highlight the 2020 realization of the Orphan Film Symposium.

80. The artificial intelligence supercomputer of Westworld (2016,Jonathan Nolan), set in almost four decades in the future.

71. The symbol of misinformation is the science being discredited by social networks and messaging media (especially WhatsApp, a company acquired by Facebook), which makes the act of disseminating scientific information on containing the Covid-19 pandemic more difficult. Research carried out in twenty countries shows that Brazilians believe in their scientists the least among citizens of any country: Brazil with its back to science. September 2020. https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia.

80. Filmography Dictatorship Brazil. September 2020. http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html.

BIBLIOGRAPHY

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

The Cinemateca Brasileira (CB, or “Brazilian Cinematheque”), the leading audiovisual heritage institution in Brazil, is going through its worst-ever crisis in 2020. As a result, its extensive collection and elaborate technological machinery are threatened, as well as the knowledge that permeates from both. At the beginning of the year, a flood occurred in the Cinemateca’s warehouse, drastically affecting part of the film and equipment collection stored there. Since August 2020, the collection and facilities are without proper technical support; and at this moment of writing, there is no news of an immediate resolution that meets the urgency. Inaction and neglect with the Cinemateca Brasileira are just two examples of the Brazilian government’s perversities, which additionally include the structural dismantling of the public health, education, and cultural systems,1 and the ecocide and genocide of the country’s native and black populations, the latter of which has been accelerated by the Covid-19 pandemic. The Cinemateca crisis took on unprecedented proportions in 2020, but its origin came earlier, going through the administrative and political turmoil of 2013 and a fire in early 2016. This article discusses the work carried out at the institution in mid-2016, the challenge of its continuity after the team’s reduction in 2017, the alleged solution with a new management model in 2018, and the 2020 hecatomb.2 This text also presents a few conjectures about the relationship between Brazil’s audiovisual heritage and its audiovisual production industry. The series of crises over the last 74 years, marked by the four fires and the flood, are the broad consequence of what Brasília-based museologist Fabiana Ferreira highlights in her thesis “A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil” (2020).3 She claims, “the only stable aspect in public policies for audiovisual preservation is its inconstancy. A succession of disagreements and disarticulations by the political agents responsible for the creation and implementation of policies without a real national governmental project that crosses mandates” (2020, p.109). According to Hernani Heffner, chief curator of the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro, this is not only the biggest crisis in the history of the Cinemateca Brasileira, but also the biggest crisis of Brazilian audiovisual heritage.4

Overview of the Last Two Decades

Brazil is a federal republic of continental dimensions – the fifth-largest in territorial extension. It has 26 states and a federal district. The country has undergone two re-democratization processes, the most recent in 1984 after the end of the military dictatorship. In the 21st century, Brazil has had economic growth, a reduction of social gaps, and extreme-poverty rates. Universities flourished and the audiovisual industry solidified through new federal policies and programs as a result of the investment policies of the Audiovisual Secretariat (SAv) / Ministry of Culture (MinC),5 and the Audiovisual Sector Fund (FSA).6 These investments allowed new professionals to emerge in the film production sector and the consolidation of new film production companies, which, in turn, supplied an increasing number of new films each year. Eventual municipal and state resources for film production were added to the federal ones. However, Laura Bezerra observes that while the government invested in decentralizing cultural production policies, the same did not happen with film preservation (2015). While there were substantial investments in the Cinemateca Brasileira during this period and after the inclusion of the CB in the SAv’s organizational chart, there were also few political discussions about the implementation of policies and actions for the field in a profound way.7 This is a problem that is fundamental for understanding the development of the current crisis. As Fabiana Ferreira diagnosed, “The Cinemateca does not act in the creation and implementation of preservation policies, either by conducting discussions and holding dialogues with the sector or by actively participating in political spaces at the federal level, such as the National Film Council, for example. There was also no structured dialogue with other memory management entities” (2020, p.108). The State’s insufficiency in their management of Brazilian heritage causes profound reverberations, especially affecting the audiovisual production industry which seems to not recognize preservation as a necessary element for their works. Still, the current Cinemateca Brasileira crisis has become yet another argument for the decentralization (and increase) of investments in audiovisual heritage nationwide.8 Brazil has many federal, state, municipal, and private heritage institutions that are not in the spotlight and that also demand urgent actions and resources.

Over the last few decades, there has been constant maturation in the field of audiovisual preservation. For example, the establishment of specific financing programs; the distribution of new publications; the creation and growth of the festival Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), where the National Meeting of Archives and Audiovisual Collections takes place;9  the formation of the Brazilian Association for Audiovisual Preservation (ABPA) and the elaboration of the National Plan for Audiovisual Preservation (PNPA).10  Also, there has been a growing number of Preservation-related events each year.

Cinemateca Brasileira – A Brief History

The Cinemateca Brasileira has had several administrative arrangements. It began as a civil society organization and later moved to the public sphere. Its long history includes many setbacks with some positive developments. The writer, essayist, critic, researcher, professor, and activist Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977) is the protagonist in the creation, defense, and management of the Cinemateca Brasileira. Paulo Emílio’s impact on the field of Brazilian Cinema is broader than his work on the Cinemateca itself. His work was fundamental in the valorization of Brazilian cinema, in its qualification as a historical document, in the defense of its preservation, and in creating university cinema courses. Paulo Emílio was also active in international politics as a regular member of the Executive Committee of the International Federation of Film Archives (FIAF) between 1948 and 1964, eventually becoming the organization’s vice president. He is also a renowned author in historiographic studies of cinema, with publications on the French director Jean Vigo and the Brazilian filmmaker Humberto Mauro, among others. As a teacher, he was vital in the formation of numerous important scholars, film critics, and preservationists, such as Carlos Augusto Calil, Carlos Roberto de Sousa, Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet, Maria Rita Galvão, and Olga Futemma – some of whom continued his work at the Cinemateca Brasileira.

In consideration of the many publications on the Cinemateca Brasileira in Portuguese and the limited English repertoire that exists in comparison, what follows here is a brief overview of the institution’s key historical moments. In 1940, intellectuals from São Paulo created the Clube de Cinema de São Paulo (São Paulo Film Club), which promoted the exhibition of films, conferences, debates, and publications before being closed in 1941 by the country’s then-reigning dictatorship government. In 1946, Paulo Emílio went to France to study at the Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC). He grew even closer to the Cinemathèque française, an institution founded in 1936 with which he had contact since living in Paris during the previous decade – the period when his passion for cinema awoke. The second São Paulo Film Club was created in 1946, and in addition to its previous activities, it began to develop the initiative of prospecting and preserving materials from Brazilian films. 1946 is therefore considered to be the milestone year of the Cinemateca’s creation. Paulo Emílio affiliated the Club to FIAF in 1948. In the following year, the Film Library was created, and then connected to the newly created Museum of Modern Art of São Paulo. In 1956, the archive was detached from the museum and became the Cinemateca Brasileira, a non-profit civil society. The Advisory Council was formed the same year.11 As a result of the self-combustion of a cellulose nitrate reel, the Cinemateca’s first fire occurred in the summer of 1957, which “completely destroyed the library, the photo library, the general archives, and the collection of devices for the future cinema museum, as well as one-third of the film collection” (Gomes, 1981, p. 75). The tragedy elicited support and donations from national and foreign entities, and the Cinemateca resultingly gained space in the largest urban park in São Paulo, Ibirapuera Park. In 1961, the Cinemateca became a non-profit foundation, an essential status for its autonomy and ability to raise public resources.

In the following year, a new non-profit civil entity called the Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC, Portuguese for “Society of Friends of the Cinematheque”) was created to assist the Cinemateca in its management of financial resources and to develop various activities to support the Institution. Initially, the Cinemateca mainly held film screenings, but from the 1970s onwards preservation became its axis partly due to the declining state of its collection. The late 1960s and mid-1970s formed a critical period for the institution, as it had few employees and much voluntary work. Unfortunately, the Cinemateca was unable to pay its annuity fees, and therefore it was disconnected from FIAF in 1963. The CB became an observer in 1979 and received its full FIAF membership again in 1984. The Cinemateca’s second fire occurred in the summer of 1969 for the same reason the previous fire was triggered, resulting in the significant loss of film-related materials. In 1977, the institution’s Laboratory was created with equipment from commercial film laboratories that had been deactivated. Paulo Emílio passed away from a heart attack that same year.

In 1980, an operations Center was opened in São Paulo’s Conceição Park for documentation and research work. The third fire occurred in the autumn of 1982. As a result, a move was made to incorporate the Cinemateca into the public sphere. In 1984, the CB Foundation was extinguished, and the Cinemateca was attached, as an autonomous organ, to the National Pro-Memory Foundation. In 1989, a cinema12 theater was rented to screen the archive’s collection in the busy neighborhood of Pinheiros, which significantly leveraged São Paulo’s cinema scene. By the end of the decade, the Cinemateca staff consisted of about 40 people (many of them former students of Paulo Emílio), 30 of whom were hired with formal contracts.

In 1990, the government extinguished the National Pro-Memory Foundation and the Cinemateca was incorporated into the Brazilian Cultural Heritage Institute (IBPC). This organization transformed into the (still-active) National Institute of Historic and Artistic Heritage (IPHAN) four years later. In 1997, the Cinemateca’s current facility was founded, a heritage site converted from a slaughterhouse after nine years of reformations. The definitive headquarters13 aggregates the conservation and screening departments that had previously been scattered throughout the city of São Paulo. This centralizing was a crucial element in the institution’s consolidation process after decades of scarce resources, precarious infrastructure, and oscillations in institutional dynamics.

In 2001, a vault with a proper climatization system was inaugurated with an initial capacity of one hundred thousand reels. In the same year, the Brazilian Cinematographic Census project began14 with funding from BR Distribuidora.15 The Brazilian Cinematographic Census project was an essential step for appraisal and basic conservation procedures in the collection,16 and the training of technicians. The project “was organized around four basic axes: the appraisal and examination of the existing collection, which was previously concentrated and dispersed; the duplication of reels threatened by deterioration; the dissemination of the work and its results; the study of legal measures for the protection of audiovisual heritage” (Souza, 2009, p.258). In 2003, upon resolving that IPHAN was not meeting the scope of its tasks, and after deliberation by the Council, the CB was attached to SAv/MinC. In the following years, the resources transferred by MinC gradually increased. In 2003, the CB implemented a short internship program for technicians from other institutions. From 2004 to 2006, the Prospecção e Memória (Prospecting and Memory) project followed the Census project, especially concerning the cataloguing of Brazilian movies compiled in the Cinemateca’s Filmografia Brasileira (Brazilian Filmography) database.17

In 2005, SAv created the Brazilian Audiovisual Information System (SiBIA) which was coordinated by the CB. It was “a program that aimed to establish a network that currently counts on more than 30 institutions that dedicate themselves, primarily or in subsidiary fashion, to the preservation of moving image collections throughout Brazil”.18 In 2006, the CB hosted the 62nd FIAF Congress, “The Future of Film Archives in a Digital Cinema World: Film Archives in Transition”. In that same year, on the institution’s 60th anniversary, Luiz Inácio Lula da Silva became the first (and only) president of Brazil to personally visit the CB, with representatives’ delegation. In 2006, the CB published the “Manual de Manuseio de Películas Cinematográficas” and the “Manual de Catalogação de Filmes” da instituição (Film Handling Manual and Cataloging Manual), which became a primary reference for other preservation institutions, as scarce technical publications existed in Portuguese at the time. In 2008, SAC became a Public Interest Civil Organization (OSCIP) and, since then, the transferring of resources to projects carried out at the Cinemateca has been massive. Under SAC management, SAv’s projects were carried out in an agile way, unlike the Ministry’s bureaucracy. At that time, many of SAv’s programs were achieved at the Cinemateca, such as “Programadora Brasil”.19 As of 2008, annual reports that described the archive’s operations throughout the year were published online,20 except for the following years: 2013, 2015, 2018, and 2019. As a result of the census, the lab preserved and restored numerous films and created new access materials. In 2009, the CB launched the DVD box set “Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema), with 27 early films accompanied by new soundtracks. In 2011, a secondary site was opened in the neighborhood of Vila Leopoldina21 to store films, documents, and equipment. In 2012, the first edition of the magazine Revista da Cinemateca Brasileira was published and in the following year, its second edition was published.22 In 2013, a political-administrative crisis was initiated, and the Cinemateca’s executive director was dismissed without due dialogue with the Council or appropriate measures taken for finding his replacement or formulating a transition plan. The Comptroller General of Brazil carried out several audits regarding SAv resources executed by SAC and the acquisition of collections by the government.23 At the end of the year, of the 124 employees that had been working before the crisis, just a few remained, including 22 public servants directly linked to the Ministry.24 From the 2014 Report, it is possible to verify that some of the institutional workflow continued. Below, I present data that reflect the interruption of work in 2014 (and 2015). This work stoppage would drastically affect the CB’s collection:25

In the summer of 2016, the Cinemateca’s fourth fire occurred, again due to a nitrate reel’s self-combustion. The loss was estimated at a total of 1003 reels of cellulose nitrate films referent to 731 titles. In addition to the discontinuation of the nitrate collection analysis after the 2013 crisis, technicians realized a few years later that someone had allocated new reels at the Cinemateca’s nitrate vault without the proper removal of the transport packaging. This could have been avoided if the technical team had been tasked with allocating and reallocating works within this film collection. This oversight potentially created conditions for a microclimate prone to self-combustion, and it could have been the second factor responsible for the fire. However, the first and most important factor for the fire will always be the government's neglect, given the lack of resources for the institution’s primary activities.

Cinemateca Brasileira –  2016 and 2017

The 2016 fire coincided with hiring 11 new technicians, an action made possible by a one-year contract signed between SAv/MinC and the Educational Communication of the Roquette Pinto Association (Acerp) at the end of 2015. Altogether, until the middle of the year, 42 technicians were hired, in addition to the 15 public servants directly linked to MinC. Third-party companies were contracted for essential services (maintenance, cleaning, security, and IT). Seven technicians were also hired for the flow of Legal Deposit,26 made possible by the Brazilian Film Agency (Ancine). The tone set by Cinemateca Brasileira director Olga Futemma27 in the 2016 Report is one of optimism and pride in meeting the goals established in the contract’s Work Plan, though there are due signs of the difficulties and challenges created from the discontinuity of work in the previous years in the report as well. A highlight of the work carried out as a result of the fire:

“Appraisal and reporting the losses […]; examination, separation by technical deterioration [...] for lab processing; provisional allocation of the remaining 3,000 nitrate reels; creation of a project, for the burnt vault, for fire prevention devices [...]; basic renovation of the vault, carried out by the Cinemateca’s team, for the return of the collection [...]; technical disposal of fire residues”.

Despite the disaster, MinC did not provide resources for preventing further fires.28 Another challenge explained by Futemma was the situation of the Laboratory, which had undergone a work stoppage. “The scenario was heartbreaking”, she claimed. To stress its importance: The Laboratory at the Cinemateca Brasileira is the most complete (and possibly last) of the photochemical labs in South America. It has the ability to process film-to-film, including 35mm and 16mm, b&w of all materials and color prints. The Lab can process smaller gauge film formats such as 8mm, 9.5mm, and 16mm film as well. In addition to its capacity to specifically work with film, the Lab also contains a wealth of digital equipment. These include the ability to scan 35mm film-to-digital (HD, 2K, 4K, 6K) and the ability to print digital back-to-film, such as printing digital to 35mm film. The Lab can scan several video formats to digital, including U-Matic, Betacam SP, Digital Betacam, DVCam, and others. It also has the capacity to conduct digital image and sound manipulation, including color correction and restoration. The machinery has even been outfitted over the years to process materials with advanced deterioration.29 However, due to the lack of staff over previous years and the resulting lack of maintenance and parts, it became impossible to resume some of these workflows.

The Cinemateca’s current audiovisual collection comprises about 250 thousand nitrate, acetate, and polyester film reels, in addition to a large gathering of magnetic tapes and reels, and approximately 800 terabytes of digital data – mainly comprised of digitized materials from the collection and Legal Deposit materials. The film-related collection comprises about one million documents, such as posters, photographs, drawings, books, scripts, periodicals, censorship certificates, press materials, and documents from personal and institutional archives.30 There is also a non-cataloged equipment collection. In recent times, the institution’s resources and activities were divided among the following departments: Film Preservation, Documentation and Research Center, Access – Programming31 and Events, Administration, Maintenance and IT.

In the Film Preservation sector, several task flows were executed throughout 2016: monitoring of the climate control of the deposits, movement of materials according to their physical state of deterioration, documentation review, applicant services, and emergency duplication of materials (which will be discussed more later on). A significant element of our workflow was to document mandatory preservation actions in a collective fashion, a task for which the Cinemateca lacked sufficient resources. After months of corrective maintenance and evaluation of lab chemicals and raw film stock, the processing of deteriorated film materials began: per the 2016 report, “the selection was made by considering the technical conditions of the materials, [with an investment of] less time and resources in the complementary actions of a single work so that it would be possible to make feasible actions, although incomplete, in a wider number of materials”.32

Due to goals established in the Work Plan and the limited available time and staff in 2016, the selection of films for processing in the Lab was only carried out by one technician. However, the ideal context would be one in which there were institutional debates and discussions about the film selection process. Attention was taken not to select consecrated narrative feature films,33 but instead, to cover “material from fiction films, documentaries, newsreels, domestic films, and scientific films… without subjective evaluation of the content of the works or any curatorship” (2016 Report). The selection prioritized the state of deterioration of the materials and not their content. An aspect of this workflow worth being critical of is that many worthy films were not being selected, which possibly further increased their ostracism. Throughout the analysis process, some materials were evaluated as not processable. Since these films were considered unique, if they were not processed and restored, it would represent the death of the images and sounds they contain. Countless materials so deteriorated that they did not meet the conditions for a complete duplication. Also, newly generated materials often contained photographic marks of deterioration that were existent in the material prior to them. During this workflow, the film stock purchased in previous years was used. However, a few years later, the archive ran out of raw film stock for its workflow.

The eventual losses of films and the specificities of processing them raised awareness around the need to create a standardized methodology for evaluating and documenting films. Because every film is its own unique material, this standardized methodology could help guide preservation and access actions. The “preservation status” was thus created, and this categorization was integrated into the film’s internal documentation and incorporated into communications with the rights holders. This documentation would include the categorization of the preservation status, like “partially preserved” and “partially lost”, with recommendations such as lab processing or research for new materials.34 Since these categories would frequently vary throughout the year as the materials’ physical conditions could change, the original date that a film’s status was proclaimed was as important as the actual status itself.

The database solution used at the Cinemateca Brasileira was WinIsis,35 which is a poor tool for complex data analysis. Several workflows – analysis, outflow of materials, and creation of new materials – required constant updating of the audiovisual database, which was interrupted because of the institution’s broad structural problems. In parallel, the open-source and Web-based project Trac36 was purposed and standardized for internal documentation workflow on the intranet. Trac was basically a Wiki documentation and ticket system. According to the 2017 Report, this intranet “makes it possible to maintain information horizontally among sectors, collaboration in the construction of documentation, the continuity, and organization of information on the same platform, […] used to document different internal procedures; norms and instructions for internal documentation; reports and texts related to the institution; information related to external requests and data of materials analyzed and processed”. The effort to keep internal documentation accessible, horizontal, and transparent, consistent with a memory institution’s role, did not comprise communications with Acerp and the projects sent to the Ministries. An essential element for those years was the investment in technological development, as documented in the 2017 report, which allowed the analysis of information from the database in a dynamic way and the research for solutions to foster the institution’s autonomy.

The ClimaCB project is worth mentioning, as it allowed for the online monitoring of climate control. It is a combination of open-source software and hardware that would list which guidelines and codes would be available in Git for free use. Unfortunately, the project was not published. Considering the potential cardinal role of the CB within the scope of Brazilian audiovisual heritage, it is clear that participation in technical discussions and the publication of proposals and technological solutions are both wanted and needed.

During the two years under the Service Contract, Olga Futemma held meetings with the technical staff to share news, impressions, and strategies. The meetings reinforced the notion of the team’s proportion and strength and served as an injection of spirit. Another positive development that brought the preservation team together was the Cinemateca’s new website, as the previous site had had obsolete navigation and tools. A moment of heightened visibility came when a short video made by the technical team showing the history of the institution’s logo dating back to 1954 became widely shared on the internet.37

The staff in the Film Preservation department was balanced between former technicians who ensured the continuation of workflows and new technicians who provided fresh evaluations for the workflows. The difficulties in creating interpersonal relationships during previous years and feelings of insecurity over the 2013 crisis were negative aspects that we avoided discussing within the workspace.

2016 was marked by the autonomy and intense communication of the technical team, but also by setbacks. In May, MinC published a public tender for electing a Social Organization (SO) to undertake the CB’s management. This was still during the Presidency of Dilma Rousseff. Shortly afterward, a misogynist coup occurred – by dint of the process of impeachment which eventually led to Rousseff’s ousting and the taking of power by her former vice president. Shortly after he took office, he tried to end MinC, but reversed this position in response to intense popular pressure. The new Minister of Culture canceled the public tender for electing a Social Organization for the Cinemateca Brasileira, and it was released months later with changes.

July 2016 brought one more surprise: after a restructuring of MinC, five positions at the Cinemateca were eliminated. At the time, these positions were occupied by the director and experienced technicians. A new director would be indicated by the Ministry, without the necessary expertise and without the Council’s participation, a move considered to be unprecedented at the time. Audiovisual associations issued letters against this announcement and the Council issued a manifesto38 in favor of revoking the layoffs and proposing a partnering with the Brazilian Museum Institute (IBRAM). The stance eventually led to the reversing of the dismissals and a rehiring of the director and technicians.

In the following months, the CB and SAv/MinC jointly sought to prevent a gap between the expiration of the Service Contract with Acerp, which would end in December, and the new management determined by the selected SO after the public tender. A solution was finally found a day before the contract’s expiration – an extension until April 2017. But, “as the residual value is not enough to remunerate for four months all technicians previously hired, it was necessary to reduce the staff (by about 75%) and, as a consequence, workflows”, according to that year’s report. The year ended with mixed enthusiasm for the future of the CB. While there was Paulo Emílio’s centenary celebration, which included the launch of a series-specific website,39 courses for the general public and publications devoted to Paulo Emílio’s work, there was also discouragement for the downsizing of the Cinemateca’s team, as the staff would not be the same size again until June 2017. The impact on the CB of the substantial reduction in technicians is evident, as can be observed in this 2016 and 2017 lab processing chart which reflects the amount of processed material:

In May 2018, the contract with the SO for the CB’s management was signed, followed by a ceremony attended by the then-Minister of Culture, who claimed that “the crisis is over” thanks to the new management model. Acerp, which managed the CB via a Service Contract that began in 2016, was the SO selected in the public tender. In the case of the Cinemateca Brasileira, this legal indenture would contribute to the current crisis. It was not legally possible for Acerp to directly sign a contract with the Ministry of Culture (to which the Cinemateca was linked) due to its preexisting contract with the Ministry of Education (MEC). Thus, the management of the Cinemateca was officially fulfilled by an amendment to the main contract.40

After the contract’s signing, Acerp appointed a new director without the deliberation of the Council, which was then ostracized from further organizational discussions. Acerp’s first action that had a substantial impact on the dynamics of the institution’s technical team was creating a new customer service department, installed for meeting the growing number of outside requests, especially requests for access to the Cinemateca’s audiovisual collection. The other sectors’ services and fulfilling access requests never stopped; the main bottleneck was providing access to the audiovisual collection. Every collection request was in theory recorded, answered, and eventually met in the order of their arrival, the possibility of completing the request, and the processing time to complete it. Despite this protocol established by the team, a sign of the CB’s subjugation would be the intensification of projects becoming prioritized over others, as determined by the Minister or the board of Acerp. This non-conformity with the institution’s protocols generated personal discomfort among the preservation team.

For the Film Preservation department workers, the new customer service meant there would be no more contact with researchers and producers, who were used to the greater agility in meeting their requests that the larger staff provided before 2013 and were frustrated by the reduced team’s limited response. Besides, the dialogue with producers and researchers about their practices showed a lack of understanding of preservation’s importance. Furthermore, this dialogue proved to be shortsighted from a market perspective when accessing materials held in the CB for digitization without proper processing.41 Another indication of incomprehension and disrespect for the preservation team was that the agreed upon financial compensation that the institution was expecting never arrived. This matter was elegantly noted by Olga Futemma, who stated in the 2016 Report: “some of the bad situations we faced were due to: tight deadlines; the total disregard of the need for compensation – not in monetary terms, since the Cinemateca cannot charge [for admissions, loans, or services at the time], but in actions that should have been foreseen in its projects and that would allow expanding the collection [...]; the misunderstanding that unique (preservation) materials should not leave the collection without supervision […]”. She added that “it is necessary, therefore, to continue to make efforts to change the conception of the public good as something that can be freely available for the achievement of private projects, and for the understanding of the need, still in the elaboration phase, to consult with the Cinemateca on the feasibility of the project in concerning the intended materials and the deadlines necessary for their availability. These are two necessary conditions for planning whose meeting benefit both the requester and the collection”.

In September 2018, former members of the Board issued an Extrajudicial Notification to MinC, requesting the “revocation of acts […] and rules that violate the technical, administrative and financial autonomy ensured in the deed of incorporation of the Cinemateca Brasileira Foundation […], in addition to: 1) The constitution of a new advisory council in compliance with the necessary autonomy of the body; […] 3) Return of the Cinemateca Brasileira to the structure of IPHAN”. The notification also mentions the “SAv’s omission in the face of the [2016] fire […], and that the Cinemateca Brasileira is no longer part of the structure of the Ministry of Culture and has not earned any public positions”.

Cinemateca Brasileira’s Management by the Social Organization

At the time of the Cinemateca Brasileira’s consolidation in the first decade of this century, maintaining its technical staff was a constant challenge. The technicians were hired for projects with specific durations via different forms of hiring.42 This dynamic created fragility and instability in workflows and compromised strategies and structural solutions, in addition to leaving the technical team in vulnerable positions.43 The SO management model would be the desired solution to enable the stabilizing of the technical team’s employment statuses after years of scarcity. Futemma evidenced this hope in an e-mail sent to the ABPA listserv: “This discussion [of the SO management model] has been taking place for eight years, involving MinC, SAv, the Council and the Cinemateca team. We have great expectations that, by the end of this year, a new management model will allow the Cinemateca Brasileira to exercise its full potential in favor of Brazilian audiovisual heritage”.44

The SO management model was the solution deliberated upon after a period of instability among the Cinemateca’s technical staff. It came with the possible preference of a SO created especially for the management of the CB, Pró-Cinemateca, built in 2014 by members of the Council and SAC with the sole purpose of managing the Cinemateca. It would potentially have the participation of professionals from the field in the construction of a Work Plan – the core document for the management itself and one of the selection criteria in the public tender. Pró-Cinemateca qualified for the first tender call, but it could not advance in the second tender call due to a new requirement for previous experience of the institution in the management of public resources. The Pró-Cinemateca itself had no experience, as it had only been created recently. Still, its representatives had spent many years at the Cinemateca’s Council, which, in practice, could have been argued as a more relevant credential than the company’s management history.

Today, following the emergence of controversies surrounding the management of other public entities, cases of corruption, and a series of publications made in the Academy and on the internet, the SO management model is widely questioned.45 It has been shown to be particularly risky for cultural heritage institutions with insufficient government funds, contexts in which essential conservation workflows (often costly and of low visibility) can be overshadowed for the benefit of actions with greater visibility. The elaboration of a work plan without the technical team’s effective participation can compromise its primary objectives. As diagnosed by Fabiana Ferreira:

“Another problem with this tenure is, claiming people are free to raise funds through means other than the State ignores that they also end up at the mercy of the State. Because, in Brazil, there is no tradition of private institutions supporting culture. The private sector in Brazil does not support cultural initiatives. Traditionally, millionaire families and Brazilian corporations do not make donations or investments in cultural equipment, even less for those who do not give visibility to the brand”. (2020, p.110)

In the CB’s case, the management by the SO enabled the CLT (Consolidation of Labor Laws)46 hiring of a good part of the team, whose choice, fortunately, fell to the institution’s coordinators without the intervention of Acerp. However, the technical staff gradually became conditioned to the Acerp guidelines. This conditioning was evident during internal meetings, where it was no longer possible to play an active role in collection prospection47 or to speak on behalf of the institution without Acerp’s consent. Signs of change were perceived in the team’s modes of social interaction in a dystopian way. For example, a camera network to oversee the collection and equipment was installed by Acerp and covered spaces previously used during work breaks. This modern panoptic lookout generated discomfort among us.

Internal courses on technical subjects or on workflows and activities between sectors, which had been held regularly since 2017, were suspended. Fundraising for the Cinemateca was among the actions sought by Acerp, and the usages of the collection and facilities proved to be a quick means to this end, thus generating long periods with a constant flow of production of major events that held varied themes, sometimes apart from the cultural and audiovisual spheres. Since Acerp did not issue the 2018 and 2019 Reports, access to information about these events is not possible to obtain. The absence of the publication of annual Reports is a dangerous indication of the failure of the SO model for the Cinemateca, as they have been essential documents for accountability and transparency of the institution’s management. During the SO period, Acerp issued reports for the Ministry on the performance of Work Plan goals. However, these documents are quite technical and not very informative, in addition to being inaccessible today to the general public. Acerp proposed a Code of Ethics and Conduct for CB employees, presented at an event on company compliance – the sole enunciation of religious beliefs48 was a significant demonstration of the distance between Acerp and the CB’s institutional mission.49 Plus, Acerp’s inability to clear bureaucracies for equipment acquisition for the Lab was evident, which affected work plans that were reliant upon such equipment’s availability. Requests for access to the audiovisual collection by TV Escola for use in their programming became routine, while Acerp meanwhile ignored some work-related needs pointed out by the technical staff. Film programming proposals were negatively impacted by the presence of Acerp. After all, how does one present the idea of ​​a Fassbinder series to a board that made homophobic jokes during small talk before meetings?

The late self-cancellation of CryptoRave’s50 2019 edition by the Cinemateca team for fear of reprisal was symptomatic. An undeniable symbol of the occupation by Acerp was the creation of a new institutional website without the active participation of the CB’s technical staff in editorial decisions. As an example of this fiasco, Acerp implemented a new website without the previous dynamic calendar tool. Resultingly, the new website has a more updated design but is less functional than the previous site had been. Also, Acerp immediately implemented an intermediate logo (‘cinemateca brasileira’ in white on a red background), replacing the 1954 logo which was created by the celebrated designer Alexandre Wollner. Acerp commissioned a new logo design that was presented to the technical staff, and allowed us no time to deliberate as to whether or not we approved of it. The fresh concept and layout were surprisingly similar to the logo of the Curta Cinema - International Short Film Festival in Rio de Janeiro. Acerp is in fact headquartered in Rio de Janeiro and the Cinemateca Brasileira in São Paulo,51 which produced another convoluted aspect: the expenses of transportation, accommodation, and meal tickets for directors, managers, and legal consultants between the two cities, which altogether sum up to a considerable amount. Rather than spend this money on transportation, it could have been invested in the CB itself.

An unquestionable symbol of the SO management model’s failure for the Cinemateca was the dissolution of the Council, constituted of representatives of the government and civil society. The CB’s 1984 legal document of incorporation to the federal government determined the existence of the Council. Acerp, acting without the Council’s input, appointed several directors who had no experience in heritage or preservation fields. This appointment further alienated the technical team who worked to manage the CB. In addition to all of this, the Cinemateca – a historically non-partisan institution – became, through Acerp, the destination of people linked with the extreme right-wing political party of the acting Brazilian president. These people assumed various administrative and communicative positions at the institution without any proven expertise. The newcomers would frequently present the institution’s vaults to visitors without a technician’s due presence, further undermining conservation efforts. The presence of military personnel at the Cinemateca52 and their failed attempt to organize a military film series gained broad reverberations. During the first two years of Acerp’s management (2016-2018), the technical team was autonomous and in control of projects. However, there was a major loss of autonomy in the SO management model from 2018 onwards.

The administrative limbo of ten public servants who were allocated to the institution found themselves in is another important matter. Since the beginning of the SO management, when the CB ceased to have administrative backing under the former SAv/MinC, these people had remained in their positions. Some of them had served at the institution for more than three decades. Before the SO amendment was signed, they were guaranteed that they would not receive losses in their salaries and benefits. However, after the amendment was signed, the governmental understanding changed, and their assignment to Acerp was never made official. Despite this situation, the Ministry instructed these workers to continue with their activities at the Cinemateca. After a year and a half of neglect and contradictory messages, they had to abruptly abandon their functions at the CB to work at the Southeast Ministry’s Regional Office in São Paulo without any infrastructure to welcome them. In addition to this sudden displacement, they were forced to acquiesce to a legal process based on the necessity of returning a bonus earned during the period that they had worked at the CB under the SO administration – a bonus which represented a significant part of their salaries.

Although Acerp assumed the institutional relations more broadly, the Cinemateca’s relationship with FIAF continued to be maintained by Olga Futemma and fellow coordinators, who issued thorough annual reports to FIAF and the prompt inspection of information requested by affiliates. However, between 2016 and 2019, neither Futemma or the coordinators represented the CB at the FIAF congresses held in Bologna, Los Angeles, Prague, or Lausanne.

2020 Crisis

In February 2020, the CB’s off-site facility in Vila Leopoldina was badly affected by a flood from heavy rains and lack of proper management of the storm sewer, combined with the intense pollution of the Pinheiros River, less than half a mile away. The sewage water reached more than a meter in height and destroyed a part of the film and equipment collection, including the last surviving materials of some narrative short and feature-length films, as well as many unique elements of newsreels, advertising materials, and trailers. The Documentation and Research Center assessed the damage such that it was not considered to be significant, since the majority of what had been destroyed was duplicated material. The flood damaged shed facilities and equipment. After thoroughgoing sanitation of the facility by the cleaning team, a part of the technical staff was deployed to clean, organize, and rescue the affected materials. Acerp or SAv did not carry out an emergency plan for the urgent assessment and processing of the site’s audiovisual and equipment collections (which had been the most affected by the flooding), such as hiring an extra technical team temporarily or even granting permission for the obtaining of volunteer work.53 The catastrophe was not immediately reported due to the lack of coordination between SAv and Acerp, and the technical team was not permitted to make news of the flood available to the public. The small team established different shifts in consideration of the high toxicity of the environment and the exhaustive work involved, with their efforts made all the more difficult by the warehouse’s high temperatures without air conditioning and local ventilation.54 Film materials were selected and transferred to the main headquarters for evaluation and processing in the Lab, but the raw film stock was running low. The damage of the audiovisual and equipment collections in the facility, the inaction of SAv and Acerp, the crisis which would subsequently occur, and the interruption of the rescue and research work ultimately makes this flood equivalent in nature to a catastrophe like the Cinemateca’s fires. Per Fabiana Ferreira, such disasters “are a metaphor for the fragility of the making of an audiovisual preservation policy that goes up in flames with each change of Government, of the creation of entities, of new agents” (2020, p.23).

Since the 2013 crisis, the Ministry’s funds have fallen short, which has resulted in smaller teams than were anticipated for the work plans. At the end of 2019, there was yet another crisis, when the then-Minister of Education (MEC) decided not to continue the TV Escola project – the main object of Acerp’s contract with MEC – and did not renew the SO Contract with Acerp. Once the MEC’s main contract was extinguished, all other agreements were also terminated. This is despite the CB-specific amendment ostensibly being valid until 2021. As a result of this termination, the administration of the CB was left adrift. Acerp spent a few months trying to circumvent the decision and to obtain funds from SAv, the Special Secretariat for Culture, and the Ministry of Tourism, but without success. The year 2020 was filled with absurd news of government decisions involving the CB, causing commotion in the filmmaking community and becoming widely covered on media outlets and social networks.55 In April, Acerp stopped paying outsourced companies and technical staff. Former members of the Council launched a manifesto in May.56

The Federal Prosecution Service initiated civil legal action against the Brazilian federal government in the interest of compelling an emergency renewal of the contract with Acerp. By the end of October 2020, the understanding has been a settled situation involving contracting essential services such as security personnel and firefighters. However, the action is still in progress, and the expectation exists for a new decision that will be favorable to the CB. Resistance and protest networks have been formed and strengthened, diffusely, with multiple participants who have narrowed their communication efforts over time: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, and representatives of the São Paulo Association of Filmmakers (Apaci) - SOS Cinemateca.57 These groups have been active in performing demonstrations on behalf of the Cinemateca and building connections with municipal and federal government representatives. During this time, the CB’s spokesperson has not been the manager or the coordinators, but rather a diffuse representation of employees.58

The technical team continued to work remotely (when possible) soon after the COVID-19 pandemic began and went on strike in June with the Union’s practical assistance. A campaign was then initiated by CB workers to raise funds for colleagues who were left in the most vulnerable situation due to the lack of payed salaries right during the outbreak of the COVID-19 pandemic. The campaign received numerous contributions from individuals and institutions around the world.59 Direct donations were made directly to the CB, such as one from a Brazilian director who donated a sum for repairing a generator and wished to keep his contribution anonymous. In July, a debate was held in the Chamber of Deputies60 with the presence of government representatives and different players in the audiovisual industry and a number of other civil society members. The discussion served as a symbol of the unprecedented repercussion and engagement around the Cinemateca. In a way, it also highlighted the need for preservationists to ensure that the language and information spoken about the CB was factually accurate.61

There were few instances of direct communication between Acerp’s board of directors and the CB technical staff, and the coordinators were sharing news related to the institution in a sporadic fashion. In June, Acerp’s directors issued an undated statement (undated!) expressing solidarity on “difficulties that everyone is going through,” claiming, “do know that we are doing ... everything that is within our reach”. The statement included the commitment that “as soon as we receive funds from the Federal Government, the first step will be to pay salaries and termination packages” – even though it had already been made explicit that there would be no funds transferred by the government. Considering the lack of resources in 2020 for the Cinemateca, the flood, the crisis arising from the Covid-19 pandemic, remote work, and the suspension of wages and benefits, this statement symbolizes the neglect and disrespect that Acerp showed the CB staff. After handing over the Cinemateca’s keys to the Ministry on August 7,62 Acerp unsurprisingly and abruptly fired all of its and the Cinemateca’s employees without arrears and severance pay.

As noted in the 2020 Gramado Letter (published just after the annual Gramado Film Festival), “after countless phone calls, messages, consultations between the parties and postponements, basic and emergency water and electricity services were guaranteed […]; cleaning services were contracted, although the company is not specialized; maintenance services for climatization equipment were contracted, although the company does not offer the necessary expertise; a small fire brigade composed of two employees and a property surveillance company were hired. However, specialized employees’ primordial work is lacking among the emergency needs, without which the collection will not be preserved, even with the resumption of the basic services described above”.63 Without technical monitoring, the smallest of incidents in the collection areas can hold drastic and irreversible consequences. This is the first time in the history of the Cinemateca that any of its technical staff members have been restricted from entering the institution.

Together with the news of the handover of the Cinemateca’s keys to the Ministry of Tourism, it was made clear that a new SO public tender announcement would soon be launched. This announcement has not yet occurred. There is a budget forecast of R$ 12.5 million [about USD 2.3 million] for the Cinemateca in 2020. If not used this year, this value cannot be added to the sparse R$4 million [about USD 720 thousand] foreseen for 2021. São Paulo councilors from different political parties organized a parliamentary amendments fund for the Cinemateca, with support from Spcine, the predominant audiovisual agency in the city of São Paulo. The deploying of municipal resources towards a federal institution requires an unprecedented legal articulation, which is being made by SAC for the emergency hiring of a small technical body. Today, civil society groups are still active, with an attempt underway to activate entities and continue the mobilization.

It is imperative to create an immediate solution to make a technical team viable in 2020 so that the Cinemateca’s collection does not remain unaccompanied. Furthermore, mechanisms are needed for the continuance of middle and long-term management, in a resilient and sustainable manner that can prove consistent with the need for constant maintenance of the collection and continuance of the technical team. It is considered fundamental to open and create calls for civil service examinations for job positions that could confer the desired stability. As diagnosed in the 2020 Ouro Preto Letter:

“Preservation of cultural heritage is a constitutional duty of the Brazilian State and, therefore, it is necessary to recover the role of the public power in the management of audiovisual heritage institutions, resuming the processes of opening public tenders for job positions and implementing management plans designed together with civil society, a directive provided for in the 1980 UNESCO Recommendation for the Safeguarding and Preservation of Moving Images

An idea that has appeared throughout numerous online discussions is the return of CB to a federal government heritage institution such as IBRAM or IPHAN, to which the CB was linked until 2003, when it became the responsibility of SAv. This link to IPHAN provided continuity for the CB in the early 1990s when the federal government promoted the dismantling of cinema and institutional policies. IBRAM is an autonomous organization linked to the Ministry of Tourism, which covers thirty national museums.

Legal Deposit and the Audiovisual Industry

Despite the unquestionable duty of the State (and its evident neglect), I emphasize that interest and concern about an effective preservation policy must be seen as relevant by all sections of the audiovisual industry. We must challenge the generally held assumption that the “symbolic asset of memory is inferior to the symbolic asset of a feature film shown in shopping mall cinema venues” (Ferreira, 2020, p.111). This value was built, for decades, by the industry itself. It is possible that the FSA’s prosperity (and the increase in investments in development, production, distribution, and exhibition), together with the inaction of the audiovisual industry concerning preservation, are directly related to the dimension of the current Brazilian audiovisual heritage crisis. ABPA has repeatedly pleaded for seats on the Superior Council of Cinema and on the FSA Fund Committee, without success. In the 2018 CineOP debate “Frontiers between Industry, Market, and Archives – Content, Promotion and Regulation”, a representative of the FSA Fund Committee suggested for preservationists to search for a different financing source for preservation, distinct from the FSA. When a professional raises such a possibility (and his attitude is common among producers), he does so without understanding the importance of preservation for the entire industry, nor his role in defending the Cinemateca and audiovisual heritage policies. Let this defense be made from the personalized perspective, considering that some of his assets may be held at the Cinemateca: footage for his next film as a producer, the origins of his debut feature, or his family’s home movies. The Cinemateca’s activities in discussions, publications, forums, and technology research could also benefit him in other ways. As Paulo Emílio wrote, “You can’t make good cinema without a cinematographic culture, and a living culture simultaneously requires knowledge of the past, an understanding of the present, and a perspective for the future. Those who confuse the action of cinematheques with nostalgia are mistaken” (1982, p.96). The production industry grumbled64 when debating the need for investments to deal with the giant backlog of audiovisual works which need to be preserved in order to serve the production industry. Such preservation benefits this industry as they are then able to commercially utilize the collections. The business model does not close until we have a massive investment to deal with decades of setbacks and stagnation. I grumble back with this chart:65

In April 2017, the FSA’s 2017 Annual Investment Plan66 comprised R$ 10.5 million [about USD 1.9 million] for the Cinemateca Brasileira. This announced value for the CB was equivalent to 1.4% of the total announced in the document. The amount was never paid, with the justification that the non-refundable funds67 ran out. In May 2018, the FSA 2018 Annual Investment Plan68 appointed R$ 23.375 million [about USD 4.1 million] for investments in Preservation. In December of that year, SAv published a tender for Restoration and Digitization of Audiovisual Content. These were funds that allegedly held a return on investments made by audiovisual companies in restoration or digitization. A preservationist workgroup and CB technicians aided in construction of the document and the digitization and restoration technical guidelines. From the preservationist’s perspective, the tender was intended only for producers with a distribution bias and held the preservation aspect as secondary. The current government suspended the tender about four months after its publication. Therefore, out of a possible sum totaling over R$ 4.5 billion69 [about USD 801 million], no FSA funds whatsoever were actually invested in preservation between 2008 and 2018.

Currently, the Cinemateca Brasileira is the onlyx institution nominated to accept Legal Deposit materials. Since 2016, Ancine has invested no more than R$ 2 million [about USD 356 thousand] in hiring a technical team to analyze materials. New technicians must be hired specially for this, as the Legal Deposit workflow mobilizes several sectors and technicians. Over the years, the CB reported a high failure rate of materials analyzed. According to Gomes (2020), “one of the main causes seems to be the great distance and little information from directors/producers about, in a broad way, the role of an audiovisual archive, and more specifically, the principles of the Legal Deposit”. The expertise in analysis of materials without funds for preserving the Legal Deposit collection can be metaphorically considered through the gesture of slashing one’s own throat. The analyzed materials are left inert on shelves in an air-conditioned vault at the mercy of the famous “silent death”.70 The industry must take part in actions towards the improvement of approval rates and creating conditions for preserving digital-born materials within the scope of the Legal Deposit. Broadly, the narrative and the struggle for policies related to audiovisual heritage must also be formulated and driven from within the industry.

The panorama of the Cinemateca presented in the 2020 Gramado Letter is very significant, with several associations listed as signatories, including other film archives, professional TV networks, and audiovisual companies. A positive sign was a discussion about the crisis during the ABC Week of 2020 (organized by the Brazilian Cinematography Association [ABC]), which is considered to be one of Brazil’s most significant events devoted to audiovisual production. But we still need tremendous action to get closer towards recognizing that this crisis at the Cinemateca Brasileira must remain a concern for the entire industry.

The 2020 Ouro Preto Letter highlights, among many urgent matters, the implementation of a national policy for the area of cultural preservation. The letter outlines some of challenges which will be faced, such as “to claim the creation of mechanisms, to expand the offerings of Brazilian audiovisual works in the catalogs of streaming platforms, with the guarantee of inclusion of works from different periods that can allow access to the vast Brazilian audiovisual heritage”. What would be the suggestion proposed by Netflix (used here as a platform model), for example, regarding the need for investment in Brazilian audiovisual heritage? Such an investment would only provide an opportunity for company-improvement, made viable by Netflix’s presence among the 12 companies that profited most during the current pandemic.The proposal is not so absurd, considering that the company’s Brazilian wing created a R$ 5 million [about USD 891 thousand] emergency fund for the Brazilian audiovisual industry due to the recess in the context of the Covid-19 pandemic.71 The availability of older works on streaming platforms is also a point of concern in the United States.72 In general, Brazilian producers do not have resources for digitizing older titles in ways capable of meeting the platform’s technical parameters and, need to potentially spend whatever resources they do have on lawyers who can help them with rights clearances.73 So, how about the platform launches an investment line for non-contemporary works? This idea would be contemplated by the 2018 SAv/MinC/FSA tender for “Restoration and Digitization of Audiovisual Content”, suspended in 2019. The strength of the audiovisual heritage institutions also would benefit the streaming platforms themselves in the middle term, considering the strong contemporary trend of documentaries based in archival images.74 As an illustration, there is a significant number of U.S. documentaries available on Netflix Brasil that use archival images to build their narratives such as Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), the documentary series Remastered (2018), and Explained (2018). However, there are comparatively few Brazilian films and series that feature archival images to this extent, one exception being Thiago Mattar’s Taking Iacanga (2019).

In addition to the CB Lab’s conservation of its collection, I call attention to the confection of new film prints and digital copies, such as those pertaining to the collection Classics and Rarities of Brazilian Cinema, (which was founded in 2007 and underwent its fourth edition in 2016) and those made in celebration of the annual International Day of Audiovisual Heritage. As a means of registration, I highlight the 35mm and digital prints made in 2016, as contained in the Report.75

Creating new 35 mm prints is one of the crucial roles of a film archive with a photochemical lab, as it is vital to provide an experience in line with the original screening format of a film. Considering how digital exists for the sake of broader circulation, digital access files are made in different formats. In the context of the CB, the effort to digitize films made on film would be carried out more fully with some form of pre-established screening event, ideally with formal curatorship and due contextualization for the works. Currently, the clearest path to digital diffusion of CB assets comes via the institution’s own online Cultural Content Bank (BCC).76

Rafael de Luna Freire’s Cinelimite article "Ten Brazilian Films that Remain in the Shadows due to Poor Accessibility" discussed digital inaccessibility for a combination of canonical titles and rarities throughout the history of Brazilian cinema. In addition to creating effective digital access actions, it is crucial to assess whether original film materials exist beyond imminent risk or whether they in fact require urgent preservation or duplication measures. Rafael de Luna’s list evoked the text “Brazilian films considered lost (or about to be lost)”, published in 2001 in the now-extinct Web magazine Contracampo.77

Differently, the 2001 list was about the existence or loss of preservation materials. In addition to some titles that were eventually lost, others had their (known) unique materials deteriorated to the point of making lab processing unfeasible. In light of the Cinemateca Brasileira crises and the paralysis of research work, preservation actions, and laboratory processing, the act of updating the list made by Hernani Heffner and Ruy Gardnier at that time would be of tragic scope. It would be a national institution’s role to make this list public. Besides remaining accountable to Brazilian society about its audiovisual heritage, this work could also prove to be a strategy for locating previously unknown materials held at other institutions and private collectors both in Brazil and worldwide. Yet, what about the many other films and audiovisual records that have escaped such inquiries and remain ostracized? How many films exist today whose only surviving materials are believed to be incomplete and severely deteriorated prints in inferior gauges? How many Brazilian audiovisual records have we lost?

Conclusion

“If we lose the past, we will live in an Orwellian world of the perpetual present. So, where anybody that controls what’s currently being put out there will be able to say what it’s true and what is not. And this is a dreadful world; we don't want to live in that world.”Brewster Kahle (2014, interview for Digital Amnesia, documentary by the Dutch VPRO)
“Knowledge is effective only when it is shared.”Hernani Heffner (2001, in a hallway conversation at the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro)

Digital audiovisual records have served as crucial tools in the fight for human rights in all national corners. They include records of things such as forced evictions, occupations of cultural or educational sites as a form of protest, demonstrations, invasions of communities by police forces (with high homicide rates among local populations, including children and young people), acts of environmental devastation fostered by the current government, struggles for native people rights and the demarcation of native lands, and crimes against native peoples. These audiovisual registers also function as tools for black empowerment and anti-racist movements, for the emancipation and affirmation of women for opportunities, and against structural sexism. With a profusion of creative talents and narratives, social networks gather the most distinguished cultural indexes of this time. In Brazil, in general, these network’s images remain outside the scope of prospection by Brazilian institutions, with the discussion around their archiving and incorporation within the scope of Brazilian audiovisual heritage still proceeding in a merely tentative fashion. From the preservation perspective, aside from all the challenges inherent to digital data preservation,78 ephemerality exists due to the corporate practices of social networks (which wipe content according to their terms of service).

Social media uses persuasive technology mechanisms to drive individual’s behaviors. Algorithms can give credibility to the untrue, boost flat-earth theory, and put #StopFakeNewsAboutAmazon as a trending topic on Twitter. At the same time, ecocide is loose, and the whole world watches as flames engulf the Amazon, the Cerrado, the Pantanal, and other Brazilian national parks.79 The quantum computer Rehoboam80 is an allegory of the now, in a narrative made explicit by Shoshana Zuboff in her book “Surveillance Capitalism”. We observed successive electoral victories by ultra-right political parties and movements with growing levels of terror and violence. The circulation of fake news on social media has increased the destructive power of Covid-19. Counter-information, deep fake, and fake news robots are connected to the world described by Brewster Kahle, founder of Internet Archive, quoted above. We can lose the past and the present due to frailties inherent in today’s sources of information, with their potential for manipulation and misinformation.81 When the current Brazilian president was a deputy, during the congressional voting process held during the impeachment trial of President Dilma Rousseff, he voted for the memory of the military dictatorship’s greatest torturer, who led the former “Presidenta” torture sessions. At the Cinemateca, we failed to frequently screen and watch the anti-dictatorship films Case of the Naves Brothers (1967, Luis Sérgio Person), Iracema: An Amazonian Transaction (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), They Don’t Wear Black Tie (1981, Leon Hirszman), Go Ahead, Brazil! (1982, Roberto Farias), Twenty Years Later (1984, Eduardo Coutinho), How Nice to See You Alive (1989, Lúcia Murat), Friendly Fire (1998, Beto Brant), and Citizen Boilesen (2009, Chaim Litewski),82 in order to make it impossible to trivialize his actions in the Chamber of Deputies and make it such that no woman would vote for him for president two years afterward. Now we cannot fail to preserve these films and those that have come after, such as Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) and Maiden’s Tower (2019, Susanna Lira).

A significant portion of the Brazilian audiovisual heritage has already been lost over the past century. In addition to recurring fires that destroyed collections of early Brazilian cinema, there have been diverse waves of destruction throughout film history (of short films through the consolidation of the feature as a market format, to silent films after the emergence of talkies, to the replacement of nitrate by acetate), many collections have been dispersed, dismantled, and concealed. Numerous works that came to the film archives arrived in an already feeble state. Still, the delay in recognizing the importance of audiovisual heritage, the absence of public policies for its management, and the oscillation of funding to heritage institutions have led to further losses. With the advent of digital, there is an escalated move towards preserving both what is currently being prospected and what lies outside the current prospection scope. The Cinemateca’s current crisis is severe, and it demands urgent measures from public authorities and the audiovisual industry. Despite the government’s destructive power and the ongoing paralysis of the work, I would like to end with an optimistic tone, one that has been encouraged by many online discussions, articulations, and increasing support about audiovisual preservation in Brazil. Many have advocated for their belief in the Cinemateca’s potential to promote debates and screenings, grant access to the most forgotten collections, provide a space for research, offer a visual reference for the past, and subsidize technological research. People believe in its capacity to captivate children and young audiences with the big screen, present pre-cinema and audiovisual technologies in a museum, and engage the institution’s neighborhood and surrounding community. All of these potentialities of the institution, in addition to numerous other creative uses of its collection and the tools that we might be able to use in the future, have been marred by the successive crises and ever increasing backlog. As a result, we have seen the acceleration of the collection’s deterioration, and limitation of the institution’s reach. It has become even more evident over time that the Cinemateca has been included within a macro-project of the devastation of Brazilian culture and heritage, and its importance as a force for reacting against this project therefore grows larger and larger.

Thanks to Aaron Cutler and William Plotnick for the thorough review.

1.  The Ministry of Culture was abolished on the first day of the current government, then initially incorporated into the Ministry of Citizenship and, later, to the Ministry of Tourism. So far, the Special Secretariat for Culture has had five incumbents without proven expertise. Other cultural heritage institutions are experiencing acute crises, such as the Fundação Casa de Rui Barbosa and the Centro Técnico Audiovisual (CTAv). The Brazilian Film Agency (Ancine) did not transfer funds already committed to the Cinemateca Brasileira and did not issue new film production tenders. It is noteworthy that the Federal Constitution which governs Brazilian democracy claims the “State will guarantee to everyone the full exercise of cultural rights and access to the sources of national culture and will support and encourage the valorization and diffusion of cultural manifestations” (Art. 215). They add that, “the public power, with the collaboration of the community, will promote and protect Brazilian cultural heritage” (Art. 216).

2. From 2016 to 2020, I worked in the Film Preservation department at the Cinemateca Brasileira. I share personal views based on this experience, with an emphasis on the department’s activities.

3. Eng: “The Cinemateca Brasileira and public policies for the preservation of audiovisual heritage in Brazil”.

4. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

5. Through the Ministry of Culture’s policy of decentralization, development and production programs were created with quotas for states which habitually have been restricted from investing in audiovisual production. Also, a policy has been put in place that covers low-budget projects and quotas for new directors, female filmmakers, and native people.

6. Regulated in 2007, the FSA is fed by the Contribution to the Development of a National Film Industry (Condecine) and a tax collected from all media distributions systems. These funds are then invested in new productions mainly in cinema, television and electronic games. From 2008 to 2018, a total of approximately R$ 4.5 billion was invested [about USD $713 million].

7. An emblematic example of this dynamic occurred in 2008, with the presence of the Executive Director of the Cinemateca Brasileira at the 3rd annual CineOP. The theme of CineOP that year was National Audiovisual Preservation Policy: Needs and challenges. Throughout the event, the Executive Director took a firm stand on opposing the articulation of other audiovisual heritage institutions with the Ministry of Culture’s representatives, and the creation of the Brazilian Association of Audiovisual Preservation (ABPA).

8. Among the proposals of the 1979 Symposium on Cinema and Memory in Brazil was, “The creation and promotion of regional centers of cinematographic culture constituted by production units and by film libraries (archives of copies of films), with the basic function of prospecting, research and dissemination of the Brazilian collection [… and] the establishment of an [national] inventory” (1981, 67). Laura Bezerra stated that the “creation of a program to boost filmographies that, despite not having implemented systematic and comprehensive actions, allocated resources for some sectorial actions” (2014, 120). Decentralization is necessary, considering the country’s continental nature and cultural plurality, besides being technically susceptible to disasters.

9. CineOP was created in 2006 and has become the main forum for discussions and articulations on audiovisual heritage and education in Brazil. Each year the Ouro Preto Letter is issued by the meeting’s participants, with alerts and proposals for the audio-visual heritage field.

10. ABPA is an association of film preservation professionals, regardless of their formal occupation. ABPA has worked in favor of developing new and better film preservation policies, the promotion of audiovisual heritage, and the translation and publication of technical film preservation texts. In 2016, ABPA created the PNPA, a document that contains diagnoses and proposals for actions and policies within the field of audiovisual preservation. https://abpanet.org/

11. The Council’s central role is to work to help develop the Cinemateca. Its members are representatives of the public sphere and individuals from civil society who are linked to the cinema or cultural heritage industries. Dismally, men have been predominant among council members over the years.

12. Currently, this theater is called Cinesala. http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

13. The original slaughterhouse had its activities closed in 1927. The space was then used as a deposit for the city hall’s lighting equipment.

14. The Brazilian Cinematographic Census project was based on the idea of Gilberto Gil, musician and then a member of the cultural advisory board of BR Distribuidora. Gil would later become the Minister of Culture from 2003 to 2008.

15. State company Petrobras – linked to providing energy, gas, and oil in Brazil – boosted the production, distribution, exhibition, preservation, and restoration of Brazilian cinema.  

16. In collaboration with the CB, the appraisal project was also carried out at the Cinemateca do MAM (Museum of Modern Art) in Rio de Janeiro. The project involved the (unprecedented) inventory of the Cinemateca do MAM collection with deteriorated materials sent to the CB’s lab. The Museum director determined, arbitrarily, that the Cinemateca could not maintain its audiovisual collection (after the inventory was made). As a result, the National Archive (in Rio de Janeiro) and the CB each received parts of the collection. Rather than having them sent to Rio de Janeiro, some film material owners chose to keep their assets with them, often in inappropriate places. That was one of the Cinemateca’s biggest crises, which is historically relevant for Brazilian cinema (especially for the Cinema Novo movement) and the audiovisual preservation area. The Cinemateca do MAM was directed by Cosme Alves Netto, who had a special connection with international institutions. Hernani Heffner joined the institution in 1996. In 2020, the Cinemateca do MAM underwent a consolidation, with a new building for the film collection and some structural changes in the Museum’s direction.

17. According to Souza, the Brazilian Filmography was started by Caio Scheiby on paper cards, and, in the 1980s, four notebooks were published with records of films produced until 1930 (2009, p.259). Currently, according to the CB’s website, “it contains information on approximately 42 thousand titles from all periods of national cinematography and the most recent and widest audiovisual production, whether short, medium or feature films; newsreels; advertising, institutional or domestic films; and serial works (for internet and television), with links to records in the database of posters and references to sources used and consulted”. Filmografia Brasileira. August 2020. Available at: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

18.Text extracted from 2008 plenary. SiBIA. August 2020. http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. According to Laura Bezerra, “SiBIA was conceived and executed by CB/SAv without any debates and negotiations with the players involved, which contradicts the democratic-participative spirit defended and practiced in MinC documents and actions” (2014, 185). The 2009 meeting had 33 institutions from all over the country, and its proposals, which demanded SAv resources and actions, were not carried out. The project was extinguished in 2009, without practical advancements.

19. Programadora Brasil was a project for the diffusion of animation, experimental, fiction, and documentary films, active from 2006 to2013, through the printing of DVDs for non-commercial circuits (film clubs, cultural centers, schools, universities), in a total of 970 works divided across 295 DVDs.

20. Cinemateca Brasileira Institutional Reports. July 2020. Available at: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

21. This unit was affected by flooding in early 2020.

22. Cinemateca Brasileira magazine. Available at: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

23. Collections acquired by the government under theCinemateca’s custody: Estúdio Vera Cruz and Atlântida Cinematográfica (in2009), Canal 100 and Glauber Rocha (in 2010), Goulart de Andrade and Dulce Damasceno de Brito (in 2011) and Norma Bengell (in 2012).

24. The interruption also affected the work of the CentroTécnico do Audiovisual (CTAv, or “Audiovisual Technical Center”), in Rio deJaneiro, which was involved in several SAv projects with CB.

25. 2014 Report - details on pages 12 and 14 on the“analysis of preventive conservation of cellulose nitrate”.

26. Legal Deposit is the mechanism for depositing public-funded audiovisual materials in institutions accredited by the federal government. Until today, only the CB falls under that category. After the approval of the material (according to technical guidelines), the producing company becomes able to receive the last instalment of the financing. Due to the drastic reduction in analysis after the 2013 crisis, the backlog of materials became enormous.  

27. Olga Toshiko Futemma began working at the Cinemateca Brasileira in the 1980s, with particular excellence in her work at the Documentation and Research Center. She became the institution’s executive director in 2004, its deputy director from 2007 to 2013, and its director from 2013 to 2018, at which point she became the Collections Manager. She took part in the FIAF Executive Committee from 2009 until 2013.  

28. After the fire, the vault received the same structure as before. According to the 2016 Report: “the building, designed in the 1990s, was built without electrical or hydraulic installations, in order to minimize the risk of an accident; without active air conditioning, but maintaining the internal temperature with the smallest possible variations and allowing air circulation to avoid the accumulation of gases resulting from deterioration. In the case of self-combustion [...] it would inevitably consume the entire contents of the vault, but it would not spread to the adjacent vaults” – which characterizes what happened in 2016, when the fire consumed only one of the four vaults and did not spread to the others.

29. For example, ARRISCAN, when acquired, was adapted for deteriorated materials, which allowed the scanning of negatives with 4% shrinkage, a measure that would be considered infeasible for other laboratories.

30. Databases of the Documentation and Research Center. August 2020. https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

31. The Programming department continued to show films from the collection, with respect for the original projection format to the best extent possible and privileging Brazilian cinema. It also organized film series with prints loaned from partnering organizations and held screenings in the Cinemateca’s two theaters and on its outdoor screen. The films projected were on 16mm and 35mm prints, as well as digital and video formats.

32. Also, according to the 2016 Report: “the emergency duplication process differs from the film restoration, which involves producing new preservation dupes, both image and sound, and screening copies. It also includes different sorts of manipulation to minimize handling or deterioration marks, approximating its original theatrical release characteristics. A restoration project usually compares different materials, while emergency duplication deals with copying advanced deteriorating material, typically unique, to a new one.”

33. Carlos Roberto de Souza points out that “The Brazilian research and historiographic works carried out […] drew attention to the fact that it is a mistake to build a history of Brazilian filmography with a basis in fiction or narrative feature-length films. The highest volume of Brazilian production has always been of documentaries and newsreels, generally relegated to the background by so-called classical historians, the media, and the general public. The reality of production is reflected in the cinematographic collection that has reached our days. The percentage of nonfiction films exceeds that of feature films and remains the least preserved. That does not mean that all fiction features are preserved. Far from it. Yet the most treated part – and not always with the care it deserves – is that of the consecrated Brazilian features.” (2009, p.261).

34. Later, the team discovered a homonymous field in the Brazilian Filmography database, conducted by the Documentation and Research Center, which was no longer in the workflow. It was a numerical system from 0 to 5. Considering that the Preservation technicians who proposed the methodology had no previous experience at the CB, the categorization did not follow the numerical method, but instead followed text categories. As an example, the categories included “preserved at the moment” (considering original materials, intermediaries, and prints in good condition, for example), “partially preserved”, “not preserved”, “partially lost”, with supplemental information such as “with defects” (image or sound interference), “incomplete”, etc. The system provided quickness in the selection for emergency duplication and research for external access.  

35. WinIsis is a software proposed by Unesco in 1988 and adopted by the CB due to its shapable character. It resembles individual physical library cards, with limited data examination.

36. Trac was initially adopted by the lab and development teams before 2016. The preservation team adopted it in 2016. In 2017, an institutional profile was created, then the Documentation and Research Center profile, and lastly, the Access department profile.

37. We need to talk about ... the Brazilian Cinematheque logo. July 2020. https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. The alleged phallic form of the logo could have contributed to the degree of viralization and public awareness of the Cinemateca in 2016.

38. Manifesto for the Cinemateca Brasileira - 2016. July 2020: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com.

39. 100 Paulo Emílio. Available at: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. July 2020.

40. The legality of amending the main contract is questionable. In any case, we consider it an outrage that an amendment governs the Cinemateca Brasileira as a legal instrument.

41. As occurred in access to original film materials for their digitization and licensing to Canal Brasil, the leading television channel for Brazilian films. The broadcast company was updating its catalog, which was previously in SD resolution. The delivery of films to Canal Brasil would be in HD (1080p) or higher, despite HD being an outdated resolution. Producers opted for HD resolution and not 2K due to budget limitations. Still, in addition to being more commercially relevant in the middle term, 2K represents a more significant preservation action since it would be a longer safeguard of the original material – much of which was already in bad condition.  

42. Especially what can be called pejotization, in reference to “juridical person”, or the legal status of a physical person: The hiring of services from individuals through companies set up for this purpose.  

43. This dynamic of dispersing the workforce is even more dangerous in the context of digital preservation, which demands a constant updating of knowledge due to the ongoing changes in technology and industry practices.

44. E-mail from 29 June 2016. July 2020: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Débora Butruce indicates that a Working Group debated the theme of management by OS over several years: 15th CineOP. At-risk cultural heritage institutions: The Case of the Cinematreca Brasileira. Available at: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. In addition to Butruce, the conversation’s participants included Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira and Eloá Chouzal.

45. Jorge Barcellos sums it up by saying that “Over time, [the Social Organization] became deficient and costly”. He warns that “according to Alzira Angeli, from the Comptroller General of the Union, these organizations have become the new market niche for corruption and [according to historian Francisco Marshall] the initiative promotes the degradation of public management”. August 2020. https://jorgebarcellos.pro.br. As an exception, some museums in the State of São Paulo successfully follow the management model by OS.

46. Consolidation of Labor Laws (CLT) has several benefits to the employee, such as paid vacations, a bonus salary (equivalent to a month’s pay), unemployment insurance, sickness benefits, family salary, maternity salary, and retirement funds.

47. I understand collection prospecting as a fundamental role of the CB, since the Cinemateca is the central national institution, and especially in consideration of the history of destruction and neglect of Brazilian audiovisual heritage. In recent years, news of potentially valuable collections became public, and CB technicians could not act independently under the Acerp administration. Through Acerp, for instance, the technical staff evaluated a collection in the São Paulo countryside. The technical team contacted the Ministry of Foreign Affairs to assess a list of 35mm prints held at the Brazilian embassies in Rome, Berlin, and The Hague. Acerp later took over the connection and was unable to carry out the repatriation.

48. It was reported by many colleagues that the person in charge of such event said ‘God was the first CEO, and theBible was the early compliance’, among other inappropriate comments for an event at an heritage institution.

49. An Institutional Mission document was being consolidated, which was not carried out during the time of Acerp’s management.

50. CryptoRave is a forum for freedom, autonomy, and security on the Internet. CryptoRave. August 2020. https://cryptorave.org.

51. The distance between the two cities is about 268 miles/1-hour flight.  

52. Military personnel in uniform occasionally visited the institution. One episode became notorious: The visit of a deputy who held the same last name as his great-uncle, the first president of the military dictatorship. The deputy published a video on a social network from inside the CB and accompanied by representatives of the institution in which he announced the upcoming exhibitions of military films, reproduced the president’s campaign slogan and saluted the camera. The film series has not been realized.

53. Several volunteers working within the Instituto Moreira Salles’s (IMS) technical coordination team performed an effective response to damages to the studio and photography collection of the São Paulo-born photographer Bob Wolfelson, which was located near the Cinemateca’s damaged area. A technician from the Cinemateca Brasileira was among the volunteers (who operated outside of CB working hours). The event was the second flood that affected the photographer’s studio. Floods in the region are recurrent, so this brief report is a chronicle of a predestined tragedy.  

54. The work consisted of moving bags with piles of cans filled with dirty water, opening each can to check the material’s condition, determining the destination of the material, and organizing the collection on the shelves. At first, the cleaning and maintenance teams performed a task force with the technical team to drain the water, clean shelves, and help move bags of films, but before this work came to an end, these teams were drastically reduced in size.

55. The first of these news items related to the appointment of an actress as the Cinemateca’s director. This actress had played the role of Special Secretary of Culture for two months in the capital city of Brasília and wanted to return to São Paulo for personal reasons. However, no position was legally available for her to assume at the CBat that time, and she ultimately never came to work at the institution.

56. “Cinemateca Brasileira asks for help.”. Sept. 2020. At the time of this writing, the manifesto has received more than 28,500 signatories.

57. Cinemateca Viva, a group formed by the Vila Mariana Residents’ Association (the neighborhood where CB is at <http://www.cinematecaviva.com.br>; The Cinemateca Acesa group <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; and Cinemateca in Crise, created in 2013, with updates on the crisis of 2020: <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. Apaci since 2015 has been active and in contact with the CB board of directors to guarantee the execution of the institution’s work.

58. Cinemateca Brasileira workers. August 2020. https://twitter.com/trabalhadorescb.

59. Cinemateca Brasileira - Emergency Workers. August 2020: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca.

60. The crisis in the Cinemateca Brasileira - Urgent Solutions.August 2020. https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. 2020. Gabriela Queiroz, the Documentation and Research Center coordinator from 2014 to 2020, represented the institution.

61. Some examples: The claim that “all” of the Brazilian audiovisual heritage is housed at CB; the assertion that the institution could catch fire if its light and gas services were cut off for lack of payments (the nitrate deposits do not have any electrical circuit); and the use of the term ‘air-conditioned laboratories’ to designate‘ air-conditioned vaults’.

62. The handover of the keys included the presence of ostensibly armed agents of the Federal Police, summoned with the assumption that there could be resistance by agents of Acerp. Acerp handed over the keys, documents were signed, and the government carried out a technical visit. Even as a sideshow, it was the first time that police intimidation occurred at the Cinemateca. Acerp tried to obtain reimbursement of the amounts invested in the CB in 2019 and 2020, allegedly totaling R$ 14million [about USD 2.6 million].

63. Gramado Letter 2020. Available at: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado.

64. Generalizations are risky and can go wrong. After all, we have many producers who understand, praise, and invest in preservation efforts, especially following the 2020 crisis. If my words do not do justice to producers’ performance in favor of audiovisual heritage, then I will be happy to publish my mistake. But this text was fermented by the frustration of seeing the superb state of the audiovisual industry, with its happy hours, markets, deals, and enormous resources, while the mention of preservation investments generated tremors! The production industry’s greedy attitude relates to the neglect of the Brazilian audiovisual heritage and its preservationists.

65. Sources: FSA and CinematecaBrasileira websites. Published initially in The professional working in audiovisual preservation. Museology & Interdisciplinary. Vol. 8, nº 15, 2019. The chart was initially presented with the Brazilian currency (Real) and was converted to USD for this text. The exchange rate was from the last business day of each year. Original note with a correction: Cinemateca Brasileira is the only institution that receives materials in Legal Deposit and according to Laura Bezerra (2015), its budget represents almost the totality of investments in audiovisual preservation in Brazil during the cited period. In this way, I consider the chart to be a direct illustration of the gap between investments made in audiovisual production and in preservation”.The diagram proceeds only until 2017, since CB has not published any more report since that time. In 2019, under the newly elected government, FSA funding ceased.

66. Document SEI / ANCINE - 0413350 - CGFSA Resolution Nº 101- Approval of the 2017 Annual Investment Plan.October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANº 101 - approves PAI FSA 2017.pdf.

67. The non-refundable mechanism does not presuppose a return on financial profit, but offers other counterpart plans.

68. Document SEI / ANCINE - 0845324 - CGFSA RESOLUTION Nº155 - Approval of the 2018 Annual Investment Plan. October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANo. 155 - Annual Investment Plan 2018.pdf.

69. Resources made available for Actions and Programs - 2008to 2018. October 2020. https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. The full amount informed on this date was R$ 4,558,877,384.00.

70. According to Gomes (2020), most of the materials received in Legal Deposit is stored on external hard drives, which need continuous verification – “digital materials, therefore, require more constant checks and migrations, a need that the Cinemateca Brasileira cannot yet meet, both due to limitations in the number of employees and to financial limitations”. Part of the institution’s large magnetic video collection comes from the Legal Deposit. In general, from 2016 to 2020, no actions were taken to preserve the video and digital collections, only duplication of materials for access purposes. Considering the inaction, broadly and systematically, with the scope of the heritage conceived in digital, one cannot expect to overcome the(notoriously high) loss rates of the Brazilian audiovisual heritage –especially its first digital productions.

71. “ICAB and NETFLIX partner to create an EMERGENCY FUND to support the Brazilian creative community.” September 2020. http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html.

72. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. September 2020. https://www.newsweek.com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. / Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. September 2020. https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Much more money is invested in providing classic film as a streamable option in the US as it is in Brazil, especially Brazilian classics. In the US, the repertoire of old films is a niche explored by platforms such as The Criterion Channel and Mubi, among others.

73. A sensitive aspect for the distribution of older films is the issuance of the Brazilian Product Certificate (CPB), which requires documentation stating the rights holders for specific films. Historically, Brazilian film productions lacked proper documentation, and many companies were dissolved without the transfer of rights of their assets.

74. In the Brazilian context, where the first activity as a preservationist is to explain your role as a professional, Netflix documentaries that contain archival images as an important element of their narrative are often a good way to explain the importance of heritage preservation to many people.

75. 2016 Report: pages 55 and 56. Correction to the content: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) is color, not b&w – a Jaws spoof.

76. Here it is worth reflecting not only on the catalog’s excellence in terms of title availability and content navigability, but also the need to review technical specificities and the dimensions of the watermark logo filling part of the film image, an experience reported as frustrating for many site visitors.

77. Brazilian films considered lost or about to be lost. August 2020. http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm.

78. Proprietary technologies, obsolescence of file format, codec, software, hardware, metadata management, migration.

79. In addition to being catastrophic for fauna and flora, the devastation will directly affect the cultural heritage preservation field due to this field’s direct relationship with the climate, with issues such as larger variations in temperature and humidity taking on special importance. I am unaware of studies in Brazil on the climate crisis and its impact on the area of ​​heritage. From among discussions held in other countries, I would highlight the 2020 realization of the Orphan Film Symposium.

80. The artificial intelligence supercomputer of Westworld (2016,Jonathan Nolan), set in almost four decades in the future.

71. The symbol of misinformation is the science being discredited by social networks and messaging media (especially WhatsApp, a company acquired by Facebook), which makes the act of disseminating scientific information on containing the Covid-19 pandemic more difficult. Research carried out in twenty countries shows that Brazilians believe in their scientists the least among citizens of any country: Brazil with its back to science. September 2020. https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia.

80. Filmography Dictatorship Brazil. September 2020. http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html.

BIBLIOGRAPHY

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

PT/ENG
PT/ENG
8/11/2020
By/Por:
Ines Aisengart Menezes

A Cinemateca Brasileira (CB) é a principal instituição de patrimônio audiovisual do Brasil e, em 2020, passa por sua pior crise. Como resultado, seu expressivo acervo audiovisual e documental está ameaçado, bem como seu complexo parque tecnológico e os saberes técnicos que o permeiam. No início do ano, uma enchente ocorreu em um galpão em uma de suas unidades, afetando drasticamente sobretudo parte de seu acervo de película e de equipamentos. Desde agosto de 2020, as instalações e os acervos estão sem acompanhamento técnico; e até a conclusão deste texto não há perspectiva de uma resolução imediata, condizente com a urgência. A inação e o descaso com a Cinemateca Brasileira são mais uma das perversidades do atual governo, e se soma ao desmonte estrutural do sistema público de saúde, educação e cultura,1 e ao projeto de ecocídio e genocídio da população indígena e negra; este último acelerado pela pandemia de Covid-19. A crise da Cinemateca tomou proporções inéditas em 2020, mas sua origem é anterior, perpassando a crise administrativa e política de 2013 e um incêndio no início de 2016. Este artigo tem como enfoque os trabalhos realizados na Cinemateca Brasileira a partir de meados de 2016, de grande fôlego e entusiasmo na retomada dos trabalhos; o desafio de sua continuidade com a redução da equipe em 2017; a suposta solução com um novo modelo de gestão em 2018; e a hecatombe de 2020.2 O texto também apresenta conjecturas sobre as relações entre o patrimônio audiovisual e a cadeia produtiva do audiovisual. A sucessão de crises ao longo dos 74 anos da instituição, acentuadas por quatro incêndios e a enchente, são de forma mais ampla, o que a museóloga brasiliense Fabiana Ferreira destaca em sua tese A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil (2020). Ela alega que “o único aspecto estável nas políticas públicas de preservação audiovisual é sua inconstância. Uma sucessão de desencontros e desarticulações por parte dos agentes políticos responsáveis pela criação e implementação de políticas sem um real projeto de Estado que atravessa governos” (2020, p.109). Segundo Hernani Heffner, não é somente a maior crise da Cinemateca Brasileira, mas a maior crise do patrimônio audiovisual brasileiro.3

Panorama das Últimas Duas Décadas

O Brasil é uma república federativa presidencialista, com 26 estados e um distrito federal, de dimensões continentais – o quinto maior país do mundo em extensão territorial. O país passou por dois processos de redemocratização, sendo o mais recente a partir de 1984, após a ditadura militar estabelecida em 1964. Neste novo século, o país contou com um crescimento econômico, teve significativa redução das desigualdades sociais e de índices de pobreza extrema, ampliação de universidades e um processo de fortalecimento da indústria do audiovisual, por meio de políticas e programas federais, com destaque para as políticas de investimento da Secretaria do Audiovisual (SAv) / Ministério da Cultura (MinC)4 e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA)5, o que gerou amadurecimento de profissionais, das empresas, e traduziu-se em um volume crescente de obras a cada ano. Eventuais recursos municipais e estaduais somavam-se aos federais. Laura Bezerra pondera que, enquanto o governo investia na descentralização das políticas de cultura, o mesmo não ocorria com a preservação (2015). Nesse período e a partir de sua inclusão no organograma da SAv, houve sólidos investimentos na Cinemateca Brasileira, mas foram diminutas as discussões políticas sobre a gestão do patrimônio, e acerca das ações e mecanismos necessários para que essa gestão fosse feita de forma profunda e mais ampla.6 – referência fundamental para o entendimento do tecido da crise atual. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira, “a Cinemateca não atua na criação e implementação de políticas de preservação, seja realizando discussões e dialogando com o setor, seja participando ativamente dos espaços políticos no âmbito federal, como o Conselho Nacional de Cinema, por exemplo. Também não houve diálogo estruturado com outras entidades gestoras de memória” (2020, p.108). A insuficiência do Estado na gestão do patrimônio acarreta graves reverberações, que abalam a cadeia produtiva do audiovisual – esta não parece vislumbrar a preservação como elemento integrante e necessário para a própria cadeia. Ainda, a crise da Cinemateca Brasileira torna-se mais um argumento para a descentralização (e incremento) de investimentos na gestão do patrimônio audiovisual em todo país.7 O Brasil possui uma miríade de instituições de patrimônio federais, estaduais, municipais e privadas que não estão no holofote, mas que também demandam ações e recursos urgentes.

As últimas décadas foram de constante amadurecimento da área de preservação audiovisual, com a instauração de programas de financiamento específicos; o impulso de publicações; a criação e crescimento da CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto, na qual ocorre o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais8 a formação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) e a elaboração do Plano Nacional de Preservação Audiovisual (PNPA);9 além do crescente número de eventos.

Cinemateca Brasileira – Breve Histórico

A Cinemateca Brasileira contou com diversos arranjos administrativos, tendo começado como uma organização da sociedade civil e, posteriormente, passou para a esfera pública. Seu longo histórico abarca muitos percalços com alguns respiros. O escritor, ensaísta, crítico, pesquisador, professor e militante Paulo Emílio Sales Gomes  (1916-1977) é o protagonista na criação, defesa e gestão da Cinemateca. A atuação de Paulo Emílio é mais ampla que a própria Cinemateca, é fundamental na valorização do cinema brasileiro – e em sua qualificação como documento histórico –, na defesa de sua preservação, na criação de cursos de cinema em universidades, atuante na política internacional – como membro regular do Comitê Executivo da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF), entre 1948 e 1964, e eventualmente como vice-presidente –, além de autor referência em estudos historiográficos de cinema, com suas publicações sobre o francês Jean Vigo e sobre o brasileiro Humberto Mauro. Como professor, foi muito importante pela formação de cinéfilos, intelectuais, críticos de cinema e preservacionistas – sendo que alguns deram continuidade a seu trabalho na Cinemateca Brasileira.

Considerando a profusão de publicações sobre a Cinemateca Brasileira em português, e o limitado repertório em inglês, e tratando-se de uma plataforma bilíngue, apresento um breve apanhado, com momentos-chave sobre a história da instituição. Em 1940, por iniciativa de intelectuais paulistanos, foi criado o Clube de Cinema de São Paulo. Promovia a exibição de filmes, conferências, debates e publicações. Foi fechado pela ditadura de Getúlio Vargas em 1941. Em 1946 Paulo Emílio vai para a França estudar no Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC) e torna-se ainda mais próximo da Cinemathèque française, instituição com a qual mantinha contato, pois já havia morado em Paris na década anterior, período em que sua paixão pelo cinema despertou. Nesse ano é criado o Segundo Clube de Cinema de São Paulo, dessa vez, além de contar com as atividades anteriores, também tinha a iniciativa de prospecção e preservação de materiais de obras brasileiras. Portanto, 1946 é considerado o marco da criação da instituição. O Clube é filiado à FIAF por Paulo Emílio em 1948. No ano seguinte, é criada a Filmoteca do (recém-criado) Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1956 desliga-se do museu e se converte em Cinemateca Brasileira, sociedade civil sem fins lucrativos. Neste ano é formado o Conselho Consultivo.10 Em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato de celulose, ocorre o primeiro incêndio no verão de 1957, que “destruiu integralmente a biblioteca, a fototeca, os arquivos gerais e a coleção de aparelhos para o futuro museu de cinema, assim como um terço do acervo de filmes” (Gomes, 1981, p. 75). A tragédia suscita o apoio e doações de entidades nacionais e estrangeiras, e a Cinemateca ganha um espaço no maior parque urbano de São Paulo, o Parque Ibirapuera. Em 1961 torna-se uma fundação sem fins lucrativos, fato importante para sua autonomia e para o levantamento de recursos públicos.

No ano seguinte, é criada a Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), entidade civil sem fins lucrativos, para auxiliar a Cinemateca na gestão de recursos financeiros e para desenvolver atividades de apoio à Fundação. Se inicialmente as ações de difusão eram o motor da Cinemateca, a partir da década de 1970, a preservação passa a ser seu eixo, em parte pelo estado de seu acervo. O final dos anos 1960 e meados dos 1970 é um período crítico, com poucos funcionários, por vezes em trabalho voluntário. Em 1963 a Cinemateca é desligada da FIAF, devido ao não pagamento das taxas de anuidade, retomando como observadora em 1979, e como membro pleno somente em 1984. O segundo incêndio ocorre no verão de 1969, pelo mesmo motivo que o anterior, com perda significativa de materiais documentais. Em 1977 o laboratório da instituição é iniciado, a partir de equipamentos de laboratórios comerciais desativados. Paulo Emílio falece nesse mesmo ano, de ataque cardíaco.

Em 1980 é inaugurado no Parque da Conceição o Centro de Operações, para trabalhos de documentação e pesquisa. O terceiro incêndio ocorre no outono de 1982. Como decorrência, um movimento pela incorporação ao poder público culmina na extinção da Fundação Cinemateca Brasileira e na incorporação, como órgão autônomo, à Fundação Nacional Pró-Memória, do governo federal, em 1984. Em 1989 é alugado um cinema11 em Pinheiros, bairro movimentado da cidade, que alavancou significativamente a cinefilia da cidade. Ao final desta década, seu quadro funcional conta com cerca de 40 pessoas, sendo 30 contratados, muitos ex-alunos de Paulo Emílio.

Em 1990 a Fundação Nacional Pró-Memória é extinta, e a Cinemateca é incorporada ao Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC), criado naquele ano, e quatro anos depois transformado em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 1997 é inaugurada sua sede definitiva,12 no antigo Matadouro da Vila Mariana, em terreno cedido pela prefeitura, após nove anos de reformas – com o devido tombamento do conjunto arquitetônico. A sede definitiva agrega os departamentos e salas de exibição antes espalhados pela cidade de São Paulo, e pode ser vista como elemento-chave no processo de consolidação da instituição, após décadas de escassez de recursos, precariedade de infraestrutura, mudanças na dinâmica administrativa e institucional.

Em 2001 é inaugurado seu depósito de matrizes, inicialmente com capacidade para 100 mil rolos de filme, com controle de temperatura e umidade. No mesmo ano é iniciado o projeto Censo Cinematográfico Brasileiro,13 com financiamento da BR Distribuidora14 O projeto foi um importante marco para a identificação e tratamento do acervo da instituição,15 e para a formação de mão de obra técnica. Ele “organizou-se sobre quatro eixos básicos: o levantamento e exame do acervo existente, concentrado e disperso; a duplicação de filmes amea[ça]dos de desaparecimento por seu estado de deterioração; a divulgação do trabalho e de seus resultados; o estudo de medidas legais para a proteção do patrimônio audiovisual” (Souza, 2009, p.258). Em 2003 a Cinemateca é incorporada à SAv/MinC, após deliberação do Conselho, considerando que o IPHAN não estava atendendo o escopo e não se envolvia nas estratégias da Cinemateca senão para aprovar planos de trabalho. Nos anos subsequentes, os recursos repassados pelo MinC aumentam gradualmente. Em 2003 é implementado um programa de estágio de curta duração para técnicos de outras instituições. De 2004 a 2006, o projeto Prospecção e Memória dá continuidade ao projeto do Censo, sobretudo em relação à catalografia de obras brasileiras, compiladas na base de dados Filmografia Brasileira.16

Em 2005 é criado o Sistema Brasileiro de Informações Audiovisuais (SiBIA), programa da SAv, com coordenação da CB, “programa que visa estabelecer uma rede que conta neste momento com a participação de mais de 30 instituições que se dedicam, prioritária ou subsidiariamente, à preservação de acervos de imagens em movimento em todo o Brasil”.17 A instituição é escolhida como sede do 62º Congresso da FIAF em 2006, cujo tema é “O futuro dos arquivos de filmes em um mundo do cinema digital: arquivos de filmes em transição”. No mesmo ano, à ocasião do 60º aniversário da instituição, com comitiva de ministros e secretários, Luiz Inácio Lula da Silva é o primeiro (e único) presidente do Brasil a visitar a CB. Em 2006 é publicado o Manual de Manuseio de Filmes e o Manual de Catalogação da instituição, normativas internas e importantes referências para as demais instituições brasileiras, sobretudo à época, ainda com poucas publicações técnicas em português. Em 2008 a SAC torna-se uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e, a partir de então, são volumosas as transferências de recursos para projetos na Cinemateca. Na gestão da SAC, são realizados projetos da próprio SAv – como meio de garantir agilidade na execução de programas do Ministério, como a Programadora Brasil.18 A partir de 2008 são publicados relatórios anuais de atividades.19, à exceção dos seguintes anos: 2013, 2015, 2018 e 2019. Como resultado do Censo, são confeccionados materiais de preservação e difusão no laboratório da instituição, e realizadas restaurações com recursos de projetos e programas. Em 2009 é lançado o Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro, caixa de DVDs com 27 títulos de filmes silenciosos com trilhas sonoras compostas especialmente para a edição. Em 2011 é inaugurada uma instalação secundária na Vila Leopoldina,20 para armazenamento de películas, documentos, equipamentos, dentre outros. Em 2012 é publicada a primeira edição da Revista da Cinemateca Brasileira e, no ano seguinte, sua segunda edição.21 Em 2013 é instaurada uma crise político-administrativa, com a sumária exoneração do diretor-executivo da instituição, sem o devido diálogo com o Conselho, sem as medidas adequadas para sua substituição ou um plano de transição. São realizadas sucessivas auditorias da Controladoria Geral da União em relação à execução de recursos da SAv pela SAC e à aquisição de acervos pela União.22 Ao final do ano, dos 124 funcionários ativos antes da crise, poucos permaneceram, dentre eles os 22 funcionários públicos diretamente vinculados ao ministério.23 A partir do relatório de 2014, é possível verificar que alguns (poucos) fluxos de trabalho continuaram. Destaco a interrupção de um fluxo não executado em 2014 (e 2015), que afetaria drasticamente o acervo:

No verão de 2016 ocorre o quarto incêndio, mais uma vez em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato. A perda foi estimada em 1003 rolos de filmes em nitrato de celulose, referentes a 731 títulos. Além da descontinuidade da revisão deste acervo com a crise de 2013, alguns anos depois foram descobertos alguns rolos recém-chegados à instituição, que foram alocados no depósito sem a devida remoção da embalagem de transporte. Isso poderia ter sido evitado se a equipe técnica tivesse sido encarregada de alocar e realocar as obras dentro dessa coleção de filmes. Esse descuido potencialmente criou condições para um microclima sujeito à autocombustão e pode ter sido o segundo fator responsável pelo incêndio. Porém, o fator primário sempre será a irresponsabilidade do poder público, ante a falta de condições para o exercício das atividades básicas da instituição.

Cinemateca Brasileira – de 2016 a 2017

O incêndio de 2016 coincide com a entrada de 11 técnicos, viabilizados por um contrato de serviços firmado entre a SAv/MinC e a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que entrou em vigor no final de 2015, com duração de um ano. Ao todo, até meados do ano, foram 42 técnicos contratados, que se somavam aos 15 servidores diretamente vinculados ao MinC. Foram também contratadas empresas terceirizadas de serviços essenciais (manutenção, limpeza, segurança e TI) e 7 técnicos para o fluxo de Depósito Legal,24 viabilizados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). No relatório anual de atividades de 2016, o tom da apresentação da diretora Olga Futemma25 é de otimismo e orgulho pelo cumprimento das metas estabelecidas no Plano de Trabalho do Contrato, com a devida indicação das dificuldades e desafios criados a partir da descontinuidade dos trabalhos nos anos anteriores. Destaque para os trabalhos realizados em decorrência do incêndio:

“balanço e comunicação das perdas […]; exame, separação por grau técnico e triagem para encaminhamento de materiais [...] para processamento laboratorial; alocação provisória dos 3 mil rolos de nitrato remanescentes; elaboração de projeto de implantação, no depósito incendiado, de dispositivos contra sinistros […]; reforma básica do depósito, realizada pela equipe da Cinemateca, para o retorno da coleção […]; descarte técnico de resíduos do incêndio”.

Apesar do desastre, não foram obtidos recursos junto ao MinC para dispositivos contra sinistros.26 Outro desafio explicitado por Futemma foi a situação do Laboratório de Imagem e Som: devido à paralisação anterior, o “cenário era desolador”, dizia. Para enfatizar sua importância: trata-se de um dos mais completos (e último?) laboratórios de processamento audiovisual fotoquímico da América do Sul, com possibilidade de processamento de película para película (35mm e 16mm, suporte p&b de todos os materiais e confecção de cópias de materiais cor); de película 8mm, 9,5mm, 16mm e 35mm para digital (HD, 2K, 4K, 6K); back-to-film, de digital para película 35mm; captura de diversos formatos em vídeo (U-Matic, Betacam SP, Betacam digital, DVCam, entre outros) para digital; manipulação digital de imagem e som, incluindo correção de cor e restauração. O maquinário foi trabalhado ao longo dos anos para processar materiais com deterioração avançada.27 Devido à ausência de equipe nos anos anteriores e à decorrente falta de manutenção e peças, não foi possível retomar alguns fluxos.

O acervo audiovisual contém cerca de 250 mil rolos, entre películas com suporte de nitrato, acetato de celulose e poliéster, além do expressivo acervo de fitas e rolos magnéticos, e aproximadamente 800 terabytes de arquivos digitais, sobretudo de materiais digitalizados do acervo e materiais encaminhados para Depósito Legal. O acervo documental abarca cerca de um milhão de documentos relativos ao audiovisual, como cartazes, fotografias, desenhos, livros, roteiros, periódicos, certificados de censura, material de imprensa, documentos de arquivos pessoais e institucionais.28 Ademais, há uma coleção de equipamentos, não catalogada, de tecnologias do audiovisual de diversas décadas. No período recente, a instituição dividia-se nos setores: preservação de filmes, centro de documentação e pesquisa, difusão – programação.29 e eventos, atendimento, administração, manutenção e tecnologia da informação.

No setor de Preservação de Filmes, diversos fluxos foram executados ao longo de 2016: acompanhamento da climatização dos depósitos, movimentação de materiais de acordo com suas características físicas ou deterioração, revisão da documentação, atendimento a solicitantes e duplicação emergencial de materiais, que será comentada adiante. Um fluxo de trabalho importante foi a documentação, de forma coletiva, de ações necessárias, mas para as quais não havia recursos suficientes. Depois de meses de manutenções corretivas e avaliação dos químicos e de película virgem no estoque, foi iniciado o processamento de materiais em avançado estágio de deterioração considerados únicos: “a seleção foi feita considerando as condições técnicas dos materiais, [com investimento de] menos tempo e recursos nas ações complementares de uma só obra para que seja possível viabilizar ações, embora incompletas, em um número mais amplo de materiais”, de acordo com o Relatório de 2016.30

Devido às metas estabelecidas no Plano de Trabalho e aos exíguos tempo e equipe disponíveis em 2016, a seleção de materiais para processamento em laboratório foi realizada por apenas um técnico, sem debates e discussões mais amplas sobre o processo de seleção. Houve a precaução de não selecionar longas ficcionais consagrados31 abrangendo “materiais de obras de ficção, documentários, cinejornais, filmes domésticos e filmes científicos” e “sem avaliação subjetiva do conteúdo das obras ou curadoria” (Relatório 2016). A seleção priorizou a urgência pela deterioração do material e não pelo conteúdo. O aspecto crítico nesse fluxo consiste no que não estava sendo selecionado, e que possivelmente estava incrementando ainda mais o ostracismo da obra. Ao longo do processo de análise, materiais indicados para duplicação eram avaliados como não processáveis e, pelo potencial de unicidade, ainda que com esperança no surgimento de algum material, impossível não encarar como a morte da obra. Inúmeros materiais estavam tão deteriorados que não possuíam condições de duplicação na íntegra, e os novos materiais gerados muitas vezes continham as marcas fotográficas da deterioração. Durante este fluxo, foi utilizado o estoque de película comprada nos anos anteriores – que foi findando ao longo dos anos, sem renovação.

As eventuais mortes de obras e as especificidades de processamento suscitaram a necessidade de criar uma metodologia que avaliasse e documentasse a situação da obra, a partir de determinado conjunto de materiais, para nortear as ações de preservação e acesso. Assim surgiu o que foi denominado como “status de preservação”, categoria que, além se integrar à documentação interna, foi incorporada nas comunicações aos detentores de direitos das obras, com observações como “indicada para processamento” ou “necessidade de prospecção de novos materiais”.32 Uma vez que essas categorias são mutáveis uma vez que a condição dos materiais pode mudar, a data do status era tão importante quanto o próprio status como informação.

A plataforma de dados da Cinemateca Brasileira é o WinIsis33 um software bastante limitado como ferramenta de análise de dados de forma mais complexa. A retomada de trabalhos de análise do acervo audiovisual, a criação de novos materiais e a movimentação demandavam atualização constante da base de dados de materiais audiovisuais, que foi interrompida devido à detecção de problemas estruturais na própria base – com o risco de corrupção de dados. Em paralelo, o projeto de código aberto e baseado na web Trac.34 foi estruturado e normatizado para documentação interna – essencialmente documentação fixa em formato Wiki e sistema de tarefas por tickets. Essa intranet “possibilita manter a horizontalidade da informação em relação aos demais setores, a colaboração na construção da documentação, a perenidade e a organização da informação em uma mesma plataforma, […] utilizada para documentar procedimentos internos diversos; normas e bulas de preenchimento de documentos; relatórios e textos referentes à instituição; informações referentes a solicitações externas e dados de materiais analisados e processados”, de acordo com o Relatório de 2017. O esforço por manter uma documentação interna acessível, horizontal e transparente, condizente com o caráter de uma instituição de memória, não alcançava as comunicações com a Acerp e os projetos elaborados pela equipe e encaminhados aos Ministérios. Um elemento importante para o progresso dos trabalhos foi o investimento em desenvolvimento de tecnologia, como documentado no Relatório de 2017, o que permitiu a análise de informações da base de dados de forma dinâmica e a busca por soluções para fomentar a autonomia da instituição.

Merece destaque o projeto ClimaCB, criado para o monitoramento on-line da climatização, uma combinação de software e hardware de código aberto, cujas orientações e códigos estariam disponíveis em Git, para a livre utilização. Infelizmente, a publicação não foi efetivada. A participação da CB à frente de discussões técnicas e na publicação de proposições e soluções tecnológicas é ansiada, considerando seu potencial caráter medular, no âmbito da preservação audiovisual.

No período de dois anos durante o Contrato de Prestação de Serviços, Olga Futemma mantinha reuniões com a equipe técnica para compartilhar notícias, impressões e estratégias. Os eventuais encontros reforçavam a noção da proporção e da força da equipe, e serviam como injeção de ânimo. Outro elemento importante de coesão como equipe foi a construção de um novo site – o anterior tinha navegabilidade e ferramentas obsoletas. Um momento de visibilidade foi a realização de uma vinheta pela equipe técnica, mostrando o histórico da logomarca da instituição, criada em 1954.35

A equipe do setor de Preservação tinha um equilíbrio entre técnicos antigos na instituição, que garantiam uma necessária continuidade de fluxos, e técnicos que ali trabalhavam pela primeira vez, que proporcionavam um frescor na avaliação de fluxos e processos do setor. As dificuldades nas relações interpessoais em anos anteriores e a insegurança ocasionada pela crise de 2013 eram as referências negativas a serem evitadas.

O ano de 2016 ficou marcado pela autonomia e intensa comunicação da equipe técnica, mas também pelos percalços. Em maio foi lançado um edital para seleção de uma Organização Social (OS) para empreender a gestão da CB, pela então equipe do MinC do governo Dilma Rousseff. Pouco depois ocorreu o golpe misógino, caracterizado como um processo de impeachment da presidenta. Tão logo o novo presidente assumiu, quis acabar com MinC, mas voltou atrás, após forte pressão popular. O novo Ministro da Cultura cancelou o edital da contração da OS para a CB, que foi lançado meses depois, com alterações.

Em julho houve mais uma surpresa: a eliminação, por uma reestruturação do MinC, de cinco cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) da instituição, ocupados então pela diretora e por técnicos. A direção da CB seria ocupada por uma indicação do Ministério, sem a devida expertise e sem a participação do Conselho, dado inédito à época. Foram enviadas cartas de associações e o Conselho da CB lançou um manifesto36 pela revogação das demissões e pela vinculação da Cinemateca ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), o que auxiliou a reversão do corte do DAS da diretora e viabilizou a contratação de técnicos que ocupavam outros cargos, de outra forma.

Nos meses seguintes foi batalhado junto à SAv/MinC uma forma de evitar o intervalo entre o contrato de prestação de serviços com a Acerp – que terminaria em dezembro – e a implementação do Contrato de Gestão com a OS vencedora do edital. A solução encontrada, um dia antes do término do contrato, foi sua extensão até abril de 2017, mas “como o valor residual não é suficiente para remunerar por quatro meses todos os técnicos anteriormente contratados, foi preciso reduzir a equipe (em cerca de 75%) e, como consequência, frentes de trabalho”, segundo o Relatório daquele ano. O ano terminou com uma mistura de entusiasmo, pela celebração do centenário de nascimento do Paulo Emílio – com o lançamento de um esmerado site,37 de cursos ao público externo e publicações –, e de desânimo pelo corte da equipe, que só seria retomada em proporção similar em junho de 2017. É visível o impacto da forte redução dos técnicos, em um comparativo dos fluxos de trabalho nos Relatórios de 2016 e 2017, como pode ser explicitado pelos resultados do laboratório de metragem de material processado:

Em maio de 2018 foi celebrado o contrato com a OS, seguido por uma cerimônia com a presença do então Ministro da Cultura, que clamou que “a crise acabou” com o novo modelo de gestão. A Acerp, titular do contrato de prestação de serviços desde 2016, foi a OS selecionada no Edital. No caso da Cinemateca Brasileira, a costura jurídica do contrato de gestão por OS iria contribuir para a crise atual: a legislação não permitia que a Acerp firmasse um contrato de gestão diretamente com o Ministério da Cultura (órgão ao qual a Cinemateca estava vinculada), pois já tinha um contrato com o Ministério da Educação (MEC), então a gestão da Cinemateca foi oficializada por um aditivo ao contrato principal.38

Após a assinatura, a Acerp designou uma nova diretora para a Cinemateca, sem consulta ao Conselho, então relegado ao ostracismo. A primeira ação da Acerp com forte impacto na dinâmica da equipe técnica foi o estabelecimento de um núcleo de Atendimento para se dedicar ao crescente número de solicitações, sobretudo de acesso ao acervo audiovisual. Os serviços dos demais setores e o acesso ao acervo documental continuavam sendo viabilizados, mas, com o novo fluxo, se formou um gargalo no acervo audiovisual. Toda solicitação era registrada, respondida e eventualmente atendida, em teoria, considerando a ordem de chegada, a possibilidade de execução e os tempos de tramitações dentro da instituição. Apesar desse protocolo estabelecido pela equipe, um sinal da subjugação da CB seria a intensificação de projetos furando a fila, por determinação do ministro ou da diretoria da Acerp, o que gerava desconforto e inconformidade em parte da equipe.

Para a equipe de Preservação, o núcleo de Atendimento significou não ter mais contato com pesquisadores e produtores, que estavam acostumados com a maior agilidade que a expressiva equipe conferia antes de 2013 – e ficavam frustrados com a limitada capacidade de resposta impressa pela equipe reduzida. Ademais, o diálogo com produtores e pesquisadores – e suas práticas – denotava incompreensão da importância da preservação. Ou ainda, uma visão curta, até em termos de mercado, como a demanda para retirada de materiais para digitalização e licenciamento sem o processamento tecnicamente necessário.39 Outro indício da incompreensão e desrespeito com o viés da preservação é a não execução das contrapartidas especificadas pela CB. Relação elegantemente comentada por Olga Futemma, no Relatório de 2016: “algumas das situações ruins que enfrentamos decorreram de: prazos exíguos; a total desconsideração da necessidade de uma contrapartida – não em termos monetários, pois a Cinemateca não pode cobrar [à época] , mas em ações que deveriam estar previstas em seus projetos e que permitissem ampliar o acervo […]; a incompreensão de que materiais únicos (de preservação) não devem sair do acervo sem supervisão […]”. Ela acrescenta que “é preciso, portanto, continuar a empreender esforços para a mudança da concepção do bem público como algo de que se possa dispor livremente para a consecução de projetos privados, e para a compreensão da necessidade de, ainda na fase de elaboração, consultar sobre a viabilidade do projeto com a Cinemateca, no que diz respeito aos materiais pretendidos e aos prazos necessários para sua disponibilização. São duas condições essenciais para um planejamento que beneficie o solicitante e o acervo”.

Em setembro de 2018, antigos membros do Conselho emitem uma Notificação Extrajudicial ao MinC, requerendo a “revogação dos atos […] e normas que violem a autonomia técnica, administrativa e financeira asseguradas na escritura de incorporação da Fundação Cinemateca Brasileira […], além de: 1) Constituição de novo Conselho Consultivo com observância à necessária autonomia do órgão; […] 3) Retorno da Cinemateca Brasileira à estrutura do IPHAN”. A notificação menciona ainda a “omissão da SAv diante do incêndio [de 2016 … e] que a Cinemateca Brasileira nem mais consta da estrutura do Ministério da Cultura e nem mereceu nenhum cargo público comissionado”.

Gestão por OS na Cinemateca Brasileira

No momento de maior solidez da instituição, na primeira década deste século, a manutenção de seu corpo funcional foi um desafio constante. Os técnicos eram contratados por projetos com duração específica, por diferentes formas de vinculação.40 Essa dinâmica imprime fragilidade e instabilidade aos fluxos de trabalho, compromete estratégias e soluções estruturais, além de vulnerabilizar a própria equipe técnica.41 O modelo de gestão por OS seria uma solução desejada para viabilizar a contratação da equipe técnica de forma estável, depois de anos de penúria, conforme evidenciado por Futemma em e-mail na lista da ABPA: “esta discussão [de modelo de gestão de OS] ocorre há oito anos, envolvendo MinC, SAv e Conselho e equipe da Cinemateca. Temos grandes expectativas de que, até o final deste ano, um novo modelo de gestão permita à Cinemateca Brasileira exercer todo o seu potencial em prol do patrimônio audiovisual brasileiro”.42

O modelo de gestão por OS foi a solução deliberada depois de muitos anos de instabilidade do corpo técnico. Essa perspectiva era calcada também na possível preferência de uma OS criada especialmente para gerir a CB, a Pró-Cinemateca, OS criada em 2014 por membros do conselho e da SAC, com a finalidade única de fazer a gestão da instituição, que potencialmente teria a participação de profissionais da área na construção de um Plano de Trabalho – documento medular para a gestão em si e um dos critérios de seleção no Edital. A Pró-Cinemateca se qualificou para o 1º Edital lançado, mas não para o 2º Edital, devido à nova exigência de experiência prévia da instituição na gestão de recursos públicos – não havia experiência da instituição, pois havia sido criada recentemente, mas dos representantes e conselheiros, sobretudo experiência na própria Cinemateca, o que, na prática, poderia ser mais relevante do que o histórico de gestão da empresa em si.

Hoje o modelo de gestão por OS, após controvérsias em torno da gestão de outras entidades públicas, casos de corrupção e uma série de publicações sobre o tema na academia e na internet, é rebatido de forma ampla.43 O modelo é especialmente arriscado para instituições de patrimônio cultural em um contexto de insuficiência de recursos do Governo, onde fluxos de trabalho essenciais para a conservação do acervo (muitas vezes custosos e de baixa visibilidade) podem ser ofuscados para o benefício de ações com maior visibilidade pública. A confecção de um plano de trabalho sem a participação efetiva da equipe técnica pode comprometer seus objetivos primordiais. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira:

“Um outro problema dessa gestão é que a justificativa da liberdade para captação de recursos por outras vias que não as estatais acaba também ficando à mercê do Estado. Isso se dá porque, no Brasil, o apoio das instituições privadas para a cultura não é tradição. A iniciativa privada no Brasil não apoia iniciativas culturais. Tradicionalmente, famílias milionárias e corporações brasileiras não realizam doações ou investimentos nos equipamentos de cultura, menos ainda para aqueles que não dão visibilidade à marca”. (2020, p.110)44

No caso da CB, a gestão por OS possibilitou a contratação por CLT45 de boa parte da equipe, cuja escolha felizmente coube aos coordenadores, sem a intervenção da Acerp. Porém, gradativamente o corpo técnico passou a ser condicionado às diretrizes da Acerp, condição que ficou evidente em reuniões internas, quando não era mais possível desempenhar um papel ativo na prospecção de acervos46 ou falar em nome da instituição sem o consentimento da Acerp. Sinais de mudança foram percebidos nos “modos sociais” da equipe, de forma distópica: a instalação de rede de câmeras como medida de segurança de acervo e equipamentos se concretizou com a gestão da Acerp – abarcando espaços anteriormente utilizados em pausa do trabalho, gerando desconforto com a vigia panóptica moderna.

Cursos internos de assuntos técnicos ou apresentação de fluxos e atividades entre os setores, que eram realizados desde 2017, foram suspensos. A captação de recursos para a Cinemateca constava entre as ações previstas pela Acerp, e o aproveitamento do acervo e das instalações era uma via rápida para esse fim, o que gerou longos períodos com um fluxo constante de montagem e desmontagem de estrutura para grandes eventos, com temáticas variadas, por vezes distante da cultura e do audiovisual. Como não foram emitidos relatórios de 2018 e 2019, na gestão da OS, não é possível o acesso à informação sobre esses eventos. A ausência de publicação de relatórios é um perigoso indício da falência do modelo de OS para a Cinemateca, pois são documentos fundamentais para prestação de contas e transparência da gestão da instituição. No período foram criados relatórios de cumprimento de metas para o Ministério, mas o caráter do documento é técnico e pouco informativo, além de não ser público. Foi proposto um Código de Ética e Conduta da Acerp para os funcionários da CB, apresentado em um evento sobre o compliance da empresa – a menção de crenças religiosas no evento foi uma demonstração significativa da distância entre a Acerp e a missão institucional da CB.47 Ainda, ficou explícita e evidente a inaptidão da empresa no desembaraço de burocracias para aquisição de equipamentos para o laboratório, o que afetou planos de trabalho desenhados segundo a disponibilidade de tais equipamentos. Solicitações de acesso ao acervo audiovisual para a utilização na programação da TV Escola tornaram-se prática corrente – enquanto a Acerp desatendia algumas necessidades apontadas pelo corpo técnico. As propostas da programação para a sala de cinema foram impactadas e condicionadas – como apresentar a ideia de uma mostra de Fassbinder para uma diretoria que fazia piada homofóbica nas situações de conversa fiada anteriores às reuniões?

O cancelamento em cima da hora da edição de 2019 da CryptoRave48 pela equipe da própria Cinemateca foi sintomático, por receio de represália. Um símbolo incontestável da ocupação pela Acerp foi a criação de um novo site, sem participação ativa do corpo técnico da Cinemateca nas decisões editoriais. Como exemplo de equívoco, a ferramenta dinâmica do calendário de programação não era compatível com a linguagem do novo site. Portanto, o novo site passou a ter um design mais atualizado, porém menos funcional. A Acerp de imediato implementou uma logomarca intermediária (dizeres ‘cinemateca brasileira’ em cor branca sobre fundo vermelho), em substituição da logomarca de 1954, criada pelo celebrado designer Alexandre Wollner. A Acerp encomendou o desenho de uma nova logomarca, apresentada ao corpo técnico sem espaço para deliberação, cujo conceito e diagramação surpreendem pela semelhança com a logo do Curta Cinema - Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro. Outro aspecto delicado, pois a Acerp é sediada no Rio de Janeiro e a Cinemateca em São Paulo.49 são os gastos de traslado, hospedagem e diárias de alimentação de diretores, gerentes e membros da consultoria jurídica entre as cidades – esses recursos acumulados significam um montante considerável, que poderia ter sido investido na própria Cinemateca.

Um símbolo inquestionável do insucesso do modelo de gestão de OS para a Cinemateca foi a dissolução do Conselho Consultivo, composto por representantes do poder público e da sociedade civil, cuja existência está prevista na ata de incorporação da instituição ao governo federal, de 1984. Sem diálogo com o Conselho, vários diretores foram apontados pela Acerp, sem experiência na área de memória ou preservação, e acabaram por alienar a equipe técnica dos rumos da instituição. Além disso, a Cinemateca, que historicamente se mantinha apartidária, por meio da Acerp, tornou-se o destino de pessoas associadas ao partido de extrema direita do presidente à época, em cargos diversos (administrativos e de comunicação, sobretudo), sem a expertise necessária nem entendimento da instituição, e que frequentemente apresentavam as áreas técnicas aos visitantes sem o devido acompanhamento da equipe técnica, fragilizando mais os esforços de conservação. Episódios com muita repercussão foram a presença de militares nas dependências da instituição50 e a tentativa fracassada de realização de uma mostra de filmes militares. Ao longo dos quatro anos da gestão da Acerp, a partir do exame da dinâmica interna, fica explícito o quanto a equipe técnica era autônoma e tinha projetos (Acerp como prestadora de serviço, de 2016 a 2018) e o quanto houve de perda da autonomia no modelo de gestão por OS (2018 em diante).

O limbo administrativo em que os dez servidores públicos alocados na instituição consiste em outra questão. Eles continuaram em seus postos desde o início da gestão por OS, quando a CB deixou de ser uma coordenação-geral da SAv do antigo MinC. Alguns dos servidores já estavam na instituição há mais de três décadas. Antes da assinatura do contrato, foi garantido aos servidores que, com a cessão para a OS, não teriam prejuízos em seus salários e benefícios. Contudo, após a assinatura do contrato, o entendimento mudou e a cessão nunca foi oficializada. Apesar dessa situação, o ministério orientou os servidores a prosseguirem com suas atividades na Cinemateca. Após um ano e meio de descaso e mensagens contraditórias, tiveram que abandonar de forma brusca a Cinemateca, para trabalhar no Escritório Regional do Sudeste do Ministério, em São Paulo – sem infraestrutura mínima para recebê-los. Além da súbita suspensão de sua atuação na CB, essas pessoas respondem a um processo de reposição ao erário, para devolução à União da Gratificação de Desempenho de Atividade Cultural (GDAC) – que representa parte significativa dos vencimentos – do período da assinatura do contrato de gestão da Acerp até a ida ao escritório do Ministério, por terem trabalhado “cedidos” para a OS.

Apesar de a Acerp ter assumido as relações institucionais de forma mais ampla, excepcionalmente a relação com a FIAF seguiu sendo feita por Olga Futemma e coordenadores, com a emissão de minuciosos relatórios anuais à Fundação e a pronta pesquisa de informações solicitadas por associações filiadas à FIAF. Porém, entre os anos 2016 a 2019, não foi possível a representação de Futemma ou dos coordenadores nos Congressos de Bologna, Los Angeles, Praga e Lausanne.

Crise de 2020

Em fevereiro de 2020 a instalação secundária na Vila Leopoldina foi afetada por uma enchente, devido às fortes chuvas e à ausência da gestão adequada de galerias pluviais do bairro, aliada à intensa poluição do rio Pinheiros, a menos de 0,5 km da Cinemateca. A água de esgoto atingiu mais de um metro de altura, destruindo parte do acervo de película e de equipamentos, inclusive últimos materiais de longas e curtas de ficção, muitos elementos únicos de cinejornais, publicidade e trailer. Os danos ao acervo documental não foram considerados significativos, por se tratar de material duplicado. Instalações e equipamentos do galpão foram afetados e danificados. Após uma higienização profunda no ambiente pela equipe de limpeza, uma parcela da equipe técnica foi deslocada para limpeza, organização e resgate dos materiais atingidos. Não foi executado um plano emergencial por parte da Acerp ou da SAv para a necessária avaliação e processamento dos acervos audiovisual e de equipamentos, os mais atingidos, como a contratação de uma equipe técnica extra de forma temporária ou, até, a permissão de voluntários.51 A catástrofe não foi noticiada espontaneamente devido à falta de articulação entre a SAv e a Acerp diante da tragédia. A equipe técnica não poderia tomar a iniciativa de tornar pública a enchente. A exígua equipe estabeleceu turnos diferenciados, considerando a alta toxicidade do ambiente e a carga exaustiva, acentuada pelas altas temperaturas do galpão sem climatização e com restrita ventilação.52 Materiais em película foram selecionados e transladados para a sede principal para avaliação e processamento no laboratório, mas havia pouca película disponível para duplicação emergencial de rolos únicos danificados. Pelo alcance dos danos no espaço da CB e, sobretudo, nos acervos audiovisual e de equipamentos, pela inação da SAv e da Acerp, e pela crise que se sucedeu depois, interrompendo o trabalho de resgate e pesquisa, essa enchente se equipara, como catástrofe, aos sucessivos incêndios sofridos pela instituição, que “são metáfora da fragilidade da construção de uma política de preservação audiovisual que se esvai em chamas a cada mudança de Governo, de criação de entidades, de novos agentes” (Ferreira, 2020, p.23).

Desde a crise de 2013, o orçamento repassado pelo Ministério foi aquém das necessidades, o que se traduziu em equipes menores que o planejado para execução dos planos de trabalho. Ao final de 2019 instalou-se mais uma crise, quando o então Ministro da Educação decidiu não dar continuidade ao projeto da TV Escola – objeto principal do contrato da Acerp com o MEC –, não renovando o Contrato de Gestão com a Acerp (supostamente por uma cizânia pessoal do Ministro com um dos diretores). Uma vez extinto o contrato-principal com o MEC, todos os demais contratos foram encerrados – apesar do aditivo referente à CB ter duração até 2021 – o que deixou a CB à deriva administrativamente. A Acerp passou alguns meses buscando contornar a decisão e tentando obter recursos com a SAv, com a Secretaria Especial da Cultura e com o Ministério do Turismo, sem sucesso. O ano de 2020 foi repleto de notícias absurdas de decisões do governo envolvendo a Cinemateca,53 causando comoção e repercussão em redes sociais e gerando matérias na mídia. Em abril a Acerp parou de pagar as empresas terceirizadas e a equipe técnica. Antigos membros do Conselho lançaram um manifesto em maio.54

Foi iniciada uma ação civil pública pelo Ministério Público Federal contra o governo federal, pedindo a renovação emergencial do contrato com a Acerp que, até o fechamento deste texto, tinha o entendimento de que a situação estaria sanada com a contratação dos serviços essenciais (segurança, bombeiro) – porém, a ação está em andamento e há expectativa de uma nova decisão favorável à CB. Foram formadas e fortalecidas redes de resistência e protesto, de forma difusa, com diversos atores, que estreitaram a comunicação ao longo do tempo: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, e representantes da Associação Paulista de Cineastas (Apaci),55 criando o movimento SOS Cinemateca. Estes grupos estiveram muitos ativos na realização de atos pela Cinemateca e na articulação política com gestores municipais e federais. Por parte do corpo técnico da CB, a porta voz não foi a gerência ou as coordenações, mas a representação de funcionários como um grupo.56

Os funcionários, que seguiam em trabalho remoto (quando possível), entram em greve em junho, com o auxílio efetivo do Sindicato. Neste mês é iniciada uma campanha por iniciativa dos trabalhadores da CB para arrecadar recursos para os colegas em situação mais vulnerável pela falta dos salários e benefícios, ainda mais fragilizados com a pandemia de Covid-19. A campanha teve numerosas contribuições de pessoas e instituições de todo o mundo.57 Foram feitas doações diretas à própria instituição, como a de um diretor anônimo, que doou para o conserto do gerador. Em julho foi realizado um debate na Câmara dos Deputados,58 com a presença de parlamentares, de diferentes atores da cadeia do audiovisual e da sociedade civil, um símbolo da repercussão e engajamento inéditos em torno da Cinemateca. De certa forma evidenciou também a necessidade de protagonismo e de didática por parte de profissionais da área pela profusão de termos inadequados e imprecisos ao defender a Cinemateca.59 A diretoria da Acerp emitiu poucos comunicados ao corpo técnico diretamente, e as informações eram repassadas, de forma irregular, pelos coordenadores. Em junho foi emitido um comunicado da diretoria (em documento não datado!), com solidariedade “com as dificuldades que todos estão passando, mas saibam que estamos fazendo o possível e impossível, estamos fazendo de tudo que está ao nosso alcance”, com o comprometimento de, “assim que receber do Governo Federal, a primeira providência será pagar salários e rescisões” – quando era notório que não haveria nenhum repasse por parte do Governo Federal. Considerando a ausência de recursos em 2020 para a Cinemateca, a enchente, a crise decorrente da pandemia de Covid-19, o trabalho remoto, a suspensão de salários e benefícios, o comunicado é um símbolo do descaso e desrespeito da Acerp com seu corpo funcional. Após a entrega de chaves da CB ao Ministério em 7 de agosto,60 a Acerp demitiu seus funcionários (sem pagamento de salários atrasados e verbas rescisórias).

Conforme notado na Carta de Gramado de 2020, “após inúmeros telefonemas, mensagens, consultas entre as partes e adiamentos, foram garantidos os serviços básicos e emergenciais de água e de luz […]; foram contratados os serviços de limpeza, embora a empresa não seja especializada; foram contratados serviços de manutenção dos equipamentos de climatização, embora a empresa não ofereça a expertise necessária; foram contratadas uma mini brigada anti-incêndio composta por dois funcionários e uma empresa de vigilância patrimonial das dependências. No entanto, entre as necessidades emergenciais falta o fundamental trabalho dos funcionários especializados sem os quais o acervo não estará preservado, mesmo com a retomada dos serviços básicos acima descritos”.61 Sem o acompanhamento técnico, o menor dos incidentes nas áreas de acervo pode gerar problemas com consequências drásticas e irreversíveis. Trata-se da primeira vez que em que é impossibilitada a entrada na instituição, por qualquer membro do corpo técnico.

À ocasião da entrega das chaves ao Ministério do Turismo, foi indicado que um edital para a contratação de uma nova OS seria lançado em breve, o que ainda não ocorreu. Há uma previsão orçamentária de R$ 12,5 milhões para a Cinemateca em 2020. Caso este recurso não seja utilizado ainda neste ano, não poderá ser somado aos parcos R$ 4 milhões previstos para 2021. Vereadores de São Paulo de diferentes partidos políticos organizaram um fundo de emendas parlamentares para a Cinemateca, com apoio da SPcine, empresa municipal de audiovisual de São Paulo. A aplicação de recursos municipais em uma instituição federal demanda uma articulação jurídica inédita, que está sendo construída pela SAC para a contratação emergencial de um pequeno corpo técnico. Hoje, os grupos da Sociedade Civil seguem ativos, com a tentativa de acionar entidades e dar continuidade à mobilização. A próxima grande ação está prevista para 27 de outubro, Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual - UNESCO.

É urgente a criação de uma solução imediata para a viabilização de uma equipe técnica ainda no ano de 2020, para que o acervo não siga desacompanhado. A criação de mecanismos para a gestão da instituição a médio e longo prazo, de forma resiliente e sustentável, condizente com a necessidade de constância dos trabalhos no acervo e de manutenção da equipe técnica também é urgente. Considera-se como necessária e fundamental a abertura de concursos públicos para os cargos técnicos, respeitando as especificidades, o que poderia conferir a desejada estabilidade. Conforme diagnosticado na Carta de Ouro Preto de 2020:

“preservação do patrimônio cultural é dever constitucional do Estado brasileiro e, portanto, é preciso recuperar o protagonismo do poder público na gestão de instituições de patrimônio audiovisual, retomando os processos de abertura de concursos públicos e de implementação de planos de gestão pensados em conjunto com a sociedade civil, diretiva prevista na Recomendação sobre a Salvaguarda e Conservação das Imagens em Movimento, da UNESCO, de 1980” (Carta de Ouro Preto de 2020)

Uma ideia recorrente nas numerosas discussões on-line é o retorno da Cinemateca Brasileira para uma instituição de memória e patrimônio do governo federal – IBRAM ou o IPHAN, ao qual a CB foi vinculada até 2003, quando passou a ser vinculada à SAv. Foi inclusive esse vínculo ao IPHAN que proporcionou a continuidade da CB no início da década de 1990, quando o governo federal promoveu um desmonte de políticas e instituições de cinema. O IBRAM é uma autarquia vinculada ao Ministério do Turismo, que abrange trinta museus federais.

Depósito Legal e o Mercado do Audiovisual

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Possivelmente a prosperidade do FSA (e o aumento de investimentos em desenvolvimento, produção, distribuição e exibição), unida à inação dos elos da cadeia produtiva do audiovisual em relação à preservação se relacionam diretamente com a dimensão da atual crise do patrimônio audiovisual. A ABPA reiteradamente tem pleiteado assento no Conselho Superior do Cinema (CSC) e no Comitê Gestor do FSA, sem sucesso. No debate “Fronteiras entre a indústria, mercado e arquivos – conteúdo, fomento e regulação”, na CineOP de 2018, um representante da indústria audiovisual no Comitê Gestor do FSA sugeriu a busca de outro caminho de financiamento para a preservação, distinto do FSA. Quando este profissional levanta essa possibilidade (e ele é só um exemplo da postura de outros produtores), não compreende a importância da preservação para toda a cadeia nem que também é sua função defender a Cinemateca, bem como outras políticas para a gestão do patrimônio audiovisual, de forma ampla. Nem que seja pelo viés personalista, considerando que algum asset seu possa estar lá: a matriz de uma imagem de arquivo para seu próximo filme como produtor; a matriz do seu filme de estreia dos anos 1980; ou os registros domésticos de sua família. Ou, ainda, pelo fato de que a atuação da Cinemateca em discussões, publicações, fóruns e em pesquisa de tecnologia possa beneficiá-lo de alguma forma. Como afirma Paulo Emílio, “não se faz bom cinema sem cultura cinematográfica e uma cultura viva exige simultaneamente o conhecimento do passado, a compreensão do presente e uma perspectiva para o futuro. Enganam-se os que confundem a ação das cinematecas com o saudosismo” (1982, p.96). A cadeia produtiva já resmungou62 quando foi debatida a necessidade de investimento no gigante passivo da preservação audiovisual para atender à própria cadeia produtiva e, até, explorar comercialmente os acervos. O business model não fecha enquanto não tivermos um investimento massivo para dar conta de décadas de dificuldades e estagnação. Eu resmungo de volta com esse gráfico:63

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Em abril de 2017, foi publicado o Plano Anual de Investimentos do FSA para o ano de 2017,64 no qual foram anunciados, como apoio, R$ 10,5 milhões para a Cinemateca Brasileira. O valor equivale a 1,4% do total anunciado no documento. O valor nunca foi executado, com a justificativa de que o recurso do não reembolsável65 teria terminado. Em maio de 2018 foi lançado o Plano Anual de Investimentos de 2018,66 com a previsão de R$ 23,375 milhões para investimentos em Preservação e memória. Em dezembro daquele ano foi lançado pela SAv o Edital de Restauro e Digitalização de Conteúdos Audiovisuais. Tratava-se de recursos para restauração ou digitalização de obras para empresas do audiovisual, com a possibilidade de retorno financeiro, e contou com a atuação de um grupo de trabalho com a participação de técnicos de preservação da Cinemateca Brasileira na construção do documento e das diretrizes técnicas para a digitalização e restauração. Sob a ótica de profissionais do setor, o Edital estava destinado somente a produtoras com o viés da distribuição, sendo a preservação secundária. O Edital foi suspenso cerca de quatro meses após a publicação pelo atual governo. Portanto, nenhum recurso do FSA de 2008 a 2018, de um total de um pouco mais de R$ 4,5 bilhões,67 foi de fato investido em preservação.

Atualmente a Cinemateca Brasileira é a única instituição habilitada a receber materiais em Depósito Legal. Desde 2016, a Ancine investiu não mais que R$ 2 milhões na contratação de equipe técnica para análise desses materiais, cujo fluxo de processamento mobiliza diversos setores e técnicos da instituição. Foi reportada alta taxa de reprovação dos materiais analisados e, segundo Gomes (2020), “parece ter como uma das principais causas o grande distanciamento e pouca informação de realizadores/produtores acerca, de maneira ampla, do papel de um arquivo audiovisual, e de maneira mais específica, dos princípios do Depósito Legal”. Contar com a expertise na análise dos materiais sem viabilizar recursos para a preservação desse acervo pode ser considerado como tiro no pé. Os materiais analisados estão inertes em estantes em um ambiente climatizado – à mercê da famosa morte silenciosa.68 É necessário que o mercado participe para garantir um aumento da taxa de aprovação e a criação de condições para preservação de materiais nato digitais no âmbito do Depósito Legal. De maneira ampla, a narrativa e a luta por políticas para o patrimônio audiovisual devem também ser do mercado.

É muito significativo o panorama da Cinemateca apresentado na Carta de Gramado 2020, elaborada pela frente SOS Cinemateca, com adesão de diversas associações – de outras cinematecas, de profissionais e empresas do audiovisual. Um sinal positivo é a inclusão de uma discussão sobre a crise na Semana ABC, organizada pela Associação Brasileira de Cinematografia (ABC), um dos mais significativos eventos em torno da realização audiovisual no Brasil. Mas ainda precisamos de maiores ações de aproximação e de reconhecimento de que esta crise da Cinemateca deve ser preocupação – e requer atuação – de todo o setor.

Conforme apontado na Carta de Ouro Preto de 2020, entre os pontos urgentes para implementação de uma política nacional para a área e os desafios a serem enfrentados está “reivindicar a criação de mecanismos para a ampliação da oferta de obras audiovisuais brasileiras nos catálogos de plataformas de streaming, tendo a garantia de inclusão de obras de diversas épocas, possibilitando o acesso ao vasto patrimônio audiovisual brasileiro”. Qual seria a relação da Netflix (usada aqui como modelo de plataforma), por exemplo, com a necessidade de investimento no patrimônio audiovisual brasileiro? Só uma oportunidade de benfeitoria mesmo, viável por sua presença na lista das 12 empresas que mais lucraram na pandemia. A proposta não é tão absurda, considerando que a empresa no Brasil criou um fundo emergencial de R$ 5 milhões para a indústria audiovisual brasileira, devido ao recesso no contexto da pandemia de Covid-19.69 Obras antigas disponíveis nas plataformas de streaming constituem uma preocupação nos Estados Unidos.70 Em geral, produtores brasileiros não contam com recursos para digitalização e finalização de filmes antigos capazes de atender aos parâmetros técnicos requeridos pela plataforma e, possivelmente, precisam de investimento em advogados para viabilizar o clearance.71 da obra. Que tal então a plataforma lançar uma linha de investimento para obras não contemporâneas? Trata-se de uma ideia que seria contemplada pelo Edital SAv/MinC/FSA nº 24 de dezembro de 2018, linha de Restauro e Digitalização de conteúdos audiovisuais, suspenso em 2019. A saúde das instituições de patrimônio audiovisual beneficia também as próprias plataformas de streaming a médio e longo prazo – considerando, por exemplo, a forte tendência de documentários em torno de imagens de arquivo.72 Como ilustração, o expressivo número dos documentários dos EUA disponíveis na Netflix Brasil, que possui imagens de arquivo como condutores da narrativa, como Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), e as séries Remastered (2018) e Explained (2018). No entanto, comparativamente são poucos os filmes e séries brasileiros que apresentam imagens de arquivo nessa medida, sendo uma exceção OBarato de Iacanga (2019, Thiago Mattar).73

Além da atividade do laboratório da Cinemateca para a preservação de seu acervo, chamo atenção para a confecção de cópias, como a coleção “Clássicos e Raros do Cinema Brasileiro”, iniciada em 2007, que teve sua 4ª edição em 2016, e aquelas feitas para celebrar o Dia internacional do Patrimônio Audiovisual. Destaco, como meio de registro, as cópias em 35mm e digital realizadas em 2016, tal qual consta no Relatório.

A confecção de cópias em 35mm é uma importante função de uma cinemateca com um laboratório fotoquímico, para a preservação e para proporcionar uma experiência de difusão em consonância com o formato original da obra. Considerando que o digital é a forma de ampla circulação, são confeccionados cópias em digital em diversos formatos/fins. No contexto da CB, o esforço de digitalização dessas obras se realizaria mais plenamente com alguma forma de difusão pré-estabelecida, idealmente com a devida curadoria e ações de contextualização. Atualmente, o caminho natural de difusão digital da CB é a inclusão na plataforma Banco de Conteúdos Culturais (BCC).74

Dez Filmes Importantes Para a História do Cinema Brasileiro Inacessíveis (ou quase) Digitalmente”, publicado em Cinelimite, expõe a inacessibilidade digital a alguns celebrados, cânones ou raridades de nossa filmografia. Além de ações para o acesso digital, é crucial avaliar se suas matrizes estão fora de risco iminente, e se demandam ações de preservação ou duplicação. A lista de Rafael de Luna me remeteu a “Filmes brasileiros considerados perdidos (ou prestes a sê-lo)”, publicada na extinta revista Contracampo.75

Distintivamente, a lista de 2001 era sobre a existência/perda de matrizes. Além de alguns títulos que eventualmente foram perdidos, outros tiveram seus (conhecidos) únicos materiais deteriorados, a ponto de inviabilizar um processamento em laboratório. Devido às crises da Cinemateca Brasileira, à paralisia dos trabalhos de pesquisa, das ações de preservação e do processamento laboratorial, a atualização da lista feita em 2001 por Hernani Heffner e Ruy Gardnier seria trágica em extensão e escopo. Seria papel de uma instituição nacional tornar esta lista pública. Além de prestar contas à sociedade brasileira sobre seu patrimônio audiovisual, também pode ser uma estratégia de localização de novos materiais junto a outras instituições e colecionadores privados no Brasil e no mundo. Ainda, e os tantos outros filmes e registros que escaparam de tal investigação e documentação e estão em ostracismo? Quantos filmes existem, cujos únicos materiais são cópias em bitolas inferiores, incompletos, muito deteriorados? Quantos registros audiovisuais brasileiros já perdemos?

Conclusão
“Se perdermos o passado, viveremos em um mundo Orwelliano do presente perpétuo, onde qualquer pessoa que controla o que está sendo divulgado poderá dizer o que é verdade e o que não é. É um mundo terrível, nós não queremos viver nesse mundo.” Brewster Kahle (2014, entrevista para Digital Amnesia, documentário da holandesa VPRO)
“Conhecimento só se efetiva quando é compartilhado” Hernani Heffner (2001, em conversa de corredor na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro)

O audiovisual digital tem sido ferramenta crucial nas lutas por direitos humanos em todos os cantos do país. São registros de despejos forçados de comunidades, da ocupação de aparelhos culturais ou educacionais como forma de protesto, de manifestações, de invasão de comunidades por forças policiais – com altos índices de homicídios da população local, inclusive crianças e jovens – registros da devastação ambiental fomentada pelo governo atual, da luta por direitos e pela demarcação de terras indígena, e de crimes contra os povos originários. O audiovisual também tem sido utilizado no empoderamento preto e na luta antirracista, na emancipação e afirmação das mulheres por igualdade de oportunidades e contra o machismo estrutural. As redes sociais, com uma profusão de talentos criativos e narrativas, proporcionam os maiores índices culturais desta época. No Brasil, em sentido geral, estas imagens seguem fora do escopo de prospecção das instituições brasileiras, e ainda é tímida a discussão em torno de seu arquivamento e pertencimento ao escopo do patrimônio audiovisual no Brasil. Na perspectiva da preservação, além de todos os desafios inerentes à preservação digital de dados,76 temos o aspecto da efemeridade, pelo vínculo dos dados às corporações.

Os mecanismos de tecnologia persuasiva das redes sociais são utilizados para conduzir comportamentos de indivíduos. Algoritmos são capazes de dar credibilidade ao inverídico, de alavancar o terraplanismo e de colocar #StopFakeNewsAboutAmazon como trend no Twitter, enquanto a boiada do ecocídio passa solta, e o mundo testemunha a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e outros Parques Nacionais destruídos.77 O computador quântico Rehoboam78 é uma alegoria do agora, em uma narrativa explicitada por Shoshana Zuboff em seu livro “Capitalismo de Vigilância”. Vimos, num crescente terror e violência, sucessivas vitórias eleitorais de partidos e movimentos políticos de extrema direita. A circulação de notícias falsas nas redes sociais aumentou o poder de destruição do Covid-19. A contrainformação, deep fake e robôs de fake news têm conexão com o mundo descrito por Brewster Kahle, fundador do Internet Archive, citado acima. Podemos perder o passado e, até, o presente, pela fragilidade do tecido da informação, pelo potencial de manipulação e pela desinformação.79 O atual presidente do Brasil, quando deputado, à ocasião do processo de impeachment/golpe da presidenta Dilma Rousseff, votou pela memória do maior torturador da ditadura militar, que comandou as sessões de tortura contra a ex-presidenta. Falhamos em não ter mostrado e visto o suficiente de O caso dos irmãos Naves (1957, Luis Sérgio Person), Iracema - uma transa amazônica (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), Eles não usam black-tie (1981, Leon Hirszman), Pra Frente, Brasil (1982, Roberto Farias), Cabra marcado para morrer (1984, Eduardo Coutinho), Que bom te ver viva (1989, Lúcia Murat), Ação entre amigos (1998, Beto Brant), Cidadão Boilesen (2009, Chaim Litewski).80 De forma que fosse impossível banalizar o ato na Câmara dos Deputados, de tal forma que nenhuma mulher votasse nele para presidente dois anos depois. Agora não podemos deixar de preservar estes filmes e os que virão depois de Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) e Torre das Donzelas (2019, Susanna Lira).

Uma parcela expressiva do patrimônio audiovisual brasileiro já se perdeu ao longo do século passado. Além dos recorrentes incêndios à época dos primeiros cinemas, das ondas de destruição ativas (de filmetes curtos na consolidação do longa-metragem como formato, do silencioso com a chegada do cinema falado, na substituição do nitrato pelo acetato), muitos acervos se dispersaram, foram desmantelados, escamoteados, e os que chegaram aos arquivos de filmes já chegaram debilitados. Ainda, a demora em reconhecer a importância do patrimônio audiovisual, a ausência de políticas públicas para a sua gestão e a oscilação de recursos nas instituições acarretaram mais perdas. Com o advento do digital, há um agravamento – tanto pela preservação do que hoje é prospectado quanto pelo que está fora do escopo de prospecção. A crise atual da Cinemateca é gravíssima e demanda medidas urgentes do poder público e da cadeia audiovisual. Apesar do poder de destruição do atual governo e da paralisia dos trabalhos por tantos meses, encorajada pelas muitas discussões que estão sendo realizadas, pelas articulações em andamento e pelos movimentos em apoio à Cinemateca, quero terminar com algum tom de otimismo. Por acreditar no potencial da Cinemateca para promover debates e exibição de filmes, para efetivar o acesso às mais olvidadas coleções, ser um espaço para pesquisa, prover referência imagética do passado e subsidiar pesquisa tecnológica; para cativar crianças e jovens com a telona, apresentar o pré-cinema e as tecnologias do audiovisual em um museu, e para engajar o bairro e a comunidade vizinha. Acrescente-se para vários outros modos de uso criativo do acervo e das ferramentas que demoraremos a exercer, devido às sucessivas crises que aumentam o passivo de trabalhos, aceleram a deterioração do acervo e limitam o poder de alcance da instituição. Neste momento fica ainda mais evidente o fato de que a Cinemateca está incluída no macro projeto de devastação da cultura e do patrimônio brasileiro e, a sua importância como uma força para reagir contra este projeto, portanto, cresce cada vez mais.

Agradeço Aline Machado pela revisão minuciosa.

1. O Ministério da Cultura foi extinto no primeiro dia do governo; foi incorporado inicialmente ao Ministério da Cidadania e, posteriormente, ao do Turismo. Até o momento, a Secretaria Especial da Cultura já teve cinco titulares sem comprovada expertise, e outras instituições de patrimônio cultural passam por agudas crises, como a Fundação Casa de Rui Barbosa e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv). A Agência Nacional do Cinema (Ancine) não repassou recursos já comprometidos e não lançou novos editais. Destaca-se que a Constituição Federal, que rege a democracia brasileira, prevê em seu Art. 215 que o “Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”; e em seu Art. 216, que o “poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro”.

2. De 2016 a 2020 trabalhei no departamento de Preservação de Filmes da Cinemateca Brasileira. Compartilho reflexões subjetivas a partir de minha experiência, com ênfase nas atividades do departamento.

3. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

4. Por meio de uma política descentralizadora do Ministério da Cultura foram lançados editais de desenvolvimento e produção, com cotas para estados usualmente com restrito investimento no audiovisual, e projetos de baixo orçamento, editais específicos para novos diretores, mulheres e povos nativos.

5. Regulamentado em 2007, o FSA é retroalimentado por um fluxo do imposto Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), coletado a partir de todas as janelas do audiovisual, e investido em novas produções, linhas de desenvolvimento, distribuição de produções para cinema e televisão e jogos eletrônicos. De 2008 a 2018 foram investidos, no total, cerca de R$ 4,5 bilhões.

6. Um exemplo emblemático desta dinâmica ocorreu em 2008, com a presença do então diretor-executivo da Cinemateca Brasileira na 3ª CineOP, cuja temática é Política Nacional de Preservação Audiovisual: necessidades e desafios. Ao longo do evento ele se posicionou com firmeza contra uma articulação das demais instituições, a criação de diálogo destas com o representante do Ministério da Cultura no evento e a criação da ABPA - Associação Brasileira de Preservação Audiovisual.

7. Dentre as propostas do Simpósio sobre o Cinema e a Memória do Brasil de 1979, consta “a criação e a dinamização de centros regionais de cultura cinematográfica constituídos por unidades de produção e por filmotecas (arquivos de cópias de filmes), com a função básica de prospecção, pesquisa e divulgação do acervo brasileiro [… e] o estabelecimento de um inventário [nacional]” (1981, 67). Laura Bezerra relata a “criação de um programa de apoio às cinematecas que, apesar de não ter implementado ações sistemáticas e abrangentes, destinou recursos para algumas ações setoriais” (2014, 120). A descentralização é necessária, considerando a continentalidade e pluralidade cultural do país, além de tecnicamente ser desejada em caso de sinistros.

8. A CineOP é um evento criado em 2006 e tornou-se o principal fórum de discussões e articulações em torno do patrimônio audiovisual e o ensino do audiovisual no Brasil. A cada ano é redigido um documento pelos participantes do Encontro, a Carta de Ouro Preto, com alertas e proposições para o campo.

9. A ABPA é uma associação de profissionais, independentemente do vínculo com instituições, e tem atuado em prol de políticas para o setor, na projeção do patrimônio audiovisual e na realização de projetos, como a tradução e publicação de textos técnicos. A ABPA criou em 2016 o PNPA, documento de diagnóstico e proposições de ações e políticas para o campo da preservação audiovisual. https://abpanet.org/

10. O papel principal do Conselho é atuar no desenvolvimento da Cinemateca. Seus membros são representantes dos poderes públicos da esfera federal, estadual e municipal, além de indivíduos da sociedade civil com atuação em cinema ou patrimônio. Curiosamente, nota-se uma predominância de homens dentre os conselheiros ao longo dos anos.

11. Atualmente é o Cinesala. Cinesala. Disponível em: http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

12. O matadouro teve suas atividades encerradas em 1927. O terreno estava sendo utilizado como depósito de equipamentos de iluminação pública.

13. A partir de ideia de Gilberto Gil, músico e então membro do conselho de assessoramento cultural da BR Distribuidora, e posteriormente Ministro da Cultura, de 2003 a 2008.

14. Empresa estatal que impulsionou a produção, distribuição, exibição, preservação e restauração do audiovisual – vinculada à Petrobras, empresa brasileira de energia, gás e petróleo.

15. Em colaboração com a CB, o projeto também foi realizado na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro, inclusive o inventário do acervo, inédito na instituição e processamento de materiais deteriorados. A Cinemateca do MAM estava subjugada à direção do Museu, que determinou, de forma arbitrária, que não teria condições de manter o acervo audiovisual (insolitamente após o inventário). Como resultado, parte do acervo foi alocada no Arquivo Nacional a partir de 2002 na mesma cidade, e parte foi recebida pela CB. Alguns detentores de materiais optaram por guardar consigo, muitas vezes em lugares inapropriados. Essa foi uma das maiores crises da instituição, de relevância histórica para o cinema brasileiro (sobretudo para o movimento do Cinema Novo) e para a preservação audiovisual, cuja direção passou por Cosme Alves Netto, com notória ligação com instituições internacionais. A partir de 1996, Hernani Heffner ingressa na instituição. Em 2020, passa por uma consolidação, com um novo prédio para o acervo documental e com mudanças estruturais na direção do Museu.

16. Segundo Souza, a Filmografia Brasileira foi iniciada por Caio Scheiby em fichas em papel e, nos anos 1980, foram publicados quatro cadernos com registros dos filmes produzidos até 1930 (2009, p.259). Atualmente, de acordo com o site da instituição, “contém informações de aproximadamente 42 mil títulos de todos os períodos da cinematografia nacional e da produção audiovisual mais ampla e recente, sejam curtas, médias ou longas-metragens; cinejornais; filmes publicitários, institucionais ou domésticos; e obras seriadas (para internet e televisão), com links para registros da base de dados de cartazes e referências de fontes utilizadas e consultadas”. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 13 ago. 2020.

17. Texto extraído da plenária realizada em 2008. Disponível em: http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. Acesso em: 2 ago. 2020. Segundo Laura Bezerra, “o SiBIA foi pensado e executado a partir da CB/SAv sem quaisquer debates e negociações com os atores envolvidos, o que contradiz o espírito democrático-participativo defendido e praticado em documentos e ações do MinC” (2014, 185). O II Encontro Nacional do SiBIA ocorre em 2009, com 33 instituições de todo o país, e suas propostas, que demandavam recursos e ações da SAv, não se efetivaram. O projeto é extinto em 2009, sem desdobramentos práticos.

18. A Programadora Brasil foi um projeto de difusão de filmes (animação, experimental, ficção, documentário), que atuou de 2006 a 2013, por meio da edição de DVDs para circuito não comercial (cineclubes, centros culturais, escolas, universidades), em um total de 970 obras divididas em 295 DVDs.

19. Relatórios institucionais da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

20. Esta unidade foi afetada pela enchente no início de 2020.

21. Revista da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

22. Acervos adquiridos pela União sob a guarda da Cinemateca: Estúdios Vera Cruz e Atlântida Cinematográfica (em 2009), Canal 100 e Glauber Rocha (em 2010), Goulart de Andrade e Dulce Damasceno de Brito (em 2011) e Norma Bengell (em 2012).

23. A paralisia afeta também o Centro Técnico do Audiovisual (CTAv), instituição no Rio de Janeiro, que correalizava diversos projetos da SAv com a CB.

24. Depósito Legal é o mecanismo de depósito de materiais comprobatórios da realização da obra audiovisual subvencionada com recursos federais, em instituições credenciadas pelo governo federal – até o momento, somente a CB. Após a aprovação do material (de acordo com diretrizes técnicas), a empresa produtora torna-se apta a receber a última parcela do investimento. Devido à redução do fluxo de análise na crise de 2013, foi gerado um passivo de materiais a serem analisados.

25. Olga Toshiko Futemma atua na Cinemateca Brasileira desde a década de 1980, com destaque para seu trabalho no Centro de Documentação e Pesquisa. Tornou-se diretora-executiva em 2004, diretora-adjunta de 2007 a 2013 e diretora de 2013 a 2018, quando se torna Gerente de Acervos. Participou do Comitê Executivo da Fiat a partir de 2009 até o ano de 2013.

26. Após o incêndio, foi mantida a mesma estrutura. De acordo com o Relatório da CB de 2016: “a edificação, desenhada nos anos de 1990, foi construída sem instalações elétricas ou hidráulicas, de modo a minimizar os riscos de acidente; sem climatização ativa, mas mantendo a temperatura interna com as menores variações possíveis e permitindo a circulação de ar, para evitar o acúmulo de gases resultantes da deterioração do suporte. Em caso de autocombustão […] inevitavelmente consumiria todo o conteúdo da câmara, mas não se espalharia para as outras adjacentes” – que foi o que ocorreu em 2016, o fogo consumiu apenas uma das quatro câmaras.

27. Como exemplo, o ARRISCAN, quando adquirido, foi adaptado para materiais deteriorados, o que permitiu o escaneamento de negativo com 4% de encolhimento, medida que seria considerada inviável para outros laboratórios.

28. Bases de dados do Centro de Documentação e Pesquisa. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 7 ago. 2020.

29. O setor de difusão seguiu praticando a premissa de exibição de filmes do acervo, respeitando seu suporte original, privilegiando o cinema brasileiro; e realizando mostras, com materiais do acervo ou de parceiros, ou recebendo festivais nas duas salas de cinema e na tela externa da Cinemateca – projeções em 16mm, 35mm e digital, e alguns formatos em vídeo analógico.

30. Ainda de acordo com o relatório, “o processo de duplicação emergencial difere da restauração de filmes, conceito este aplicado quando são confeccionadas novas matrizes de preservação, de imagem e som, e cópias de acesso, incluindo diferentes graus de manipulação para minimizar marcas do uso ou deterioração, buscando a forma como a obra foi difundida em seu lançamento original. Uma restauração usualmente reúne e compara diversos materiais para seleção dos melhores, enquanto a duplicação emergencial trata de uma copiagem de um suporte em deterioração avançada, geralmente único, para um outro, novo.”

31. Carlos Roberto de Souza destaca que “os trabalhos de pesquisa e historiográficos brasileiros realizados […] chamaram a atenção para o fato de que é um equívoco construir uma história do cinema brasileiro a partir do filme de ficção de longa metragem. A produção brasileira de maior volume foi sempre a de documentários e cinejornais, geralmente relegada a segundo plano pelos chamados historiadores clássicos, pela mídia e pelo público em geral. A realidade da produção reflete-se no acervo cinematográfico que chegou até nossos dias. O percentual de filmes de não-ficção ultrapassa avassaladoramente o de longas de ficção e continua o menos preservado. Isso não significa que todos os longas de ficção estejam preservados. Longe disso. A parcela mais tratada – nem sempre com os cuidados que merece – é a dos longas brasileiros consagrados.” (2009, p.261).

32. Posteriormente descobriu-se que há um campo homônimo na base Filmografia Brasileira, conduzida pelo Centro de Documentação e Pesquisa, que constava dentre os campos excluídos do fluxo à época. Tratava-se de um sistema numérico de 0 a 5. Considerando que os técnicos da Preservação que propuseram a metodologia não tinham experiência anterior na instituição, a proposição não seguiu o sistema numérico, mas categorias de texto. Como exemplo, as categorias ‘preservado no momento’ (considerando matrizes originais, intermediários e cópias de acesso em bom estado, por exemplo), ‘parcialmente preservado’, ‘não preservado’, ‘parcialmente perdido’, com a inclusão de adendos como ‘com defeitos’ (interferências na imagem ou som), ‘incompleto’, etc. O sistema permitiu agilidade nos fluxos de seleção de materiais para duplicação emergencial e pesquisa para acesso externo.

33. Ferramenta proposta pela Unesco em 1988, por seu caráter moldável, que se assemelha a cartões físicos de biblioteca individuais, com limitado cruzamento de informações.  

34. A ferramenta foi inicialmente pesquisada e selecionada pelas equipes do laboratório e de desenvolvimento anteriormente a 2016. Foi adotado pela equipe da preservação em 2016, perfil mais institucional em 2017 – trac.cb – em seguida pela equipe do Centro de Documentação e Pesquisa e, por último, e com uso comedido, pela equipe da difusão.

35. Precisamosfalar sobre... o logo da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. A logomarca é identificada por muitos por sua forma fálica, o que poderia ter contribuído para o grau de viralização e atenção à Cinemateca em 2016.

36. Manifesto pela Cinemateca Brasileira - 2016. Disponível em: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com. Acesso em: 20 jul. 2020.

37. 100 Paulo Emílio. Disponível em: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. Acesso em: 20 jul. 2020.

38. Questiona-se a legalidade da realização de um aditivo ao contrato principal. De qualquer forma, consideramos um ultraje que a gestão da Cinemateca Brasileira seja regida por um aditivo como instrumento legal.

39. Como ocorreu em casos de acesso aos originais para digitalização e licenciamento ao Canal Brasil, principal canal de televisão de obras brasileiras, que estava atualizando seu catálogo, anteriormente em resolução SD. A entrega ao Canal seria em HD ou superior, apesar de ser uma resolução datada. Os produtores optavam por resolução HD e não em 2K, por limitação de orçamento, mas além de ser mais relevante comercialmente a médio prazo, o 2K representa uma ação mais significativa de preservação, uma vez que seria um resguardo por mais tempo do material original em película – grande parte já em más condições.

40. Sobretudo a pejotização: a contratação de serviços de indivíduos por meio de empresas constituídas para tal.

41. Essa dinâmica de dispersão de força de trabalho é ainda mais perigosa no contexto da preservação digital, que demanda uma constante atualização de saberes devido, à incessante mudança da tecnologia e de práticas de mercado.

42. E-mail de 29 de junho de 2016. Disponível em: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Acesso em: 15 jul. 2020. Débora Butruce indica que o tema de gestão por OS foi debatido em um Grupo de Trabalho ao longo de alguns anos: 15ª CineOP. Instituições de patrimônio em risco: Caso Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. Além de Butruce, participaram do debate Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira e Eloá Chouzal, na mediação.

43. Jorge Barcellos resume da seguinte maneira: “[…] ao longo do tempo as OS tornam-se deficitárias e custosas”; e alerta que “segundo Alzira Angeli, da Controladoria Geral da União, estas organizações transformaram-se no novo nicho de mercado da corrupção e [segundo o historiador Francisco Marshall] “a iniciativa promove a degradação da gestão pública”. Disponível em: https://jorgebarcellos.pro.br. Acesso em: 20 ago. 2020. Como exceção, alguns museus no Estado de São Paulo seguem com êxito no modelo de gestão por OS.

44. Em contraste com o modelo estadunidense, no qual famílias bilionárias e grandes corporações subvencionam projetos e instituições de cultura e patrimônio, por fundações.

45. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com diversos benefícios ao trabalhador, como férias remuneradas, 13° salário, seguro-desemprego, auxílio-doença, salário-família, salário-maternidade e aposentadoria.  

46. A prospecção de materiais é uma função primordial da CB, por ser a principal instituição nacional e considerando o secular histórico de destruição e descaso com o patrimônio audiovisual brasileiro. Tornaram-se notórias notícias de acervos potencialmente valiosos nos últimos anos, e não foi possível a atuação de técnicos da CB. Por intermédio da Acerp, foi feita avaliação em um acervo no interior de São Paulo. O corpo técnico assumiu o contato com o Ministério das Relações Exteriores para a avaliação da listagem de acervos de cópias 35mm em Embaixadas do Brasil em Roma, Berlim e Haia para a repatriação. Acerp posteriormente assumiu o diálogo e não conseguiu efetivar o translado.

47. A Missão Institucional estava sendo consolidada em um documento, que não se efetivou na gestão da Acerp.

48. Fórum de discussão de liberdade, autonomia, segurança na Internet. CryptoRave. Disponível em: https://cryptorave.org. Acesso em: 15 ago. 2020.

49. A distância entre as duas cidades é de mais de 400 km, cerca de 1 hora de voo.

50. Militares fardados ocasionalmente visitavam a instituição. Um episódio tornou-se notório: a visita de um deputado, com mesmo sobrenome que seu tio-avô, o primeiro presidente da ditadura militar. Ele publicou um vídeo em redes sociais, dentro da CB e acompanhado por representantes da instituição, anunciando a mostra de filmes militares, reproduzindo o slogan de campanha do presidente e batendo continência. A série não foi realizada.

51. O que possibilitou uma efetiva resposta aos danos ao estúdio e ao acervo do fotógrafo Bob Wofelson, localizado nas mediações do galpão da Cinemateca, que contou com um número grande de voluntários sob coordenação da equipe técnica do Instituto Moreira Salles (IMS). Uma técnica da Cinemateca Brasileira estava entre as voluntárias (fora do horário de trabalho da CB). Essa foi a 2ª enchente que afetou o estúdio do fotógrafo. As enchentes na região são recorrentes, de maneira que esse relato é a crônica de uma tragédia anunciada.

52. O trabalho consistia em movimentar sacos com pilhas de latas de filmes cheias de água suja, abrir cada lata para verificar o estado do material, determinar destino ao material e organizar o acervo nas estantes. Em um primeiro momento, as equipes de limpeza e manutenção executaram uma força tarefa junto à equipe técnica para escoar a água, limpar estantes e ajudar na movimentação de sacos de filmes, porém antes que esse trabalho chegasse ao fim, essas equipes foram drasticamente reduzidas.

53. A primeira delas, referente à nomeação como diretora de uma atriz que desempenhava há dois meses o papel de Secretária Especial de Cultura em Brasília e queria retornar a São Paulo por questões pessoais. No entanto, não havia nenhum cargo legalmente disponível para ela assumir na CB naquela época e ela acabou não trabalhando na instituição.

54. Cinemateca Brasileira pede socorro. Acesso em: 9 set. 2020. Nesta data, o manifesto teve mais de 28,5 mil adesões.

55. Cinemateca Viva, grupo formado por Associação dos Moradores da Vila Mariana <http://www.cinematecaviva.com.br>; o grupo Cinemateca Acesa <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; e Cinemateca em Crise, criado em 2013, com atualizações com a crise de 2020 <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. A Apaci desde 2015 esteve ativa e em contato com a diretoria da CB, para garantia da execução dos trabalhos da instituição.

56. Trabalhadores da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/trabalhadorescb. Acesso em: 18 ago. 2020.

57. Cinemateca Brasileira - Trabalhadores em Emergência. Disponível em: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca. Acesso em: 30 ago. 2020.

58. A crise na cinemateca brasileira - Soluções Urgentes. Disponível em: https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. Acesso em: 30 ago. 2020. Gabriela Queiroz, coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa desde 2014 até 2020, representou a instituição.

59. Como exemplo, as afirmações de que “todo” o patrimônio audiovisual brasileiro está na CB, de que a instituição poderia pegar fogo se a luz fosse cortada (os depósitos de nitrato não possuem sistema elétrico); e a utilização do termo ‘laboratórios climatizados’ para designar ‘depósitos climatizados’.

60. A entrega de chaves foi marcada pela presença de agentes ostensivamente armados da Polícia Federal, que foram convocados com o pressuposto de que poderia haver resistência na entrega das chaves pela Acerp. As chaves foram entregues, os documentos foram assinados e foi realizada uma visita técnica. Mesmo que utilizada de forma coadjuvante, foi a primeira vez que intimidação policial ocorreu na instituição. A Acerp tentou obter ressarcimento dos valores investidos na CB em 2019 e 2020, alegadamente no total de R$ 14 milhões.

61. Carta de Gramado 2020. Disponível em: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado. Acesso em: 30 set. 2020.

62. Generalizações são arriscadas e podem ser equivocadas. Afinal, temos muitos produtores que entendem, enaltecem e investem em preservação, sobretudo depois da crise de 2020. Se essas palavras não fazem justiça à atuação de produtores em prol do patrimônio audiovisual, ficarei feliz em publicar meu equívoco. Mas esse texto foi fermentado pela frustração de ver a soberba da cadeia audiovisual, com suas festas, mercados, deals, marketshare, box office, hold back, catch up, pitch, players e recursos caudalosos, enquanto a menção a investimentos em preservação gerava tremores! Essa postura gananciosa da cadeia produtiva é um descaso em relação ao patrimônio audiovisual brasileiro e aos profissionais da área.

63. Fontes: sites do FSA e da Cinemateca Brasileira. Originalmente publicado em MENEZES, Ines Aisengart. O profissional atuante na preservação audiovisual. Museologia & Interdisciplinaridade. Vol. 8, nº15, Jan./ Jul. de 2019. Nota do original com correção: A Cinemateca Brasileira é a única instituição que recebe materiais em Depósito Legal e conforme Laura Bezerra (2015), seu orçamento representa quase que a totalidade de investimentos em preservação audiovisual, no período, no país. Desta forma, considero o gráfico uma ilustração direta do desnível de investimentos em produção e preservação audiovisual”. O gráfico alcança somente até 2017, pois a partir de então a Cinemateca Brasileira não publicou mais relatórios institucionais. Em 2019, no novo governo, foram interrompidos os repasses do FSA.

64. Documento SEI / ANCINE - 0413350 - Resolução CGFSA Nº 101 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos FSA 2017. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 101 - aprova PAI FSA 2017.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

65. Por meio de mecanismo não reembolsável, que não prevê o retorno em lucro financeiro, mas com outros desenhos de contrapartida.

66. Documento SEI / ANCINE - 0845324 - RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos de 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Plano Anual de Investimentos 2018.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

67. Recursos disponibilizados para Ações e Programas - 2008 a 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. Acesso em: 3 out. 2020. Valor completo informado nesta data de R$ 4.558.877.384,00.

68. De acordo com Gomes (2020), a maioria dos materiais recebidos em Depósito Legal está em HD externos, que necessitam verificação contínua – “materiais digitais, portanto, requerem checagens e migrações mais constantes, uma necessidade que a Cinemateca Brasileira ainda não pode atender, tanto por limitações do número de funcionários, quanto financeiras”. Parte da numerosa coleção em vídeo magnético da instituição é oriunda de Depósito Legal. De um modo geral, no período de 2016 a 2020, não foram realizadas ações de preservação das coleções em vídeo e digital, somente duplicação para acesso. Considerando a inação, de uma forma ampla e sistemática, em relação ao escopo do patrimônio concebido em digital, pode-se esperar uma superação das (notoriamente altas) taxas de perda em relação ao patrimônio em película – sobretudo em relação às primeiras produções criadas em digital.

69. ICAB e NETFLIX fazem parceria para criar FUNDO EMERGENCIAL de apoio a comunidade criativa brasileira. Disponível em: http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html. Acesso em: 27 set. 2020.

70. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. Disponível em: https://www-newsweek-com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. Acesso em: 27 set. 2020. Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Acesso em: 27 set. 2020. O repertório de filmes antigos é um nicho explorado por plataformas como The Criterion Channel e Mubi, entre outros.

71. Um aspecto sensível para a comercialização de obras antigas é a normatização, para emissão do Certificado de Produto Brasileira (CPB) e a documentação dos direitos, para viabilizar o licenciamento. Historicamente, muitos filmes foram realizados sem a devida documentação e muitas empresas se dissolveram sem a documentação de repasse dos direitos.

72. No contexto brasileiro, onde a primeira atividade como profissional é explicar qual a sua função como profissional, os documentários da Netflix com imagens de arquivo costurando sua narrativa costumam ser uma explicação para leigos sobre a importância da preservação do patrimônio.

73. Relatório de 2016: páginas 55 e 56. Correção ao conteúdo: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) é colorido, não p&b.

74. Aqui vale uma reflexão sobre a excelência catalográfica e a boa navegabilidade do projeto, mas a necessidade de revisão de especificidades técnicas e das dimensões do logo ocupando parte da imagem, experiência reportada como frustrante para muitos.

75. Filmes brasileiros considerados perdidos ou prestes a sê-lo. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm. Acesso em: 21 ago. 2020.

76. Como tecnologias proprietárias; obsolescência de formato de arquivo, codec, software, hardware; gerenciamento de metadados; migração, entre outros.

77. Além de catastrófico ambientalmente para a fauna e a flora, a devastação vai afetar diretamente o campo de preservação de patrimônio cultural, pela relação direta com o clima, como a variação maior de temperatura e umidade, por exemplo. Desconheço estudos no Brasil sobre a crise climática e a área de patrimônio. Mundo afora, destaco o Orphans 2020, em torno do qual ocorreram diversos debates.

78. Supercomputador de inteligência artificial da série da Westworld (2016, Jonathan Nolan), ambientada em quase quatro décadas no futuro.

79. Cujo símbolo é a ciência sendo desacreditada pelas redes sociais e meios de comunicação de mensagens (sobretudo WhatsApp, empresa adquirida pelo Facebook), tornando difícil a difusão de informações cientificamente fundamentadas, com olhar crítico na contenção da pandemia de Covid-19. Uma pesquisa realizada em vinte países mostra que brasileiros são os que menos acreditam em seus cientistas: Brasil de costas para a ciência. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia. Acesso em 30 set. 2020.

80. Filmografia Ditadura Brasil. Disponível em: http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html. Acesso em: 2 set. 2020.

BIBLIOGRAFIA

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

A Cinemateca Brasileira (CB) é a principal instituição de patrimônio audiovisual do Brasil e, em 2020, passa por sua pior crise. Como resultado, seu expressivo acervo audiovisual e documental está ameaçado, bem como seu complexo parque tecnológico e os saberes técnicos que o permeiam. No início do ano, uma enchente ocorreu em um galpão em uma de suas unidades, afetando drasticamente sobretudo parte de seu acervo de película e de equipamentos. Desde agosto de 2020, as instalações e os acervos estão sem acompanhamento técnico; e até a conclusão deste texto não há perspectiva de uma resolução imediata, condizente com a urgência. A inação e o descaso com a Cinemateca Brasileira são mais uma das perversidades do atual governo, e se soma ao desmonte estrutural do sistema público de saúde, educação e cultura,1 e ao projeto de ecocídio e genocídio da população indígena e negra; este último acelerado pela pandemia de Covid-19. A crise da Cinemateca tomou proporções inéditas em 2020, mas sua origem é anterior, perpassando a crise administrativa e política de 2013 e um incêndio no início de 2016. Este artigo tem como enfoque os trabalhos realizados na Cinemateca Brasileira a partir de meados de 2016, de grande fôlego e entusiasmo na retomada dos trabalhos; o desafio de sua continuidade com a redução da equipe em 2017; a suposta solução com um novo modelo de gestão em 2018; e a hecatombe de 2020.2 O texto também apresenta conjecturas sobre as relações entre o patrimônio audiovisual e a cadeia produtiva do audiovisual. A sucessão de crises ao longo dos 74 anos da instituição, acentuadas por quatro incêndios e a enchente, são de forma mais ampla, o que a museóloga brasiliense Fabiana Ferreira destaca em sua tese A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil (2020). Ela alega que “o único aspecto estável nas políticas públicas de preservação audiovisual é sua inconstância. Uma sucessão de desencontros e desarticulações por parte dos agentes políticos responsáveis pela criação e implementação de políticas sem um real projeto de Estado que atravessa governos” (2020, p.109). Segundo Hernani Heffner, não é somente a maior crise da Cinemateca Brasileira, mas a maior crise do patrimônio audiovisual brasileiro.3

Panorama das Últimas Duas Décadas

O Brasil é uma república federativa presidencialista, com 26 estados e um distrito federal, de dimensões continentais – o quinto maior país do mundo em extensão territorial. O país passou por dois processos de redemocratização, sendo o mais recente a partir de 1984, após a ditadura militar estabelecida em 1964. Neste novo século, o país contou com um crescimento econômico, teve significativa redução das desigualdades sociais e de índices de pobreza extrema, ampliação de universidades e um processo de fortalecimento da indústria do audiovisual, por meio de políticas e programas federais, com destaque para as políticas de investimento da Secretaria do Audiovisual (SAv) / Ministério da Cultura (MinC)4 e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA)5, o que gerou amadurecimento de profissionais, das empresas, e traduziu-se em um volume crescente de obras a cada ano. Eventuais recursos municipais e estaduais somavam-se aos federais. Laura Bezerra pondera que, enquanto o governo investia na descentralização das políticas de cultura, o mesmo não ocorria com a preservação (2015). Nesse período e a partir de sua inclusão no organograma da SAv, houve sólidos investimentos na Cinemateca Brasileira, mas foram diminutas as discussões políticas sobre a gestão do patrimônio, e acerca das ações e mecanismos necessários para que essa gestão fosse feita de forma profunda e mais ampla.6 – referência fundamental para o entendimento do tecido da crise atual. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira, “a Cinemateca não atua na criação e implementação de políticas de preservação, seja realizando discussões e dialogando com o setor, seja participando ativamente dos espaços políticos no âmbito federal, como o Conselho Nacional de Cinema, por exemplo. Também não houve diálogo estruturado com outras entidades gestoras de memória” (2020, p.108). A insuficiência do Estado na gestão do patrimônio acarreta graves reverberações, que abalam a cadeia produtiva do audiovisual – esta não parece vislumbrar a preservação como elemento integrante e necessário para a própria cadeia. Ainda, a crise da Cinemateca Brasileira torna-se mais um argumento para a descentralização (e incremento) de investimentos na gestão do patrimônio audiovisual em todo país.7 O Brasil possui uma miríade de instituições de patrimônio federais, estaduais, municipais e privadas que não estão no holofote, mas que também demandam ações e recursos urgentes.

As últimas décadas foram de constante amadurecimento da área de preservação audiovisual, com a instauração de programas de financiamento específicos; o impulso de publicações; a criação e crescimento da CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto, na qual ocorre o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais8 a formação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) e a elaboração do Plano Nacional de Preservação Audiovisual (PNPA);9 além do crescente número de eventos.

Cinemateca Brasileira – Breve Histórico

A Cinemateca Brasileira contou com diversos arranjos administrativos, tendo começado como uma organização da sociedade civil e, posteriormente, passou para a esfera pública. Seu longo histórico abarca muitos percalços com alguns respiros. O escritor, ensaísta, crítico, pesquisador, professor e militante Paulo Emílio Sales Gomes  (1916-1977) é o protagonista na criação, defesa e gestão da Cinemateca. A atuação de Paulo Emílio é mais ampla que a própria Cinemateca, é fundamental na valorização do cinema brasileiro – e em sua qualificação como documento histórico –, na defesa de sua preservação, na criação de cursos de cinema em universidades, atuante na política internacional – como membro regular do Comitê Executivo da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF), entre 1948 e 1964, e eventualmente como vice-presidente –, além de autor referência em estudos historiográficos de cinema, com suas publicações sobre o francês Jean Vigo e sobre o brasileiro Humberto Mauro. Como professor, foi muito importante pela formação de cinéfilos, intelectuais, críticos de cinema e preservacionistas – sendo que alguns deram continuidade a seu trabalho na Cinemateca Brasileira.

Considerando a profusão de publicações sobre a Cinemateca Brasileira em português, e o limitado repertório em inglês, e tratando-se de uma plataforma bilíngue, apresento um breve apanhado, com momentos-chave sobre a história da instituição. Em 1940, por iniciativa de intelectuais paulistanos, foi criado o Clube de Cinema de São Paulo. Promovia a exibição de filmes, conferências, debates e publicações. Foi fechado pela ditadura de Getúlio Vargas em 1941. Em 1946 Paulo Emílio vai para a França estudar no Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC) e torna-se ainda mais próximo da Cinemathèque française, instituição com a qual mantinha contato, pois já havia morado em Paris na década anterior, período em que sua paixão pelo cinema despertou. Nesse ano é criado o Segundo Clube de Cinema de São Paulo, dessa vez, além de contar com as atividades anteriores, também tinha a iniciativa de prospecção e preservação de materiais de obras brasileiras. Portanto, 1946 é considerado o marco da criação da instituição. O Clube é filiado à FIAF por Paulo Emílio em 1948. No ano seguinte, é criada a Filmoteca do (recém-criado) Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1956 desliga-se do museu e se converte em Cinemateca Brasileira, sociedade civil sem fins lucrativos. Neste ano é formado o Conselho Consultivo.10 Em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato de celulose, ocorre o primeiro incêndio no verão de 1957, que “destruiu integralmente a biblioteca, a fototeca, os arquivos gerais e a coleção de aparelhos para o futuro museu de cinema, assim como um terço do acervo de filmes” (Gomes, 1981, p. 75). A tragédia suscita o apoio e doações de entidades nacionais e estrangeiras, e a Cinemateca ganha um espaço no maior parque urbano de São Paulo, o Parque Ibirapuera. Em 1961 torna-se uma fundação sem fins lucrativos, fato importante para sua autonomia e para o levantamento de recursos públicos.

No ano seguinte, é criada a Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), entidade civil sem fins lucrativos, para auxiliar a Cinemateca na gestão de recursos financeiros e para desenvolver atividades de apoio à Fundação. Se inicialmente as ações de difusão eram o motor da Cinemateca, a partir da década de 1970, a preservação passa a ser seu eixo, em parte pelo estado de seu acervo. O final dos anos 1960 e meados dos 1970 é um período crítico, com poucos funcionários, por vezes em trabalho voluntário. Em 1963 a Cinemateca é desligada da FIAF, devido ao não pagamento das taxas de anuidade, retomando como observadora em 1979, e como membro pleno somente em 1984. O segundo incêndio ocorre no verão de 1969, pelo mesmo motivo que o anterior, com perda significativa de materiais documentais. Em 1977 o laboratório da instituição é iniciado, a partir de equipamentos de laboratórios comerciais desativados. Paulo Emílio falece nesse mesmo ano, de ataque cardíaco.

Em 1980 é inaugurado no Parque da Conceição o Centro de Operações, para trabalhos de documentação e pesquisa. O terceiro incêndio ocorre no outono de 1982. Como decorrência, um movimento pela incorporação ao poder público culmina na extinção da Fundação Cinemateca Brasileira e na incorporação, como órgão autônomo, à Fundação Nacional Pró-Memória, do governo federal, em 1984. Em 1989 é alugado um cinema11 em Pinheiros, bairro movimentado da cidade, que alavancou significativamente a cinefilia da cidade. Ao final desta década, seu quadro funcional conta com cerca de 40 pessoas, sendo 30 contratados, muitos ex-alunos de Paulo Emílio.

Em 1990 a Fundação Nacional Pró-Memória é extinta, e a Cinemateca é incorporada ao Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC), criado naquele ano, e quatro anos depois transformado em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 1997 é inaugurada sua sede definitiva,12 no antigo Matadouro da Vila Mariana, em terreno cedido pela prefeitura, após nove anos de reformas – com o devido tombamento do conjunto arquitetônico. A sede definitiva agrega os departamentos e salas de exibição antes espalhados pela cidade de São Paulo, e pode ser vista como elemento-chave no processo de consolidação da instituição, após décadas de escassez de recursos, precariedade de infraestrutura, mudanças na dinâmica administrativa e institucional.

Em 2001 é inaugurado seu depósito de matrizes, inicialmente com capacidade para 100 mil rolos de filme, com controle de temperatura e umidade. No mesmo ano é iniciado o projeto Censo Cinematográfico Brasileiro,13 com financiamento da BR Distribuidora14 O projeto foi um importante marco para a identificação e tratamento do acervo da instituição,15 e para a formação de mão de obra técnica. Ele “organizou-se sobre quatro eixos básicos: o levantamento e exame do acervo existente, concentrado e disperso; a duplicação de filmes amea[ça]dos de desaparecimento por seu estado de deterioração; a divulgação do trabalho e de seus resultados; o estudo de medidas legais para a proteção do patrimônio audiovisual” (Souza, 2009, p.258). Em 2003 a Cinemateca é incorporada à SAv/MinC, após deliberação do Conselho, considerando que o IPHAN não estava atendendo o escopo e não se envolvia nas estratégias da Cinemateca senão para aprovar planos de trabalho. Nos anos subsequentes, os recursos repassados pelo MinC aumentam gradualmente. Em 2003 é implementado um programa de estágio de curta duração para técnicos de outras instituições. De 2004 a 2006, o projeto Prospecção e Memória dá continuidade ao projeto do Censo, sobretudo em relação à catalografia de obras brasileiras, compiladas na base de dados Filmografia Brasileira.16

Em 2005 é criado o Sistema Brasileiro de Informações Audiovisuais (SiBIA), programa da SAv, com coordenação da CB, “programa que visa estabelecer uma rede que conta neste momento com a participação de mais de 30 instituições que se dedicam, prioritária ou subsidiariamente, à preservação de acervos de imagens em movimento em todo o Brasil”.17 A instituição é escolhida como sede do 62º Congresso da FIAF em 2006, cujo tema é “O futuro dos arquivos de filmes em um mundo do cinema digital: arquivos de filmes em transição”. No mesmo ano, à ocasião do 60º aniversário da instituição, com comitiva de ministros e secretários, Luiz Inácio Lula da Silva é o primeiro (e único) presidente do Brasil a visitar a CB. Em 2006 é publicado o Manual de Manuseio de Filmes e o Manual de Catalogação da instituição, normativas internas e importantes referências para as demais instituições brasileiras, sobretudo à época, ainda com poucas publicações técnicas em português. Em 2008 a SAC torna-se uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e, a partir de então, são volumosas as transferências de recursos para projetos na Cinemateca. Na gestão da SAC, são realizados projetos da próprio SAv – como meio de garantir agilidade na execução de programas do Ministério, como a Programadora Brasil.18 A partir de 2008 são publicados relatórios anuais de atividades.19, à exceção dos seguintes anos: 2013, 2015, 2018 e 2019. Como resultado do Censo, são confeccionados materiais de preservação e difusão no laboratório da instituição, e realizadas restaurações com recursos de projetos e programas. Em 2009 é lançado o Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro, caixa de DVDs com 27 títulos de filmes silenciosos com trilhas sonoras compostas especialmente para a edição. Em 2011 é inaugurada uma instalação secundária na Vila Leopoldina,20 para armazenamento de películas, documentos, equipamentos, dentre outros. Em 2012 é publicada a primeira edição da Revista da Cinemateca Brasileira e, no ano seguinte, sua segunda edição.21 Em 2013 é instaurada uma crise político-administrativa, com a sumária exoneração do diretor-executivo da instituição, sem o devido diálogo com o Conselho, sem as medidas adequadas para sua substituição ou um plano de transição. São realizadas sucessivas auditorias da Controladoria Geral da União em relação à execução de recursos da SAv pela SAC e à aquisição de acervos pela União.22 Ao final do ano, dos 124 funcionários ativos antes da crise, poucos permaneceram, dentre eles os 22 funcionários públicos diretamente vinculados ao ministério.23 A partir do relatório de 2014, é possível verificar que alguns (poucos) fluxos de trabalho continuaram. Destaco a interrupção de um fluxo não executado em 2014 (e 2015), que afetaria drasticamente o acervo:

No verão de 2016 ocorre o quarto incêndio, mais uma vez em decorrência da autocombustão de um rolo de nitrato. A perda foi estimada em 1003 rolos de filmes em nitrato de celulose, referentes a 731 títulos. Além da descontinuidade da revisão deste acervo com a crise de 2013, alguns anos depois foram descobertos alguns rolos recém-chegados à instituição, que foram alocados no depósito sem a devida remoção da embalagem de transporte. Isso poderia ter sido evitado se a equipe técnica tivesse sido encarregada de alocar e realocar as obras dentro dessa coleção de filmes. Esse descuido potencialmente criou condições para um microclima sujeito à autocombustão e pode ter sido o segundo fator responsável pelo incêndio. Porém, o fator primário sempre será a irresponsabilidade do poder público, ante a falta de condições para o exercício das atividades básicas da instituição.

Cinemateca Brasileira – de 2016 a 2017

O incêndio de 2016 coincide com a entrada de 11 técnicos, viabilizados por um contrato de serviços firmado entre a SAv/MinC e a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que entrou em vigor no final de 2015, com duração de um ano. Ao todo, até meados do ano, foram 42 técnicos contratados, que se somavam aos 15 servidores diretamente vinculados ao MinC. Foram também contratadas empresas terceirizadas de serviços essenciais (manutenção, limpeza, segurança e TI) e 7 técnicos para o fluxo de Depósito Legal,24 viabilizados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). No relatório anual de atividades de 2016, o tom da apresentação da diretora Olga Futemma25 é de otimismo e orgulho pelo cumprimento das metas estabelecidas no Plano de Trabalho do Contrato, com a devida indicação das dificuldades e desafios criados a partir da descontinuidade dos trabalhos nos anos anteriores. Destaque para os trabalhos realizados em decorrência do incêndio:

“balanço e comunicação das perdas […]; exame, separação por grau técnico e triagem para encaminhamento de materiais [...] para processamento laboratorial; alocação provisória dos 3 mil rolos de nitrato remanescentes; elaboração de projeto de implantação, no depósito incendiado, de dispositivos contra sinistros […]; reforma básica do depósito, realizada pela equipe da Cinemateca, para o retorno da coleção […]; descarte técnico de resíduos do incêndio”.

Apesar do desastre, não foram obtidos recursos junto ao MinC para dispositivos contra sinistros.26 Outro desafio explicitado por Futemma foi a situação do Laboratório de Imagem e Som: devido à paralisação anterior, o “cenário era desolador”, dizia. Para enfatizar sua importância: trata-se de um dos mais completos (e último?) laboratórios de processamento audiovisual fotoquímico da América do Sul, com possibilidade de processamento de película para película (35mm e 16mm, suporte p&b de todos os materiais e confecção de cópias de materiais cor); de película 8mm, 9,5mm, 16mm e 35mm para digital (HD, 2K, 4K, 6K); back-to-film, de digital para película 35mm; captura de diversos formatos em vídeo (U-Matic, Betacam SP, Betacam digital, DVCam, entre outros) para digital; manipulação digital de imagem e som, incluindo correção de cor e restauração. O maquinário foi trabalhado ao longo dos anos para processar materiais com deterioração avançada.27 Devido à ausência de equipe nos anos anteriores e à decorrente falta de manutenção e peças, não foi possível retomar alguns fluxos.

O acervo audiovisual contém cerca de 250 mil rolos, entre películas com suporte de nitrato, acetato de celulose e poliéster, além do expressivo acervo de fitas e rolos magnéticos, e aproximadamente 800 terabytes de arquivos digitais, sobretudo de materiais digitalizados do acervo e materiais encaminhados para Depósito Legal. O acervo documental abarca cerca de um milhão de documentos relativos ao audiovisual, como cartazes, fotografias, desenhos, livros, roteiros, periódicos, certificados de censura, material de imprensa, documentos de arquivos pessoais e institucionais.28 Ademais, há uma coleção de equipamentos, não catalogada, de tecnologias do audiovisual de diversas décadas. No período recente, a instituição dividia-se nos setores: preservação de filmes, centro de documentação e pesquisa, difusão – programação.29 e eventos, atendimento, administração, manutenção e tecnologia da informação.

No setor de Preservação de Filmes, diversos fluxos foram executados ao longo de 2016: acompanhamento da climatização dos depósitos, movimentação de materiais de acordo com suas características físicas ou deterioração, revisão da documentação, atendimento a solicitantes e duplicação emergencial de materiais, que será comentada adiante. Um fluxo de trabalho importante foi a documentação, de forma coletiva, de ações necessárias, mas para as quais não havia recursos suficientes. Depois de meses de manutenções corretivas e avaliação dos químicos e de película virgem no estoque, foi iniciado o processamento de materiais em avançado estágio de deterioração considerados únicos: “a seleção foi feita considerando as condições técnicas dos materiais, [com investimento de] menos tempo e recursos nas ações complementares de uma só obra para que seja possível viabilizar ações, embora incompletas, em um número mais amplo de materiais”, de acordo com o Relatório de 2016.30

Devido às metas estabelecidas no Plano de Trabalho e aos exíguos tempo e equipe disponíveis em 2016, a seleção de materiais para processamento em laboratório foi realizada por apenas um técnico, sem debates e discussões mais amplas sobre o processo de seleção. Houve a precaução de não selecionar longas ficcionais consagrados31 abrangendo “materiais de obras de ficção, documentários, cinejornais, filmes domésticos e filmes científicos” e “sem avaliação subjetiva do conteúdo das obras ou curadoria” (Relatório 2016). A seleção priorizou a urgência pela deterioração do material e não pelo conteúdo. O aspecto crítico nesse fluxo consiste no que não estava sendo selecionado, e que possivelmente estava incrementando ainda mais o ostracismo da obra. Ao longo do processo de análise, materiais indicados para duplicação eram avaliados como não processáveis e, pelo potencial de unicidade, ainda que com esperança no surgimento de algum material, impossível não encarar como a morte da obra. Inúmeros materiais estavam tão deteriorados que não possuíam condições de duplicação na íntegra, e os novos materiais gerados muitas vezes continham as marcas fotográficas da deterioração. Durante este fluxo, foi utilizado o estoque de película comprada nos anos anteriores – que foi findando ao longo dos anos, sem renovação.

As eventuais mortes de obras e as especificidades de processamento suscitaram a necessidade de criar uma metodologia que avaliasse e documentasse a situação da obra, a partir de determinado conjunto de materiais, para nortear as ações de preservação e acesso. Assim surgiu o que foi denominado como “status de preservação”, categoria que, além se integrar à documentação interna, foi incorporada nas comunicações aos detentores de direitos das obras, com observações como “indicada para processamento” ou “necessidade de prospecção de novos materiais”.32 Uma vez que essas categorias são mutáveis uma vez que a condição dos materiais pode mudar, a data do status era tão importante quanto o próprio status como informação.

A plataforma de dados da Cinemateca Brasileira é o WinIsis33 um software bastante limitado como ferramenta de análise de dados de forma mais complexa. A retomada de trabalhos de análise do acervo audiovisual, a criação de novos materiais e a movimentação demandavam atualização constante da base de dados de materiais audiovisuais, que foi interrompida devido à detecção de problemas estruturais na própria base – com o risco de corrupção de dados. Em paralelo, o projeto de código aberto e baseado na web Trac.34 foi estruturado e normatizado para documentação interna – essencialmente documentação fixa em formato Wiki e sistema de tarefas por tickets. Essa intranet “possibilita manter a horizontalidade da informação em relação aos demais setores, a colaboração na construção da documentação, a perenidade e a organização da informação em uma mesma plataforma, […] utilizada para documentar procedimentos internos diversos; normas e bulas de preenchimento de documentos; relatórios e textos referentes à instituição; informações referentes a solicitações externas e dados de materiais analisados e processados”, de acordo com o Relatório de 2017. O esforço por manter uma documentação interna acessível, horizontal e transparente, condizente com o caráter de uma instituição de memória, não alcançava as comunicações com a Acerp e os projetos elaborados pela equipe e encaminhados aos Ministérios. Um elemento importante para o progresso dos trabalhos foi o investimento em desenvolvimento de tecnologia, como documentado no Relatório de 2017, o que permitiu a análise de informações da base de dados de forma dinâmica e a busca por soluções para fomentar a autonomia da instituição.

Merece destaque o projeto ClimaCB, criado para o monitoramento on-line da climatização, uma combinação de software e hardware de código aberto, cujas orientações e códigos estariam disponíveis em Git, para a livre utilização. Infelizmente, a publicação não foi efetivada. A participação da CB à frente de discussões técnicas e na publicação de proposições e soluções tecnológicas é ansiada, considerando seu potencial caráter medular, no âmbito da preservação audiovisual.

No período de dois anos durante o Contrato de Prestação de Serviços, Olga Futemma mantinha reuniões com a equipe técnica para compartilhar notícias, impressões e estratégias. Os eventuais encontros reforçavam a noção da proporção e da força da equipe, e serviam como injeção de ânimo. Outro elemento importante de coesão como equipe foi a construção de um novo site – o anterior tinha navegabilidade e ferramentas obsoletas. Um momento de visibilidade foi a realização de uma vinheta pela equipe técnica, mostrando o histórico da logomarca da instituição, criada em 1954.35

A equipe do setor de Preservação tinha um equilíbrio entre técnicos antigos na instituição, que garantiam uma necessária continuidade de fluxos, e técnicos que ali trabalhavam pela primeira vez, que proporcionavam um frescor na avaliação de fluxos e processos do setor. As dificuldades nas relações interpessoais em anos anteriores e a insegurança ocasionada pela crise de 2013 eram as referências negativas a serem evitadas.

O ano de 2016 ficou marcado pela autonomia e intensa comunicação da equipe técnica, mas também pelos percalços. Em maio foi lançado um edital para seleção de uma Organização Social (OS) para empreender a gestão da CB, pela então equipe do MinC do governo Dilma Rousseff. Pouco depois ocorreu o golpe misógino, caracterizado como um processo de impeachment da presidenta. Tão logo o novo presidente assumiu, quis acabar com MinC, mas voltou atrás, após forte pressão popular. O novo Ministro da Cultura cancelou o edital da contração da OS para a CB, que foi lançado meses depois, com alterações.

Em julho houve mais uma surpresa: a eliminação, por uma reestruturação do MinC, de cinco cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) da instituição, ocupados então pela diretora e por técnicos. A direção da CB seria ocupada por uma indicação do Ministério, sem a devida expertise e sem a participação do Conselho, dado inédito à época. Foram enviadas cartas de associações e o Conselho da CB lançou um manifesto36 pela revogação das demissões e pela vinculação da Cinemateca ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), o que auxiliou a reversão do corte do DAS da diretora e viabilizou a contratação de técnicos que ocupavam outros cargos, de outra forma.

Nos meses seguintes foi batalhado junto à SAv/MinC uma forma de evitar o intervalo entre o contrato de prestação de serviços com a Acerp – que terminaria em dezembro – e a implementação do Contrato de Gestão com a OS vencedora do edital. A solução encontrada, um dia antes do término do contrato, foi sua extensão até abril de 2017, mas “como o valor residual não é suficiente para remunerar por quatro meses todos os técnicos anteriormente contratados, foi preciso reduzir a equipe (em cerca de 75%) e, como consequência, frentes de trabalho”, segundo o Relatório daquele ano. O ano terminou com uma mistura de entusiasmo, pela celebração do centenário de nascimento do Paulo Emílio – com o lançamento de um esmerado site,37 de cursos ao público externo e publicações –, e de desânimo pelo corte da equipe, que só seria retomada em proporção similar em junho de 2017. É visível o impacto da forte redução dos técnicos, em um comparativo dos fluxos de trabalho nos Relatórios de 2016 e 2017, como pode ser explicitado pelos resultados do laboratório de metragem de material processado:

Em maio de 2018 foi celebrado o contrato com a OS, seguido por uma cerimônia com a presença do então Ministro da Cultura, que clamou que “a crise acabou” com o novo modelo de gestão. A Acerp, titular do contrato de prestação de serviços desde 2016, foi a OS selecionada no Edital. No caso da Cinemateca Brasileira, a costura jurídica do contrato de gestão por OS iria contribuir para a crise atual: a legislação não permitia que a Acerp firmasse um contrato de gestão diretamente com o Ministério da Cultura (órgão ao qual a Cinemateca estava vinculada), pois já tinha um contrato com o Ministério da Educação (MEC), então a gestão da Cinemateca foi oficializada por um aditivo ao contrato principal.38

Após a assinatura, a Acerp designou uma nova diretora para a Cinemateca, sem consulta ao Conselho, então relegado ao ostracismo. A primeira ação da Acerp com forte impacto na dinâmica da equipe técnica foi o estabelecimento de um núcleo de Atendimento para se dedicar ao crescente número de solicitações, sobretudo de acesso ao acervo audiovisual. Os serviços dos demais setores e o acesso ao acervo documental continuavam sendo viabilizados, mas, com o novo fluxo, se formou um gargalo no acervo audiovisual. Toda solicitação era registrada, respondida e eventualmente atendida, em teoria, considerando a ordem de chegada, a possibilidade de execução e os tempos de tramitações dentro da instituição. Apesar desse protocolo estabelecido pela equipe, um sinal da subjugação da CB seria a intensificação de projetos furando a fila, por determinação do ministro ou da diretoria da Acerp, o que gerava desconforto e inconformidade em parte da equipe.

Para a equipe de Preservação, o núcleo de Atendimento significou não ter mais contato com pesquisadores e produtores, que estavam acostumados com a maior agilidade que a expressiva equipe conferia antes de 2013 – e ficavam frustrados com a limitada capacidade de resposta impressa pela equipe reduzida. Ademais, o diálogo com produtores e pesquisadores – e suas práticas – denotava incompreensão da importância da preservação. Ou ainda, uma visão curta, até em termos de mercado, como a demanda para retirada de materiais para digitalização e licenciamento sem o processamento tecnicamente necessário.39 Outro indício da incompreensão e desrespeito com o viés da preservação é a não execução das contrapartidas especificadas pela CB. Relação elegantemente comentada por Olga Futemma, no Relatório de 2016: “algumas das situações ruins que enfrentamos decorreram de: prazos exíguos; a total desconsideração da necessidade de uma contrapartida – não em termos monetários, pois a Cinemateca não pode cobrar [à época] , mas em ações que deveriam estar previstas em seus projetos e que permitissem ampliar o acervo […]; a incompreensão de que materiais únicos (de preservação) não devem sair do acervo sem supervisão […]”. Ela acrescenta que “é preciso, portanto, continuar a empreender esforços para a mudança da concepção do bem público como algo de que se possa dispor livremente para a consecução de projetos privados, e para a compreensão da necessidade de, ainda na fase de elaboração, consultar sobre a viabilidade do projeto com a Cinemateca, no que diz respeito aos materiais pretendidos e aos prazos necessários para sua disponibilização. São duas condições essenciais para um planejamento que beneficie o solicitante e o acervo”.

Em setembro de 2018, antigos membros do Conselho emitem uma Notificação Extrajudicial ao MinC, requerendo a “revogação dos atos […] e normas que violem a autonomia técnica, administrativa e financeira asseguradas na escritura de incorporação da Fundação Cinemateca Brasileira […], além de: 1) Constituição de novo Conselho Consultivo com observância à necessária autonomia do órgão; […] 3) Retorno da Cinemateca Brasileira à estrutura do IPHAN”. A notificação menciona ainda a “omissão da SAv diante do incêndio [de 2016 … e] que a Cinemateca Brasileira nem mais consta da estrutura do Ministério da Cultura e nem mereceu nenhum cargo público comissionado”.

Gestão por OS na Cinemateca Brasileira

No momento de maior solidez da instituição, na primeira década deste século, a manutenção de seu corpo funcional foi um desafio constante. Os técnicos eram contratados por projetos com duração específica, por diferentes formas de vinculação.40 Essa dinâmica imprime fragilidade e instabilidade aos fluxos de trabalho, compromete estratégias e soluções estruturais, além de vulnerabilizar a própria equipe técnica.41 O modelo de gestão por OS seria uma solução desejada para viabilizar a contratação da equipe técnica de forma estável, depois de anos de penúria, conforme evidenciado por Futemma em e-mail na lista da ABPA: “esta discussão [de modelo de gestão de OS] ocorre há oito anos, envolvendo MinC, SAv e Conselho e equipe da Cinemateca. Temos grandes expectativas de que, até o final deste ano, um novo modelo de gestão permita à Cinemateca Brasileira exercer todo o seu potencial em prol do patrimônio audiovisual brasileiro”.42

O modelo de gestão por OS foi a solução deliberada depois de muitos anos de instabilidade do corpo técnico. Essa perspectiva era calcada também na possível preferência de uma OS criada especialmente para gerir a CB, a Pró-Cinemateca, OS criada em 2014 por membros do conselho e da SAC, com a finalidade única de fazer a gestão da instituição, que potencialmente teria a participação de profissionais da área na construção de um Plano de Trabalho – documento medular para a gestão em si e um dos critérios de seleção no Edital. A Pró-Cinemateca se qualificou para o 1º Edital lançado, mas não para o 2º Edital, devido à nova exigência de experiência prévia da instituição na gestão de recursos públicos – não havia experiência da instituição, pois havia sido criada recentemente, mas dos representantes e conselheiros, sobretudo experiência na própria Cinemateca, o que, na prática, poderia ser mais relevante do que o histórico de gestão da empresa em si.

Hoje o modelo de gestão por OS, após controvérsias em torno da gestão de outras entidades públicas, casos de corrupção e uma série de publicações sobre o tema na academia e na internet, é rebatido de forma ampla.43 O modelo é especialmente arriscado para instituições de patrimônio cultural em um contexto de insuficiência de recursos do Governo, onde fluxos de trabalho essenciais para a conservação do acervo (muitas vezes custosos e de baixa visibilidade) podem ser ofuscados para o benefício de ações com maior visibilidade pública. A confecção de um plano de trabalho sem a participação efetiva da equipe técnica pode comprometer seus objetivos primordiais. Conforme diagnosticado por Fabiana Ferreira:

“Um outro problema dessa gestão é que a justificativa da liberdade para captação de recursos por outras vias que não as estatais acaba também ficando à mercê do Estado. Isso se dá porque, no Brasil, o apoio das instituições privadas para a cultura não é tradição. A iniciativa privada no Brasil não apoia iniciativas culturais. Tradicionalmente, famílias milionárias e corporações brasileiras não realizam doações ou investimentos nos equipamentos de cultura, menos ainda para aqueles que não dão visibilidade à marca”. (2020, p.110)44

No caso da CB, a gestão por OS possibilitou a contratação por CLT45 de boa parte da equipe, cuja escolha felizmente coube aos coordenadores, sem a intervenção da Acerp. Porém, gradativamente o corpo técnico passou a ser condicionado às diretrizes da Acerp, condição que ficou evidente em reuniões internas, quando não era mais possível desempenhar um papel ativo na prospecção de acervos46 ou falar em nome da instituição sem o consentimento da Acerp. Sinais de mudança foram percebidos nos “modos sociais” da equipe, de forma distópica: a instalação de rede de câmeras como medida de segurança de acervo e equipamentos se concretizou com a gestão da Acerp – abarcando espaços anteriormente utilizados em pausa do trabalho, gerando desconforto com a vigia panóptica moderna.

Cursos internos de assuntos técnicos ou apresentação de fluxos e atividades entre os setores, que eram realizados desde 2017, foram suspensos. A captação de recursos para a Cinemateca constava entre as ações previstas pela Acerp, e o aproveitamento do acervo e das instalações era uma via rápida para esse fim, o que gerou longos períodos com um fluxo constante de montagem e desmontagem de estrutura para grandes eventos, com temáticas variadas, por vezes distante da cultura e do audiovisual. Como não foram emitidos relatórios de 2018 e 2019, na gestão da OS, não é possível o acesso à informação sobre esses eventos. A ausência de publicação de relatórios é um perigoso indício da falência do modelo de OS para a Cinemateca, pois são documentos fundamentais para prestação de contas e transparência da gestão da instituição. No período foram criados relatórios de cumprimento de metas para o Ministério, mas o caráter do documento é técnico e pouco informativo, além de não ser público. Foi proposto um Código de Ética e Conduta da Acerp para os funcionários da CB, apresentado em um evento sobre o compliance da empresa – a menção de crenças religiosas no evento foi uma demonstração significativa da distância entre a Acerp e a missão institucional da CB.47 Ainda, ficou explícita e evidente a inaptidão da empresa no desembaraço de burocracias para aquisição de equipamentos para o laboratório, o que afetou planos de trabalho desenhados segundo a disponibilidade de tais equipamentos. Solicitações de acesso ao acervo audiovisual para a utilização na programação da TV Escola tornaram-se prática corrente – enquanto a Acerp desatendia algumas necessidades apontadas pelo corpo técnico. As propostas da programação para a sala de cinema foram impactadas e condicionadas – como apresentar a ideia de uma mostra de Fassbinder para uma diretoria que fazia piada homofóbica nas situações de conversa fiada anteriores às reuniões?

O cancelamento em cima da hora da edição de 2019 da CryptoRave48 pela equipe da própria Cinemateca foi sintomático, por receio de represália. Um símbolo incontestável da ocupação pela Acerp foi a criação de um novo site, sem participação ativa do corpo técnico da Cinemateca nas decisões editoriais. Como exemplo de equívoco, a ferramenta dinâmica do calendário de programação não era compatível com a linguagem do novo site. Portanto, o novo site passou a ter um design mais atualizado, porém menos funcional. A Acerp de imediato implementou uma logomarca intermediária (dizeres ‘cinemateca brasileira’ em cor branca sobre fundo vermelho), em substituição da logomarca de 1954, criada pelo celebrado designer Alexandre Wollner. A Acerp encomendou o desenho de uma nova logomarca, apresentada ao corpo técnico sem espaço para deliberação, cujo conceito e diagramação surpreendem pela semelhança com a logo do Curta Cinema - Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro. Outro aspecto delicado, pois a Acerp é sediada no Rio de Janeiro e a Cinemateca em São Paulo.49 são os gastos de traslado, hospedagem e diárias de alimentação de diretores, gerentes e membros da consultoria jurídica entre as cidades – esses recursos acumulados significam um montante considerável, que poderia ter sido investido na própria Cinemateca.

Um símbolo inquestionável do insucesso do modelo de gestão de OS para a Cinemateca foi a dissolução do Conselho Consultivo, composto por representantes do poder público e da sociedade civil, cuja existência está prevista na ata de incorporação da instituição ao governo federal, de 1984. Sem diálogo com o Conselho, vários diretores foram apontados pela Acerp, sem experiência na área de memória ou preservação, e acabaram por alienar a equipe técnica dos rumos da instituição. Além disso, a Cinemateca, que historicamente se mantinha apartidária, por meio da Acerp, tornou-se o destino de pessoas associadas ao partido de extrema direita do presidente à época, em cargos diversos (administrativos e de comunicação, sobretudo), sem a expertise necessária nem entendimento da instituição, e que frequentemente apresentavam as áreas técnicas aos visitantes sem o devido acompanhamento da equipe técnica, fragilizando mais os esforços de conservação. Episódios com muita repercussão foram a presença de militares nas dependências da instituição50 e a tentativa fracassada de realização de uma mostra de filmes militares. Ao longo dos quatro anos da gestão da Acerp, a partir do exame da dinâmica interna, fica explícito o quanto a equipe técnica era autônoma e tinha projetos (Acerp como prestadora de serviço, de 2016 a 2018) e o quanto houve de perda da autonomia no modelo de gestão por OS (2018 em diante).

O limbo administrativo em que os dez servidores públicos alocados na instituição consiste em outra questão. Eles continuaram em seus postos desde o início da gestão por OS, quando a CB deixou de ser uma coordenação-geral da SAv do antigo MinC. Alguns dos servidores já estavam na instituição há mais de três décadas. Antes da assinatura do contrato, foi garantido aos servidores que, com a cessão para a OS, não teriam prejuízos em seus salários e benefícios. Contudo, após a assinatura do contrato, o entendimento mudou e a cessão nunca foi oficializada. Apesar dessa situação, o ministério orientou os servidores a prosseguirem com suas atividades na Cinemateca. Após um ano e meio de descaso e mensagens contraditórias, tiveram que abandonar de forma brusca a Cinemateca, para trabalhar no Escritório Regional do Sudeste do Ministério, em São Paulo – sem infraestrutura mínima para recebê-los. Além da súbita suspensão de sua atuação na CB, essas pessoas respondem a um processo de reposição ao erário, para devolução à União da Gratificação de Desempenho de Atividade Cultural (GDAC) – que representa parte significativa dos vencimentos – do período da assinatura do contrato de gestão da Acerp até a ida ao escritório do Ministério, por terem trabalhado “cedidos” para a OS.

Apesar de a Acerp ter assumido as relações institucionais de forma mais ampla, excepcionalmente a relação com a FIAF seguiu sendo feita por Olga Futemma e coordenadores, com a emissão de minuciosos relatórios anuais à Fundação e a pronta pesquisa de informações solicitadas por associações filiadas à FIAF. Porém, entre os anos 2016 a 2019, não foi possível a representação de Futemma ou dos coordenadores nos Congressos de Bologna, Los Angeles, Praga e Lausanne.

Crise de 2020

Em fevereiro de 2020 a instalação secundária na Vila Leopoldina foi afetada por uma enchente, devido às fortes chuvas e à ausência da gestão adequada de galerias pluviais do bairro, aliada à intensa poluição do rio Pinheiros, a menos de 0,5 km da Cinemateca. A água de esgoto atingiu mais de um metro de altura, destruindo parte do acervo de película e de equipamentos, inclusive últimos materiais de longas e curtas de ficção, muitos elementos únicos de cinejornais, publicidade e trailer. Os danos ao acervo documental não foram considerados significativos, por se tratar de material duplicado. Instalações e equipamentos do galpão foram afetados e danificados. Após uma higienização profunda no ambiente pela equipe de limpeza, uma parcela da equipe técnica foi deslocada para limpeza, organização e resgate dos materiais atingidos. Não foi executado um plano emergencial por parte da Acerp ou da SAv para a necessária avaliação e processamento dos acervos audiovisual e de equipamentos, os mais atingidos, como a contratação de uma equipe técnica extra de forma temporária ou, até, a permissão de voluntários.51 A catástrofe não foi noticiada espontaneamente devido à falta de articulação entre a SAv e a Acerp diante da tragédia. A equipe técnica não poderia tomar a iniciativa de tornar pública a enchente. A exígua equipe estabeleceu turnos diferenciados, considerando a alta toxicidade do ambiente e a carga exaustiva, acentuada pelas altas temperaturas do galpão sem climatização e com restrita ventilação.52 Materiais em película foram selecionados e transladados para a sede principal para avaliação e processamento no laboratório, mas havia pouca película disponível para duplicação emergencial de rolos únicos danificados. Pelo alcance dos danos no espaço da CB e, sobretudo, nos acervos audiovisual e de equipamentos, pela inação da SAv e da Acerp, e pela crise que se sucedeu depois, interrompendo o trabalho de resgate e pesquisa, essa enchente se equipara, como catástrofe, aos sucessivos incêndios sofridos pela instituição, que “são metáfora da fragilidade da construção de uma política de preservação audiovisual que se esvai em chamas a cada mudança de Governo, de criação de entidades, de novos agentes” (Ferreira, 2020, p.23).

Desde a crise de 2013, o orçamento repassado pelo Ministério foi aquém das necessidades, o que se traduziu em equipes menores que o planejado para execução dos planos de trabalho. Ao final de 2019 instalou-se mais uma crise, quando o então Ministro da Educação decidiu não dar continuidade ao projeto da TV Escola – objeto principal do contrato da Acerp com o MEC –, não renovando o Contrato de Gestão com a Acerp (supostamente por uma cizânia pessoal do Ministro com um dos diretores). Uma vez extinto o contrato-principal com o MEC, todos os demais contratos foram encerrados – apesar do aditivo referente à CB ter duração até 2021 – o que deixou a CB à deriva administrativamente. A Acerp passou alguns meses buscando contornar a decisão e tentando obter recursos com a SAv, com a Secretaria Especial da Cultura e com o Ministério do Turismo, sem sucesso. O ano de 2020 foi repleto de notícias absurdas de decisões do governo envolvendo a Cinemateca,53 causando comoção e repercussão em redes sociais e gerando matérias na mídia. Em abril a Acerp parou de pagar as empresas terceirizadas e a equipe técnica. Antigos membros do Conselho lançaram um manifesto em maio.54

Foi iniciada uma ação civil pública pelo Ministério Público Federal contra o governo federal, pedindo a renovação emergencial do contrato com a Acerp que, até o fechamento deste texto, tinha o entendimento de que a situação estaria sanada com a contratação dos serviços essenciais (segurança, bombeiro) – porém, a ação está em andamento e há expectativa de uma nova decisão favorável à CB. Foram formadas e fortalecidas redes de resistência e protesto, de forma difusa, com diversos atores, que estreitaram a comunicação ao longo do tempo: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, e representantes da Associação Paulista de Cineastas (Apaci),55 criando o movimento SOS Cinemateca. Estes grupos estiveram muitos ativos na realização de atos pela Cinemateca e na articulação política com gestores municipais e federais. Por parte do corpo técnico da CB, a porta voz não foi a gerência ou as coordenações, mas a representação de funcionários como um grupo.56

Os funcionários, que seguiam em trabalho remoto (quando possível), entram em greve em junho, com o auxílio efetivo do Sindicato. Neste mês é iniciada uma campanha por iniciativa dos trabalhadores da CB para arrecadar recursos para os colegas em situação mais vulnerável pela falta dos salários e benefícios, ainda mais fragilizados com a pandemia de Covid-19. A campanha teve numerosas contribuições de pessoas e instituições de todo o mundo.57 Foram feitas doações diretas à própria instituição, como a de um diretor anônimo, que doou para o conserto do gerador. Em julho foi realizado um debate na Câmara dos Deputados,58 com a presença de parlamentares, de diferentes atores da cadeia do audiovisual e da sociedade civil, um símbolo da repercussão e engajamento inéditos em torno da Cinemateca. De certa forma evidenciou também a necessidade de protagonismo e de didática por parte de profissionais da área pela profusão de termos inadequados e imprecisos ao defender a Cinemateca.59 A diretoria da Acerp emitiu poucos comunicados ao corpo técnico diretamente, e as informações eram repassadas, de forma irregular, pelos coordenadores. Em junho foi emitido um comunicado da diretoria (em documento não datado!), com solidariedade “com as dificuldades que todos estão passando, mas saibam que estamos fazendo o possível e impossível, estamos fazendo de tudo que está ao nosso alcance”, com o comprometimento de, “assim que receber do Governo Federal, a primeira providência será pagar salários e rescisões” – quando era notório que não haveria nenhum repasse por parte do Governo Federal. Considerando a ausência de recursos em 2020 para a Cinemateca, a enchente, a crise decorrente da pandemia de Covid-19, o trabalho remoto, a suspensão de salários e benefícios, o comunicado é um símbolo do descaso e desrespeito da Acerp com seu corpo funcional. Após a entrega de chaves da CB ao Ministério em 7 de agosto,60 a Acerp demitiu seus funcionários (sem pagamento de salários atrasados e verbas rescisórias).

Conforme notado na Carta de Gramado de 2020, “após inúmeros telefonemas, mensagens, consultas entre as partes e adiamentos, foram garantidos os serviços básicos e emergenciais de água e de luz […]; foram contratados os serviços de limpeza, embora a empresa não seja especializada; foram contratados serviços de manutenção dos equipamentos de climatização, embora a empresa não ofereça a expertise necessária; foram contratadas uma mini brigada anti-incêndio composta por dois funcionários e uma empresa de vigilância patrimonial das dependências. No entanto, entre as necessidades emergenciais falta o fundamental trabalho dos funcionários especializados sem os quais o acervo não estará preservado, mesmo com a retomada dos serviços básicos acima descritos”.61 Sem o acompanhamento técnico, o menor dos incidentes nas áreas de acervo pode gerar problemas com consequências drásticas e irreversíveis. Trata-se da primeira vez que em que é impossibilitada a entrada na instituição, por qualquer membro do corpo técnico.

À ocasião da entrega das chaves ao Ministério do Turismo, foi indicado que um edital para a contratação de uma nova OS seria lançado em breve, o que ainda não ocorreu. Há uma previsão orçamentária de R$ 12,5 milhões para a Cinemateca em 2020. Caso este recurso não seja utilizado ainda neste ano, não poderá ser somado aos parcos R$ 4 milhões previstos para 2021. Vereadores de São Paulo de diferentes partidos políticos organizaram um fundo de emendas parlamentares para a Cinemateca, com apoio da SPcine, empresa municipal de audiovisual de São Paulo. A aplicação de recursos municipais em uma instituição federal demanda uma articulação jurídica inédita, que está sendo construída pela SAC para a contratação emergencial de um pequeno corpo técnico. Hoje, os grupos da Sociedade Civil seguem ativos, com a tentativa de acionar entidades e dar continuidade à mobilização. A próxima grande ação está prevista para 27 de outubro, Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual - UNESCO.

É urgente a criação de uma solução imediata para a viabilização de uma equipe técnica ainda no ano de 2020, para que o acervo não siga desacompanhado. A criação de mecanismos para a gestão da instituição a médio e longo prazo, de forma resiliente e sustentável, condizente com a necessidade de constância dos trabalhos no acervo e de manutenção da equipe técnica também é urgente. Considera-se como necessária e fundamental a abertura de concursos públicos para os cargos técnicos, respeitando as especificidades, o que poderia conferir a desejada estabilidade. Conforme diagnosticado na Carta de Ouro Preto de 2020:

“preservação do patrimônio cultural é dever constitucional do Estado brasileiro e, portanto, é preciso recuperar o protagonismo do poder público na gestão de instituições de patrimônio audiovisual, retomando os processos de abertura de concursos públicos e de implementação de planos de gestão pensados em conjunto com a sociedade civil, diretiva prevista na Recomendação sobre a Salvaguarda e Conservação das Imagens em Movimento, da UNESCO, de 1980” (Carta de Ouro Preto de 2020)

Uma ideia recorrente nas numerosas discussões on-line é o retorno da Cinemateca Brasileira para uma instituição de memória e patrimônio do governo federal – IBRAM ou o IPHAN, ao qual a CB foi vinculada até 2003, quando passou a ser vinculada à SAv. Foi inclusive esse vínculo ao IPHAN que proporcionou a continuidade da CB no início da década de 1990, quando o governo federal promoveu um desmonte de políticas e instituições de cinema. O IBRAM é uma autarquia vinculada ao Ministério do Turismo, que abrange trinta museus federais.

Depósito Legal e o Mercado do Audiovisual

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Possivelmente a prosperidade do FSA (e o aumento de investimentos em desenvolvimento, produção, distribuição e exibição), unida à inação dos elos da cadeia produtiva do audiovisual em relação à preservação se relacionam diretamente com a dimensão da atual crise do patrimônio audiovisual. A ABPA reiteradamente tem pleiteado assento no Conselho Superior do Cinema (CSC) e no Comitê Gestor do FSA, sem sucesso. No debate “Fronteiras entre a indústria, mercado e arquivos – conteúdo, fomento e regulação”, na CineOP de 2018, um representante da indústria audiovisual no Comitê Gestor do FSA sugeriu a busca de outro caminho de financiamento para a preservação, distinto do FSA. Quando este profissional levanta essa possibilidade (e ele é só um exemplo da postura de outros produtores), não compreende a importância da preservação para toda a cadeia nem que também é sua função defender a Cinemateca, bem como outras políticas para a gestão do patrimônio audiovisual, de forma ampla. Nem que seja pelo viés personalista, considerando que algum asset seu possa estar lá: a matriz de uma imagem de arquivo para seu próximo filme como produtor; a matriz do seu filme de estreia dos anos 1980; ou os registros domésticos de sua família. Ou, ainda, pelo fato de que a atuação da Cinemateca em discussões, publicações, fóruns e em pesquisa de tecnologia possa beneficiá-lo de alguma forma. Como afirma Paulo Emílio, “não se faz bom cinema sem cultura cinematográfica e uma cultura viva exige simultaneamente o conhecimento do passado, a compreensão do presente e uma perspectiva para o futuro. Enganam-se os que confundem a ação das cinematecas com o saudosismo” (1982, p.96). A cadeia produtiva já resmungou62 quando foi debatida a necessidade de investimento no gigante passivo da preservação audiovisual para atender à própria cadeia produtiva e, até, explorar comercialmente os acervos. O business model não fecha enquanto não tivermos um investimento massivo para dar conta de décadas de dificuldades e estagnação. Eu resmungo de volta com esse gráfico:63

Apesar do indubitável dever do Estado (e sua evidente negligência), reitero que o interesse e a preocupação com a implementação de uma política de preservação devem ser de todos os elos da cadeia do audiovisual. Temos como desafio o entendimento geral – cuja relação de valores foi construída, por décadas, pelo próprio mercado – de que o “bem simbólico da memória é inferior ao bem simbólico de um longa-metragem exibido nos cinemas dos shoppings” (Ferreira, 2020, p.111). Em abril de 2017, foi publicado o Plano Anual de Investimentos do FSA para o ano de 2017,64 no qual foram anunciados, como apoio, R$ 10,5 milhões para a Cinemateca Brasileira. O valor equivale a 1,4% do total anunciado no documento. O valor nunca foi executado, com a justificativa de que o recurso do não reembolsável65 teria terminado. Em maio de 2018 foi lançado o Plano Anual de Investimentos de 2018,66 com a previsão de R$ 23,375 milhões para investimentos em Preservação e memória. Em dezembro daquele ano foi lançado pela SAv o Edital de Restauro e Digitalização de Conteúdos Audiovisuais. Tratava-se de recursos para restauração ou digitalização de obras para empresas do audiovisual, com a possibilidade de retorno financeiro, e contou com a atuação de um grupo de trabalho com a participação de técnicos de preservação da Cinemateca Brasileira na construção do documento e das diretrizes técnicas para a digitalização e restauração. Sob a ótica de profissionais do setor, o Edital estava destinado somente a produtoras com o viés da distribuição, sendo a preservação secundária. O Edital foi suspenso cerca de quatro meses após a publicação pelo atual governo. Portanto, nenhum recurso do FSA de 2008 a 2018, de um total de um pouco mais de R$ 4,5 bilhões,67 foi de fato investido em preservação.

Atualmente a Cinemateca Brasileira é a única instituição habilitada a receber materiais em Depósito Legal. Desde 2016, a Ancine investiu não mais que R$ 2 milhões na contratação de equipe técnica para análise desses materiais, cujo fluxo de processamento mobiliza diversos setores e técnicos da instituição. Foi reportada alta taxa de reprovação dos materiais analisados e, segundo Gomes (2020), “parece ter como uma das principais causas o grande distanciamento e pouca informação de realizadores/produtores acerca, de maneira ampla, do papel de um arquivo audiovisual, e de maneira mais específica, dos princípios do Depósito Legal”. Contar com a expertise na análise dos materiais sem viabilizar recursos para a preservação desse acervo pode ser considerado como tiro no pé. Os materiais analisados estão inertes em estantes em um ambiente climatizado – à mercê da famosa morte silenciosa.68 É necessário que o mercado participe para garantir um aumento da taxa de aprovação e a criação de condições para preservação de materiais nato digitais no âmbito do Depósito Legal. De maneira ampla, a narrativa e a luta por políticas para o patrimônio audiovisual devem também ser do mercado.

É muito significativo o panorama da Cinemateca apresentado na Carta de Gramado 2020, elaborada pela frente SOS Cinemateca, com adesão de diversas associações – de outras cinematecas, de profissionais e empresas do audiovisual. Um sinal positivo é a inclusão de uma discussão sobre a crise na Semana ABC, organizada pela Associação Brasileira de Cinematografia (ABC), um dos mais significativos eventos em torno da realização audiovisual no Brasil. Mas ainda precisamos de maiores ações de aproximação e de reconhecimento de que esta crise da Cinemateca deve ser preocupação – e requer atuação – de todo o setor.

Conforme apontado na Carta de Ouro Preto de 2020, entre os pontos urgentes para implementação de uma política nacional para a área e os desafios a serem enfrentados está “reivindicar a criação de mecanismos para a ampliação da oferta de obras audiovisuais brasileiras nos catálogos de plataformas de streaming, tendo a garantia de inclusão de obras de diversas épocas, possibilitando o acesso ao vasto patrimônio audiovisual brasileiro”. Qual seria a relação da Netflix (usada aqui como modelo de plataforma), por exemplo, com a necessidade de investimento no patrimônio audiovisual brasileiro? Só uma oportunidade de benfeitoria mesmo, viável por sua presença na lista das 12 empresas que mais lucraram na pandemia. A proposta não é tão absurda, considerando que a empresa no Brasil criou um fundo emergencial de R$ 5 milhões para a indústria audiovisual brasileira, devido ao recesso no contexto da pandemia de Covid-19.69 Obras antigas disponíveis nas plataformas de streaming constituem uma preocupação nos Estados Unidos.70 Em geral, produtores brasileiros não contam com recursos para digitalização e finalização de filmes antigos capazes de atender aos parâmetros técnicos requeridos pela plataforma e, possivelmente, precisam de investimento em advogados para viabilizar o clearance.71 da obra. Que tal então a plataforma lançar uma linha de investimento para obras não contemporâneas? Trata-se de uma ideia que seria contemplada pelo Edital SAv/MinC/FSA nº 24 de dezembro de 2018, linha de Restauro e Digitalização de conteúdos audiovisuais, suspenso em 2019. A saúde das instituições de patrimônio audiovisual beneficia também as próprias plataformas de streaming a médio e longo prazo – considerando, por exemplo, a forte tendência de documentários em torno de imagens de arquivo.72 Como ilustração, o expressivo número dos documentários dos EUA disponíveis na Netflix Brasil, que possui imagens de arquivo como condutores da narrativa, como Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), e as séries Remastered (2018) e Explained (2018). No entanto, comparativamente são poucos os filmes e séries brasileiros que apresentam imagens de arquivo nessa medida, sendo uma exceção OBarato de Iacanga (2019, Thiago Mattar).73

Além da atividade do laboratório da Cinemateca para a preservação de seu acervo, chamo atenção para a confecção de cópias, como a coleção “Clássicos e Raros do Cinema Brasileiro”, iniciada em 2007, que teve sua 4ª edição em 2016, e aquelas feitas para celebrar o Dia internacional do Patrimônio Audiovisual. Destaco, como meio de registro, as cópias em 35mm e digital realizadas em 2016, tal qual consta no Relatório.

A confecção de cópias em 35mm é uma importante função de uma cinemateca com um laboratório fotoquímico, para a preservação e para proporcionar uma experiência de difusão em consonância com o formato original da obra. Considerando que o digital é a forma de ampla circulação, são confeccionados cópias em digital em diversos formatos/fins. No contexto da CB, o esforço de digitalização dessas obras se realizaria mais plenamente com alguma forma de difusão pré-estabelecida, idealmente com a devida curadoria e ações de contextualização. Atualmente, o caminho natural de difusão digital da CB é a inclusão na plataforma Banco de Conteúdos Culturais (BCC).74

Dez Filmes Importantes Para a História do Cinema Brasileiro Inacessíveis (ou quase) Digitalmente”, publicado em Cinelimite, expõe a inacessibilidade digital a alguns celebrados, cânones ou raridades de nossa filmografia. Além de ações para o acesso digital, é crucial avaliar se suas matrizes estão fora de risco iminente, e se demandam ações de preservação ou duplicação. A lista de Rafael de Luna me remeteu a “Filmes brasileiros considerados perdidos (ou prestes a sê-lo)”, publicada na extinta revista Contracampo.75

Distintivamente, a lista de 2001 era sobre a existência/perda de matrizes. Além de alguns títulos que eventualmente foram perdidos, outros tiveram seus (conhecidos) únicos materiais deteriorados, a ponto de inviabilizar um processamento em laboratório. Devido às crises da Cinemateca Brasileira, à paralisia dos trabalhos de pesquisa, das ações de preservação e do processamento laboratorial, a atualização da lista feita em 2001 por Hernani Heffner e Ruy Gardnier seria trágica em extensão e escopo. Seria papel de uma instituição nacional tornar esta lista pública. Além de prestar contas à sociedade brasileira sobre seu patrimônio audiovisual, também pode ser uma estratégia de localização de novos materiais junto a outras instituições e colecionadores privados no Brasil e no mundo. Ainda, e os tantos outros filmes e registros que escaparam de tal investigação e documentação e estão em ostracismo? Quantos filmes existem, cujos únicos materiais são cópias em bitolas inferiores, incompletos, muito deteriorados? Quantos registros audiovisuais brasileiros já perdemos?

Conclusão
“Se perdermos o passado, viveremos em um mundo Orwelliano do presente perpétuo, onde qualquer pessoa que controla o que está sendo divulgado poderá dizer o que é verdade e o que não é. É um mundo terrível, nós não queremos viver nesse mundo.” Brewster Kahle (2014, entrevista para Digital Amnesia, documentário da holandesa VPRO)
“Conhecimento só se efetiva quando é compartilhado” Hernani Heffner (2001, em conversa de corredor na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro)

O audiovisual digital tem sido ferramenta crucial nas lutas por direitos humanos em todos os cantos do país. São registros de despejos forçados de comunidades, da ocupação de aparelhos culturais ou educacionais como forma de protesto, de manifestações, de invasão de comunidades por forças policiais – com altos índices de homicídios da população local, inclusive crianças e jovens – registros da devastação ambiental fomentada pelo governo atual, da luta por direitos e pela demarcação de terras indígena, e de crimes contra os povos originários. O audiovisual também tem sido utilizado no empoderamento preto e na luta antirracista, na emancipação e afirmação das mulheres por igualdade de oportunidades e contra o machismo estrutural. As redes sociais, com uma profusão de talentos criativos e narrativas, proporcionam os maiores índices culturais desta época. No Brasil, em sentido geral, estas imagens seguem fora do escopo de prospecção das instituições brasileiras, e ainda é tímida a discussão em torno de seu arquivamento e pertencimento ao escopo do patrimônio audiovisual no Brasil. Na perspectiva da preservação, além de todos os desafios inerentes à preservação digital de dados,76 temos o aspecto da efemeridade, pelo vínculo dos dados às corporações.

Os mecanismos de tecnologia persuasiva das redes sociais são utilizados para conduzir comportamentos de indivíduos. Algoritmos são capazes de dar credibilidade ao inverídico, de alavancar o terraplanismo e de colocar #StopFakeNewsAboutAmazon como trend no Twitter, enquanto a boiada do ecocídio passa solta, e o mundo testemunha a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e outros Parques Nacionais destruídos.77 O computador quântico Rehoboam78 é uma alegoria do agora, em uma narrativa explicitada por Shoshana Zuboff em seu livro “Capitalismo de Vigilância”. Vimos, num crescente terror e violência, sucessivas vitórias eleitorais de partidos e movimentos políticos de extrema direita. A circulação de notícias falsas nas redes sociais aumentou o poder de destruição do Covid-19. A contrainformação, deep fake e robôs de fake news têm conexão com o mundo descrito por Brewster Kahle, fundador do Internet Archive, citado acima. Podemos perder o passado e, até, o presente, pela fragilidade do tecido da informação, pelo potencial de manipulação e pela desinformação.79 O atual presidente do Brasil, quando deputado, à ocasião do processo de impeachment/golpe da presidenta Dilma Rousseff, votou pela memória do maior torturador da ditadura militar, que comandou as sessões de tortura contra a ex-presidenta. Falhamos em não ter mostrado e visto o suficiente de O caso dos irmãos Naves (1957, Luis Sérgio Person), Iracema - uma transa amazônica (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), Eles não usam black-tie (1981, Leon Hirszman), Pra Frente, Brasil (1982, Roberto Farias), Cabra marcado para morrer (1984, Eduardo Coutinho), Que bom te ver viva (1989, Lúcia Murat), Ação entre amigos (1998, Beto Brant), Cidadão Boilesen (2009, Chaim Litewski).80 De forma que fosse impossível banalizar o ato na Câmara dos Deputados, de tal forma que nenhuma mulher votasse nele para presidente dois anos depois. Agora não podemos deixar de preservar estes filmes e os que virão depois de Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) e Torre das Donzelas (2019, Susanna Lira).

Uma parcela expressiva do patrimônio audiovisual brasileiro já se perdeu ao longo do século passado. Além dos recorrentes incêndios à época dos primeiros cinemas, das ondas de destruição ativas (de filmetes curtos na consolidação do longa-metragem como formato, do silencioso com a chegada do cinema falado, na substituição do nitrato pelo acetato), muitos acervos se dispersaram, foram desmantelados, escamoteados, e os que chegaram aos arquivos de filmes já chegaram debilitados. Ainda, a demora em reconhecer a importância do patrimônio audiovisual, a ausência de políticas públicas para a sua gestão e a oscilação de recursos nas instituições acarretaram mais perdas. Com o advento do digital, há um agravamento – tanto pela preservação do que hoje é prospectado quanto pelo que está fora do escopo de prospecção. A crise atual da Cinemateca é gravíssima e demanda medidas urgentes do poder público e da cadeia audiovisual. Apesar do poder de destruição do atual governo e da paralisia dos trabalhos por tantos meses, encorajada pelas muitas discussões que estão sendo realizadas, pelas articulações em andamento e pelos movimentos em apoio à Cinemateca, quero terminar com algum tom de otimismo. Por acreditar no potencial da Cinemateca para promover debates e exibição de filmes, para efetivar o acesso às mais olvidadas coleções, ser um espaço para pesquisa, prover referência imagética do passado e subsidiar pesquisa tecnológica; para cativar crianças e jovens com a telona, apresentar o pré-cinema e as tecnologias do audiovisual em um museu, e para engajar o bairro e a comunidade vizinha. Acrescente-se para vários outros modos de uso criativo do acervo e das ferramentas que demoraremos a exercer, devido às sucessivas crises que aumentam o passivo de trabalhos, aceleram a deterioração do acervo e limitam o poder de alcance da instituição. Neste momento fica ainda mais evidente o fato de que a Cinemateca está incluída no macro projeto de devastação da cultura e do patrimônio brasileiro e, a sua importância como uma força para reagir contra este projeto, portanto, cresce cada vez mais.

Agradeço Aline Machado pela revisão minuciosa.

1. O Ministério da Cultura foi extinto no primeiro dia do governo; foi incorporado inicialmente ao Ministério da Cidadania e, posteriormente, ao do Turismo. Até o momento, a Secretaria Especial da Cultura já teve cinco titulares sem comprovada expertise, e outras instituições de patrimônio cultural passam por agudas crises, como a Fundação Casa de Rui Barbosa e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv). A Agência Nacional do Cinema (Ancine) não repassou recursos já comprometidos e não lançou novos editais. Destaca-se que a Constituição Federal, que rege a democracia brasileira, prevê em seu Art. 215 que o “Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”; e em seu Art. 216, que o “poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro”.

2. De 2016 a 2020 trabalhei no departamento de Preservação de Filmes da Cinemateca Brasileira. Compartilho reflexões subjetivas a partir de minha experiência, com ênfase nas atividades do departamento.

3. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

4. Por meio de uma política descentralizadora do Ministério da Cultura foram lançados editais de desenvolvimento e produção, com cotas para estados usualmente com restrito investimento no audiovisual, e projetos de baixo orçamento, editais específicos para novos diretores, mulheres e povos nativos.

5. Regulamentado em 2007, o FSA é retroalimentado por um fluxo do imposto Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), coletado a partir de todas as janelas do audiovisual, e investido em novas produções, linhas de desenvolvimento, distribuição de produções para cinema e televisão e jogos eletrônicos. De 2008 a 2018 foram investidos, no total, cerca de R$ 4,5 bilhões.

6. Um exemplo emblemático desta dinâmica ocorreu em 2008, com a presença do então diretor-executivo da Cinemateca Brasileira na 3ª CineOP, cuja temática é Política Nacional de Preservação Audiovisual: necessidades e desafios. Ao longo do evento ele se posicionou com firmeza contra uma articulação das demais instituições, a criação de diálogo destas com o representante do Ministério da Cultura no evento e a criação da ABPA - Associação Brasileira de Preservação Audiovisual.

7. Dentre as propostas do Simpósio sobre o Cinema e a Memória do Brasil de 1979, consta “a criação e a dinamização de centros regionais de cultura cinematográfica constituídos por unidades de produção e por filmotecas (arquivos de cópias de filmes), com a função básica de prospecção, pesquisa e divulgação do acervo brasileiro [… e] o estabelecimento de um inventário [nacional]” (1981, 67). Laura Bezerra relata a “criação de um programa de apoio às cinematecas que, apesar de não ter implementado ações sistemáticas e abrangentes, destinou recursos para algumas ações setoriais” (2014, 120). A descentralização é necessária, considerando a continentalidade e pluralidade cultural do país, além de tecnicamente ser desejada em caso de sinistros.

8. A CineOP é um evento criado em 2006 e tornou-se o principal fórum de discussões e articulações em torno do patrimônio audiovisual e o ensino do audiovisual no Brasil. A cada ano é redigido um documento pelos participantes do Encontro, a Carta de Ouro Preto, com alertas e proposições para o campo.

9. A ABPA é uma associação de profissionais, independentemente do vínculo com instituições, e tem atuado em prol de políticas para o setor, na projeção do patrimônio audiovisual e na realização de projetos, como a tradução e publicação de textos técnicos. A ABPA criou em 2016 o PNPA, documento de diagnóstico e proposições de ações e políticas para o campo da preservação audiovisual. https://abpanet.org/

10. O papel principal do Conselho é atuar no desenvolvimento da Cinemateca. Seus membros são representantes dos poderes públicos da esfera federal, estadual e municipal, além de indivíduos da sociedade civil com atuação em cinema ou patrimônio. Curiosamente, nota-se uma predominância de homens dentre os conselheiros ao longo dos anos.

11. Atualmente é o Cinesala. Cinesala. Disponível em: http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

12. O matadouro teve suas atividades encerradas em 1927. O terreno estava sendo utilizado como depósito de equipamentos de iluminação pública.

13. A partir de ideia de Gilberto Gil, músico e então membro do conselho de assessoramento cultural da BR Distribuidora, e posteriormente Ministro da Cultura, de 2003 a 2008.

14. Empresa estatal que impulsionou a produção, distribuição, exibição, preservação e restauração do audiovisual – vinculada à Petrobras, empresa brasileira de energia, gás e petróleo.

15. Em colaboração com a CB, o projeto também foi realizado na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro, inclusive o inventário do acervo, inédito na instituição e processamento de materiais deteriorados. A Cinemateca do MAM estava subjugada à direção do Museu, que determinou, de forma arbitrária, que não teria condições de manter o acervo audiovisual (insolitamente após o inventário). Como resultado, parte do acervo foi alocada no Arquivo Nacional a partir de 2002 na mesma cidade, e parte foi recebida pela CB. Alguns detentores de materiais optaram por guardar consigo, muitas vezes em lugares inapropriados. Essa foi uma das maiores crises da instituição, de relevância histórica para o cinema brasileiro (sobretudo para o movimento do Cinema Novo) e para a preservação audiovisual, cuja direção passou por Cosme Alves Netto, com notória ligação com instituições internacionais. A partir de 1996, Hernani Heffner ingressa na instituição. Em 2020, passa por uma consolidação, com um novo prédio para o acervo documental e com mudanças estruturais na direção do Museu.

16. Segundo Souza, a Filmografia Brasileira foi iniciada por Caio Scheiby em fichas em papel e, nos anos 1980, foram publicados quatro cadernos com registros dos filmes produzidos até 1930 (2009, p.259). Atualmente, de acordo com o site da instituição, “contém informações de aproximadamente 42 mil títulos de todos os períodos da cinematografia nacional e da produção audiovisual mais ampla e recente, sejam curtas, médias ou longas-metragens; cinejornais; filmes publicitários, institucionais ou domésticos; e obras seriadas (para internet e televisão), com links para registros da base de dados de cartazes e referências de fontes utilizadas e consultadas”. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 13 ago. 2020.

17. Texto extraído da plenária realizada em 2008. Disponível em: http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. Acesso em: 2 ago. 2020. Segundo Laura Bezerra, “o SiBIA foi pensado e executado a partir da CB/SAv sem quaisquer debates e negociações com os atores envolvidos, o que contradiz o espírito democrático-participativo defendido e praticado em documentos e ações do MinC” (2014, 185). O II Encontro Nacional do SiBIA ocorre em 2009, com 33 instituições de todo o país, e suas propostas, que demandavam recursos e ações da SAv, não se efetivaram. O projeto é extinto em 2009, sem desdobramentos práticos.

18. A Programadora Brasil foi um projeto de difusão de filmes (animação, experimental, ficção, documentário), que atuou de 2006 a 2013, por meio da edição de DVDs para circuito não comercial (cineclubes, centros culturais, escolas, universidades), em um total de 970 obras divididas em 295 DVDs.

19. Relatórios institucionais da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

20. Esta unidade foi afetada pela enchente no início de 2020.

21. Revista da Cinemateca Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

22. Acervos adquiridos pela União sob a guarda da Cinemateca: Estúdios Vera Cruz e Atlântida Cinematográfica (em 2009), Canal 100 e Glauber Rocha (em 2010), Goulart de Andrade e Dulce Damasceno de Brito (em 2011) e Norma Bengell (em 2012).

23. A paralisia afeta também o Centro Técnico do Audiovisual (CTAv), instituição no Rio de Janeiro, que correalizava diversos projetos da SAv com a CB.

24. Depósito Legal é o mecanismo de depósito de materiais comprobatórios da realização da obra audiovisual subvencionada com recursos federais, em instituições credenciadas pelo governo federal – até o momento, somente a CB. Após a aprovação do material (de acordo com diretrizes técnicas), a empresa produtora torna-se apta a receber a última parcela do investimento. Devido à redução do fluxo de análise na crise de 2013, foi gerado um passivo de materiais a serem analisados.

25. Olga Toshiko Futemma atua na Cinemateca Brasileira desde a década de 1980, com destaque para seu trabalho no Centro de Documentação e Pesquisa. Tornou-se diretora-executiva em 2004, diretora-adjunta de 2007 a 2013 e diretora de 2013 a 2018, quando se torna Gerente de Acervos. Participou do Comitê Executivo da Fiat a partir de 2009 até o ano de 2013.

26. Após o incêndio, foi mantida a mesma estrutura. De acordo com o Relatório da CB de 2016: “a edificação, desenhada nos anos de 1990, foi construída sem instalações elétricas ou hidráulicas, de modo a minimizar os riscos de acidente; sem climatização ativa, mas mantendo a temperatura interna com as menores variações possíveis e permitindo a circulação de ar, para evitar o acúmulo de gases resultantes da deterioração do suporte. Em caso de autocombustão […] inevitavelmente consumiria todo o conteúdo da câmara, mas não se espalharia para as outras adjacentes” – que foi o que ocorreu em 2016, o fogo consumiu apenas uma das quatro câmaras.

27. Como exemplo, o ARRISCAN, quando adquirido, foi adaptado para materiais deteriorados, o que permitiu o escaneamento de negativo com 4% de encolhimento, medida que seria considerada inviável para outros laboratórios.

28. Bases de dados do Centro de Documentação e Pesquisa. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 7 ago. 2020.

29. O setor de difusão seguiu praticando a premissa de exibição de filmes do acervo, respeitando seu suporte original, privilegiando o cinema brasileiro; e realizando mostras, com materiais do acervo ou de parceiros, ou recebendo festivais nas duas salas de cinema e na tela externa da Cinemateca – projeções em 16mm, 35mm e digital, e alguns formatos em vídeo analógico.

30. Ainda de acordo com o relatório, “o processo de duplicação emergencial difere da restauração de filmes, conceito este aplicado quando são confeccionadas novas matrizes de preservação, de imagem e som, e cópias de acesso, incluindo diferentes graus de manipulação para minimizar marcas do uso ou deterioração, buscando a forma como a obra foi difundida em seu lançamento original. Uma restauração usualmente reúne e compara diversos materiais para seleção dos melhores, enquanto a duplicação emergencial trata de uma copiagem de um suporte em deterioração avançada, geralmente único, para um outro, novo.”

31. Carlos Roberto de Souza destaca que “os trabalhos de pesquisa e historiográficos brasileiros realizados […] chamaram a atenção para o fato de que é um equívoco construir uma história do cinema brasileiro a partir do filme de ficção de longa metragem. A produção brasileira de maior volume foi sempre a de documentários e cinejornais, geralmente relegada a segundo plano pelos chamados historiadores clássicos, pela mídia e pelo público em geral. A realidade da produção reflete-se no acervo cinematográfico que chegou até nossos dias. O percentual de filmes de não-ficção ultrapassa avassaladoramente o de longas de ficção e continua o menos preservado. Isso não significa que todos os longas de ficção estejam preservados. Longe disso. A parcela mais tratada – nem sempre com os cuidados que merece – é a dos longas brasileiros consagrados.” (2009, p.261).

32. Posteriormente descobriu-se que há um campo homônimo na base Filmografia Brasileira, conduzida pelo Centro de Documentação e Pesquisa, que constava dentre os campos excluídos do fluxo à época. Tratava-se de um sistema numérico de 0 a 5. Considerando que os técnicos da Preservação que propuseram a metodologia não tinham experiência anterior na instituição, a proposição não seguiu o sistema numérico, mas categorias de texto. Como exemplo, as categorias ‘preservado no momento’ (considerando matrizes originais, intermediários e cópias de acesso em bom estado, por exemplo), ‘parcialmente preservado’, ‘não preservado’, ‘parcialmente perdido’, com a inclusão de adendos como ‘com defeitos’ (interferências na imagem ou som), ‘incompleto’, etc. O sistema permitiu agilidade nos fluxos de seleção de materiais para duplicação emergencial e pesquisa para acesso externo.

33. Ferramenta proposta pela Unesco em 1988, por seu caráter moldável, que se assemelha a cartões físicos de biblioteca individuais, com limitado cruzamento de informações.  

34. A ferramenta foi inicialmente pesquisada e selecionada pelas equipes do laboratório e de desenvolvimento anteriormente a 2016. Foi adotado pela equipe da preservação em 2016, perfil mais institucional em 2017 – trac.cb – em seguida pela equipe do Centro de Documentação e Pesquisa e, por último, e com uso comedido, pela equipe da difusão.

35. Precisamosfalar sobre... o logo da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. A logomarca é identificada pormuitos por sua forma fálica, o que poderia ter contribuído para o grau de viralização e atenção à Cinemateca em 2016.

36. Manifesto pela Cinemateca Brasileira - 2016. Disponível em: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com. Acesso em: 20 jul. 2020.

37. 100 Paulo Emílio. Disponível em: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. Acesso em: 20 jul. 2020.

38. Questiona-se a legalidade da realização de um aditivo ao contrato principal. De qualquer forma, consideramos um ultraje que a gestão da Cinemateca Brasileira seja regida por um aditivo como instrumento legal.

39. Como ocorreu em casos de acesso aos originais para digitalização e licenciamento ao Canal Brasil, principal canal de televisão de obras brasileiras, que estava atualizando seu catálogo, anteriormente em resolução SD. A entrega ao Canal seria em HD ou superior, apesar de ser uma resolução datada. Os produtores optavam por resolução HD e não em 2K, por limitação de orçamento, mas além de ser mais relevante comercialmente a médio prazo, o 2K representa uma ação mais significativa de preservação, uma vez que seria um resguardo por mais tempo do material original em película – grande parte já em más condições.

40. Sobretudo a pejotização: a contratação de serviços de indivíduos por meio de empresas constituídas para tal.

41. Essa dinâmica de dispersão de força de trabalho é ainda mais perigosa no contexto da preservação digital, que demanda uma constante atualização de saberes devido, à incessante mudança da tecnologia e de práticas de mercado.

42. E-mail de 29 de junho de 2016. Disponível em: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Acesso em: 15 jul. 2020. Débora Butruce indica que o tema de gestão por OS foi debatido em um Grupo de Trabalho ao longo de alguns anos: 15ª CineOP. Instituições de patrimônio em risco: Caso Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. Além de Butruce, participaram do debate Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira e Eloá Chouzal, na mediação.

43. Jorge Barcellos resume da seguinte maneira: “[…] ao longo do tempo as OS tornam-se deficitárias e custosas”; e alerta que “segundo Alzira Angeli, da Controladoria Geral da União, estas organizações transformaram-se no novo nicho de mercado da corrupção e [segundo o historiador Francisco Marshall] “a iniciativa promove a degradação da gestão pública”. Disponível em: https://jorgebarcellos.pro.br. Acesso em: 20 ago. 2020. Como exceção, alguns museus no Estado de São Paulo seguem com êxito no modelo de gestão por OS.

44. Em contraste com o modelo estadunidense, no qual famílias bilionárias e grandes corporações subvencionam projetos e instituições de cultura e patrimônio, por fundações.

45. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com diversos benefícios ao trabalhador, como férias remuneradas, 13° salário, seguro-desemprego, auxílio-doença, salário-família, salário-maternidade e aposentadoria.  

46. A prospecção de materiais é uma função primordial da CB, por ser a principal instituição nacional e considerando o secular histórico de destruição e descaso com o patrimônio audiovisual brasileiro. Tornaram-se notórias notícias de acervos potencialmente valiosos nos últimos anos, e não foi possível a atuação de técnicos da CB. Por intermédio da Acerp, foi feita avaliação em um acervo no interior de São Paulo. O corpo técnico assumiu o contato com o Ministério das Relações Exteriores para a avaliação da listagem de acervos de cópias 35mm em Embaixadas do Brasil em Roma, Berlim e Haia para a repatriação. Acerp posteriormente assumiu o diálogo e não conseguiu efetivar o translado.

47. A Missão Institucional estava sendo consolidada em um documento, que não se efetivou na gestão da Acerp.

48. Fórum de discussão de liberdade, autonomia, segurança na Internet. CryptoRave. Disponível em: https://cryptorave.org. Acesso em: 15 ago. 2020.

49. A distância entre as duas cidades é de mais de 400 km, cerca de 1 hora de voo.

50. Militares fardados ocasionalmente visitavam a instituição. Um episódio tornou-se notório: a visita de um deputado, com mesmo sobrenome que seu tio-avô, o primeiro presidente da ditadura militar. Ele publicou um vídeo em redes sociais, dentro da CB e acompanhado por representantes da instituição, anunciando a mostra de filmes militares, reproduzindo o slogan de campanha do presidente e batendo continência. A série não foi realizada.

51. O que possibilitou uma efetiva resposta aos danos ao estúdio e ao acervo do fotógrafo Bob Wofelson, localizado nas mediações do galpão da Cinemateca, que contou com um número grande de voluntários sob coordenação da equipe técnica do Instituto Moreira Salles (IMS). Uma técnica da Cinemateca Brasileira estava entre as voluntárias (fora do horário de trabalho da CB). Essa foi a 2ª enchente que afetou o estúdio do fotógrafo. As enchentes na região são recorrentes, de maneira que esse relato é a crônica de uma tragédia anunciada.

52. O trabalho consistia em movimentar sacos com pilhas de latas de filmes cheias de água suja, abrir cada lata para verificar o estado do material, determinar destino ao material e organizar o acervo nas estantes. Em um primeiro momento, as equipes de limpeza e manutenção executaram uma força tarefa junto à equipe técnica para escoar a água, limpar estantes e ajudar na movimentação de sacos de filmes, porém antes que esse trabalho chegasse ao fim, essas equipes foram drasticamente reduzidas.

53. A primeira delas, referente à nomeação como diretora de uma atriz que desempenhava há dois meses o papel de Secretária Especial de Cultura em Brasília e queria retornar a São Paulo por questões pessoais. No entanto, não havia nenhum cargo legalmente disponível para ela assumir na CB naquela época e ela acabou não trabalhando na instituição.

54. Cinemateca Brasileira pede socorro. Acesso em: 9 set. 2020. Nesta data, o manifesto teve mais de 28,5 mil adesões.

55. Cinemateca Viva, grupo formado por Associação dos Moradores da Vila Mariana <http://www.cinematecaviva.com.br>; o grupo Cinemateca Acesa <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; e Cinemateca em Crise, criado em 2013, com atualizações com a crise de 2020 <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. A Apaci desde 2015 esteve ativa e em contato com a diretoria da CB, para garantia da execução dos trabalhos da instituição.

56. Trabalhadores da Cinemateca Brasileira. Disponível em: https://twitter.com/trabalhadorescb. Acesso em: 18 ago. 2020.

57. Cinemateca Brasileira - Trabalhadores em Emergência. Disponível em: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca. Acesso em: 30 ago. 2020.

58. A crise na cinemateca brasileira - Soluções Urgentes. Disponível em: https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. Acesso em: 30 ago. 2020. Gabriela Queiroz, coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa desde 2014 até 2020, representou a instituição.

59. Como exemplo, as afirmações de que “todo” o patrimônio audiovisual brasileiro está na CB, de que a instituição poderia pegar fogo se a luz fosse cortada (os depósitos de nitrato não possuem sistema elétrico); e a utilização do termo ‘laboratórios climatizados’ para designar ‘depósitos climatizados’.

60. A entrega de chaves foi marcada pela presença de agentes ostensivamente armados da Polícia Federal, que foram convocados com o pressuposto de que poderia haver resistência na entrega das chaves pela Acerp. As chaves foram entregues, os documentos foram assinados e foi realizada uma visita técnica. Mesmo que utilizada de forma coadjuvante, foi a primeira vez que intimidação policial ocorreu na instituição. A Acerp tentou obter ressarcimento dos valores investidos na CB em 2019 e 2020, alegadamente no total de R$ 14 milhões.

61. Carta de Gramado 2020. Disponível em: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado. Acesso em: 30 set. 2020.

62. Generalizações são arriscadas e podem ser equivocadas. Afinal, temos muitos produtores que entendem, enaltecem e investem em preservação, sobretudo depois da crise de 2020. Se essas palavras não fazem justiça à atuação de produtores em prol do patrimônio audiovisual, ficarei feliz em publicar meu equívoco. Mas esse texto foi fermentado pela frustração de ver a soberba da cadeia audiovisual, com suas festas, mercados, deals, marketshare, box office, hold back, catch up, pitch, players e recursos caudalosos, enquanto a menção a investimentos em preservação gerava tremores! Essa postura gananciosa da cadeia produtiva é um descaso em relação ao patrimônio audiovisual brasileiro e aos profissionais da área.

63. Fontes: sites do FSA e da Cinemateca Brasileira. Originalmente publicado em MENEZES, Ines Aisengart. O profissional atuante na preservação audiovisual. Museologia & Interdisciplinaridade. Vol. 8, nº15, Jan./ Jul. de 2019. Nota do original com correção: A Cinemateca Brasileira é a única instituição que recebe materiais em Depósito Legal e conforme Laura Bezerra (2015), seu orçamento representa quase que a totalidade de investimentos em preservação audiovisual, no período, no país. Desta forma, considero o gráfico uma ilustração direta do desnível de investimentos em produção e preservação audiovisual”. O gráfico alcança somente até 2017, pois a partir de então a Cinemateca Brasileira não publicou mais relatórios institucionais. Em 2019, no novo governo, foram interrompidos os repasses do FSA.

64. Documento SEI / ANCINE - 0413350 - Resolução CGFSA Nº 101 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos FSA 2017. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 101 - aprova PAI FSA 2017.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

65. Por meio de mecanismo não reembolsável, que não prevê o retorno em lucro financeiro, mas com outros desenhos de contrapartida.

66. Documento SEI / ANCINE - 0845324 - RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Aprovação do Plano Anual de Investimentos de 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUÇÃO CGFSA Nº 155 - Plano Anual de Investimentos 2018.pdf. Acesso em: 3 out. 2020.

67. Recursos disponibilizados para Ações e Programas - 2008 a 2018. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. Acesso em: 3 out. 2020. Valor completo informado nesta data de R$ 4.558.877.384,00.

68. De acordo com Gomes (2020), a maioria dos materiais recebidos em Depósito Legal está em HD externos, que necessitam verificação contínua – “materiais digitais, portanto, requerem checagens e migrações mais constantes, uma necessidade que a Cinemateca Brasileira ainda não pode atender, tanto por limitações do número de funcionários, quanto financeiras”. Parte da numerosa coleção em vídeo magnético da instituição é oriunda de Depósito Legal. De um modo geral, no período de 2016 a 2020, não foram realizadas ações de preservação das coleções em vídeo e digital, somente duplicação para acesso. Considerando a inação, de uma forma ampla e sistemática, em relação ao escopo do patrimônio concebido em digital, pode-se esperar uma superação das (notoriamente altas) taxas de perda em relação ao patrimônio em película – sobretudo em relação às primeiras produções criadas em digital.

69. ICAB e NETFLIX fazem parceria para criar FUNDO EMERGENCIAL de apoio a comunidade criativa brasileira. Disponível em: http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html. Acesso em: 27 set. 2020.

70. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. Disponível em: https://www-newsweek-com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. Acesso em: 27 set. 2020. Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Acesso em: 27 set. 2020. O repertório de filmes antigos é um nicho explorado por plataformas como The Criterion Channel e Mubi, entre outros.

71. Um aspecto sensível para a comercialização de obras antigas é a normatização, para emissão do Certificado de Produto Brasileira (CPB) e a documentação dos direitos, para viabilizar o licenciamento. Historicamente, muitos filmes foram realizados sem a devida documentação e muitas empresas se dissolveram sem a documentação de repasse dos direitos.

72. No contexto brasileiro, onde a primeira atividade como profissional é explicar qual a sua função como profissional, os documentários da Netflix com imagens de arquivo costurando sua narrativa costumam ser uma explicação para leigos sobre a importância da preservação do patrimônio.

73. Relatório de 2016: páginas 55 e 56. Correção ao conteúdo: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) é colorido, não p&b.

74. Aqui vale uma reflexão sobre a excelência catalográfica e a boa navegabilidade do projeto, mas a necessidade de revisão de especificidades técnicas e das dimensões do logo ocupando parte da imagem, experiência reportada como frustrante para muitos.

75. Filmes brasileiros considerados perdidos ou prestes a sê-lo. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm. Acesso em: 21 ago. 2020.

76. Como tecnologias proprietárias; obsolescência de formato de arquivo, codec, software, hardware; gerenciamento de metadados; migração, entre outros.

77. Além de catastrófico ambientalmente para a fauna e a flora, a devastação vai afetar diretamente o campo de preservação de patrimônio cultural, pela relação direta com o clima, como a variação maior de temperatura e umidade, por exemplo. Desconheço estudos no Brasil sobre a crise climática e a área de patrimônio. Mundo afora, destaco o Orphans 2020, em torno do qual ocorreram diversos debates.

78. Supercomputador de inteligência artificial da série da Westworld (2016, Jonathan Nolan), ambientada em quase quatro décadas no futuro.

79. Cujo símbolo é a ciência sendo desacreditada pelas redes sociais e meios de comunicação de mensagens (sobretudo WhatsApp, empresa adquirida pelo Facebook), tornando difícil a difusão de informações cientificamente fundamentadas, com olhar crítico na contenção da pandemia de Covid-19. Uma pesquisa realizada em vinte países mostra que brasileiros são os que menos acreditam em seus cientistas: Brasil de costas para a ciência. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia. Acesso em 30 set. 2020.

80. Filmografia Ditadura Brasil. Disponível em: http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html. Acesso em: 2 set. 2020.

BIBLIOGRAFIA

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

The Cinemateca Brasileira (CB, or “Brazilian Cinematheque”), the leading audiovisual heritage institution in Brazil, is going through its worst-ever crisis in 2020. As a result, its extensive collection and elaborate technological machinery are threatened, as well as the knowledge that permeates from both. At the beginning of the year, a flood occurred in the Cinemateca’s warehouse, drastically affecting part of the film and equipment collection stored there. Since August 2020, the collection and facilities are without proper technical support; and at this moment of writing, there is no news of an immediate resolution that meets the urgency. Inaction and neglect with the Cinemateca Brasileira are just two examples of the Brazilian government’s perversities, which additionally include the structural dismantling of the public health, education, and cultural systems,1 and the ecocide and genocide of the country’s native and black populations, the latter of which has been accelerated by the Covid-19 pandemic. The Cinemateca crisis took on unprecedented proportions in 2020, but its origin came earlier, going through the administrative and political turmoil of 2013 and a fire in early 2016. This article discusses the work carried out at the institution in mid-2016, the challenge of its continuity after the team’s reduction in 2017, the alleged solution with a new management model in 2018, and the 2020 hecatomb.2 This text also presents a few conjectures about the relationship between Brazil’s audiovisual heritage and its audiovisual production industry. The series of crises over the last 74 years, marked by the four fires and the flood, are the broad consequence of what Brasília-based museologist Fabiana Ferreira highlights in her thesis “A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil” (2020).3 She claims, “the only stable aspect in public policies for audiovisual preservation is its inconstancy. A succession of disagreements and disarticulations by the political agents responsible for the creation and implementation of policies without a real national governmental project that crosses mandates” (2020, p.109). According to Hernani Heffner, chief curator of the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro, this is not only the biggest crisis in the history of the Cinemateca Brasileira, but also the biggest crisis of Brazilian audiovisual heritage.4

Overview of the Last Two Decades

Brazil is a federal republic of continental dimensions – the fifth-largest in territorial extension. It has 26 states and a federal district. The country has undergone two re-democratization processes, the most recent in 1984 after the end of the military dictatorship. In the 21st century, Brazil has had economic growth, a reduction of social gaps, and extreme-poverty rates. Universities flourished and the audiovisual industry solidified through new federal policies and programs as a result of the investment policies of the Audiovisual Secretariat (SAv) / Ministry of Culture (MinC),5 and the Audiovisual Sector Fund (FSA).6 These investments allowed new professionals to emerge in the film production sector and the consolidation of new film production companies, which, in turn, supplied an increasing number of new films each year. Eventual municipal and state resources for film production were added to the federal ones. However, Laura Bezerra observes that while the government invested in decentralizing cultural production policies, the same did not happen with film preservation (2015). While there were substantial investments in the Cinemateca Brasileira during this period and after the inclusion of the CB in the SAv’s organizational chart, there were also few political discussions about the implementation of policies and actions for the field in a profound way.7 This is a problem that is fundamental for understanding the development of the current crisis. As Fabiana Ferreira diagnosed, “The Cinemateca does not act in the creation and implementation of preservation policies, either by conducting discussions and holding dialogues with the sector or by actively participating in political spaces at the federal level, such as the National Film Council, for example. There was also no structured dialogue with other memory management entities” (2020, p.108). The State’s insufficiency in their management of Brazilian heritage causes profound reverberations, especially affecting the audiovisual production industry which seems to not recognize preservation as a necessary element for their works. Still, the current Cinemateca Brasileira crisis has become yet another argument for the decentralization (and increase) of investments in audiovisual heritage nationwide.8 Brazil has many federal, state, municipal, and private heritage institutions that are not in the spotlight and that also demand urgent actions and resources.

Over the last few decades, there has been constant maturation in the field of audiovisual preservation. For example, the establishment of specific financing programs; the distribution of new publications; the creation and growth of the festival Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), where the National Meeting of Archives and Audiovisual Collections takes place;9  the formation of the Brazilian Association for Audiovisual Preservation (ABPA) and the elaboration of the National Plan for Audiovisual Preservation (PNPA).10  Also, there has been a growing number of Preservation-related events each year.

Cinemateca Brasileira – A Brief History

The Cinemateca Brasileira has had several administrative arrangements. It began as a civil society organization and later moved to the public sphere. Its long history includes many setbacks with some positive developments. The writer, essayist, critic, researcher, professor, and activist Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977) is the protagonist in the creation, defense, and management of the Cinemateca Brasileira. Paulo Emílio’s impact on the field of Brazilian Cinema is broader than his work on the Cinemateca itself. His work was fundamental in the valorization of Brazilian cinema, in its qualification as a historical document, in the defense of its preservation, and in creating university cinema courses. Paulo Emílio was also active in international politics as a regular member of the Executive Committee of the International Federation of Film Archives (FIAF) between 1948 and 1964, eventually becoming the organization’s vice president. He is also a renowned author in historiographic studies of cinema, with publications on the French director Jean Vigo and the Brazilian filmmaker Humberto Mauro, among others. As a teacher, he was vital in the formation of numerous important scholars, film critics, and preservationists, such as Carlos Augusto Calil, Carlos Roberto de Sousa, Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet, Maria Rita Galvão, and Olga Futemma – some of whom continued his work at the Cinemateca Brasileira.

In consideration of the many publications on the Cinemateca Brasileira in Portuguese and the limited English repertoire that exists in comparison, what follows here is a brief overview of the institution’s key historical moments. In 1940, intellectuals from São Paulo created the Clube de Cinema de São Paulo (São Paulo Film Club), which promoted the exhibition of films, conferences, debates, and publications before being closed in 1941 by the country’s then-reigning dictatorship government. In 1946, Paulo Emílio went to France to study at the Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC). He grew even closer to the Cinemathèque française, an institution founded in 1936 with which he had contact since living in Paris during the previous decade – the period when his passion for cinema awoke. The second São Paulo Film Club was created in 1946, and in addition to its previous activities, it began to develop the initiative of prospecting and preserving materials from Brazilian films. 1946 is therefore considered to be the milestone year of the Cinemateca’s creation. Paulo Emílio affiliated the Club to FIAF in 1948. In the following year, the Film Library was created, and then connected to the newly created Museum of Modern Art of São Paulo. In 1956, the archive was detached from the museum and became the Cinemateca Brasileira, a non-profit civil society. The Advisory Council was formed the same year.11 As a result of the self-combustion of a cellulose nitrate reel, the Cinemateca’s first fire occurred in the summer of 1957, which “completely destroyed the library, the photo library, the general archives, and the collection of devices for the future cinema museum, as well as one-third of the film collection” (Gomes, 1981, p. 75). The tragedy elicited support and donations from national and foreign entities, and the Cinemateca resultingly gained space in the largest urban park in São Paulo, Ibirapuera Park. In 1961, the Cinemateca became a non-profit foundation, an essential status for its autonomy and ability to raise public resources.

In the following year, a new non-profit civil entity called the Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC, Portuguese for “Society of Friends of the Cinematheque”) was created to assist the Cinemateca in its management of financial resources and to develop various activities to support the Institution. Initially, the Cinemateca mainly held film screenings, but from the 1970s onwards preservation became its axis partly due to the declining state of its collection. The late 1960s and mid-1970s formed a critical period for the institution, as it had few employees and much voluntary work. Unfortunately, the Cinemateca was unable to pay its annuity fees, and therefore it was disconnected from FIAF in 1963. The CB became an observer in 1979 and received its full FIAF membership again in 1984. The Cinemateca’s second fire occurred in the summer of 1969 for the same reason the previous fire was triggered, resulting in the significant loss of film-related materials. In 1977, the institution’s Laboratory was created with equipment from commercial film laboratories that had been deactivated. Paulo Emílio passed away from a heart attack that same year.

In 1980, an operations Center was opened in São Paulo’s Conceição Park for documentation and research work. The third fire occurred in the autumn of 1982. As a result, a move was made to incorporate the Cinemateca into the public sphere. In 1984, the CB Foundation was extinguished, and the Cinemateca was attached, as an autonomous organ, to the National Pro-Memory Foundation. In 1989, a cinema12 theater was rented to screen the archive’s collection in the busy neighborhood of Pinheiros, which significantly leveraged São Paulo’s cinema scene. By the end of the decade, the Cinemateca staff consisted of about 40 people (many of them former students of Paulo Emílio), 30 of whom were hired with formal contracts.

In 1990, the government extinguished the National Pro-Memory Foundation and the Cinemateca was incorporated into the Brazilian Cultural Heritage Institute (IBPC). This organization transformed into the (still-active) National Institute of Historic and Artistic Heritage (IPHAN) four years later. In 1997, the Cinemateca’s current facility was founded, a heritage site converted from a slaughterhouse after nine years of reformations. The definitive headquarters13 aggregates the conservation and screening departments that had previously been scattered throughout the city of São Paulo. This centralizing was a crucial element in the institution’s consolidation process after decades of scarce resources, precarious infrastructure, and oscillations in institutional dynamics.

In 2001, a vault with a proper climatization system was inaugurated with an initial capacity of one hundred thousand reels. In the same year, the Brazilian Cinematographic Census project began14 with funding from BR Distribuidora.15 The Brazilian Cinematographic Census project was an essential step for appraisal and basic conservation procedures in the collection,16 and the training of technicians. The project “was organized around four basic axes: the appraisal and examination of the existing collection, which was previously concentrated and dispersed; the duplication of reels threatened by deterioration; the dissemination of the work and its results; the study of legal measures for the protection of audiovisual heritage” (Souza, 2009, p.258). In 2003, upon resolving that IPHAN was not meeting the scope of its tasks, and after deliberation by the Council, the CB was attached to SAv/MinC. In the following years, the resources transferred by MinC gradually increased. In 2003, the CB implemented a short internship program for technicians from other institutions. From 2004 to 2006, the Prospecção e Memória (Prospecting and Memory) project followed the Census project, especially concerning the cataloguing of Brazilian movies compiled in the Cinemateca’s Filmografia Brasileira (Brazilian Filmography) database.17

In 2005, SAv created the Brazilian Audiovisual Information System (SiBIA) which was coordinated by the CB. It was “a program that aimed to establish a network that currently counts on more than 30 institutions that dedicate themselves, primarily or in subsidiary fashion, to the preservation of moving image collections throughout Brazil”.18 In 2006, the CB hosted the 62nd FIAF Congress, “The Future of Film Archives in a Digital Cinema World: Film Archives in Transition”. In that same year, on the institution’s 60th anniversary, Luiz Inácio Lula da Silva became the first (and only) president of Brazil to personally visit the CB, with representatives’ delegation. In 2006, the CB published the “Manual de Manuseio de Películas Cinematográficas” and the “Manual de Catalogação de Filmes” da instituição (Film Handling Manual and Cataloging Manual), which became a primary reference for other preservation institutions, as scarce technical publications existed in Portuguese at the time. In 2008, SAC became a Public Interest Civil Organization (OSCIP) and, since then, the transferring of resources to projects carried out at the Cinemateca has been massive. Under SAC management, SAv’s projects were carried out in an agile way, unlike the Ministry’s bureaucracy. At that time, many of SAv’s programs were achieved at the Cinemateca, such as “Programadora Brasil”.19 As of 2008, annual reports that described the archive’s operations throughout the year were published online,20 except for the following years: 2013, 2015, 2018, and 2019. As a result of the census, the lab preserved and restored numerous films and created new access materials. In 2009, the CB launched the DVD box set “Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema), with 27 early films accompanied by new soundtracks. In 2011, a secondary site was opened in the neighborhood of Vila Leopoldina21 to store films, documents, and equipment. In 2012, the first edition of the magazine Revista da Cinemateca Brasileira was published and in the following year, its second edition was published.22 In 2013, a political-administrative crisis was initiated, and the Cinemateca’s executive director was dismissed without due dialogue with the Council or appropriate measures taken for finding his replacement or formulating a transition plan. The Comptroller General of Brazil carried out several audits regarding SAv resources executed by SAC and the acquisition of collections by the government.23 At the end of the year, of the 124 employees that had been working before the crisis, just a few remained, including 22 public servants directly linked to the Ministry.24 From the 2014 Report, it is possible to verify that some of the institutional workflow continued. Below, I present data that reflect the interruption of work in 2014 (and 2015). This work stoppage would drastically affect the CB’s collection:25

In the summer of 2016, the Cinemateca’s fourth fire occurred, again due to a nitrate reel’s self-combustion. The loss was estimated at a total of 1003 reels of cellulose nitrate films referent to 731 titles. In addition to the discontinuation of the nitrate collection analysis after the 2013 crisis, technicians realized a few years later that someone had allocated new reels at the Cinemateca’s nitrate vault without the proper removal of the transport packaging. This could have been avoided if the technical team had been tasked with allocating and reallocating works within this film collection. This oversight potentially created conditions for a microclimate prone to self-combustion, and it could have been the second factor responsible for the fire. However, the first and most important factor for the fire will always be the government's neglect, given the lack of resources for the institution’s primary activities.

Cinemateca Brasileira –  2016 and 2017

The 2016 fire coincided with hiring 11 new technicians, an action made possible by a one-year contract signed between SAv/MinC and the Educational Communication of the Roquette Pinto Association (Acerp) at the end of 2015. Altogether, until the middle of the year, 42 technicians were hired, in addition to the 15 public servants directly linked to MinC. Third-party companies were contracted for essential services (maintenance, cleaning, security, and IT). Seven technicians were also hired for the flow of Legal Deposit,26 made possible by the Brazilian Film Agency (Ancine). The tone set by Cinemateca Brasileira director Olga Futemma27 in the 2016 Report is one of optimism and pride in meeting the goals established in the contract’s Work Plan, though there are due signs of the difficulties and challenges created from the discontinuity of work in the previous years in the report as well. A highlight of the work carried out as a result of the fire:

“Appraisal and reporting the losses […]; examination, separation by technical deterioration [...] for lab processing; provisional allocation of the remaining 3,000 nitrate reels; creation of a project, for the burnt vault, for fire prevention devices [...]; basic renovation of the vault, carried out by the Cinemateca’s team, for the return of the collection [...]; technical disposal of fire residues”.

Despite the disaster, MinC did not provide resources for preventing further fires.28 Another challenge explained by Futemma was the situation of the Laboratory, which had undergone a work stoppage. “The scenario was heartbreaking”, she claimed. To stress its importance: The Laboratory at the Cinemateca Brasileira is the most complete (and possibly last) of the photochemical labs in South America. It has the ability to process film-to-film, including 35mm and 16mm, b&w of all materials and color prints. The Lab can process smaller gauge film formats such as 8mm, 9.5mm, and 16mm film as well. In addition to its capacity to specifically work with film, the Lab also contains a wealth of digital equipment. These include the ability to scan 35mm film-to-digital (HD, 2K, 4K, 6K) and the ability to print digital back-to-film, such as printing digital to 35mm film. The Lab can scan several video formats to digital, including U-Matic, Betacam SP, Digital Betacam, DVCam, and others. It also has the capacity to conduct digital image and sound manipulation, including color correction and restoration. The machinery has even been outfitted over the years to process materials with advanced deterioration.29 However, due to the lack of staff over previous years and the resulting lack of maintenance and parts, it became impossible to resume some of these workflows.

The Cinemateca’s current audiovisual collection comprises about 250 thousand nitrate, acetate, and polyester film reels, in addition to a large gathering of magnetic tapes and reels, and approximately 800 terabytes of digital data – mainly comprised of digitized materials from the collection and Legal Deposit materials. The film-related collection comprises about one million documents, such as posters, photographs, drawings, books, scripts, periodicals, censorship certificates, press materials, and documents from personal and institutional archives.30 There is also a non-cataloged equipment collection. In recent times, the institution’s resources and activities were divided among the following departments: Film Preservation, Documentation and Research Center, Access – Programming31 and Events, Administration, Maintenance and IT.

In the Film Preservation sector, several task flows were executed throughout 2016: monitoring of the climate control of the deposits, movement of materials according to their physical state of deterioration, documentation review, applicant services, and emergency duplication of materials (which will be discussed more later on). A significant element of our workflow was to document mandatory preservation actions in a collective fashion, a task for which the Cinemateca lacked sufficient resources. After months of corrective maintenance and evaluation of lab chemicals and raw film stock, the processing of deteriorated film materials began: per the 2016 report, “the selection was made by considering the technical conditions of the materials, [with an investment of] less time and resources in the complementary actions of a single work so that it would be possible to make feasible actions, although incomplete, in a wider number of materials”.32

Due to goals established in the Work Plan and the limited available time and staff in 2016, the selection of films for processing in the Lab was only carried out by one technician. However, the ideal context would be one in which there were institutional debates and discussions about the film selection process. Attention was taken not to select consecrated narrative feature films,33 but instead, to cover “material from fiction films, documentaries, newsreels, domestic films, and scientific films… without subjective evaluation of the content of the works or any curatorship” (2016 Report). The selection prioritized the state of deterioration of the materials and not their content. An aspect of this workflow worth being critical of is that many worthy films were not being selected, which possibly further increased their ostracism. Throughout the analysis process, some materials were evaluated as not processable. Since these films were considered unique, if they were not processed and restored, it would represent the death of the images and sounds they contain. Countless materials so deteriorated that they did not meet the conditions for a complete duplication. Also, newly generated materials often contained photographic marks of deterioration that were existent in the material prior to them. During this workflow, the film stock purchased in previous years was used. However, a few years later, the archive ran out of raw film stock for its workflow.

The eventual losses of films and the specificities of processing them raised awareness around the need to create a standardized methodology for evaluating and documenting films. Because every film is its own unique material, this standardized methodology could help guide preservation and access actions. The “preservation status” was thus created, and this categorization was integrated into the film’s internal documentation and incorporated into communications with the rights holders. This documentation would include the categorization of the preservation status, like “partially preserved” and “partially lost”, with recommendations such as lab processing or research for new materials.34 Since these categories would frequently vary throughout the year as the materials’ physical conditions could change, the original date that a film’s status was proclaimed was as important as the actual status itself.

The database solution used at the Cinemateca Brasileira was WinIsis,35 which is a poor tool for complex data analysis. Several workflows – analysis, outflow of materials, and creation of new materials – required constant updating of the audiovisual database, which was interrupted because of the institution’s broad structural problems. In parallel, the open-source and Web-based project Trac36 was purposed and standardized for internal documentation workflow on the intranet. Trac was basically a Wiki documentation and ticket system. According to the 2017 Report, this intranet “makes it possible to maintain information horizontally among sectors, collaboration in the construction of documentation, the continuity, and organization of information on the same platform, […] used to document different internal procedures; norms and instructions for internal documentation; reports and texts related to the institution; information related to external requests and data of materials analyzed and processed”. The effort to keep internal documentation accessible, horizontal, and transparent, consistent with a memory institution’s role, did not comprise communications with Acerp and the projects sent to the Ministries. An essential element for those years was the investment in technological development, as documented in the 2017 report, which allowed the analysis of information from the database in a dynamic way and the research for solutions to foster the institution’s autonomy.

The ClimaCB project is worth mentioning, as it allowed for the online monitoring of climate control. It is a combination of open-source software and hardware that would list which guidelines and codes would be available in Git for free use. Unfortunately, the project was not published. Considering the potential cardinal role of the CB within the scope of Brazilian audiovisual heritage, it is clear that participation in technical discussions and the publication of proposals and technological solutions are both wanted and needed.

During the two years under the Service Contract, Olga Futemma held meetings with the technical staff to share news, impressions, and strategies. The meetings reinforced the notion of the team’s proportion and strength and served as an injection of spirit. Another positive development that brought the preservation team together was the Cinemateca’s new website, as the previous site had had obsolete navigation and tools. A moment of heightened visibility came when a short video made by the technical team showing the history of the institution’s logo dating back to 1954 became widely shared on the internet.37

The staff in the Film Preservation department was balanced between former technicians who ensured the continuation of workflows and new technicians who provided fresh evaluations for the workflows. The difficulties in creating interpersonal relationships during previous years and feelings of insecurity over the 2013 crisis were negative aspects that we avoided discussing within the workspace.

2016 was marked by the autonomy and intense communication of the technical team, but also by setbacks. In May, MinC published a public tender for electing a Social Organization (SO) to undertake the CB’s management. This was still during the Presidency of Dilma Rousseff. Shortly afterward, a misogynist coup occurred – by dint of the process of impeachment which eventually led to Rousseff’s ousting and the taking of power by her former vice president. Shortly after he took office, he tried to end MinC, but reversed this position in response to intense popular pressure. The new Minister of Culture canceled the public tender for electing a Social Organization for the Cinemateca Brasileira, and it was released months later with changes.

July 2016 brought one more surprise: after a restructuring of MinC, five positions at the Cinemateca were eliminated. At the time, these positions were occupied by the director and experienced technicians. A new director would be indicated by the Ministry, without the necessary expertise and without the Council’s participation, a move considered to be unprecedented at the time. Audiovisual associations issued letters against this announcement and the Council issued a manifesto38 in favor of revoking the layoffs and proposing a partnering with the Brazilian Museum Institute (IBRAM). The stance eventually led to the reversing of the dismissals and a rehiring of the director and technicians.

In the following months, the CB and SAv/MinC jointly sought to prevent a gap between the expiration of the Service Contract with Acerp, which would end in December, and the new management determined by the selected SO after the public tender. A solution was finally found a day before the contract’s expiration – an extension until April 2017. But, “as the residual value is not enough to remunerate for four months all technicians previously hired, it was necessary to reduce the staff (by about 75%) and, as a consequence, workflows”, according to that year’s report. The year ended with mixed enthusiasm for the future of the CB. While there was Paulo Emílio’s centenary celebration, which included the launch of a series-specific website,39 courses for the general public and publications devoted to Paulo Emílio’s work, there was also discouragement for the downsizing of the Cinemateca’s team, as the staff would not be the same size again until June 2017. The impact on the CB of the substantial reduction in technicians is evident, as can be observed in this 2016 and 2017 lab processing chart which reflects the amount of processed material:

In May 2018, the contract with the SO for the CB’s management was signed, followed by a ceremony attended by the then-Minister of Culture, who claimed that “the crisis is over” thanks to the new management model. Acerp, which managed the CB via a Service Contract that began in 2016, was the SO selected in the public tender. In the case of the Cinemateca Brasileira, this legal indenture would contribute to the current crisis. It was not legally possible for Acerp to directly sign a contract with the Ministry of Culture (to which the Cinemateca was linked) due to its preexisting contract with the Ministry of Education (MEC). Thus, the management of the Cinemateca was officially fulfilled by an amendment to the main contract.40

After the contract’s signing, Acerp appointed a new director without the deliberation of the Council, which was then ostracized from further organizational discussions. Acerp’s first action that had a substantial impact on the dynamics of the institution’s technical team was creating a new customer service department, installed for meeting the growing number of outside requests, especially requests for access to the Cinemateca’s audiovisual collection. The other sectors’ services and fulfilling access requests never stopped; the main bottleneck was providing access to the audiovisual collection. Every collection request was in theory recorded, answered, and eventually met in the order of their arrival, the possibility of completing the request, and the processing time to complete it. Despite this protocol established by the team, a sign of the CB’s subjugation would be the intensification of projects becoming prioritized over others, as determined by the Minister or the board of Acerp. This non-conformity with the institution’s protocols generated personal discomfort among the preservation team.

For the Film Preservation department workers, the new customer service meant there would be no more contact with researchers and producers, who were used to the greater agility in meeting their requests that the larger staff provided before 2013 and were frustrated by the reduced team’s limited response. Besides, the dialogue with producers and researchers about their practices showed a lack of understanding of preservation’s importance. Furthermore, this dialogue proved to be shortsighted from a market perspective when accessing materials held in the CB for digitization without proper processing.41 Another indication of incomprehension and disrespect for the preservation team was that the agreed upon financial compensation that the institution was expecting never arrived. This matter was elegantly noted by Olga Futemma, who stated in the 2016 Report: “some of the bad situations we faced were due to: tight deadlines; the total disregard of the need for compensation – not in monetary terms, since the Cinemateca cannot charge [for admissions, loans, or services at the time], but in actions that should have been foreseen in its projects and that would allow expanding the collection [...]; the misunderstanding that unique (preservation) materials should not leave the collection without supervision […]”. She added that “it is necessary, therefore, to continue to make efforts to change the conception of the public good as something that can be freely available for the achievement of private projects, and for the understanding of the need, still in the elaboration phase, to consult with the Cinemateca on the feasibility of the project in concerning the intended materials and the deadlines necessary for their availability. These are two necessary conditions for planning whose meeting benefit both the requester and the collection”.

In September 2018, former members of the Board issued an Extrajudicial Notification to MinC, requesting the “revocation of acts […] and rules that violate the technical, administrative and financial autonomy ensured in the deed of incorporation of the Cinemateca Brasileira Foundation […], in addition to: 1) The constitution of a new advisory council in compliance with the necessary autonomy of the body; […] 3) Return of the Cinemateca Brasileira to the structure of IPHAN”. The notification also mentions the “SAv’s omission in the face of the [2016] fire […], and that the Cinemateca Brasileira is no longer part of the structure of the Ministry of Culture and has not earned any public positions”.

Cinemateca Brasileira’s Management by the Social Organization

At the time of the Cinemateca Brasileira’s consolidation in the first decade of this century, maintaining its technical staff was a constant challenge. The technicians were hired for projects with specific durations via different forms of hiring.42 This dynamic created fragility and instability in workflows and compromised strategies and structural solutions, in addition to leaving the technical team in vulnerable positions.43 The SO management model would be the desired solution to enable the stabilizing of the technical team’s employment statuses after years of scarcity. Futemma evidenced this hope in an e-mail sent to the ABPA listserv: “This discussion [of the SO management model] has been taking place for eight years, involving MinC, SAv, the Council and the Cinemateca team. We have great expectations that, by the end of this year, a new management model will allow the Cinemateca Brasileira to exercise its full potential in favor of Brazilian audiovisual heritage”.44

The SO management model was the solution deliberated upon after a period of instability among the Cinemateca’s technical staff. It came with the possible preference of a SO created especially for the management of the CB, Pró-Cinemateca, built in 2014 by members of the Council and SAC with the sole purpose of managing the Cinemateca. It would potentially have the participation of professionals from the field in the construction of a Work Plan – the core document for the management itself and one of the selection criteria in the public tender. Pró-Cinemateca qualified for the first tender call, but it could not advance in the second tender call due to a new requirement for previous experience of the institution in the management of public resources. The Pró-Cinemateca itself had no experience, as it had only been created recently. Still, its representatives had spent many years at the Cinemateca’s Council, which, in practice, could have been argued as a more relevant credential than the company’s management history.

Today, following the emergence of controversies surrounding the management of other public entities, cases of corruption, and a series of publications made in the Academy and on the internet, the SO management model is widely questioned.45 It has been shown to be particularly risky for cultural heritage institutions with insufficient government funds, contexts in which essential conservation workflows (often costly and of low visibility) can be overshadowed for the benefit of actions with greater visibility. The elaboration of a work plan without the technical team’s effective participation can compromise its primary objectives. As diagnosed by Fabiana Ferreira:

“Another problem with this tenure is, claiming people are free to raise funds through means other than the State ignores that they also end up at the mercy of the State. Because, in Brazil, there is no tradition of private institutions supporting culture. The private sector in Brazil does not support cultural initiatives. Traditionally, millionaire families and Brazilian corporations do not make donations or investments in cultural equipment, even less for those who do not give visibility to the brand”. (2020, p.110)

In the CB’s case, the management by the SO enabled the CLT (Consolidation of Labor Laws)46 hiring of a good part of the team, whose choice, fortunately, fell to the institution’s coordinators without the intervention of Acerp. However, the technical staff gradually became conditioned to the Acerp guidelines. This conditioning was evident during internal meetings, where it was no longer possible to play an active role in collection prospection47 or to speak on behalf of the institution without Acerp’s consent. Signs of change were perceived in the team’s modes of social interaction in a dystopian way. For example, a camera network to oversee the collection and equipment was installed by Acerp and covered spaces previously used during work breaks. This modern panoptic lookout generated discomfort among us.

Internal courses on technical subjects or on workflows and activities between sectors, which had been held regularly since 2017, were suspended. Fundraising for the Cinemateca was among the actions sought by Acerp, and the usages of the collection and facilities proved to be a quick means to this end, thus generating long periods with a constant flow of production of major events that held varied themes, sometimes apart from the cultural and audiovisual spheres. Since Acerp did not issue the 2018 and 2019 Reports, access to information about these events is not possible to obtain. The absence of the publication of annual Reports is a dangerous indication of the failure of the SO model for the Cinemateca, as they have been essential documents for accountability and transparency of the institution’s management. During the SO period, Acerp issued reports for the Ministry on the performance of Work Plan goals. However, these documents are quite technical and not very informative, in addition to being inaccessible today to the general public. Acerp proposed a Code of Ethics and Conduct for CB employees, presented at an event on company compliance – the sole enunciation of religious beliefs48 was a significant demonstration of the distance between Acerp and the CB’s institutional mission.49 Plus, Acerp’s inability to clear bureaucracies for equipment acquisition for the Lab was evident, which affected work plans that were reliant upon such equipment’s availability. Requests for access to the audiovisual collection by TV Escola for use in their programming became routine, while Acerp meanwhile ignored some work-related needs pointed out by the technical staff. Film programming proposals were negatively impacted by the presence of Acerp. After all, how does one present the idea of ​​a Fassbinder series to a board that made homophobic jokes during small talk before meetings?

The late self-cancellation of CryptoRave’s50 2019 edition by the Cinemateca team for fear of reprisal was symptomatic. An undeniable symbol of the occupation by Acerp was the creation of a new institutional website without the active participation of the CB’s technical staff in editorial decisions. As an example of this fiasco, Acerp implemented a new website without the previous dynamic calendar tool. Resultingly, the new website has a more updated design but is less functional than the previous site had been. Also, Acerp immediately implemented an intermediate logo (‘cinemateca brasileira’ in white on a red background), replacing the 1954 logo which was created by the celebrated designer Alexandre Wollner. Acerp commissioned a new logo design that was presented to the technical staff, and allowed us no time to deliberate as to whether or not we approved of it. The fresh concept and layout were surprisingly similar to the logo of the Curta Cinema - International Short Film Festival in Rio de Janeiro. Acerp is in fact headquartered in Rio de Janeiro and the Cinemateca Brasileira in São Paulo,51 which produced another convoluted aspect: the expenses of transportation, accommodation, and meal tickets for directors, managers, and legal consultants between the two cities, which altogether sum up to a considerable amount. Rather than spend this money on transportation, it could have been invested in the CB itself.

An unquestionable symbol of the SO management model’s failure for the Cinemateca was the dissolution of the Council, constituted of representatives of the government and civil society. The CB’s 1984 legal document of incorporation to the federal government determined the existence of the Council. Acerp, acting without the Council’s input, appointed several directors who had no experience in heritage or preservation fields. This appointment further alienated the technical team who worked to manage the CB. In addition to all of this, the Cinemateca – a historically non-partisan institution – became, through Acerp, the destination of people linked with the extreme right-wing political party of the acting Brazilian president. These people assumed various administrative and communicative positions at the institution without any proven expertise. The newcomers would frequently present the institution’s vaults to visitors without a technician’s due presence, further undermining conservation efforts. The presence of military personnel at the Cinemateca52 and their failed attempt to organize a military film series gained broad reverberations. During the first two years of Acerp’s management (2016-2018), the technical team was autonomous and in control of projects. However, there was a major loss of autonomy in the SO management model from 2018 onwards.

The administrative limbo of ten public servants who were allocated to the institution found themselves in is another important matter. Since the beginning of the SO management, when the CB ceased to have administrative backing under the former SAv/MinC, these people had remained in their positions. Some of them had served at the institution for more than three decades. Before the SO amendment was signed, they were guaranteed that they would not receive losses in their salaries and benefits. However, after the amendment was signed, the governmental understanding changed, and their assignment to Acerp was never made official. Despite this situation, the Ministry instructed these workers to continue with their activities at the Cinemateca. After a year and a half of neglect and contradictory messages, they had to abruptly abandon their functions at the CB to work at the Southeast Ministry’s Regional Office in São Paulo without any infrastructure to welcome them. In addition to this sudden displacement, they were forced to acquiesce to a legal process based on the necessity of returning a bonus earned during the period that they had worked at the CB under the SO administration – a bonus which represented a significant part of their salaries.

Although Acerp assumed the institutional relations more broadly, the Cinemateca’s relationship with FIAF continued to be maintained by Olga Futemma and fellow coordinators, who issued thorough annual reports to FIAF and the prompt inspection of information requested by affiliates. However, between 2016 and 2019, neither Futemma or the coordinators represented the CB at the FIAF congresses held in Bologna, Los Angeles, Prague, or Lausanne.

2020 Crisis

In February 2020, the CB’s off-site facility in Vila Leopoldina was badly affected by a flood from heavy rains and lack of proper management of the storm sewer, combined with the intense pollution of the Pinheiros River, less than half a mile away. The sewage water reached more than a meter in height and destroyed a part of the film and equipment collection, including the last surviving materials of some narrative short and feature-length films, as well as many unique elements of newsreels, advertising materials, and trailers. The Documentation and Research Center assessed the damage such that it was not considered to be significant, since the majority of what had been destroyed was duplicated material. The flood damaged shed facilities and equipment. After thoroughgoing sanitation of the facility by the cleaning team, a part of the technical staff was deployed to clean, organize, and rescue the affected materials. Acerp or SAv did not carry out an emergency plan for the urgent assessment and processing of the site’s audiovisual and equipment collections (which had been the most affected by the flooding), such as hiring an extra technical team temporarily or even granting permission for the obtaining of volunteer work.53 The catastrophe was not immediately reported due to the lack of coordination between SAv and Acerp, and the technical team was not permitted to make news of the flood available to the public. The small team established different shifts in consideration of the high toxicity of the environment and the exhaustive work involved, with their efforts made all the more difficult by the warehouse’s high temperatures without air conditioning and local ventilation.54 Film materials were selected and transferred to the main headquarters for evaluation and processing in the Lab, but the raw film stock was running low. The damage of the audiovisual and equipment collections in the facility, the inaction of SAv and Acerp, the crisis which would subsequently occur, and the interruption of the rescue and research work ultimately makes this flood equivalent in nature to a catastrophe like the Cinemateca’s fires. Per Fabiana Ferreira, such disasters “are a metaphor for the fragility of the making of an audiovisual preservation policy that goes up in flames with each change of Government, of the creation of entities, of new agents” (2020, p.23).

Since the 2013 crisis, the Ministry’s funds have fallen short, which has resulted in smaller teams than were anticipated for the work plans. At the end of 2019, there was yet another crisis, when the then-Minister of Education (MEC) decided not to continue the TV Escola project – the main object of Acerp’s contract with MEC – and did not renew the SO Contract with Acerp. Once the MEC’s main contract was extinguished, all other agreements were also terminated. This is despite the CB-specific amendment ostensibly being valid until 2021. As a result of this termination, the administration of the CB was left adrift. Acerp spent a few months trying to circumvent the decision and to obtain funds from SAv, the Special Secretariat for Culture, and the Ministry of Tourism, but without success. The year 2020 was filled with absurd news of government decisions involving the CB, causing commotion in the filmmaking community and becoming widely covered on media outlets and social networks.55 In April, Acerp stopped paying outsourced companies and technical staff. Former members of the Council launched a manifesto in May.56

The Federal Prosecution Service initiated civil legal action against the Brazilian federal government in the interest of compelling an emergency renewal of the contract with Acerp. By the end of October 2020, the understanding has been a settled situation involving contracting essential services such as security personnel and firefighters. However, the action is still in progress, and the expectation exists for a new decision that will be favorable to the CB. Resistance and protest networks have been formed and strengthened, diffusely, with multiple participants who have narrowed their communication efforts over time: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, and representatives of the São Paulo Association of Filmmakers (Apaci) - SOS Cinemateca.57 These groups have been active in performing demonstrations on behalf of the Cinemateca and building connections with municipal and federal government representatives. During this time, the CB’s spokesperson has not been the manager or the coordinators, but rather a diffuse representation of employees.58

The technical team continued to work remotely (when possible) soon after the COVID-19 pandemic began and went on strike in June with the Union’s practical assistance. A campaign was then initiated by CB workers to raise funds for colleagues who were left in the most vulnerable situation due to the lack of payed salaries right during the outbreak of the COVID-19 pandemic. The campaign received numerous contributions from individuals and institutions around the world.59 Direct donations were made directly to the CB, such as one from a Brazilian director who donated a sum for repairing a generator and wished to keep his contribution anonymous. In July, a debate was held in the Chamber of Deputies60 with the presence of government representatives and different players in the audiovisual industry and a number of other civil society members. The discussion served as a symbol of the unprecedented repercussion and engagement around the Cinemateca. In a way, it also highlighted the need for preservationists to ensure that the language and information spoken about the CB was factually accurate.61

There were few instances of direct communication between Acerp’s board of directors and the CB technical staff, and the coordinators were sharing news related to the institution in a sporadic fashion. In June, Acerp’s directors issued an undated statement (undated!) expressing solidarity on “difficulties that everyone is going through,” claiming, “do know that we are doing ... everything that is within our reach”. The statement included the commitment that “as soon as we receive funds from the Federal Government, the first step will be to pay salaries and termination packages” – even though it had already been made explicit that there would be no funds transferred by the government. Considering the lack of resources in 2020 for the Cinemateca, the flood, the crisis arising from the Covid-19 pandemic, remote work, and the suspension of wages and benefits, this statement symbolizes the neglect and disrespect that Acerp showed the CB staff. After handing over the Cinemateca’s keys to the Ministry on August 7,62 Acerp unsurprisingly and abruptly fired all of its and the Cinemateca’s employees without arrears and severance pay.

As noted in the 2020 Gramado Letter (published just after the annual Gramado Film Festival), “after countless phone calls, messages, consultations between the parties and postponements, basic and emergency water and electricity services were guaranteed […]; cleaning services were contracted, although the company is not specialized; maintenance services for climatization equipment were contracted, although the company does not offer the necessary expertise; a small fire brigade composed of two employees and a property surveillance company were hired. However, specialized employees’ primordial work is lacking among the emergency needs, without which the collection will not be preserved, even with the resumption of the basic services described above”.63 Without technical monitoring, the smallest of incidents in the collection areas can hold drastic and irreversible consequences. This is the first time in the history of the Cinemateca that any of its technical staff members have been restricted from entering the institution.

Together with the news of the handover of the Cinemateca’s keys to the Ministry of Tourism, it was made clear that a new SO public tender announcement would soon be launched. This announcement has not yet occurred. There is a budget forecast of R$ 12.5 million [about USD 2.3 million] for the Cinemateca in 2020. If not used this year, this value cannot be added to the sparse R$4 million [about USD 720 thousand] foreseen for 2021. São Paulo councilors from different political parties organized a parliamentary amendments fund for the Cinemateca, with support from Spcine, the predominant audiovisual agency in the city of São Paulo. The deploying of municipal resources towards a federal institution requires an unprecedented legal articulation, which is being made by SAC for the emergency hiring of a small technical body. Today, civil society groups are still active, with an attempt underway to activate entities and continue the mobilization.

It is imperative to create an immediate solution to make a technical team viable in 2020 so that the Cinemateca’s collection does not remain unaccompanied. Furthermore, mechanisms are needed for the continuance of middle and long-term management, in a resilient and sustainable manner that can prove consistent with the need for constant maintenance of the collection and continuance of the technical team. It is considered fundamental to open and create calls for civil service examinations for job positions that could confer the desired stability. As diagnosed in the 2020 Ouro Preto Letter:

“Preservation of cultural heritage is a constitutional duty of the Brazilian State and, therefore, it is necessary to recover the role of the public power in the management of audiovisual heritage institutions, resuming the processes of opening public tenders for job positions and implementing management plans designed together with civil society, a directive provided for in the 1980 UNESCO Recommendation for the Safeguarding and Preservation of Moving Images

An idea that has appeared throughout numerous online discussions is the return of CB to a federal government heritage institution such as IBRAM or IPHAN, to which the CB was linked until 2003, when it became the responsibility of SAv. This link to IPHAN provided continuity for the CB in the early 1990s when the federal government promoted the dismantling of cinema and institutional policies. IBRAM is an autonomous organization linked to the Ministry of Tourism, which covers thirty national museums.

Legal Deposit and the Audiovisual Industry

Despite the unquestionable duty of the State (and its evident neglect), I emphasize that interest and concern about an effective preservation policy must be seen as relevant by all sections of the audiovisual industry. We must challenge the generally held assumption that the “symbolic asset of memory is inferior to the symbolic asset of a feature film shown in shopping mall cinema venues” (Ferreira, 2020, p.111). This value was built, for decades, by the industry itself. It is possible that the FSA’s prosperity (and the increase in investments in development, production, distribution, and exhibition), together with the inaction of the audiovisual industry concerning preservation, are directly related to the dimension of the current Brazilian audiovisual heritage crisis. ABPA has repeatedly pleaded for seats on the Superior Council of Cinema and on the FSA Fund Committee, without success. In the 2018 CineOP debate “Frontiers between Industry, Market, and Archives – Content, Promotion and Regulation”, a representative of the FSA Fund Committee suggested for preservationists to search for a different financing source for preservation, distinct from the FSA. When a professional raises such a possibility (and his attitude is common among producers), he does so without understanding the importance of preservation for the entire industry, nor his role in defending the Cinemateca and audiovisual heritage policies. Let this defense be made from the personalized perspective, considering that some of his assets may be held at the Cinemateca: footage for his next film as a producer, the origins of his debut feature, or his family’s home movies. The Cinemateca’s activities in discussions, publications, forums, and technology research could also benefit him in other ways. As Paulo Emílio wrote, “You can’t make good cinema without a cinematographic culture, and a living culture simultaneously requires knowledge of the past, an understanding of the present, and a perspective for the future. Those who confuse the action of cinematheques with nostalgia are mistaken” (1982, p.96). The production industry grumbled64 when debating the need for investments to deal with the giant backlog of audiovisual works which need to be preserved in order to serve the production industry. Such preservation benefits this industry as they are then able to commercially utilize the collections. The business model does not close until we have a massive investment to deal with decades of setbacks and stagnation. I grumble back with this chart:65

In April 2017, the FSA’s 2017 Annual Investment Plan66 comprised R$ 10.5 million [about USD 1.9 million] for the Cinemateca Brasileira. This announced value for the CB was equivalent to 1.4% of the total announced in the document. The amount was never paid, with the justification that the non-refundable funds67 ran out. In May 2018, the FSA 2018 Annual Investment Plan68 appointed R$ 23.375 million [about USD 4.1 million] for investments in Preservation. In December of that year, SAv published a tender for Restoration and Digitization of Audiovisual Content. These were funds that allegedly held a return on investments made by audiovisual companies in restoration or digitization. A preservationist workgroup and CB technicians aided in construction of the document and the digitization and restoration technical guidelines. From the preservationist’s perspective, the tender was intended only for producers with a distribution bias and held the preservation aspect as secondary. The current government suspended the tender about four months after its publication. Therefore, out of a possible sum totaling over R$ 4.5 billion69 [about USD 801 million], no FSA funds whatsoever were actually invested in preservation between 2008 and 2018.

Currently, the Cinemateca Brasileira is the onlyx institution nominated to accept Legal Deposit materials. Since 2016, Ancine has invested no more than R$ 2 million [about USD 356 thousand] in hiring a technical team to analyze materials. New technicians must be hired specially for this, as the Legal Deposit workflow mobilizes several sectors and technicians. Over the years, the CB reported a high failure rate of materials analyzed. According to Gomes (2020), “one of the main causes seems to be the great distance and little information from directors/producers about, in a broad way, the role of an audiovisual archive, and more specifically, the principles of the Legal Deposit”. The expertise in analysis of materials without funds for preserving the Legal Deposit collection can be metaphorically considered through the gesture of slashing one’s own throat. The analyzed materials are left inert on shelves in an air-conditioned vault at the mercy of the famous “silent death”.70 The industry must take part in actions towards the improvement of approval rates and creating conditions for preserving digital-born materials within the scope of the Legal Deposit. Broadly, the narrative and the struggle for policies related to audiovisual heritage must also be formulated and driven from within the industry.

The panorama of the Cinemateca presented in the 2020 Gramado Letter is very significant, with several associations listed as signatories, including other film archives, professional TV networks, and audiovisual companies. A positive sign was a discussion about the crisis during the ABC Week of 2020 (organized by the Brazilian Cinematography Association [ABC]), which is considered to be one of Brazil’s most significant events devoted to audiovisual production. But we still need tremendous action to get closer towards recognizing that this crisis at the Cinemateca Brasileira must remain a concern for the entire industry.

The 2020 Ouro Preto Letter highlights, among many urgent matters, the implementation of a national policy for the area of cultural preservation. The letter outlines some of challenges which will be faced, such as “to claim the creation of mechanisms, to expand the offerings of Brazilian audiovisual works in the catalogs of streaming platforms, with the guarantee of inclusion of works from different periods that can allow access to the vast Brazilian audiovisual heritage”. What would be the suggestion proposed by Netflix (used here as a platform model), for example, regarding the need for investment in Brazilian audiovisual heritage? Such an investment would only provide an opportunity for company-improvement, made viable by Netflix’s presence among the 12 companies that profited most during the current pandemic.The proposal is not so absurd, considering that the company’s Brazilian wing created a R$ 5 million [about USD 891 thousand] emergency fund for the Brazilian audiovisual industry due to the recess in the context of the Covid-19 pandemic.71 The availability of older works on streaming platforms is also a point of concern in the United States.72 In general, Brazilian producers do not have resources for digitizing older titles in ways capable of meeting the platform’s technical parameters and, need to potentially spend whatever resources they do have on lawyers who can help them with rights clearances.73 So, how about the platform launches an investment line for non-contemporary works? This idea would be contemplated by the 2018 SAv/MinC/FSA tender for “Restoration and Digitization of Audiovisual Content”, suspended in 2019. The strength of the audiovisual heritage institutions also would benefit the streaming platforms themselves in the middle term, considering the strong contemporary trend of documentaries based in archival images.74 As an illustration, there is a significant number of U.S. documentaries available on Netflix Brasil that use archival images to build their narratives such as Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), the documentary series Remastered (2018), and Explained (2018). However, there are comparatively few Brazilian films and series that feature archival images to this extent, one exception being Thiago Mattar’s Taking Iacanga (2019).

In addition to the CB Lab’s conservation of its collection, I call attention to the confection of new film prints and digital copies, such as those pertaining to the collection Classics and Rarities of Brazilian Cinema, (which was founded in 2007 and underwent its fourth edition in 2016) and those made in celebration of the annual International Day of Audiovisual Heritage. As a means of registration, I highlight the 35mm and digital prints made in 2016, as contained in the Report.75

Creating new 35 mm prints is one of the crucial roles of a film archive with a photochemical lab, as it is vital to provide an experience in line with the original screening format of a film. Considering how digital exists for the sake of broader circulation, digital access files are made in different formats. In the context of the CB, the effort to digitize films made on film would be carried out more fully with some form of pre-established screening event, ideally with formal curatorship and due contextualization for the works. Currently, the clearest path to digital diffusion of CB assets comes via the institution’s own online Cultural Content Bank (BCC).76

Rafael de Luna Freire’s Cinelimite article "Ten Brazilian Films that Remain in the Shadows due to Poor Accessibility" discussed digital inaccessibility for a combination of canonical titles and rarities throughout the history of Brazilian cinema. In addition to creating effective digital access actions, it is crucial to assess whether original film materials exist beyond imminent risk or whether they in fact require urgent preservation or duplication measures. Rafael de Luna’s list evoked the text “Brazilian films considered lost (or about to be lost)”, published in 2001 in the now-extinct Web magazine Contracampo.77

Differently, the 2001 list was about the existence or loss of preservation materials. In addition to some titles that were eventually lost, others had their (known) unique materials deteriorated to the point of making lab processing unfeasible. In light of the Cinemateca Brasileira crises and the paralysis of research work, preservation actions, and laboratory processing, the act of updating the list made by Hernani Heffner and Ruy Gardnier at that time would be of tragic scope. It would be a national institution’s role to make this list public. Besides remaining accountable to Brazilian society about its audiovisual heritage, this work could also prove to be a strategy for locating previously unknown materials held at other institutions and private collectors both in Brazil and worldwide. Yet, what about the many other films and audiovisual records that have escaped such inquiries and remain ostracized? How many films exist today whose only surviving materials are believed to be incomplete and severely deteriorated prints in inferior gauges? How many Brazilian audiovisual records have we lost?

Conclusion

“If we lose the past, we will live in an Orwellian world of the perpetual present. So, where anybody that controls what’s currently being put out there will be able to say what it’s true and what is not. And this is a dreadful world; we don't want to live in that world.”Brewster Kahle (2014, interview for Digital Amnesia, documentary by the Dutch VPRO)
“Knowledge is effective only when it is shared.”Hernani Heffner (2001, in a hallway conversation at the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro)

Digital audiovisual records have served as crucial tools in the fight for human rights in all national corners. They include records of things such as forced evictions, occupations of cultural or educational sites as a form of protest, demonstrations, invasions of communities by police forces (with high homicide rates among local populations, including children and young people), acts of environmental devastation fostered by the current government, struggles for native people rights and the demarcation of native lands, and crimes against native peoples. These audiovisual registers also function as tools for black empowerment and anti-racist movements, for the emancipation and affirmation of women for opportunities, and against structural sexism. With a profusion of creative talents and narratives, social networks gather the most distinguished cultural indexes of this time. In Brazil, in general, these network’s images remain outside the scope of prospection by Brazilian institutions, with the discussion around their archiving and incorporation within the scope of Brazilian audiovisual heritage still proceeding in a merely tentative fashion. From the preservation perspective, aside from all the challenges inherent to digital data preservation,78 ephemerality exists due to the corporate practices of social networks (which wipe content according to their terms of service).

Social media uses persuasive technology mechanisms to drive individual’s behaviors. Algorithms can give credibility to the untrue, boost flat-earth theory, and put #StopFakeNewsAboutAmazon as a trending topic on Twitter. At the same time, ecocide is loose, and the whole world watches as flames engulf the Amazon, the Cerrado, the Pantanal, and other Brazilian national parks.79 The quantum computer Rehoboam80 is an allegory of the now, in a narrative made explicit by Shoshana Zuboff in her book “Surveillance Capitalism”. We observed successive electoral victories by ultra-right political parties and movements with growing levels of terror and violence. The circulation of fake news on social media has increased the destructive power of Covid-19. Counter-information, deep fake, and fake news robots are connected to the world described by Brewster Kahle, founder of Internet Archive, quoted above. We can lose the past and the present due to frailties inherent in today’s sources of information, with their potential for manipulation and misinformation.81 When the current Brazilian president was a deputy, during the congressional voting process held during the impeachment trial of President Dilma Rousseff, he voted for the memory of the military dictatorship’s greatest torturer, who led the former “Presidenta” torture sessions. At the Cinemateca, we failed to frequently screen and watch the anti-dictatorship films Case of the Naves Brothers (1967, Luis Sérgio Person), Iracema: An Amazonian Transaction (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), They Don’t Wear Black Tie (1981, Leon Hirszman), Go Ahead, Brazil! (1982, Roberto Farias), Twenty Years Later (1984, Eduardo Coutinho), How Nice to See You Alive (1989, Lúcia Murat), Friendly Fire (1998, Beto Brant), and Citizen Boilesen (2009, Chaim Litewski),82 in order to make it impossible to trivialize his actions in the Chamber of Deputies and make it such that no woman would vote for him for president two years afterward. Now we cannot fail to preserve these films and those that have come after, such as Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) and Maiden’s Tower (2019, Susanna Lira).

A significant portion of the Brazilian audiovisual heritage has already been lost over the past century. In addition to recurring fires that destroyed collections of early Brazilian cinema, there have been diverse waves of destruction throughout film history (of short films through the consolidation of the feature as a market format, to silent films after the emergence of talkies, to the replacement of nitrate by acetate), many collections have been dispersed, dismantled, and concealed. Numerous works that came to the film archives arrived in an already feeble state. Still, the delay in recognizing the importance of audiovisual heritage, the absence of public policies for its management, and the oscillation of funding to heritage institutions have led to further losses. With the advent of digital, there is an escalated move towards preserving both what is currently being prospected and what lies outside the current prospection scope. The Cinemateca’s current crisis is severe, and it demands urgent measures from public authorities and the audiovisual industry. Despite the government’s destructive power and the ongoing paralysis of the work, I would like to end with an optimistic tone, one that has been encouraged by many online discussions, articulations, and increasing support about audiovisual preservation in Brazil. Many have advocated for their belief in the Cinemateca’s potential to promote debates and screenings, grant access to the most forgotten collections, provide a space for research, offer a visual reference for the past, and subsidize technological research. People believe in its capacity to captivate children and young audiences with the big screen, present pre-cinema and audiovisual technologies in a museum, and engage the institution’s neighborhood and surrounding community. All of these potentialities of the institution, in addition to numerous other creative uses of its collection and the tools that we might be able to use in the future, have been marred by the successive crises and ever increasing backlog. As a result, we have seen the acceleration of the collection’s deterioration, and limitation of the institution’s reach. It has become even more evident over time that the Cinemateca has been included within a macro-project of the devastation of Brazilian culture and heritage, and its importance as a force for reacting against this project therefore grows larger and larger.

Thanks to Aaron Cutler and William Plotnick for the thorough review.

1.  The Ministry of Culture was abolished on the first day of the current government, then initially incorporated into the Ministry of Citizenship and, later, to the Ministry of Tourism. So far, the Special Secretariat for Culture has had five incumbents without proven expertise. Other cultural heritage institutions are experiencing acute crises, such as the Fundação Casa de Rui Barbosa and the Centro Técnico Audiovisual (CTAv). The Brazilian Film Agency (Ancine) did not transfer funds already committed to the Cinemateca Brasileira and did not issue new film production tenders. It is noteworthy that the Federal Constitution which governs Brazilian democracy claims the “State will guarantee to everyone the full exercise of cultural rights and access to the sources of national culture and will support and encourage the valorization and diffusion of cultural manifestations” (Art. 215). They add that, “the public power, with the collaboration of the community, will promote and protect Brazilian cultural heritage” (Art. 216).

2. From 2016 to 2020, I worked in the Film Preservation department at the Cinemateca Brasileira. I share personal views based on this experience, with an emphasis on the department’s activities.

3. Eng: “The Cinemateca Brasileira and public policies for the preservation of audiovisual heritage in Brazil”.

4. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

5. Through the Ministry of Culture’s policy of decentralization, development and production programs were created with quotas for states which habitually have been restricted from investing in audiovisual production. Also, a policy has been put in place that covers low-budget projects and quotas for new directors, female filmmakers, and native people.

6. Regulated in 2007, the FSA is fed by the Contribution to the Development of a National Film Industry (Condecine) and a tax collected from all media distributions systems. These funds are then invested in new productions mainly in cinema, television and electronic games. From 2008 to 2018, a total of approximately R$ 4.5 billion was invested [about USD $713 million].

7. An emblematic example of this dynamic occurred in 2008, with the presence of the Executive Director of the Cinemateca Brasileira at the 3rd annual CineOP. The theme of CineOP that year was National Audiovisual Preservation Policy: Needs and challenges. Throughout the event, the Executive Director took a firm stand on opposing the articulation of other audiovisual heritage institutions with the Ministry of Culture’s representatives, and the creation of the Brazilian Association of Audiovisual Preservation (ABPA).

8. Among the proposals of the 1979 Symposium on Cinema and Memory in Brazil was, “The creation and promotion of regional centers of cinematographic culture constituted by production units and by film libraries (archives of copies of films), with the basic function of prospecting, research and dissemination of the Brazilian collection [… and] the establishment of an [national] inventory” (1981, 67). Laura Bezerra stated that the “creation of a program to boost filmographies that, despite not having implemented systematic and comprehensive actions, allocated resources for some sectorial actions” (2014, 120). Decentralization is necessary, considering the country’s continental nature and cultural plurality, besides being technically susceptible to disasters.

9. CineOP was created in 2006 and has become the main forum for discussions and articulations on audiovisual heritage and education in Brazil. Each year the Ouro Preto Letter is issued by the meeting’s participants, with alerts and proposals for the audio-visual heritage field.

10. ABPA is an association of film preservation professionals, regardless of their formal occupation. ABPA has worked in favor of developing new and better film preservation policies, the promotion of audiovisual heritage, and the translation and publication of technical film preservation texts. In 2016, ABPA created the PNPA, a document that contains diagnoses and proposals for actions and policies within the field of audiovisual preservation. https://abpanet.org/

11. The Council’s central role is to work to help develop the Cinemateca. Its members are representatives of the public sphere and individuals from civil society who are linked to the cinema or cultural heritage industries. Dismally, men have been predominant among council members over the years.

12. Currently, this theater is called Cinesala. http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

13. The original slaughterhouse had its activities closed in 1927. The space was then used as a deposit for the city hall’s lighting equipment.

14. The Brazilian Cinematographic Census project was based on the idea of Gilberto Gil, musician and then a member of the cultural advisory board of BR Distribuidora. Gil would later become the Minister of Culture from 2003 to 2008.

15. State company Petrobras – linked to providing energy, gas, and oil in Brazil – boosted the production, distribution, exhibition, preservation, and restoration of Brazilian cinema.  

16. In collaboration with the CB, the appraisal project was also carried out at the Cinemateca do MAM (Museum of Modern Art) in Rio de Janeiro. The project involved the (unprecedented) inventory of the Cinemateca do MAM collection with deteriorated materials sent to the CB’s lab. The Museum director determined, arbitrarily, that the Cinemateca could not maintain its audiovisual collection (after the inventory was made). As a result, the National Archive (in Rio de Janeiro) and the CB each received parts of the collection. Rather than having them sent to Rio de Janeiro, some film material owners chose to keep their assets with them, often in inappropriate places. That was one of the Cinemateca’s biggest crises, which is historically relevant for Brazilian cinema (especially for the Cinema Novo movement) and the audiovisual preservation area. The Cinemateca do MAM was directed by Cosme Alves Netto, who had a special connection with international institutions. Hernani Heffner joined the institution in 1996. In 2020, the Cinemateca do MAM underwent a consolidation, with a new building for the film collection and some structural changes in the Museum’s direction.

17. According to Souza, the Brazilian Filmography was started by Caio Scheiby on paper cards, and, in the 1980s, four notebooks were published with records of films produced until 1930 (2009, p.259). Currently, according to the CB’s website, “it contains information on approximately 42 thousand titles from all periods of national cinematography and the most recent and widest audiovisual production, whether short, medium or feature films; newsreels; advertising, institutional or domestic films; and serial works (for internet and television), with links to records in the database of posters and references to sources used and consulted”. Filmografia Brasileira. August 2020. Available at: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

18.Text extracted from 2008 plenary. SiBIA. August 2020. http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. According to Laura Bezerra, “SiBIA was conceived and executed by CB/SAv without any debates and negotiations with the players involved, which contradicts the democratic-participative spirit defended and practiced in MinC documents and actions” (2014, 185). The 2009 meeting had 33 institutions from all over the country, and its proposals, which demanded SAv resources and actions, were not carried out. The project was extinguished in 2009, without practical advancements.

19. Programadora Brasil was a project for the diffusion of animation, experimental, fiction, and documentary films, active from 2006 to2013, through the printing of DVDs for non-commercial circuits (film clubs, cultural centers, schools, universities), in a total of 970 works divided across 295 DVDs.

20. Cinemateca Brasileira Institutional Reports. July 2020. Available at: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

21. This unit was affected by flooding in early 2020.

22. Cinemateca Brasileira magazine. Available at: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

23. Collections acquired by the government under theCinemateca’s custody: Estúdio Vera Cruz and Atlântida Cinematográfica (in2009), Canal 100 and Glauber Rocha (in 2010), Goulart de Andrade and Dulce Damasceno de Brito (in 2011) and Norma Bengell (in 2012).

24. The interruption also affected the work of the CentroTécnico do Audiovisual (CTAv, or “Audiovisual Technical Center”), in Rio deJaneiro, which was involved in several SAv projects with CB.

25. 2014 Report - details on pages 12 and 14 on the“analysis of preventive conservation of cellulose nitrate”.

26. Legal Deposit is the mechanism for depositing public-funded audiovisual materials in institutions accredited by the federal government. Until today, only the CB falls under that category. After the approval of the material (according to technical guidelines), the producing company becomes able to receive the last instalment of the financing. Due to the drastic reduction in analysis after the 2013 crisis, the backlog of materials became enormous.  

27. Olga Toshiko Futemma began working at the Cinemateca Brasileira in the 1980s, with particular excellence in her work at the Documentation and Research Center. She became the institution’s executive director in 2004, its deputy director from 2007 to 2013, and its director from 2013 to 2018, at which point she became the Collections Manager. She took part in the FIAF Executive Committee from 2009 until 2013.  

28. After the fire, the vault received the same structure as before. According to the 2016 Report: “the building, designed in the 1990s, was built without electrical or hydraulic installations, in order to minimize the risk of an accident; without active air conditioning, but maintaining the internal temperature with the smallest possible variations and allowing air circulation to avoid the accumulation of gases resulting from deterioration. In the case of self-combustion [...] it would inevitably consume the entire contents of the vault, but it would not spread to the adjacent vaults” – which characterizes what happened in 2016, when the fire consumed only one of the four vaults and did not spread to the others.

29. For example, ARRISCAN, when acquired, was adapted for deteriorated materials, which allowed the scanning of negatives with 4% shrinkage, a measure that would be considered infeasible for other laboratories.

30. Databases of the Documentation and Research Center. August 2020. https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

31. The Programming department continued to show films from the collection, with respect for the original projection format to the best extent possible and privileging Brazilian cinema. It also organized film series with prints loaned from partnering organizations and held screenings in the Cinemateca’s two theaters and on its outdoor screen. The films projected were on 16mm and 35mm prints, as well as digital and video formats.

32. Also, according to the 2016 Report: “the emergency duplication process differs from the film restoration, which involves producing new preservation dupes, both image and sound, and screening copies. It also includes different sorts of manipulation to minimize handling or deterioration marks, approximating its original theatrical release characteristics. A restoration project usually compares different materials, while emergency duplication deals with copying advanced deteriorating material, typically unique, to a new one.”

33. Carlos Roberto de Souza points out that “The Brazilian research and historiographic works carried out […] drew attention to the fact that it is a mistake to build a history of Brazilian filmography with a basis in fiction or narrative feature-length films. The highest volume of Brazilian production has always been of documentaries and newsreels, generally relegated to the background by so-called classical historians, the media, and the general public. The reality of production is reflected in the cinematographic collection that has reached our days. The percentage of nonfiction films exceeds that of feature films and remains the least preserved. That does not mean that all fiction features are preserved. Far from it. Yet the most treated part – and not always with the care it deserves – is that of the consecrated Brazilian features.” (2009, p.261).

34. Later, the team discovered a homonymous field in the Brazilian Filmography database, conducted by the Documentation and Research Center, which was no longer in the workflow. It was a numerical system from 0 to 5. Considering that the Preservation technicians who proposed the methodology had no previous experience at the CB, the categorization did not follow the numerical method, but instead followed text categories. As an example, the categories included “preserved at the moment” (considering original materials, intermediaries, and prints in good condition, for example), “partially preserved”, “not preserved”, “partially lost”, with supplemental information such as “with defects” (image or sound interference), “incomplete”, etc. The system provided quickness in the selection for emergency duplication and research for external access.  

35. WinIsis is a software proposed by Unesco in 1988 and adopted by the CB due to its shapable character. It resembles individual physical library cards, with limited data examination.

36. Trac was initially adopted by the lab and development teams before 2016. The preservation team adopted it in 2016. In 2017, an institutional profile was created, then the Documentation and Research Center profile, and lastly, the Access department profile.

37. We need to talk about ... the Brazilian Cinematheque logo. July 2020. https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. The alleged phallic form of the logo could have contributed to the degree of viralization and public awareness of the Cinemateca in 2016.

38. Manifesto for the Cinemateca Brasileira - 2016. July 2020: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com.

39. 100 Paulo Emílio. Available at: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. July 2020.

40. The legality of amending the main contract is questionable. In any case, we consider it an outrage that an amendment governs the Cinemateca Brasileira as a legal instrument.

41. As occurred in access to original film materials for their digitization and licensing to Canal Brasil, the leading television channel for Brazilian films. The broadcast company was updating its catalog, which was previously in SD resolution. The delivery of films to Canal Brasil would be in HD (1080p) or higher, despite HD being an outdated resolution. Producers opted for HD resolution and not 2K due to budget limitations. Still, in addition to being more commercially relevant in the middle term, 2K represents a more significant preservation action since it would be a longer safeguard of the original material – much of which was already in bad condition.  

42. Especially what can be called pejotization, in reference to “juridical person”, or the legal status of a physical person: The hiring of services from individuals through companies set up for this purpose.  

43. This dynamic of dispersing the workforce is even more dangerous in the context of digital preservation, which demands a constant updating of knowledge due to the ongoing changes in technology and industry practices.

44. E-mail from 29 June 2016. July 2020: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Débora Butruce indicates that a Working Group debated the theme of management by OS over several years: 15th CineOP. At-risk cultural heritage institutions: The Case of the Cinematreca Brasileira. Available at: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. In addition to Butruce, the conversation’s participants included Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira and Eloá Chouzal.

45. Jorge Barcellos sums it up by saying that “Over time, [the Social Organization] became deficient and costly”. He warns that “according to Alzira Angeli, from the Comptroller General of the Union, these organizations have become the new market niche for corruption and [according to historian Francisco Marshall] the initiative promotes the degradation of public management”. August 2020. https://jorgebarcellos.pro.br. As an exception, some museums in the State of São Paulo successfully follow the management model by OS.

46. Consolidation of Labor Laws (CLT) has several benefits to the employee, such as paid vacations, a bonus salary (equivalent to a month’s pay), unemployment insurance, sickness benefits, family salary, maternity salary, and retirement funds.

47. I understand collection prospecting as a fundamental role of the CB, since the Cinemateca is the central national institution, and especially in consideration of the history of destruction and neglect of Brazilian audiovisual heritage. In recent years, news of potentially valuable collections became public, and CB technicians could not act independently under the Acerp administration. Through Acerp, for instance, the technical staff evaluated a collection in the São Paulo countryside. The technical team contacted the Ministry of Foreign Affairs to assess a list of 35mm prints held at the Brazilian embassies in Rome, Berlin, and The Hague. Acerp later took over the connection and was unable to carry out the repatriation.

48. It was reported by many colleagues that the person in charge of such event said ‘God was the first CEO, and theBible was the early compliance’, among other inappropriate comments for an event at an heritage institution.

49. An Institutional Mission document was being consolidated, which was not carried out during the time of Acerp’s management.

50. CryptoRave is a forum for freedom, autonomy, and security on the Internet. CryptoRave. August 2020. https://cryptorave.org.

51. The distance between the two cities is about 268 miles/1-hour flight.  

52. Military personnel in uniform occasionally visited the institution. One episode became notorious: The visit of a deputy who held the same last name as his great-uncle, the first president of the military dictatorship. The deputy published a video on a social network from inside the CB and accompanied by representatives of the institution in which he announced the upcoming exhibitions of military films, reproduced the president’s campaign slogan and saluted the camera. The film series has not been realized.

53. Several volunteers working within the Instituto Moreira Salles’s (IMS) technical coordination team performed an effective response to damages to the studio and photography collection of the São Paulo-born photographer Bob Wolfelson, which was located near the Cinemateca’s damaged area. A technician from the Cinemateca Brasileira was among the volunteers (who operated outside of CB working hours). The event was the second flood that affected the photographer’s studio. Floods in the region are recurrent, so this brief report is a chronicle of a predestined tragedy.  

54. The work consisted of moving bags with piles of cans filled with dirty water, opening each can to check the material’s condition, determining the destination of the material, and organizing the collection on the shelves. At first, the cleaning and maintenance teams performed a task force with the technical team to drain the water, clean shelves, and help move bags of films, but before this work came to an end, these teams were drastically reduced in size.

55. The first of these news items related to the appointment of an actress as the Cinemateca’s director. This actress had played the role of Special Secretary of Culture for two months in the capital city of Brasília and wanted to return to São Paulo for personal reasons. However, no position was legally available for her to assume at the CBat that time, and she ultimately never came to work at the institution.

56. “Cinemateca Brasileira asks for help.”. Sept. 2020. At the time of this writing, the manifesto has received more than 28,500 signatories.

57. Cinemateca Viva, a group formed by the Vila Mariana Residents’ Association (the neighborhood where CB is at <http://www.cinematecaviva.com.br>; The Cinemateca Acesa group <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; and Cinemateca in Crise, created in 2013, with updates on the crisis of 2020: <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. Apaci since 2015 has been active and in contact with the CB board of directors to guarantee the execution of the institution’s work.

58. Cinemateca Brasileira workers. August 2020. https://twitter.com/trabalhadorescb.

59. Cinemateca Brasileira - Emergency Workers. August 2020: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca.

60. The crisis in the Cinemateca Brasileira - Urgent Solutions.August 2020. https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. 2020. Gabriela Queiroz, the Documentation and Research Center coordinator from 2014 to 2020, represented the institution.

61. Some examples: The claim that “all” of the Brazilian audiovisual heritage is housed at CB; the assertion that the institution could catch fire if its light and gas services were cut off for lack of payments (the nitrate deposits do not have any electrical circuit); and the use of the term ‘air-conditioned laboratories’ to designate‘ air-conditioned vaults’.

62. The handover of the keys included the presence of ostensibly armed agents of the Federal Police, summoned with the assumption that there could be resistance by agents of Acerp. Acerp handed over the keys, documents were signed, and the government carried out a technical visit. Even as a sideshow, it was the first time that police intimidation occurred at the Cinemateca. Acerp tried to obtain reimbursement of the amounts invested in the CB in 2019 and 2020, allegedly totaling R$ 14million [about USD 2.6 million].

63. Gramado Letter 2020. Available at: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado.

64. Generalizations are risky and can go wrong. After all, we have many producers who understand, praise, and invest in preservation efforts, especially following the 2020 crisis. If my words do not do justice to producers’ performance in favor of audiovisual heritage, then I will be happy to publish my mistake. But this text was fermented by the frustration of seeing the superb state of the audiovisual industry, with its happy hours, markets, deals, and enormous resources, while the mention of preservation investments generated tremors! The production industry’s greedy attitude relates to the neglect of the Brazilian audiovisual heritage and its preservationists.

65. Sources: FSA and CinematecaBrasileira websites. Published initially in The professional working in audiovisual preservation. Museology & Interdisciplinary. Vol. 8, nº 15, 2019. The chart was initially presented with the Brazilian currency (Real) and was converted to USD for this text. The exchange rate was from the last business day of each year. Original note with a correction: Cinemateca Brasileira is the only institution that receives materials in Legal Deposit and according to Laura Bezerra (2015), its budget represents almost the totality of investments in audiovisual preservation in Brazil during the cited period. In this way, I consider the chart to be a direct illustration of the gap between investments made in audiovisual production and in preservation”.The diagram proceeds only until 2017, since CB has not published any more report since that time. In 2019, under the newly elected government, FSA funding ceased.

66. Document SEI / ANCINE - 0413350 - CGFSA Resolution Nº 101- Approval of the 2017 Annual Investment Plan.October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANº 101 - approves PAI FSA 2017.pdf.

67. The non-refundable mechanism does not presuppose a return on financial profit, but offers other counterpart plans.

68. Document SEI / ANCINE - 0845324 - CGFSA RESOLUTION Nº155 - Approval of the 2018 Annual Investment Plan. October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANo. 155 - Annual Investment Plan 2018.pdf.

69. Resources made available for Actions and Programs - 2008to 2018. October 2020. https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. The full amount informed on this date was R$ 4,558,877,384.00.

70. According to Gomes (2020), most of the materials received in Legal Deposit is stored on external hard drives, which need continuous verification – “digital materials, therefore, require more constant checks and migrations, a need that the Cinemateca Brasileira cannot yet meet, both due to limitations in the number of employees and to financial limitations”. Part of the institution’s large magnetic video collection comes from the Legal Deposit. In general, from 2016 to 2020, no actions were taken to preserve the video and digital collections, only duplication of materials for access purposes. Considering the inaction, broadly and systematically, with the scope of the heritage conceived in digital, one cannot expect to overcome the(notoriously high) loss rates of the Brazilian audiovisual heritage –especially its first digital productions.

71. “ICAB and NETFLIX partner to create an EMERGENCY FUND to support the Brazilian creative community.” September 2020. http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html.

72. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. September 2020. https://www.newsweek.com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. / Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. September 2020. https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Much more money is invested in providing classic film as a streamable option in the US as it is in Brazil, especially Brazilian classics. In the US, the repertoire of old films is a niche explored by platforms such as The Criterion Channel and Mubi, among others.

73. A sensitive aspect for the distribution of older films is the issuance of the Brazilian Product Certificate (CPB), which requires documentation stating the rights holders for specific films. Historically, Brazilian film productions lacked proper documentation, and many companies were dissolved without the transfer of rights of their assets.

74. In the Brazilian context, where the first activity as a preservationist is to explain your role as a professional, Netflix documentaries that contain archival images as an important element of their narrative are often a good way to explain the importance of heritage preservation to many people.

75. 2016 Report: pages 55 and 56. Correction to the content: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) is color, not b&w – a Jaws spoof.

76. Here it is worth reflecting not only on the catalog’s excellence in terms of title availability and content navigability, but also the need to review technical specificities and the dimensions of the watermark logo filling part of the film image, an experience reported as frustrating for many site visitors.

77. Brazilian films considered lost or about to be lost. August 2020. http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm.

78. Proprietary technologies, obsolescence of file format, codec, software, hardware, metadata management, migration.

79. In addition to being catastrophic for fauna and flora, the devastation will directly affect the cultural heritage preservation field due to this field’s direct relationship with the climate, with issues such as larger variations in temperature and humidity taking on special importance. I am unaware of studies in Brazil on the climate crisis and its impact on the area of ​​heritage. From among discussions held in other countries, I would highlight the 2020 realization of the Orphan Film Symposium.

80. The artificial intelligence supercomputer of Westworld (2016,Jonathan Nolan), set in almost four decades in the future.

71. The symbol of misinformation is the science being discredited by social networks and messaging media (especially WhatsApp, a company acquired by Facebook), which makes the act of disseminating scientific information on containing the Covid-19 pandemic more difficult. Research carried out in twenty countries shows that Brazilians believe in their scientists the least among citizens of any country: Brazil with its back to science. September 2020. https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia.

80. Filmography Dictatorship Brazil. September 2020. http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html.

BIBLIOGRAPHY

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.

The Cinemateca Brasileira (CB, or “Brazilian Cinematheque”), the leading audiovisual heritage institution in Brazil, is going through its worst-ever crisis in 2020. As a result, its extensive collection and elaborate technological machinery are threatened, as well as the knowledge that permeates from both. At the beginning of the year, a flood occurred in the Cinemateca’s warehouse, drastically affecting part of the film and equipment collection stored there. Since August 2020, the collection and facilities are without proper technical support; and at this moment of writing, there is no news of an immediate resolution that meets the urgency. Inaction and neglect with the Cinemateca Brasileira are just two examples of the Brazilian government’s perversities, which additionally include the structural dismantling of the public health, education, and cultural systems,1 and the ecocide and genocide of the country’s native and black populations, the latter of which has been accelerated by the Covid-19 pandemic. The Cinemateca crisis took on unprecedented proportions in 2020, but its origin came earlier, going through the administrative and political turmoil of 2013 and a fire in early 2016. This article discusses the work carried out at the institution in mid-2016, the challenge of its continuity after the team’s reduction in 2017, the alleged solution with a new management model in 2018, and the 2020 hecatomb.2 This text also presents a few conjectures about the relationship between Brazil’s audiovisual heritage and its audiovisual production industry. The series of crises over the last 74 years, marked by the four fires and the flood, are the broad consequence of what Brasília-based museologist Fabiana Ferreira highlights in her thesis “A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas de preservação do acervo audiovisual no Brasil” (2020).3 She claims, “the only stable aspect in public policies for audiovisual preservation is its inconstancy. A succession of disagreements and disarticulations by the political agents responsible for the creation and implementation of policies without a real national governmental project that crosses mandates” (2020, p.109). According to Hernani Heffner, chief curator of the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro, this is not only the biggest crisis in the history of the Cinemateca Brasileira, but also the biggest crisis of Brazilian audiovisual heritage.4

Overview of the Last Two Decades

Brazil is a federal republic of continental dimensions – the fifth-largest in territorial extension. It has 26 states and a federal district. The country has undergone two re-democratization processes, the most recent in 1984 after the end of the military dictatorship. In the 21st century, Brazil has had economic growth, a reduction of social gaps, and extreme-poverty rates. Universities flourished and the audiovisual industry solidified through new federal policies and programs as a result of the investment policies of the Audiovisual Secretariat (SAv) / Ministry of Culture (MinC),5 and the Audiovisual Sector Fund (FSA).6 These investments allowed new professionals to emerge in the film production sector and the consolidation of new film production companies, which, in turn, supplied an increasing number of new films each year. Eventual municipal and state resources for film production were added to the federal ones. However, Laura Bezerra observes that while the government invested in decentralizing cultural production policies, the same did not happen with film preservation (2015). While there were substantial investments in the Cinemateca Brasileira during this period and after the inclusion of the CB in the SAv’s organizational chart, there were also few political discussions about the implementation of policies and actions for the field in a profound way.7 This is a problem that is fundamental for understanding the development of the current crisis. As Fabiana Ferreira diagnosed, “The Cinemateca does not act in the creation and implementation of preservation policies, either by conducting discussions and holding dialogues with the sector or by actively participating in political spaces at the federal level, such as the National Film Council, for example. There was also no structured dialogue with other memory management entities” (2020, p.108). The State’s insufficiency in their management of Brazilian heritage causes profound reverberations, especially affecting the audiovisual production industry which seems to not recognize preservation as a necessary element for their works. Still, the current Cinemateca Brasileira crisis has become yet another argument for the decentralization (and increase) of investments in audiovisual heritage nationwide.8 Brazil has many federal, state, municipal, and private heritage institutions that are not in the spotlight and that also demand urgent actions and resources.

Over the last few decades, there has been constant maturation in the field of audiovisual preservation. For example, the establishment of specific financing programs; the distribution of new publications; the creation and growth of the festival Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), where the National Meeting of Archives and Audiovisual Collections takes place;9  the formation of the Brazilian Association for Audiovisual Preservation (ABPA) and the elaboration of the National Plan for Audiovisual Preservation (PNPA).10  Also, there has been a growing number of Preservation-related events each year.

Cinemateca Brasileira – A Brief History

The Cinemateca Brasileira has had several administrative arrangements. It began as a civil society organization and later moved to the public sphere. Its long history includes many setbacks with some positive developments. The writer, essayist, critic, researcher, professor, and activist Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977) is the protagonist in the creation, defense, and management of the Cinemateca Brasileira. Paulo Emílio’s impact on the field of Brazilian Cinema is broader than his work on the Cinemateca itself. His work was fundamental in the valorization of Brazilian cinema, in its qualification as a historical document, in the defense of its preservation, and in creating university cinema courses. Paulo Emílio was also active in international politics as a regular member of the Executive Committee of the International Federation of Film Archives (FIAF) between 1948 and 1964, eventually becoming the organization’s vice president. He is also a renowned author in historiographic studies of cinema, with publications on the French director Jean Vigo and the Brazilian filmmaker Humberto Mauro, among others. As a teacher, he was vital in the formation of numerous important scholars, film critics, and preservationists, such as Carlos Augusto Calil, Carlos Roberto de Sousa, Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet, Maria Rita Galvão, and Olga Futemma – some of whom continued his work at the Cinemateca Brasileira.

In consideration of the many publications on the Cinemateca Brasileira in Portuguese and the limited English repertoire that exists in comparison, what follows here is a brief overview of the institution’s key historical moments. In 1940, intellectuals from São Paulo created the Clube de Cinema de São Paulo (São Paulo Film Club), which promoted the exhibition of films, conferences, debates, and publications before being closed in 1941 by the country’s then-reigning dictatorship government. In 1946, Paulo Emílio went to France to study at the Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC). He grew even closer to the Cinemathèque française, an institution founded in 1936 with which he had contact since living in Paris during the previous decade – the period when his passion for cinema awoke. The second São Paulo Film Club was created in 1946, and in addition to its previous activities, it began to develop the initiative of prospecting and preserving materials from Brazilian films. 1946 is therefore considered to be the milestone year of the Cinemateca’s creation. Paulo Emílio affiliated the Club to FIAF in 1948. In the following year, the Film Library was created, and then connected to the newly created Museum of Modern Art of São Paulo. In 1956, the archive was detached from the museum and became the Cinemateca Brasileira, a non-profit civil society. The Advisory Council was formed the same year.11 As a result of the self-combustion of a cellulose nitrate reel, the Cinemateca’s first fire occurred in the summer of 1957, which “completely destroyed the library, the photo library, the general archives, and the collection of devices for the future cinema museum, as well as one-third of the film collection” (Gomes, 1981, p. 75). The tragedy elicited support and donations from national and foreign entities, and the Cinemateca resultingly gained space in the largest urban park in São Paulo, Ibirapuera Park. In 1961, the Cinemateca became a non-profit foundation, an essential status for its autonomy and ability to raise public resources.

In the following year, a new non-profit civil entity called the Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC, Portuguese for “Society of Friends of the Cinematheque”) was created to assist the Cinemateca in its management of financial resources and to develop various activities to support the Institution. Initially, the Cinemateca mainly held film screenings, but from the 1970s onwards preservation became its axis partly due to the declining state of its collection. The late 1960s and mid-1970s formed a critical period for the institution, as it had few employees and much voluntary work. Unfortunately, the Cinemateca was unable to pay its annuity fees, and therefore it was disconnected from FIAF in 1963. The CB became an observer in 1979 and received its full FIAF membership again in 1984. The Cinemateca’s second fire occurred in the summer of 1969 for the same reason the previous fire was triggered, resulting in the significant loss of film-related materials. In 1977, the institution’s Laboratory was created with equipment from commercial film laboratories that had been deactivated. Paulo Emílio passed away from a heart attack that same year.

In 1980, an operations Center was opened in São Paulo’s Conceição Park for documentation and research work. The third fire occurred in the autumn of 1982. As a result, a move was made to incorporate the Cinemateca into the public sphere. In 1984, the CB Foundation was extinguished, and the Cinemateca was attached, as an autonomous organ, to the National Pro-Memory Foundation. In 1989, a cinema12 theater was rented to screen the archive’s collection in the busy neighborhood of Pinheiros, which significantly leveraged São Paulo’s cinema scene. By the end of the decade, the Cinemateca staff consisted of about 40 people (many of them former students of Paulo Emílio), 30 of whom were hired with formal contracts.

In 1990, the government extinguished the National Pro-Memory Foundation and the Cinemateca was incorporated into the Brazilian Cultural Heritage Institute (IBPC). This organization transformed into the (still-active) National Institute of Historic and Artistic Heritage (IPHAN) four years later. In 1997, the Cinemateca’s current facility was founded, a heritage site converted from a slaughterhouse after nine years of reformations. The definitive headquarters13 aggregates the conservation and screening departments that had previously been scattered throughout the city of São Paulo. This centralizing was a crucial element in the institution’s consolidation process after decades of scarce resources, precarious infrastructure, and oscillations in institutional dynamics.

In 2001, a vault with a proper climatization system was inaugurated with an initial capacity of one hundred thousand reels. In the same year, the Brazilian Cinematographic Census project began14 with funding from BR Distribuidora.15 The Brazilian Cinematographic Census project was an essential step for appraisal and basic conservation procedures in the collection,16 and the training of technicians. The project “was organized around four basic axes: the appraisal and examination of the existing collection, which was previously concentrated and dispersed; the duplication of reels threatened by deterioration; the dissemination of the work and its results; the study of legal measures for the protection of audiovisual heritage” (Souza, 2009, p.258). In 2003, upon resolving that IPHAN was not meeting the scope of its tasks, and after deliberation by the Council, the CB was attached to SAv/MinC. In the following years, the resources transferred by MinC gradually increased. In 2003, the CB implemented a short internship program for technicians from other institutions. From 2004 to 2006, the Prospecção e Memória (Prospecting and Memory) project followed the Census project, especially concerning the cataloguing of Brazilian movies compiled in the Cinemateca’s Filmografia Brasileira (Brazilian Filmography) database.17

In 2005, SAv created the Brazilian Audiovisual Information System (SiBIA) which was coordinated by the CB. It was “a program that aimed to establish a network that currently counts on more than 30 institutions that dedicate themselves, primarily or in subsidiary fashion, to the preservation of moving image collections throughout Brazil”.18 In 2006, the CB hosted the 62nd FIAF Congress, “The Future of Film Archives in a Digital Cinema World: Film Archives in Transition”. In that same year, on the institution’s 60th anniversary, Luiz Inácio Lula da Silva became the first (and only) president of Brazil to personally visit the CB, with representatives’ delegation. In 2006, the CB published the “Manual de Manuseio de Películas Cinematográficas” and the “Manual de Catalogação de Filmes” da instituição (Film Handling Manual and Cataloging Manual), which became a primary reference for other preservation institutions, as scarce technical publications existed in Portuguese at the time. In 2008, SAC became a Public Interest Civil Organization (OSCIP) and, since then, the transferring of resources to projects carried out at the Cinemateca has been massive. Under SAC management, SAv’s projects were carried out in an agile way, unlike the Ministry’s bureaucracy. At that time, many of SAv’s programs were achieved at the Cinemateca, such as “Programadora Brasil”.19 As of 2008, annual reports that described the archive’s operations throughout the year were published online,20 except for the following years: 2013, 2015, 2018, and 2019. As a result of the census, the lab preserved and restored numerous films and created new access materials. In 2009, the CB launched the DVD box set “Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema), with 27 early films accompanied by new soundtracks. In 2011, a secondary site was opened in the neighborhood of Vila Leopoldina21 to store films, documents, and equipment. In 2012, the first edition of the magazine Revista da Cinemateca Brasileira was published and in the following year, its second edition was published.22 In 2013, a political-administrative crisis was initiated, and the Cinemateca’s executive director was dismissed without due dialogue with the Council or appropriate measures taken for finding his replacement or formulating a transition plan. The Comptroller General of Brazil carried out several audits regarding SAv resources executed by SAC and the acquisition of collections by the government.23 At the end of the year, of the 124 employees that had been working before the crisis, just a few remained, including 22 public servants directly linked to the Ministry.24 From the 2014 Report, it is possible to verify that some of the institutional workflow continued. Below, I present data that reflect the interruption of work in 2014 (and 2015). This work stoppage would drastically affect the CB’s collection:25

In the summer of 2016, the Cinemateca’s fourth fire occurred, again due to a nitrate reel’s self-combustion. The loss was estimated at a total of 1003 reels of cellulose nitrate films referent to 731 titles. In addition to the discontinuation of the nitrate collection analysis after the 2013 crisis, technicians realized a few years later that someone had allocated new reels at the Cinemateca’s nitrate vault without the proper removal of the transport packaging. This could have been avoided if the technical team had been tasked with allocating and reallocating works within this film collection. This oversight potentially created conditions for a microclimate prone to self-combustion, and it could have been the second factor responsible for the fire. However, the first and most important factor for the fire will always be the government's neglect, given the lack of resources for the institution’s primary activities.

Cinemateca Brasileira –  2016 and 2017

The 2016 fire coincided with hiring 11 new technicians, an action made possible by a one-year contract signed between SAv/MinC and the Educational Communication of the Roquette Pinto Association (Acerp) at the end of 2015. Altogether, until the middle of the year, 42 technicians were hired, in addition to the 15 public servants directly linked to MinC. Third-party companies were contracted for essential services (maintenance, cleaning, security, and IT). Seven technicians were also hired for the flow of Legal Deposit,26 made possible by the Brazilian Film Agency (Ancine). The tone set by Cinemateca Brasileira director Olga Futemma27 in the 2016 Report is one of optimism and pride in meeting the goals established in the contract’s Work Plan, though there are due signs of the difficulties and challenges created from the discontinuity of work in the previous years in the report as well. A highlight of the work carried out as a result of the fire:

“Appraisal and reporting the losses […]; examination, separation by technical deterioration [...] for lab processing; provisional allocation of the remaining 3,000 nitrate reels; creation of a project, for the burnt vault, for fire prevention devices [...]; basic renovation of the vault, carried out by the Cinemateca’s team, for the return of the collection [...]; technical disposal of fire residues”.

Despite the disaster, MinC did not provide resources for preventing further fires.28 Another challenge explained by Futemma was the situation of the Laboratory, which had undergone a work stoppage. “The scenario was heartbreaking”, she claimed. To stress its importance: The Laboratory at the Cinemateca Brasileira is the most complete (and possibly last) of the photochemical labs in South America. It has the ability to process film-to-film, including 35mm and 16mm, b&w of all materials and color prints. The Lab can process smaller gauge film formats such as 8mm, 9.5mm, and 16mm film as well. In addition to its capacity to specifically work with film, the Lab also contains a wealth of digital equipment. These include the ability to scan 35mm film-to-digital (HD, 2K, 4K, 6K) and the ability to print digital back-to-film, such as printing digital to 35mm film. The Lab can scan several video formats to digital, including U-Matic, Betacam SP, Digital Betacam, DVCam, and others. It also has the capacity to conduct digital image and sound manipulation, including color correction and restoration. The machinery has even been outfitted over the years to process materials with advanced deterioration.29 However, due to the lack of staff over previous years and the resulting lack of maintenance and parts, it became impossible to resume some of these workflows.

The Cinemateca’s current audiovisual collection comprises about 250 thousand nitrate, acetate, and polyester film reels, in addition to a large gathering of magnetic tapes and reels, and approximately 800 terabytes of digital data – mainly comprised of digitized materials from the collection and Legal Deposit materials. The film-related collection comprises about one million documents, such as posters, photographs, drawings, books, scripts, periodicals, censorship certificates, press materials, and documents from personal and institutional archives.30 There is also a non-cataloged equipment collection. In recent times, the institution’s resources and activities were divided among the following departments: Film Preservation, Documentation and Research Center, Access – Programming31 and Events, Administration, Maintenance and IT.

In the Film Preservation sector, several task flows were executed throughout 2016: monitoring of the climate control of the deposits, movement of materials according to their physical state of deterioration, documentation review, applicant services, and emergency duplication of materials (which will be discussed more later on). A significant element of our workflow was to document mandatory preservation actions in a collective fashion, a task for which the Cinemateca lacked sufficient resources. After months of corrective maintenance and evaluation of lab chemicals and raw film stock, the processing of deteriorated film materials began: per the 2016 report, “the selection was made by considering the technical conditions of the materials, [with an investment of] less time and resources in the complementary actions of a single work so that it would be possible to make feasible actions, although incomplete, in a wider number of materials”.32

Due to goals established in the Work Plan and the limited available time and staff in 2016, the selection of films for processing in the Lab was only carried out by one technician. However, the ideal context would be one in which there were institutional debates and discussions about the film selection process. Attention was taken not to select consecrated narrative feature films,33 but instead, to cover “material from fiction films, documentaries, newsreels, domestic films, and scientific films… without subjective evaluation of the content of the works or any curatorship” (2016 Report). The selection prioritized the state of deterioration of the materials and not their content. An aspect of this workflow worth being critical of is that many worthy films were not being selected, which possibly further increased their ostracism. Throughout the analysis process, some materials were evaluated as not processable. Since these films were considered unique, if they were not processed and restored, it would represent the death of the images and sounds they contain. Countless materials so deteriorated that they did not meet the conditions for a complete duplication. Also, newly generated materials often contained photographic marks of deterioration that were existent in the material prior to them. During this workflow, the film stock purchased in previous years was used. However, a few years later, the archive ran out of raw film stock for its workflow.

The eventual losses of films and the specificities of processing them raised awareness around the need to create a standardized methodology for evaluating and documenting films. Because every film is its own unique material, this standardized methodology could help guide preservation and access actions. The “preservation status” was thus created, and this categorization was integrated into the film’s internal documentation and incorporated into communications with the rights holders. This documentation would include the categorization of the preservation status, like “partially preserved” and “partially lost”, with recommendations such as lab processing or research for new materials.34 Since these categories would frequently vary throughout the year as the materials’ physical conditions could change, the original date that a film’s status was proclaimed was as important as the actual status itself.

The database solution used at the Cinemateca Brasileira was WinIsis,35 which is a poor tool for complex data analysis. Several workflows – analysis, outflow of materials, and creation of new materials – required constant updating of the audiovisual database, which was interrupted because of the institution’s broad structural problems. In parallel, the open-source and Web-based project Trac36 was purposed and standardized for internal documentation workflow on the intranet. Trac was basically a Wiki documentation and ticket system. According to the 2017 Report, this intranet “makes it possible to maintain information horizontally among sectors, collaboration in the construction of documentation, the continuity, and organization of information on the same platform, […] used to document different internal procedures; norms and instructions for internal documentation; reports and texts related to the institution; information related to external requests and data of materials analyzed and processed”. The effort to keep internal documentation accessible, horizontal, and transparent, consistent with a memory institution’s role, did not comprise communications with Acerp and the projects sent to the Ministries. An essential element for those years was the investment in technological development, as documented in the 2017 report, which allowed the analysis of information from the database in a dynamic way and the research for solutions to foster the institution’s autonomy.

The ClimaCB project is worth mentioning, as it allowed for the online monitoring of climate control. It is a combination of open-source software and hardware that would list which guidelines and codes would be available in Git for free use. Unfortunately, the project was not published. Considering the potential cardinal role of the CB within the scope of Brazilian audiovisual heritage, it is clear that participation in technical discussions and the publication of proposals and technological solutions are both wanted and needed.

During the two years under the Service Contract, Olga Futemma held meetings with the technical staff to share news, impressions, and strategies. The meetings reinforced the notion of the team’s proportion and strength and served as an injection of spirit. Another positive development that brought the preservation team together was the Cinemateca’s new website, as the previous site had had obsolete navigation and tools. A moment of heightened visibility came when a short video made by the technical team showing the history of the institution’s logo dating back to 1954 became widely shared on the internet.37

The staff in the Film Preservation department was balanced between former technicians who ensured the continuation of workflows and new technicians who provided fresh evaluations for the workflows. The difficulties in creating interpersonal relationships during previous years and feelings of insecurity over the 2013 crisis were negative aspects that we avoided discussing within the workspace.

2016 was marked by the autonomy and intense communication of the technical team, but also by setbacks. In May, MinC published a public tender for electing a Social Organization (SO) to undertake the CB’s management. This was still during the Presidency of Dilma Rousseff. Shortly afterward, a misogynist coup occurred – by dint of the process of impeachment which eventually led to Rousseff’s ousting and the taking of power by her former vice president. Shortly after he took office, he tried to end MinC, but reversed this position in response to intense popular pressure. The new Minister of Culture canceled the public tender for electing a Social Organization for the Cinemateca Brasileira, and it was released months later with changes.

July 2016 brought one more surprise: after a restructuring of MinC, five positions at the Cinemateca were eliminated. At the time, these positions were occupied by the director and experienced technicians. A new director would be indicated by the Ministry, without the necessary expertise and without the Council’s participation, a move considered to be unprecedented at the time. Audiovisual associations issued letters against this announcement and the Council issued a manifesto38 in favor of revoking the layoffs and proposing a partnering with the Brazilian Museum Institute (IBRAM). The stance eventually led to the reversing of the dismissals and a rehiring of the director and technicians.

In the following months, the CB and SAv/MinC jointly sought to prevent a gap between the expiration of the Service Contract with Acerp, which would end in December, and the new management determined by the selected SO after the public tender. A solution was finally found a day before the contract’s expiration – an extension until April 2017. But, “as the residual value is not enough to remunerate for four months all technicians previously hired, it was necessary to reduce the staff (by about 75%) and, as a consequence, workflows”, according to that year’s report. The year ended with mixed enthusiasm for the future of the CB. While there was Paulo Emílio’s centenary celebration, which included the launch of a series-specific website,39 courses for the general public and publications devoted to Paulo Emílio’s work, there was also discouragement for the downsizing of the Cinemateca’s team, as the staff would not be the same size again until June 2017. The impact on the CB of the substantial reduction in technicians is evident, as can be observed in this 2016 and 2017 lab processing chart which reflects the amount of processed material:

In May 2018, the contract with the SO for the CB’s management was signed, followed by a ceremony attended by the then-Minister of Culture, who claimed that “the crisis is over” thanks to the new management model. Acerp, which managed the CB via a Service Contract that began in 2016, was the SO selected in the public tender. In the case of the Cinemateca Brasileira, this legal indenture would contribute to the current crisis. It was not legally possible for Acerp to directly sign a contract with the Ministry of Culture (to which the Cinemateca was linked) due to its preexisting contract with the Ministry of Education (MEC). Thus, the management of the Cinemateca was officially fulfilled by an amendment to the main contract.40

After the contract’s signing, Acerp appointed a new director without the deliberation of the Council, which was then ostracized from further organizational discussions. Acerp’s first action that had a substantial impact on the dynamics of the institution’s technical team was creating a new customer service department, installed for meeting the growing number of outside requests, especially requests for access to the Cinemateca’s audiovisual collection. The other sectors’ services and fulfilling access requests never stopped; the main bottleneck was providing access to the audiovisual collection. Every collection request was in theory recorded, answered, and eventually met in the order of their arrival, the possibility of completing the request, and the processing time to complete it. Despite this protocol established by the team, a sign of the CB’s subjugation would be the intensification of projects becoming prioritized over others, as determined by the Minister or the board of Acerp. This non-conformity with the institution’s protocols generated personal discomfort among the preservation team.

For the Film Preservation department workers, the new customer service meant there would be no more contact with researchers and producers, who were used to the greater agility in meeting their requests that the larger staff provided before 2013 and were frustrated by the reduced team’s limited response. Besides, the dialogue with producers and researchers about their practices showed a lack of understanding of preservation’s importance. Furthermore, this dialogue proved to be shortsighted from a market perspective when accessing materials held in the CB for digitization without proper processing.41 Another indication of incomprehension and disrespect for the preservation team was that the agreed upon financial compensation that the institution was expecting never arrived. This matter was elegantly noted by Olga Futemma, who stated in the 2016 Report: “some of the bad situations we faced were due to: tight deadlines; the total disregard of the need for compensation – not in monetary terms, since the Cinemateca cannot charge [for admissions, loans, or services at the time], but in actions that should have been foreseen in its projects and that would allow expanding the collection [...]; the misunderstanding that unique (preservation) materials should not leave the collection without supervision […]”. She added that “it is necessary, therefore, to continue to make efforts to change the conception of the public good as something that can be freely available for the achievement of private projects, and for the understanding of the need, still in the elaboration phase, to consult with the Cinemateca on the feasibility of the project in concerning the intended materials and the deadlines necessary for their availability. These are two necessary conditions for planning whose meeting benefit both the requester and the collection”.

In September 2018, former members of the Board issued an Extrajudicial Notification to MinC, requesting the “revocation of acts […] and rules that violate the technical, administrative and financial autonomy ensured in the deed of incorporation of the Cinemateca Brasileira Foundation […], in addition to: 1) The constitution of a new advisory council in compliance with the necessary autonomy of the body; […] 3) Return of the Cinemateca Brasileira to the structure of IPHAN”. The notification also mentions the “SAv’s omission in the face of the [2016] fire […], and that the Cinemateca Brasileira is no longer part of the structure of the Ministry of Culture and has not earned any public positions”.

Cinemateca Brasileira’s Management by the Social Organization

At the time of the Cinemateca Brasileira’s consolidation in the first decade of this century, maintaining its technical staff was a constant challenge. The technicians were hired for projects with specific durations via different forms of hiring.42 This dynamic created fragility and instability in workflows and compromised strategies and structural solutions, in addition to leaving the technical team in vulnerable positions.43 The SO management model would be the desired solution to enable the stabilizing of the technical team’s employment statuses after years of scarcity. Futemma evidenced this hope in an e-mail sent to the ABPA listserv: “This discussion [of the SO management model] has been taking place for eight years, involving MinC, SAv, the Council and the Cinemateca team. We have great expectations that, by the end of this year, a new management model will allow the Cinemateca Brasileira to exercise its full potential in favor of Brazilian audiovisual heritage”.44

The SO management model was the solution deliberated upon after a period of instability among the Cinemateca’s technical staff. It came with the possible preference of a SO created especially for the management of the CB, Pró-Cinemateca, built in 2014 by members of the Council and SAC with the sole purpose of managing the Cinemateca. It would potentially have the participation of professionals from the field in the construction of a Work Plan – the core document for the management itself and one of the selection criteria in the public tender. Pró-Cinemateca qualified for the first tender call, but it could not advance in the second tender call due to a new requirement for previous experience of the institution in the management of public resources. The Pró-Cinemateca itself had no experience, as it had only been created recently. Still, its representatives had spent many years at the Cinemateca’s Council, which, in practice, could have been argued as a more relevant credential than the company’s management history.

Today, following the emergence of controversies surrounding the management of other public entities, cases of corruption, and a series of publications made in the Academy and on the internet, the SO management model is widely questioned.45 It has been shown to be particularly risky for cultural heritage institutions with insufficient government funds, contexts in which essential conservation workflows (often costly and of low visibility) can be overshadowed for the benefit of actions with greater visibility. The elaboration of a work plan without the technical team’s effective participation can compromise its primary objectives. As diagnosed by Fabiana Ferreira:

“Another problem with this tenure is, claiming people are free to raise funds through means other than the State ignores that they also end up at the mercy of the State. Because, in Brazil, there is no tradition of private institutions supporting culture. The private sector in Brazil does not support cultural initiatives. Traditionally, millionaire families and Brazilian corporations do not make donations or investments in cultural equipment, even less for those who do not give visibility to the brand”. (2020, p.110)

In the CB’s case, the management by the SO enabled the CLT (Consolidation of Labor Laws)46 hiring of a good part of the team, whose choice, fortunately, fell to the institution’s coordinators without the intervention of Acerp. However, the technical staff gradually became conditioned to the Acerp guidelines. This conditioning was evident during internal meetings, where it was no longer possible to play an active role in collection prospection47 or to speak on behalf of the institution without Acerp’s consent. Signs of change were perceived in the team’s modes of social interaction in a dystopian way. For example, a camera network to oversee the collection and equipment was installed by Acerp and covered spaces previously used during work breaks. This modern panoptic lookout generated discomfort among us.

Internal courses on technical subjects or on workflows and activities between sectors, which had been held regularly since 2017, were suspended. Fundraising for the Cinemateca was among the actions sought by Acerp, and the usages of the collection and facilities proved to be a quick means to this end, thus generating long periods with a constant flow of production of major events that held varied themes, sometimes apart from the cultural and audiovisual spheres. Since Acerp did not issue the 2018 and 2019 Reports, access to information about these events is not possible to obtain. The absence of the publication of annual Reports is a dangerous indication of the failure of the SO model for the Cinemateca, as they have been essential documents for accountability and transparency of the institution’s management. During the SO period, Acerp issued reports for the Ministry on the performance of Work Plan goals. However, these documents are quite technical and not very informative, in addition to being inaccessible today to the general public. Acerp proposed a Code of Ethics and Conduct for CB employees, presented at an event on company compliance – the sole enunciation of religious beliefs48 was a significant demonstration of the distance between Acerp and the CB’s institutional mission.49 Plus, Acerp’s inability to clear bureaucracies for equipment acquisition for the Lab was evident, which affected work plans that were reliant upon such equipment’s availability. Requests for access to the audiovisual collection by TV Escola for use in their programming became routine, while Acerp meanwhile ignored some work-related needs pointed out by the technical staff. Film programming proposals were negatively impacted by the presence of Acerp. After all, how does one present the idea of ​​a Fassbinder series to a board that made homophobic jokes during small talk before meetings?

The late self-cancellation of CryptoRave’s50 2019 edition by the Cinemateca team for fear of reprisal was symptomatic. An undeniable symbol of the occupation by Acerp was the creation of a new institutional website without the active participation of the CB’s technical staff in editorial decisions. As an example of this fiasco, Acerp implemented a new website without the previous dynamic calendar tool. Resultingly, the new website has a more updated design but is less functional than the previous site had been. Also, Acerp immediately implemented an intermediate logo (‘cinemateca brasileira’ in white on a red background), replacing the 1954 logo which was created by the celebrated designer Alexandre Wollner. Acerp commissioned a new logo design that was presented to the technical staff, and allowed us no time to deliberate as to whether or not we approved of it. The fresh concept and layout were surprisingly similar to the logo of the Curta Cinema - International Short Film Festival in Rio de Janeiro. Acerp is in fact headquartered in Rio de Janeiro and the Cinemateca Brasileira in São Paulo,51 which produced another convoluted aspect: the expenses of transportation, accommodation, and meal tickets for directors, managers, and legal consultants between the two cities, which altogether sum up to a considerable amount. Rather than spend this money on transportation, it could have been invested in the CB itself.

An unquestionable symbol of the SO management model’s failure for the Cinemateca was the dissolution of the Council, constituted of representatives of the government and civil society. The CB’s 1984 legal document of incorporation to the federal government determined the existence of the Council. Acerp, acting without the Council’s input, appointed several directors who had no experience in heritage or preservation fields. This appointment further alienated the technical team who worked to manage the CB. In addition to all of this, the Cinemateca – a historically non-partisan institution – became, through Acerp, the destination of people linked with the extreme right-wing political party of the acting Brazilian president. These people assumed various administrative and communicative positions at the institution without any proven expertise. The newcomers would frequently present the institution’s vaults to visitors without a technician’s due presence, further undermining conservation efforts. The presence of military personnel at the Cinemateca52 and their failed attempt to organize a military film series gained broad reverberations. During the first two years of Acerp’s management (2016-2018), the technical team was autonomous and in control of projects. However, there was a major loss of autonomy in the SO management model from 2018 onwards.

The administrative limbo of ten public servants who were allocated to the institution found themselves in is another important matter. Since the beginning of the SO management, when the CB ceased to have administrative backing under the former SAv/MinC, these people had remained in their positions. Some of them had served at the institution for more than three decades. Before the SO amendment was signed, they were guaranteed that they would not receive losses in their salaries and benefits. However, after the amendment was signed, the governmental understanding changed, and their assignment to Acerp was never made official. Despite this situation, the Ministry instructed these workers to continue with their activities at the Cinemateca. After a year and a half of neglect and contradictory messages, they had to abruptly abandon their functions at the CB to work at the Southeast Ministry’s Regional Office in São Paulo without any infrastructure to welcome them. In addition to this sudden displacement, they were forced to acquiesce to a legal process based on the necessity of returning a bonus earned during the period that they had worked at the CB under the SO administration – a bonus which represented a significant part of their salaries.

Although Acerp assumed the institutional relations more broadly, the Cinemateca’s relationship with FIAF continued to be maintained by Olga Futemma and fellow coordinators, who issued thorough annual reports to FIAF and the prompt inspection of information requested by affiliates. However, between 2016 and 2019, neither Futemma or the coordinators represented the CB at the FIAF congresses held in Bologna, Los Angeles, Prague, or Lausanne.

2020 Crisis

In February 2020, the CB’s off-site facility in Vila Leopoldina was badly affected by a flood from heavy rains and lack of proper management of the storm sewer, combined with the intense pollution of the Pinheiros River, less than half a mile away. The sewage water reached more than a meter in height and destroyed a part of the film and equipment collection, including the last surviving materials of some narrative short and feature-length films, as well as many unique elements of newsreels, advertising materials, and trailers. The Documentation and Research Center assessed the damage such that it was not considered to be significant, since the majority of what had been destroyed was duplicated material. The flood damaged shed facilities and equipment. After thoroughgoing sanitation of the facility by the cleaning team, a part of the technical staff was deployed to clean, organize, and rescue the affected materials. Acerp or SAv did not carry out an emergency plan for the urgent assessment and processing of the site’s audiovisual and equipment collections (which had been the most affected by the flooding), such as hiring an extra technical team temporarily or even granting permission for the obtaining of volunteer work.53 The catastrophe was not immediately reported due to the lack of coordination between SAv and Acerp, and the technical team was not permitted to make news of the flood available to the public. The small team established different shifts in consideration of the high toxicity of the environment and the exhaustive work involved, with their efforts made all the more difficult by the warehouse’s high temperatures without air conditioning and local ventilation.54 Film materials were selected and transferred to the main headquarters for evaluation and processing in the Lab, but the raw film stock was running low. The damage of the audiovisual and equipment collections in the facility, the inaction of SAv and Acerp, the crisis which would subsequently occur, and the interruption of the rescue and research work ultimately makes this flood equivalent in nature to a catastrophe like the Cinemateca’s fires. Per Fabiana Ferreira, such disasters “are a metaphor for the fragility of the making of an audiovisual preservation policy that goes up in flames with each change of Government, of the creation of entities, of new agents” (2020, p.23).

Since the 2013 crisis, the Ministry’s funds have fallen short, which has resulted in smaller teams than were anticipated for the work plans. At the end of 2019, there was yet another crisis, when the then-Minister of Education (MEC) decided not to continue the TV Escola project – the main object of Acerp’s contract with MEC – and did not renew the SO Contract with Acerp. Once the MEC’s main contract was extinguished, all other agreements were also terminated. This is despite the CB-specific amendment ostensibly being valid until 2021. As a result of this termination, the administration of the CB was left adrift. Acerp spent a few months trying to circumvent the decision and to obtain funds from SAv, the Special Secretariat for Culture, and the Ministry of Tourism, but without success. The year 2020 was filled with absurd news of government decisions involving the CB, causing commotion in the filmmaking community and becoming widely covered on media outlets and social networks.55 In April, Acerp stopped paying outsourced companies and technical staff. Former members of the Council launched a manifesto in May.56

The Federal Prosecution Service initiated civil legal action against the Brazilian federal government in the interest of compelling an emergency renewal of the contract with Acerp. By the end of October 2020, the understanding has been a settled situation involving contracting essential services such as security personnel and firefighters. However, the action is still in progress, and the expectation exists for a new decision that will be favorable to the CB. Resistance and protest networks have been formed and strengthened, diffusely, with multiple participants who have narrowed their communication efforts over time: Cinemateca Viva, Cinemateca Acesa, and representatives of the São Paulo Association of Filmmakers (Apaci) - SOS Cinemateca.57 These groups have been active in performing demonstrations on behalf of the Cinemateca and building connections with municipal and federal government representatives. During this time, the CB’s spokesperson has not been the manager or the coordinators, but rather a diffuse representation of employees.58

The technical team continued to work remotely (when possible) soon after the COVID-19 pandemic began and went on strike in June with the Union’s practical assistance. A campaign was then initiated by CB workers to raise funds for colleagues who were left in the most vulnerable situation due to the lack of payed salaries right during the outbreak of the COVID-19 pandemic. The campaign received numerous contributions from individuals and institutions around the world.59 Direct donations were made directly to the CB, such as one from a Brazilian director who donated a sum for repairing a generator and wished to keep his contribution anonymous. In July, a debate was held in the Chamber of Deputies60 with the presence of government representatives and different players in the audiovisual industry and a number of other civil society members. The discussion served as a symbol of the unprecedented repercussion and engagement around the Cinemateca. In a way, it also highlighted the need for preservationists to ensure that the language and information spoken about the CB was factually accurate.61

There were few instances of direct communication between Acerp’s board of directors and the CB technical staff, and the coordinators were sharing news related to the institution in a sporadic fashion. In June, Acerp’s directors issued an undated statement (undated!) expressing solidarity on “difficulties that everyone is going through,” claiming, “do know that we are doing ... everything that is within our reach”. The statement included the commitment that “as soon as we receive funds from the Federal Government, the first step will be to pay salaries and termination packages” – even though it had already been made explicit that there would be no funds transferred by the government. Considering the lack of resources in 2020 for the Cinemateca, the flood, the crisis arising from the Covid-19 pandemic, remote work, and the suspension of wages and benefits, this statement symbolizes the neglect and disrespect that Acerp showed the CB staff. After handing over the Cinemateca’s keys to the Ministry on August 7,62 Acerp unsurprisingly and abruptly fired all of its and the Cinemateca’s employees without arrears and severance pay.

As noted in the 2020 Gramado Letter (published just after the annual Gramado Film Festival), “after countless phone calls, messages, consultations between the parties and postponements, basic and emergency water and electricity services were guaranteed […]; cleaning services were contracted, although the company is not specialized; maintenance services for climatization equipment were contracted, although the company does not offer the necessary expertise; a small fire brigade composed of two employees and a property surveillance company were hired. However, specialized employees’ primordial work is lacking among the emergency needs, without which the collection will not be preserved, even with the resumption of the basic services described above”.63 Without technical monitoring, the smallest of incidents in the collection areas can hold drastic and irreversible consequences. This is the first time in the history of the Cinemateca that any of its technical staff members have been restricted from entering the institution.

Together with the news of the handover of the Cinemateca’s keys to the Ministry of Tourism, it was made clear that a new SO public tender announcement would soon be launched. This announcement has not yet occurred. There is a budget forecast of R$ 12.5 million [about USD 2.3 million] for the Cinemateca in 2020. If not used this year, this value cannot be added to the sparse R$4 million [about USD 720 thousand] foreseen for 2021. São Paulo councilors from different political parties organized a parliamentary amendments fund for the Cinemateca, with support from Spcine, the predominant audiovisual agency in the city of São Paulo. The deploying of municipal resources towards a federal institution requires an unprecedented legal articulation, which is being made by SAC for the emergency hiring of a small technical body. Today, civil society groups are still active, with an attempt underway to activate entities and continue the mobilization.

It is imperative to create an immediate solution to make a technical team viable in 2020 so that the Cinemateca’s collection does not remain unaccompanied. Furthermore, mechanisms are needed for the continuance of middle and long-term management, in a resilient and sustainable manner that can prove consistent with the need for constant maintenance of the collection and continuance of the technical team. It is considered fundamental to open and create calls for civil service examinations for job positions that could confer the desired stability. As diagnosed in the 2020 Ouro Preto Letter:

“Preservation of cultural heritage is a constitutional duty of the Brazilian State and, therefore, it is necessary to recover the role of the public power in the management of audiovisual heritage institutions, resuming the processes of opening public tenders for job positions and implementing management plans designed together with civil society, a directive provided for in the 1980 UNESCO Recommendation for the Safeguarding and Preservation of Moving Images

An idea that has appeared throughout numerous online discussions is the return of CB to a federal government heritage institution such as IBRAM or IPHAN, to which the CB was linked until 2003, when it became the responsibility of SAv. This link to IPHAN provided continuity for the CB in the early 1990s when the federal government promoted the dismantling of cinema and institutional policies. IBRAM is an autonomous organization linked to the Ministry of Tourism, which covers thirty national museums.

Legal Deposit and the Audiovisual Industry

Despite the unquestionable duty of the State (and its evident neglect), I emphasize that interest and concern about an effective preservation policy must be seen as relevant by all sections of the audiovisual industry. We must challenge the generally held assumption that the “symbolic asset of memory is inferior to the symbolic asset of a feature film shown in shopping mall cinema venues” (Ferreira, 2020, p.111). This value was built, for decades, by the industry itself. It is possible that the FSA’s prosperity (and the increase in investments in development, production, distribution, and exhibition), together with the inaction of the audiovisual industry concerning preservation, are directly related to the dimension of the current Brazilian audiovisual heritage crisis. ABPA has repeatedly pleaded for seats on the Superior Council of Cinema and on the FSA Fund Committee, without success. In the 2018 CineOP debate “Frontiers between Industry, Market, and Archives – Content, Promotion and Regulation”, a representative of the FSA Fund Committee suggested for preservationists to search for a different financing source for preservation, distinct from the FSA. When a professional raises such a possibility (and his attitude is common among producers), he does so without understanding the importance of preservation for the entire industry, nor his role in defending the Cinemateca and audiovisual heritage policies. Let this defense be made from the personalized perspective, considering that some of his assets may be held at the Cinemateca: footage for his next film as a producer, the origins of his debut feature, or his family’s home movies. The Cinemateca’s activities in discussions, publications, forums, and technology research could also benefit him in other ways. As Paulo Emílio wrote, “You can’t make good cinema without a cinematographic culture, and a living culture simultaneously requires knowledge of the past, an understanding of the present, and a perspective for the future. Those who confuse the action of cinematheques with nostalgia are mistaken” (1982, p.96). The production industry grumbled64 when debating the need for investments to deal with the giant backlog of audiovisual works which need to be preserved in order to serve the production industry. Such preservation benefits this industry as they are then able to commercially utilize the collections. The business model does not close until we have a massive investment to deal with decades of setbacks and stagnation. I grumble back with this chart:65

In April 2017, the FSA’s 2017 Annual Investment Plan66 comprised R$ 10.5 million [about USD 1.9 million] for the Cinemateca Brasileira. This announced value for the CB was equivalent to 1.4% of the total announced in the document. The amount was never paid, with the justification that the non-refundable funds67 ran out. In May 2018, the FSA 2018 Annual Investment Plan68 appointed R$ 23.375 million [about USD 4.1 million] for investments in Preservation. In December of that year, SAv published a tender for Restoration and Digitization of Audiovisual Content. These were funds that allegedly held a return on investments made by audiovisual companies in restoration or digitization. A preservationist workgroup and CB technicians aided in construction of the document and the digitization and restoration technical guidelines. From the preservationist’s perspective, the tender was intended only for producers with a distribution bias and held the preservation aspect as secondary. The current government suspended the tender about four months after its publication. Therefore, out of a possible sum totaling over R$ 4.5 billion69 [about USD 801 million], no FSA funds whatsoever were actually invested in preservation between 2008 and 2018.

Currently, the Cinemateca Brasileira is the onlyx institution nominated to accept Legal Deposit materials. Since 2016, Ancine has invested no more than R$ 2 million [about USD 356 thousand] in hiring a technical team to analyze materials. New technicians must be hired specially for this, as the Legal Deposit workflow mobilizes several sectors and technicians. Over the years, the CB reported a high failure rate of materials analyzed. According to Gomes (2020), “one of the main causes seems to be the great distance and little information from directors/producers about, in a broad way, the role of an audiovisual archive, and more specifically, the principles of the Legal Deposit”. The expertise in analysis of materials without funds for preserving the Legal Deposit collection can be metaphorically considered through the gesture of slashing one’s own throat. The analyzed materials are left inert on shelves in an air-conditioned vault at the mercy of the famous “silent death”.70 The industry must take part in actions towards the improvement of approval rates and creating conditions for preserving digital-born materials within the scope of the Legal Deposit. Broadly, the narrative and the struggle for policies related to audiovisual heritage must also be formulated and driven from within the industry.

The panorama of the Cinemateca presented in the 2020 Gramado Letter is very significant, with several associations listed as signatories, including other film archives, professional TV networks, and audiovisual companies. A positive sign was a discussion about the crisis during the ABC Week of 2020 (organized by the Brazilian Cinematography Association [ABC]), which is considered to be one of Brazil’s most significant events devoted to audiovisual production. But we still need tremendous action to get closer towards recognizing that this crisis at the Cinemateca Brasileira must remain a concern for the entire industry.

The 2020 Ouro Preto Letter highlights, among many urgent matters, the implementation of a national policy for the area of cultural preservation. The letter outlines some of challenges which will be faced, such as “to claim the creation of mechanisms, to expand the offerings of Brazilian audiovisual works in the catalogs of streaming platforms, with the guarantee of inclusion of works from different periods that can allow access to the vast Brazilian audiovisual heritage”. What would be the suggestion proposed by Netflix (used here as a platform model), for example, regarding the need for investment in Brazilian audiovisual heritage? Such an investment would only provide an opportunity for company-improvement, made viable by Netflix’s presence among the 12 companies that profited most during the current pandemic.The proposal is not so absurd, considering that the company’s Brazilian wing created a R$ 5 million [about USD 891 thousand] emergency fund for the Brazilian audiovisual industry due to the recess in the context of the Covid-19 pandemic.71 The availability of older works on streaming platforms is also a point of concern in the United States.72 In general, Brazilian producers do not have resources for digitizing older titles in ways capable of meeting the platform’s technical parameters and, need to potentially spend whatever resources they do have on lawyers who can help them with rights clearances.73 So, how about the platform launches an investment line for non-contemporary works? This idea would be contemplated by the 2018 SAv/MinC/FSA tender for “Restoration and Digitization of Audiovisual Content”, suspended in 2019. The strength of the audiovisual heritage institutions also would benefit the streaming platforms themselves in the middle term, considering the strong contemporary trend of documentaries based in archival images.74 As an illustration, there is a significant number of U.S. documentaries available on Netflix Brasil that use archival images to build their narratives such as Wild Wild Country (2018), Disclosure (2020), the documentary series Remastered (2018), and Explained (2018). However, there are comparatively few Brazilian films and series that feature archival images to this extent, one exception being Thiago Mattar’s Taking Iacanga (2019).

In addition to the CB Lab’s conservation of its collection, I call attention to the confection of new film prints and digital copies, such as those pertaining to the collection Classics and Rarities of Brazilian Cinema, (which was founded in 2007 and underwent its fourth edition in 2016) and those made in celebration of the annual International Day of Audiovisual Heritage. As a means of registration, I highlight the 35mm and digital prints made in 2016, as contained in the Report.75

Creating new 35 mm prints is one of the crucial roles of a film archive with a photochemical lab, as it is vital to provide an experience in line with the original screening format of a film. Considering how digital exists for the sake of broader circulation, digital access files are made in different formats. In the context of the CB, the effort to digitize films made on film would be carried out more fully with some form of pre-established screening event, ideally with formal curatorship and due contextualization for the works. Currently, the clearest path to digital diffusion of CB assets comes via the institution’s own online Cultural Content Bank (BCC).76

Rafael de Luna Freire’s Cinelimite article "Ten Brazilian Films that Remain in the Shadows due to Poor Accessibility" discussed digital inaccessibility for a combination of canonical titles and rarities throughout the history of Brazilian cinema. In addition to creating effective digital access actions, it is crucial to assess whether original film materials exist beyond imminent risk or whether they in fact require urgent preservation or duplication measures. Rafael de Luna’s list evoked the text “Brazilian films considered lost (or about to be lost)”, published in 2001 in the now-extinct Web magazine Contracampo.77

Differently, the 2001 list was about the existence or loss of preservation materials. In addition to some titles that were eventually lost, others had their (known) unique materials deteriorated to the point of making lab processing unfeasible. In light of the Cinemateca Brasileira crises and the paralysis of research work, preservation actions, and laboratory processing, the act of updating the list made by Hernani Heffner and Ruy Gardnier at that time would be of tragic scope. It would be a national institution’s role to make this list public. Besides remaining accountable to Brazilian society about its audiovisual heritage, this work could also prove to be a strategy for locating previously unknown materials held at other institutions and private collectors both in Brazil and worldwide. Yet, what about the many other films and audiovisual records that have escaped such inquiries and remain ostracized? How many films exist today whose only surviving materials are believed to be incomplete and severely deteriorated prints in inferior gauges? How many Brazilian audiovisual records have we lost?

Conclusion

“If we lose the past, we will live in an Orwellian world of the perpetual present. So, where anybody that controls what’s currently being put out there will be able to say what it’s true and what is not. And this is a dreadful world; we don't want to live in that world.”Brewster Kahle (2014, interview for Digital Amnesia, documentary by the Dutch VPRO)
“Knowledge is effective only when it is shared.”Hernani Heffner (2001, in a hallway conversation at the Cinemateca do MAM in Rio de Janeiro)

Digital audiovisual records have served as crucial tools in the fight for human rights in all national corners. They include records of things such as forced evictions, occupations of cultural or educational sites as a form of protest, demonstrations, invasions of communities by police forces (with high homicide rates among local populations, including children and young people), acts of environmental devastation fostered by the current government, struggles for native people rights and the demarcation of native lands, and crimes against native peoples. These audiovisual registers also function as tools for black empowerment and anti-racist movements, for the emancipation and affirmation of women for opportunities, and against structural sexism. With a profusion of creative talents and narratives, social networks gather the most distinguished cultural indexes of this time. In Brazil, in general, these network’s images remain outside the scope of prospection by Brazilian institutions, with the discussion around their archiving and incorporation within the scope of Brazilian audiovisual heritage still proceeding in a merely tentative fashion. From the preservation perspective, aside from all the challenges inherent to digital data preservation,78 ephemerality exists due to the corporate practices of social networks (which wipe content according to their terms of service).

Social media uses persuasive technology mechanisms to drive individual’s behaviors. Algorithms can give credibility to the untrue, boost flat-earth theory, and put #StopFakeNewsAboutAmazon as a trending topic on Twitter. At the same time, ecocide is loose, and the whole world watches as flames engulf the Amazon, the Cerrado, the Pantanal, and other Brazilian national parks.79 The quantum computer Rehoboam80 is an allegory of the now, in a narrative made explicit by Shoshana Zuboff in her book “Surveillance Capitalism”. We observed successive electoral victories by ultra-right political parties and movements with growing levels of terror and violence. The circulation of fake news on social media has increased the destructive power of Covid-19. Counter-information, deep fake, and fake news robots are connected to the world described by Brewster Kahle, founder of Internet Archive, quoted above. We can lose the past and the present due to frailties inherent in today’s sources of information, with their potential for manipulation and misinformation.81 When the current Brazilian president was a deputy, during the congressional voting process held during the impeachment trial of President Dilma Rousseff, he voted for the memory of the military dictatorship’s greatest torturer, who led the former “Presidenta” torture sessions. At the Cinemateca, we failed to frequently screen and watch the anti-dictatorship films Case of the Naves Brothers (1967, Luis Sérgio Person), Iracema: An Amazonian Transaction (1974, Jorge Bodansky/Orlando Senna), Tarumã (1975, Mário Kuperman), They Don’t Wear Black Tie (1981, Leon Hirszman), Go Ahead, Brazil! (1982, Roberto Farias), Twenty Years Later (1984, Eduardo Coutinho), How Nice to See You Alive (1989, Lúcia Murat), Friendly Fire (1998, Beto Brant), and Citizen Boilesen (2009, Chaim Litewski),82 in order to make it impossible to trivialize his actions in the Chamber of Deputies and make it such that no woman would vote for him for president two years afterward. Now we cannot fail to preserve these films and those that have come after, such as Orestes (2015, Rodrigo Siqueira), Pastor Cláudio (2017, Beth Formaggini) and Maiden’s Tower (2019, Susanna Lira).

A significant portion of the Brazilian audiovisual heritage has already been lost over the past century. In addition to recurring fires that destroyed collections of early Brazilian cinema, there have been diverse waves of destruction throughout film history (of short films through the consolidation of the feature as a market format, to silent films after the emergence of talkies, to the replacement of nitrate by acetate), many collections have been dispersed, dismantled, and concealed. Numerous works that came to the film archives arrived in an already feeble state. Still, the delay in recognizing the importance of audiovisual heritage, the absence of public policies for its management, and the oscillation of funding to heritage institutions have led to further losses. With the advent of digital, there is an escalated move towards preserving both what is currently being prospected and what lies outside the current prospection scope. The Cinemateca’s current crisis is severe, and it demands urgent measures from public authorities and the audiovisual industry. Despite the government’s destructive power and the ongoing paralysis of the work, I would like to end with an optimistic tone, one that has been encouraged by many online discussions, articulations, and increasing support about audiovisual preservation in Brazil. Many have advocated for their belief in the Cinemateca’s potential to promote debates and screenings, grant access to the most forgotten collections, provide a space for research, offer a visual reference for the past, and subsidize technological research. People believe in its capacity to captivate children and young audiences with the big screen, present pre-cinema and audiovisual technologies in a museum, and engage the institution’s neighborhood and surrounding community. All of these potentialities of the institution, in addition to numerous other creative uses of its collection and the tools that we might be able to use in the future, have been marred by the successive crises and ever increasing backlog. As a result, we have seen the acceleration of the collection’s deterioration, and limitation of the institution’s reach. It has become even more evident over time that the Cinemateca has been included within a macro-project of the devastation of Brazilian culture and heritage, and its importance as a force for reacting against this project therefore grows larger and larger.

Thanks to Aaron Cutler and William Plotnick for the thorough review.

1.  The Ministry of Culture was abolished on the first day of the current government, then initially incorporated into the Ministry of Citizenship and, later, to the Ministry of Tourism. So far, the Special Secretariat for Culture has had five incumbents without proven expertise. Other cultural heritage institutions are experiencing acute crises, such as the Fundação Casa de Rui Barbosa and the Centro Técnico Audiovisual (CTAv). The Brazilian Film Agency (Ancine) did not transfer funds already committed to the Cinemateca Brasileira and did not issue new film production tenders. It is noteworthy that the Federal Constitution which governs Brazilian democracy claims the “State will guarantee to everyone the full exercise of cultural rights and access to the sources of national culture and will support and encourage the valorization and diffusion of cultural manifestations” (Art. 215). They add that, “the public power, with the collaboration of the community, will promote and protect Brazilian cultural heritage” (Art. 216).

2. From 2016 to 2020, I worked in the Film Preservation department at the Cinemateca Brasileira. I share personal views based on this experience, with an emphasis on the department’s activities.

3. Eng: “The Cinemateca Brasileira and public policies for the preservation of audiovisual heritage in Brazil”.

4. CineOP 15 years: Live with Hernani Heffner, Cinemateca do MAM manager. September 2020. https://www.instagram.com/tv/CEC_cUVlbK6. Acesso em: 18 set. 2020.

5. Through the Ministry of Culture’s policy of decentralization, development and production programs were created with quotas for states which habitually have been restricted from investing in audiovisual production. Also, a policy has been put in place that covers low-budget projects and quotas for new directors, female filmmakers, and native people.

6. Regulated in 2007, the FSA is fed by the Contribution to the Development of a National Film Industry (Condecine) and a tax collected from all media distributions systems. These funds are then invested in new productions mainly in cinema, television and electronic games. From 2008 to 2018, a total of approximately R$ 4.5 billion was invested [about USD $713 million].

7. An emblematic example of this dynamic occurred in 2008, with the presence of the Executive Director of the Cinemateca Brasileira at the 3rd annual CineOP. The theme of CineOP that year was National Audiovisual Preservation Policy: Needs and challenges. Throughout the event, the Executive Director took a firm stand on opposing the articulation of other audiovisual heritage institutions with the Ministry of Culture’s representatives, and the creation of the Brazilian Association of Audiovisual Preservation (ABPA).

8. Among the proposals of the 1979 Symposium on Cinema and Memory in Brazil was, “The creation and promotion of regional centers of cinematographic culture constituted by production units and by film libraries (archives of copies of films), with the basic function of prospecting, research and dissemination of the Brazilian collection [… and] the establishment of an [national] inventory” (1981, 67). Laura Bezerra stated that the “creation of a program to boost filmographies that, despite not having implemented systematic and comprehensive actions, allocated resources for some sectorial actions” (2014, 120). Decentralization is necessary, considering the country’s continental nature and cultural plurality, besides being technically susceptible to disasters.

9. CineOP was created in 2006 and has become the main forum for discussions and articulations on audiovisual heritage and education in Brazil. Each year the Ouro Preto Letter is issued by the meeting’s participants, with alerts and proposals for the audio-visual heritage field.

10. ABPA is an association of film preservation professionals, regardless of their formal occupation. ABPA has worked in favor of developing new and better film preservation policies, the promotion of audiovisual heritage, and the translation and publication of technical film preservation texts. In 2016, ABPA created the PNPA, a document that contains diagnoses and proposals for actions and policies within the field of audiovisual preservation. https://abpanet.org/

11. The Council’s central role is to work to help develop the Cinemateca. Its members are representatives of the public sphere and individuals from civil society who are linked to the cinema or cultural heritage industries. Dismally, men have been predominant among council members over the years.

12. Currently, this theater is called Cinesala. http://www.cinesala.com.br/cinesala. Acesso em: 4 ago. 2020.

13. The original slaughterhouse had its activities closed in 1927. The space was then used as a deposit for the city hall’s lighting equipment.

14. The Brazilian Cinematographic Census project was based on the idea of Gilberto Gil, musician and then a member of the cultural advisory board of BR Distribuidora. Gil would later become the Minister of Culture from 2003 to 2008.

15. State company Petrobras – linked to providing energy, gas, and oil in Brazil – boosted the production, distribution, exhibition, preservation, and restoration of Brazilian cinema.  

16. In collaboration with the CB, the appraisal project was also carried out at the Cinemateca do MAM (Museum of Modern Art) in Rio de Janeiro. The project involved the (unprecedented) inventory of the Cinemateca do MAM collection with deteriorated materials sent to the CB’s lab. The Museum director determined, arbitrarily, that the Cinemateca could not maintain its audiovisual collection (after the inventory was made). As a result, the National Archive (in Rio de Janeiro) and the CB each received parts of the collection. Rather than having them sent to Rio de Janeiro, some film material owners chose to keep their assets with them, often in inappropriate places. That was one of the Cinemateca’s biggest crises, which is historically relevant for Brazilian cinema (especially for the Cinema Novo movement) and the audiovisual preservation area. The Cinemateca do MAM was directed by Cosme Alves Netto, who had a special connection with international institutions. Hernani Heffner joined the institution in 1996. In 2020, the Cinemateca do MAM underwent a consolidation, with a new building for the film collection and some structural changes in the Museum’s direction.

17. According to Souza, the Brazilian Filmography was started by Caio Scheiby on paper cards, and, in the 1980s, four notebooks were published with records of films produced until 1930 (2009, p.259). Currently, according to the CB’s website, “it contains information on approximately 42 thousand titles from all periods of national cinematography and the most recent and widest audiovisual production, whether short, medium or feature films; newsreels; advertising, institutional or domestic films; and serial works (for internet and television), with links to records in the database of posters and references to sources used and consulted”. Filmografia Brasileira. August 2020. Available at: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

18.Text extracted from 2008 plenary. SiBIA. August 2020. http://bases.cinemateca.gov.br/page.php?id=90. According to Laura Bezerra, “SiBIA was conceived and executed by CB/SAv without any debates and negotiations with the players involved, which contradicts the democratic-participative spirit defended and practiced in MinC documents and actions” (2014, 185). The 2009 meeting had 33 institutions from all over the country, and its proposals, which demanded SAv resources and actions, were not carried out. The project was extinguished in 2009, without practical advancements.

19. Programadora Brasil was a project for the diffusion of animation, experimental, fiction, and documentary films, active from 2006 to2013, through the printing of DVDs for non-commercial circuits (film clubs, cultural centers, schools, universities), in a total of 970 works divided across 295 DVDs.

20. Cinemateca Brasileira Institutional Reports. July 2020. Available at: http://cinemateca.org.br/institucional/relatorios-institucionais. Acesso em: 7 jul. 2020.

21. This unit was affected by flooding in early 2020.

22. Cinemateca Brasileira magazine. Available at: http://cinemateca.org.br/biblioteca/publicacoes-e-links. Acesso 7 jul. 2020.

23. Collections acquired by the government under theCinemateca’s custody: Estúdio Vera Cruz and Atlântida Cinematográfica (in2009), Canal 100 and Glauber Rocha (in 2010), Goulart de Andrade and Dulce Damasceno de Brito (in 2011) and Norma Bengell (in 2012).

24. The interruption also affected the work of the CentroTécnico do Audiovisual (CTAv, or “Audiovisual Technical Center”), in Rio deJaneiro, which was involved in several SAv projects with CB.

25. 2014 Report - details on pages 12 and 14 on the“analysis of preventive conservation of cellulose nitrate”.

26. Legal Deposit is the mechanism for depositing public-funded audiovisual materials in institutions accredited by the federal government. Until today, only the CB falls under that category. After the approval of the material (according to technical guidelines), the producing company becomes able to receive the last instalment of the financing. Due to the drastic reduction in analysis after the 2013 crisis, the backlog of materials became enormous.  

27. Olga Toshiko Futemma began working at the Cinemateca Brasileira in the 1980s, with particular excellence in her work at the Documentation and Research Center. She became the institution’s executive director in 2004, its deputy director from 2007 to 2013, and its director from 2013 to 2018, at which point she became the Collections Manager. She took part in the FIAF Executive Committee from 2009 until 2013.  

28. After the fire, the vault received the same structure as before. According to the 2016 Report: “the building, designed in the 1990s, was built without electrical or hydraulic installations, in order to minimize the risk of an accident; without active air conditioning, but maintaining the internal temperature with the smallest possible variations and allowing air circulation to avoid the accumulation of gases resulting from deterioration. In the case of self-combustion [...] it would inevitably consume the entire contents of the vault, but it would not spread to the adjacent vaults” – which characterizes what happened in 2016, when the fire consumed only one of the four vaults and did not spread to the others.

29. For example, ARRISCAN, when acquired, was adapted for deteriorated materials, which allowed the scanning of negatives with 4% shrinkage, a measure that would be considered infeasible for other laboratories.

30. Databases of the Documentation and Research Center. August 2020. https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p.

31. The Programming department continued to show films from the collection, with respect for the original projection format to the best extent possible and privileging Brazilian cinema. It also organized film series with prints loaned from partnering organizations and held screenings in the Cinemateca’s two theaters and on its outdoor screen. The films projected were on 16mm and 35mm prints, as well as digital and video formats.

32. Also, according to the 2016 Report: “the emergency duplication process differs from the film restoration, which involves producing new preservation dupes, both image and sound, and screening copies. It also includes different sorts of manipulation to minimize handling or deterioration marks, approximating its original theatrical release characteristics. A restoration project usually compares different materials, while emergency duplication deals with copying advanced deteriorating material, typically unique, to a new one.”

33. Carlos Roberto de Souza points out that “The Brazilian research and historiographic works carried out […] drew attention to the fact that it is a mistake to build a history of Brazilian filmography with a basis in fiction or narrative feature-length films. The highest volume of Brazilian production has always been of documentaries and newsreels, generally relegated to the background by so-called classical historians, the media, and the general public. The reality of production is reflected in the cinematographic collection that has reached our days. The percentage of nonfiction films exceeds that of feature films and remains the least preserved. That does not mean that all fiction features are preserved. Far from it. Yet the most treated part – and not always with the care it deserves – is that of the consecrated Brazilian features.” (2009, p.261).

34. Later, the team discovered a homonymous field in the Brazilian Filmography database, conducted by the Documentation and Research Center, which was no longer in the workflow. It was a numerical system from 0 to 5. Considering that the Preservation technicians who proposed the methodology had no previous experience at the CB, the categorization did not follow the numerical method, but instead followed text categories. As an example, the categories included “preserved at the moment” (considering original materials, intermediaries, and prints in good condition, for example), “partially preserved”, “not preserved”, “partially lost”, with supplemental information such as “with defects” (image or sound interference), “incomplete”, etc. The system provided quickness in the selection for emergency duplication and research for external access.  

35. WinIsis is a software proposed by Unesco in 1988 and adopted by the CB due to its shapable character. It resembles individual physical library cards, with limited data examination.

36. Trac was initially adopted by the lab and development teams before 2016. The preservation team adopted it in 2016. In 2017, an institutional profile was created, then the Documentation and Research Center profile, and lastly, the Access department profile.

37. We need to talk about ... the Brazilian Cinematheque logo. July 2020. https://twitter.com/cinematecabr/status/798954169386336256. Acesso em: 14 jul. 2020. The alleged phallic form of the logo could have contributed to the degree of viralization and public awareness of the Cinemateca in 2016.

38. Manifesto for the Cinemateca Brasileira - 2016. July 2020: https://manifestopelacinematecabrasileira.wordpress.com.

39. 100 Paulo Emílio. Available at: http://cinemateca.gov.br/100pauloemilio. July 2020.

40. The legality of amending the main contract is questionable. In any case, we consider it an outrage that an amendment governs the Cinemateca Brasileira as a legal instrument.

41. As occurred in access to original film materials for their digitization and licensing to Canal Brasil, the leading television channel for Brazilian films. The broadcast company was updating its catalog, which was previously in SD resolution. The delivery of films to Canal Brasil would be in HD (1080p) or higher, despite HD being an outdated resolution. Producers opted for HD resolution and not 2K due to budget limitations. Still, in addition to being more commercially relevant in the middle term, 2K represents a more significant preservation action since it would be a longer safeguard of the original material – much of which was already in bad condition.  

42. Especially what can be called pejotization, in reference to “juridical person”, or the legal status of a physical person: The hiring of services from individuals through companies set up for this purpose.  

43. This dynamic of dispersing the workforce is even more dangerous in the context of digital preservation, which demands a constant updating of knowledge due to the ongoing changes in technology and industry practices.

44. E-mail from 29 June 2016. July 2020: https://groups.google.com/g/lista-da-abpa. Débora Butruce indicates that a Working Group debated the theme of management by OS over several years: 15th CineOP. At-risk cultural heritage institutions: The Case of the Cinematreca Brasileira. Available at: https://cineop.com.br/debate/instituicoes-de-patrimonio-em-risco-caso-cinemateca-brasileira. Acesso em: 14 ago. 2020. In addition to Butruce, the conversation’s participants included Carlos Augusto Calil, Fabiana Ferreira and Eloá Chouzal.

45. Jorge Barcellos sums it up by saying that “Over time, [the Social Organization] became deficient and costly”. He warns that “according to Alzira Angeli, from the Comptroller General of the Union, these organizations have become the new market niche for corruption and [according to historian Francisco Marshall] the initiative promotes the degradation of public management”. August 2020. https://jorgebarcellos.pro.br. As an exception, some museums in the State of São Paulo successfully follow the management model by OS.

46. Consolidation of Labor Laws (CLT) has several benefits to the employee, such as paid vacations, a bonus salary (equivalent to a month’s pay), unemployment insurance, sickness benefits, family salary, maternity salary, and retirement funds.

47. I understand collection prospecting as a fundamental role of the CB, since the Cinemateca is the central national institution, and especially in consideration of the history of destruction and neglect of Brazilian audiovisual heritage. In recent years, news of potentially valuable collections became public, and CB technicians could not act independently under the Acerp administration. Through Acerp, for instance, the technical staff evaluated a collection in the São Paulo countryside. The technical team contacted the Ministry of Foreign Affairs to assess a list of 35mm prints held at the Brazilian embassies in Rome, Berlin, and The Hague. Acerp later took over the connection and was unable to carry out the repatriation.

48. It was reported by many colleagues that the person in charge of such event said ‘God was the first CEO, and theBible was the early compliance’, among other inappropriate comments for an event at an heritage institution.

49. An Institutional Mission document was being consolidated, which was not carried out during the time of Acerp’s management.

50. CryptoRave is a forum for freedom, autonomy, and security on the Internet. CryptoRave. August 2020. https://cryptorave.org.

51. The distance between the two cities is about 268 miles/1-hour flight.  

52. Military personnel in uniform occasionally visited the institution. One episode became notorious: The visit of a deputy who held the same last name as his great-uncle, the first president of the military dictatorship. The deputy published a video on a social network from inside the CB and accompanied by representatives of the institution in which he announced the upcoming exhibitions of military films, reproduced the president’s campaign slogan and saluted the camera. The film series has not been realized.

53. Several volunteers working within the Instituto Moreira Salles’s (IMS) technical coordination team performed an effective response to damages to the studio and photography collection of the São Paulo-born photographer Bob Wolfelson, which was located near the Cinemateca’s damaged area. A technician from the Cinemateca Brasileira was among the volunteers (who operated outside of CB working hours). The event was the second flood that affected the photographer’s studio. Floods in the region are recurrent, so this brief report is a chronicle of a predestined tragedy.  

54. The work consisted of moving bags with piles of cans filled with dirty water, opening each can to check the material’s condition, determining the destination of the material, and organizing the collection on the shelves. At first, the cleaning and maintenance teams performed a task force with the technical team to drain the water, clean shelves, and help move bags of films, but before this work came to an end, these teams were drastically reduced in size.

55. The first of these news items related to the appointment of an actress as the Cinemateca’s director. This actress had played the role of Special Secretary of Culture for two months in the capital city of Brasília and wanted to return to São Paulo for personal reasons. However, no position was legally available for her to assume at the CBat that time, and she ultimately never came to work at the institution.

56. “Cinemateca Brasileira asks for help.”. Sept. 2020. At the time of this writing, the manifesto has received more than 28,500 signatories.

57. Cinemateca Viva, a group formed by the Vila Mariana Residents’ Association (the neighborhood where CB is at <http://www.cinematecaviva.com.br>; The Cinemateca Acesa group <https://www.facebook.com/CinematecaAcesa>; S.O.S. Cinemateca Brasileira https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira; and Cinemateca in Crise, created in 2013, with updates on the crisis of 2020: <https://www.facebook.com/cinematecaemcrise>. Apaci since 2015 has been active and in contact with the CB board of directors to guarantee the execution of the institution’s work.

58. Cinemateca Brasileira workers. August 2020. https://twitter.com/trabalhadorescb.

59. Cinemateca Brasileira - Emergency Workers. August 2020: https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca.

60. The crisis in the Cinemateca Brasileira - Urgent Solutions.August 2020. https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/1595. 2020. Gabriela Queiroz, the Documentation and Research Center coordinator from 2014 to 2020, represented the institution.

61. Some examples: The claim that “all” of the Brazilian audiovisual heritage is housed at CB; the assertion that the institution could catch fire if its light and gas services were cut off for lack of payments (the nitrate deposits do not have any electrical circuit); and the use of the term ‘air-conditioned laboratories’ to designate‘ air-conditioned vaults’.

62. The handover of the keys included the presence of ostensibly armed agents of the Federal Police, summoned with the assumption that there could be resistance by agents of Acerp. Acerp handed over the keys, documents were signed, and the government carried out a technical visit. Even as a sideshow, it was the first time that police intimidation occurred at the Cinemateca. Acerp tried to obtain reimbursement of the amounts invested in the CB in 2019 and 2020, allegedly totaling R$ 14million [about USD 2.6 million].

63. Gramado Letter 2020. Available at: http://www.festivaldegramado.net/festival-lanca-a-carta-de-gramado.

64. Generalizations are risky and can go wrong. After all, we have many producers who understand, praise, and invest in preservation efforts, especially following the 2020 crisis. If my words do not do justice to producers’ performance in favor of audiovisual heritage, then I will be happy to publish my mistake. But this text was fermented by the frustration of seeing the superb state of the audiovisual industry, with its happy hours, markets, deals, and enormous resources, while the mention of preservation investments generated tremors! The production industry’s greedy attitude relates to the neglect of the Brazilian audiovisual heritage and its preservationists.

65. Sources: FSA and CinematecaBrasileira websites. Published initially in The professional working in audiovisual preservation. Museology & Interdisciplinary. Vol. 8, nº 15, 2019. The chart was initially presented with the Brazilian currency (Real) and was converted to USD for this text. The exchange rate was from the last business day of each year. Original note with a correction: Cinemateca Brasileira is the only institution that receives materials in Legal Deposit and according to Laura Bezerra (2015), its budget represents almost the totality of investments in audiovisual preservation in Brazil during the cited period. In this way, I consider the chart to be a direct illustration of the gap between investments made in audiovisual production and in preservation”.The diagram proceeds only until 2017, since CB has not published any more report since that time. In 2019, under the newly elected government, FSA funding ceased.

66. Document SEI / ANCINE - 0413350 - CGFSA Resolution Nº 101- Approval of the 2017 Annual Investment Plan.October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANº 101 - approves PAI FSA 2017.pdf.

67. The non-refundable mechanism does not presuppose a return on financial profit, but offers other counterpart plans.

68. Document SEI / ANCINE - 0845324 - CGFSA RESOLUTION Nº155 - Approval of the 2018 Annual Investment Plan. October 2020.https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/resolucoes-cgfsa/RESOLUTION CGFSANo. 155 - Annual Investment Plan 2018.pdf.

69. Resources made available for Actions and Programs - 2008to 2018. October 2020. https://fsa.ancine.gov.br/resultados/investimentos/valores-investidos. The full amount informed on this date was R$ 4,558,877,384.00.

70. According to Gomes (2020), most of the materials received in Legal Deposit is stored on external hard drives, which need continuous verification – “digital materials, therefore, require more constant checks and migrations, a need that the Cinemateca Brasileira cannot yet meet, both due to limitations in the number of employees and to financial limitations”. Part of the institution’s large magnetic video collection comes from the Legal Deposit. In general, from 2016 to 2020, no actions were taken to preserve the video and digital collections, only duplication of materials for access purposes. Considering the inaction, broadly and systematically, with the scope of the heritage conceived in digital, one cannot expect to overcome the(notoriously high) loss rates of the Brazilian audiovisual heritage –especially its first digital productions.

71. “ICAB and NETFLIX partner to create an EMERGENCY FUND to support the Brazilian creative community.” September 2020. http://icabrasil.org/2016/index.php/mediateca-reader/icab-e-netflix-fazem-parceria-para-criar-fundo-emergencial-de-apoio-a-comunidade-criativa-brasileira.html.

72. Netflix, Streaming Video and the Slow Death of the Classic Film. September 2020. https://www.newsweek.com.cdn.ampproject.org/c/s/www.newsweek.com/2017/09/22/netflix-streaming-movies-classics-664512.html. / Supreme Court Urged to Make Old Movies Digitally Available. September 2020. https://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/supreme-court-urged-make-old-movies-digitally-available-1218088. Much more money is invested in providing classic film as a streamable option in the US as it is in Brazil, especially Brazilian classics. In the US, the repertoire of old films is a niche explored by platforms such as The Criterion Channel and Mubi, among others.

73. A sensitive aspect for the distribution of older films is the issuance of the Brazilian Product Certificate (CPB), which requires documentation stating the rights holders for specific films. Historically, Brazilian film productions lacked proper documentation, and many companies were dissolved without the transfer of rights of their assets.

74. In the Brazilian context, where the first activity as a preservationist is to explain your role as a professional, Netflix documentaries that contain archival images as an important element of their narrative are often a good way to explain the importance of heritage preservation to many people.

75. 2016 Report: pages 55 and 56. Correction to the content: Bacalhau (1976, Adriano Stuart) is color, not b&w – a Jaws spoof.

76. Here it is worth reflecting not only on the catalog’s excellence in terms of title availability and content navigability, but also the need to review technical specificities and the dimensions of the watermark logo filling part of the film image, an experience reported as frustrating for many site visitors.

77. Brazilian films considered lost or about to be lost. August 2020. http://www.contracampo.com.br/34/filmesperdidos.htm.

78. Proprietary technologies, obsolescence of file format, codec, software, hardware, metadata management, migration.

79. In addition to being catastrophic for fauna and flora, the devastation will directly affect the cultural heritage preservation field due to this field’s direct relationship with the climate, with issues such as larger variations in temperature and humidity taking on special importance. I am unaware of studies in Brazil on the climate crisis and its impact on the area of ​​heritage. From among discussions held in other countries, I would highlight the 2020 realization of the Orphan Film Symposium.

80. The artificial intelligence supercomputer of Westworld (2016,Jonathan Nolan), set in almost four decades in the future.

71. The symbol of misinformation is the science being discredited by social networks and messaging media (especially WhatsApp, a company acquired by Facebook), which makes the act of disseminating scientific information on containing the Covid-19 pandemic more difficult. Research carried out in twenty countries shows that Brazilians believe in their scientists the least among citizens of any country: Brazil with its back to science. September 2020. https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-de-costas-para-ciencia.

80. Filmography Dictatorship Brazil. September 2020. http://historiaeaudiovisual.weebly.com/filmografia-ditadura-brasil.html.

BIBLIOGRAPHY

BEZERRA, Laura. Políticas para a preservação audiovisual no Brasil (1995-2010) ou: “Para que eles continuem vivos através de modos de vê-los”. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia, 2014.

FERREIRA, Fabiana Maria de Oliveira. A Cinemateca Brasileira e as políticas públicas para a preservação de acervos audiovisuais no Brasil. Universidade de Brasília, 2020.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume I. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Crítica de Cinema no Suplemento Literário - Volume II. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.

SOUZA, Carlos Roberto de. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. São Paulo, 2009.