Nos anos 1970, um coletivo de artistas, jornalistas, cineastas e agitadores culturais de Teresina transformou o Super 8, então tecnologia doméstica da Kodak, em uma linguagem cinematográfica de vanguarda. Influenciados pela Tropicália, pelo cinema marginal brasileiro e por figuras como Torquato Neto, Ivan Cardoso e Luiz Otávio Pimentel, nomes como Edmar Oliveira, Xico Pereira, Dogno Içaiano, Antônio Noronha, Lindemberg Pirajá, José Alencar, Carlos Galvão, Arnaldo Albuquerque, Durvalino Couto, Haroldo Barradas, Rubem Gordim e Nelson Nunes deram origem ao primeiro ciclo de realização cinematográfica do Piauí.

Os filmes reunidos na parte 01 da mostra Cinema Marginal Piauiense, Um Sonho Piauiense, estão entre os primeiros já realizados no estado. Antes do surgimento desse grupo de cineastas e artistas, a ideia de fazer cinema em Teresina não passava de um sonho distante. A chegada das câmeras Super 8 representou uma verdadeira revolução, tornando não apenas a filmagem, mas também o processo de revelação, muito mais acessíveis e democráticos.

Com o apoio do Dr. Antônio Noronha no financiamento das produções, a articulação de um grupo de rebeldes ligados à contracultura e às artes, e o retorno, em 1971, do já consagrado Torquato Neto, poeta, jornalista e letrista tropicalista, esse sonho começou a se tornar realidade. Sua presença conferia legitimação e impulso ao movimento, ajudando a intensificar um cenário criativo que começava a ganhar forma.

Parte 01 da mostra Cinema Marginal Piauiense apresenta justamente as obras pioneiras desse ciclo. Após a conclusão de O Terror da Vermelha, em 1972, muitos dos participantes deixaram Teresina em busca de estudo e trabalho. Ainda assim, o legado underground permaneceu, e a semente do cinema já havia sido plantada. Esta sessão acompanha esse primeiro momento de invenção, descoberta e crescimento.

In the 1970s, a collective of artists, journalists, filmmakers, and cultural agitators from Teresina transformed Super 8, then a domestic Kodak technology, into a language of cinematic vanguard. Influenced by Tropicália, Brazilian marginal cinema, and figures such as Torquato Neto, Ivan Cardoso, and Luiz Otávio Pimentel, names like Edmar Oliveira, Xico Pereira, Dogno Içaiano, Antônio Noronha, Lindemberg Pirajá, José Alencar, Carlos Galvão, Arnaldo Albuquerque, Durvalino Couto, Haroldo Barradas, Rubem Gordim, and Nelson Nunes gave rise to the first cycle of filmmaking in Piauí.

The films gathered in part 01 of the Cinema Marginal Piauiense series, A Dream in Piauí, are among the earliest ever made in the state. Before the emergence of this group of filmmakers and artists, the idea of making films in Teresina was little more than a distant dream. The arrival of Super 8 cameras represented a true revolution, making not only filming but also the development process far more accessible and democratic.

With the support of Dr. Antônio Noronha in financing the productions, the coming together of a group of rebels linked to the counterculture and the arts, and the return in 1971 of the already celebrated Torquato Neto, poet, journalist, and Tropicalist lyricist, that dream began to become reality. His presence gave the movement legitimacy and momentum, helping to intensify a creative scene that was just beginning to take shape.

Part 01 of the Cinema Marginal Piauiense series presents the pioneering works of this cycle. After the completion of O Terror da Vermelha in 1972, many of its participants left Teresina in search of study and work. Even so, the underground legacy endured, and the seed of cinema had already been planted. This program follows that first moment of invention, discovery, and growth.

Agradecimentos especiais: Carlos Galvão, Edmar Oliveira, Durvalino Couto, o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), o Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual (LUPA UFF), George Mendes, o Acervo Artístico Torquato Neto, Bruno Baker e Fabrício Castro.

O Terror da Vermelha (1972)
Dirigido por Torquato Neto
Terror da Vermelha (1972), último filme de Torquato Neto, é um média-metragem experimental em Super-8 rodado em Teresina pouco antes de sua morte. Acompanhando um assassino pelo bairro Vermelha, o filme constrói uma narrativa caótica, com cenas fragmentadas, cortes bruscos e lógica própria. Misturando imagens violentas, sons inesperados e elementos da poesia concreta, a obra dialoga com o cinema marginal e a contracultura tropicalista. Filmado durante uma breve passagem de Torquato por sua cidade natal, o curta é um gesto radical de invenção, onde corpo, linguagem e cidade se misturam num delírio estético e simbólico.
Um Sonho Americano (1973)
Dirigido por Arnaldo Albuquerque
Um Sonho Americano (1973) é um filme de vampiro feito em Teresina, Piauí, que mistura humor, crítica social e experimentação formal com um olhar inventivo e provocador. A trama começa quando uma jovem toma uma garrafa de Coca-Cola e se transforma em vampira, desencadeando uma onda de ataques sanguinolentos e cômicos pela cidade. Suas vítimas, também transformadas, espalham a praga como um delírio coletivo. Com uma abordagem escancaradamente pop e uma sátira mordaz ao imperialismo cultural dos Estados Unidos, o filme reimagina o horror como uma alegoria tropical.
Coração Materno (1974)
Dirigido por Haroldo Barradas
No início de 1974, Arnaldo Albuquerque, Edmar Oliveira e Durvalino Couto realizaram um filme intitulado Coração Materno, baseado em uma canção popular dos anos 1950. A letra fala da promessa inconsequente de um amante apaixonado: entregar à amada o coração da própria mãe como prova de amor. Após uma exibição privada, a película foi destruída por um cão da casa, restando apenas pequenos fragmentos. No final do mesmo ano, Haroldo Barradas decidiu refilmar todo o roteiro com um novo elenco, incorporando ao novo trabalho as partes resgatadas da versão original. O resultado é um curioso exemplo de “filme dentro do filme”, em que recriação e memória se entrelaçam para preservar uma história marcada por perda, reconstrução e afeto.
Miss Dora (1974)
Dirigido por Edmar Oliveira
Miss Dora (1974) é uma alegoria que mistura realidade e simbolismo. Em um bloco de Carnaval com fantasias vermelhas, “loucura” lidera um grupo de “proletários” pelas ruas de Teresina. As ações do grupo simulam movimentos guerrilheiros contra a repressão da ditadura militar da época, refletindo a tensão política vivida no Brasil nos anos 1970. Dora, a protagonista, é uma mulher à frente de seu tempo, conhecida por sua história de resistência contra repressões psiquiátricas. Ela foi uma figura real da cidade e a estrela do filme, cujo elenco é formado por amigos e familiares de Edmar Oliveira, autor e diretor da obra. Edmar, hoje psiquiatra, foi um participante ativo do movimento contracultural dos anos 1970 e, através deste filme, oferece uma reflexão sobre os desafios da época, utilizando o cinema como forma de resistência e expressão.
David Aguiar (1975)
Dirigido por Durvalino Couto
David Aguiar foi rodado em Teresina em 1975, dirigido, fotografado e montado por Durvalino Couto Filho. A trilha sonora é composta por faixas do disco Atom Heart Mother, do Pink Floyd, popularmente conhecido como “o disco da vaca”. Inicialmente concebido com o título As Feras, o filme buscava registrar “todos os malucos da cidade”, segundo o diretor. A figura central é David Aguiar, jovem de classe alta, neto de um ex-governador, talentoso pintor e conhecido como o primeiro hippie de Teresina. Com cabelos longos, atitude transgressora e um estilo de vida alternativo, tornou-se símbolo de rebeldia e provocação à moral conservadora da cidade. Uma breve narrativa sobre um nazista em fúria armada aparece no início, mas logo cede lugar a algo mais livre e impressionista. O filme se transforma num retrato caleidoscópico da juventude contracultural de Teresina, guiado pela presença magnética de David e por uma câmera que passeia entre o delírio, o afeto e o improviso.
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