Em 1964, Paulo Gil Soares acabara de ser assistente de direção, cenógrafo, figurinista e co-autor dos diálogos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, quando dirigiu seu primeiro filme: o documentário Memória do Cangaço, que viria a inaugurar a Caravana Farkas. Não por acaso, Memória toma uma postura ativa quanto a seu tema central, evitando tanto a demonização quanto a mistificação do fenômeno do cangaço.

Embora não seja o primeiro documentário a tratar do cangaço - pois mesmo durante o período de atividade do bando de Lampião há registros de filmes documentais hoje considerados perdidos, como Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) e o semidocumental Lampião, a Fera do Nordeste (1930) -, Memória do Cangaço é possivelmente o primeiro a tratar do tema de forma ativamente crítica, pensante. Por tudo isso, é uma peça incontornável não só aos estudiosos do cangaço, mas também do cinema brasileiro.  

Paulo Gil Soares had just finished working as an assistant director, production designer and dialogue writer in Glauber Rocha’s Black God, White Devil, when he went on to direct his first film: the documentary Memória do Cangaço, which would be the first film of the Caravana Farkas. It is not an accident that it took an active stance when confronting its main subject, while avoiding both demonizing and mystifying the cangaço.

Even though it was not the first documentary about cangaço - there are records of now-lost films made during the years when Lampião’s group was active, such as Lampião: o Banditismo no Nordeste (1927) and the docufiction Lampião, a Fera do Nordeste (1930) -, Memória do Cangaço was probably the first film that took an actively critical stance when looking at that topic. For all that, it is obligatory in cangaço studies, as well as Brazilian cinema.

Agradecimentos especiais: Affonso Beato e Guilherme Farkas.

Memória do Cangaço (1965)
Dirigido por Paulo Gil Soares
Memória do Cangaço (1964), estreia de Paulo Gil Soares e marco inaugural da Caravana Farkas, encara o tema de forma ativa e crítica, evitando tanto a demonização quanto a idealização do cangaço. Com depoimentos de testemunhas e imagens de arquivo raras, o filme contrapõe versões oficiais a realidades socioeconômicas do sertão e constrói um retrato direto da violência e das contradições daquela época.