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30/10/2020
By/Por:
Rafael de Luna Freire

Desde os anos 1990, os mais ambiciosos e vultuosos projetos de restauração de filmes realizados no Brasil foram aqueles voltados para a filmografia de consagrados cineastas do Cinema Novo, como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e Nelson Pereira dos Santos. Foram projetos que restauraram e produziram novas cópias de exibição de muitos títulos que já eram considerados clássicos. De certo modo, não fizeram filmes como Terra em transe (Glauber Rocha, 1967) ou Eles não usam black-tie (Leon Hirszman, 1981) serem necessariamente considerados mais importantes do que eles já eram para a história do cinema brasileiro.

Essa lista, pautada pela minha experiência pessoal, privilegia outros tipos de iniciativas. Tentei elencar projetos realizados nas últimas duas décadas que tiveram um amplo impacto, particularmente junto a pesquisadores e professores universitários, para um movimento de revisão da história do cinema brasileiro. Foram projetos que provocaram sentimentos de frescor, surpresa e novidade. Um dos critérios fundamentais na escolha desses dez projetos foi sua ampla repercussão e alcance, tendo ajudado a ampliar, alterar ou revisar os cânones.

Assim, um projeto importante como “Clássicos e raros do nosso cinema”, realização da Cinemateca Brasileira com o patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil, não foi incluído apesar de seus inegáveis méritos. Afinal, o projeto viabilizou a feitura de novas cópias 35mm que, elevadas a materiais de preservação, foram projetadas pouquíssimas vezes para além da exibição contratual nas mostras que viabilizaram sua produção, restritas a São Paulo e, no máximo, também ao Rio de Janeiro.

Além disso, projetos importantes, porém mais recentes, como a digitalização e lançamento em DVD de filmes de Hugo Carvana e de Aloysio Raulino, também não foram incluídos por sua repercussão na academia – não tão imediata quanto na crítica, por exemplo – ainda me parecer estar sendo processada. Podemos mencionar ainda situações em que o interesse acadêmico antecedeu as ações de preservação. Esse parece ser o caso da “redescoberta” do primeiro longa-metragem dirigido por uma cineasta negra – Amor maldito (Adélia Sampaio, 1984) – pela tese de Edileuza Penha de Souza (Cinema na Panela de Barro: Mulheres Negras, Narrativas de Amor, Afeto e Intimidade, UnB, 2013). A atenção dada a Amor maldito levou à situação do filme passar a ser amplamente solicitado para exibições por volta de 2017, mas circulando então em cópias antigas cuja qualidade não correspondia ao renovado interesse por ele.

De um modo geral, busquei nessa lista evidenciar como a originalidade, o cuidado e a pesquisa envolvida na curadoria, planejamento e realização de projetos de digitalização, duplicação, difusão e restauração são fundamentais para o seu sucesso. Tentei ainda destacar a relevante e contínua influência de ações de preservação e difusão na historiografia do cinema brasileiro. Por fim, o objetivo principal é menos hierarquizar diferentes ações do que estimular o debate.

14. Corcina e o Cinema Alternativo Carioca

O cineasta e professor (hoje aposentado) da UFF, Roberto Moura, vinha desenvolvendo desde os anos 2000 um projeto de pesquisa voltado para o que ele chamava de “cinema alternativo carioca”, englobando a ampla produção, sobretudo de curtas-metragens, realizada no Rio de Janeiro dos anos 1970, envolvendo integrantes da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), produtoras como a Corisco, do próprio Moura, e principalmente a Corcina – Cooperativa de Realizadores Cinematográficos Autônomos. Trata-se de uma produção marcada por diversidade e experimentalismo, que floresceu com a chamada Lei do Curta, realizada por diretores como José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, entre outros. Mais recentemente, Lucas Parente, filho do professor e realizador André Parente, diretor de curtas que podem ser enquadrados nesse movimento, iniciou um movimento de resgate desse material, junto com a Cinemateca do MAM, o Dobra – festival internacional de cinema experimental, entre outros parceiros. A digitalização realizada, em 2019, de Eclipse (Antonio Moreno, 1984), animação com intervenção direta na película, foi exibida em diversos festivais e eventos acadêmicos, dando continuidade, de forma mais ampla à pesquisa de Roberto Moura, e fomentando um renovado interesse sobre esses filmes e realizadores.

13. DVD de A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) da Funarte lançou nas últimas décadas belas edições em DVD de filmes de seu acervo, como o de filmes silenciosos realizados em Cataguazes e Recife ou ainda de longas-metragens sonoros como O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) e Assalto ao trem pagador (Roberto Farias, 1962). Merece destaque especial o lançamento, em 2004, da DVD com a bela cópia do segundo longa-metragem de Antonio Carlos Fontoura, A Rainha Diaba (1974). A redescoberta desse “thriller pop-gay-black” com Milton Gonçalves no papel título, dois anos depois do lançamento de “Madame Satã”, dirigido por Karïm Anouz e protagonizado por Lázaro Ramos, colocou em evidência esse que é um dos mais interessantes filmes brasileiros da década de 1970. Trata-se de um belo exemplo do resgate de um filme que se mostrou bastante atual no momento de sua redescoberta. A edição caprichada do DVD, recheado de bem produzidos extras (entrevistas, making off inédito, trailers etc.), foi outro incentivo para ampla circulação de A Rainha Diaba após um certo esquecimento ao que o filme tinha sido injustamente relegado.

12. A reconstituição de Acabaram-se os otários (1929)

A reconstituição de Acabaram-se os otários foi um projeto desenvolvido pelo Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (LUPA-UFF) e realizado por mim e pelo professor Reinaldo Cardenuto. O projeto resultou no lançamento, em 2019, de uma versão reduzida do primeiro longa-metragem brasileiro sonoro, considerado um filme perdido, o que foi possibilitado pela reunião de diferentes fragmentos remanescentes da obra, tais como trechos de imagens em movimento, fotografias e registros sonoros. Trata-se de um projeto de preservação audiovisual que, diferentemente do restante da lista, foi uma consequência e não o impulsionador de uma pesquisa acadêmica. Assim como o estudo da chegada e popularização do cinema sonoro no Brasil vinha motivando interesse de diversos pesquisadores como Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar) e Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), além de mim mesmo, a obra de Luiz de Barros também vinha recebendo mais atenção por parte de pesquisadores como Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) e seus orientandos, como Evandro Vasconcellos (“Entre o Palco e a Tela: As relações do cinema com o teatro de revista em comédias musicais de Luiz de Barros”, UFSCar, 2015). A reconstituição de Acabaram-se os otários, por outro lado, pode vir a incentivar outros projetos que conjugam pesquisa histórica e preservação audiovisual, aproximando mais as universidades e as cinematecas.

11. Restaurações "Clássicos da Cinédia"

Em 2004, a Cinédia lançou cópias restauradas de quatro filmes produzidos pela empresa através de projeto patrocinado pela BR Distribuidora. Um deles, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), já era o mais conhecido musical brasileiro dos anos 1930. Mas dois outros – Mulher (Oduvaldo Viana, 1931) 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) – eram verdadeiras “novidades” para os pesquisadores, por não circularem amplamente havia muitos anos. Dirigido por Octávio Gabus Mendes, Mulher era um filme mudo com músicas sincronizadas por discos, num momento em que os talkies já estavam em pleno sucesso no Brasil havia dois anos, mas quando muitas salas de cinema, especialmente nos subúrbios e no interior, ainda não haviam se adaptado para o cinema sonoro. Trata-se ainda um filme de grande sofisticação, comparável a outra realização muda tardia da Cinédia, a do clássico Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). Além de interessar a pesquisas sobre o som no cinema e o cinema silencioso, a restauração do filme foi o tema da dissertação de mestrado de Joice Scavone (“Mulher - trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia”, UFF, 2013) que evidenciava a ligação mais estreita entre pesquisa história e preservação de filmes na academia. Apesar da circulação restrita dos filmes, que circularam muito tempo apenas em cópias 35mm – colaborando que o quarto filme restaurado, Romance proibido (Adhemar Gonzaga, 1944) permaneça pouco conhecido – o impacto do projeto junto à academia foi significativo.

10. Duplicação de Fábula ou Moro em Copacabana de Arne Sucksdorff

O cineasta sueco Arne Sucksdorff era mais conhecido na história do cinema brasileiro por ter oferecido um curso no Rio de Janeiro, em 1962, que virou um marco na história do Cinema Novo. Antes, porém, de se radicar no pantanal mato-grossense, onde viveria até a morte, Sucksdorff realizou o fascinante Fábula (1965), longa-metragem em coprodução com a Suécia que foi praticamente esquecido desde o seu lançamento. Em meados dos anos 1990, num projeto em parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil, Chico Moreira, então conservador da Cinemateca do MAM, fez uma cópia nova, reduzida para 16mm, do contratipo original 35mm da versão brasileira do filme preservado no acervo da instituição. Nos anos 2000, Hernani Heffner – que sucedeu Chico na Cinemateca do MAM – passou a projetar Fábula com frequência em diferentes oportunidades, sempre com enorme repercussão junto ao público, deslumbrado com aquela obra praticamente desconhecida. Estudiosos logo se interessaram. João Luiz Vieira analisou o filme em seu capítulo no premiado livro World Cinemas, Transnational Perspectives, organizado por Natasa Ďurovičová e Kathleen Elizabeth Newman, publicado em 2009. Eu mesmo escrevi sobre o filme no catálogo da mostra “Olhares Neo-Realistas”, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2006. O filme se tornou ainda objeto de amplo projeto de pesquisa da professora Esther Hamburguer (USP), que viabilizou a vinda para o Brasil de uma cópia digital da versão sueca. O interesse suscitado pelo filme foi tanto que, em 2011, o Instituto Moreira Salles financiou a confecção de uma nova cópia, agora em 35mm, da versão brasileira a partir do contratipo original.

09. DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70”

Lançados, respectivamente, em 2005 e 2006, através de uma parceria entre o Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Centro Afro Carioca de Cinema e a Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura, os DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70” foram fundamentais para ampliar a circulação e permitir a revalorização de filmes de importantes cineastas negros brasileiros. O DVD duplo “O cinema de Zózimo Bulbul” trazia seis filmes do ator e diretor, realizados entre os anos 1970 e 2000. Seu primeiro curta-metragem, Alma no Olho (1973) tem sido reavaliado como a obra-prima que é, sendo recentemente escolhido, por exemplo, como o 11º melhor curta-metragem da história do cinema brasileiro na listagem feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, em 2019. Já o DVD duplo “Obras raras: o cinema negro da década de 70” apresentava seis filmes dirigidos por Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre e Odilon Lopez. De especial destaque é o longa-metragem As aventuras amorosas de um padeiro (1975), longa-metragem de estreia de Onofre produzido por Nelson Pereira dos Santos. Além do protagonista negro, essa comédia erótica produzida durante o “clímax” da pornochanchada se destaca por seu tom feminista, raro num gênero recheado de obras machistas e preconceituosas. Assim, além de colaborar para o crescente interesse pelo cinema negro na academia, o DVD auxiliou a revisão do cinema de Onofre e, de forma mais ampla, da própria pornochanchada.

08. Mostra “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação”

O pesquisador Remier Lion tinha a ambição de realizar uma ampla mostra retrospectiva com esse provocativo título na Cinemateca do MAM, na ocasião em que ela retomou sua programação após a grave crise que assolou a instituição no início dos anos 2000. Sem receber, então, acolhida do curador Gilberto Santeiro (muito incomodado com a provocação à respeitabilidade do cinema brasileiro), Remier levou parte da sua programação para cineclubes que organizou em diferentes locais do Rio de Janeiro, num projeto chamado “Malditos filmes brasileiros”. Finalmente, a mostra chegou à Cinemateca Brasileira, onde ela foi realizada com enorme sucesso em 2004, levando Remier a se incorporar, inclusive, à equipe de programação. A sua realização na Cinemateca Brasileira permitiu, inclusive, o acesso de Remier a materiais ainda mais raros para seu projeto. Embora possa ser entendido dentro de um quadro geral de revisão e revalorização do cinema da Boca do Lixo, a mostra “Cinema Brasileiro: a vergonha de uma nação” tinha um escopo mais amplo ao incorporar, por exemplo, um cineasta que Remier já pesquisava há tempos, como Nilo Machado e que produziu filmes de strip-tease desde os anos 1960. De um modo geral, a mostra jogava luz sobre diversos e desconhecidos exemplares da longa trajetória do cinema brasileiro comercial, popular e de gênero, que a historiografia pouco contemplou, com sua ênfase autoral. Assim, o evento que recebeu enorme cobertura da mídia e grande repercussão junto ao público, ia ao encontro de muitas pesquisas já desenvolvidas, como a dissertação de Rodrigo Pereira (“Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro”, Unesp, 2002), ou que ainda iriam ser concluídas, como as teses de doutorado de Laura Cánepa (“Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros”, Unicamp, 2008) e Alfredo Suppia (“Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita: uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood”, Unicamp, 2017).

07. Restauração de Aviso aos navegantes

Com o patrocínio da BR Distribuidora e da Petrobrás, o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) realizou importantes restaurações, nas últimas décadas, de filmes de diferentes épocas e diretores. Talvez a mais notável tenha sido a da chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), realizada entre 1999 e 2000. Quando as chanchadas começaram a ser revalorizadas nos anos 1970, Jean-Claude Bernardet destacou Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) como um dos mais importantes filmes políticos do cinema brasileiro. A partir de então, se alguma chanchada fosse incluída na lista dos mais importantes filmes brasileiros de todos os tempos, geralmente era essa paródia de Hollywood recheada de críticas sobre o governo Getúlio Vargas. Posteriormente, a partir de estudos como os de João Luiz Vieira, Robert Stam e Arthur Autran, o filme Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) tornou-se o exemplar mais valorizado do gênero, com seu caráter reflexivo e uma sofisticada discussão sobre a política do cinema brasileiro. O filme de Burle passou a ocupar o lugar de destaque dentro do gênero antes dado ao filme de Carlos Manga. Produzido antes desses dois, Aviso aos navegantes destaca-se não como uma exceção, mas como a regra do gênero, como um exemplar clássico. Ao invés de destoar delas, o filme exemplifica as fórmulas e clichês da chanchada, mas em sua melhor forma, trazendo no elenco Oscarito e Grande Otelo, o vilão José Lewgoy e a dupla Eliane e Anselmo. Restaurado na Labocine por Chico Moreira a partir de diferentes cópias e materiais de formatos e procedências distintas, Aviso aos navegantes vem aos poucos, e merecidamente, tornando-se a referência principal dos estudiosos para o gênero.

06. Projeto de Recuperação da Obra de Moacyr Fenelon

Realizado pelo Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro – leia-se Dona Alice Gonzaga e Hernani Heffner – o projeto de restauração de filmes de Moacyr Fenelon se estendeu entre 2006 e 2010, com patrocínio do Programa Petrobrás Cultural. O projeto trouxe à tona cinco longas-metragens realizados entre 1948 e 1951 que não eram vistos há décadas. Mais conhecido como pioneiro técnico de som nos anos 1930 e como um dos criadores da Atlântida, Moacyr Fenelon teve a parte final de sua carreira coberta pelo projeto, quando se lançou com a Cine-Produções Fenelon e, em seguida, se associou a Flama Filmes. Infelizmente, sua morte relativamente precoce, em 1953, impediu que o diretor tivesse uma participação mais efetiva no movimento que ajudou a fomentar, lembrando que Nelson Pereira dos Santos batizou a equipe que realizou Rio 40 graus, não à toa, de “Equipe Moacyr Fenelon”. Em minha tese de doutorado, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil - 1915-1951” (UFF, 2011), dois filmes trazidos à tona por esse projeto foram fundamentais como exemplares de um cinema dramático realizado a partir do pós-guerra no Brasil: Obrigado, Doutor (Moacyr Fenelon, 1948), baseado em série radiofônica homônima, e Dominó negro (Moacyr Fenelon, 1950), adaptado de novela de Hélio Soveral. De forma mais ampla, a atuação de Fenelon como “produtor independente” foi um dos temas principais da fantástica tese de doutorado de Luís Alberto da Rocha Melo (Cinema independente”: produção, distribuição e exibição no Rio de Janeiro, UFF, 2011), demonstrando o pioneirismo de Fenelon como “produtor independente” e desenvolvendo o modo de produção que seria seguido posteriormente por autores hoje identificados com o chamado “cinema independente dos anos 50”, tais como Alex Viany, Roberto Santos e o próprio Nelson Pereira dos Santos. Por fim, o musical Poeira de estrelas (Moacyr Fenelon, 1948) surpreendeu ao mostrar o amor entre duas mulheres, recebendo a pioneira análise de Mateus Nagime num dos capítulos de sua dissertação “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. Caixa de DVDs “Coleção CTAv”

Iniciativa do Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) em parceria com a Cinemateca Brasileira, a digitalização de curtas e médias produzidos pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), pelo Instituto Nacional de Cinema (INC) e pela Embrafilme, tornou disponível um grande número de documentários produzidos pelo Estado entre os anos 1930 e 1970. A bela caixa de DVDs “Coleção CTAv” resultante do projeto, fartamente distribuída para as universidades, com 110 títulos divididos em 20 discos, não só permitia uma visão mais ampla da filmografia de um cineasta como Humberto Mauro, como trazia obras menos conhecidas de diversos outros diretores importantes, de Leon Hirszman a Arthur Omar, de Adhemar Gonzaga a Linduarte Noronha, além de um amplo leque de filmes educativos, etnográficos, animações e compilações. Os filmes de educação rural de Mauro, produzidos nos anos 1950, por exemplo, ganharam um capítulo especial de Sheila Schwarzman no recente livro “Nova história do cinema brasileiro” (2018), enquanto filmes que abordam a própria história do cinema brasileiro, como o importante Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) foi tema do capítulo de Luís Alberto Rocha Melo do seminal livro “Feminino plural: Mulheres no cinema brasileiro”, organizado por Marina Tedesco e Karla Holanda, a partir de seu projeto sobre a historiografia audiovisual do cinema brasileiro. Esses filmes lançados em DVD também passaram a estar acessíveis através do Banco de Conteúdos Culturais.1

04. Mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras”

Realizada inicialmente em São Paulo, em 2001, a mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras” foi talvez o grande evento dedicado ao cinema brasileiro dentre a série de mostras marcantes patrocinadas pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) nos anos 2000. Organizado por Eugenio Puppo, da Heco Produções, a mostra reuniu um amplo conjunto de filmes que há muitos anos não eram exibidos, muito menos conjuntamente. O evento ajudou ainda a consolidar uma fórmula de sucesso: mostra de filmes + debates + catálogo com textos encomendados a especialistas + cópias novas para estreia no evento. O impacto da revisão de filmes experimentais, debochados e desafiadores realizados entre os anos 1960 e 1970 foi enorme, sobretudo em comparação com o então criticado cinema caro e careta, financiado pelas leis de incentivo, da retomada do Cinema Brasileiro. Na UFF, o professor João Luiz Vieira acompanhou a mostra com uma disciplina optativa dedicada ao cinema marginal. Na esteira do evento e de seu sucesso, produtores e críticos do Rio de Janeiro organizaram, posteriormente, mas no mesmo CCBB, mostras dedicadas individualmente a Rogério Sganzerla e Julio Bressane, novamente confeccionando cópias novas que permitiam a (re)descoberta de vários títulos mais obscuros da filmografia desses cineastas. O impacto acadêmico foi notável, com um número enorme de dissertações e teses sendo dedicadas a esse movimento que suplantou o Cinema Novo em popularidade na universidade. A própria Heco Produções lançou, em 2009, a coleção de DVDs Cinema Marginal Brasileiro, em parceria com a Lume e Cinemateca Brasileira, colaborando ainda mais para a ampla circulação desses filmes. Nesse mesmo movimento, um filme como Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restaurado entre 2013 e 2015 através do Programa Petrobras Cultural, e em seguida lançado em DVD, passou a ser tema de inúmeras pesquisas acadêmicas e apresentações em congressos.

03. Projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”

Diretor de dois longas ficcionais nos anos 1960 e de diversos curtas documentários entre as décadas de 1950 e 1970, Gerson Tavares teve seu nome e filmes apagados da história do cinema brasileiro. O projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”, aprovado na primeira (e até hoje única) edição do edital2 Preservação e Conservação da Memória Artística Fluminense da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, em 2012, tinha como objetivo inicial restaurar o filme Antes, o verão (1968), que corria o risco de se perder. O escopo foi ampliado para a digitalização também do filme Amor e desamor (1966) e de outros sete curtas do diretor, lançados em DVD duplo, numa edição não-comercial. A finalização do projeto permitiu quase um relançamento dos filmes e a redescoberto do diretor octogenário pelas novas gerações. Comparado a Walter Hugo Khouri, Gerson Tavares era prova de um cinema dramático de qualidade realizado no Rio de Janeiro dos anos 1960 para além do Cinema Novo. Ausente da maior parte dos livros panorâmicos sobre história do cinema brasileiro até então, o projeto permitiu que o nome de Gerson Tavares fosse reinscrito nessa história. Exemplo disso foi a citação a seus filmes no capítulo que Fernão Ramos escreveu sobre os anos 1960, quase inteiramente dedicado ao Cinema Novo, no recente “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organizado pelo próprio Fernão e Sheila Schvarzman.

02. Caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”

Em seu fundamental livro “Cinema brasileiro: propostas para uma história”, de 1979, Jean-Claude Bernardet apontou a importância do filme documentário (ou natural) no cinema silencioso brasileiro, apesar da atenção muito maior dada ao filme ficcional (ou posado) pelos historiadores. Entretanto, a disponibilidade de cinejornais, atualidades e registros documentais brasileiros produzidos até 1930 sempre foi escassa, apesar de representar um volume muito maior de títulos preservados do que as esparsas ficções. Uma ação fundamental para dar acesso a essa produção foi o projeto desenvolvido na Cinemateca Brasileira, por Carlos Roberto de Souza, da caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”, finalizado em 2009. Patrocinado pela Caixa Econômica Federal, a caixa era composta por 27 filmes reunidos em cinco DVDs e um livreto de autoria de Carlos Roberto. Apesar da presença de posados, como o mais antigo filme de ficção preservado, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), a grande maioria dos títulos eram de naturais, reunidos em 5 temas: “Riquezas Paulistas”, “Aspectos do Brasil”, “Ciências (mesmo ocultas) e riquezas”, “Vida cotidiana” e “Cerimônias públicas”. A circulação desses filmes permitiu que mais pesquisadores tivessem acesso a um amplo conjunto de filmes pouco vistos anteriormente, fortalecendo as pesquisas sobre o cinema silencioso brasileiro. Elas já tinham ganhado impulso com as reuniões de pesquisadores na Cinemateca Brasileira que resultaram no livro “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organizado por Samuel Paiva e Sheila Schvarzman, em grande parte também dedicado aos pouco estudados filmes naturais, sem falar de importantes artigos escritos por Eduardo Morettin e Hernani Heffner. Posteriormente, os filmes incluídos nos DVDs passaram a estar acessíveis ainda através do Banco de Conteúdos Culturais.3

01. Sessão “Como era gostoso o nosso cinema” do Canal Brasil

A criação do Canal Brasil, em 1998, representou o surgimento de uma nova janela de exibição de filmes brasileiros antigos na televisão. Com grande demanda pela aquisição de conteúdo para sua programação, o Canal Brasil oferecia, além do pagamento ao produtor pelos direitos de transmissão, os custos de telecinagem4 de filmes que não tivessem cópias em vídeo (Beta, depois Full-HD). Para alguns produtores brasileiros, sobretudo de obras comerciais que praticamente não monetizavam seus filmes desde a decadência do mercado de VHS, era um dinheiro caído do céu. Naturalmente, o principal tipo de filme que chegou ao Canal Brasil foi o da popularíssima pornochanchada, produzida entre os anos 1970 e 1980, o que motivou, inclusive, a criação da sessão “Como era gostoso o nosso cinema”, especialmente dedicado ao gênero. Poucos produtores conseguiram lançar comercialmente seus filmes fora do Canal Brasil, sendo uma exceção o ator, diretor e produtor Carlo Mossy, que lançou seus filmes numa coleção de DVDs em 2013. A ampla disponibilidade de um grande número de pornochanchadas após sua exibição pelo Canal Brasil (logo copiados e e postados na internet) permitiu o bem-vindo reexame do gênero. Embora autores como Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar e José Mário Ortiz Ramos tenham escrito sobre o gênero nos próprios anos 1970 e 1980, poucos na academia – talvez com a principal exceção de Nuno Cesar Abreu – deram prosseguimento à qualidade e perspicácia destes trabalhos pioneiros. Apenas mais recentemente tem surgido bons trabalhos acadêmicos que vão além de uma análise totalizante – e simplista – do gênero, fugindo de uma relação mecanicista com a censura, focando em filmes e filmografias específicas e apontando a inevitável, mas pouco percebida diversidade da pornochanchada, em termos de temas, abordagens e qualidade. Dissertações de mestrado como a de Luiz Paulo Gomes (A construção de um profeta: a prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero da pornochanchada, UFF, 2012) e de Luciano Carneiro de Oliveira Júnior (Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980, UFF, 2019), ambas orientadas pela professora Mariana Baltar, foram alguns dos bons frutos da disponibilidade em formato digital de um número muito mais amplo de filmes que permitiram a comparação, análise e crítica.

1. Em razão da atual crise da Cinemateca Brasileira, decorrente de ações recentes do governo, o site do Banco de Conteúdos Culturais, hospedado pela Cinemateca, tem sofrido frequentemente com problemas técnicos.

2. No Brasil, governos ocasionalmente lançam editais públicos, que são semelhantes a bolsas ou auxílios. Os editais públicos são oportunidades abertas a qualquer interessado para concorrer a financiamento, geralmente voltadas a obras culturais ou projetos de pesquisa.

3. Ver item 1.

4. Telecine é o processo de transferência de filme cinematográfico para vídeo. A telecinagem permite que uma obra originalmente captada em película seja exibida em equipamentos padrão de vídeo, como aparelhos de televisão, videocassetes (VCR), DVD, Blu-ray ou computadores.

Desde os anos 1990, os mais ambiciosos e vultuosos projetos de restauração de filmes realizados no Brasil foram aqueles voltados para a filmografia de consagrados cineastas do Cinema Novo, como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e Nelson Pereira dos Santos. Foram projetos que restauraram e produziram novas cópias de exibição de muitos títulos que já eram considerados clássicos. De certo modo, não fizeram filmes como Terra em transe (Glauber Rocha, 1967) ou Eles não usam black-tie (Leon Hirszman, 1981) serem necessariamente considerados mais importantes do que eles já eram para a história do cinema brasileiro.

Essa lista, pautada pela minha experiência pessoal, privilegia outros tipos de iniciativas. Tentei elencar projetos realizados nas últimas duas décadas que tiveram um amplo impacto, particularmente junto a pesquisadores e professores universitários, para um movimento de revisão da história do cinema brasileiro. Foram projetos que provocaram sentimentos de frescor, surpresa e novidade. Um dos critérios fundamentais na escolha desses dez projetos foi sua ampla repercussão e alcance, tendo ajudado a ampliar, alterar ou revisar os cânones.

Assim, um projeto importante como “Clássicos e raros do nosso cinema”, realização da Cinemateca Brasileira com o patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil, não foi incluído apesar de seus inegáveis méritos. Afinal, o projeto viabilizou a feitura de novas cópias 35mm que, elevadas a materiais de preservação, foram projetadas pouquíssimas vezes para além da exibição contratual nas mostras que viabilizaram sua produção, restritas a São Paulo e, no máximo, também ao Rio de Janeiro.

Além disso, projetos importantes, porém mais recentes, como a digitalização e lançamento em DVD de filmes de Hugo Carvana e de Aloysio Raulino, também não foram incluídos por sua repercussão na academia – não tão imediata quanto na crítica, por exemplo – ainda me parecer estar sendo processada. Podemos mencionar ainda situações em que o interesse acadêmico antecedeu as ações de preservação. Esse parece ser o caso da “redescoberta” do primeiro longa-metragem dirigido por uma cineasta negra – Amor maldito (Adélia Sampaio, 1984) – pela tese de Edileuza Penha de Souza (Cinema na Panela de Barro: Mulheres Negras, Narrativas de Amor, Afeto e Intimidade, UnB, 2013). A atenção dada a Amor maldito levou à situação do filme passar a ser amplamente solicitado para exibições por volta de 2017, mas circulando então em cópias antigas cuja qualidade não correspondia ao renovado interesse por ele.

De um modo geral, busquei nessa lista evidenciar como a originalidade, o cuidado e a pesquisa envolvida na curadoria, planejamento e realização de projetos de digitalização, duplicação, difusão e restauração são fundamentais para o seu sucesso. Tentei ainda destacar a relevante e contínua influência de ações de preservação e difusão na historiografia do cinema brasileiro. Por fim, o objetivo principal é menos hierarquizar diferentes ações do que estimular o debate.

14. Corcina e o Cinema Alternativo Carioca

O cineasta e professor (hoje aposentado) da UFF, Roberto Moura, vinha desenvolvendo desde os anos 2000 um projeto de pesquisa voltado para o que ele chamava de “cinema alternativo carioca”, englobando a ampla produção, sobretudo de curtas-metragens, realizada no Rio de Janeiro dos anos 1970, envolvendo integrantes da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), produtoras como a Corisco, do próprio Moura, e principalmente a Corcina – Cooperativa de Realizadores Cinematográficos Autônomos. Trata-se de uma produção marcada por diversidade e experimentalismo, que floresceu com a chamada Lei do Curta, realizada por diretores como José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, entre outros. Mais recentemente, Lucas Parente, filho do professor e realizador André Parente, diretor de curtas que podem ser enquadrados nesse movimento, iniciou um movimento de resgate desse material, junto com a Cinemateca do MAM, o Dobra – festival internacional de cinema experimental, entre outros parceiros. A digitalização realizada, em 2019, de Eclipse (Antonio Moreno, 1984), animação com intervenção direta na película, foi exibida em diversos festivais e eventos acadêmicos, dando continuidade, de forma mais ampla à pesquisa de Roberto Moura, e fomentando um renovado interesse sobre esses filmes e realizadores.

13. DVD de A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) da Funarte lançou nas últimas décadas belas edições em DVD de filmes de seu acervo, como o de filmes silenciosos realizados em Cataguazes e Recife ou ainda de longas-metragens sonoros como O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) e Assalto ao trem pagador (Roberto Farias, 1962). Merece destaque especial o lançamento, em 2004, da DVD com a bela cópia do segundo longa-metragem de Antonio Carlos Fontoura, A Rainha Diaba (1974). A redescoberta desse “thriller pop-gay-black” com Milton Gonçalves no papel título, dois anos depois do lançamento de “Madame Satã”, dirigido por Karïm Anouz e protagonizado por Lázaro Ramos, colocou em evidência esse que é um dos mais interessantes filmes brasileiros da década de 1970. Trata-se de um belo exemplo do resgate de um filme que se mostrou bastante atual no momento de sua redescoberta. A edição caprichada do DVD, recheado de bem produzidos extras (entrevistas, making off inédito, trailers etc.), foi outro incentivo para ampla circulação de A Rainha Diaba após um certo esquecimento ao que o filme tinha sido injustamente relegado.

12. A reconstituição de Acabaram-se os otários (1929)

A reconstituição de Acabaram-se os otários foi um projeto desenvolvido pelo Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (LUPA-UFF) e realizado por mim e pelo professor Reinaldo Cardenuto. O projeto resultou no lançamento, em 2019, de uma versão reduzida do primeiro longa-metragem brasileiro sonoro, considerado um filme perdido, o que foi possibilitado pela reunião de diferentes fragmentos remanescentes da obra, tais como trechos de imagens em movimento, fotografias e registros sonoros. Trata-se de um projeto de preservação audiovisual que, diferentemente do restante da lista, foi uma consequência e não o impulsionador de uma pesquisa acadêmica. Assim como o estudo da chegada e popularização do cinema sonoro no Brasil vinha motivando interesse de diversos pesquisadores como Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar) e Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), além de mim mesmo, a obra de Luiz de Barros também vinha recebendo mais atenção por parte de pesquisadores como Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) e seus orientandos, como Evandro Vasconcellos (“Entre o Palco e a Tela: As relações do cinema com o teatro de revista em comédias musicais de Luiz de Barros”, UFSCar, 2015). A reconstituição de Acabaram-se os otários, por outro lado, pode vir a incentivar outros projetos que conjugam pesquisa histórica e preservação audiovisual, aproximando mais as universidades e as cinematecas.

11. Restaurações "Clássicos da Cinédia"

Em 2004, a Cinédia lançou cópias restauradas de quatro filmes produzidos pela empresa através de projeto patrocinado pela BR Distribuidora. Um deles, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), já era o mais conhecido musical brasileiro dos anos 1930. Mas dois outros – Mulher (Oduvaldo Viana, 1931) 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) – eram verdadeiras “novidades” para os pesquisadores, por não circularem amplamente havia muitos anos. Dirigido por Octávio Gabus Mendes, Mulher era um filme mudo com músicas sincronizadas por discos, num momento em que os talkies já estavam em pleno sucesso no Brasil havia dois anos, mas quando muitas salas de cinema, especialmente nos subúrbios e no interior, ainda não haviam se adaptado para o cinema sonoro. Trata-se ainda um filme de grande sofisticação, comparável a outra realização muda tardia da Cinédia, a do clássico Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). Além de interessar a pesquisas sobre o som no cinema e o cinema silencioso, a restauração do filme foi o tema da dissertação de mestrado de Joice Scavone (“Mulher - trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia”, UFF, 2013) que evidenciava a ligação mais estreita entre pesquisa história e preservação de filmes na academia. Apesar da circulação restrita dos filmes, que circularam muito tempo apenas em cópias 35mm – colaborando que o quarto filme restaurado, Romance proibido (Adhemar Gonzaga, 1944) permaneça pouco conhecido – o impacto do projeto junto à academia foi significativo.

10. Duplicação de Fábula ou Moro em Copacabana de Arne Sucksdorff

O cineasta sueco Arne Sucksdorff era mais conhecido na história do cinema brasileiro por ter oferecido um curso no Rio de Janeiro, em 1962, que virou um marco na história do Cinema Novo. Antes, porém, de se radicar no pantanal mato-grossense, onde viveria até a morte, Sucksdorff realizou o fascinante Fábula (1965), longa-metragem em coprodução com a Suécia que foi praticamente esquecido desde o seu lançamento. Em meados dos anos 1990, num projeto em parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil, Chico Moreira, então conservador da Cinemateca do MAM, fez uma cópia nova, reduzida para 16mm, do contratipo original 35mm da versão brasileira do filme preservado no acervo da instituição. Nos anos 2000, Hernani Heffner – que sucedeu Chico na Cinemateca do MAM – passou a projetar Fábula com frequência em diferentes oportunidades, sempre com enorme repercussão junto ao público, deslumbrado com aquela obra praticamente desconhecida. Estudiosos logo se interessaram. João Luiz Vieira analisou o filme em seu capítulo no premiado livro World Cinemas, Transnational Perspectives, organizado por Natasa Ďurovičová e Kathleen Elizabeth Newman, publicado em 2009. Eu mesmo escrevi sobre o filme no catálogo da mostra “Olhares Neo-Realistas”, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2006. O filme se tornou ainda objeto de amplo projeto de pesquisa da professora Esther Hamburguer (USP), que viabilizou a vinda para o Brasil de uma cópia digital da versão sueca. O interesse suscitado pelo filme foi tanto que, em 2011, o Instituto Moreira Salles financiou a confecção de uma nova cópia, agora em 35mm, da versão brasileira a partir do contratipo original.

09. DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70”

Lançados, respectivamente, em 2005 e 2006, através de uma parceria entre o Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Centro Afro Carioca de Cinema e a Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura, os DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70” foram fundamentais para ampliar a circulação e permitir a revalorização de filmes de importantes cineastas negros brasileiros. O DVD duplo “O cinema de Zózimo Bulbul” trazia seis filmes do ator e diretor, realizados entre os anos 1970 e 2000. Seu primeiro curta-metragem, Alma no Olho (1973) tem sido reavaliado como a obra-prima que é, sendo recentemente escolhido, por exemplo, como o 11º melhor curta-metragem da história do cinema brasileiro na listagem feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, em 2019. Já o DVD duplo “Obras raras: o cinema negro da década de 70” apresentava seis filmes dirigidos por Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre e Odilon Lopez. De especial destaque é o longa-metragem As aventuras amorosas de um padeiro (1975), longa-metragem de estreia de Onofre produzido por Nelson Pereira dos Santos. Além do protagonista negro, essa comédia erótica produzida durante o “clímax” da pornochanchada se destaca por seu tom feminista, raro num gênero recheado de obras machistas e preconceituosas. Assim, além de colaborar para o crescente interesse pelo cinema negro na academia, o DVD auxiliou a revisão do cinema de Onofre e, de forma mais ampla, da própria pornochanchada.

08. Mostra “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação”

O pesquisador Remier Lion tinha a ambição de realizar uma ampla mostra retrospectiva com esse provocativo título na Cinemateca do MAM, na ocasião em que ela retomou sua programação após a grave crise que assolou a instituição no início dos anos 2000. Sem receber, então, acolhida do curador Gilberto Santeiro (muito incomodado com a provocação à respeitabilidade do cinema brasileiro), Remier levou parte da sua programação para cineclubes que organizou em diferentes locais do Rio de Janeiro, num projeto chamado “Malditos filmes brasileiros”. Finalmente, a mostra chegou à Cinemateca Brasileira, onde ela foi realizada com enorme sucesso em 2004, levando Remier a se incorporar, inclusive, à equipe de programação. A sua realização na Cinemateca Brasileira permitiu, inclusive, o acesso de Remier a materiais ainda mais raros para seu projeto. Embora possa ser entendido dentro de um quadro geral de revisão e revalorização do cinema da Boca do Lixo, a mostra “Cinema Brasileiro: a vergonha de uma nação” tinha um escopo mais amplo ao incorporar, por exemplo, um cineasta que Remier já pesquisava há tempos, como Nilo Machado e que produziu filmes de strip-tease desde os anos 1960. De um modo geral, a mostra jogava luz sobre diversos e desconhecidos exemplares da longa trajetória do cinema brasileiro comercial, popular e de gênero, que a historiografia pouco contemplou, com sua ênfase autoral. Assim, o evento que recebeu enorme cobertura da mídia e grande repercussão junto ao público, ia ao encontro de muitas pesquisas já desenvolvidas, como a dissertação de Rodrigo Pereira (“Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro”, Unesp, 2002), ou que ainda iriam ser concluídas, como as teses de doutorado de Laura Cánepa (“Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros”, Unicamp, 2008) e Alfredo Suppia (“Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita: uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood”, Unicamp, 2017).

07. Restauração de Aviso aos navegantes

Com o patrocínio da BR Distribuidora e da Petrobrás, o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) realizou importantes restaurações, nas últimas décadas, de filmes de diferentes épocas e diretores. Talvez a mais notável tenha sido a da chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), realizada entre 1999 e 2000. Quando as chanchadas começaram a ser revalorizadas nos anos 1970, Jean-Claude Bernardet destacou Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) como um dos mais importantes filmes políticos do cinema brasileiro. A partir de então, se alguma chanchada fosse incluída na lista dos mais importantes filmes brasileiros de todos os tempos, geralmente era essa paródia de Hollywood recheada de críticas sobre o governo Getúlio Vargas. Posteriormente, a partir de estudos como os de João Luiz Vieira, Robert Stam e Arthur Autran, o filme Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) tornou-se o exemplar mais valorizado do gênero, com seu caráter reflexivo e uma sofisticada discussão sobre a política do cinema brasileiro. O filme de Burle passou a ocupar o lugar de destaque dentro do gênero antes dado ao filme de Carlos Manga. Produzido antes desses dois, Aviso aos navegantes destaca-se não como uma exceção, mas como a regra do gênero, como um exemplar clássico. Ao invés de destoar delas, o filme exemplifica as fórmulas e clichês da chanchada, mas em sua melhor forma, trazendo no elenco Oscarito e Grande Otelo, o vilão José Lewgoy e a dupla Eliane e Anselmo. Restaurado na Labocine por Chico Moreira a partir de diferentes cópias e materiais de formatos e procedências distintas, Aviso aos navegantes vem aos poucos, e merecidamente, tornando-se a referência principal dos estudiosos para o gênero.

06. Projeto de Recuperação da Obra de Moacyr Fenelon

Realizado pelo Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro – leia-se Dona Alice Gonzaga e Hernani Heffner – o projeto de restauração de filmes de Moacyr Fenelon se estendeu entre 2006 e 2010, com patrocínio do Programa Petrobrás Cultural. O projeto trouxe à tona cinco longas-metragens realizados entre 1948 e 1951 que não eram vistos há décadas. Mais conhecido como pioneiro técnico de som nos anos 1930 e como um dos criadores da Atlântida, Moacyr Fenelon teve a parte final de sua carreira coberta pelo projeto, quando se lançou com a Cine-Produções Fenelon e, em seguida, se associou a Flama Filmes. Infelizmente, sua morte relativamente precoce, em 1953, impediu que o diretor tivesse uma participação mais efetiva no movimento que ajudou a fomentar, lembrando que Nelson Pereira dos Santos batizou a equipe que realizou Rio 40 graus, não à toa, de “Equipe Moacyr Fenelon”. Em minha tese de doutorado, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil - 1915-1951” (UFF, 2011), dois filmes trazidos à tona por esse projeto foram fundamentais como exemplares de um cinema dramático realizado a partir do pós-guerra no Brasil: Obrigado, Doutor (Moacyr Fenelon, 1948), baseado em série radiofônica homônima, e Dominó negro (Moacyr Fenelon, 1950), adaptado de novela de Hélio Soveral. De forma mais ampla, a atuação de Fenelon como “produtor independente” foi um dos temas principais da fantástica tese de doutorado de Luís Alberto da Rocha Melo (Cinema independente”: produção, distribuição e exibição no Rio de Janeiro, UFF, 2011), demonstrando o pioneirismo de Fenelon como “produtor independente” e desenvolvendo o modo de produção que seria seguido posteriormente por autores hoje identificados com o chamado “cinema independente dos anos 50”, tais como Alex Viany, Roberto Santos e o próprio Nelson Pereira dos Santos. Por fim, o musical Poeira de estrelas (Moacyr Fenelon, 1948) surpreendeu ao mostrar o amor entre duas mulheres, recebendo a pioneira análise de Mateus Nagime num dos capítulos de sua dissertação “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. Caixa de DVDs “Coleção CTAv”

Iniciativa do Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) em parceria com a Cinemateca Brasileira, a digitalização de curtas e médias produzidos pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), pelo Instituto Nacional de Cinema (INC) e pela Embrafilme, tornou disponível um grande número de documentários produzidos pelo Estado entre os anos 1930 e 1970. A bela caixa de DVDs “Coleção CTAv” resultante do projeto, fartamente distribuída para as universidades, com 110 títulos divididos em 20 discos, não só permitia uma visão mais ampla da filmografia de um cineasta como Humberto Mauro, como trazia obras menos conhecidas de diversos outros diretores importantes, de Leon Hirszman a Arthur Omar, de Adhemar Gonzaga a Linduarte Noronha, além de um amplo leque de filmes educativos, etnográficos, animações e compilações. Os filmes de educação rural de Mauro, produzidos nos anos 1950, por exemplo, ganharam um capítulo especial de Sheila Schwarzman no recente livro “Nova história do cinema brasileiro” (2018), enquanto filmes que abordam a própria história do cinema brasileiro, como o importante Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) foi tema do capítulo de Luís Alberto Rocha Melo do seminal livro “Feminino plural: Mulheres no cinema brasileiro”, organizado por Marina Tedesco e Karla Holanda, a partir de seu projeto sobre a historiografia audiovisual do cinema brasileiro. Esses filmes lançados em DVD também passaram a estar acessíveis através do Banco de Conteúdos Culturais.1

04. Mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras”

Realizada inicialmente em São Paulo, em 2001, a mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras” foi talvez o grande evento dedicado ao cinema brasileiro dentre a série de mostras marcantes patrocinadas pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) nos anos 2000. Organizado por Eugenio Puppo, da Heco Produções, a mostra reuniu um amplo conjunto de filmes que há muitos anos não eram exibidos, muito menos conjuntamente. O evento ajudou ainda a consolidar uma fórmula de sucesso: mostra de filmes + debates + catálogo com textos encomendados a especialistas + cópias novas para estreia no evento. O impacto da revisão de filmes experimentais, debochados e desafiadores realizados entre os anos 1960 e 1970 foi enorme, sobretudo em comparação com o então criticado cinema caro e careta, financiado pelas leis de incentivo, da retomada do Cinema Brasileiro. Na UFF, o professor João Luiz Vieira acompanhou a mostra com uma disciplina optativa dedicada ao cinema marginal. Na esteira do evento e de seu sucesso, produtores e críticos do Rio de Janeiro organizaram, posteriormente, mas no mesmo CCBB, mostras dedicadas individualmente a Rogério Sganzerla e Julio Bressane, novamente confeccionando cópias novas que permitiam a (re)descoberta de vários títulos mais obscuros da filmografia desses cineastas. O impacto acadêmico foi notável, com um número enorme de dissertações e teses sendo dedicadas a esse movimento que suplantou o Cinema Novo em popularidade na universidade. A própria Heco Produções lançou, em 2009, a coleção de DVDs Cinema Marginal Brasileiro, em parceria com a Lume e Cinemateca Brasileira, colaborando ainda mais para a ampla circulação desses filmes. Nesse mesmo movimento, um filme como Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restaurado entre 2013 e 2015 através do Programa Petrobras Cultural, e em seguida lançado em DVD, passou a ser tema de inúmeras pesquisas acadêmicas e apresentações em congressos.

03. Projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”

Diretor de dois longas ficcionais nos anos 1960 e de diversos curtas documentários entre as décadas de 1950 e 1970, Gerson Tavares teve seu nome e filmes apagados da história do cinema brasileiro. O projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”, aprovado na primeira (e até hoje única) edição do edital2 Preservação e Conservação da Memória Artística Fluminense da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, em 2012, tinha como objetivo inicial restaurar o filme Antes, o verão (1968), que corria o risco de se perder. O escopo foi ampliado para a digitalização também do filme Amor e desamor (1966) e de outros sete curtas do diretor, lançados em DVD duplo, numa edição não-comercial. A finalização do projeto permitiu quase um relançamento dos filmes e a redescoberto do diretor octogenário pelas novas gerações. Comparado a Walter Hugo Khouri, Gerson Tavares era prova de um cinema dramático de qualidade realizado no Rio de Janeiro dos anos 1960 para além do Cinema Novo. Ausente da maior parte dos livros panorâmicos sobre história do cinema brasileiro até então, o projeto permitiu que o nome de Gerson Tavares fosse reinscrito nessa história. Exemplo disso foi a citação a seus filmes no capítulo que Fernão Ramos escreveu sobre os anos 1960, quase inteiramente dedicado ao Cinema Novo, no recente “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organizado pelo próprio Fernão e Sheila Schvarzman.

02. Caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”

Em seu fundamental livro “Cinema brasileiro: propostas para uma história”, de 1979, Jean-Claude Bernardet apontou a importância do filme documentário (ou natural) no cinema silencioso brasileiro, apesar da atenção muito maior dada ao filme ficcional (ou posado) pelos historiadores. Entretanto, a disponibilidade de cinejornais, atualidades e registros documentais brasileiros produzidos até 1930 sempre foi escassa, apesar de representar um volume muito maior de títulos preservados do que as esparsas ficções. Uma ação fundamental para dar acesso a essa produção foi o projeto desenvolvido na Cinemateca Brasileira, por Carlos Roberto de Souza, da caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”, finalizado em 2009. Patrocinado pela Caixa Econômica Federal, a caixa era composta por 27 filmes reunidos em cinco DVDs e um livreto de autoria de Carlos Roberto. Apesar da presença de posados, como o mais antigo filme de ficção preservado, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), a grande maioria dos títulos eram de naturais, reunidos em 5 temas: “Riquezas Paulistas”, “Aspectos do Brasil”, “Ciências (mesmo ocultas) e riquezas”, “Vida cotidiana” e “Cerimônias públicas”. A circulação desses filmes permitiu que mais pesquisadores tivessem acesso a um amplo conjunto de filmes pouco vistos anteriormente, fortalecendo as pesquisas sobre o cinema silencioso brasileiro. Elas já tinham ganhado impulso com as reuniões de pesquisadores na Cinemateca Brasileira que resultaram no livro “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organizado por Samuel Paiva e Sheila Schvarzman, em grande parte também dedicado aos pouco estudados filmes naturais, sem falar de importantes artigos escritos por Eduardo Morettin e Hernani Heffner. Posteriormente, os filmes incluídos nos DVDs passaram a estar acessíveis ainda através do Banco de Conteúdos Culturais.3

01. Sessão “Como era gostoso o nosso cinema” do Canal Brasil

A criação do Canal Brasil, em 1998, representou o surgimento de uma nova janela de exibição de filmes brasileiros antigos na televisão. Com grande demanda pela aquisição de conteúdo para sua programação, o Canal Brasil oferecia, além do pagamento ao produtor pelos direitos de transmissão, os custos de telecinagem4 de filmes que não tivessem cópias em vídeo (Beta, depois Full-HD). Para alguns produtores brasileiros, sobretudo de obras comerciais que praticamente não monetizavam seus filmes desde a decadência do mercado de VHS, era um dinheiro caído do céu. Naturalmente, o principal tipo de filme que chegou ao Canal Brasil foi o da popularíssima pornochanchada, produzida entre os anos 1970 e 1980, o que motivou, inclusive, a criação da sessão “Como era gostoso o nosso cinema”, especialmente dedicado ao gênero. Poucos produtores conseguiram lançar comercialmente seus filmes fora do Canal Brasil, sendo uma exceção o ator, diretor e produtor Carlo Mossy, que lançou seus filmes numa coleção de DVDs em 2013. A ampla disponibilidade de um grande número de pornochanchadas após sua exibição pelo Canal Brasil (logo copiados e e postados na internet) permitiu o bem-vindo reexame do gênero. Embora autores como Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar e José Mário Ortiz Ramos tenham escrito sobre o gênero nos próprios anos 1970 e 1980, poucos na academia – talvez com a principal exceção de Nuno Cesar Abreu – deram prosseguimento à qualidade e perspicácia destes trabalhos pioneiros. Apenas mais recentemente tem surgido bons trabalhos acadêmicos que vão além de uma análise totalizante – e simplista – do gênero, fugindo de uma relação mecanicista com a censura, focando em filmes e filmografias específicas e apontando a inevitável, mas pouco percebida diversidade da pornochanchada, em termos de temas, abordagens e qualidade. Dissertações de mestrado como a de Luiz Paulo Gomes (A construção de um profeta: a prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero da pornochanchada, UFF, 2012) e de Luciano Carneiro de Oliveira Júnior (Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980, UFF, 2019), ambas orientadas pela professora Mariana Baltar, foram alguns dos bons frutos da disponibilidade em formato digital de um número muito mais amplo de filmes que permitiram a comparação, análise e crítica.

1. Em razão da atual crise da Cinemateca Brasileira, decorrente de ações recentes do governo, o site do Banco de Conteúdos Culturais, hospedado pela Cinemateca, tem sofrido frequentemente com problemas técnicos.

2. No Brasil, governos ocasionalmente lançam editais públicos, que são semelhantes a bolsas ou auxílios. Os editais públicos são oportunidades abertas a qualquer interessado para concorrer a financiamento, geralmente voltadas a obras culturais ou projetos de pesquisa.

3. Ver item 1.

4. Telecine é o processo de transferência de filme cinematográfico para vídeo. A telecinagem permite que uma obra originalmente captada em película seja exibida em equipamentos padrão de vídeo, como aparelhos de televisão, videocassetes (VCR), DVD, Blu-ray ou computadores.

Since the 1990s, the most ambitious and well-funded film restoration projects in Brazil have focused on the filmography of renowned filmmakers from the Cinema Novo movement such as Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman and Nelson Pereira dos Santos. These projects restored and produced new exhibition prints of many titles that were already considered classics. But the canonical status of the works that these directors produced, such as Entranced Earth (Glauber Rocha, 1967) or They Don't Wear Black Tie (Leon Hirszman, 1981), aren’t going to be further elevated through film restorations. Rather, the restoration of these films only reinforced the notion that they were the single-best titles Brazilian cinema had to offer.

This list, based on my experiences as a film archivist and film scholar, privileges initiatives that have focused on historically ignored films, periods, or genres throughout Brazilian cinema history. I attempted to list projects, retrospectives, and events carried out over the last two decades that allowed researchers and academics the opportunity to reevaluate the history of Brazilian cinema in their work. These projects brought to light films from the past that had not been widely seen or discussed for many years (some even since they were first released), provoking feelings of freshness, surprise, and novelty towards a wider historical array of Brazilian films.

One of the criteria in compiling this list was that each project expanded, altered, or revised long existing Brazilian Cinema canons. Thus, an important program such as the 2013 “Clássicos e raros do nosso cinema”, conducted by the Cinemateca Brasileira with the sponsorship of the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), was not included in this list despite its undeniable merits. While new 35mm prints were struck as a result of that program, these prints were projected very few times outside of São Paulo and Rio de Janeiro (the main cities the program took place in) because they were elevated to the status of preservation prints.

In addition, important projects such as the digitization and DVD release of films by Hugo Carvana and Aloysio Raulino by the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in 2017 were not included in this list because it is still too recent to evaluate their impact on the academic world. There are also situations in which academic interest preceded preservation actions. This seems to have been the case with the “rediscovery” of the first Brazilian feature film directed by a black woman, Adélia Sampaio’s Amor maldito (1984). When Amor Maldito was written about in the PhD thesis of Edileuza Penha de Souza, “Cinema na panela de barro: mulheres negras, narrativas de amor, afeto e identidade” (UnB, 2013), the new attention given to the film led to it being widely requested for exhibitions in around 2017. However, the circulating copies of the film were unfortunately in bad quality and did not correspond to the film’s renewed interest.

In this list, I generally sought to show how originality, care and research involved in these projects were fundamental to their success. I also tried to highlight the relevant and continuous impact that preservation and diffusion actions have in reshaping the historiography of Brazilian cinema. Finally, the objective of this list is less to rank different preservation projects than to stimulate new debate about them.

14. Corcina and Rio de Janeiro’s Underground Cinema

Roberto Moura, the (now retired) filmmaker and professor at UFF, began a research project in the 2000s that focused on what he called “cinema alternativo carioca” (Rio de Janeiro underground cinema). This project focused on the wide ranging film production (especially of short films) of Rio de Janeiro in the 1970s and early 1980s. Involving members of the Brazilian Association of Documentarians (ABD), production companies would include Corisco, Moura himself, and especially Corcina - Cooperative of Independent Film Directors. The underground films of this period are marked by a diversity and experimentalism which flourished under the so-called “Lei do Curta” (the mandatory exhibition of Brazilian short films together with foreign features). Directors such as José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, all participated in making bold short works. More recently, Lucas Parente (son of the multimedia artist and professor André Parente, who directed some short films that are included in this trend), started a movement to rescue this material, together with the Cinemateca do MAM, Dobra - International Festival of Experimental Cinema, and others. As a result of these efforts, a 2019 digitalization of Eclipse (Antonio Moreno, 1984), an animation painted directly on film, was exhibited in several festivals and academic events, giving continuity to Roberto Moura's research, and fostering a renewed interest in these films and directors.

13. The DVD Release of A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) has launched beautiful DVD editions of films from its collection over the past decades, such as silent films made in Cataguazes and Recife or even sound feature films such as O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) and Assault on the Pay Train (Roberto Farias, 1962). Special mention should be made of the 2004 release of Antonio Carlos Fontoura's second feature film A Rainha Diaba (1974) on a beautiful DVD copy. This “pop-gay-black thriller” (as it was announced at the time of its release) was rediscovered two years after the premiere of Madame Satã by Karïm Anouz, helping to highlight that A Rainha Diaba is one of the most interesting Brazilian films of the 1970s. This is a beautiful example of the rescue of a film that was still very “modern” even at the time of its rediscovery. The neat edition of the DVD, filled with well-produced extras (interviews, making-ofs, trailers, etc.), was another incentive for the wide circulation of A Rainha Diaba after a certain ostracism to which the film had initially been unfairly relegated.

12. The Reconstruction of Acabaram-se os otários (1929)

The reconstruction of Acabaram-se os otários (1929) was a project developed by the University Laboratory of Audiovisual Preservation of the Federal Fluminense University (LUPA-UFF) and carried out by myself and professor Reinaldo Cardenuto. The project resulted in the 2019 launch of a shortened version of the first Brazilian sound feature film, which is considered lost. This project gathered together different remaining fragments of the work such as excerpts of moving images, photographs and sound records. This audiovisual preservation project, unlike the rest on this list, was a consequence of and not the impetus for academic research. As the study of the arrival and popularization of sound cinema in Brazil motivated the interest of several researchers such as Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar), and Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), the work of Luiz de Barros began receiving more attention from researchers as well. Researchers of Luiz de Barros include myself, Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) and her graduate student Evandro Vasconcellos, author of the M.A. dissertation “Entre o palco e a tela: as relações do cinema com o teatro de revista nas comédias de Luiz de Barros” (UFSCar, 2015). The reconstruction of Acabaram-se os otários, on the other hand, may come to encourage other projects that combine historical research and audiovisual preservation, bringing universities and film archives closer together.

11. “Classics of Cinédia” Restorations

In 2004, Cinédia released copies of four restored films produced by the company through a project sponsored by BR Distribuidora. One of them, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), was already the most well-known Brazilian musical of the 1930s. But two others - Mulher (Octávio Gabus Mendes, 1931) and 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) - were true “novelties” for researchers, as they had not been widely circulated for many years. Directed by Octávio Gabus Mendes, Mulher was a silent film with music synchronized with Vitaphone records at a time when talkies were already the norm in Brazil for two years. However, at that time, many movie theaters, especially in the suburbs and in the countryside, had not yet begun the move toward sound cinema. The film is highly sophisticated, comparable to another late silent production by Cinédia, the classic Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). In addition to prompting interesting research on sound in cinema and silent cinema, the restoration of Mulher was the subject of the M.A. dissertation by Joice Scavone, “Mulher: a trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia” (UFF, 2013), which discussed the close link between film studies and film preservation in academia. The Classics of Cinédia restorations remain in restricted circulation, many of the works still unavailable in digital format. As a result, the fourth film which was restored, Adhemar Gonzaga’s 1944 Romance proibido remains practically unknown to audiences. Despite this, the films that are accessible had an extremely significant impact on the academic world.

10. Duplication of Fábula or Mitt Hem är Copacabana by Arne Sucksdorff

Swedish filmmaker Arne Sucksdorff was best known in the history of Brazilian cinema for having offered a film course in Rio de Janeiro in 1962, which became a milestone moment for the emerging Cinema Novo movement. However, before moving to Mato Grosso’s Pantanal (where he would live until his death), Sucksdorff shot the fascinating Fábula (1965) in Rio de Janeiro. This feature film was co-produced with Sweden and it had been practically forgotten since its initial release. However, in the mid-1990s, in a project in partnership with the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), Chico Moreira, who was then the head of conservation at the Cinemateca do MAM, duplicated the film. Chico produced a new 16mm exhibition print optically reduced from the original 35mm internegative of the Brazilian version of the film which had been preserved by the film archive. In the 2000s, Hernani Heffner - who succeeded Chico at the Cinemateca do MAM - began to frequently screen that 16mm print of Fábula, always with enormous success among the public who were dazzled by this practically unknown work. Scholars soon became interested. João Luiz Vieira analyzed the film in the award-winning 2009 book “World Cinemas, Transnational Perspectives”, edited by Natasa Ďurovičová and Kathleen Newman. I myself wrote about the film in the catalog of the “Olhares Neo-Realistas” film series, held at the Banco do Brasil Cultural Center in 2006. The film also became the subject of a wider research project by professor Esther Hamburger (USP), which brought to Brazil a digital copy of the Swedish version. The interest aroused by the film was such that in 2011 the Moreira Salles Institute financed the making of a new print of the Brazilian version – this time in 35mm – from the original internegative.

09. DVDs "Os filmes de Zózimo Bulbul" and " Obras raras: o cinema negro da década de 70" (Films of Zózimo Bulbul" and "Rare works: Black Cinema of the 70s)

Released in 2005 and 2006 through a partnership between the Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Afro Carioca Cinema Center and the Palmares Cultural Foundation of the Ministry of Culture, the DVDs “Films of Zózimo Bulbul” and “Rare works: the black cinema of the 70s” were fundamental towards expanding the circulation of films by important black Brazilian filmmakers as well as contributing to their revaluation. The double DVD-set “Films of Zózimo Bulbul” featured six films by the actor and director, made between the 1970s and 2000s. Bulbul’s first short film Alma no Olho (1973) has been reevaluated as the masterpiece that it is, being recently chosen as the 11th best short film in the history of Brazilian cinema in a list made by the Brazilian Association of Film Critics (Abbracine) in 2019. The double DVD “Rare works: black cinema of the 70s” presented six films directed by Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre and Odilon Lopez. Of particular note is the feature film As aventuras amorosas de um padeiro (1975), Onofre's debut feature film produced by Nelson Pereira dos Santos. In addition to the black protagonist, this erotic comedy produced during the “climax” of pornochanchada stands out for its feminist tone, rare in a genre filled with sexist works. Thus, in addition to contributing to the growing interest in black cinema in the academic world, the DVD also helped newly highlight Onofre's cinema and, more broadly, the pornochanchada itself.

08. Event “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação” (Brazilian Cinema, the Shame of a Nation)

Researcher Remier Lion had the ambition to hold a large retrospective of Brazilian exploitation films with this provocative title (a reference to Howard Hawks’ 1932 Scarface) at the Cinemateca do MAM when it had just resumed its programming after a serious crisis hit the institution in the early 2000s. However, his idea was not well received by the institution’s then curator Gilberto Santeiro, who was very uncomfortable with the provocation aimed at the respectability of Brazilian cinema. Despite this, Remier brought part of his program to film clubs in different locations of Rio de Janeiro, titling the new program “Malditos films brasileiros” (Damned Brazilian Films). Finally, the program reached the Cinemateca Brasileira, where it was held with enormous success in 2004, even leading Remier to join the programming team of the film archive. Working at the Cinemateca Brasileira provided Remier with access to even rarer materials for his project. Although Remier’s program can be understood as a general revision and revaluation of the films made at the “Boca do Lixo” (the neighborhood that gathered commercial film professionals in São Paulo from the 1960s to 1980s), the screening series “Brazilian Cinema: the shame of a nation” had a broader scope, incorporating a filmmaker that Remier was researching for a very long time, Nilo Machado, who independently produced strip-tease films in Rio de Janeiro since the 1960s. In general, the exhibition at the Cinemateca Brasileira shed light on several unknown examples of the long trajectory of Brazilian commercial, popular, and genre cinema, which had not yet been explored in Brazilian film historiography due to its penchant for emphasizing auteurs. Thus, this event received enormous media coverage and had great repercussion among film critics. It was also aligned with an academic research trend that was just burgeoning, exemplified by Rodrigo Pereira's dissertation “Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro” (Unesp, 2002), or by works which were then yet to have been completed, including the doctoral theses of Laura Cánepa “Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros” (Unicamp, 2008) and Alfredo Suppia “Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita : uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood” (Unicamp, 2007).

07. Restoration of Aviso aos navegantes

With the sponsorship of BR Distribuidora and Petrobrás, the Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) has carried out important restorations of films from different periods and directors over the last few decades. Perhaps the most notable restoration was the chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), completed between 1999 and 2000. When the 1950s musical comedies known as chanchadas started to be revaluated in the 1970s, Jean-Claude Bernardet highlighted Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) as one of the most important political films in Brazilian cinema. From then on out, if any chanchada was included on the list of the most important Brazilian films of all time, it was usually this Hollywood parody full of criticism about the Getúlio Vargas government. Subsequently, based on studies such as those of João Luiz Vieira, Robert Stam and Arthur Autran, the film Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) became the most valued example of the genre, with its reflexive character and sophisticated discussion about the politics of Brazilian cinema. Burle's film came to occupy the prominent place within the chanchada genre previously given to Carlos Manga's film. Produced before Carnaval Atlântida and Nem Sansão nem Dalila, Aviso aos navegantes stands out not as an exception to the genre, but as the rule. Rather than subverting the conventions of chanchadas, the film brilliantly employs all of its clichés, with an excellent cast of Oscarito and Grande Otelo, villain José Lewgoy and the romantic duo of Eliane Macedo and Anselmo Duarte. Restored by Chico Moreira at Labocine from different prints of various gauges, Aviso aos navegantes gradually and deservedly became the main chanchada reference for scholars of the genre.

06. Restoration of Moacyr Fenelon’s films.

Conducted by the Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro (IPMCB), an organization run by Alice Gonzaga and Hernani Heffner, the restoration project of the films of Moacyr Fenelon extended between 2006 and 2010 and was sponsored by the Petrobrás Cultural Program. The project brought to light five feature films made between 1948 and 1951 that had not been seen in decades. Moacyr Fenelon is best known as a pioneer sound technician during the 1930s and as one of the creators of the Atlântida studio in 1941. Fenelon had the final part of his career recovered by the restoration project: the years when he created his company the Cine-Produções Fenelon and then joined Flama Filmes studio. Unfortunately, his relatively early death in 1953 prevented the director from having a more effective participation in the movement he helped to foster, keeping in mind that Nelson Pereira dos Santos not for nothing named the crew who made Rio 40 degrees, “Team Moacyr Fenelon”. In my PhD thesis, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil: 1915-1951” (UFF, 2011), two films restored by this project served as fundamental examples for my research of a dramatic cinema made during post-War times in Brazil: Obrigado, Doutor (1948), based on a homonymous radio series, and Domino Negro (1950), adapted from a novel by Hélio Soveral. More broadly, Fenelon's role as an “independent producer” was one of the main themes of Luís Alberto da Rocha Melo's fantastic PhD thesis, “Cinema Independente: produção, exibição e distribuição no Rio de Janeiro: 1948 to 1954" (UFF, 2011). In that thesis, he demonstrated Fenelon's pioneering leadership in developing the mode of production that would later be followed by “auteurs” who are identified today with the so-called “independent cinema of the 50s”, such as Alex Viany, Roberto Santos and Nelson Pereira dos Santos. Finally, Fenelon’s musical Poeira de Estrelas (1948) surprised today’s audiences by portraying the love between two women, receiving a pioneering analysis by Mateus Nagime in one of the chapters of his M.A. dissertation “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. DVD Box-Set “Coleção CTAv” (CTAv Collection)

Initiative of the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in partnership with the Cinemateca Brasileira, the digitization of short films produced by the Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), the Instituto Nacional de Cinema (INC) and Embrafilme, made a large number of documentaries produced by the State between the 1930s and the 1970s accessible. The beautiful DVD box-set “CTAv Collection” which resulted from the digitization project was sent to many universities for free. It contained 110 titles divided into 20 discs, not only allowing for a broader view of filmmaker Humberto Mauro’s filmography, but also shedding light on lesser-known works by several other important directors such as Leon Hirszman, Arthur Omar, Adhemar Gonzaga, Linduarte Noronha, and a wide range of educational, ethnographic, animation and compilation films. Mauro's rural education films from the 1950s, for example, would go on to be written about in a special chapter by Sheila Schwarzman in the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (2018). Also, films that address the very history of Brazilian cinema such as the important Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) was the subject of Luís Alberto Rocha Melo's chapter in the seminal book “Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro”, organized by Marina Tedesco and Karla Holanda, from his project on audiovisual historiography of Brazilian cinema. These films released on DVD also became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.1

04. Event “Cinema Marginal e suas fronteiras” (Cinema Marginal and its Borders)

Initially held in São Paulo in 2001, the film screening series “Cinema Marginal and its Borders” was perhaps the greatest event dedicated to Brazilian cinema among the series of outstanding screenings sponsored by the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB) in the 2000s. Organized by the founder of Heço Produções Eugenio Puppo, the event brought together a wide range of films that had not been shown for many years, much less together. The event also helped to consolidate a successful formula for future events: film screenings + debates + catalog with texts specially written by specialists + new prints struck to premiere at the event. The impact of the experimental and iconoclast films made between the 1960s and 1970s was enormous, especially in comparison with the expensive and inexpressive films that comprised most of the contemporary Brazilian cinema of the “Retomada”. At UFF, professor João Luiz Vieira built a course around Cinema Marginal in light of the event, his students attending many screenings and becoming more interested in Cinema Marginal. In the wake of the event and its success, producers and critics from Rio de Janeiro later organized film series dedicated to directors Rogério Sganzerla and Julio Bressane, notable auteurs of the Cinema Marginal period. These series took place in the same cultural center, and new film prints were especially struck, allowing for the (re)discovery of lesser known titles from the filmography of these filmmakers.

The event also had a major impact on the academic world, as a huge number of dissertations and theses were soon dedicated to Cinema Marginal. The topic of Cinema Marginal would soon go to supplant the Cinema Novo movement in popularity at universities. As a result of such success, Heco Produções launched the 2009 DVD collection “Cinema Marginal Brasileiro” in partnership with Lume and the Cinemateca Brasileira, institutions further collaborating to widely circulate Cinema Marginal films. At the same time, a film like Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restored between 2013 and 2015 through the Petrobras Cultural Program and then released on DVD, became the subject of numerous academic research projects and became an often debated work at conferences.

03. Project “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares” (Rediscovery of Gerson Tavares’ Films)

Director of two fictional features in the 1960s and several short documentaries between the 1950s and 1970s, Gerson Tavares had his name and films erased from the history of Brazilian cinema. The project “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” was approved in the first (and until today only) edition of the “Preservation and Conservation of the Fluminense Artistic Memory” public call2 by the Rio de Janeiro Secretariat of Culture in 2012. “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” had the initial objective of restoring the film Antes, o Verão (1968), which was in danger of being lost as its only two remaining 35mm prints were already deteriorating. However, the scope of the project was widened, allowing us to digitize the feature film Amor e desamor (1966) as well as seven other shorts by the director. These films would go on to be released on a non-commercial double DVD. The completion of the project allowed for what was almost a new premiere of Gerson’s films, and a real rediscovery of the octogenarian director by new generations occurred. Often compared to Walter Hugo Khouri who worked in São Paulo, the work of Gerson Tavares is proof that there was quality dramatic cinema made in Rio de Janeiro in the 1960s outside of the Cinema Novo movement. Absent from most panoramic books on the history of Brazilian cinema until then, the project allowed the name of Gerson Tavares to be reinserted in that history. As an example, Fernão Ramos mentioned Gerson’s films in his chapter about Brazilian cinema of the 60s in the the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organized by Sheila Schvarzman and Ramos himself.

02. DVD Box-Set “Resgate do cinema silencioso brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema)

In his fundamental 1979 book “Cinema Brasileiro: propostas para uma história”, Jean-Claude Bernardet pointed out the importance of documentary (or “natural”) film in Brazilian silent cinema, despite the much greater attention allotted to fictional (“posado” or staged) film by historians. While the availability of newsreels, actualities and documentary films produced up until 1930 has always been scarce, these works in fact represent a much larger volume of preserved titles than the even scarcer availability of fiction films. A fundamental action towards providing access to silent documentary films was a project developed with the Cinemateca Brasileira by Carlos Roberto de Souza: the 2009 DVD box-set “Rescuing Silent Brazilian Cinema”. Sponsored by Caixa Econômica Federal, this box-set was composed of 27 films gathered into five DVDs and came with a booklet written by Carlos Roberto. Despite the presence of “posados” (fictional films), such as the oldest preserved fictional Brazilian film, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), the vast majority of titles within the box were “naturais” (that is, documentaries) grouped into 5 themes: “Riches of São Paulo”, “Aspects of Brazil", "Sciences (or occultism) and riches", "Daily life" and “Public ceremonies". The circulation of these films provided researchers with greater access to a wide range of films that had rarely been seen, promoting new research on Brazilian silent cinema. However, research into this field had already begun gaining momentum during gathering sessions of scholars at the Cinemateca Brasileira that resulted in the book “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organized by Samuel Paiva and Sheila Schvarzman, also largely dedicated to documentary silent films. In addition to that, important articles were written about this topic by Eduardo Morettin and Hernani Heffner. Subsequently, the films included in the DVDs became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.3

01. Canal Brasil's “Como era gostoso o nosso cinema” (How Tasty was Our Cinema) Program

The emergence of pay-TV Channel Canal Brasil in 1998 provided a new window for showing old Brazilian films on television. Canal Brasil needed to acquire Brazilian cinema content for its programming, so they offered to pay producers for broadcasting rights in addition to paying for the telecine4 costs of films that did not yet have video copies (Beta, then Full-HD). For some Brazilian producers, especially producers of commercial works who had been unable to monetize their films since the decline of the VHS market in the mid-2000s, it was as if money was coming from heaven. They finally had a way to commercially release their films through Canal Brasil.

Naturally, the main type of film that reached Canal Brasil was the popular pornochanchada. These were soft-core porn films produced between the 1970s and 1980s. The telecineing of many pornochanchada films motivated Canal Brasil to create the program “How tasty was our cinema” (mocking the title of Nelson Pereira dos Santos’s 1971 film How Tasty was My Little Frenchman), a series of live airings dedicated to the genre. Soon after these pornochanchadas were shown on Canal Brasil, they became widely available (as people would pirate recordings of the live TV presentation and post them online). With new access to these films, an extraordinary revision of the genre occurred.

Although authors such as Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar and José Mário Ortiz Ramos wrote about pornochanchadas in the 1970s and 1980s, few working within the field of academia after them (perhaps with the exception of Nuno Cesar Abreu) realized the quality and perspicacity of these pioneering works. Only more recently have there been new academic dissertations that go beyond a totalizing and simplistic analysis of the genre. These texts move away from the point of view that pornochanchadas merely held a mechanistic relationship with censorship, and that the “birth” of the genre was merely the result of State repression. Instead, they focus on specific films and filmographies, pointing out the diversity of pornochanchadas in terms of themes, approaches and quality.

M.A. dissertations such as Luiz Paulo Gomes Neves’ “A construção de um profeta: A prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero pornochanchada” (UFF, 2012) and Luciano Carneiro de Oliveira Júnior’s “Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980” (UFF, 2019), both supervised by professor Mariana Baltar, are two good examples of the kind of positive influence that a large number of digitally available titles can have on film genre studies.

1. Due to Cinemateca Brasileira’s current crisis resulting from recent government actions, the website of the Banco de Conteúdos Culturais, hosted by the Cinemateca, has often suffered from technical problems

2. In Brazil, governments occasionally put out “public calls”, which are similar to grants. Public calls are opportunities open to anybody to compete to get something funded, usually cultural works or research projects.

3. See item 1.

4. Telecine is the process of transferring motion picture film into video. Telecine enables a motion picture, captured originally on film stock, to be viewed with standard video equipment such as television sets, video cassette recorders (VCR), DVD, Blu-ray Disc or computers.

Since the 1990s, the most ambitious and well-funded film restoration projects in Brazil have focused on the filmography of renowned filmmakers from the Cinema Novo movement such as Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman and Nelson Pereira dos Santos. These projects restored and produced new exhibition prints of many titles that were already considered classics. But the canonical status of the works that these directors produced, such as Entranced Earth (Glauber Rocha, 1967) or They Don't Wear Black Tie (Leon Hirszman, 1981), aren’t going to be further elevated through film restorations. Rather, the restoration of these films only reinforced the notion that they were the single-best titles Brazilian cinema had to offer.

This list, based on my experiences as a film archivist and film scholar, privileges initiatives that have focused on historically ignored films, periods, or genres throughout Brazilian cinema history. I attempted to list projects, retrospectives, and events carried out over the last two decades that allowed researchers and academics the opportunity to reevaluate the history of Brazilian cinema in their work. These projects brought to light films from the past that had not been widely seen or discussed for many years (some even since they were first released), provoking feelings of freshness, surprise, and novelty towards a wider historical array of Brazilian films.

One of the criteria in compiling this list was that each project expanded, altered, or revised long existing Brazilian Cinema canons. Thus, an important program such as the 2013 “Clássicos e raros do nosso cinema”, conducted by the Cinemateca Brasileira with the sponsorship of the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), was not included in this list despite its undeniable merits. While new 35mm prints were struck as a result of that program, these prints were projected very few times outside of São Paulo and Rio de Janeiro (the main cities the program took place in) because they were elevated to the status of preservation prints.

In addition, important projects such as the digitization and DVD release of films by Hugo Carvana and Aloysio Raulino by the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in 2017 were not included in this list because it is still too recent to evaluate their impact on the academic world. There are also situations in which academic interest preceded preservation actions. This seems to have been the case with the “rediscovery” of the first Brazilian feature film directed by a black woman, Adélia Sampaio’s Amor maldito (1984). When Amor Maldito was written about in the PhD thesis of Edileuza Penha de Souza, “Cinema na panela de barro: mulheres negras, narrativas de amor, afeto e identidade” (UnB, 2013), the new attention given to the film led to it being widely requested for exhibitions in around 2017. However, the circulating copies of the film were unfortunately in bad quality and did not correspond to the film’s renewed interest.

In this list, I generally sought to show how originality, care and research involved in these projects were fundamental to their success. I also tried to highlight the relevant and continuous impact that preservation and diffusion actions have in reshaping the historiography of Brazilian cinema. Finally, the objective of this list is less to rank different preservation projects than to stimulate new debate about them.

14. Corcina and Rio de Janeiro’s Underground Cinema

Roberto Moura, the (now retired) filmmaker and professor at UFF, began a research project in the 2000s that focused on what he called “cinema alternativo carioca” (Rio de Janeiro underground cinema). This project focused on the wide ranging film production (especially of short films) of Rio de Janeiro in the 1970s and early 1980s. Involving members of the Brazilian Association of Documentarians (ABD), production companies would include Corisco, Moura himself, and especially Corcina - Cooperative of Independent Film Directors. The underground films of this period are marked by a diversity and experimentalism which flourished under the so-called “Lei do Curta” (the mandatory exhibition of Brazilian short films together with foreign features). Directors such as José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, all participated in making bold short works. More recently, Lucas Parente (son of the multimedia artist and professor André Parente, who directed some short films that are included in this trend), started a movement to rescue this material, together with the Cinemateca do MAM, Dobra - International Festival of Experimental Cinema, and others. As a result of these efforts, a 2019 digitalization of Eclipse (Antonio Moreno, 1984), an animation painted directly on film, was exhibited in several festivals and academic events, giving continuity to Roberto Moura's research, and fostering a renewed interest in these films and directors.

13. The DVD Release of A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) has launched beautiful DVD editions of films from its collection over the past decades, such as silent films made in Cataguazes and Recife or even sound feature films such as O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) and Assault on the Pay Train (Roberto Farias, 1962). Special mention should be made of the 2004 release of Antonio Carlos Fontoura's second feature film A Rainha Diaba (1974) on a beautiful DVD copy. This “pop-gay-black thriller” (as it was announced at the time of its release) was rediscovered two years after the premiere of Madame Satã by Karïm Anouz, helping to highlight that A Rainha Diaba is one of the most interesting Brazilian films of the 1970s. This is a beautiful example of the rescue of a film that was still very “modern” even at the time of its rediscovery. The neat edition of the DVD, filled with well-produced extras (interviews, making-ofs, trailers, etc.), was another incentive for the wide circulation of A Rainha Diaba after a certain ostracism to which the film had initially been unfairly relegated.

12. The Reconstruction of Acabaram-se os otários (1929)

The reconstruction of Acabaram-se os otários (1929) was a project developed by the University Laboratory of Audiovisual Preservation of the Federal Fluminense University (LUPA-UFF) and carried out by myself and professor Reinaldo Cardenuto. The project resulted in the 2019 launch of a shortened version of the first Brazilian sound feature film, which is considered lost. This project gathered together different remaining fragments of the work such as excerpts of moving images, photographs and sound records. This audiovisual preservation project, unlike the rest on this list, was a consequence of and not the impetus for academic research. As the study of the arrival and popularization of sound cinema in Brazil motivated the interest of several researchers such as Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar), and Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), the work of Luiz de Barros began receiving more attention from researchers as well. Researchers of Luiz de Barros include myself, Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) and her graduate student Evandro Vasconcellos, author of the M.A. dissertation “Entre o palco e a tela: as relações do cinema com o teatro de revista nas comédias de Luiz de Barros” (UFSCar, 2015). The reconstruction of Acabaram-se os otários, on the other hand, may come to encourage other projects that combine historical research and audiovisual preservation, bringing universities and film archives closer together.

11. “Classics of Cinédia” Restorations

In 2004, Cinédia released copies of four restored films produced by the company through a project sponsored by BR Distribuidora. One of them, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), was already the most well-known Brazilian musical of the 1930s. But two others - Mulher (Octávio Gabus Mendes, 1931) and 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) - were true “novelties” for researchers, as they had not been widely circulated for many years. Directed by Octávio Gabus Mendes, Mulher was a silent film with music synchronized with Vitaphone records at a time when talkies were already the norm in Brazil for two years. However, at that time, many movie theaters, especially in the suburbs and in the countryside, had not yet begun the move toward sound cinema. The film is highly sophisticated, comparable to another late silent production by Cinédia, the classic Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). In addition to prompting interesting research on sound in cinema and silent cinema, the restoration of Mulher was the subject of the M.A. dissertation by Joice Scavone, “Mulher: a trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia” (UFF, 2013), which discussed the close link between film studies and film preservation in academia. The Classics of Cinédia restorations remain in restricted circulation, many of the works still unavailable in digital format. As a result, the fourth film which was restored, Adhemar Gonzaga’s 1944 Romance proibido remains practically unknown to audiences. Despite this, the films that are accessible had an extremely significant impact on the academic world.

10. Duplication of Fábula or Mitt Hem är Copacabana by Arne Sucksdorff

Swedish filmmaker Arne Sucksdorff was best known in the history of Brazilian cinema for having offered a film course in Rio de Janeiro in 1962, which became a milestone moment for the emerging Cinema Novo movement. However, before moving to Mato Grosso’s Pantanal (where he would live until his death), Sucksdorff shot the fascinating Fábula (1965) in Rio de Janeiro. This feature film was co-produced with Sweden and it had been practically forgotten since its initial release. However, in the mid-1990s, in a project in partnership with the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), Chico Moreira, who was then the head of conservation at the Cinemateca do MAM, duplicated the film. Chico produced a new 16mm exhibition print optically reduced from the original 35mm internegative of the Brazilian version of the film which had been preserved by the film archive. In the 2000s, Hernani Heffner - who succeeded Chico at the Cinemateca do MAM - began to frequently screen that 16mm print of Fábula, always with enormous success among the public who were dazzled by this practically unknown work. Scholars soon became interested. João Luiz Vieira analyzed the film in the award-winning 2009 book “World Cinemas, Transnational Perspectives”, edited by Natasa Ďurovičová and Kathleen Newman. I myself wrote about the film in the catalog of the “Olhares Neo-Realistas” film series, held at the Banco do Brasil Cultural Center in 2006. The film also became the subject of a wider research project by professor Esther Hamburger (USP), which brought to Brazil a digital copy of the Swedish version. The interest aroused by the film was such that in 2011 the Moreira Salles Institute financed the making of a new print of the Brazilian version – this time in 35mm – from the original internegative.

09. DVDs "Os filmes de Zózimo Bulbul" and " Obras raras: o cinema negro da década de 70" (Films of Zózimo Bulbul" and "Rare works: Black Cinema of the 70s)

Released in 2005 and 2006 through a partnership between the Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Afro Carioca Cinema Center and the Palmares Cultural Foundation of the Ministry of Culture, the DVDs “Films of Zózimo Bulbul” and “Rare works: the black cinema of the 70s” were fundamental towards expanding the circulation of films by important black Brazilian filmmakers as well as contributing to their revaluation. The double DVD-set “Films of Zózimo Bulbul” featured six films by the actor and director, made between the 1970s and 2000s. Bulbul’s first short film Alma no Olho (1973) has been reevaluated as the masterpiece that it is, being recently chosen as the 11th best short film in the history of Brazilian cinema in a list made by the Brazilian Association of Film Critics (Abbracine) in 2019. The double DVD “Rare works: black cinema of the 70s” presented six films directed by Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre and Odilon Lopez. Of particular note is the feature film As aventuras amorosas de um padeiro (1975), Onofre's debut feature film produced by Nelson Pereira dos Santos. In addition to the black protagonist, this erotic comedy produced during the “climax” of pornochanchada stands out for its feminist tone, rare in a genre filled with sexist works. Thus, in addition to contributing to the growing interest in black cinema in the academic world, the DVD also helped newly highlight Onofre's cinema and, more broadly, the pornochanchada itself.

08. Event “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação” (Brazilian Cinema, the Shame of a Nation)

Researcher Remier Lion had the ambition to hold a large retrospective of Brazilian exploitation films with this provocative title (a reference to Howard Hawks’ 1932 Scarface) at the Cinemateca do MAM when it had just resumed its programming after a serious crisis hit the institution in the early 2000s. However, his idea was not well received by the institution’s then curator Gilberto Santeiro, who was very uncomfortable with the provocation aimed at the respectability of Brazilian cinema. Despite this, Remier brought part of his program to film clubs in different locations of Rio de Janeiro, titling the new program “Malditos films brasileiros” (Damned Brazilian Films). Finally, the program reached the Cinemateca Brasileira, where it was held with enormous success in 2004, even leading Remier to join the programming team of the film archive. Working at the Cinemateca Brasileira provided Remier with access to even rarer materials for his project. Although Remier’s program can be understood as a general revision and revaluation of the films made at the “Boca do Lixo” (the neighborhood that gathered commercial film professionals in São Paulo from the 1960s to 1980s), the screening series “Brazilian Cinema: the shame of a nation” had a broader scope, incorporating a filmmaker that Remier was researching for a very long time, Nilo Machado, who independently produced strip-tease films in Rio de Janeiro since the 1960s. In general, the exhibition at the Cinemateca Brasileira shed light on several unknown examples of the long trajectory of Brazilian commercial, popular, and genre cinema, which had not yet been explored in Brazilian film historiography due to its penchant for emphasizing auteurs. Thus, this event received enormous media coverage and had great repercussion among film critics. It was also aligned with an academic research trend that was just burgeoning, exemplified by Rodrigo Pereira's dissertation “Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro” (Unesp, 2002), or by works which were then yet to have been completed, including the doctoral theses of Laura Cánepa “Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros” (Unicamp, 2008) and Alfredo Suppia “Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita : uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood” (Unicamp, 2007).

07. Restoration of Aviso aos navegantes

With the sponsorship of BR Distribuidora and Petrobrás, the Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) has carried out important restorations of films from different periods and directors over the last few decades. Perhaps the most notable restoration was the chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), completed between 1999 and 2000. When the 1950s musical comedies known as chanchadas started to be revaluated in the 1970s, Jean-Claude Bernardet highlighted Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) as one of the most important political films in Brazilian cinema. From then on out, if any chanchada was included on the list of the most important Brazilian films of all time, it was usually this Hollywood parody full of criticism about the Getúlio Vargas government. Subsequently, based on studies such as those of João Luiz Vieira, Robert Stam and Arthur Autran, the film Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) became the most valued example of the genre, with its reflexive character and sophisticated discussion about the politics of Brazilian cinema. Burle's film came to occupy the prominent place within the chanchada genre previously given to Carlos Manga's film. Produced before Carnaval Atlântida and Nem Sansão nem Dalila, Aviso aos navegantes stands out not as an exception to the genre, but as the rule. Rather than subverting the conventions of chanchadas, the film brilliantly employs all of its clichés, with an excellent cast of Oscarito and Grande Otelo, villain José Lewgoy and the romantic duo of Eliane Macedo and Anselmo Duarte. Restored by Chico Moreira at Labocine from different prints of various gauges, Aviso aos navegantes gradually and deservedly became the main chanchada reference for scholars of the genre.

06. Restoration of Moacyr Fenelon’s films.

Conducted by the Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro (IPMCB), an organization run by Alice Gonzaga and Hernani Heffner, the restoration project of the films of Moacyr Fenelon extended between 2006 and 2010 and was sponsored by the Petrobrás Cultural Program. The project brought to light five feature films made between 1948 and 1951 that had not been seen in decades. Moacyr Fenelon is best known as a pioneer sound technician during the 1930s and as one of the creators of the Atlântida studio in 1941. Fenelon had the final part of his career recovered by the restoration project: the years when he created his company the Cine-Produções Fenelon and then joined Flama Filmes studio. Unfortunately, his relatively early death in 1953 prevented the director from having a more effective participation in the movement he helped to foster, keeping in mind that Nelson Pereira dos Santos not for nothing named the crew who made Rio 40 degrees, “Team Moacyr Fenelon”. In my PhD thesis, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil: 1915-1951” (UFF, 2011), two films restored by this project served as fundamental examples for my research of a dramatic cinema made during post-War times in Brazil: Obrigado, Doutor (1948), based on a homonymous radio series, and Domino Negro (1950), adapted from a novel by Hélio Soveral. More broadly, Fenelon's role as an “independent producer” was one of the main themes of Luís Alberto da Rocha Melo's fantastic PhD thesis, “Cinema Independente: produção, exibição e distribuição no Rio de Janeiro: 1948 to 1954" (UFF, 2011). In that thesis, he demonstrated Fenelon's pioneering leadership in developing the mode of production that would later be followed by “auteurs” who are identified today with the so-called “independent cinema of the 50s”, such as Alex Viany, Roberto Santos and Nelson Pereira dos Santos. Finally, Fenelon’s musical Poeira de Estrelas (1948) surprised today’s audiences by portraying the love between two women, receiving a pioneering analysis by Mateus Nagime in one of the chapters of his M.A. dissertation “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. DVD Box-Set “Coleção CTAv” (CTAv Collection)

Initiative of the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in partnership with the Cinemateca Brasileira, the digitization of short films produced by the Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), the Instituto Nacional de Cinema (INC) and Embrafilme, made a large number of documentaries produced by the State between the 1930s and the 1970s accessible. The beautiful DVD box-set “CTAv Collection” which resulted from the digitization project was sent to many universities for free. It contained 110 titles divided into 20 discs, not only allowing for a broader view of filmmaker Humberto Mauro’s filmography, but also shedding light on lesser-known works by several other important directors such as Leon Hirszman, Arthur Omar, Adhemar Gonzaga, Linduarte Noronha, and a wide range of educational, ethnographic, animation and compilation films. Mauro's rural education films from the 1950s, for example, would go on to be written about in a special chapter by Sheila Schwarzman in the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (2018). Also, films that address the very history of Brazilian cinema such as the important Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) was the subject of Luís Alberto Rocha Melo's chapter in the seminal book “Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro”, organized by Marina Tedesco and Karla Holanda, from his project on audiovisual historiography of Brazilian cinema. These films released on DVD also became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.1

04. Event “Cinema Marginal e suas fronteiras” (Cinema Marginal and its Borders)

Initially held in São Paulo in 2001, the film screening series “Cinema Marginal and its Borders” was perhaps the greatest event dedicated to Brazilian cinema among the series of outstanding screenings sponsored by the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB) in the 2000s. Organized by the founder of Heço Produções Eugenio Puppo, the event brought together a wide range of films that had not been shown for many years, much less together. The event also helped to consolidate a successful formula for future events: film screenings + debates + catalog with texts specially written by specialists + new prints struck to premiere at the event. The impact of the experimental and iconoclast films made between the 1960s and 1970s was enormous, especially in comparison with the expensive and inexpressive films that comprised most of the contemporary Brazilian cinema of the “Retomada”. At UFF, professor João Luiz Vieira built a course around Cinema Marginal in light of the event, his students attending many screenings and becoming more interested in Cinema Marginal. In the wake of the event and its success, producers and critics from Rio de Janeiro later organized film series dedicated to directors Rogério Sganzerla and Julio Bressane, notable auteurs of the Cinema Marginal period. These series took place in the same cultural center, and new film prints were especially struck, allowing for the (re)discovery of lesser known titles from the filmography of these filmmakers.

The event also had a major impact on the academic world, as a huge number of dissertations and theses were soon dedicated to Cinema Marginal. The topic of Cinema Marginal would soon go to supplant the Cinema Novo movement in popularity at universities. As a result of such success, Heco Produções launched the 2009 DVD collection “Cinema Marginal Brasileiro” in partnership with Lume and the Cinemateca Brasileira, institutions further collaborating to widely circulate Cinema Marginal films. At the same time, a film like Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restored between 2013 and 2015 through the Petrobras Cultural Program and then released on DVD, became the subject of numerous academic research projects and became an often debated work at conferences.

03. Project “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares” (Rediscovery of Gerson Tavares’ Films)

Director of two fictional features in the 1960s and several short documentaries between the 1950s and 1970s, Gerson Tavares had his name and films erased from the history of Brazilian cinema. The project “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” was approved in the first (and until today only) edition of the “Preservation and Conservation of the Fluminense Artistic Memory” public call2 by the Rio de Janeiro Secretariat of Culture in 2012. “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” had the initial objective of restoring the film Antes, o Verão (1968), which was in danger of being lost as its only two remaining 35mm prints were already deteriorating. However, the scope of the project was widened, allowing us to digitize the feature film Amor e desamor (1966) as well as seven other shorts by the director. These films would go on to be released on a non-commercial double DVD. The completion of the project allowed for what was almost a new premiere of Gerson’s films, and a real rediscovery of the octogenarian director by new generations occurred. Often compared to Walter Hugo Khouri who worked in São Paulo, the work of Gerson Tavares is proof that there was quality dramatic cinema made in Rio de Janeiro in the 1960s outside of the Cinema Novo movement. Absent from most panoramic books on the history of Brazilian cinema until then, the project allowed the name of Gerson Tavares to be reinserted in that history. As an example, Fernão Ramos mentioned Gerson’s films in his chapter about Brazilian cinema of the 60s in the the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organized by Sheila Schvarzman and Ramos himself.

02. DVD Box-Set “Resgate do cinema silencioso brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema)

In his fundamental 1979 book “Cinema Brasileiro: propostas para uma história”, Jean-Claude Bernardet pointed out the importance of documentary (or “natural”) film in Brazilian silent cinema, despite the much greater attention allotted to fictional (“posado” or staged) film by historians. While the availability of newsreels, actualities and documentary films produced up until 1930 has always been scarce, these works in fact represent a much larger volume of preserved titles than the even scarcer availability of fiction films. A fundamental action towards providing access to silent documentary films was a project developed with the Cinemateca Brasileira by Carlos Roberto de Souza: the 2009 DVD box-set “Rescuing Silent Brazilian Cinema”. Sponsored by Caixa Econômica Federal, this box-set was composed of 27 films gathered into five DVDs and came with a booklet written by Carlos Roberto. Despite the presence of “posados” (fictional films), such as the oldest preserved fictional Brazilian film, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), the vast majority of titles within the box were “naturais” (that is, documentaries) grouped into 5 themes: “Riches of São Paulo”, “Aspects of Brazil", "Sciences (or occultism) and riches", "Daily life" and “Public ceremonies". The circulation of these films provided researchers with greater access to a wide range of films that had rarely been seen, promoting new research on Brazilian silent cinema. However, research into this field had already begun gaining momentum during gathering sessions of scholars at the Cinemateca Brasileira that resulted in the book “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organized by Samuel Paiva and Sheila Schvarzman, also largely dedicated to documentary silent films. In addition to that, important articles were written about this topic by Eduardo Morettin and Hernani Heffner. Subsequently, the films included in the DVDs became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.3

01. Canal Brasil's “Como era gostoso o nosso cinema” (How Tasty was Our Cinema) Program

The emergence of pay-TV Channel Canal Brasil in 1998 provided a new window for showing old Brazilian films on television. Canal Brasil needed to acquire Brazilian cinema content for its programming, so they offered to pay producers for broadcasting rights in addition to paying for the telecine4 costs of films that did not yet have video copies (Beta, then Full-HD). For some Brazilian producers, especially producers of commercial works who had been unable to monetize their films since the decline of the VHS market in the mid-2000s, it was as if money was coming from heaven. They finally had a way to commercially release their films through Canal Brasil.

Naturally, the main type of film that reached Canal Brasil was the popular pornochanchada. These were soft-core porn films produced between the 1970s and 1980s. The telecineing of many pornochanchada films motivated Canal Brasil to create the program “How tasty was our cinema” (mocking the title of Nelson Pereira dos Santos’s 1971 film How Tasty was My Little Frenchman), a series of live airings dedicated to the genre. Soon after these pornochanchadas were shown on Canal Brasil, they became widely available (as people would pirate recordings of the live TV presentation and post them online). With new access to these films, an extraordinary revision of the genre occurred.

Although authors such as Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar and José Mário Ortiz Ramos wrote about pornochanchadas in the 1970s and 1980s, few working within the field of academia after them (perhaps with the exception of Nuno Cesar Abreu) realized the quality and perspicacity of these pioneering works. Only more recently have there been new academic dissertations that go beyond a totalizing and simplistic analysis of the genre. These texts move away from the point of view that pornochanchadas merely held a mechanistic relationship with censorship, and that the “birth” of the genre was merely the result of State repression. Instead, they focus on specific films and filmographies, pointing out the diversity of pornochanchadas in terms of themes, approaches and quality.

M.A. dissertations such as Luiz Paulo Gomes Neves’ “A construção de um profeta: A prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero pornochanchada” (UFF, 2012) and Luciano Carneiro de Oliveira Júnior’s “Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980” (UFF, 2019), both supervised by professor Mariana Baltar, are two good examples of the kind of positive influence that a large number of digitally available titles can have on film genre studies.

1. Due to Cinemateca Brasileira’s current crisis resulting from recent government actions, the website of the Banco de Conteúdos Culturais, hosted by the Cinemateca, has often suffered from technical problems

2. In Brazil, governments occasionally put out “public calls”, which are similar to grants. Public calls are opportunities open to anybody to compete to get something funded, usually cultural works or research projects.

3. See item 1.

4. Telecine is the process of transferring motion picture film into video. Telecine enables a motion picture, captured originally on film stock, to be viewed with standard video equipment such as television sets, video cassette recorders (VCR), DVD, Blu-ray Disc or computers.

PT/ENG
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30/10/2020
By/Por:
Rafael de Luna Freire

Desde os anos 1990, os mais ambiciosos e vultuosos projetos de restauração de filmes realizados no Brasil foram aqueles voltados para a filmografia de consagrados cineastas do Cinema Novo, como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e Nelson Pereira dos Santos. Foram projetos que restauraram e produziram novas cópias de exibição de muitos títulos que já eram considerados clássicos. De certo modo, não fizeram filmes como Terra em transe (Glauber Rocha, 1967) ou Eles não usam black-tie (Leon Hirszman, 1981) serem necessariamente considerados mais importantes do que eles já eram para a história do cinema brasileiro.

Essa lista, pautada pela minha experiência pessoal, privilegia outros tipos de iniciativas. Tentei elencar projetos realizados nas últimas duas décadas que tiveram um amplo impacto, particularmente junto a pesquisadores e professores universitários, para um movimento de revisão da história do cinema brasileiro. Foram projetos que provocaram sentimentos de frescor, surpresa e novidade. Um dos critérios fundamentais na escolha desses dez projetos foi sua ampla repercussão e alcance, tendo ajudado a ampliar, alterar ou revisar os cânones.

Assim, um projeto importante como “Clássicos e raros do nosso cinema”, realização da Cinemateca Brasileira com o patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil, não foi incluído apesar de seus inegáveis méritos. Afinal, o projeto viabilizou a feitura de novas cópias 35mm que, elevadas a materiais de preservação, foram projetadas pouquíssimas vezes para além da exibição contratual nas mostras que viabilizaram sua produção, restritas a São Paulo e, no máximo, também ao Rio de Janeiro.

Além disso, projetos importantes, porém mais recentes, como a digitalização e lançamento em DVD de filmes de Hugo Carvana e de Aloysio Raulino, também não foram incluídos por sua repercussão na academia – não tão imediata quanto na crítica, por exemplo – ainda me parecer estar sendo processada. Podemos mencionar ainda situações em que o interesse acadêmico antecedeu as ações de preservação. Esse parece ser o caso da “redescoberta” do primeiro longa-metragem dirigido por uma cineasta negra – Amor maldito (Adélia Sampaio, 1984) – pela tese de Edileuza Penha de Souza (Cinema na Panela de Barro: Mulheres Negras, Narrativas de Amor, Afeto e Intimidade, UnB, 2013). A atenção dada a Amor maldito levou à situação do filme passar a ser amplamente solicitado para exibições por volta de 2017, mas circulando então em cópias antigas cuja qualidade não correspondia ao renovado interesse por ele.

De um modo geral, busquei nessa lista evidenciar como a originalidade, o cuidado e a pesquisa envolvida na curadoria, planejamento e realização de projetos de digitalização, duplicação, difusão e restauração são fundamentais para o seu sucesso. Tentei ainda destacar a relevante e contínua influência de ações de preservação e difusão na historiografia do cinema brasileiro. Por fim, o objetivo principal é menos hierarquizar diferentes ações do que estimular o debate.

14. Corcina e o Cinema Alternativo Carioca

O cineasta e professor (hoje aposentado) da UFF, Roberto Moura, vinha desenvolvendo desde os anos 2000 um projeto de pesquisa voltado para o que ele chamava de “cinema alternativo carioca”, englobando a ampla produção, sobretudo de curtas-metragens, realizada no Rio de Janeiro dos anos 1970, envolvendo integrantes da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), produtoras como a Corisco, do próprio Moura, e principalmente a Corcina – Cooperativa de Realizadores Cinematográficos Autônomos. Trata-se de uma produção marcada por diversidade e experimentalismo, que floresceu com a chamada Lei do Curta, realizada por diretores como José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, entre outros. Mais recentemente, Lucas Parente, filho do professor e realizador André Parente, diretor de curtas que podem ser enquadrados nesse movimento, iniciou um movimento de resgate desse material, junto com a Cinemateca do MAM, o Dobra – festival internacional de cinema experimental, entre outros parceiros. A digitalização realizada, em 2019, de Eclipse (Antonio Moreno, 1984), animação com intervenção direta na película, foi exibida em diversos festivais e eventos acadêmicos, dando continuidade, de forma mais ampla à pesquisa de Roberto Moura, e fomentando um renovado interesse sobre esses filmes e realizadores.

13. DVD de A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) da Funarte lançou nas últimas décadas belas edições em DVD de filmes de seu acervo, como o de filmes silenciosos realizados em Cataguazes e Recife ou ainda de longas-metragens sonoros como O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) e Assalto ao trem pagador (Roberto Farias, 1962). Merece destaque especial o lançamento, em 2004, da DVD com a bela cópia do segundo longa-metragem de Antonio Carlos Fontoura, A Rainha Diaba (1974). A redescoberta desse “thriller pop-gay-black” com Milton Gonçalves no papel título, dois anos depois do lançamento de “Madame Satã”, dirigido por Karïm Anouz e protagonizado por Lázaro Ramos, colocou em evidência esse que é um dos mais interessantes filmes brasileiros da década de 1970. Trata-se de um belo exemplo do resgate de um filme que se mostrou bastante atual no momento de sua redescoberta. A edição caprichada do DVD, recheado de bem produzidos extras (entrevistas, making off inédito, trailers etc.), foi outro incentivo para ampla circulação de A Rainha Diaba após um certo esquecimento ao que o filme tinha sido injustamente relegado.

12. A reconstituição de Acabaram-se os otários (1929)

A reconstituição de Acabaram-se os otários foi um projeto desenvolvido pelo Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (LUPA-UFF) e realizado por mim e pelo professor Reinaldo Cardenuto. O projeto resultou no lançamento, em 2019, de uma versão reduzida do primeiro longa-metragem brasileiro sonoro, considerado um filme perdido, o que foi possibilitado pela reunião de diferentes fragmentos remanescentes da obra, tais como trechos de imagens em movimento, fotografias e registros sonoros. Trata-se de um projeto de preservação audiovisual que, diferentemente do restante da lista, foi uma consequência e não o impulsionador de uma pesquisa acadêmica. Assim como o estudo da chegada e popularização do cinema sonoro no Brasil vinha motivando interesse de diversos pesquisadores como Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar) e Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), além de mim mesmo, a obra de Luiz de Barros também vinha recebendo mais atenção por parte de pesquisadores como Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) e seus orientandos, como Evandro Vasconcellos (“Entre o Palco e a Tela: As relações do cinema com o teatro de revista em comédias musicais de Luiz de Barros”, UFSCar, 2015). A reconstituição de Acabaram-se os otários, por outro lado, pode vir a incentivar outros projetos que conjugam pesquisa histórica e preservação audiovisual, aproximando mais as universidades e as cinematecas.

11. Restaurações "Clássicos da Cinédia"

Em 2004, a Cinédia lançou cópias restauradas de quatro filmes produzidos pela empresa através de projeto patrocinado pela BR Distribuidora. Um deles, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), já era o mais conhecido musical brasileiro dos anos 1930. Mas dois outros – Mulher (Oduvaldo Viana, 1931) 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) – eram verdadeiras “novidades” para os pesquisadores, por não circularem amplamente havia muitos anos. Dirigido por Octávio Gabus Mendes, Mulher era um filme mudo com músicas sincronizadas por discos, num momento em que os talkies já estavam em pleno sucesso no Brasil havia dois anos, mas quando muitas salas de cinema, especialmente nos subúrbios e no interior, ainda não haviam se adaptado para o cinema sonoro. Trata-se ainda um filme de grande sofisticação, comparável a outra realização muda tardia da Cinédia, a do clássico Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). Além de interessar a pesquisas sobre o som no cinema e o cinema silencioso, a restauração do filme foi o tema da dissertação de mestrado de Joice Scavone (“Mulher - trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia”, UFF, 2013) que evidenciava a ligação mais estreita entre pesquisa história e preservação de filmes na academia. Apesar da circulação restrita dos filmes, que circularam muito tempo apenas em cópias 35mm – colaborando que o quarto filme restaurado, Romance proibido (Adhemar Gonzaga, 1944) permaneça pouco conhecido – o impacto do projeto junto à academia foi significativo.

10. Duplicação de Fábula ou Moro em Copacabana de Arne Sucksdorff

O cineasta sueco Arne Sucksdorff era mais conhecido na história do cinema brasileiro por ter oferecido um curso no Rio de Janeiro, em 1962, que virou um marco na história do Cinema Novo. Antes, porém, de se radicar no pantanal mato-grossense, onde viveria até a morte, Sucksdorff realizou o fascinante Fábula (1965), longa-metragem em coprodução com a Suécia que foi praticamente esquecido desde o seu lançamento. Em meados dos anos 1990, num projeto em parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil, Chico Moreira, então conservador da Cinemateca do MAM, fez uma cópia nova, reduzida para 16mm, do contratipo original 35mm da versão brasileira do filme preservado no acervo da instituição. Nos anos 2000, Hernani Heffner – que sucedeu Chico na Cinemateca do MAM – passou a projetar Fábula com frequência em diferentes oportunidades, sempre com enorme repercussão junto ao público, deslumbrado com aquela obra praticamente desconhecida. Estudiosos logo se interessaram. João Luiz Vieira analisou o filme em seu capítulo no premiado livro World Cinemas, Transnational Perspectives, organizado por Natasa Ďurovičová e Kathleen Elizabeth Newman, publicado em 2009. Eu mesmo escrevi sobre o filme no catálogo da mostra “Olhares Neo-Realistas”, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2006. O filme se tornou ainda objeto de amplo projeto de pesquisa da professora Esther Hamburguer (USP), que viabilizou a vinda para o Brasil de uma cópia digital da versão sueca. O interesse suscitado pelo filme foi tanto que, em 2011, o Instituto Moreira Salles financiou a confecção de uma nova cópia, agora em 35mm, da versão brasileira a partir do contratipo original.

09. DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70”

Lançados, respectivamente, em 2005 e 2006, através de uma parceria entre o Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Centro Afro Carioca de Cinema e a Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura, os DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70” foram fundamentais para ampliar a circulação e permitir a revalorização de filmes de importantes cineastas negros brasileiros. O DVD duplo “O cinema de Zózimo Bulbul” trazia seis filmes do ator e diretor, realizados entre os anos 1970 e 2000. Seu primeiro curta-metragem, Alma no Olho (1973) tem sido reavaliado como a obra-prima que é, sendo recentemente escolhido, por exemplo, como o 11º melhor curta-metragem da história do cinema brasileiro na listagem feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, em 2019. Já o DVD duplo “Obras raras: o cinema negro da década de 70” apresentava seis filmes dirigidos por Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre e Odilon Lopez. De especial destaque é o longa-metragem As aventuras amorosas de um padeiro (1975), longa-metragem de estreia de Onofre produzido por Nelson Pereira dos Santos. Além do protagonista negro, essa comédia erótica produzida durante o “clímax” da pornochanchada se destaca por seu tom feminista, raro num gênero recheado de obras machistas e preconceituosas. Assim, além de colaborar para o crescente interesse pelo cinema negro na academia, o DVD auxiliou a revisão do cinema de Onofre e, de forma mais ampla, da própria pornochanchada.

08. Mostra “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação”

O pesquisador Remier Lion tinha a ambição de realizar uma ampla mostra retrospectiva com esse provocativo título na Cinemateca do MAM, na ocasião em que ela retomou sua programação após a grave crise que assolou a instituição no início dos anos 2000. Sem receber, então, acolhida do curador Gilberto Santeiro (muito incomodado com a provocação à respeitabilidade do cinema brasileiro), Remier levou parte da sua programação para cineclubes que organizou em diferentes locais do Rio de Janeiro, num projeto chamado “Malditos filmes brasileiros”. Finalmente, a mostra chegou à Cinemateca Brasileira, onde ela foi realizada com enorme sucesso em 2004, levando Remier a se incorporar, inclusive, à equipe de programação. A sua realização na Cinemateca Brasileira permitiu, inclusive, o acesso de Remier a materiais ainda mais raros para seu projeto. Embora possa ser entendido dentro de um quadro geral de revisão e revalorização do cinema da Boca do Lixo, a mostra “Cinema Brasileiro: a vergonha de uma nação” tinha um escopo mais amplo ao incorporar, por exemplo, um cineasta que Remier já pesquisava há tempos, como Nilo Machado e que produziu filmes de strip-tease desde os anos 1960. De um modo geral, a mostra jogava luz sobre diversos e desconhecidos exemplares da longa trajetória do cinema brasileiro comercial, popular e de gênero, que a historiografia pouco contemplou, com sua ênfase autoral. Assim, o evento que recebeu enorme cobertura da mídia e grande repercussão junto ao público, ia ao encontro de muitas pesquisas já desenvolvidas, como a dissertação de Rodrigo Pereira (“Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro”, Unesp, 2002), ou que ainda iriam ser concluídas, como as teses de doutorado de Laura Cánepa (“Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros”, Unicamp, 2008) e Alfredo Suppia (“Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita: uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood”, Unicamp, 2017).

07. Restauração de Aviso aos navegantes

Com o patrocínio da BR Distribuidora e da Petrobrás, o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) realizou importantes restaurações, nas últimas décadas, de filmes de diferentes épocas e diretores. Talvez a mais notável tenha sido a da chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), realizada entre 1999 e 2000. Quando as chanchadas começaram a ser revalorizadas nos anos 1970, Jean-Claude Bernardet destacou Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) como um dos mais importantes filmes políticos do cinema brasileiro. A partir de então, se alguma chanchada fosse incluída na lista dos mais importantes filmes brasileiros de todos os tempos, geralmente era essa paródia de Hollywood recheada de críticas sobre o governo Getúlio Vargas. Posteriormente, a partir de estudos como os de João Luiz Vieira, Robert Stam e Arthur Autran, o filme Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) tornou-se o exemplar mais valorizado do gênero, com seu caráter reflexivo e uma sofisticada discussão sobre a política do cinema brasileiro. O filme de Burle passou a ocupar o lugar de destaque dentro do gênero antes dado ao filme de Carlos Manga. Produzido antes desses dois, Aviso aos navegantes destaca-se não como uma exceção, mas como a regra do gênero, como um exemplar clássico. Ao invés de destoar delas, o filme exemplifica as fórmulas e clichês da chanchada, mas em sua melhor forma, trazendo no elenco Oscarito e Grande Otelo, o vilão José Lewgoy e a dupla Eliane e Anselmo. Restaurado na Labocine por Chico Moreira a partir de diferentes cópias e materiais de formatos e procedências distintas, Aviso aos navegantes vem aos poucos, e merecidamente, tornando-se a referência principal dos estudiosos para o gênero.

06. Projeto de Recuperação da Obra de Moacyr Fenelon

Realizado pelo Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro – leia-se Dona Alice Gonzaga e Hernani Heffner – o projeto de restauração de filmes de Moacyr Fenelon se estendeu entre 2006 e 2010, com patrocínio do Programa Petrobrás Cultural. O projeto trouxe à tona cinco longas-metragens realizados entre 1948 e 1951 que não eram vistos há décadas. Mais conhecido como pioneiro técnico de som nos anos 1930 e como um dos criadores da Atlântida, Moacyr Fenelon teve a parte final de sua carreira coberta pelo projeto, quando se lançou com a Cine-Produções Fenelon e, em seguida, se associou a Flama Filmes. Infelizmente, sua morte relativamente precoce, em 1953, impediu que o diretor tivesse uma participação mais efetiva no movimento que ajudou a fomentar, lembrando que Nelson Pereira dos Santos batizou a equipe que realizou Rio 40 graus, não à toa, de “Equipe Moacyr Fenelon”. Em minha tese de doutorado, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil - 1915-1951” (UFF, 2011), dois filmes trazidos à tona por esse projeto foram fundamentais como exemplares de um cinema dramático realizado a partir do pós-guerra no Brasil: Obrigado, Doutor (Moacyr Fenelon, 1948), baseado em série radiofônica homônima, e Dominó negro (Moacyr Fenelon, 1950), adaptado de novela de Hélio Soveral. De forma mais ampla, a atuação de Fenelon como “produtor independente” foi um dos temas principais da fantástica tese de doutorado de Luís Alberto da Rocha Melo (Cinema independente”: produção, distribuição e exibição no Rio de Janeiro, UFF, 2011), demonstrando o pioneirismo de Fenelon como “produtor independente” e desenvolvendo o modo de produção que seria seguido posteriormente por autores hoje identificados com o chamado “cinema independente dos anos 50”, tais como Alex Viany, Roberto Santos e o próprio Nelson Pereira dos Santos. Por fim, o musical Poeira de estrelas (Moacyr Fenelon, 1948) surpreendeu ao mostrar o amor entre duas mulheres, recebendo a pioneira análise de Mateus Nagime num dos capítulos de sua dissertação “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. Caixa de DVDs “Coleção CTAv”

Iniciativa do Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) em parceria com a Cinemateca Brasileira, a digitalização de curtas e médias produzidos pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), pelo Instituto Nacional de Cinema (INC) e pela Embrafilme, tornou disponível um grande número de documentários produzidos pelo Estado entre os anos 1930 e 1970. A bela caixa de DVDs “Coleção CTAv” resultante do projeto, fartamente distribuída para as universidades, com 110 títulos divididos em 20 discos, não só permitia uma visão mais ampla da filmografia de um cineasta como Humberto Mauro, como trazia obras menos conhecidas de diversos outros diretores importantes, de Leon Hirszman a Arthur Omar, de Adhemar Gonzaga a Linduarte Noronha, além de um amplo leque de filmes educativos, etnográficos, animações e compilações. Os filmes de educação rural de Mauro, produzidos nos anos 1950, por exemplo, ganharam um capítulo especial de Sheila Schwarzman no recente livro “Nova história do cinema brasileiro” (2018), enquanto filmes que abordam a própria história do cinema brasileiro, como o importante Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) foi tema do capítulo de Luís Alberto Rocha Melo do seminal livro “Feminino plural: Mulheres no cinema brasileiro”, organizado por Marina Tedesco e Karla Holanda, a partir de seu projeto sobre a historiografia audiovisual do cinema brasileiro. Esses filmes lançados em DVD também passaram a estar acessíveis através do Banco de Conteúdos Culturais.1

04. Mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras”

Realizada inicialmente em São Paulo, em 2001, a mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras” foi talvez o grande evento dedicado ao cinema brasileiro dentre a série de mostras marcantes patrocinadas pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) nos anos 2000. Organizado por Eugenio Puppo, da Heco Produções, a mostra reuniu um amplo conjunto de filmes que há muitos anos não eram exibidos, muito menos conjuntamente. O evento ajudou ainda a consolidar uma fórmula de sucesso: mostra de filmes + debates + catálogo com textos encomendados a especialistas + cópias novas para estreia no evento. O impacto da revisão de filmes experimentais, debochados e desafiadores realizados entre os anos 1960 e 1970 foi enorme, sobretudo em comparação com o então criticado cinema caro e careta, financiado pelas leis de incentivo, da retomada do Cinema Brasileiro. Na UFF, o professor João Luiz Vieira acompanhou a mostra com uma disciplina optativa dedicada ao cinema marginal. Na esteira do evento e de seu sucesso, produtores e críticos do Rio de Janeiro organizaram, posteriormente, mas no mesmo CCBB, mostras dedicadas individualmente a Rogério Sganzerla e Julio Bressane, novamente confeccionando cópias novas que permitiam a (re)descoberta de vários títulos mais obscuros da filmografia desses cineastas. O impacto acadêmico foi notável, com um número enorme de dissertações e teses sendo dedicadas a esse movimento que suplantou o Cinema Novo em popularidade na universidade. A própria Heco Produções lançou, em 2009, a coleção de DVDs Cinema Marginal Brasileiro, em parceria com a Lume e Cinemateca Brasileira, colaborando ainda mais para a ampla circulação desses filmes. Nesse mesmo movimento, um filme como Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restaurado entre 2013 e 2015 através do Programa Petrobras Cultural, e em seguida lançado em DVD, passou a ser tema de inúmeras pesquisas acadêmicas e apresentações em congressos.

03. Projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”

Diretor de dois longas ficcionais nos anos 1960 e de diversos curtas documentários entre as décadas de 1950 e 1970, Gerson Tavares teve seu nome e filmes apagados da história do cinema brasileiro. O projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”, aprovado na primeira (e até hoje única) edição do edital2 Preservação e Conservação da Memória Artística Fluminense da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, em 2012, tinha como objetivo inicial restaurar o filme Antes, o verão (1968), que corria o risco de se perder. O escopo foi ampliado para a digitalização também do filme Amor e desamor (1966) e de outros sete curtas do diretor, lançados em DVD duplo, numa edição não-comercial. A finalização do projeto permitiu quase um relançamento dos filmes e a redescoberto do diretor octogenário pelas novas gerações. Comparado a Walter Hugo Khouri, Gerson Tavares era prova de um cinema dramático de qualidade realizado no Rio de Janeiro dos anos 1960 para além do Cinema Novo. Ausente da maior parte dos livros panorâmicos sobre história do cinema brasileiro até então, o projeto permitiu que o nome de Gerson Tavares fosse reinscrito nessa história. Exemplo disso foi a citação a seus filmes no capítulo que Fernão Ramos escreveu sobre os anos 1960, quase inteiramente dedicado ao Cinema Novo, no recente “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organizado pelo próprio Fernão e Sheila Schvarzman.

02. Caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”

Em seu fundamental livro “Cinema brasileiro: propostas para uma história”, de 1979, Jean-Claude Bernardet apontou a importância do filme documentário (ou natural) no cinema silencioso brasileiro, apesar da atenção muito maior dada ao filme ficcional (ou posado) pelos historiadores. Entretanto, a disponibilidade de cinejornais, atualidades e registros documentais brasileiros produzidos até 1930 sempre foi escassa, apesar de representar um volume muito maior de títulos preservados do que as esparsas ficções. Uma ação fundamental para dar acesso a essa produção foi o projeto desenvolvido na Cinemateca Brasileira, por Carlos Roberto de Souza, da caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”, finalizado em 2009. Patrocinado pela Caixa Econômica Federal, a caixa era composta por 27 filmes reunidos em cinco DVDs e um livreto de autoria de Carlos Roberto. Apesar da presença de posados, como o mais antigo filme de ficção preservado, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), a grande maioria dos títulos eram de naturais, reunidos em 5 temas: “Riquezas Paulistas”, “Aspectos do Brasil”, “Ciências (mesmo ocultas) e riquezas”, “Vida cotidiana” e “Cerimônias públicas”. A circulação desses filmes permitiu que mais pesquisadores tivessem acesso a um amplo conjunto de filmes pouco vistos anteriormente, fortalecendo as pesquisas sobre o cinema silencioso brasileiro. Elas já tinham ganhado impulso com as reuniões de pesquisadores na Cinemateca Brasileira que resultaram no livro “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organizado por Samuel Paiva e Sheila Schvarzman, em grande parte também dedicado aos pouco estudados filmes naturais, sem falar de importantes artigos escritos por Eduardo Morettin e Hernani Heffner. Posteriormente, os filmes incluídos nos DVDs passaram a estar acessíveis ainda através do Banco de Conteúdos Culturais.3

01. Sessão “Como era gostoso o nosso cinema” do Canal Brasil

A criação do Canal Brasil, em 1998, representou o surgimento de uma nova janela de exibição de filmes brasileiros antigos na televisão. Com grande demanda pela aquisição de conteúdo para sua programação, o Canal Brasil oferecia, além do pagamento ao produtor pelos direitos de transmissão, os custos de telecinagem4 de filmes que não tivessem cópias em vídeo (Beta, depois Full-HD). Para alguns produtores brasileiros, sobretudo de obras comerciais que praticamente não monetizavam seus filmes desde a decadência do mercado de VHS, era um dinheiro caído do céu. Naturalmente, o principal tipo de filme que chegou ao Canal Brasil foi o da popularíssima pornochanchada, produzida entre os anos 1970 e 1980, o que motivou, inclusive, a criação da sessão “Como era gostoso o nosso cinema”, especialmente dedicado ao gênero. Poucos produtores conseguiram lançar comercialmente seus filmes fora do Canal Brasil, sendo uma exceção o ator, diretor e produtor Carlo Mossy, que lançou seus filmes numa coleção de DVDs em 2013. A ampla disponibilidade de um grande número de pornochanchadas após sua exibição pelo Canal Brasil (logo copiados e e postados na internet) permitiu o bem-vindo reexame do gênero. Embora autores como Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar e José Mário Ortiz Ramos tenham escrito sobre o gênero nos próprios anos 1970 e 1980, poucos na academia – talvez com a principal exceção de Nuno Cesar Abreu – deram prosseguimento à qualidade e perspicácia destes trabalhos pioneiros. Apenas mais recentemente tem surgido bons trabalhos acadêmicos que vão além de uma análise totalizante – e simplista – do gênero, fugindo de uma relação mecanicista com a censura, focando em filmes e filmografias específicas e apontando a inevitável, mas pouco percebida diversidade da pornochanchada, em termos de temas, abordagens e qualidade. Dissertações de mestrado como a de Luiz Paulo Gomes (A construção de um profeta: a prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero da pornochanchada, UFF, 2012) e de Luciano Carneiro de Oliveira Júnior (Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980, UFF, 2019), ambas orientadas pela professora Mariana Baltar, foram alguns dos bons frutos da disponibilidade em formato digital de um número muito mais amplo de filmes que permitiram a comparação, análise e crítica.

1. Em razão da atual crise da Cinemateca Brasileira, decorrente de ações recentes do governo, o site do Banco de Conteúdos Culturais, hospedado pela Cinemateca, tem sofrido frequentemente com problemas técnicos.

2. No Brasil, governos ocasionalmente lançam editais públicos, que são semelhantes a bolsas ou auxílios. Os editais públicos são oportunidades abertas a qualquer interessado para concorrer a financiamento, geralmente voltadas a obras culturais ou projetos de pesquisa.

3. Ver item 1.

4. Telecine é o processo de transferência de filme cinematográfico para vídeo. A telecinagem permite que uma obra originalmente captada em película seja exibida em equipamentos padrão de vídeo, como aparelhos de televisão, videocassetes (VCR), DVD, Blu-ray ou computadores.

Desde os anos 1990, os mais ambiciosos e vultuosos projetos de restauração de filmes realizados no Brasil foram aqueles voltados para a filmografia de consagrados cineastas do Cinema Novo, como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e Nelson Pereira dos Santos. Foram projetos que restauraram e produziram novas cópias de exibição de muitos títulos que já eram considerados clássicos. De certo modo, não fizeram filmes como Terra em transe (Glauber Rocha, 1967) ou Eles não usam black-tie (Leon Hirszman, 1981) serem necessariamente considerados mais importantes do que eles já eram para a história do cinema brasileiro.

Essa lista, pautada pela minha experiência pessoal, privilegia outros tipos de iniciativas. Tentei elencar projetos realizados nas últimas duas décadas que tiveram um amplo impacto, particularmente junto a pesquisadores e professores universitários, para um movimento de revisão da história do cinema brasileiro. Foram projetos que provocaram sentimentos de frescor, surpresa e novidade. Um dos critérios fundamentais na escolha desses dez projetos foi sua ampla repercussão e alcance, tendo ajudado a ampliar, alterar ou revisar os cânones.

Assim, um projeto importante como “Clássicos e raros do nosso cinema”, realização da Cinemateca Brasileira com o patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil, não foi incluído apesar de seus inegáveis méritos. Afinal, o projeto viabilizou a feitura de novas cópias 35mm que, elevadas a materiais de preservação, foram projetadas pouquíssimas vezes para além da exibição contratual nas mostras que viabilizaram sua produção, restritas a São Paulo e, no máximo, também ao Rio de Janeiro.

Além disso, projetos importantes, porém mais recentes, como a digitalização e lançamento em DVD de filmes de Hugo Carvana e de Aloysio Raulino, também não foram incluídos por sua repercussão na academia – não tão imediata quanto na crítica, por exemplo – ainda me parecer estar sendo processada. Podemos mencionar ainda situações em que o interesse acadêmico antecedeu as ações de preservação. Esse parece ser o caso da “redescoberta” do primeiro longa-metragem dirigido por uma cineasta negra – Amor maldito (Adélia Sampaio, 1984) – pela tese de Edileuza Penha de Souza (Cinema na Panela de Barro: Mulheres Negras, Narrativas de Amor, Afeto e Intimidade, UnB, 2013). A atenção dada a Amor maldito levou à situação do filme passar a ser amplamente solicitado para exibições por volta de 2017, mas circulando então em cópias antigas cuja qualidade não correspondia ao renovado interesse por ele.

De um modo geral, busquei nessa lista evidenciar como a originalidade, o cuidado e a pesquisa envolvida na curadoria, planejamento e realização de projetos de digitalização, duplicação, difusão e restauração são fundamentais para o seu sucesso. Tentei ainda destacar a relevante e contínua influência de ações de preservação e difusão na historiografia do cinema brasileiro. Por fim, o objetivo principal é menos hierarquizar diferentes ações do que estimular o debate.

14. Corcina e o Cinema Alternativo Carioca

O cineasta e professor (hoje aposentado) da UFF, Roberto Moura, vinha desenvolvendo desde os anos 2000 um projeto de pesquisa voltado para o que ele chamava de “cinema alternativo carioca”, englobando a ampla produção, sobretudo de curtas-metragens, realizada no Rio de Janeiro dos anos 1970, envolvendo integrantes da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), produtoras como a Corisco, do próprio Moura, e principalmente a Corcina – Cooperativa de Realizadores Cinematográficos Autônomos. Trata-se de uma produção marcada por diversidade e experimentalismo, que floresceu com a chamada Lei do Curta, realizada por diretores como José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, entre outros. Mais recentemente, Lucas Parente, filho do professor e realizador André Parente, diretor de curtas que podem ser enquadrados nesse movimento, iniciou um movimento de resgate desse material, junto com a Cinemateca do MAM, o Dobra – festival internacional de cinema experimental, entre outros parceiros. A digitalização realizada, em 2019, de Eclipse (Antonio Moreno, 1984), animação com intervenção direta na película, foi exibida em diversos festivais e eventos acadêmicos, dando continuidade, de forma mais ampla à pesquisa de Roberto Moura, e fomentando um renovado interesse sobre esses filmes e realizadores.

13. DVD de A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) da Funarte lançou nas últimas décadas belas edições em DVD de filmes de seu acervo, como o de filmes silenciosos realizados em Cataguazes e Recife ou ainda de longas-metragens sonoros como O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) e Assalto ao trem pagador (Roberto Farias, 1962). Merece destaque especial o lançamento, em 2004, da DVD com a bela cópia do segundo longa-metragem de Antonio Carlos Fontoura, A Rainha Diaba (1974). A redescoberta desse “thriller pop-gay-black” com Milton Gonçalves no papel título, dois anos depois do lançamento de “Madame Satã”, dirigido por Karïm Anouz e protagonizado por Lázaro Ramos, colocou em evidência esse que é um dos mais interessantes filmes brasileiros da década de 1970. Trata-se de um belo exemplo do resgate de um filme que se mostrou bastante atual no momento de sua redescoberta. A edição caprichada do DVD, recheado de bem produzidos extras (entrevistas, making off inédito, trailers etc.), foi outro incentivo para ampla circulação de A Rainha Diaba após um certo esquecimento ao que o filme tinha sido injustamente relegado.

12. A reconstituição de Acabaram-se os otários (1929)

A reconstituição de Acabaram-se os otários foi um projeto desenvolvido pelo Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (LUPA-UFF) e realizado por mim e pelo professor Reinaldo Cardenuto. O projeto resultou no lançamento, em 2019, de uma versão reduzida do primeiro longa-metragem brasileiro sonoro, considerado um filme perdido, o que foi possibilitado pela reunião de diferentes fragmentos remanescentes da obra, tais como trechos de imagens em movimento, fotografias e registros sonoros. Trata-se de um projeto de preservação audiovisual que, diferentemente do restante da lista, foi uma consequência e não o impulsionador de uma pesquisa acadêmica. Assim como o estudo da chegada e popularização do cinema sonoro no Brasil vinha motivando interesse de diversos pesquisadores como Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar) e Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), além de mim mesmo, a obra de Luiz de Barros também vinha recebendo mais atenção por parte de pesquisadores como Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) e seus orientandos, como Evandro Vasconcellos (“Entre o Palco e a Tela: As relações do cinema com o teatro de revista em comédias musicais de Luiz de Barros”, UFSCar, 2015). A reconstituição de Acabaram-se os otários, por outro lado, pode vir a incentivar outros projetos que conjugam pesquisa histórica e preservação audiovisual, aproximando mais as universidades e as cinematecas.

11. Restaurações "Clássicos da Cinédia"

Em 2004, a Cinédia lançou cópias restauradas de quatro filmes produzidos pela empresa através de projeto patrocinado pela BR Distribuidora. Um deles, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), já era o mais conhecido musical brasileiro dos anos 1930. Mas dois outros – Mulher (Oduvaldo Viana, 1931) 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) – eram verdadeiras “novidades” para os pesquisadores, por não circularem amplamente havia muitos anos. Dirigido por Octávio Gabus Mendes, Mulher era um filme mudo com músicas sincronizadas por discos, num momento em que os talkies já estavam em pleno sucesso no Brasil havia dois anos, mas quando muitas salas de cinema, especialmente nos subúrbios e no interior, ainda não haviam se adaptado para o cinema sonoro. Trata-se ainda um filme de grande sofisticação, comparável a outra realização muda tardia da Cinédia, a do clássico Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). Além de interessar a pesquisas sobre o som no cinema e o cinema silencioso, a restauração do filme foi o tema da dissertação de mestrado de Joice Scavone (“Mulher - trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia”, UFF, 2013) que evidenciava a ligação mais estreita entre pesquisa história e preservação de filmes na academia. Apesar da circulação restrita dos filmes, que circularam muito tempo apenas em cópias 35mm – colaborando que o quarto filme restaurado, Romance proibido (Adhemar Gonzaga, 1944) permaneça pouco conhecido – o impacto do projeto junto à academia foi significativo.

10. Duplicação de Fábula ou Moro em Copacabana de Arne Sucksdorff

O cineasta sueco Arne Sucksdorff era mais conhecido na história do cinema brasileiro por ter oferecido um curso no Rio de Janeiro, em 1962, que virou um marco na história do Cinema Novo. Antes, porém, de se radicar no pantanal mato-grossense, onde viveria até a morte, Sucksdorff realizou o fascinante Fábula (1965), longa-metragem em coprodução com a Suécia que foi praticamente esquecido desde o seu lançamento. Em meados dos anos 1990, num projeto em parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil, Chico Moreira, então conservador da Cinemateca do MAM, fez uma cópia nova, reduzida para 16mm, do contratipo original 35mm da versão brasileira do filme preservado no acervo da instituição. Nos anos 2000, Hernani Heffner – que sucedeu Chico na Cinemateca do MAM – passou a projetar Fábula com frequência em diferentes oportunidades, sempre com enorme repercussão junto ao público, deslumbrado com aquela obra praticamente desconhecida. Estudiosos logo se interessaram. João Luiz Vieira analisou o filme em seu capítulo no premiado livro World Cinemas, Transnational Perspectives, organizado por Natasa Ďurovičová e Kathleen Elizabeth Newman, publicado em 2009. Eu mesmo escrevi sobre o filme no catálogo da mostra “Olhares Neo-Realistas”, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2006. O filme se tornou ainda objeto de amplo projeto de pesquisa da professora Esther Hamburguer (USP), que viabilizou a vinda para o Brasil de uma cópia digital da versão sueca. O interesse suscitado pelo filme foi tanto que, em 2011, o Instituto Moreira Salles financiou a confecção de uma nova cópia, agora em 35mm, da versão brasileira a partir do contratipo original.

09. DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70”

Lançados, respectivamente, em 2005 e 2006, através de uma parceria entre o Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Centro Afro Carioca de Cinema e a Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura, os DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70” foram fundamentais para ampliar a circulação e permitir a revalorização de filmes de importantes cineastas negros brasileiros. O DVD duplo “O cinema de Zózimo Bulbul” trazia seis filmes do ator e diretor, realizados entre os anos 1970 e 2000. Seu primeiro curta-metragem, Alma no Olho (1973) tem sido reavaliado como a obra-prima que é, sendo recentemente escolhido, por exemplo, como o 11º melhor curta-metragem da história do cinema brasileiro na listagem feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, em 2019. Já o DVD duplo “Obras raras: o cinema negro da década de 70” apresentava seis filmes dirigidos por Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre e Odilon Lopez. De especial destaque é o longa-metragem As aventuras amorosas de um padeiro (1975), longa-metragem de estreia de Onofre produzido por Nelson Pereira dos Santos. Além do protagonista negro, essa comédia erótica produzida durante o “clímax” da pornochanchada se destaca por seu tom feminista, raro num gênero recheado de obras machistas e preconceituosas. Assim, além de colaborar para o crescente interesse pelo cinema negro na academia, o DVD auxiliou a revisão do cinema de Onofre e, de forma mais ampla, da própria pornochanchada.

08. Mostra “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação”

O pesquisador Remier Lion tinha a ambição de realizar uma ampla mostra retrospectiva com esse provocativo título na Cinemateca do MAM, na ocasião em que ela retomou sua programação após a grave crise que assolou a instituição no início dos anos 2000. Sem receber, então, acolhida do curador Gilberto Santeiro (muito incomodado com a provocação à respeitabilidade do cinema brasileiro), Remier levou parte da sua programação para cineclubes que organizou em diferentes locais do Rio de Janeiro, num projeto chamado “Malditos filmes brasileiros”. Finalmente, a mostra chegou à Cinemateca Brasileira, onde ela foi realizada com enorme sucesso em 2004, levando Remier a se incorporar, inclusive, à equipe de programação. A sua realização na Cinemateca Brasileira permitiu, inclusive, o acesso de Remier a materiais ainda mais raros para seu projeto. Embora possa ser entendido dentro de um quadro geral de revisão e revalorização do cinema da Boca do Lixo, a mostra “Cinema Brasileiro: a vergonha de uma nação” tinha um escopo mais amplo ao incorporar, por exemplo, um cineasta que Remier já pesquisava há tempos, como Nilo Machado e que produziu filmes de strip-tease desde os anos 1960. De um modo geral, a mostra jogava luz sobre diversos e desconhecidos exemplares da longa trajetória do cinema brasileiro comercial, popular e de gênero, que a historiografia pouco contemplou, com sua ênfase autoral. Assim, o evento que recebeu enorme cobertura da mídia e grande repercussão junto ao público, ia ao encontro de muitas pesquisas já desenvolvidas, como a dissertação de Rodrigo Pereira (“Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro”, Unesp, 2002), ou que ainda iriam ser concluídas, como as teses de doutorado de Laura Cánepa (“Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros”, Unicamp, 2008) e Alfredo Suppia (“Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita: uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood”, Unicamp, 2017).

07. Restauração de Aviso aos navegantes

Com o patrocínio da BR Distribuidora e da Petrobrás, o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) realizou importantes restaurações, nas últimas décadas, de filmes de diferentes épocas e diretores. Talvez a mais notável tenha sido a da chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), realizada entre 1999 e 2000. Quando as chanchadas começaram a ser revalorizadas nos anos 1970, Jean-Claude Bernardet destacou Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) como um dos mais importantes filmes políticos do cinema brasileiro. A partir de então, se alguma chanchada fosse incluída na lista dos mais importantes filmes brasileiros de todos os tempos, geralmente era essa paródia de Hollywood recheada de críticas sobre o governo Getúlio Vargas. Posteriormente, a partir de estudos como os de João Luiz Vieira, Robert Stam e Arthur Autran, o filme Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) tornou-se o exemplar mais valorizado do gênero, com seu caráter reflexivo e uma sofisticada discussão sobre a política do cinema brasileiro. O filme de Burle passou a ocupar o lugar de destaque dentro do gênero antes dado ao filme de Carlos Manga. Produzido antes desses dois, Aviso aos navegantes destaca-se não como uma exceção, mas como a regra do gênero, como um exemplar clássico. Ao invés de destoar delas, o filme exemplifica as fórmulas e clichês da chanchada, mas em sua melhor forma, trazendo no elenco Oscarito e Grande Otelo, o vilão José Lewgoy e a dupla Eliane e Anselmo. Restaurado na Labocine por Chico Moreira a partir de diferentes cópias e materiais de formatos e procedências distintas, Aviso aos navegantes vem aos poucos, e merecidamente, tornando-se a referência principal dos estudiosos para o gênero.

06. Projeto de Recuperação da Obra de Moacyr Fenelon

Realizado pelo Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro – leia-se Dona Alice Gonzaga e Hernani Heffner – o projeto de restauração de filmes de Moacyr Fenelon se estendeu entre 2006 e 2010, com patrocínio do Programa Petrobrás Cultural. O projeto trouxe à tona cinco longas-metragens realizados entre 1948 e 1951 que não eram vistos há décadas. Mais conhecido como pioneiro técnico de som nos anos 1930 e como um dos criadores da Atlântida, Moacyr Fenelon teve a parte final de sua carreira coberta pelo projeto, quando se lançou com a Cine-Produções Fenelon e, em seguida, se associou a Flama Filmes. Infelizmente, sua morte relativamente precoce, em 1953, impediu que o diretor tivesse uma participação mais efetiva no movimento que ajudou a fomentar, lembrando que Nelson Pereira dos Santos batizou a equipe que realizou Rio 40 graus, não à toa, de “Equipe Moacyr Fenelon”. Em minha tese de doutorado, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil - 1915-1951” (UFF, 2011), dois filmes trazidos à tona por esse projeto foram fundamentais como exemplares de um cinema dramático realizado a partir do pós-guerra no Brasil: Obrigado, Doutor (Moacyr Fenelon, 1948), baseado em série radiofônica homônima, e Dominó negro (Moacyr Fenelon, 1950), adaptado de novela de Hélio Soveral. De forma mais ampla, a atuação de Fenelon como “produtor independente” foi um dos temas principais da fantástica tese de doutorado de Luís Alberto da Rocha Melo (Cinema independente”: produção, distribuição e exibição no Rio de Janeiro, UFF, 2011), demonstrando o pioneirismo de Fenelon como “produtor independente” e desenvolvendo o modo de produção que seria seguido posteriormente por autores hoje identificados com o chamado “cinema independente dos anos 50”, tais como Alex Viany, Roberto Santos e o próprio Nelson Pereira dos Santos. Por fim, o musical Poeira de estrelas (Moacyr Fenelon, 1948) surpreendeu ao mostrar o amor entre duas mulheres, recebendo a pioneira análise de Mateus Nagime num dos capítulos de sua dissertação “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. Caixa de DVDs “Coleção CTAv”

Iniciativa do Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) em parceria com a Cinemateca Brasileira, a digitalização de curtas e médias produzidos pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), pelo Instituto Nacional de Cinema (INC) e pela Embrafilme, tornou disponível um grande número de documentários produzidos pelo Estado entre os anos 1930 e 1970. A bela caixa de DVDs “Coleção CTAv” resultante do projeto, fartamente distribuída para as universidades, com 110 títulos divididos em 20 discos, não só permitia uma visão mais ampla da filmografia de um cineasta como Humberto Mauro, como trazia obras menos conhecidas de diversos outros diretores importantes, de Leon Hirszman a Arthur Omar, de Adhemar Gonzaga a Linduarte Noronha, além de um amplo leque de filmes educativos, etnográficos, animações e compilações. Os filmes de educação rural de Mauro, produzidos nos anos 1950, por exemplo, ganharam um capítulo especial de Sheila Schwarzman no recente livro “Nova história do cinema brasileiro” (2018), enquanto filmes que abordam a própria história do cinema brasileiro, como o importante Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) foi tema do capítulo de Luís Alberto Rocha Melo do seminal livro “Feminino plural: Mulheres no cinema brasileiro”, organizado por Marina Tedesco e Karla Holanda, a partir de seu projeto sobre a historiografia audiovisual do cinema brasileiro. Esses filmes lançados em DVD também passaram a estar acessíveis através do Banco de Conteúdos Culturais.1

04. Mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras”

Realizada inicialmente em São Paulo, em 2001, a mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras” foi talvez o grande evento dedicado ao cinema brasileiro dentre a série de mostras marcantes patrocinadas pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) nos anos 2000. Organizado por Eugenio Puppo, da Heco Produções, a mostra reuniu um amplo conjunto de filmes que há muitos anos não eram exibidos, muito menos conjuntamente. O evento ajudou ainda a consolidar uma fórmula de sucesso: mostra de filmes + debates + catálogo com textos encomendados a especialistas + cópias novas para estreia no evento. O impacto da revisão de filmes experimentais, debochados e desafiadores realizados entre os anos 1960 e 1970 foi enorme, sobretudo em comparação com o então criticado cinema caro e careta, financiado pelas leis de incentivo, da retomada do Cinema Brasileiro. Na UFF, o professor João Luiz Vieira acompanhou a mostra com uma disciplina optativa dedicada ao cinema marginal. Na esteira do evento e de seu sucesso, produtores e críticos do Rio de Janeiro organizaram, posteriormente, mas no mesmo CCBB, mostras dedicadas individualmente a Rogério Sganzerla e Julio Bressane, novamente confeccionando cópias novas que permitiam a (re)descoberta de vários títulos mais obscuros da filmografia desses cineastas. O impacto acadêmico foi notável, com um número enorme de dissertações e teses sendo dedicadas a esse movimento que suplantou o Cinema Novo em popularidade na universidade. A própria Heco Produções lançou, em 2009, a coleção de DVDs Cinema Marginal Brasileiro, em parceria com a Lume e Cinemateca Brasileira, colaborando ainda mais para a ampla circulação desses filmes. Nesse mesmo movimento, um filme como Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restaurado entre 2013 e 2015 através do Programa Petrobras Cultural, e em seguida lançado em DVD, passou a ser tema de inúmeras pesquisas acadêmicas e apresentações em congressos.

03. Projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”

Diretor de dois longas ficcionais nos anos 1960 e de diversos curtas documentários entre as décadas de 1950 e 1970, Gerson Tavares teve seu nome e filmes apagados da história do cinema brasileiro. O projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”, aprovado na primeira (e até hoje única) edição do edital2 Preservação e Conservação da Memória Artística Fluminense da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, em 2012, tinha como objetivo inicial restaurar o filme Antes, o verão (1968), que corria o risco de se perder. O escopo foi ampliado para a digitalização também do filme Amor e desamor (1966) e de outros sete curtas do diretor, lançados em DVD duplo, numa edição não-comercial. A finalização do projeto permitiu quase um relançamento dos filmes e a redescoberto do diretor octogenário pelas novas gerações. Comparado a Walter Hugo Khouri, Gerson Tavares era prova de um cinema dramático de qualidade realizado no Rio de Janeiro dos anos 1960 para além do Cinema Novo. Ausente da maior parte dos livros panorâmicos sobre história do cinema brasileiro até então, o projeto permitiu que o nome de Gerson Tavares fosse reinscrito nessa história. Exemplo disso foi a citação a seus filmes no capítulo que Fernão Ramos escreveu sobre os anos 1960, quase inteiramente dedicado ao Cinema Novo, no recente “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organizado pelo próprio Fernão e Sheila Schvarzman.

02. Caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”

Em seu fundamental livro “Cinema brasileiro: propostas para uma história”, de 1979, Jean-Claude Bernardet apontou a importância do filme documentário (ou natural) no cinema silencioso brasileiro, apesar da atenção muito maior dada ao filme ficcional (ou posado) pelos historiadores. Entretanto, a disponibilidade de cinejornais, atualidades e registros documentais brasileiros produzidos até 1930 sempre foi escassa, apesar de representar um volume muito maior de títulos preservados do que as esparsas ficções. Uma ação fundamental para dar acesso a essa produção foi o projeto desenvolvido na Cinemateca Brasileira, por Carlos Roberto de Souza, da caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”, finalizado em 2009. Patrocinado pela Caixa Econômica Federal, a caixa era composta por 27 filmes reunidos em cinco DVDs e um livreto de autoria de Carlos Roberto. Apesar da presença de posados, como o mais antigo filme de ficção preservado, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), a grande maioria dos títulos eram de naturais, reunidos em 5 temas: “Riquezas Paulistas”, “Aspectos do Brasil”, “Ciências (mesmo ocultas) e riquezas”, “Vida cotidiana” e “Cerimônias públicas”. A circulação desses filmes permitiu que mais pesquisadores tivessem acesso a um amplo conjunto de filmes pouco vistos anteriormente, fortalecendo as pesquisas sobre o cinema silencioso brasileiro. Elas já tinham ganhado impulso com as reuniões de pesquisadores na Cinemateca Brasileira que resultaram no livro “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organizado por Samuel Paiva e Sheila Schvarzman, em grande parte também dedicado aos pouco estudados filmes naturais, sem falar de importantes artigos escritos por Eduardo Morettin e Hernani Heffner. Posteriormente, os filmes incluídos nos DVDs passaram a estar acessíveis ainda através do Banco de Conteúdos Culturais.3

01. Sessão “Como era gostoso o nosso cinema” do Canal Brasil

A criação do Canal Brasil, em 1998, representou o surgimento de uma nova janela de exibição de filmes brasileiros antigos na televisão. Com grande demanda pela aquisição de conteúdo para sua programação, o Canal Brasil oferecia, além do pagamento ao produtor pelos direitos de transmissão, os custos de telecinagem4 de filmes que não tivessem cópias em vídeo (Beta, depois Full-HD). Para alguns produtores brasileiros, sobretudo de obras comerciais que praticamente não monetizavam seus filmes desde a decadência do mercado de VHS, era um dinheiro caído do céu. Naturalmente, o principal tipo de filme que chegou ao Canal Brasil foi o da popularíssima pornochanchada, produzida entre os anos 1970 e 1980, o que motivou, inclusive, a criação da sessão “Como era gostoso o nosso cinema”, especialmente dedicado ao gênero. Poucos produtores conseguiram lançar comercialmente seus filmes fora do Canal Brasil, sendo uma exceção o ator, diretor e produtor Carlo Mossy, que lançou seus filmes numa coleção de DVDs em 2013. A ampla disponibilidade de um grande número de pornochanchadas após sua exibição pelo Canal Brasil (logo copiados e e postados na internet) permitiu o bem-vindo reexame do gênero. Embora autores como Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar e José Mário Ortiz Ramos tenham escrito sobre o gênero nos próprios anos 1970 e 1980, poucos na academia – talvez com a principal exceção de Nuno Cesar Abreu – deram prosseguimento à qualidade e perspicácia destes trabalhos pioneiros. Apenas mais recentemente tem surgido bons trabalhos acadêmicos que vão além de uma análise totalizante – e simplista – do gênero, fugindo de uma relação mecanicista com a censura, focando em filmes e filmografias específicas e apontando a inevitável, mas pouco percebida diversidade da pornochanchada, em termos de temas, abordagens e qualidade. Dissertações de mestrado como a de Luiz Paulo Gomes (A construção de um profeta: a prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero da pornochanchada, UFF, 2012) e de Luciano Carneiro de Oliveira Júnior (Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980, UFF, 2019), ambas orientadas pela professora Mariana Baltar, foram alguns dos bons frutos da disponibilidade em formato digital de um número muito mais amplo de filmes que permitiram a comparação, análise e crítica.

1. Em razão da atual crise da Cinemateca Brasileira, decorrente de ações recentes do governo, o site do Banco de Conteúdos Culturais, hospedado pela Cinemateca, tem sofrido frequentemente com problemas técnicos.

2. No Brasil, governos ocasionalmente lançam editais públicos, que são semelhantes a bolsas ou auxílios. Os editais públicos são oportunidades abertas a qualquer interessado para concorrer a financiamento, geralmente voltadas a obras culturais ou projetos de pesquisa.

3. Ver item 1.

4. Telecine é o processo de transferência de filme cinematográfico para vídeo. A telecinagem permite que uma obra originalmente captada em película seja exibida em equipamentos padrão de vídeo, como aparelhos de televisão, videocassetes (VCR), DVD, Blu-ray ou computadores.

Since the 1990s, the most ambitious and well-funded film restoration projects in Brazil have focused on the filmography of renowned filmmakers from the Cinema Novo movement such as Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman and Nelson Pereira dos Santos. These projects restored and produced new exhibition prints of many titles that were already considered classics. But the canonical status of the works that these directors produced, such as Entranced Earth (Glauber Rocha, 1967) or They Don't Wear Black Tie (Leon Hirszman, 1981), aren’t going to be further elevated through film restorations. Rather, the restoration of these films only reinforced the notion that they were the single-best titles Brazilian cinema had to offer.

This list, based on my experiences as a film archivist and film scholar, privileges initiatives that have focused on historically ignored films, periods, or genres throughout Brazilian cinema history. I attempted to list projects, retrospectives, and events carried out over the last two decades that allowed researchers and academics the opportunity to reevaluate the history of Brazilian cinema in their work. These projects brought to light films from the past that had not been widely seen or discussed for many years (some even since they were first released), provoking feelings of freshness, surprise, and novelty towards a wider historical array of Brazilian films.

One of the criteria in compiling this list was that each project expanded, altered, or revised long existing Brazilian Cinema canons. Thus, an important program such as the 2013 “Clássicos e raros do nosso cinema”, conducted by the Cinemateca Brasileira with the sponsorship of the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), was not included in this list despite its undeniable merits. While new 35mm prints were struck as a result of that program, these prints were projected very few times outside of São Paulo and Rio de Janeiro (the main cities the program took place in) because they were elevated to the status of preservation prints.

In addition, important projects such as the digitization and DVD release of films by Hugo Carvana and Aloysio Raulino by the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in 2017 were not included in this list because it is still too recent to evaluate their impact on the academic world. There are also situations in which academic interest preceded preservation actions. This seems to have been the case with the “rediscovery” of the first Brazilian feature film directed by a black woman, Adélia Sampaio’s Amor maldito (1984). When Amor Maldito was written about in the PhD thesis of Edileuza Penha de Souza, “Cinema na panela de barro: mulheres negras, narrativas de amor, afeto e identidade” (UnB, 2013), the new attention given to the film led to it being widely requested for exhibitions in around 2017. However, the circulating copies of the film were unfortunately in bad quality and did not correspond to the film’s renewed interest.

In this list, I generally sought to show how originality, care and research involved in these projects were fundamental to their success. I also tried to highlight the relevant and continuous impact that preservation and diffusion actions have in reshaping the historiography of Brazilian cinema. Finally, the objective of this list is less to rank different preservation projects than to stimulate new debate about them.

14. Corcina and Rio de Janeiro’s Underground Cinema

Roberto Moura, the (now retired) filmmaker and professor at UFF, began a research project in the 2000s that focused on what he called “cinema alternativo carioca” (Rio de Janeiro underground cinema). This project focused on the wide ranging film production (especially of short films) of Rio de Janeiro in the 1970s and early 1980s. Involving members of the Brazilian Association of Documentarians (ABD), production companies would include Corisco, Moura himself, and especially Corcina - Cooperative of Independent Film Directors. The underground films of this period are marked by a diversity and experimentalism which flourished under the so-called “Lei do Curta” (the mandatory exhibition of Brazilian short films together with foreign features). Directors such as José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, all participated in making bold short works. More recently, Lucas Parente (son of the multimedia artist and professor André Parente, who directed some short films that are included in this trend), started a movement to rescue this material, together with the Cinemateca do MAM, Dobra - International Festival of Experimental Cinema, and others. As a result of these efforts, a 2019 digitalization of Eclipse (Antonio Moreno, 1984), an animation painted directly on film, was exhibited in several festivals and academic events, giving continuity to Roberto Moura's research, and fostering a renewed interest in these films and directors.

13. The DVD Release of A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) has launched beautiful DVD editions of films from its collection over the past decades, such as silent films made in Cataguazes and Recife or even sound feature films such as O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) and Assault on the Pay Train (Roberto Farias, 1962). Special mention should be made of the 2004 release of Antonio Carlos Fontoura's second feature film A Rainha Diaba (1974) on a beautiful DVD copy. This “pop-gay-black thriller” (as it was announced at the time of its release) was rediscovered two years after the premiere of Madame Satã by Karïm Anouz, helping to highlight that A Rainha Diaba is one of the most interesting Brazilian films of the 1970s. This is a beautiful example of the rescue of a film that was still very “modern” even at the time of its rediscovery. The neat edition of the DVD, filled with well-produced extras (interviews, making-ofs, trailers, etc.), was another incentive for the wide circulation of A Rainha Diaba after a certain ostracism to which the film had initially been unfairly relegated.

12. The Reconstruction of Acabaram-se os otários (1929)

The reconstruction of Acabaram-se os otários (1929) was a project developed by the University Laboratory of Audiovisual Preservation of the Federal Fluminense University (LUPA-UFF) and carried out by myself and professor Reinaldo Cardenuto. The project resulted in the 2019 launch of a shortened version of the first Brazilian sound feature film, which is considered lost. This project gathered together different remaining fragments of the work such as excerpts of moving images, photographs and sound records. This audiovisual preservation project, unlike the rest on this list, was a consequence of and not the impetus for academic research. As the study of the arrival and popularization of sound cinema in Brazil motivated the interest of several researchers such as Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar), and Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), the work of Luiz de Barros began receiving more attention from researchers as well. Researchers of Luiz de Barros include myself, Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) and her graduate student Evandro Vasconcellos, author of the M.A. dissertation “Entre o palco e a tela: as relações do cinema com o teatro de revista nas comédias de Luiz de Barros” (UFSCar, 2015). The reconstruction of Acabaram-se os otários, on the other hand, may come to encourage other projects that combine historical research and audiovisual preservation, bringing universities and film archives closer together.

11. “Classics of Cinédia” Restorations

In 2004, Cinédia released copies of four restored films produced by the company through a project sponsored by BR Distribuidora. One of them, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), was already the most well-known Brazilian musical of the 1930s. But two others - Mulher (Octávio Gabus Mendes, 1931) and 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) - were true “novelties” for researchers, as they had not been widely circulated for many years. Directed by Octávio Gabus Mendes, Mulher was a silent film with music synchronized with Vitaphone records at a time when talkies were already the norm in Brazil for two years. However, at that time, many movie theaters, especially in the suburbs and in the countryside, had not yet begun the move toward sound cinema. The film is highly sophisticated, comparable to another late silent production by Cinédia, the classic Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). In addition to prompting interesting research on sound in cinema and silent cinema, the restoration of Mulher was the subject of the M.A. dissertation by Joice Scavone, “Mulher: a trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia” (UFF, 2013), which discussed the close link between film studies and film preservation in academia. The Classics of Cinédia restorations remain in restricted circulation, many of the works still unavailable in digital format. As a result, the fourth film which was restored, Adhemar Gonzaga’s 1944 Romance proibido remains practically unknown to audiences. Despite this, the films that are accessible had an extremely significant impact on the academic world.

10. Duplication of Fábula or Mitt Hem är Copacabana by Arne Sucksdorff

Swedish filmmaker Arne Sucksdorff was best known in the history of Brazilian cinema for having offered a film course in Rio de Janeiro in 1962, which became a milestone moment for the emerging Cinema Novo movement. However, before moving to Mato Grosso’s Pantanal (where he would live until his death), Sucksdorff shot the fascinating Fábula (1965) in Rio de Janeiro. This feature film was co-produced with Sweden and it had been practically forgotten since its initial release. However, in the mid-1990s, in a project in partnership with the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), Chico Moreira, who was then the head of conservation at the Cinemateca do MAM, duplicated the film. Chico produced a new 16mm exhibition print optically reduced from the original 35mm internegative of the Brazilian version of the film which had been preserved by the film archive. In the 2000s, Hernani Heffner - who succeeded Chico at the Cinemateca do MAM - began to frequently screen that 16mm print of Fábula, always with enormous success among the public who were dazzled by this practically unknown work. Scholars soon became interested. João Luiz Vieira analyzed the film in the award-winning 2009 book “World Cinemas, Transnational Perspectives”, edited by Natasa Ďurovičová and Kathleen Newman. I myself wrote about the film in the catalog of the “Olhares Neo-Realistas” film series, held at the Banco do Brasil Cultural Center in 2006. The film also became the subject of a wider research project by professor Esther Hamburger (USP), which brought to Brazil a digital copy of the Swedish version. The interest aroused by the film was such that in 2011 the Moreira Salles Institute financed the making of a new print of the Brazilian version – this time in 35mm – from the original internegative.

09. DVDs "Os filmes de Zózimo Bulbul" and " Obras raras: o cinema negro da década de 70" (Films of Zózimo Bulbul" and "Rare works: Black Cinema of the 70s)

Released in 2005 and 2006 through a partnership between the Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Afro Carioca Cinema Center and the Palmares Cultural Foundation of the Ministry of Culture, the DVDs “Films of Zózimo Bulbul” and “Rare works: the black cinema of the 70s” were fundamental towards expanding the circulation of films by important black Brazilian filmmakers as well as contributing to their revaluation. The double DVD-set “Films of Zózimo Bulbul” featured six films by the actor and director, made between the 1970s and 2000s. Bulbul’s first short film Alma no Olho (1973) has been reevaluated as the masterpiece that it is, being recently chosen as the 11th best short film in the history of Brazilian cinema in a list made by the Brazilian Association of Film Critics (Abbracine) in 2019. The double DVD “Rare works: black cinema of the 70s” presented six films directed by Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre and Odilon Lopez. Of particular note is the feature film As aventuras amorosas de um padeiro (1975), Onofre's debut feature film produced by Nelson Pereira dos Santos. In addition to the black protagonist, this erotic comedy produced during the “climax” of pornochanchada stands out for its feminist tone, rare in a genre filled with sexist works. Thus, in addition to contributing to the growing interest in black cinema in the academic world, the DVD also helped newly highlight Onofre's cinema and, more broadly, the pornochanchada itself.

08. Event “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação” (Brazilian Cinema, the Shame of a Nation)

Researcher Remier Lion had the ambition to hold a large retrospective of Brazilian exploitation films with this provocative title (a reference to Howard Hawks’ 1932 Scarface) at the Cinemateca do MAM when it had just resumed its programming after a serious crisis hit the institution in the early 2000s. However, his idea was not well received by the institution’s then curator Gilberto Santeiro, who was very uncomfortable with the provocation aimed at the respectability of Brazilian cinema. Despite this, Remier brought part of his program to film clubs in different locations of Rio de Janeiro, titling the new program “Malditos films brasileiros” (Damned Brazilian Films). Finally, the program reached the Cinemateca Brasileira, where it was held with enormous success in 2004, even leading Remier to join the programming team of the film archive. Working at the Cinemateca Brasileira provided Remier with access to even rarer materials for his project. Although Remier’s program can be understood as a general revision and revaluation of the films made at the “Boca do Lixo” (the neighborhood that gathered commercial film professionals in São Paulo from the 1960s to 1980s), the screening series “Brazilian Cinema: the shame of a nation” had a broader scope, incorporating a filmmaker that Remier was researching for a very long time, Nilo Machado, who independently produced strip-tease films in Rio de Janeiro since the 1960s. In general, the exhibition at the Cinemateca Brasileira shed light on several unknown examples of the long trajectory of Brazilian commercial, popular, and genre cinema, which had not yet been explored in Brazilian film historiography due to its penchant for emphasizing auteurs. Thus, this event received enormous media coverage and had great repercussion among film critics. It was also aligned with an academic research trend that was just burgeoning, exemplified by Rodrigo Pereira's dissertation “Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro” (Unesp, 2002), or by works which were then yet to have been completed, including the doctoral theses of Laura Cánepa “Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros” (Unicamp, 2008) and Alfredo Suppia “Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita : uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood” (Unicamp, 2007).

07. Restoration of Aviso aos navegantes

With the sponsorship of BR Distribuidora and Petrobrás, the Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) has carried out important restorations of films from different periods and directors over the last few decades. Perhaps the most notable restoration was the chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), completed between 1999 and 2000. When the 1950s musical comedies known as chanchadas started to be revaluated in the 1970s, Jean-Claude Bernardet highlighted Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) as one of the most important political films in Brazilian cinema. From then on out, if any chanchada was included on the list of the most important Brazilian films of all time, it was usually this Hollywood parody full of criticism about the Getúlio Vargas government. Subsequently, based on studies such as those of João Luiz Vieira, Robert Stam and Arthur Autran, the film Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) became the most valued example of the genre, with its reflexive character and sophisticated discussion about the politics of Brazilian cinema. Burle's film came to occupy the prominent place within the chanchada genre previously given to Carlos Manga's film. Produced before Carnaval Atlântida and Nem Sansão nem Dalila, Aviso aos navegantes stands out not as an exception to the genre, but as the rule. Rather than subverting the conventions of chanchadas, the film brilliantly employs all of its clichés, with an excellent cast of Oscarito and Grande Otelo, villain José Lewgoy and the romantic duo of Eliane Macedo and Anselmo Duarte. Restored by Chico Moreira at Labocine from different prints of various gauges, Aviso aos navegantes gradually and deservedly became the main chanchada reference for scholars of the genre.

06. Restoration of Moacyr Fenelon’s films.

Conducted by the Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro (IPMCB), an organization run by Alice Gonzaga and Hernani Heffner, the restoration project of the films of Moacyr Fenelon extended between 2006 and 2010 and was sponsored by the Petrobrás Cultural Program. The project brought to light five feature films made between 1948 and 1951 that had not been seen in decades. Moacyr Fenelon is best known as a pioneer sound technician during the 1930s and as one of the creators of the Atlântida studio in 1941. Fenelon had the final part of his career recovered by the restoration project: the years when he created his company the Cine-Produções Fenelon and then joined Flama Filmes studio. Unfortunately, his relatively early death in 1953 prevented the director from having a more effective participation in the movement he helped to foster, keeping in mind that Nelson Pereira dos Santos not for nothing named the crew who made Rio 40 degrees, “Team Moacyr Fenelon”. In my PhD thesis, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil: 1915-1951” (UFF, 2011), two films restored by this project served as fundamental examples for my research of a dramatic cinema made during post-War times in Brazil: Obrigado, Doutor (1948), based on a homonymous radio series, and Domino Negro (1950), adapted from a novel by Hélio Soveral. More broadly, Fenelon's role as an “independent producer” was one of the main themes of Luís Alberto da Rocha Melo's fantastic PhD thesis, “Cinema Independente: produção, exibição e distribuição no Rio de Janeiro: 1948 to 1954" (UFF, 2011). In that thesis, he demonstrated Fenelon's pioneering leadership in developing the mode of production that would later be followed by “auteurs” who are identified today with the so-called “independent cinema of the 50s”, such as Alex Viany, Roberto Santos and Nelson Pereira dos Santos. Finally, Fenelon’s musical Poeira de Estrelas (1948) surprised today’s audiences by portraying the love between two women, receiving a pioneering analysis by Mateus Nagime in one of the chapters of his M.A. dissertation “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. DVD Box-Set “Coleção CTAv” (CTAv Collection)

Initiative of the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in partnership with the Cinemateca Brasileira, the digitization of short films produced by the Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), the Instituto Nacional de Cinema (INC) and Embrafilme, made a large number of documentaries produced by the State between the 1930s and the 1970s accessible. The beautiful DVD box-set “CTAv Collection” which resulted from the digitization project was sent to many universities for free. It contained 110 titles divided into 20 discs, not only allowing for a broader view of filmmaker Humberto Mauro’s filmography, but also shedding light on lesser-known works by several other important directors such as Leon Hirszman, Arthur Omar, Adhemar Gonzaga, Linduarte Noronha, and a wide range of educational, ethnographic, animation and compilation films. Mauro's rural education films from the 1950s, for example, would go on to be written about in a special chapter by Sheila Schwarzman in the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (2018). Also, films that address the very history of Brazilian cinema such as the important Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) was the subject of Luís Alberto Rocha Melo's chapter in the seminal book “Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro”, organized by Marina Tedesco and Karla Holanda, from his project on audiovisual historiography of Brazilian cinema. These films released on DVD also became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.1

04. Event “Cinema Marginal e suas fronteiras” (Cinema Marginal and its Borders)

Initially held in São Paulo in 2001, the film screening series “Cinema Marginal and its Borders” was perhaps the greatest event dedicated to Brazilian cinema among the series of outstanding screenings sponsored by the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB) in the 2000s. Organized by the founder of Heço Produções Eugenio Puppo, the event brought together a wide range of films that had not been shown for many years, much less together. The event also helped to consolidate a successful formula for future events: film screenings + debates + catalog with texts specially written by specialists + new prints struck to premiere at the event. The impact of the experimental and iconoclast films made between the 1960s and 1970s was enormous, especially in comparison with the expensive and inexpressive films that comprised most of the contemporary Brazilian cinema of the “Retomada”. At UFF, professor João Luiz Vieira built a course around Cinema Marginal in light of the event, his students attending many screenings and becoming more interested in Cinema Marginal. In the wake of the event and its success, producers and critics from Rio de Janeiro later organized film series dedicated to directors Rogério Sganzerla and Julio Bressane, notable auteurs of the Cinema Marginal period. These series took place in the same cultural center, and new film prints were especially struck, allowing for the (re)discovery of lesser known titles from the filmography of these filmmakers.

The event also had a major impact on the academic world, as a huge number of dissertations and theses were soon dedicated to Cinema Marginal. The topic of Cinema Marginal would soon go to supplant the Cinema Novo movement in popularity at universities. As a result of such success, Heco Produções launched the 2009 DVD collection “Cinema Marginal Brasileiro” in partnership with Lume and the Cinemateca Brasileira, institutions further collaborating to widely circulate Cinema Marginal films. At the same time, a film like Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restored between 2013 and 2015 through the Petrobras Cultural Program and then released on DVD, became the subject of numerous academic research projects and became an often debated work at conferences.

03. Project “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares” (Rediscovery of Gerson Tavares’ Films)

Director of two fictional features in the 1960s and several short documentaries between the 1950s and 1970s, Gerson Tavares had his name and films erased from the history of Brazilian cinema. The project “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” was approved in the first (and until today only) edition of the “Preservation and Conservation of the Fluminense Artistic Memory” public call2 by the Rio de Janeiro Secretariat of Culture in 2012. “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” had the initial objective of restoring the film Antes, o Verão (1968), which was in danger of being lost as its only two remaining 35mm prints were already deteriorating. However, the scope of the project was widened, allowing us to digitize the feature film Amor e desamor (1966) as well as seven other shorts by the director. These films would go on to be released on a non-commercial double DVD. The completion of the project allowed for what was almost a new premiere of Gerson’s films, and a real rediscovery of the octogenarian director by new generations occurred. Often compared to Walter Hugo Khouri who worked in São Paulo, the work of Gerson Tavares is proof that there was quality dramatic cinema made in Rio de Janeiro in the 1960s outside of the Cinema Novo movement. Absent from most panoramic books on the history of Brazilian cinema until then, the project allowed the name of Gerson Tavares to be reinserted in that history. As an example, Fernão Ramos mentioned Gerson’s films in his chapter about Brazilian cinema of the 60s in the the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organized by Sheila Schvarzman and Ramos himself.

02. DVD Box-Set “Resgate do cinema silencioso brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema)

In his fundamental 1979 book “Cinema Brasileiro: propostas para uma história”, Jean-Claude Bernardet pointed out the importance of documentary (or “natural”) film in Brazilian silent cinema, despite the much greater attention allotted to fictional (“posado” or staged) film by historians. While the availability of newsreels, actualities and documentary films produced up until 1930 has always been scarce, these works in fact represent a much larger volume of preserved titles than the even scarcer availability of fiction films. A fundamental action towards providing access to silent documentary films was a project developed with the Cinemateca Brasileira by Carlos Roberto de Souza: the 2009 DVD box-set “Rescuing Silent Brazilian Cinema”. Sponsored by Caixa Econômica Federal, this box-set was composed of 27 films gathered into five DVDs and came with a booklet written by Carlos Roberto. Despite the presence of “posados” (fictional films), such as the oldest preserved fictional Brazilian film, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), the vast majority of titles within the box were “naturais” (that is, documentaries) grouped into 5 themes: “Riches of São Paulo”, “Aspects of Brazil", "Sciences (or occultism) and riches", "Daily life" and “Public ceremonies". The circulation of these films provided researchers with greater access to a wide range of films that had rarely been seen, promoting new research on Brazilian silent cinema. However, research into this field had already begun gaining momentum during gathering sessions of scholars at the Cinemateca Brasileira that resulted in the book “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organized by Samuel Paiva and Sheila Schvarzman, also largely dedicated to documentary silent films. In addition to that, important articles were written about this topic by Eduardo Morettin and Hernani Heffner. Subsequently, the films included in the DVDs became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.3

01. Canal Brasil's “Como era gostoso o nosso cinema” (How Tasty was Our Cinema) Program

The emergence of pay-TV Channel Canal Brasil in 1998 provided a new window for showing old Brazilian films on television. Canal Brasil needed to acquire Brazilian cinema content for its programming, so they offered to pay producers for broadcasting rights in addition to paying for the telecine4 costs of films that did not yet have video copies (Beta, then Full-HD). For some Brazilian producers, especially producers of commercial works who had been unable to monetize their films since the decline of the VHS market in the mid-2000s, it was as if money was coming from heaven. They finally had a way to commercially release their films through Canal Brasil.

Naturally, the main type of film that reached Canal Brasil was the popular pornochanchada. These were soft-core porn films produced between the 1970s and 1980s. The telecineing of many pornochanchada films motivated Canal Brasil to create the program “How tasty was our cinema” (mocking the title of Nelson Pereira dos Santos’s 1971 film How Tasty was My Little Frenchman), a series of live airings dedicated to the genre. Soon after these pornochanchadas were shown on Canal Brasil, they became widely available (as people would pirate recordings of the live TV presentation and post them online). With new access to these films, an extraordinary revision of the genre occurred.

Although authors such as Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar and José Mário Ortiz Ramos wrote about pornochanchadas in the 1970s and 1980s, few working within the field of academia after them (perhaps with the exception of Nuno Cesar Abreu) realized the quality and perspicacity of these pioneering works. Only more recently have there been new academic dissertations that go beyond a totalizing and simplistic analysis of the genre. These texts move away from the point of view that pornochanchadas merely held a mechanistic relationship with censorship, and that the “birth” of the genre was merely the result of State repression. Instead, they focus on specific films and filmographies, pointing out the diversity of pornochanchadas in terms of themes, approaches and quality.

M.A. dissertations such as Luiz Paulo Gomes Neves’ “A construção de um profeta: A prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero pornochanchada” (UFF, 2012) and Luciano Carneiro de Oliveira Júnior’s “Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980” (UFF, 2019), both supervised by professor Mariana Baltar, are two good examples of the kind of positive influence that a large number of digitally available titles can have on film genre studies.

1. Due to Cinemateca Brasileira’s current crisis resulting from recent government actions, the website of the Banco de Conteúdos Culturais, hosted by the Cinemateca, has often suffered from technical problems

2. In Brazil, governments occasionally put out “public calls”, which are similar to grants. Public calls are opportunities open to anybody to compete to get something funded, usually cultural works or research projects.

3. See item 1.

4. Telecine is the process of transferring motion picture film into video. Telecine enables a motion picture, captured originally on film stock, to be viewed with standard video equipment such as television sets, video cassette recorders (VCR), DVD, Blu-ray Disc or computers.

Since the 1990s, the most ambitious and well-funded film restoration projects in Brazil have focused on the filmography of renowned filmmakers from the Cinema Novo movement such as Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman and Nelson Pereira dos Santos. These projects restored and produced new exhibition prints of many titles that were already considered classics. But the canonical status of the works that these directors produced, such as Entranced Earth (Glauber Rocha, 1967) or They Don't Wear Black Tie (Leon Hirszman, 1981), aren’t going to be further elevated through film restorations. Rather, the restoration of these films only reinforced the notion that they were the single-best titles Brazilian cinema had to offer.

This list, based on my experiences as a film archivist and film scholar, privileges initiatives that have focused on historically ignored films, periods, or genres throughout Brazilian cinema history. I attempted to list projects, retrospectives, and events carried out over the last two decades that allowed researchers and academics the opportunity to reevaluate the history of Brazilian cinema in their work. These projects brought to light films from the past that had not been widely seen or discussed for many years (some even since they were first released), provoking feelings of freshness, surprise, and novelty towards a wider historical array of Brazilian films.

One of the criteria in compiling this list was that each project expanded, altered, or revised long existing Brazilian Cinema canons. Thus, an important program such as the 2013 “Clássicos e raros do nosso cinema”, conducted by the Cinemateca Brasileira with the sponsorship of the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), was not included in this list despite its undeniable merits. While new 35mm prints were struck as a result of that program, these prints were projected very few times outside of São Paulo and Rio de Janeiro (the main cities the program took place in) because they were elevated to the status of preservation prints.

In addition, important projects such as the digitization and DVD release of films by Hugo Carvana and Aloysio Raulino by the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in 2017 were not included in this list because it is still too recent to evaluate their impact on the academic world. There are also situations in which academic interest preceded preservation actions. This seems to have been the case with the “rediscovery” of the first Brazilian feature film directed by a black woman, Adélia Sampaio’s Amor maldito (1984). When Amor Maldito was written about in the PhD thesis of Edileuza Penha de Souza, “Cinema na panela de barro: mulheres negras, narrativas de amor, afeto e identidade” (UnB, 2013), the new attention given to the film led to it being widely requested for exhibitions in around 2017. However, the circulating copies of the film were unfortunately in bad quality and did not correspond to the film’s renewed interest.

In this list, I generally sought to show how originality, care and research involved in these projects were fundamental to their success. I also tried to highlight the relevant and continuous impact that preservation and diffusion actions have in reshaping the historiography of Brazilian cinema. Finally, the objective of this list is less to rank different preservation projects than to stimulate new debate about them.

14. Corcina and Rio de Janeiro’s Underground Cinema

Roberto Moura, the (now retired) filmmaker and professor at UFF, began a research project in the 2000s that focused on what he called “cinema alternativo carioca” (Rio de Janeiro underground cinema). This project focused on the wide ranging film production (especially of short films) of Rio de Janeiro in the 1970s and early 1980s. Involving members of the Brazilian Association of Documentarians (ABD), production companies would include Corisco, Moura himself, and especially Corcina - Cooperative of Independent Film Directors. The underground films of this period are marked by a diversity and experimentalism which flourished under the so-called “Lei do Curta” (the mandatory exhibition of Brazilian short films together with foreign features). Directors such as José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, all participated in making bold short works. More recently, Lucas Parente (son of the multimedia artist and professor André Parente, who directed some short films that are included in this trend), started a movement to rescue this material, together with the Cinemateca do MAM, Dobra - International Festival of Experimental Cinema, and others. As a result of these efforts, a 2019 digitalization of Eclipse (Antonio Moreno, 1984), an animation painted directly on film, was exhibited in several festivals and academic events, giving continuity to Roberto Moura's research, and fostering a renewed interest in these films and directors.

13. The DVD Release of A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) has launched beautiful DVD editions of films from its collection over the past decades, such as silent films made in Cataguazes and Recife or even sound feature films such as O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) and Assault on the Pay Train (Roberto Farias, 1962). Special mention should be made of the 2004 release of Antonio Carlos Fontoura's second feature film A Rainha Diaba (1974) on a beautiful DVD copy. This “pop-gay-black thriller” (as it was announced at the time of its release) was rediscovered two years after the premiere of Madame Satã by Karïm Anouz, helping to highlight that A Rainha Diaba is one of the most interesting Brazilian films of the 1970s. This is a beautiful example of the rescue of a film that was still very “modern” even at the time of its rediscovery. The neat edition of the DVD, filled with well-produced extras (interviews, making-ofs, trailers, etc.), was another incentive for the wide circulation of A Rainha Diaba after a certain ostracism to which the film had initially been unfairly relegated.

12. The Reconstruction of Acabaram-se os otários (1929)

The reconstruction of Acabaram-se os otários (1929) was a project developed by the University Laboratory of Audiovisual Preservation of the Federal Fluminense University (LUPA-UFF) and carried out by myself and professor Reinaldo Cardenuto. The project resulted in the 2019 launch of a shortened version of the first Brazilian sound feature film, which is considered lost. This project gathered together different remaining fragments of the work such as excerpts of moving images, photographs and sound records. This audiovisual preservation project, unlike the rest on this list, was a consequence of and not the impetus for academic research. As the study of the arrival and popularization of sound cinema in Brazil motivated the interest of several researchers such as Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar), and Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), the work of Luiz de Barros began receiving more attention from researchers as well. Researchers of Luiz de Barros include myself, Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) and her graduate student Evandro Vasconcellos, author of the M.A. dissertation “Entre o palco e a tela: as relações do cinema com o teatro de revista nas comédias de Luiz de Barros” (UFSCar, 2015). The reconstruction of Acabaram-se os otários, on the other hand, may come to encourage other projects that combine historical research and audiovisual preservation, bringing universities and film archives closer together.

11. “Classics of Cinédia” Restorations

In 2004, Cinédia released copies of four restored films produced by the company through a project sponsored by BR Distribuidora. One of them, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), was already the most well-known Brazilian musical of the 1930s. But two others - Mulher (Octávio Gabus Mendes, 1931) and 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) - were true “novelties” for researchers, as they had not been widely circulated for many years. Directed by Octávio Gabus Mendes, Mulher was a silent film with music synchronized with Vitaphone records at a time when talkies were already the norm in Brazil for two years. However, at that time, many movie theaters, especially in the suburbs and in the countryside, had not yet begun the move toward sound cinema. The film is highly sophisticated, comparable to another late silent production by Cinédia, the classic Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). In addition to prompting interesting research on sound in cinema and silent cinema, the restoration of Mulher was the subject of the M.A. dissertation by Joice Scavone, “Mulher: a trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia” (UFF, 2013), which discussed the close link between film studies and film preservation in academia. The Classics of Cinédia restorations remain in restricted circulation, many of the works still unavailable in digital format. As a result, the fourth film which was restored, Adhemar Gonzaga’s 1944 Romance proibido remains practically unknown to audiences. Despite this, the films that are accessible had an extremely significant impact on the academic world.

10. Duplication of Fábula or Mitt Hem är Copacabana by Arne Sucksdorff

Swedish filmmaker Arne Sucksdorff was best known in the history of Brazilian cinema for having offered a film course in Rio de Janeiro in 1962, which became a milestone moment for the emerging Cinema Novo movement. However, before moving to Mato Grosso’s Pantanal (where he would live until his death), Sucksdorff shot the fascinating Fábula (1965) in Rio de Janeiro. This feature film was co-produced with Sweden and it had been practically forgotten since its initial release. However, in the mid-1990s, in a project in partnership with the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), Chico Moreira, who was then the head of conservation at the Cinemateca do MAM, duplicated the film. Chico produced a new 16mm exhibition print optically reduced from the original 35mm internegative of the Brazilian version of the film which had been preserved by the film archive. In the 2000s, Hernani Heffner - who succeeded Chico at the Cinemateca do MAM - began to frequently screen that 16mm print of Fábula, always with enormous success among the public who were dazzled by this practically unknown work. Scholars soon became interested. João Luiz Vieira analyzed the film in the award-winning 2009 book “World Cinemas, Transnational Perspectives”, edited by Natasa Ďurovičová and Kathleen Newman. I myself wrote about the film in the catalog of the “Olhares Neo-Realistas” film series, held at the Banco do Brasil Cultural Center in 2006. The film also became the subject of a wider research project by professor Esther Hamburger (USP), which brought to Brazil a digital copy of the Swedish version. The interest aroused by the film was such that in 2011 the Moreira Salles Institute financed the making of a new print of the Brazilian version – this time in 35mm – from the original internegative.

09. DVDs "Os filmes de Zózimo Bulbul" and " Obras raras: o cinema negro da década de 70" (Films of Zózimo Bulbul" and "Rare works: Black Cinema of the 70s)

Released in 2005 and 2006 through a partnership between the Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Afro Carioca Cinema Center and the Palmares Cultural Foundation of the Ministry of Culture, the DVDs “Films of Zózimo Bulbul” and “Rare works: the black cinema of the 70s” were fundamental towards expanding the circulation of films by important black Brazilian filmmakers as well as contributing to their revaluation. The double DVD-set “Films of Zózimo Bulbul” featured six films by the actor and director, made between the 1970s and 2000s. Bulbul’s first short film Alma no Olho (1973) has been reevaluated as the masterpiece that it is, being recently chosen as the 11th best short film in the history of Brazilian cinema in a list made by the Brazilian Association of Film Critics (Abbracine) in 2019. The double DVD “Rare works: black cinema of the 70s” presented six films directed by Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre and Odilon Lopez. Of particular note is the feature film As aventuras amorosas de um padeiro (1975), Onofre's debut feature film produced by Nelson Pereira dos Santos. In addition to the black protagonist, this erotic comedy produced during the “climax” of pornochanchada stands out for its feminist tone, rare in a genre filled with sexist works. Thus, in addition to contributing to the growing interest in black cinema in the academic world, the DVD also helped newly highlight Onofre's cinema and, more broadly, the pornochanchada itself.

08. Event “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação” (Brazilian Cinema, the Shame of a Nation)

Researcher Remier Lion had the ambition to hold a large retrospective of Brazilian exploitation films with this provocative title (a reference to Howard Hawks’ 1932 Scarface) at the Cinemateca do MAM when it had just resumed its programming after a serious crisis hit the institution in the early 2000s. However, his idea was not well received by the institution’s then curator Gilberto Santeiro, who was very uncomfortable with the provocation aimed at the respectability of Brazilian cinema. Despite this, Remier brought part of his program to film clubs in different locations of Rio de Janeiro, titling the new program “Malditos films brasileiros” (Damned Brazilian Films). Finally, the program reached the Cinemateca Brasileira, where it was held with enormous success in 2004, even leading Remier to join the programming team of the film archive. Working at the Cinemateca Brasileira provided Remier with access to even rarer materials for his project. Although Remier’s program can be understood as a general revision and revaluation of the films made at the “Boca do Lixo” (the neighborhood that gathered commercial film professionals in São Paulo from the 1960s to 1980s), the screening series “Brazilian Cinema: the shame of a nation” had a broader scope, incorporating a filmmaker that Remier was researching for a very long time, Nilo Machado, who independently produced strip-tease films in Rio de Janeiro since the 1960s. In general, the exhibition at the Cinemateca Brasileira shed light on several unknown examples of the long trajectory of Brazilian commercial, popular, and genre cinema, which had not yet been explored in Brazilian film historiography due to its penchant for emphasizing auteurs. Thus, this event received enormous media coverage and had great repercussion among film critics. It was also aligned with an academic research trend that was just burgeoning, exemplified by Rodrigo Pereira's dissertation “Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro” (Unesp, 2002), or by works which were then yet to have been completed, including the doctoral theses of Laura Cánepa “Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros” (Unicamp, 2008) and Alfredo Suppia “Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita : uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood” (Unicamp, 2007).

07. Restoration of Aviso aos navegantes

With the sponsorship of BR Distribuidora and Petrobrás, the Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) has carried out important restorations of films from different periods and directors over the last few decades. Perhaps the most notable restoration was the chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), completed between 1999 and 2000. When the 1950s musical comedies known as chanchadas started to be revaluated in the 1970s, Jean-Claude Bernardet highlighted Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) as one of the most important political films in Brazilian cinema. From then on out, if any chanchada was included on the list of the most important Brazilian films of all time, it was usually this Hollywood parody full of criticism about the Getúlio Vargas government. Subsequently, based on studies such as those of João Luiz Vieira, Robert Stam and Arthur Autran, the film Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) became the most valued example of the genre, with its reflexive character and sophisticated discussion about the politics of Brazilian cinema. Burle's film came to occupy the prominent place within the chanchada genre previously given to Carlos Manga's film. Produced before Carnaval Atlântida and Nem Sansão nem Dalila, Aviso aos navegantes stands out not as an exception to the genre, but as the rule. Rather than subverting the conventions of chanchadas, the film brilliantly employs all of its clichés, with an excellent cast of Oscarito and Grande Otelo, villain José Lewgoy and the romantic duo of Eliane Macedo and Anselmo Duarte. Restored by Chico Moreira at Labocine from different prints of various gauges, Aviso aos navegantes gradually and deservedly became the main chanchada reference for scholars of the genre.

06. Restoration of Moacyr Fenelon’s films.

Conducted by the Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro (IPMCB), an organization run by Alice Gonzaga and Hernani Heffner, the restoration project of the films of Moacyr Fenelon extended between 2006 and 2010 and was sponsored by the Petrobrás Cultural Program. The project brought to light five feature films made between 1948 and 1951 that had not been seen in decades. Moacyr Fenelon is best known as a pioneer sound technician during the 1930s and as one of the creators of the Atlântida studio in 1941. Fenelon had the final part of his career recovered by the restoration project: the years when he created his company the Cine-Produções Fenelon and then joined Flama Filmes studio. Unfortunately, his relatively early death in 1953 prevented the director from having a more effective participation in the movement he helped to foster, keeping in mind that Nelson Pereira dos Santos not for nothing named the crew who made Rio 40 degrees, “Team Moacyr Fenelon”. In my PhD thesis, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil: 1915-1951” (UFF, 2011), two films restored by this project served as fundamental examples for my research of a dramatic cinema made during post-War times in Brazil: Obrigado, Doutor (1948), based on a homonymous radio series, and Domino Negro (1950), adapted from a novel by Hélio Soveral. More broadly, Fenelon's role as an “independent producer” was one of the main themes of Luís Alberto da Rocha Melo's fantastic PhD thesis, “Cinema Independente: produção, exibição e distribuição no Rio de Janeiro: 1948 to 1954" (UFF, 2011). In that thesis, he demonstrated Fenelon's pioneering leadership in developing the mode of production that would later be followed by “auteurs” who are identified today with the so-called “independent cinema of the 50s”, such as Alex Viany, Roberto Santos and Nelson Pereira dos Santos. Finally, Fenelon’s musical Poeira de Estrelas (1948) surprised today’s audiences by portraying the love between two women, receiving a pioneering analysis by Mateus Nagime in one of the chapters of his M.A. dissertation “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. DVD Box-Set “Coleção CTAv” (CTAv Collection)

Initiative of the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in partnership with the Cinemateca Brasileira, the digitization of short films produced by the Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), the Instituto Nacional de Cinema (INC) and Embrafilme, made a large number of documentaries produced by the State between the 1930s and the 1970s accessible. The beautiful DVD box-set “CTAv Collection” which resulted from the digitization project was sent to many universities for free. It contained 110 titles divided into 20 discs, not only allowing for a broader view of filmmaker Humberto Mauro’s filmography, but also shedding light on lesser-known works by several other important directors such as Leon Hirszman, Arthur Omar, Adhemar Gonzaga, Linduarte Noronha, and a wide range of educational, ethnographic, animation and compilation films. Mauro's rural education films from the 1950s, for example, would go on to be written about in a special chapter by Sheila Schwarzman in the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (2018). Also, films that address the very history of Brazilian cinema such as the important Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) was the subject of Luís Alberto Rocha Melo's chapter in the seminal book “Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro”, organized by Marina Tedesco and Karla Holanda, from his project on audiovisual historiography of Brazilian cinema. These films released on DVD also became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.1

04. Event “Cinema Marginal e suas fronteiras” (Cinema Marginal and its Borders)

Initially held in São Paulo in 2001, the film screening series “Cinema Marginal and its Borders” was perhaps the greatest event dedicated to Brazilian cinema among the series of outstanding screenings sponsored by the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB) in the 2000s. Organized by the founder of Heço Produções Eugenio Puppo, the event brought together a wide range of films that had not been shown for many years, much less together. The event also helped to consolidate a successful formula for future events: film screenings + debates + catalog with texts specially written by specialists + new prints struck to premiere at the event. The impact of the experimental and iconoclast films made between the 1960s and 1970s was enormous, especially in comparison with the expensive and inexpressive films that comprised most of the contemporary Brazilian cinema of the “Retomada”. At UFF, professor João Luiz Vieira built a course around Cinema Marginal in light of the event, his students attending many screenings and becoming more interested in Cinema Marginal. In the wake of the event and its success, producers and critics from Rio de Janeiro later organized film series dedicated to directors Rogério Sganzerla and Julio Bressane, notable auteurs of the Cinema Marginal period. These series took place in the same cultural center, and new film prints were especially struck, allowing for the (re)discovery of lesser known titles from the filmography of these filmmakers.

The event also had a major impact on the academic world, as a huge number of dissertations and theses were soon dedicated to Cinema Marginal. The topic of Cinema Marginal would soon go to supplant the Cinema Novo movement in popularity at universities. As a result of such success, Heco Produções launched the 2009 DVD collection “Cinema Marginal Brasileiro” in partnership with Lume and the Cinemateca Brasileira, institutions further collaborating to widely circulate Cinema Marginal films. At the same time, a film like Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restored between 2013 and 2015 through the Petrobras Cultural Program and then released on DVD, became the subject of numerous academic research projects and became an often debated work at conferences.

03. Project “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares” (Rediscovery of Gerson Tavares’ Films)

Director of two fictional features in the 1960s and several short documentaries between the 1950s and 1970s, Gerson Tavares had his name and films erased from the history of Brazilian cinema. The project “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” was approved in the first (and until today only) edition of the “Preservation and Conservation of the Fluminense Artistic Memory” public call2 by the Rio de Janeiro Secretariat of Culture in 2012. “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” had the initial objective of restoring the film Antes, o Verão (1968), which was in danger of being lost as its only two remaining 35mm prints were already deteriorating. However, the scope of the project was widened, allowing us to digitize the feature film Amor e desamor (1966) as well as seven other shorts by the director. These films would go on to be released on a non-commercial double DVD. The completion of the project allowed for what was almost a new premiere of Gerson’s films, and a real rediscovery of the octogenarian director by new generations occurred. Often compared to Walter Hugo Khouri who worked in São Paulo, the work of Gerson Tavares is proof that there was quality dramatic cinema made in Rio de Janeiro in the 1960s outside of the Cinema Novo movement. Absent from most panoramic books on the history of Brazilian cinema until then, the project allowed the name of Gerson Tavares to be reinserted in that history. As an example, Fernão Ramos mentioned Gerson’s films in his chapter about Brazilian cinema of the 60s in the the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organized by Sheila Schvarzman and Ramos himself.

02. DVD Box-Set “Resgate do cinema silencioso brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema)

In his fundamental 1979 book “Cinema Brasileiro: propostas para uma história”, Jean-Claude Bernardet pointed out the importance of documentary (or “natural”) film in Brazilian silent cinema, despite the much greater attention allotted to fictional (“posado” or staged) film by historians. While the availability of newsreels, actualities and documentary films produced up until 1930 has always been scarce, these works in fact represent a much larger volume of preserved titles than the even scarcer availability of fiction films. A fundamental action towards providing access to silent documentary films was a project developed with the Cinemateca Brasileira by Carlos Roberto de Souza: the 2009 DVD box-set “Rescuing Silent Brazilian Cinema”. Sponsored by Caixa Econômica Federal, this box-set was composed of 27 films gathered into five DVDs and came with a booklet written by Carlos Roberto. Despite the presence of “posados” (fictional films), such as the oldest preserved fictional Brazilian film, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), the vast majority of titles within the box were “naturais” (that is, documentaries) grouped into 5 themes: “Riches of São Paulo”, “Aspects of Brazil", "Sciences (or occultism) and riches", "Daily life" and “Public ceremonies". The circulation of these films provided researchers with greater access to a wide range of films that had rarely been seen, promoting new research on Brazilian silent cinema. However, research into this field had already begun gaining momentum during gathering sessions of scholars at the Cinemateca Brasileira that resulted in the book “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organized by Samuel Paiva and Sheila Schvarzman, also largely dedicated to documentary silent films. In addition to that, important articles were written about this topic by Eduardo Morettin and Hernani Heffner. Subsequently, the films included in the DVDs became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.3

01. Canal Brasil's “Como era gostoso o nosso cinema” (How Tasty was Our Cinema) Program

The emergence of pay-TV Channel Canal Brasil in 1998 provided a new window for showing old Brazilian films on television. Canal Brasil needed to acquire Brazilian cinema content for its programming, so they offered to pay producers for broadcasting rights in addition to paying for the telecine4 costs of films that did not yet have video copies (Beta, then Full-HD). For some Brazilian producers, especially producers of commercial works who had been unable to monetize their films since the decline of the VHS market in the mid-2000s, it was as if money was coming from heaven. They finally had a way to commercially release their films through Canal Brasil.

Naturally, the main type of film that reached Canal Brasil was the popular pornochanchada. These were soft-core porn films produced between the 1970s and 1980s. The telecineing of many pornochanchada films motivated Canal Brasil to create the program “How tasty was our cinema” (mocking the title of Nelson Pereira dos Santos’s 1971 film How Tasty was My Little Frenchman), a series of live airings dedicated to the genre. Soon after these pornochanchadas were shown on Canal Brasil, they became widely available (as people would pirate recordings of the live TV presentation and post them online). With new access to these films, an extraordinary revision of the genre occurred.

Although authors such as Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar and José Mário Ortiz Ramos wrote about pornochanchadas in the 1970s and 1980s, few working within the field of academia after them (perhaps with the exception of Nuno Cesar Abreu) realized the quality and perspicacity of these pioneering works. Only more recently have there been new academic dissertations that go beyond a totalizing and simplistic analysis of the genre. These texts move away from the point of view that pornochanchadas merely held a mechanistic relationship with censorship, and that the “birth” of the genre was merely the result of State repression. Instead, they focus on specific films and filmographies, pointing out the diversity of pornochanchadas in terms of themes, approaches and quality.

M.A. dissertations such as Luiz Paulo Gomes Neves’ “A construção de um profeta: A prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero pornochanchada” (UFF, 2012) and Luciano Carneiro de Oliveira Júnior’s “Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980” (UFF, 2019), both supervised by professor Mariana Baltar, are two good examples of the kind of positive influence that a large number of digitally available titles can have on film genre studies.

1. Due to Cinemateca Brasileira’s current crisis resulting from recent government actions, the website of the Banco de Conteúdos Culturais, hosted by the Cinemateca, has often suffered from technical problems

2. In Brazil, governments occasionally put out “public calls”, which are similar to grants. Public calls are opportunities open to anybody to compete to get something funded, usually cultural works or research projects.

3. See item 1.

4. Telecine is the process of transferring motion picture film into video. Telecine enables a motion picture, captured originally on film stock, to be viewed with standard video equipment such as television sets, video cassette recorders (VCR), DVD, Blu-ray Disc or computers.

PT/ENG
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30/10/2020
By/Por:
Rafael de Luna Freire

Desde os anos 1990, os mais ambiciosos e vultuosos projetos de restauração de filmes realizados no Brasil foram aqueles voltados para a filmografia de consagrados cineastas do Cinema Novo, como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e Nelson Pereira dos Santos. Foram projetos que restauraram e produziram novas cópias de exibição de muitos títulos que já eram considerados clássicos. De certo modo, não fizeram filmes como Terra em transe (Glauber Rocha, 1967) ou Eles não usam black-tie (Leon Hirszman, 1981) serem necessariamente considerados mais importantes do que eles já eram para a história do cinema brasileiro.

Essa lista, pautada pela minha experiência pessoal, privilegia outros tipos de iniciativas. Tentei elencar projetos realizados nas últimas duas décadas que tiveram um amplo impacto, particularmente junto a pesquisadores e professores universitários, para um movimento de revisão da história do cinema brasileiro. Foram projetos que provocaram sentimentos de frescor, surpresa e novidade. Um dos critérios fundamentais na escolha desses dez projetos foi sua ampla repercussão e alcance, tendo ajudado a ampliar, alterar ou revisar os cânones.

Assim, um projeto importante como “Clássicos e raros do nosso cinema”, realização da Cinemateca Brasileira com o patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil, não foi incluído apesar de seus inegáveis méritos. Afinal, o projeto viabilizou a feitura de novas cópias 35mm que, elevadas a materiais de preservação, foram projetadas pouquíssimas vezes para além da exibição contratual nas mostras que viabilizaram sua produção, restritas a São Paulo e, no máximo, também ao Rio de Janeiro.

Além disso, projetos importantes, porém mais recentes, como a digitalização e lançamento em DVD de filmes de Hugo Carvana e de Aloysio Raulino, também não foram incluídos por sua repercussão na academia – não tão imediata quanto na crítica, por exemplo – ainda me parecer estar sendo processada. Podemos mencionar ainda situações em que o interesse acadêmico antecedeu as ações de preservação. Esse parece ser o caso da “redescoberta” do primeiro longa-metragem dirigido por uma cineasta negra – Amor maldito (Adélia Sampaio, 1984) – pela tese de Edileuza Penha de Souza (Cinema na Panela de Barro: Mulheres Negras, Narrativas de Amor, Afeto e Intimidade, UnB, 2013). A atenção dada a Amor maldito levou à situação do filme passar a ser amplamente solicitado para exibições por volta de 2017, mas circulando então em cópias antigas cuja qualidade não correspondia ao renovado interesse por ele.

De um modo geral, busquei nessa lista evidenciar como a originalidade, o cuidado e a pesquisa envolvida na curadoria, planejamento e realização de projetos de digitalização, duplicação, difusão e restauração são fundamentais para o seu sucesso. Tentei ainda destacar a relevante e contínua influência de ações de preservação e difusão na historiografia do cinema brasileiro. Por fim, o objetivo principal é menos hierarquizar diferentes ações do que estimular o debate.

14. Corcina e o Cinema Alternativo Carioca

O cineasta e professor (hoje aposentado) da UFF, Roberto Moura, vinha desenvolvendo desde os anos 2000 um projeto de pesquisa voltado para o que ele chamava de “cinema alternativo carioca”, englobando a ampla produção, sobretudo de curtas-metragens, realizada no Rio de Janeiro dos anos 1970, envolvendo integrantes da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), produtoras como a Corisco, do próprio Moura, e principalmente a Corcina – Cooperativa de Realizadores Cinematográficos Autônomos. Trata-se de uma produção marcada por diversidade e experimentalismo, que floresceu com a chamada Lei do Curta, realizada por diretores como José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, entre outros. Mais recentemente, Lucas Parente, filho do professor e realizador André Parente, diretor de curtas que podem ser enquadrados nesse movimento, iniciou um movimento de resgate desse material, junto com a Cinemateca do MAM, o Dobra – festival internacional de cinema experimental, entre outros parceiros. A digitalização realizada, em 2019, de Eclipse (Antonio Moreno, 1984), animação com intervenção direta na película, foi exibida em diversos festivais e eventos acadêmicos, dando continuidade, de forma mais ampla à pesquisa de Roberto Moura, e fomentando um renovado interesse sobre esses filmes e realizadores.

13. DVD de A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) da Funarte lançou nas últimas décadas belas edições em DVD de filmes de seu acervo, como o de filmes silenciosos realizados em Cataguazes e Recife ou ainda de longas-metragens sonoros como O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) e Assalto ao trem pagador (Roberto Farias, 1962). Merece destaque especial o lançamento, em 2004, da DVD com a bela cópia do segundo longa-metragem de Antonio Carlos Fontoura, A Rainha Diaba (1974). A redescoberta desse “thriller pop-gay-black” com Milton Gonçalves no papel título, dois anos depois do lançamento de “Madame Satã”, dirigido por Karïm Anouz e protagonizado por Lázaro Ramos, colocou em evidência esse que é um dos mais interessantes filmes brasileiros da década de 1970. Trata-se de um belo exemplo do resgate de um filme que se mostrou bastante atual no momento de sua redescoberta. A edição caprichada do DVD, recheado de bem produzidos extras (entrevistas, making off inédito, trailers etc.), foi outro incentivo para ampla circulação de A Rainha Diaba após um certo esquecimento ao que o filme tinha sido injustamente relegado.

12. A reconstituição de Acabaram-se os otários (1929)

A reconstituição de Acabaram-se os otários foi um projeto desenvolvido pelo Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (LUPA-UFF) e realizado por mim e pelo professor Reinaldo Cardenuto. O projeto resultou no lançamento, em 2019, de uma versão reduzida do primeiro longa-metragem brasileiro sonoro, considerado um filme perdido, o que foi possibilitado pela reunião de diferentes fragmentos remanescentes da obra, tais como trechos de imagens em movimento, fotografias e registros sonoros. Trata-se de um projeto de preservação audiovisual que, diferentemente do restante da lista, foi uma consequência e não o impulsionador de uma pesquisa acadêmica. Assim como o estudo da chegada e popularização do cinema sonoro no Brasil vinha motivando interesse de diversos pesquisadores como Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar) e Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), além de mim mesmo, a obra de Luiz de Barros também vinha recebendo mais atenção por parte de pesquisadores como Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) e seus orientandos, como Evandro Vasconcellos (“Entre o Palco e a Tela: As relações do cinema com o teatro de revista em comédias musicais de Luiz de Barros”, UFSCar, 2015). A reconstituição de Acabaram-se os otários, por outro lado, pode vir a incentivar outros projetos que conjugam pesquisa histórica e preservação audiovisual, aproximando mais as universidades e as cinematecas.

11. Restaurações "Clássicos da Cinédia"

Em 2004, a Cinédia lançou cópias restauradas de quatro filmes produzidos pela empresa através de projeto patrocinado pela BR Distribuidora. Um deles, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), já era o mais conhecido musical brasileiro dos anos 1930. Mas dois outros – Mulher (Oduvaldo Viana, 1931) 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) – eram verdadeiras “novidades” para os pesquisadores, por não circularem amplamente havia muitos anos. Dirigido por Octávio Gabus Mendes, Mulher era um filme mudo com músicas sincronizadas por discos, num momento em que os talkies já estavam em pleno sucesso no Brasil havia dois anos, mas quando muitas salas de cinema, especialmente nos subúrbios e no interior, ainda não haviam se adaptado para o cinema sonoro. Trata-se ainda um filme de grande sofisticação, comparável a outra realização muda tardia da Cinédia, a do clássico Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). Além de interessar a pesquisas sobre o som no cinema e o cinema silencioso, a restauração do filme foi o tema da dissertação de mestrado de Joice Scavone (“Mulher - trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia”, UFF, 2013) que evidenciava a ligação mais estreita entre pesquisa história e preservação de filmes na academia. Apesar da circulação restrita dos filmes, que circularam muito tempo apenas em cópias 35mm – colaborando que o quarto filme restaurado, Romance proibido (Adhemar Gonzaga, 1944) permaneça pouco conhecido – o impacto do projeto junto à academia foi significativo.

10. Duplicação de Fábula ou Moro em Copacabana de Arne Sucksdorff

O cineasta sueco Arne Sucksdorff era mais conhecido na história do cinema brasileiro por ter oferecido um curso no Rio de Janeiro, em 1962, que virou um marco na história do Cinema Novo. Antes, porém, de se radicar no pantanal mato-grossense, onde viveria até a morte, Sucksdorff realizou o fascinante Fábula (1965), longa-metragem em coprodução com a Suécia que foi praticamente esquecido desde o seu lançamento. Em meados dos anos 1990, num projeto em parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil, Chico Moreira, então conservador da Cinemateca do MAM, fez uma cópia nova, reduzida para 16mm, do contratipo original 35mm da versão brasileira do filme preservado no acervo da instituição. Nos anos 2000, Hernani Heffner – que sucedeu Chico na Cinemateca do MAM – passou a projetar Fábula com frequência em diferentes oportunidades, sempre com enorme repercussão junto ao público, deslumbrado com aquela obra praticamente desconhecida. Estudiosos logo se interessaram. João Luiz Vieira analisou o filme em seu capítulo no premiado livro World Cinemas, Transnational Perspectives, organizado por Natasa Ďurovičová e Kathleen Elizabeth Newman, publicado em 2009. Eu mesmo escrevi sobre o filme no catálogo da mostra “Olhares Neo-Realistas”, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2006. O filme se tornou ainda objeto de amplo projeto de pesquisa da professora Esther Hamburguer (USP), que viabilizou a vinda para o Brasil de uma cópia digital da versão sueca. O interesse suscitado pelo filme foi tanto que, em 2011, o Instituto Moreira Salles financiou a confecção de uma nova cópia, agora em 35mm, da versão brasileira a partir do contratipo original.

09. DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70”

Lançados, respectivamente, em 2005 e 2006, através de uma parceria entre o Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Centro Afro Carioca de Cinema e a Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura, os DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70” foram fundamentais para ampliar a circulação e permitir a revalorização de filmes de importantes cineastas negros brasileiros. O DVD duplo “O cinema de Zózimo Bulbul” trazia seis filmes do ator e diretor, realizados entre os anos 1970 e 2000. Seu primeiro curta-metragem, Alma no Olho (1973) tem sido reavaliado como a obra-prima que é, sendo recentemente escolhido, por exemplo, como o 11º melhor curta-metragem da história do cinema brasileiro na listagem feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, em 2019. Já o DVD duplo “Obras raras: o cinema negro da década de 70” apresentava seis filmes dirigidos por Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre e Odilon Lopez. De especial destaque é o longa-metragem As aventuras amorosas de um padeiro (1975), longa-metragem de estreia de Onofre produzido por Nelson Pereira dos Santos. Além do protagonista negro, essa comédia erótica produzida durante o “clímax” da pornochanchada se destaca por seu tom feminista, raro num gênero recheado de obras machistas e preconceituosas. Assim, além de colaborar para o crescente interesse pelo cinema negro na academia, o DVD auxiliou a revisão do cinema de Onofre e, de forma mais ampla, da própria pornochanchada.

08. Mostra “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação”

O pesquisador Remier Lion tinha a ambição de realizar uma ampla mostra retrospectiva com esse provocativo título na Cinemateca do MAM, na ocasião em que ela retomou sua programação após a grave crise que assolou a instituição no início dos anos 2000. Sem receber, então, acolhida do curador Gilberto Santeiro (muito incomodado com a provocação à respeitabilidade do cinema brasileiro), Remier levou parte da sua programação para cineclubes que organizou em diferentes locais do Rio de Janeiro, num projeto chamado “Malditos filmes brasileiros”. Finalmente, a mostra chegou à Cinemateca Brasileira, onde ela foi realizada com enorme sucesso em 2004, levando Remier a se incorporar, inclusive, à equipe de programação. A sua realização na Cinemateca Brasileira permitiu, inclusive, o acesso de Remier a materiais ainda mais raros para seu projeto. Embora possa ser entendido dentro de um quadro geral de revisão e revalorização do cinema da Boca do Lixo, a mostra “Cinema Brasileiro: a vergonha de uma nação” tinha um escopo mais amplo ao incorporar, por exemplo, um cineasta que Remier já pesquisava há tempos, como Nilo Machado e que produziu filmes de strip-tease desde os anos 1960. De um modo geral, a mostra jogava luz sobre diversos e desconhecidos exemplares da longa trajetória do cinema brasileiro comercial, popular e de gênero, que a historiografia pouco contemplou, com sua ênfase autoral. Assim, o evento que recebeu enorme cobertura da mídia e grande repercussão junto ao público, ia ao encontro de muitas pesquisas já desenvolvidas, como a dissertação de Rodrigo Pereira (“Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro”, Unesp, 2002), ou que ainda iriam ser concluídas, como as teses de doutorado de Laura Cánepa (“Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros”, Unicamp, 2008) e Alfredo Suppia (“Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita: uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood”, Unicamp, 2017).

07. Restauração de Aviso aos navegantes

Com o patrocínio da BR Distribuidora e da Petrobrás, o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) realizou importantes restaurações, nas últimas décadas, de filmes de diferentes épocas e diretores. Talvez a mais notável tenha sido a da chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), realizada entre 1999 e 2000. Quando as chanchadas começaram a ser revalorizadas nos anos 1970, Jean-Claude Bernardet destacou Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) como um dos mais importantes filmes políticos do cinema brasileiro. A partir de então, se alguma chanchada fosse incluída na lista dos mais importantes filmes brasileiros de todos os tempos, geralmente era essa paródia de Hollywood recheada de críticas sobre o governo Getúlio Vargas. Posteriormente, a partir de estudos como os de João Luiz Vieira, Robert Stam e Arthur Autran, o filme Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) tornou-se o exemplar mais valorizado do gênero, com seu caráter reflexivo e uma sofisticada discussão sobre a política do cinema brasileiro. O filme de Burle passou a ocupar o lugar de destaque dentro do gênero antes dado ao filme de Carlos Manga. Produzido antes desses dois, Aviso aos navegantes destaca-se não como uma exceção, mas como a regra do gênero, como um exemplar clássico. Ao invés de destoar delas, o filme exemplifica as fórmulas e clichês da chanchada, mas em sua melhor forma, trazendo no elenco Oscarito e Grande Otelo, o vilão José Lewgoy e a dupla Eliane e Anselmo. Restaurado na Labocine por Chico Moreira a partir de diferentes cópias e materiais de formatos e procedências distintas, Aviso aos navegantes vem aos poucos, e merecidamente, tornando-se a referência principal dos estudiosos para o gênero.

06. Projeto de Recuperação da Obra de Moacyr Fenelon

Realizado pelo Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro – leia-se Dona Alice Gonzaga e Hernani Heffner – o projeto de restauração de filmes de Moacyr Fenelon se estendeu entre 2006 e 2010, com patrocínio do Programa Petrobrás Cultural. O projeto trouxe à tona cinco longas-metragens realizados entre 1948 e 1951 que não eram vistos há décadas. Mais conhecido como pioneiro técnico de som nos anos 1930 e como um dos criadores da Atlântida, Moacyr Fenelon teve a parte final de sua carreira coberta pelo projeto, quando se lançou com a Cine-Produções Fenelon e, em seguida, se associou a Flama Filmes. Infelizmente, sua morte relativamente precoce, em 1953, impediu que o diretor tivesse uma participação mais efetiva no movimento que ajudou a fomentar, lembrando que Nelson Pereira dos Santos batizou a equipe que realizou Rio 40 graus, não à toa, de “Equipe Moacyr Fenelon”. Em minha tese de doutorado, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil - 1915-1951” (UFF, 2011), dois filmes trazidos à tona por esse projeto foram fundamentais como exemplares de um cinema dramático realizado a partir do pós-guerra no Brasil: Obrigado, Doutor (Moacyr Fenelon, 1948), baseado em série radiofônica homônima, e Dominó negro (Moacyr Fenelon, 1950), adaptado de novela de Hélio Soveral. De forma mais ampla, a atuação de Fenelon como “produtor independente” foi um dos temas principais da fantástica tese de doutorado de Luís Alberto da Rocha Melo (Cinema independente”: produção, distribuição e exibição no Rio de Janeiro, UFF, 2011), demonstrando o pioneirismo de Fenelon como “produtor independente” e desenvolvendo o modo de produção que seria seguido posteriormente por autores hoje identificados com o chamado “cinema independente dos anos 50”, tais como Alex Viany, Roberto Santos e o próprio Nelson Pereira dos Santos. Por fim, o musical Poeira de estrelas (Moacyr Fenelon, 1948) surpreendeu ao mostrar o amor entre duas mulheres, recebendo a pioneira análise de Mateus Nagime num dos capítulos de sua dissertação “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. Caixa de DVDs “Coleção CTAv”

Iniciativa do Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) em parceria com a Cinemateca Brasileira, a digitalização de curtas e médias produzidos pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), pelo Instituto Nacional de Cinema (INC) e pela Embrafilme, tornou disponível um grande número de documentários produzidos pelo Estado entre os anos 1930 e 1970. A bela caixa de DVDs “Coleção CTAv” resultante do projeto, fartamente distribuída para as universidades, com 110 títulos divididos em 20 discos, não só permitia uma visão mais ampla da filmografia de um cineasta como Humberto Mauro, como trazia obras menos conhecidas de diversos outros diretores importantes, de Leon Hirszman a Arthur Omar, de Adhemar Gonzaga a Linduarte Noronha, além de um amplo leque de filmes educativos, etnográficos, animações e compilações. Os filmes de educação rural de Mauro, produzidos nos anos 1950, por exemplo, ganharam um capítulo especial de Sheila Schwarzman no recente livro “Nova história do cinema brasileiro” (2018), enquanto filmes que abordam a própria história do cinema brasileiro, como o importante Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) foi tema do capítulo de Luís Alberto Rocha Melo do seminal livro “Feminino plural: Mulheres no cinema brasileiro”, organizado por Marina Tedesco e Karla Holanda, a partir de seu projeto sobre a historiografia audiovisual do cinema brasileiro. Esses filmes lançados em DVD também passaram a estar acessíveis através do Banco de Conteúdos Culturais.1

04. Mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras”

Realizada inicialmente em São Paulo, em 2001, a mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras” foi talvez o grande evento dedicado ao cinema brasileiro dentre a série de mostras marcantes patrocinadas pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) nos anos 2000. Organizado por Eugenio Puppo, da Heco Produções, a mostra reuniu um amplo conjunto de filmes que há muitos anos não eram exibidos, muito menos conjuntamente. O evento ajudou ainda a consolidar uma fórmula de sucesso: mostra de filmes + debates + catálogo com textos encomendados a especialistas + cópias novas para estreia no evento. O impacto da revisão de filmes experimentais, debochados e desafiadores realizados entre os anos 1960 e 1970 foi enorme, sobretudo em comparação com o então criticado cinema caro e careta, financiado pelas leis de incentivo, da retomada do Cinema Brasileiro. Na UFF, o professor João Luiz Vieira acompanhou a mostra com uma disciplina optativa dedicada ao cinema marginal. Na esteira do evento e de seu sucesso, produtores e críticos do Rio de Janeiro organizaram, posteriormente, mas no mesmo CCBB, mostras dedicadas individualmente a Rogério Sganzerla e Julio Bressane, novamente confeccionando cópias novas que permitiam a (re)descoberta de vários títulos mais obscuros da filmografia desses cineastas. O impacto acadêmico foi notável, com um número enorme de dissertações e teses sendo dedicadas a esse movimento que suplantou o Cinema Novo em popularidade na universidade. A própria Heco Produções lançou, em 2009, a coleção de DVDs Cinema Marginal Brasileiro, em parceria com a Lume e Cinemateca Brasileira, colaborando ainda mais para a ampla circulação desses filmes. Nesse mesmo movimento, um filme como Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restaurado entre 2013 e 2015 através do Programa Petrobras Cultural, e em seguida lançado em DVD, passou a ser tema de inúmeras pesquisas acadêmicas e apresentações em congressos.

03. Projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”

Diretor de dois longas ficcionais nos anos 1960 e de diversos curtas documentários entre as décadas de 1950 e 1970, Gerson Tavares teve seu nome e filmes apagados da história do cinema brasileiro. O projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”, aprovado na primeira (e até hoje única) edição do edital2 Preservação e Conservação da Memória Artística Fluminense da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, em 2012, tinha como objetivo inicial restaurar o filme Antes, o verão (1968), que corria o risco de se perder. O escopo foi ampliado para a digitalização também do filme Amor e desamor (1966) e de outros sete curtas do diretor, lançados em DVD duplo, numa edição não-comercial. A finalização do projeto permitiu quase um relançamento dos filmes e a redescoberto do diretor octogenário pelas novas gerações. Comparado a Walter Hugo Khouri, Gerson Tavares era prova de um cinema dramático de qualidade realizado no Rio de Janeiro dos anos 1960 para além do Cinema Novo. Ausente da maior parte dos livros panorâmicos sobre história do cinema brasileiro até então, o projeto permitiu que o nome de Gerson Tavares fosse reinscrito nessa história. Exemplo disso foi a citação a seus filmes no capítulo que Fernão Ramos escreveu sobre os anos 1960, quase inteiramente dedicado ao Cinema Novo, no recente “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organizado pelo próprio Fernão e Sheila Schvarzman.

02. Caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”

Em seu fundamental livro “Cinema brasileiro: propostas para uma história”, de 1979, Jean-Claude Bernardet apontou a importância do filme documentário (ou natural) no cinema silencioso brasileiro, apesar da atenção muito maior dada ao filme ficcional (ou posado) pelos historiadores. Entretanto, a disponibilidade de cinejornais, atualidades e registros documentais brasileiros produzidos até 1930 sempre foi escassa, apesar de representar um volume muito maior de títulos preservados do que as esparsas ficções. Uma ação fundamental para dar acesso a essa produção foi o projeto desenvolvido na Cinemateca Brasileira, por Carlos Roberto de Souza, da caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”, finalizado em 2009. Patrocinado pela Caixa Econômica Federal, a caixa era composta por 27 filmes reunidos em cinco DVDs e um livreto de autoria de Carlos Roberto. Apesar da presença de posados, como o mais antigo filme de ficção preservado, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), a grande maioria dos títulos eram de naturais, reunidos em 5 temas: “Riquezas Paulistas”, “Aspectos do Brasil”, “Ciências (mesmo ocultas) e riquezas”, “Vida cotidiana” e “Cerimônias públicas”. A circulação desses filmes permitiu que mais pesquisadores tivessem acesso a um amplo conjunto de filmes pouco vistos anteriormente, fortalecendo as pesquisas sobre o cinema silencioso brasileiro. Elas já tinham ganhado impulso com as reuniões de pesquisadores na Cinemateca Brasileira que resultaram no livro “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organizado por Samuel Paiva e Sheila Schvarzman, em grande parte também dedicado aos pouco estudados filmes naturais, sem falar de importantes artigos escritos por Eduardo Morettin e Hernani Heffner. Posteriormente, os filmes incluídos nos DVDs passaram a estar acessíveis ainda através do Banco de Conteúdos Culturais.3

01. Sessão “Como era gostoso o nosso cinema” do Canal Brasil

A criação do Canal Brasil, em 1998, representou o surgimento de uma nova janela de exibição de filmes brasileiros antigos na televisão. Com grande demanda pela aquisição de conteúdo para sua programação, o Canal Brasil oferecia, além do pagamento ao produtor pelos direitos de transmissão, os custos de telecinagem4 de filmes que não tivessem cópias em vídeo (Beta, depois Full-HD). Para alguns produtores brasileiros, sobretudo de obras comerciais que praticamente não monetizavam seus filmes desde a decadência do mercado de VHS, era um dinheiro caído do céu. Naturalmente, o principal tipo de filme que chegou ao Canal Brasil foi o da popularíssima pornochanchada, produzida entre os anos 1970 e 1980, o que motivou, inclusive, a criação da sessão “Como era gostoso o nosso cinema”, especialmente dedicado ao gênero. Poucos produtores conseguiram lançar comercialmente seus filmes fora do Canal Brasil, sendo uma exceção o ator, diretor e produtor Carlo Mossy, que lançou seus filmes numa coleção de DVDs em 2013. A ampla disponibilidade de um grande número de pornochanchadas após sua exibição pelo Canal Brasil (logo copiados e e postados na internet) permitiu o bem-vindo reexame do gênero. Embora autores como Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar e José Mário Ortiz Ramos tenham escrito sobre o gênero nos próprios anos 1970 e 1980, poucos na academia – talvez com a principal exceção de Nuno Cesar Abreu – deram prosseguimento à qualidade e perspicácia destes trabalhos pioneiros. Apenas mais recentemente tem surgido bons trabalhos acadêmicos que vão além de uma análise totalizante – e simplista – do gênero, fugindo de uma relação mecanicista com a censura, focando em filmes e filmografias específicas e apontando a inevitável, mas pouco percebida diversidade da pornochanchada, em termos de temas, abordagens e qualidade. Dissertações de mestrado como a de Luiz Paulo Gomes (A construção de um profeta: a prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero da pornochanchada, UFF, 2012) e de Luciano Carneiro de Oliveira Júnior (Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980, UFF, 2019), ambas orientadas pela professora Mariana Baltar, foram alguns dos bons frutos da disponibilidade em formato digital de um número muito mais amplo de filmes que permitiram a comparação, análise e crítica.

1. Em razão da atual crise da Cinemateca Brasileira, decorrente de ações recentes do governo, o site do Banco de Conteúdos Culturais, hospedado pela Cinemateca, tem sofrido frequentemente com problemas técnicos.

2. No Brasil, governos ocasionalmente lançam editais públicos, que são semelhantes a bolsas ou auxílios. Os editais públicos são oportunidades abertas a qualquer interessado para concorrer a financiamento, geralmente voltadas a obras culturais ou projetos de pesquisa.

3. Ver item 1.

4. Telecine é o processo de transferência de filme cinematográfico para vídeo. A telecinagem permite que uma obra originalmente captada em película seja exibida em equipamentos padrão de vídeo, como aparelhos de televisão, videocassetes (VCR), DVD, Blu-ray ou computadores.

Desde os anos 1990, os mais ambiciosos e vultuosos projetos de restauração de filmes realizados no Brasil foram aqueles voltados para a filmografia de consagrados cineastas do Cinema Novo, como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e Nelson Pereira dos Santos. Foram projetos que restauraram e produziram novas cópias de exibição de muitos títulos que já eram considerados clássicos. De certo modo, não fizeram filmes como Terra em transe (Glauber Rocha, 1967) ou Eles não usam black-tie (Leon Hirszman, 1981) serem necessariamente considerados mais importantes do que eles já eram para a história do cinema brasileiro.

Essa lista, pautada pela minha experiência pessoal, privilegia outros tipos de iniciativas. Tentei elencar projetos realizados nas últimas duas décadas que tiveram um amplo impacto, particularmente junto a pesquisadores e professores universitários, para um movimento de revisão da história do cinema brasileiro. Foram projetos que provocaram sentimentos de frescor, surpresa e novidade. Um dos critérios fundamentais na escolha desses dez projetos foi sua ampla repercussão e alcance, tendo ajudado a ampliar, alterar ou revisar os cânones.

Assim, um projeto importante como “Clássicos e raros do nosso cinema”, realização da Cinemateca Brasileira com o patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil, não foi incluído apesar de seus inegáveis méritos. Afinal, o projeto viabilizou a feitura de novas cópias 35mm que, elevadas a materiais de preservação, foram projetadas pouquíssimas vezes para além da exibição contratual nas mostras que viabilizaram sua produção, restritas a São Paulo e, no máximo, também ao Rio de Janeiro.

Além disso, projetos importantes, porém mais recentes, como a digitalização e lançamento em DVD de filmes de Hugo Carvana e de Aloysio Raulino, também não foram incluídos por sua repercussão na academia – não tão imediata quanto na crítica, por exemplo – ainda me parecer estar sendo processada. Podemos mencionar ainda situações em que o interesse acadêmico antecedeu as ações de preservação. Esse parece ser o caso da “redescoberta” do primeiro longa-metragem dirigido por uma cineasta negra – Amor maldito (Adélia Sampaio, 1984) – pela tese de Edileuza Penha de Souza (Cinema na Panela de Barro: Mulheres Negras, Narrativas de Amor, Afeto e Intimidade, UnB, 2013). A atenção dada a Amor maldito levou à situação do filme passar a ser amplamente solicitado para exibições por volta de 2017, mas circulando então em cópias antigas cuja qualidade não correspondia ao renovado interesse por ele.

De um modo geral, busquei nessa lista evidenciar como a originalidade, o cuidado e a pesquisa envolvida na curadoria, planejamento e realização de projetos de digitalização, duplicação, difusão e restauração são fundamentais para o seu sucesso. Tentei ainda destacar a relevante e contínua influência de ações de preservação e difusão na historiografia do cinema brasileiro. Por fim, o objetivo principal é menos hierarquizar diferentes ações do que estimular o debate.

14. Corcina e o Cinema Alternativo Carioca

O cineasta e professor (hoje aposentado) da UFF, Roberto Moura, vinha desenvolvendo desde os anos 2000 um projeto de pesquisa voltado para o que ele chamava de “cinema alternativo carioca”, englobando a ampla produção, sobretudo de curtas-metragens, realizada no Rio de Janeiro dos anos 1970, envolvendo integrantes da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), produtoras como a Corisco, do próprio Moura, e principalmente a Corcina – Cooperativa de Realizadores Cinematográficos Autônomos. Trata-se de uma produção marcada por diversidade e experimentalismo, que floresceu com a chamada Lei do Curta, realizada por diretores como José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, entre outros. Mais recentemente, Lucas Parente, filho do professor e realizador André Parente, diretor de curtas que podem ser enquadrados nesse movimento, iniciou um movimento de resgate desse material, junto com a Cinemateca do MAM, o Dobra – festival internacional de cinema experimental, entre outros parceiros. A digitalização realizada, em 2019, de Eclipse (Antonio Moreno, 1984), animação com intervenção direta na película, foi exibida em diversos festivais e eventos acadêmicos, dando continuidade, de forma mais ampla à pesquisa de Roberto Moura, e fomentando um renovado interesse sobre esses filmes e realizadores.

13. DVD de A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) da Funarte lançou nas últimas décadas belas edições em DVD de filmes de seu acervo, como o de filmes silenciosos realizados em Cataguazes e Recife ou ainda de longas-metragens sonoros como O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) e Assalto ao trem pagador (Roberto Farias, 1962). Merece destaque especial o lançamento, em 2004, da DVD com a bela cópia do segundo longa-metragem de Antonio Carlos Fontoura, A Rainha Diaba (1974). A redescoberta desse “thriller pop-gay-black” com Milton Gonçalves no papel título, dois anos depois do lançamento de “Madame Satã”, dirigido por Karïm Anouz e protagonizado por Lázaro Ramos, colocou em evidência esse que é um dos mais interessantes filmes brasileiros da década de 1970. Trata-se de um belo exemplo do resgate de um filme que se mostrou bastante atual no momento de sua redescoberta. A edição caprichada do DVD, recheado de bem produzidos extras (entrevistas, making off inédito, trailers etc.), foi outro incentivo para ampla circulação de A Rainha Diaba após um certo esquecimento ao que o filme tinha sido injustamente relegado.

12. A reconstituição de Acabaram-se os otários (1929)

A reconstituição de Acabaram-se os otários foi um projeto desenvolvido pelo Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (LUPA-UFF) e realizado por mim e pelo professor Reinaldo Cardenuto. O projeto resultou no lançamento, em 2019, de uma versão reduzida do primeiro longa-metragem brasileiro sonoro, considerado um filme perdido, o que foi possibilitado pela reunião de diferentes fragmentos remanescentes da obra, tais como trechos de imagens em movimento, fotografias e registros sonoros. Trata-se de um projeto de preservação audiovisual que, diferentemente do restante da lista, foi uma consequência e não o impulsionador de uma pesquisa acadêmica. Assim como o estudo da chegada e popularização do cinema sonoro no Brasil vinha motivando interesse de diversos pesquisadores como Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar) e Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), além de mim mesmo, a obra de Luiz de Barros também vinha recebendo mais atenção por parte de pesquisadores como Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) e seus orientandos, como Evandro Vasconcellos (“Entre o Palco e a Tela: As relações do cinema com o teatro de revista em comédias musicais de Luiz de Barros”, UFSCar, 2015). A reconstituição de Acabaram-se os otários, por outro lado, pode vir a incentivar outros projetos que conjugam pesquisa histórica e preservação audiovisual, aproximando mais as universidades e as cinematecas.

11. Restaurações "Clássicos da Cinédia"

Em 2004, a Cinédia lançou cópias restauradas de quatro filmes produzidos pela empresa através de projeto patrocinado pela BR Distribuidora. Um deles, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), já era o mais conhecido musical brasileiro dos anos 1930. Mas dois outros – Mulher (Oduvaldo Viana, 1931) 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) – eram verdadeiras “novidades” para os pesquisadores, por não circularem amplamente havia muitos anos. Dirigido por Octávio Gabus Mendes, Mulher era um filme mudo com músicas sincronizadas por discos, num momento em que os talkies já estavam em pleno sucesso no Brasil havia dois anos, mas quando muitas salas de cinema, especialmente nos subúrbios e no interior, ainda não haviam se adaptado para o cinema sonoro. Trata-se ainda um filme de grande sofisticação, comparável a outra realização muda tardia da Cinédia, a do clássico Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). Além de interessar a pesquisas sobre o som no cinema e o cinema silencioso, a restauração do filme foi o tema da dissertação de mestrado de Joice Scavone (“Mulher - trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia”, UFF, 2013) que evidenciava a ligação mais estreita entre pesquisa história e preservação de filmes na academia. Apesar da circulação restrita dos filmes, que circularam muito tempo apenas em cópias 35mm – colaborando que o quarto filme restaurado, Romance proibido (Adhemar Gonzaga, 1944) permaneça pouco conhecido – o impacto do projeto junto à academia foi significativo.

10. Duplicação de Fábula ou Moro em Copacabana de Arne Sucksdorff

O cineasta sueco Arne Sucksdorff era mais conhecido na história do cinema brasileiro por ter oferecido um curso no Rio de Janeiro, em 1962, que virou um marco na história do Cinema Novo. Antes, porém, de se radicar no pantanal mato-grossense, onde viveria até a morte, Sucksdorff realizou o fascinante Fábula (1965), longa-metragem em coprodução com a Suécia que foi praticamente esquecido desde o seu lançamento. Em meados dos anos 1990, num projeto em parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil, Chico Moreira, então conservador da Cinemateca do MAM, fez uma cópia nova, reduzida para 16mm, do contratipo original 35mm da versão brasileira do filme preservado no acervo da instituição. Nos anos 2000, Hernani Heffner – que sucedeu Chico na Cinemateca do MAM – passou a projetar Fábula com frequência em diferentes oportunidades, sempre com enorme repercussão junto ao público, deslumbrado com aquela obra praticamente desconhecida. Estudiosos logo se interessaram. João Luiz Vieira analisou o filme em seu capítulo no premiado livro World Cinemas, Transnational Perspectives, organizado por Natasa Ďurovičová e Kathleen Elizabeth Newman, publicado em 2009. Eu mesmo escrevi sobre o filme no catálogo da mostra “Olhares Neo-Realistas”, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2006. O filme se tornou ainda objeto de amplo projeto de pesquisa da professora Esther Hamburguer (USP), que viabilizou a vinda para o Brasil de uma cópia digital da versão sueca. O interesse suscitado pelo filme foi tanto que, em 2011, o Instituto Moreira Salles financiou a confecção de uma nova cópia, agora em 35mm, da versão brasileira a partir do contratipo original.

09. DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70”

Lançados, respectivamente, em 2005 e 2006, através de uma parceria entre o Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Centro Afro Carioca de Cinema e a Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura, os DVDs “O cinema de Zózimo Bulbul” e “Obras raras: o cinema negro da década de 70” foram fundamentais para ampliar a circulação e permitir a revalorização de filmes de importantes cineastas negros brasileiros. O DVD duplo “O cinema de Zózimo Bulbul” trazia seis filmes do ator e diretor, realizados entre os anos 1970 e 2000. Seu primeiro curta-metragem, Alma no Olho (1973) tem sido reavaliado como a obra-prima que é, sendo recentemente escolhido, por exemplo, como o 11º melhor curta-metragem da história do cinema brasileiro na listagem feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, em 2019. Já o DVD duplo “Obras raras: o cinema negro da década de 70” apresentava seis filmes dirigidos por Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre e Odilon Lopez. De especial destaque é o longa-metragem As aventuras amorosas de um padeiro (1975), longa-metragem de estreia de Onofre produzido por Nelson Pereira dos Santos. Além do protagonista negro, essa comédia erótica produzida durante o “clímax” da pornochanchada se destaca por seu tom feminista, raro num gênero recheado de obras machistas e preconceituosas. Assim, além de colaborar para o crescente interesse pelo cinema negro na academia, o DVD auxiliou a revisão do cinema de Onofre e, de forma mais ampla, da própria pornochanchada.

08. Mostra “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação”

O pesquisador Remier Lion tinha a ambição de realizar uma ampla mostra retrospectiva com esse provocativo título na Cinemateca do MAM, na ocasião em que ela retomou sua programação após a grave crise que assolou a instituição no início dos anos 2000. Sem receber, então, acolhida do curador Gilberto Santeiro (muito incomodado com a provocação à respeitabilidade do cinema brasileiro), Remier levou parte da sua programação para cineclubes que organizou em diferentes locais do Rio de Janeiro, num projeto chamado “Malditos filmes brasileiros”. Finalmente, a mostra chegou à Cinemateca Brasileira, onde ela foi realizada com enorme sucesso em 2004, levando Remier a se incorporar, inclusive, à equipe de programação. A sua realização na Cinemateca Brasileira permitiu, inclusive, o acesso de Remier a materiais ainda mais raros para seu projeto. Embora possa ser entendido dentro de um quadro geral de revisão e revalorização do cinema da Boca do Lixo, a mostra “Cinema Brasileiro: a vergonha de uma nação” tinha um escopo mais amplo ao incorporar, por exemplo, um cineasta que Remier já pesquisava há tempos, como Nilo Machado e que produziu filmes de strip-tease desde os anos 1960. De um modo geral, a mostra jogava luz sobre diversos e desconhecidos exemplares da longa trajetória do cinema brasileiro comercial, popular e de gênero, que a historiografia pouco contemplou, com sua ênfase autoral. Assim, o evento que recebeu enorme cobertura da mídia e grande repercussão junto ao público, ia ao encontro de muitas pesquisas já desenvolvidas, como a dissertação de Rodrigo Pereira (“Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro”, Unesp, 2002), ou que ainda iriam ser concluídas, como as teses de doutorado de Laura Cánepa (“Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros”, Unicamp, 2008) e Alfredo Suppia (“Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita: uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood”, Unicamp, 2017).

07. Restauração de Aviso aos navegantes

Com o patrocínio da BR Distribuidora e da Petrobrás, o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) realizou importantes restaurações, nas últimas décadas, de filmes de diferentes épocas e diretores. Talvez a mais notável tenha sido a da chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), realizada entre 1999 e 2000. Quando as chanchadas começaram a ser revalorizadas nos anos 1970, Jean-Claude Bernardet destacou Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) como um dos mais importantes filmes políticos do cinema brasileiro. A partir de então, se alguma chanchada fosse incluída na lista dos mais importantes filmes brasileiros de todos os tempos, geralmente era essa paródia de Hollywood recheada de críticas sobre o governo Getúlio Vargas. Posteriormente, a partir de estudos como os de João Luiz Vieira, Robert Stam e Arthur Autran, o filme Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) tornou-se o exemplar mais valorizado do gênero, com seu caráter reflexivo e uma sofisticada discussão sobre a política do cinema brasileiro. O filme de Burle passou a ocupar o lugar de destaque dentro do gênero antes dado ao filme de Carlos Manga. Produzido antes desses dois, Aviso aos navegantes destaca-se não como uma exceção, mas como a regra do gênero, como um exemplar clássico. Ao invés de destoar delas, o filme exemplifica as fórmulas e clichês da chanchada, mas em sua melhor forma, trazendo no elenco Oscarito e Grande Otelo, o vilão José Lewgoy e a dupla Eliane e Anselmo. Restaurado na Labocine por Chico Moreira a partir de diferentes cópias e materiais de formatos e procedências distintas, Aviso aos navegantes vem aos poucos, e merecidamente, tornando-se a referência principal dos estudiosos para o gênero.

06. Projeto de Recuperação da Obra de Moacyr Fenelon

Realizado pelo Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro – leia-se Dona Alice Gonzaga e Hernani Heffner – o projeto de restauração de filmes de Moacyr Fenelon se estendeu entre 2006 e 2010, com patrocínio do Programa Petrobrás Cultural. O projeto trouxe à tona cinco longas-metragens realizados entre 1948 e 1951 que não eram vistos há décadas. Mais conhecido como pioneiro técnico de som nos anos 1930 e como um dos criadores da Atlântida, Moacyr Fenelon teve a parte final de sua carreira coberta pelo projeto, quando se lançou com a Cine-Produções Fenelon e, em seguida, se associou a Flama Filmes. Infelizmente, sua morte relativamente precoce, em 1953, impediu que o diretor tivesse uma participação mais efetiva no movimento que ajudou a fomentar, lembrando que Nelson Pereira dos Santos batizou a equipe que realizou Rio 40 graus, não à toa, de “Equipe Moacyr Fenelon”. Em minha tese de doutorado, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil - 1915-1951” (UFF, 2011), dois filmes trazidos à tona por esse projeto foram fundamentais como exemplares de um cinema dramático realizado a partir do pós-guerra no Brasil: Obrigado, Doutor (Moacyr Fenelon, 1948), baseado em série radiofônica homônima, e Dominó negro (Moacyr Fenelon, 1950), adaptado de novela de Hélio Soveral. De forma mais ampla, a atuação de Fenelon como “produtor independente” foi um dos temas principais da fantástica tese de doutorado de Luís Alberto da Rocha Melo (Cinema independente”: produção, distribuição e exibição no Rio de Janeiro, UFF, 2011), demonstrando o pioneirismo de Fenelon como “produtor independente” e desenvolvendo o modo de produção que seria seguido posteriormente por autores hoje identificados com o chamado “cinema independente dos anos 50”, tais como Alex Viany, Roberto Santos e o próprio Nelson Pereira dos Santos. Por fim, o musical Poeira de estrelas (Moacyr Fenelon, 1948) surpreendeu ao mostrar o amor entre duas mulheres, recebendo a pioneira análise de Mateus Nagime num dos capítulos de sua dissertação “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. Caixa de DVDs “Coleção CTAv”

Iniciativa do Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) em parceria com a Cinemateca Brasileira, a digitalização de curtas e médias produzidos pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), pelo Instituto Nacional de Cinema (INC) e pela Embrafilme, tornou disponível um grande número de documentários produzidos pelo Estado entre os anos 1930 e 1970. A bela caixa de DVDs “Coleção CTAv” resultante do projeto, fartamente distribuída para as universidades, com 110 títulos divididos em 20 discos, não só permitia uma visão mais ampla da filmografia de um cineasta como Humberto Mauro, como trazia obras menos conhecidas de diversos outros diretores importantes, de Leon Hirszman a Arthur Omar, de Adhemar Gonzaga a Linduarte Noronha, além de um amplo leque de filmes educativos, etnográficos, animações e compilações. Os filmes de educação rural de Mauro, produzidos nos anos 1950, por exemplo, ganharam um capítulo especial de Sheila Schwarzman no recente livro “Nova história do cinema brasileiro” (2018), enquanto filmes que abordam a própria história do cinema brasileiro, como o importante Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) foi tema do capítulo de Luís Alberto Rocha Melo do seminal livro “Feminino plural: Mulheres no cinema brasileiro”, organizado por Marina Tedesco e Karla Holanda, a partir de seu projeto sobre a historiografia audiovisual do cinema brasileiro. Esses filmes lançados em DVD também passaram a estar acessíveis através do Banco de Conteúdos Culturais.1

04. Mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras”

Realizada inicialmente em São Paulo, em 2001, a mostra “Cinema Marginal e suas fronteiras” foi talvez o grande evento dedicado ao cinema brasileiro dentre a série de mostras marcantes patrocinadas pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) nos anos 2000. Organizado por Eugenio Puppo, da Heco Produções, a mostra reuniu um amplo conjunto de filmes que há muitos anos não eram exibidos, muito menos conjuntamente. O evento ajudou ainda a consolidar uma fórmula de sucesso: mostra de filmes + debates + catálogo com textos encomendados a especialistas + cópias novas para estreia no evento. O impacto da revisão de filmes experimentais, debochados e desafiadores realizados entre os anos 1960 e 1970 foi enorme, sobretudo em comparação com o então criticado cinema caro e careta, financiado pelas leis de incentivo, da retomada do Cinema Brasileiro. Na UFF, o professor João Luiz Vieira acompanhou a mostra com uma disciplina optativa dedicada ao cinema marginal. Na esteira do evento e de seu sucesso, produtores e críticos do Rio de Janeiro organizaram, posteriormente, mas no mesmo CCBB, mostras dedicadas individualmente a Rogério Sganzerla e Julio Bressane, novamente confeccionando cópias novas que permitiam a (re)descoberta de vários títulos mais obscuros da filmografia desses cineastas. O impacto acadêmico foi notável, com um número enorme de dissertações e teses sendo dedicadas a esse movimento que suplantou o Cinema Novo em popularidade na universidade. A própria Heco Produções lançou, em 2009, a coleção de DVDs Cinema Marginal Brasileiro, em parceria com a Lume e Cinemateca Brasileira, colaborando ainda mais para a ampla circulação desses filmes. Nesse mesmo movimento, um filme como Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restaurado entre 2013 e 2015 através do Programa Petrobras Cultural, e em seguida lançado em DVD, passou a ser tema de inúmeras pesquisas acadêmicas e apresentações em congressos.

03. Projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”

Diretor de dois longas ficcionais nos anos 1960 e de diversos curtas documentários entre as décadas de 1950 e 1970, Gerson Tavares teve seu nome e filmes apagados da história do cinema brasileiro. O projeto “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares”, aprovado na primeira (e até hoje única) edição do edital2 Preservação e Conservação da Memória Artística Fluminense da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, em 2012, tinha como objetivo inicial restaurar o filme Antes, o verão (1968), que corria o risco de se perder. O escopo foi ampliado para a digitalização também do filme Amor e desamor (1966) e de outros sete curtas do diretor, lançados em DVD duplo, numa edição não-comercial. A finalização do projeto permitiu quase um relançamento dos filmes e a redescoberto do diretor octogenário pelas novas gerações. Comparado a Walter Hugo Khouri, Gerson Tavares era prova de um cinema dramático de qualidade realizado no Rio de Janeiro dos anos 1960 para além do Cinema Novo. Ausente da maior parte dos livros panorâmicos sobre história do cinema brasileiro até então, o projeto permitiu que o nome de Gerson Tavares fosse reinscrito nessa história. Exemplo disso foi a citação a seus filmes no capítulo que Fernão Ramos escreveu sobre os anos 1960, quase inteiramente dedicado ao Cinema Novo, no recente “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organizado pelo próprio Fernão e Sheila Schvarzman.

02. Caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”

Em seu fundamental livro “Cinema brasileiro: propostas para uma história”, de 1979, Jean-Claude Bernardet apontou a importância do filme documentário (ou natural) no cinema silencioso brasileiro, apesar da atenção muito maior dada ao filme ficcional (ou posado) pelos historiadores. Entretanto, a disponibilidade de cinejornais, atualidades e registros documentais brasileiros produzidos até 1930 sempre foi escassa, apesar de representar um volume muito maior de títulos preservados do que as esparsas ficções. Uma ação fundamental para dar acesso a essa produção foi o projeto desenvolvido na Cinemateca Brasileira, por Carlos Roberto de Souza, da caixa de DVDs “Resgate do cinema silencioso brasileiro”, finalizado em 2009. Patrocinado pela Caixa Econômica Federal, a caixa era composta por 27 filmes reunidos em cinco DVDs e um livreto de autoria de Carlos Roberto. Apesar da presença de posados, como o mais antigo filme de ficção preservado, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), a grande maioria dos títulos eram de naturais, reunidos em 5 temas: “Riquezas Paulistas”, “Aspectos do Brasil”, “Ciências (mesmo ocultas) e riquezas”, “Vida cotidiana” e “Cerimônias públicas”. A circulação desses filmes permitiu que mais pesquisadores tivessem acesso a um amplo conjunto de filmes pouco vistos anteriormente, fortalecendo as pesquisas sobre o cinema silencioso brasileiro. Elas já tinham ganhado impulso com as reuniões de pesquisadores na Cinemateca Brasileira que resultaram no livro “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organizado por Samuel Paiva e Sheila Schvarzman, em grande parte também dedicado aos pouco estudados filmes naturais, sem falar de importantes artigos escritos por Eduardo Morettin e Hernani Heffner. Posteriormente, os filmes incluídos nos DVDs passaram a estar acessíveis ainda através do Banco de Conteúdos Culturais.3

01. Sessão “Como era gostoso o nosso cinema” do Canal Brasil

A criação do Canal Brasil, em 1998, representou o surgimento de uma nova janela de exibição de filmes brasileiros antigos na televisão. Com grande demanda pela aquisição de conteúdo para sua programação, o Canal Brasil oferecia, além do pagamento ao produtor pelos direitos de transmissão, os custos de telecinagem4 de filmes que não tivessem cópias em vídeo (Beta, depois Full-HD). Para alguns produtores brasileiros, sobretudo de obras comerciais que praticamente não monetizavam seus filmes desde a decadência do mercado de VHS, era um dinheiro caído do céu. Naturalmente, o principal tipo de filme que chegou ao Canal Brasil foi o da popularíssima pornochanchada, produzida entre os anos 1970 e 1980, o que motivou, inclusive, a criação da sessão “Como era gostoso o nosso cinema”, especialmente dedicado ao gênero. Poucos produtores conseguiram lançar comercialmente seus filmes fora do Canal Brasil, sendo uma exceção o ator, diretor e produtor Carlo Mossy, que lançou seus filmes numa coleção de DVDs em 2013. A ampla disponibilidade de um grande número de pornochanchadas após sua exibição pelo Canal Brasil (logo copiados e e postados na internet) permitiu o bem-vindo reexame do gênero. Embora autores como Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar e José Mário Ortiz Ramos tenham escrito sobre o gênero nos próprios anos 1970 e 1980, poucos na academia – talvez com a principal exceção de Nuno Cesar Abreu – deram prosseguimento à qualidade e perspicácia destes trabalhos pioneiros. Apenas mais recentemente tem surgido bons trabalhos acadêmicos que vão além de uma análise totalizante – e simplista – do gênero, fugindo de uma relação mecanicista com a censura, focando em filmes e filmografias específicas e apontando a inevitável, mas pouco percebida diversidade da pornochanchada, em termos de temas, abordagens e qualidade. Dissertações de mestrado como a de Luiz Paulo Gomes (A construção de um profeta: a prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero da pornochanchada, UFF, 2012) e de Luciano Carneiro de Oliveira Júnior (Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980, UFF, 2019), ambas orientadas pela professora Mariana Baltar, foram alguns dos bons frutos da disponibilidade em formato digital de um número muito mais amplo de filmes que permitiram a comparação, análise e crítica.

1. Em razão da atual crise da Cinemateca Brasileira, decorrente de ações recentes do governo, o site do Banco de Conteúdos Culturais, hospedado pela Cinemateca, tem sofrido frequentemente com problemas técnicos.

2. No Brasil, governos ocasionalmente lançam editais públicos, que são semelhantes a bolsas ou auxílios. Os editais públicos são oportunidades abertas a qualquer interessado para concorrer a financiamento, geralmente voltadas a obras culturais ou projetos de pesquisa.

3. Ver item 1.

4. Telecine é o processo de transferência de filme cinematográfico para vídeo. A telecinagem permite que uma obra originalmente captada em película seja exibida em equipamentos padrão de vídeo, como aparelhos de televisão, videocassetes (VCR), DVD, Blu-ray ou computadores.

Since the 1990s, the most ambitious and well-funded film restoration projects in Brazil have focused on the filmography of renowned filmmakers from the Cinema Novo movement such as Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman and Nelson Pereira dos Santos. These projects restored and produced new exhibition prints of many titles that were already considered classics. But the canonical status of the works that these directors produced, such as Entranced Earth (Glauber Rocha, 1967) or They Don't Wear Black Tie (Leon Hirszman, 1981), aren’t going to be further elevated through film restorations. Rather, the restoration of these films only reinforced the notion that they were the single-best titles Brazilian cinema had to offer.

This list, based on my experiences as a film archivist and film scholar, privileges initiatives that have focused on historically ignored films, periods, or genres throughout Brazilian cinema history. I attempted to list projects, retrospectives, and events carried out over the last two decades that allowed researchers and academics the opportunity to reevaluate the history of Brazilian cinema in their work. These projects brought to light films from the past that had not been widely seen or discussed for many years (some even since they were first released), provoking feelings of freshness, surprise, and novelty towards a wider historical array of Brazilian films.

One of the criteria in compiling this list was that each project expanded, altered, or revised long existing Brazilian Cinema canons. Thus, an important program such as the 2013 “Clássicos e raros do nosso cinema”, conducted by the Cinemateca Brasileira with the sponsorship of the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), was not included in this list despite its undeniable merits. While new 35mm prints were struck as a result of that program, these prints were projected very few times outside of São Paulo and Rio de Janeiro (the main cities the program took place in) because they were elevated to the status of preservation prints.

In addition, important projects such as the digitization and DVD release of films by Hugo Carvana and Aloysio Raulino by the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in 2017 were not included in this list because it is still too recent to evaluate their impact on the academic world. There are also situations in which academic interest preceded preservation actions. This seems to have been the case with the “rediscovery” of the first Brazilian feature film directed by a black woman, Adélia Sampaio’s Amor maldito (1984). When Amor Maldito was written about in the PhD thesis of Edileuza Penha de Souza, “Cinema na panela de barro: mulheres negras, narrativas de amor, afeto e identidade” (UnB, 2013), the new attention given to the film led to it being widely requested for exhibitions in around 2017. However, the circulating copies of the film were unfortunately in bad quality and did not correspond to the film’s renewed interest.

In this list, I generally sought to show how originality, care and research involved in these projects were fundamental to their success. I also tried to highlight the relevant and continuous impact that preservation and diffusion actions have in reshaping the historiography of Brazilian cinema. Finally, the objective of this list is less to rank different preservation projects than to stimulate new debate about them.

14. Corcina and Rio de Janeiro’s Underground Cinema

Roberto Moura, the (now retired) filmmaker and professor at UFF, began a research project in the 2000s that focused on what he called “cinema alternativo carioca” (Rio de Janeiro underground cinema). This project focused on the wide ranging film production (especially of short films) of Rio de Janeiro in the 1970s and early 1980s. Involving members of the Brazilian Association of Documentarians (ABD), production companies would include Corisco, Moura himself, and especially Corcina - Cooperative of Independent Film Directors. The underground films of this period are marked by a diversity and experimentalism which flourished under the so-called “Lei do Curta” (the mandatory exhibition of Brazilian short films together with foreign features). Directors such as José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, all participated in making bold short works. More recently, Lucas Parente (son of the multimedia artist and professor André Parente, who directed some short films that are included in this trend), started a movement to rescue this material, together with the Cinemateca do MAM, Dobra - International Festival of Experimental Cinema, and others. As a result of these efforts, a 2019 digitalization of Eclipse (Antonio Moreno, 1984), an animation painted directly on film, was exhibited in several festivals and academic events, giving continuity to Roberto Moura's research, and fostering a renewed interest in these films and directors.

13. The DVD Release of A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) has launched beautiful DVD editions of films from its collection over the past decades, such as silent films made in Cataguazes and Recife or even sound feature films such as O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) and Assault on the Pay Train (Roberto Farias, 1962). Special mention should be made of the 2004 release of Antonio Carlos Fontoura's second feature film A Rainha Diaba (1974) on a beautiful DVD copy. This “pop-gay-black thriller” (as it was announced at the time of its release) was rediscovered two years after the premiere of Madame Satã by Karïm Anouz, helping to highlight that A Rainha Diaba is one of the most interesting Brazilian films of the 1970s. This is a beautiful example of the rescue of a film that was still very “modern” even at the time of its rediscovery. The neat edition of the DVD, filled with well-produced extras (interviews, making-ofs, trailers, etc.), was another incentive for the wide circulation of A Rainha Diaba after a certain ostracism to which the film had initially been unfairly relegated.

12. The Reconstruction of Acabaram-se os otários (1929)

The reconstruction of Acabaram-se os otários (1929) was a project developed by the University Laboratory of Audiovisual Preservation of the Federal Fluminense University (LUPA-UFF) and carried out by myself and professor Reinaldo Cardenuto. The project resulted in the 2019 launch of a shortened version of the first Brazilian sound feature film, which is considered lost. This project gathered together different remaining fragments of the work such as excerpts of moving images, photographs and sound records. This audiovisual preservation project, unlike the rest on this list, was a consequence of and not the impetus for academic research. As the study of the arrival and popularization of sound cinema in Brazil motivated the interest of several researchers such as Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar), and Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), the work of Luiz de Barros began receiving more attention from researchers as well. Researchers of Luiz de Barros include myself, Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) and her graduate student Evandro Vasconcellos, author of the M.A. dissertation “Entre o palco e a tela: as relações do cinema com o teatro de revista nas comédias de Luiz de Barros” (UFSCar, 2015). The reconstruction of Acabaram-se os otários, on the other hand, may come to encourage other projects that combine historical research and audiovisual preservation, bringing universities and film archives closer together.

11. “Classics of Cinédia” Restorations

In 2004, Cinédia released copies of four restored films produced by the company through a project sponsored by BR Distribuidora. One of them, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), was already the most well-known Brazilian musical of the 1930s. But two others - Mulher (Octávio Gabus Mendes, 1931) and 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) - were true “novelties” for researchers, as they had not been widely circulated for many years. Directed by Octávio Gabus Mendes, Mulher was a silent film with music synchronized with Vitaphone records at a time when talkies were already the norm in Brazil for two years. However, at that time, many movie theaters, especially in the suburbs and in the countryside, had not yet begun the move toward sound cinema. The film is highly sophisticated, comparable to another late silent production by Cinédia, the classic Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). In addition to prompting interesting research on sound in cinema and silent cinema, the restoration of Mulher was the subject of the M.A. dissertation by Joice Scavone, “Mulher: a trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia” (UFF, 2013), which discussed the close link between film studies and film preservation in academia. The Classics of Cinédia restorations remain in restricted circulation, many of the works still unavailable in digital format. As a result, the fourth film which was restored, Adhemar Gonzaga’s 1944 Romance proibido remains practically unknown to audiences. Despite this, the films that are accessible had an extremely significant impact on the academic world.

10. Duplication of Fábula or Mitt Hem är Copacabana by Arne Sucksdorff

Swedish filmmaker Arne Sucksdorff was best known in the history of Brazilian cinema for having offered a film course in Rio de Janeiro in 1962, which became a milestone moment for the emerging Cinema Novo movement. However, before moving to Mato Grosso’s Pantanal (where he would live until his death), Sucksdorff shot the fascinating Fábula (1965) in Rio de Janeiro. This feature film was co-produced with Sweden and it had been practically forgotten since its initial release. However, in the mid-1990s, in a project in partnership with the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), Chico Moreira, who was then the head of conservation at the Cinemateca do MAM, duplicated the film. Chico produced a new 16mm exhibition print optically reduced from the original 35mm internegative of the Brazilian version of the film which had been preserved by the film archive. In the 2000s, Hernani Heffner - who succeeded Chico at the Cinemateca do MAM - began to frequently screen that 16mm print of Fábula, always with enormous success among the public who were dazzled by this practically unknown work. Scholars soon became interested. João Luiz Vieira analyzed the film in the award-winning 2009 book “World Cinemas, Transnational Perspectives”, edited by Natasa Ďurovičová and Kathleen Newman. I myself wrote about the film in the catalog of the “Olhares Neo-Realistas” film series, held at the Banco do Brasil Cultural Center in 2006. The film also became the subject of a wider research project by professor Esther Hamburger (USP), which brought to Brazil a digital copy of the Swedish version. The interest aroused by the film was such that in 2011 the Moreira Salles Institute financed the making of a new print of the Brazilian version – this time in 35mm – from the original internegative.

09. DVDs "Os filmes de Zózimo Bulbul" and " Obras raras: o cinema negro da década de 70" (Films of Zózimo Bulbul" and "Rare works: Black Cinema of the 70s)

Released in 2005 and 2006 through a partnership between the Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Afro Carioca Cinema Center and the Palmares Cultural Foundation of the Ministry of Culture, the DVDs “Films of Zózimo Bulbul” and “Rare works: the black cinema of the 70s” were fundamental towards expanding the circulation of films by important black Brazilian filmmakers as well as contributing to their revaluation. The double DVD-set “Films of Zózimo Bulbul” featured six films by the actor and director, made between the 1970s and 2000s. Bulbul’s first short film Alma no Olho (1973) has been reevaluated as the masterpiece that it is, being recently chosen as the 11th best short film in the history of Brazilian cinema in a list made by the Brazilian Association of Film Critics (Abbracine) in 2019. The double DVD “Rare works: black cinema of the 70s” presented six films directed by Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre and Odilon Lopez. Of particular note is the feature film As aventuras amorosas de um padeiro (1975), Onofre's debut feature film produced by Nelson Pereira dos Santos. In addition to the black protagonist, this erotic comedy produced during the “climax” of pornochanchada stands out for its feminist tone, rare in a genre filled with sexist works. Thus, in addition to contributing to the growing interest in black cinema in the academic world, the DVD also helped newly highlight Onofre's cinema and, more broadly, the pornochanchada itself.

08. Event “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação” (Brazilian Cinema, the Shame of a Nation)

Researcher Remier Lion had the ambition to hold a large retrospective of Brazilian exploitation films with this provocative title (a reference to Howard Hawks’ 1932 Scarface) at the Cinemateca do MAM when it had just resumed its programming after a serious crisis hit the institution in the early 2000s. However, his idea was not well received by the institution’s then curator Gilberto Santeiro, who was very uncomfortable with the provocation aimed at the respectability of Brazilian cinema. Despite this, Remier brought part of his program to film clubs in different locations of Rio de Janeiro, titling the new program “Malditos films brasileiros” (Damned Brazilian Films). Finally, the program reached the Cinemateca Brasileira, where it was held with enormous success in 2004, even leading Remier to join the programming team of the film archive. Working at the Cinemateca Brasileira provided Remier with access to even rarer materials for his project. Although Remier’s program can be understood as a general revision and revaluation of the films made at the “Boca do Lixo” (the neighborhood that gathered commercial film professionals in São Paulo from the 1960s to 1980s), the screening series “Brazilian Cinema: the shame of a nation” had a broader scope, incorporating a filmmaker that Remier was researching for a very long time, Nilo Machado, who independently produced strip-tease films in Rio de Janeiro since the 1960s. In general, the exhibition at the Cinemateca Brasileira shed light on several unknown examples of the long trajectory of Brazilian commercial, popular, and genre cinema, which had not yet been explored in Brazilian film historiography due to its penchant for emphasizing auteurs. Thus, this event received enormous media coverage and had great repercussion among film critics. It was also aligned with an academic research trend that was just burgeoning, exemplified by Rodrigo Pereira's dissertation “Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro” (Unesp, 2002), or by works which were then yet to have been completed, including the doctoral theses of Laura Cánepa “Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros” (Unicamp, 2008) and Alfredo Suppia “Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita : uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood” (Unicamp, 2007).

07. Restoration of Aviso aos navegantes

With the sponsorship of BR Distribuidora and Petrobrás, the Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) has carried out important restorations of films from different periods and directors over the last few decades. Perhaps the most notable restoration was the chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), completed between 1999 and 2000. When the 1950s musical comedies known as chanchadas started to be revaluated in the 1970s, Jean-Claude Bernardet highlighted Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) as one of the most important political films in Brazilian cinema. From then on out, if any chanchada was included on the list of the most important Brazilian films of all time, it was usually this Hollywood parody full of criticism about the Getúlio Vargas government. Subsequently, based on studies such as those of João Luiz Vieira, Robert Stam and Arthur Autran, the film Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) became the most valued example of the genre, with its reflexive character and sophisticated discussion about the politics of Brazilian cinema. Burle's film came to occupy the prominent place within the chanchada genre previously given to Carlos Manga's film. Produced before Carnaval Atlântida and Nem Sansão nem Dalila, Aviso aos navegantes stands out not as an exception to the genre, but as the rule. Rather than subverting the conventions of chanchadas, the film brilliantly employs all of its clichés, with an excellent cast of Oscarito and Grande Otelo, villain José Lewgoy and the romantic duo of Eliane Macedo and Anselmo Duarte. Restored by Chico Moreira at Labocine from different prints of various gauges, Aviso aos navegantes gradually and deservedly became the main chanchada reference for scholars of the genre.

06. Restoration of Moacyr Fenelon’s films.

Conducted by the Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro (IPMCB), an organization run by Alice Gonzaga and Hernani Heffner, the restoration project of the films of Moacyr Fenelon extended between 2006 and 2010 and was sponsored by the Petrobrás Cultural Program. The project brought to light five feature films made between 1948 and 1951 that had not been seen in decades. Moacyr Fenelon is best known as a pioneer sound technician during the 1930s and as one of the creators of the Atlântida studio in 1941. Fenelon had the final part of his career recovered by the restoration project: the years when he created his company the Cine-Produções Fenelon and then joined Flama Filmes studio. Unfortunately, his relatively early death in 1953 prevented the director from having a more effective participation in the movement he helped to foster, keeping in mind that Nelson Pereira dos Santos not for nothing named the crew who made Rio 40 degrees, “Team Moacyr Fenelon”. In my PhD thesis, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil: 1915-1951” (UFF, 2011), two films restored by this project served as fundamental examples for my research of a dramatic cinema made during post-War times in Brazil: Obrigado, Doutor (1948), based on a homonymous radio series, and Domino Negro (1950), adapted from a novel by Hélio Soveral. More broadly, Fenelon's role as an “independent producer” was one of the main themes of Luís Alberto da Rocha Melo's fantastic PhD thesis, “Cinema Independente: produção, exibição e distribuição no Rio de Janeiro: 1948 to 1954" (UFF, 2011). In that thesis, he demonstrated Fenelon's pioneering leadership in developing the mode of production that would later be followed by “auteurs” who are identified today with the so-called “independent cinema of the 50s”, such as Alex Viany, Roberto Santos and Nelson Pereira dos Santos. Finally, Fenelon’s musical Poeira de Estrelas (1948) surprised today’s audiences by portraying the love between two women, receiving a pioneering analysis by Mateus Nagime in one of the chapters of his M.A. dissertation “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. DVD Box-Set “Coleção CTAv” (CTAv Collection)

Initiative of the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in partnership with the Cinemateca Brasileira, the digitization of short films produced by the Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), the Instituto Nacional de Cinema (INC) and Embrafilme, made a large number of documentaries produced by the State between the 1930s and the 1970s accessible. The beautiful DVD box-set “CTAv Collection” which resulted from the digitization project was sent to many universities for free. It contained 110 titles divided into 20 discs, not only allowing for a broader view of filmmaker Humberto Mauro’s filmography, but also shedding light on lesser-known works by several other important directors such as Leon Hirszman, Arthur Omar, Adhemar Gonzaga, Linduarte Noronha, and a wide range of educational, ethnographic, animation and compilation films. Mauro's rural education films from the 1950s, for example, would go on to be written about in a special chapter by Sheila Schwarzman in the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (2018). Also, films that address the very history of Brazilian cinema such as the important Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) was the subject of Luís Alberto Rocha Melo's chapter in the seminal book “Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro”, organized by Marina Tedesco and Karla Holanda, from his project on audiovisual historiography of Brazilian cinema. These films released on DVD also became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.1

04. Event “Cinema Marginal e suas fronteiras” (Cinema Marginal and its Borders)

Initially held in São Paulo in 2001, the film screening series “Cinema Marginal and its Borders” was perhaps the greatest event dedicated to Brazilian cinema among the series of outstanding screenings sponsored by the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB) in the 2000s. Organized by the founder of Heço Produções Eugenio Puppo, the event brought together a wide range of films that had not been shown for many years, much less together. The event also helped to consolidate a successful formula for future events: film screenings + debates + catalog with texts specially written by specialists + new prints struck to premiere at the event. The impact of the experimental and iconoclast films made between the 1960s and 1970s was enormous, especially in comparison with the expensive and inexpressive films that comprised most of the contemporary Brazilian cinema of the “Retomada”. At UFF, professor João Luiz Vieira built a course around Cinema Marginal in light of the event, his students attending many screenings and becoming more interested in Cinema Marginal. In the wake of the event and its success, producers and critics from Rio de Janeiro later organized film series dedicated to directors Rogério Sganzerla and Julio Bressane, notable auteurs of the Cinema Marginal period. These series took place in the same cultural center, and new film prints were especially struck, allowing for the (re)discovery of lesser known titles from the filmography of these filmmakers.

The event also had a major impact on the academic world, as a huge number of dissertations and theses were soon dedicated to Cinema Marginal. The topic of Cinema Marginal would soon go to supplant the Cinema Novo movement in popularity at universities. As a result of such success, Heco Produções launched the 2009 DVD collection “Cinema Marginal Brasileiro” in partnership with Lume and the Cinemateca Brasileira, institutions further collaborating to widely circulate Cinema Marginal films. At the same time, a film like Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restored between 2013 and 2015 through the Petrobras Cultural Program and then released on DVD, became the subject of numerous academic research projects and became an often debated work at conferences.

03. Project “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares” (Rediscovery of Gerson Tavares’ Films)

Director of two fictional features in the 1960s and several short documentaries between the 1950s and 1970s, Gerson Tavares had his name and films erased from the history of Brazilian cinema. The project “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” was approved in the first (and until today only) edition of the “Preservation and Conservation of the Fluminense Artistic Memory” public call2 by the Rio de Janeiro Secretariat of Culture in 2012. “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” had the initial objective of restoring the film Antes, o Verão (1968), which was in danger of being lost as its only two remaining 35mm prints were already deteriorating. However, the scope of the project was widened, allowing us to digitize the feature film Amor e desamor (1966) as well as seven other shorts by the director. These films would go on to be released on a non-commercial double DVD. The completion of the project allowed for what was almost a new premiere of Gerson’s films, and a real rediscovery of the octogenarian director by new generations occurred. Often compared to Walter Hugo Khouri who worked in São Paulo, the work of Gerson Tavares is proof that there was quality dramatic cinema made in Rio de Janeiro in the 1960s outside of the Cinema Novo movement. Absent from most panoramic books on the history of Brazilian cinema until then, the project allowed the name of Gerson Tavares to be reinserted in that history. As an example, Fernão Ramos mentioned Gerson’s films in his chapter about Brazilian cinema of the 60s in the the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organized by Sheila Schvarzman and Ramos himself.

02. DVD Box-Set “Resgate do cinema silencioso brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema)

In his fundamental 1979 book “Cinema Brasileiro: propostas para uma história”, Jean-Claude Bernardet pointed out the importance of documentary (or “natural”) film in Brazilian silent cinema, despite the much greater attention allotted to fictional (“posado” or staged) film by historians. While the availability of newsreels, actualities and documentary films produced up until 1930 has always been scarce, these works in fact represent a much larger volume of preserved titles than the even scarcer availability of fiction films. A fundamental action towards providing access to silent documentary films was a project developed with the Cinemateca Brasileira by Carlos Roberto de Souza: the 2009 DVD box-set “Rescuing Silent Brazilian Cinema”. Sponsored by Caixa Econômica Federal, this box-set was composed of 27 films gathered into five DVDs and came with a booklet written by Carlos Roberto. Despite the presence of “posados” (fictional films), such as the oldest preserved fictional Brazilian film, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), the vast majority of titles within the box were “naturais” (that is, documentaries) grouped into 5 themes: “Riches of São Paulo”, “Aspects of Brazil", "Sciences (or occultism) and riches", "Daily life" and “Public ceremonies". The circulation of these films provided researchers with greater access to a wide range of films that had rarely been seen, promoting new research on Brazilian silent cinema. However, research into this field had already begun gaining momentum during gathering sessions of scholars at the Cinemateca Brasileira that resulted in the book “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organized by Samuel Paiva and Sheila Schvarzman, also largely dedicated to documentary silent films. In addition to that, important articles were written about this topic by Eduardo Morettin and Hernani Heffner. Subsequently, the films included in the DVDs became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.3

01. Canal Brasil's “Como era gostoso o nosso cinema” (How Tasty was Our Cinema) Program

The emergence of pay-TV Channel Canal Brasil in 1998 provided a new window for showing old Brazilian films on television. Canal Brasil needed to acquire Brazilian cinema content for its programming, so they offered to pay producers for broadcasting rights in addition to paying for the telecine4 costs of films that did not yet have video copies (Beta, then Full-HD). For some Brazilian producers, especially producers of commercial works who had been unable to monetize their films since the decline of the VHS market in the mid-2000s, it was as if money was coming from heaven. They finally had a way to commercially release their films through Canal Brasil.

Naturally, the main type of film that reached Canal Brasil was the popular pornochanchada. These were soft-core porn films produced between the 1970s and 1980s. The telecineing of many pornochanchada films motivated Canal Brasil to create the program “How tasty was our cinema” (mocking the title of Nelson Pereira dos Santos’s 1971 film How Tasty was My Little Frenchman), a series of live airings dedicated to the genre. Soon after these pornochanchadas were shown on Canal Brasil, they became widely available (as people would pirate recordings of the live TV presentation and post them online). With new access to these films, an extraordinary revision of the genre occurred.

Although authors such as Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar and José Mário Ortiz Ramos wrote about pornochanchadas in the 1970s and 1980s, few working within the field of academia after them (perhaps with the exception of Nuno Cesar Abreu) realized the quality and perspicacity of these pioneering works. Only more recently have there been new academic dissertations that go beyond a totalizing and simplistic analysis of the genre. These texts move away from the point of view that pornochanchadas merely held a mechanistic relationship with censorship, and that the “birth” of the genre was merely the result of State repression. Instead, they focus on specific films and filmographies, pointing out the diversity of pornochanchadas in terms of themes, approaches and quality.

M.A. dissertations such as Luiz Paulo Gomes Neves’ “A construção de um profeta: A prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero pornochanchada” (UFF, 2012) and Luciano Carneiro de Oliveira Júnior’s “Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980” (UFF, 2019), both supervised by professor Mariana Baltar, are two good examples of the kind of positive influence that a large number of digitally available titles can have on film genre studies.

1. Due to Cinemateca Brasileira’s current crisis resulting from recent government actions, the website of the Banco de Conteúdos Culturais, hosted by the Cinemateca, has often suffered from technical problems

2. In Brazil, governments occasionally put out “public calls”, which are similar to grants. Public calls are opportunities open to anybody to compete to get something funded, usually cultural works or research projects.

3. See item 1.

4. Telecine is the process of transferring motion picture film into video. Telecine enables a motion picture, captured originally on film stock, to be viewed with standard video equipment such as television sets, video cassette recorders (VCR), DVD, Blu-ray Disc or computers.

Since the 1990s, the most ambitious and well-funded film restoration projects in Brazil have focused on the filmography of renowned filmmakers from the Cinema Novo movement such as Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman and Nelson Pereira dos Santos. These projects restored and produced new exhibition prints of many titles that were already considered classics. But the canonical status of the works that these directors produced, such as Entranced Earth (Glauber Rocha, 1967) or They Don't Wear Black Tie (Leon Hirszman, 1981), aren’t going to be further elevated through film restorations. Rather, the restoration of these films only reinforced the notion that they were the single-best titles Brazilian cinema had to offer.

This list, based on my experiences as a film archivist and film scholar, privileges initiatives that have focused on historically ignored films, periods, or genres throughout Brazilian cinema history. I attempted to list projects, retrospectives, and events carried out over the last two decades that allowed researchers and academics the opportunity to reevaluate the history of Brazilian cinema in their work. These projects brought to light films from the past that had not been widely seen or discussed for many years (some even since they were first released), provoking feelings of freshness, surprise, and novelty towards a wider historical array of Brazilian films.

One of the criteria in compiling this list was that each project expanded, altered, or revised long existing Brazilian Cinema canons. Thus, an important program such as the 2013 “Clássicos e raros do nosso cinema”, conducted by the Cinemateca Brasileira with the sponsorship of the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), was not included in this list despite its undeniable merits. While new 35mm prints were struck as a result of that program, these prints were projected very few times outside of São Paulo and Rio de Janeiro (the main cities the program took place in) because they were elevated to the status of preservation prints.

In addition, important projects such as the digitization and DVD release of films by Hugo Carvana and Aloysio Raulino by the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in 2017 were not included in this list because it is still too recent to evaluate their impact on the academic world. There are also situations in which academic interest preceded preservation actions. This seems to have been the case with the “rediscovery” of the first Brazilian feature film directed by a black woman, Adélia Sampaio’s Amor maldito (1984). When Amor Maldito was written about in the PhD thesis of Edileuza Penha de Souza, “Cinema na panela de barro: mulheres negras, narrativas de amor, afeto e identidade” (UnB, 2013), the new attention given to the film led to it being widely requested for exhibitions in around 2017. However, the circulating copies of the film were unfortunately in bad quality and did not correspond to the film’s renewed interest.

In this list, I generally sought to show how originality, care and research involved in these projects were fundamental to their success. I also tried to highlight the relevant and continuous impact that preservation and diffusion actions have in reshaping the historiography of Brazilian cinema. Finally, the objective of this list is less to rank different preservation projects than to stimulate new debate about them.

14. Corcina and Rio de Janeiro’s Underground Cinema

Roberto Moura, the (now retired) filmmaker and professor at UFF, began a research project in the 2000s that focused on what he called “cinema alternativo carioca” (Rio de Janeiro underground cinema). This project focused on the wide ranging film production (especially of short films) of Rio de Janeiro in the 1970s and early 1980s. Involving members of the Brazilian Association of Documentarians (ABD), production companies would include Corisco, Moura himself, and especially Corcina - Cooperative of Independent Film Directors. The underground films of this period are marked by a diversity and experimentalism which flourished under the so-called “Lei do Curta” (the mandatory exhibition of Brazilian short films together with foreign features). Directors such as José Joffily, Sérgio Péo, Sylvio Da-Rin, all participated in making bold short works. More recently, Lucas Parente (son of the multimedia artist and professor André Parente, who directed some short films that are included in this trend), started a movement to rescue this material, together with the Cinemateca do MAM, Dobra - International Festival of Experimental Cinema, and others. As a result of these efforts, a 2019 digitalization of Eclipse (Antonio Moreno, 1984), an animation painted directly on film, was exhibited in several festivals and academic events, giving continuity to Roberto Moura's research, and fostering a renewed interest in these films and directors.

13. The DVD Release of A Rainha Diaba

O Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) has launched beautiful DVD editions of films from its collection over the past decades, such as silent films made in Cataguazes and Recife or even sound feature films such as O Saci (Rodolfo Nanni, 1951) and Assault on the Pay Train (Roberto Farias, 1962). Special mention should be made of the 2004 release of Antonio Carlos Fontoura's second feature film A Rainha Diaba (1974) on a beautiful DVD copy. This “pop-gay-black thriller” (as it was announced at the time of its release) was rediscovered two years after the premiere of Madame Satã by Karïm Anouz, helping to highlight that A Rainha Diaba is one of the most interesting Brazilian films of the 1970s. This is a beautiful example of the rescue of a film that was still very “modern” even at the time of its rediscovery. The neat edition of the DVD, filled with well-produced extras (interviews, making-ofs, trailers, etc.), was another incentive for the wide circulation of A Rainha Diaba after a certain ostracism to which the film had initially been unfairly relegated.

12. The Reconstruction of Acabaram-se os otários (1929)

The reconstruction of Acabaram-se os otários (1929) was a project developed by the University Laboratory of Audiovisual Preservation of the Federal Fluminense University (LUPA-UFF) and carried out by myself and professor Reinaldo Cardenuto. The project resulted in the 2019 launch of a shortened version of the first Brazilian sound feature film, which is considered lost. This project gathered together different remaining fragments of the work such as excerpts of moving images, photographs and sound records. This audiovisual preservation project, unlike the rest on this list, was a consequence of and not the impetus for academic research. As the study of the arrival and popularization of sound cinema in Brazil motivated the interest of several researchers such as Fernando Morais da Costa (UFF), Carlos Roberto de Souza (UFSCar), and Carlos Eduardo Pereira (Cinemateca do MAM), the work of Luiz de Barros began receiving more attention from researchers as well. Researchers of Luiz de Barros include myself, Luciana Corrêa de Araújo (UFScar) and her graduate student Evandro Vasconcellos, author of the M.A. dissertation “Entre o palco e a tela: as relações do cinema com o teatro de revista nas comédias de Luiz de Barros” (UFSCar, 2015). The reconstruction of Acabaram-se os otários, on the other hand, may come to encourage other projects that combine historical research and audiovisual preservation, bringing universities and film archives closer together.

11. “Classics of Cinédia” Restorations

In 2004, Cinédia released copies of four restored films produced by the company through a project sponsored by BR Distribuidora. One of them, Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga and Wallace Downey, 1936), was already the most well-known Brazilian musical of the 1930s. But two others - Mulher (Octávio Gabus Mendes, 1931) and 24 horas de sonho (Chianca de Garcia, 1941) - were true “novelties” for researchers, as they had not been widely circulated for many years. Directed by Octávio Gabus Mendes, Mulher was a silent film with music synchronized with Vitaphone records at a time when talkies were already the norm in Brazil for two years. However, at that time, many movie theaters, especially in the suburbs and in the countryside, had not yet begun the move toward sound cinema. The film is highly sophisticated, comparable to another late silent production by Cinédia, the classic Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933). In addition to prompting interesting research on sound in cinema and silent cinema, the restoration of Mulher was the subject of the M.A. dissertation by Joice Scavone, “Mulher: a trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia” (UFF, 2013), which discussed the close link between film studies and film preservation in academia. The Classics of Cinédia restorations remain in restricted circulation, many of the works still unavailable in digital format. As a result, the fourth film which was restored, Adhemar Gonzaga’s 1944 Romance proibido remains practically unknown to audiences. Despite this, the films that are accessible had an extremely significant impact on the academic world.

10. Duplication of Fábula or Mitt Hem är Copacabana by Arne Sucksdorff

Swedish filmmaker Arne Sucksdorff was best known in the history of Brazilian cinema for having offered a film course in Rio de Janeiro in 1962, which became a milestone moment for the emerging Cinema Novo movement. However, before moving to Mato Grosso’s Pantanal (where he would live until his death), Sucksdorff shot the fascinating Fábula (1965) in Rio de Janeiro. This feature film was co-produced with Sweden and it had been practically forgotten since its initial release. However, in the mid-1990s, in a project in partnership with the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB), Chico Moreira, who was then the head of conservation at the Cinemateca do MAM, duplicated the film. Chico produced a new 16mm exhibition print optically reduced from the original 35mm internegative of the Brazilian version of the film which had been preserved by the film archive. In the 2000s, Hernani Heffner - who succeeded Chico at the Cinemateca do MAM - began to frequently screen that 16mm print of Fábula, always with enormous success among the public who were dazzled by this practically unknown work. Scholars soon became interested. João Luiz Vieira analyzed the film in the award-winning 2009 book “World Cinemas, Transnational Perspectives”, edited by Natasa Ďurovičová and Kathleen Newman. I myself wrote about the film in the catalog of the “Olhares Neo-Realistas” film series, held at the Banco do Brasil Cultural Center in 2006. The film also became the subject of a wider research project by professor Esther Hamburger (USP), which brought to Brazil a digital copy of the Swedish version. The interest aroused by the film was such that in 2011 the Moreira Salles Institute financed the making of a new print of the Brazilian version – this time in 35mm – from the original internegative.

09. DVDs "Os filmes de Zózimo Bulbul" and " Obras raras: o cinema negro da década de 70" (Films of Zózimo Bulbul" and "Rare works: Black Cinema of the 70s)

Released in 2005 and 2006 through a partnership between the Centro de Apoio ao Desenvolvimento, Afro Carioca Cinema Center and the Palmares Cultural Foundation of the Ministry of Culture, the DVDs “Films of Zózimo Bulbul” and “Rare works: the black cinema of the 70s” were fundamental towards expanding the circulation of films by important black Brazilian filmmakers as well as contributing to their revaluation. The double DVD-set “Films of Zózimo Bulbul” featured six films by the actor and director, made between the 1970s and 2000s. Bulbul’s first short film Alma no Olho (1973) has been reevaluated as the masterpiece that it is, being recently chosen as the 11th best short film in the history of Brazilian cinema in a list made by the Brazilian Association of Film Critics (Abbracine) in 2019. The double DVD “Rare works: black cinema of the 70s” presented six films directed by Antunes Filho, Antonio Pitanga, Zózimo Bulbul, Ola Balogun, Waldir Onofre and Odilon Lopez. Of particular note is the feature film As aventuras amorosas de um padeiro (1975), Onofre's debut feature film produced by Nelson Pereira dos Santos. In addition to the black protagonist, this erotic comedy produced during the “climax” of pornochanchada stands out for its feminist tone, rare in a genre filled with sexist works. Thus, in addition to contributing to the growing interest in black cinema in the academic world, the DVD also helped newly highlight Onofre's cinema and, more broadly, the pornochanchada itself.

08. Event “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação” (Brazilian Cinema, the Shame of a Nation)

Researcher Remier Lion had the ambition to hold a large retrospective of Brazilian exploitation films with this provocative title (a reference to Howard Hawks’ 1932 Scarface) at the Cinemateca do MAM when it had just resumed its programming after a serious crisis hit the institution in the early 2000s. However, his idea was not well received by the institution’s then curator Gilberto Santeiro, who was very uncomfortable with the provocation aimed at the respectability of Brazilian cinema. Despite this, Remier brought part of his program to film clubs in different locations of Rio de Janeiro, titling the new program “Malditos films brasileiros” (Damned Brazilian Films). Finally, the program reached the Cinemateca Brasileira, where it was held with enormous success in 2004, even leading Remier to join the programming team of the film archive. Working at the Cinemateca Brasileira provided Remier with access to even rarer materials for his project. Although Remier’s program can be understood as a general revision and revaluation of the films made at the “Boca do Lixo” (the neighborhood that gathered commercial film professionals in São Paulo from the 1960s to 1980s), the screening series “Brazilian Cinema: the shame of a nation” had a broader scope, incorporating a filmmaker that Remier was researching for a very long time, Nilo Machado, who independently produced strip-tease films in Rio de Janeiro since the 1960s. In general, the exhibition at the Cinemateca Brasileira shed light on several unknown examples of the long trajectory of Brazilian commercial, popular, and genre cinema, which had not yet been explored in Brazilian film historiography due to its penchant for emphasizing auteurs. Thus, this event received enormous media coverage and had great repercussion among film critics. It was also aligned with an academic research trend that was just burgeoning, exemplified by Rodrigo Pereira's dissertation “Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro” (Unesp, 2002), or by works which were then yet to have been completed, including the doctoral theses of Laura Cánepa “Medo de que?: uma história do horror nos filmes brasileiros” (Unicamp, 2008) and Alfredo Suppia “Limite de alerta! Ficção cientifica em atmosfera rarefeita : uma introdução ao estudo da FC no cinema brasileiro e em algumas cinematografias off-Hollywood” (Unicamp, 2007).

07. Restoration of Aviso aos navegantes

With the sponsorship of BR Distribuidora and Petrobrás, the Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) has carried out important restorations of films from different periods and directors over the last few decades. Perhaps the most notable restoration was the chanchada Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950), completed between 1999 and 2000. When the 1950s musical comedies known as chanchadas started to be revaluated in the 1970s, Jean-Claude Bernardet highlighted Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) as one of the most important political films in Brazilian cinema. From then on out, if any chanchada was included on the list of the most important Brazilian films of all time, it was usually this Hollywood parody full of criticism about the Getúlio Vargas government. Subsequently, based on studies such as those of João Luiz Vieira, Robert Stam and Arthur Autran, the film Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1952) became the most valued example of the genre, with its reflexive character and sophisticated discussion about the politics of Brazilian cinema. Burle's film came to occupy the prominent place within the chanchada genre previously given to Carlos Manga's film. Produced before Carnaval Atlântida and Nem Sansão nem Dalila, Aviso aos navegantes stands out not as an exception to the genre, but as the rule. Rather than subverting the conventions of chanchadas, the film brilliantly employs all of its clichés, with an excellent cast of Oscarito and Grande Otelo, villain José Lewgoy and the romantic duo of Eliane Macedo and Anselmo Duarte. Restored by Chico Moreira at Labocine from different prints of various gauges, Aviso aos navegantes gradually and deservedly became the main chanchada reference for scholars of the genre.

06. Restoration of Moacyr Fenelon’s films.

Conducted by the Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro (IPMCB), an organization run by Alice Gonzaga and Hernani Heffner, the restoration project of the films of Moacyr Fenelon extended between 2006 and 2010 and was sponsored by the Petrobrás Cultural Program. The project brought to light five feature films made between 1948 and 1951 that had not been seen in decades. Moacyr Fenelon is best known as a pioneer sound technician during the 1930s and as one of the creators of the Atlântida studio in 1941. Fenelon had the final part of his career recovered by the restoration project: the years when he created his company the Cine-Produções Fenelon and then joined Flama Filmes studio. Unfortunately, his relatively early death in 1953 prevented the director from having a more effective participation in the movement he helped to foster, keeping in mind that Nelson Pereira dos Santos not for nothing named the crew who made Rio 40 degrees, “Team Moacyr Fenelon”. In my PhD thesis, “Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil: 1915-1951” (UFF, 2011), two films restored by this project served as fundamental examples for my research of a dramatic cinema made during post-War times in Brazil: Obrigado, Doutor (1948), based on a homonymous radio series, and Domino Negro (1950), adapted from a novel by Hélio Soveral. More broadly, Fenelon's role as an “independent producer” was one of the main themes of Luís Alberto da Rocha Melo's fantastic PhD thesis, “Cinema Independente: produção, exibição e distribuição no Rio de Janeiro: 1948 to 1954" (UFF, 2011). In that thesis, he demonstrated Fenelon's pioneering leadership in developing the mode of production that would later be followed by “auteurs” who are identified today with the so-called “independent cinema of the 50s”, such as Alex Viany, Roberto Santos and Nelson Pereira dos Santos. Finally, Fenelon’s musical Poeira de Estrelas (1948) surprised today’s audiences by portraying the love between two women, receiving a pioneering analysis by Mateus Nagime in one of the chapters of his M.A. dissertation “Em busca das origens de um cinema queer no Brasil” (UFSCar, 2016).

05. DVD Box-Set “Coleção CTAv” (CTAv Collection)

Initiative of the Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) in partnership with the Cinemateca Brasileira, the digitization of short films produced by the Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), the Instituto Nacional de Cinema (INC) and Embrafilme, made a large number of documentaries produced by the State between the 1930s and the 1970s accessible. The beautiful DVD box-set “CTAv Collection” which resulted from the digitization project was sent to many universities for free. It contained 110 titles divided into 20 discs, not only allowing for a broader view of filmmaker Humberto Mauro’s filmography, but also shedding light on lesser-known works by several other important directors such as Leon Hirszman, Arthur Omar, Adhemar Gonzaga, Linduarte Noronha, and a wide range of educational, ethnographic, animation and compilation films. Mauro's rural education films from the 1950s, for example, would go on to be written about in a special chapter by Sheila Schwarzman in the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (2018). Also, films that address the very history of Brazilian cinema such as the important Mulheres de cinema (Ana Maria Magalhães, 1976) was the subject of Luís Alberto Rocha Melo's chapter in the seminal book “Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro”, organized by Marina Tedesco and Karla Holanda, from his project on audiovisual historiography of Brazilian cinema. These films released on DVD also became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.1

04. Event “Cinema Marginal e suas fronteiras” (Cinema Marginal and its Borders)

Initially held in São Paulo in 2001, the film screening series “Cinema Marginal and its Borders” was perhaps the greatest event dedicated to Brazilian cinema among the series of outstanding screenings sponsored by the Banco do Brasil Cultural Center (CCBB) in the 2000s. Organized by the founder of Heço Produções Eugenio Puppo, the event brought together a wide range of films that had not been shown for many years, much less together. The event also helped to consolidate a successful formula for future events: film screenings + debates + catalog with texts specially written by specialists + new prints struck to premiere at the event. The impact of the experimental and iconoclast films made between the 1960s and 1970s was enormous, especially in comparison with the expensive and inexpressive films that comprised most of the contemporary Brazilian cinema of the “Retomada”. At UFF, professor João Luiz Vieira built a course around Cinema Marginal in light of the event, his students attending many screenings and becoming more interested in Cinema Marginal. In the wake of the event and its success, producers and critics from Rio de Janeiro later organized film series dedicated to directors Rogério Sganzerla and Julio Bressane, notable auteurs of the Cinema Marginal period. These series took place in the same cultural center, and new film prints were especially struck, allowing for the (re)discovery of lesser known titles from the filmography of these filmmakers.

The event also had a major impact on the academic world, as a huge number of dissertations and theses were soon dedicated to Cinema Marginal. The topic of Cinema Marginal would soon go to supplant the Cinema Novo movement in popularity at universities. As a result of such success, Heco Produções launched the 2009 DVD collection “Cinema Marginal Brasileiro” in partnership with Lume and the Cinemateca Brasileira, institutions further collaborating to widely circulate Cinema Marginal films. At the same time, a film like Copacabana mon amour (Rogério Sganzerla, 1970), restored between 2013 and 2015 through the Petrobras Cultural Program and then released on DVD, became the subject of numerous academic research projects and became an often debated work at conferences.

03. Project “Resgate da obra cinematográfica de Gerson Tavares” (Rediscovery of Gerson Tavares’ Films)

Director of two fictional features in the 1960s and several short documentaries between the 1950s and 1970s, Gerson Tavares had his name and films erased from the history of Brazilian cinema. The project “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” was approved in the first (and until today only) edition of the “Preservation and Conservation of the Fluminense Artistic Memory” public call2 by the Rio de Janeiro Secretariat of Culture in 2012. “Rediscovery of Gerson Tavares’ films” had the initial objective of restoring the film Antes, o Verão (1968), which was in danger of being lost as its only two remaining 35mm prints were already deteriorating. However, the scope of the project was widened, allowing us to digitize the feature film Amor e desamor (1966) as well as seven other shorts by the director. These films would go on to be released on a non-commercial double DVD. The completion of the project allowed for what was almost a new premiere of Gerson’s films, and a real rediscovery of the octogenarian director by new generations occurred. Often compared to Walter Hugo Khouri who worked in São Paulo, the work of Gerson Tavares is proof that there was quality dramatic cinema made in Rio de Janeiro in the 1960s outside of the Cinema Novo movement. Absent from most panoramic books on the history of Brazilian cinema until then, the project allowed the name of Gerson Tavares to be reinserted in that history. As an example, Fernão Ramos mentioned Gerson’s films in his chapter about Brazilian cinema of the 60s in the the recent book “Nova história do cinema brasileiro” (Sesc, 2018), organized by Sheila Schvarzman and Ramos himself.

02. DVD Box-Set “Resgate do cinema silencioso brasileiro” (Rescuing Silent Brazilian Cinema)

In his fundamental 1979 book “Cinema Brasileiro: propostas para uma história”, Jean-Claude Bernardet pointed out the importance of documentary (or “natural”) film in Brazilian silent cinema, despite the much greater attention allotted to fictional (“posado” or staged) film by historians. While the availability of newsreels, actualities and documentary films produced up until 1930 has always been scarce, these works in fact represent a much larger volume of preserved titles than the even scarcer availability of fiction films. A fundamental action towards providing access to silent documentary films was a project developed with the Cinemateca Brasileira by Carlos Roberto de Souza: the 2009 DVD box-set “Rescuing Silent Brazilian Cinema”. Sponsored by Caixa Econômica Federal, this box-set was composed of 27 films gathered into five DVDs and came with a booklet written by Carlos Roberto. Despite the presence of “posados” (fictional films), such as the oldest preserved fictional Brazilian film, Os óculos do vovô (Francisco Santos, 1913), the vast majority of titles within the box were “naturais” (that is, documentaries) grouped into 5 themes: “Riches of São Paulo”, “Aspects of Brazil", "Sciences (or occultism) and riches", "Daily life" and “Public ceremonies". The circulation of these films provided researchers with greater access to a wide range of films that had rarely been seen, promoting new research on Brazilian silent cinema. However, research into this field had already begun gaining momentum during gathering sessions of scholars at the Cinemateca Brasileira that resulted in the book “Viagem ao cinema silencioso do Brasil” (Azougue, 2011), organized by Samuel Paiva and Sheila Schvarzman, also largely dedicated to documentary silent films. In addition to that, important articles were written about this topic by Eduardo Morettin and Hernani Heffner. Subsequently, the films included in the DVDs became accessible through the Banco de Conteúdos Culturais website.3

01. Canal Brasil's “Como era gostoso o nosso cinema” (How Tasty was Our Cinema) Program

The emergence of pay-TV Channel Canal Brasil in 1998 provided a new window for showing old Brazilian films on television. Canal Brasil needed to acquire Brazilian cinema content for its programming, so they offered to pay producers for broadcasting rights in addition to paying for the telecine4 costs of films that did not yet have video copies (Beta, then Full-HD). For some Brazilian producers, especially producers of commercial works who had been unable to monetize their films since the decline of the VHS market in the mid-2000s, it was as if money was coming from heaven. They finally had a way to commercially release their films through Canal Brasil.

Naturally, the main type of film that reached Canal Brasil was the popular pornochanchada. These were soft-core porn films produced between the 1970s and 1980s. The telecineing of many pornochanchada films motivated Canal Brasil to create the program “How tasty was our cinema” (mocking the title of Nelson Pereira dos Santos’s 1971 film How Tasty was My Little Frenchman), a series of live airings dedicated to the genre. Soon after these pornochanchadas were shown on Canal Brasil, they became widely available (as people would pirate recordings of the live TV presentation and post them online). With new access to these films, an extraordinary revision of the genre occurred.

Although authors such as Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar and José Mário Ortiz Ramos wrote about pornochanchadas in the 1970s and 1980s, few working within the field of academia after them (perhaps with the exception of Nuno Cesar Abreu) realized the quality and perspicacity of these pioneering works. Only more recently have there been new academic dissertations that go beyond a totalizing and simplistic analysis of the genre. These texts move away from the point of view that pornochanchadas merely held a mechanistic relationship with censorship, and that the “birth” of the genre was merely the result of State repression. Instead, they focus on specific films and filmographies, pointing out the diversity of pornochanchadas in terms of themes, approaches and quality.

M.A. dissertations such as Luiz Paulo Gomes Neves’ “A construção de um profeta: A prática discursiva enquanto distinção de autoria no gênero pornochanchada” (UFF, 2012) and Luciano Carneiro de Oliveira Júnior’s “Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980” (UFF, 2019), both supervised by professor Mariana Baltar, are two good examples of the kind of positive influence that a large number of digitally available titles can have on film genre studies.

1. Due to Cinemateca Brasileira’s current crisis resulting from recent government actions, the website of the Banco de Conteúdos Culturais, hosted by the Cinemateca, has often suffered from technical problems

2. In Brazil, governments occasionally put out “public calls”, which are similar to grants. Public calls are opportunities open to anybody to compete to get something funded, usually cultural works or research projects.

3. See item 1.

4. Telecine is the process of transferring motion picture film into video. Telecine enables a motion picture, captured originally on film stock, to be viewed with standard video equipment such as television sets, video cassette recorders (VCR), DVD, Blu-ray Disc or computers.