Os últimos anos da década de 1970 no Brasil viram o surgimento de um novo movimento sindical de trabalhadores brasileiros que viriam a influenciar a abertura democrática que se chocaria contra a ditadura militar repressiva durante a década seguinte. O Novo Sindicalismo que surgiu entre os anos de 1978 e 1980 resultou na criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983, e da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), em 1986, além de formar a base para a formação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980.

O movimento grevista, que foi o ápice do Novo Sindicalismo, começou em 12 de maio de 1978, nas fábricas de caminhões Saab-Scania em São Bernardo do Campo, São Paulo, quando cerca de dois mil metalúrgicos cruzaram os braços, exigindo um aumento salarial de 20%. No contexto do arrocho salarial e do fim do crescimento após o Milagre Econômico Brasileiro, o movimento se estendeu a outras empresas, como Ford, Mercedes-Benz e Volkswagen.

Em 1980, uma nova greve ocorreu em São Bernardo do Campo ao longo de 41 dias e mobilizou trezentos mil metalúrgicos. No Brasil não havia greves desta magnitude desde 1968. Acostumados a negociar com os governos, os antigos dirigentes sindicais da região foram substituídos por novas lideranças, entre as quais estava Luiz Inácio Lula da Silva (mais conhecido como apenas "Lula"), presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e um dos principais líderes do futuro Partido dos Trabalhadores.

É neste contexto que os onze filmes deste programa foram realizados, entre o início e o fim das greves metalúrgicas de São Paulo. Quando as greves começaram, cineastas de todo o Brasil rapidamente se dirigiram às diversas regiões de São Paulo onde elas estavam ocorrendo e se lançaram no centro da ação com suas câmeras sempre ligadas. Para estes cineastas, o cinema se apresentou como uma ferramenta revolucionária, uma forma de participar da conscientização dos metalúrgicos sobre a precariedade de suas condições de trabalho. Muitos dos filmes deste programa foram produzidos pelos próprios sindicatos metalúrgicos, e exibidos para os trabalhadores como um meio de angariar apoio para as diversas greves que aconteciam em toda São Paulo.

Hoje, além de servirem como clássicos exemplos do cinema documental revolucionário latino-americano, os filmes deste programa ganham uma gravidade ainda maior por outro motivo. Em outubro de 2022, pessoas de todo o Brasil voltarão às urnas para decidir o futuro de sua democracia, já que o líder do Partido dos Trabalhadores e ex-presidente Lula concorre em oposição ao atual presidente de extrema direita Jair Bolsonaro. Os noticiários e comentaristas políticos anunciam que essa eleição será a mais importante da história do país, ela decidirá se a verdadeira democracia prevalecerá em um país que a viu ser retirada repetidas vezes. Dado este contexto contemporâneo, é importante retornar aos onze filmes sobre greve dos trabalhadores deste programa. Estes trabalhos nos permitem compreender as origens políticas de Lula, por que ele conquistou o coração de tantos no país se tornando o líder político mais importante da história do Brasil, e testemunhar este momento essencial das vitórias dos direitos dos trabalhadores que ele ajudou a vencer no final dos anos 70 e início dos 80 em São Paulo. Os sindicatos de trabalhadores no Brasil sob o atual presidente Jair Bolsonaro estão cada vez mais enfraquecidos, perdendo financiamento e ímpeto em sua luta para ganhar um salário justo para todos os cidadãos brasileiros. Os filmes deste programa nos permitem visualizar um momento diferente para os sindicatos de trabalhadores brasileiros, e através deles podemos vislumbrar dias melhores pela frente.

The last years of the 1970s in Brazil saw the emergence of a new trade union movement of Brazilian workers, influencing a democratic opening that would clash against the repressive military dictatorship over the subsequent decade. The New Trade Unionism that sprang up in the years 1978 to 1980 resulted in the creation of the Central Única dos Trabalhadores (CUT), in 1983, and the Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), in 1986, as well as forming the basis for the formation of the Workers' Party (Partido dos Trabalhadores) in 1980.

The strike movement, which was the apex of New Unionism, began on May 12, 1978, in the Saab-Scania truck factories in São Bernardo do Campo, São Paulo, when around two thousand metalworkers crossed their arms, demanding a 20% salary increase. In the context of tightening wages and the end of growth during the Economic Miracle in Brazil, the movement spread to other companies, such as Ford, Mercedes-Benz and Volkswagen.

In 1980, a new strike took place in São Bernardo do Campo, lasting 41 days and mobilizing three hundred thousand metalworkers. In Brazil there had not been strikes of this magnitude since 1968, nor had they been organized against the will of the old union leaderships. Accustomed to negotiating with governments, the old leaders of the region's unions were overtaken by new leadership, among which was Luiz Inácio Lula da Silva (better known as only “Lula”), president of the São Bernardo do Campo Metalworkers Union and one of the main leaders of the future Workers' Party.

It is within this context that we find the eleven films in this program, which were created between the beginning and end of the São Paulo metallurgical strikes. When the strikes began, filmmakers across Brazil quickly came to the various regions of São Paulo where they were taking place and threw themselves into the center of action with their cameras always rolling. For these filmmakers, cinema presented itself as a revolutionary tool in making the metalworkers aware of the precariousness of their working conditions. The films in this program were often produced by the metallurgical workers unions themselves, and shown to the workers as a means of rallying support for the various strikes taking place across São Paulo.

Today, beyond serving as classic examples of revolutionary Latin American documentary cinema, the films in this program take on an elevated gravity. In October 2022, people throughout Brazil will return to the election polls to decide the future of their democracy, as Workers’ Party leader and former president Lula is set to oppose current radical right-wing president Jair Bolsonaro. News outlets and political commentators are drumming up this election to be the most important in the history of Brazil, a question of whether true democracy will prevail in a country that has repeatedly seen it be taken away. Given this contemporary context, it’s important to return to the eleven workers strike films in this program. These works allow us to understand the political origins of Lula, why he captured the hearts of so many in the country to become the most important political leader in Brazil’s history, and to witness this essential moment of workers rights victories which he helped win during the late 70s and early 80s in São Paulo. Beyond this, worker unions in Brazil under current president Jair Bolsonaro have dwindled down, losing their funding and momentum in their fight to gain all Brazilian citizens a fair living wage. The films in this program project a different moment for Brazilian workers unions then our present one, and through these films we can hope for better days ahead.

Agradecimentos especiais: João Pedro Hirszman, Maria Hirszman, Centro Técnico Audiovisual (CTAv), Mayra Jucá, Julio Matos, Lucas C. Ospina, Maysles Documentary Center, Glênis Cardoso, Laura Batitucci, Gustavo Menezes, Raian Oliveira, Matheus Pestana, Waleska Antunes, e Giulio da Cruz Bruno

Acidente de Trabalho (1977)
Dirigido por Renato Tapajós
Acidente de trabalho é o primeiro de cinco filmes de Renato Tapajós com o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, nas mobilizações do ABC no fim dos anos 70. Em meio à ditadura, o cinema vira ferramenta de conscientização sobre a precariedade nas fábricas. O filme reúne depoimentos de operários vítimas de acidentes, além de falas de Lula, dirigentes sindicais e um advogado trabalhista. Com imagens do chão de fábrica e uma encenação, explicita causas como jornada excessiva, produtividade forçada, falta de segurança e pobreza, dando dimensão humana ao problema.
Trabalhadoras Metalúrgicas (1978)
Dirigido por Olga Futemma e Renato Tapajós
No final dos anos setenta, um grupo de cineastas brasileiros de documentários viajou para a região do ABC, nos subúrbios de São Paulo, com o objetivo de registrar uma onda de greves de trabalhadores em resposta à negligência da indústria automotiva, cada vez mais poderosa e abusiva. Documentando as greves de trabalhadoras metalúrgicas, o filme "Trabalhadoras Metalúrgicas", de Olga Futemma e Renato Tapajó, é um trabalho particularmente vigoroso dentre os filmes produzidos durante este momento da história do trabalhador paulistano. Cenas filmadas durante o primeiro Congresso de Mulheres Metalúrgicas de São Bernardo e Diadema em 1978 são intercaladas com imagens documentando as péssimas condições contra as quais as mulheres que participaram do congresso estavam em greve.
Greve (1979)
Dirigido por João Batista de Andrade
"Eles caçaram Lula, mas aqui há 80 mil Lulas", esta é uma das frases potentes ditas por trabalhadores perseguidos politicamente em Greve!, documentário de João Batista de Andrade que registra as greves de 1979 por melhores salários e condições de trabalho no ABC Paulista. Na época, o então líder grevista Luiz Inácio Lula da Silva comandou a maior paralisação. Neste retrato social, vemos pontos de vista de dentro e fora das manifestações, das esposas dos metalúrgicos e de quem resistiu à intervenção policial e à fraqueza dos sindicatos, quando os grevistas se perguntavam o que fazer diante da perseguição aos líderes. Greve! assume uma visão mais externa e totalizante do movimento operário, com Andrade buscando se inserir como observador das consequências da exploração.
Trabalhadores: Presente! (1979)
Dirigido por João Batista de Andrade
João Batista de Andrade, em Trabalhadores: Presente! faz uma geografia minuciosa dos movimentos sindicais originados no ABC paulista e que se alastraram no país no período ditatorial como forma de reinvindicação da retomada do poder popular. A greve dos motoristas de ônibus e suas articulações internas e externas como a representação da mídia em prol da agenda governista, censurando e reprimindo qualquer movimento, as reinvindicações por salários justos, jornadas de trabalho dignas em meio a uma economia somente movida por interesses da classe dominante tornam esse filme, um híbrido entre documentário e cinema direto, atemporal dentro da história brasileira.
Greve de Março (1979)
Dirigido por Renato Tapajós, Maria Inês Villares, Cláudio Kahns, Zetas Malzoni, Olga Futemma, Francisco Cocca, & Alípio Viana Freire
Em 1979, Lula convidou Renato Tapajós a filmar a greve dos metalúrgicos no ABC, nas assembleias da Vila Euclides, e daí nasceram Linha de Montagem e Greve de Março, inicialmente pensado com escopo mais amplo, depois ajustado pela intervenção federal e a pausa para negociação. Tapajós define o filme como instrumento político, feito para voltar aos operários, gerar debate e fortalecer a continuidade da luta.
ABC Brasil (1980)
Dirigido por José Carlos Asbeg, Luíz Arnaldo Camps, e Sérgio Péo
O curta-metragem de José Carlos Asbeg, Luíz Arnaldo Campos e Sérgio Péo acompanha as reivindicações dos trabalhadores metalúrgicos do ABC paulista. Os cineastas se debruçam em especial sobre os discursos do líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva depois de seu retorno à diretoria e às grandes assembleias no Estádio de Vila de Euclides. A retomada do movimento operário após dezessete anos sob um regime ditatorial militar, sua luta e, enfim, a criação do Partido dos Trabalhadores são abordados.
A Luta do Povo (1980)
Dirigido por Renato Tapajós
Em 30 minutos, A Luta do Povo registra as greves do ABC em 1979 com clareza e força, dando voz a trabalhadores e lideranças comunitárias sobre sindicato, fome e saúde. Os depoimentos apontam multinacionais como raiz invisível da opressão e defendem solidariedade e organização local. O filme vai do funeral de Santos Dias da Silva a um comício vitorioso de Primeiro de Maio, sem perder de vista o caminho a seguir.
Linha de Montagem
Dirigido por Renato Tapajós
Nos anos 70, sob a ditadura e o Milagre Econômico, o ABC paulista viveu arrocho salarial e precarização, enquanto os sindicatos buscavam formas de reorganizar a luta após a repressão de 1964. Em parceria com Renato Tapajós, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema usou o cinema como ferramenta de articulação política, produzindo curtas e o longa Linha de Montagem. O filme faz um balanço das greves do fim dos anos 70 e início dos 80, mostrando como liderança sindical, mobilização local e redes de apoio como igrejas, artistas e ações de arrecadação sustentaram o movimento e apontaram para a necessidade de organização político partidária dos trabalhadores.
ABC da Greve (1990)
Dirigido por Leon Hirszman
Em outubro, o Brasil decide os rumos da democracia em uma eleição entre Lula e Jair Bolsonaro, tratada como histórica. Nesse contexto, vale revisitar O ABC da Greve (1990), de Leon Hirszman, que ilumina as origens políticas de Lula e as lutas operárias do fim dos anos 70 e início dos 80. Diante do enfraquecimento atual dos sindicatos, o filme recupera um horizonte de organização e conquista, lembrando que outros caminhos são possíveis.
Braços Cruzados, Máquinas Paradas
Dirigido por Roberto Gervitz & Sérgio Toledo
Braços Cruzados, Máquinas Paradas de Roberto Gervitz e Sérgio Toldedo retrata a disputa pela presidênicia do sindicato dos metalúrgicos de São Paulo em 1978. O contexto político e social dos trabalhadores brasileiros no final dos anos 70 era bastante difícil e complexo, ainda assim eles ousaram se erguer e lutar contra a opressão econômica e política por melores salários, condições de vida e, acima de tudo, dignidade. Sua organização sindical, a escola dos seus líderes, as disputas internas, as reações dos setores governamentais e empresariais ao movimento são todos temas importantíssimos para entender a articulação e a luta dos operários nesse momento histórico.