Há 41 anos, Margarida Maria Alves foi alvejada por tiros de espingarda em sua própria casa em Alagoa Grande, na Paraíba. Líder do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, Margarida movia mais de 70 processos trabalhistas contra usineiros e fazendeiros da região. Apesar das ameaças que recebia, ela seguia atuando na defesa dos direitos dos camponeses de forma destemida. Seu legado segue vivo quatro décadas depois de sua morte e agora podemos ver suas imagens imortalizadas pelo cinema em Super-8. Em homenagem a essa líder histórica, a Cinelimite, a Associação Brasileira de Preservação Audiovisual e a Casa Margarida Maria Alves apresentam a mostra Margarida Sempre Viva! Três Filmes Sobre a Luta Camponesa.

A mostra conta com dois curtas-metragens do documentarista José Barbosa, 1º de Maio (1983) e Encerramento da Semana Sindical no Brejo Paraibano (1981), filmes que registram as atividades em torno dos eventos dedicados ao Dia do Trabalho no interior da Paraíba. Em ambos os filmes, temos acesso a discursos de Margarida que não eram vistos desde os anos 80, quando os filmes foram projetados para os trabalhadores. Além de trazer extraordinários registros históricos de Margarida Maria Alves em ação, os filmes também nos revelam a admirável organização do movimento dos trabalhadores do campo na Paraíba. Assistimos às várias maneiras pelas quais os sindicatos de trabalhadores do estado se uniam para lutar por seus direitos, por melhores condições de trabalho e pela reforma agrária.

Além dos curtas, apresentamos também o média-metragem Margarida, Sempre Viva (1983), de Cláudio Barroso. Feito imediatamente após o assassinato da líder sindical, o filme captura as emoções à flor da pele da comunidade e acompanha a investigação do crime. Barroso se utiliza de diversos recursos para contar a história, contrapondo imagens dos gabinetes oficiais das autoridades responsáveis por apurar o assassinato com entrevistas com familiares, depoimentos de moradores de Alagoa Grande, e a comoção pública em torno do evento. Um olhar que não vacila ao encarar a dura realidade brasileira de violência e impunidade, mas também de fortitude e valentia do povo frente à injustiça.

Os filmes do programa foram digitalizados durante o projeto Digitalização Viajante, uma parceria entre a IDFB e a ABPA. Os três filmes estavam guardados nas casas dos realizadores e, durante nossa estada na Paraíba, com a ajuda de amigos como Ivan Cordeiro e João de Lima, tivemos acesso às películas e a chance de digitalizá-las. Novas matrizes digitais de preservação e exibição foram confeccionadas em 2K de todos os três filmes. Além dos filmes, apresentamos também duas novas entrevistas com os realizadores – uma com Cláudio Barroso em vídeo e outra com José Barbosa em texto – e um ensaio de Malu de Castro sobre o programa. Por fim, os filmes dessa mostra serão colocados em exibição permanente na Casa Margarida Maria Alves, um museu localizado na antiga residência da líder sindical em Alagoa Grande na Paraíba.

O assassinato de Margarida Maria Alves em 12 de agosto de 1983 transformou sua famosa frase "É melhor morrer na luta do que morrer de fome" em uma verdade sombria ao mesmo tempo que fez de Margarida um símbolo da luta pelos direitos dos trabalhadores rurais e em especial das mulheres campesinas. Em 2023, a Marcha das Margaridas reuniu em Brasília mais de 100 mil mulheres. Como Cláudio Barroso em seu filme, dedicamos esta mostra às mulheres do campo.

41 years to the day, Margarida Maria Alves was gunned down in her own home in Alagoa Grande, Paraíba. A leader of the Alagoa Grande Rural Workers' Union, Margarida had filed more than 70 labor lawsuits against mill owners and farmers in the region. Despite the threats she received, she fearlessly continued to defend the rights of rural workers. Her legacy lives on four decades after her death and now we can see her images preserved on Super-8 film. In honor of this historic leader; Cinelimite, the Brazilian Audiovisual Preservation Association and Casa Margarida Maria Alves are showcasing Long Live Margarida! Three Films About the Peasant Struggle.

The program includes two short films by documentarian José Barbosa, 1º de Maio (1983) and Encerramento da Semana Sindical no Brejo Paraibano (1981), which record the activities surrounding the events dedicated to Labor Day in the countryside of Paraíba. In both films, we are given access to speeches by Margarida that have not been seen since the 1980s, when the films were shown to rural workers. In addition to providing extraordinary historical records of Margarida Maria Alves in action, the films also reveal the remarkable organization of the peasants' movement in Paraíba. We see the various ways in which the state's workers' unions came together to fight for their rights, for better working conditions and for agrarian reform.

In addition to the short films, we are also showing the medium-length film Margarida, Sempre Viva (1983), by Cláudio Barroso. Made immediately after Margarida's murder, the film captures the raw emotions of the community in the aftermath and follows the investigation into the crime. Barroso uses various tools to tell the story, contrasting images from the offices of the authorities' responsible for investigating the murder with interviews with family members, testimonies from residents of Alagoa Grande, and the public commotion surrounding the event. We are invited to stare unflinchingly into a harsh reality of violence and impunity, but also of fortitude and bravery of the people in the face of injustice.

The films in the program were digitized during the Traveling Digitization project, a partnership between IDFB and ABPA. The three films were stored in the directors' homes and, during our stay in Paraíba, with the help of friends such as Ivan Cordeiro and João de Lima, we had access to the films and the chance to digitize them. New digital copies for preservation and exhibition were made in 2K of all three films. In addition to the films, we are also presenting two new interviews with the directors – one with Cláudio Barroso on video and the other with José Barbosa in text – and an essay by Malu de Castro in the program. Finally, the films in this exhibition will be on permanent exhibition at Casa Margarida Maria Alves, a museum located in the former home of the union leader in Alagoa Grande, Paraíba.

The assassination of Margarida Maria Alves on August 12, 1983 turned her famous phrase "It is better to die in the fight than to die of hunger" into a grim truth, while also making Margarida – whose name means daisy in Portuguese – a symbol of the struggle for the rights of rural workers and especially rural women. In 2023, more than 100,000 women took to the streets in Brasilia to participate in the Margarida March.

Like Cláudio Barroso in his film, we dedicate this program to the peasant women.

Agradecimentos especiais: Casa Margarida Maria Alves

1º de Maio (1983)
Dirigido por José Barbosa
O filme registra as atividades em torno dos eventos dedicados ao Dia do Trabalho no interior da Paraíba, apenas meses antes da morte de Margarida Maria Alves. No filme, vemos trabalhadores unidos em torno de atividades populares como teatro e música, e entre os jornalistas apresentados está escritora Maria Valeria Rezende.
Encerramento da Semana Sindical no Brejo Paraibano (1981)
Dirigido por José Barbosa
No filme, assistimos às várias maneiras pelas quais os sindicatos de trabalhadores de Paraíba se uniam para lutar por seus direitos, por melhores condições de trabalho e pela reforma agrária.
Margarida Sempre Viva (1983)
Dirigido por Cláudio Barroso
eito imediatamente após o assassinato da líder sindical, o filme captura as emoções à flor da pele da comunidade e acompanha a investigação do crime. Barroso se utiliza de diversos recursos para contar a história, contrapondo imagens dos gabinetes oficiais das autoridades responsáveis por apurar o assassinato com entrevistas com familiares, depoimentos de moradores de Alagoa Grande, e a comoção pública em torno do evento. Um olhar que não vacila ao encarar a dura realidade brasileira de violência e impunidade, mas também de fortitude e valentia do povo frente à injustiça.