"É, portanto, no meio desse universo feminino que entendemos Helena Solberg e o seu papel no cinema brasileiro. Em boa companhia, cercada degerações e ruídos diferentes. Alguém que não se resume a um cardápio único – o Cinema Novo. Até porque o cinema é apenas uma peça na missão que ela encarou: ade quebrar o próprio espelho." - Andrea Ormond

A ilustre carreira de Helena Solberg como cineasta internacional começou em seu país natal, Brasil, com dois curtas-metragens, A Entrevista (1966) e Meio-Dia (1970). Na época em que foram feitos, estes filmes passaram despercebidos, gerando algum burburinho nos jornais e em festivais, mas raramente sendo exibidos e ficando ofuscados pelos longas-metragens do movimento Cinema Novo. Mas hoje, A Entrevista e Meio-Dia estão sendo abraçados por uma nova geração de cineastas, críticos e acadêmicos como alguns dos maiores curtas-metragens brasileiros de todos os tempos. A Entrevista é amplamente visto como um dos filmes brasileiros feministas pioneiros por sua ousadia em abrir discussões relacionadas ao casamento, sexo, virgindade, fidelidade, felicidade, trabalho e os papéis sociais que são impostos às mulheres. Meio-Dia é considerado um dos grandes filmes políticos do período da ditadura militar no Brasil, prestando homenagem a Zero em Comportamento (1933) de Jean Vigo através da história de uma revolta infantil em uma escola em São Paulo.

Nosso objetivo com este programa é destacar com exclusividade o trabalho inicial de Solberg, feito antes que ela partisse para os EUA (onde ela posteriormente permaneceu e trabalhou por décadas). Foi um período criativo isolado, mas extraordinariamente rico para a diretora, no qual quebrou barreiras para as mulheres dentro de uma indústria cinematográfica brasileira dominada por homens e trouxe uma visão exclusivamente feminista às telas do cinema brasileiro. A inspiração por trás do título "Quebrando Espelhos" foi uma frase (citada acima) no texto da pesquisadora de cinema Andrea Ormond, a ser publicado neste programa: "Helena Solberg: Entre as Marias, o Aleph, e a Contracultura". O texto de Ormond destaca a multiplicidade de Solberg - alguém que olhou internamente para enfrentar os estigmas que cercam as mulheres no Brasil e que olhou externamente para uma sociedade fraturada e isolada sob o domínio militar, e percebeu a necessidade de uma luta revolucionária.  Se o espelho através do qual o Brasil se viu nos anos 60 e 70 refletia uma visão unificada de um país, o trabalho de Solberg o partiu em pedaços, revelando um país fraturado tanto em termos de sua estabilidade política e social, quanto em sua auto-concepção como inerentemente moralista.

"It is, therefore, in the midst of this feminine universe that we understand Helena Solberg and her role in Brazilian cinema. In good company, surrounded by different generations and noises. Someone who was not limited to a single menu - Cinema Novo. Even because cinema is only a part of the mission she took on: that of breaking her own mirror." - Andrea Ormond\

Helena Solberg's illustrious career as a globetrotting documentary filmmaker began in her home country of Brazil with two short films, A Entrevista (1966) and Meio-Dia (1970). At the time they were made, these films went mostly under the radar, generating some buzz in newspapers and at festivals but rarely receiving exhibition and becoming overshadowed by the feature-length films of the Cinema Novo movement. But today, A Entrevista and Meio-Dia are being newly embraced by an upcoming generation of filmmakers, critics, and scholars as among the greatest Brazilian short films of all time. A Entrevista is now widely seen as one of the pioneering feminist Brazilian films for its boldness in opening up discussions related to marriage, sex, virginity, fidelity, happiness, work, and the social roles that are imposed on women. Meio-Dia, in its own right, is considered to be one of the great political films of the military dictatorship period in Brazil, paying homage to Jean Vigo's Zero for Conduct (1933) through the story of a children uprising at a day-school in São Paulo.

Our goal with this program is to exclusively highlight Solberg's early Brazilian work, made right before she would leave to the U.S. (where she subsequently stayed and worked for decades). This isolated but extraordinarily rich creative period for the director saw her breaking down barriers for women within a male-dominated Brazilian film industry and bringing a uniquely feminist vision to Brazilian theater screens. The inspiration behind the title "Breaking Mirrors" was a line (quoted above) in film scholar Andrea Ormond's text to be published in this program: "Helena Solberg: Between the Marias, the Aleph, and the Counterculture". Ormond's text highlights the multiplicity of Solberg - someone who looked internally to confront the stigmas surrounding women in Brazil and who looked outwardly towards a fractured society under military rule and noticed the need for revolutionary struggle.  If the mirror through which Brazil viewed itself in the 60s and 70s reflected a unified vision of a country, Solberg’s work split that mirror into pieces, revealing a place fractured in terms of its political and social stability, and in its self-conception as inherently moralistic.

Agradecimentos especiais: David Meyer & Helena Solberg

A Entrevista (1966)
Dirigido por Helena Solberg
A Entrevista (1966), de Helena Solberg, foi filmado em 1964, ano que marcou o início do golpe militar no Brasil. O filme foi lançado dois anos depois, no auge do movimento Cinema Novo, e gerou um burburinho na estreia devido a seus temas.O curta-metragem de 19 minutos é o resultado de entrevistas realizadas com várias mulheres entre 19 e 27 anos de idade que são da classe média alta. As entrevistadas falam sobre casamento, sexo, virgindade, fidelidade, felicidade, trabalho e os papéis sociais que são atribuídos ou impostos às mulheres. Por trás destas entrevistas emerge um perfil convencional da mulher brasileira idealizado por questões relacionadas à opressão feminina e à repressão militar vivenciada no país. As lentes de Helena Solberg afirmam a presença da mulher no cinema como protagonista, seja filmando, produzindo ou atuando, sempre de forma autoral. Nesse contexto, A entrevista é um documentário que condensa as aspirações de uma geração e de uma sociedade em contínua transformação.
Meio-dia (1970)
Dirigido por Helena Solberg
Filmado em 35mm em São Paulo, Meio Dia (1970) marca o primeiro filme de ficção de Helena Solberg. Reminiscente do Zero de conduta de Jean Vigo (1933) e do Os incompreendidos de François Truffaut, o filme retrata a revolta de um grupo de crianças em sua escola diurna. Realizado durante um dos momentos mais social e politicamente repressivos da ditadura militar brasileira, o filme pode ser visto como uma alegoria para a construção de tensões entre a população brasileira que vivia sob a opressão.