As Bocas Não Falam Tudo: Três Décadas de Cinema LGBTQ+ exibe três filmes pioneiros que foram produzidos nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Ambientes, diálogos, canções, luzes, mortes e resistência: o cinema LGBTQ+ brasileiro teve um longo caminho a percorrer antes de conseguir chamar a si mesmo como tal. As personagens apresentadas no repertório do cinema brasileiro passaram por várias fases de representação antes que os seus problemas deixassem de ser nuances e pudessem ser plenamente destacados. Em nossa curadoria, pretendemos trazer à tona o curta-metragemUm Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora, produzido em 1968, que marcou a história do Brasil com o decreto do quinto Ato Institucional da Ditadura Militar, considerado um dos mais repressivos em 21 anos do regime. A Rainha Diaba (1974), segundo longa dirigido por Antônio Carlos da Fontoura, que mergulha na marginalidade da figura transgressora de Madame Satã: um homem negro, homossexual e pobre que constrói sua fama ancorado na dualidade marginal carioca da primeira metade do século XX. E Vera (1987), vencedor do Urso de Prata no Berlinale, um retrato pioneiro da transexualidade no cinema brasileiro que debate as diferenças entre gênero e sexualidade. " Me chame de Bauer!" é tudo o que o personagem de título do longa de estreia do diretor Sérgio Toledo desejava. O título escolhido para a nossa programação veio de uma crítica deA Rainha Diaba, publicada na revista Manchete, em 1974.

Mouths Don't Say Everything: Three Decades of LGBTQ+ Cinema showcases three groundbreaking Brazilian LGBTQ+ films that were produced in the 1960s, 1970s, and 1980s. Environments, dialogues, songs, lights, death, and resistance: Brazilian LGBTQ+ cinema had a long way to go before it could call itself as such. The queer characters represented in the repertoire of Brazilian cinema went through several phases of representation before their problems stopped being nuances and could be fully highlighted. In our curatorship, we intend to bring to light the short film Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora, produced in 1968, which marked the history of Brazil with the decree of the fifth Institutional Act of the Military Dictatorship, considered one of the most repressive in 21 years of the regime. A Rainha Diaba (1974), the second feature directed by Antônio Carlos da Fontoura, is based on the transgressor figure of Madame Satã: a black, homosexual, and poor man who builds his fame anchored in the marginal Carioca duality in the first half of the 20th century. Lastly, Vera (1987), winner of the Silver Bear at the Berlinale, a pioneering portrait of transsexuality in Brazilian cinema that debates the differences between gender and sexuality: "Call me Bauer!" was all that the title character of director Sérgio Toledo's debut feature asked for. The title chosen for our program was taken from a review of A Rainha Diaba, published in Manchete magazine in 1974.

Agradecimentos especiais: Matheus Pestana, Rita Buzzar, Nexus Cinema, The Department of Cinema, Radio and Television at the University of São Paulo, and Antonio Carlos da Fontoura.Program dedication/Programa dedicado a: Antônio Moreno

Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora (1968)
Dirigido por Djalma Limongi Batista
Antônio acompanha um jovem desempregado, de classe média baixa, que percorre São Paulo sem destino ao longo de um dia, rompendo com um amigo e atravessando espaços marcados por deslocamento e solidão. À noite, na Galeria Metrópole, ele conhece Isaías e vive com ele um encontro sexual intenso, no qual desejo e vulnerabilidade se confundem. A relação rapidamente assume um tom perturbador quando Isaías implora para que Antônio o mate, transformando o encontro em uma experiência limite. Entre errância urbana, afetos extremos e violência latente, o filme constrói um dos primeiros retratos não estereotipados de uma relação homossexual no cinema brasileiro, enfrentando de forma direta os tabus morais de seu tempo.
A Rainha Diaba (1974)
Dirigido por Antonio Carlos da Fontoura
A Rainha Diaba é o segundo longa-metragem dirigido por Antônio Carlos da Fontoura. O visual, a história e alguns traços de Rainha Diaba, interpretado por Milton Gonçalves, derivam da figura associada à Madame Satã, emblemática representante da vida marginal da Lapa carioca na primeira metade do século XX. ‍Fontoura trata a violência como o tema central e principal motivo estético de seu filme. Seus diálogos mostram um repertório infinito de gírias e expressões em um ambiente de forte estilização marginal. Às vezes afetuoso, às vezes com ira, Diaba, da sala do bordel onde vive, controla o crime organizado no Rio de Janeiro. Após descobrir que um de seus homens está prestes a ser preso pela polícia, Diaba decide usar um bode expiatório, Bereco, a fim de envolvê-lo numa série de crimes e entregá-lo como se fosse o verdadeiro procurado.
Vera (1986)
Dirigido por Sérgio Toledo
Vera, baseado na autobiografia A Queda para o Alto, de Anderson Herzer, acompanha Bauer após sair do colégio interno onde cresceu, quando sua identidade masculina se afirma e ele exige ser tratado como homem. Com apoio do professor Paulo, consegue trabalho e moradia, enfrentando preconceito enquanto busca seu lugar em um mundo hostil.