Anselmo Duarte é uma das figuras mais icônicas do cinema brasileiro. Galã onipresente da era dos estúdios, entre o final dos anos 40 e início dos 60, Duarte marcou presença nas telas de todo o Brasil em numerosas produções de sucesso comercial, tornando-se uma grande estrela no processo. Além do trabalho como ator (que continuou exercendo até meados dos anos 80), Duarte é talvez mais conhecido por sua Palma de Ouro, conquistada com o filme O Pagador de Promessas de 1962, bem como por suas rixas estilísticas e ideológicas com o diretor Glauber Rocha. Entretanto, com Do Estúdio ao Sertão: Quatro filmes de Anselmo Duarte, o Cinelimite gostaria de iniciar uma nova conversa sobre o artista Anselmo Duarte, cujo trabalho de direção ao longo dos anos 50 e 60 acreditamos estar entre os mais qualificados e diversos de qualquer diretor brasileiro do período. Ao longo dos quatro filmes desta retrospectiva, que incluem Absolutamente Certo (1957), O Pagador de Promessas (1962), Vereda da Salvação (1965) e Quelé do Pajeú (1969), os espectadores notarão a atenção aguçada aos detalhes da mise-en-scene de Duarte, seus usos inventivos da montagem, deslumbrantes movimentos de câmera, e histórias profundamente enraizadas na cultura brasileira. Ao longo destes quatro filmes, os espectadores também encontrarão um cineasta que passa por uma grande transformação, indo de temas leves em torno de um game-show de Absolutamente Certo ao ocultismo e o sacrifício religioso de Vereda da Salvação.

Com os primeiros quatro filmes dirigidos por Anselmo Duarte agora traduzidos para o inglês, aqueles que procuram descobrir mais sobre o cinema brasileiro dos anos 50 e 60 além do movimento Cinema Novo não devem olhar mais além da obra de Anselmo Duarte nesta nova retrospectiva.

Anselmo Duarte is one of the most iconic figures of Brazilian Cinema. Fulfilling the role between the late 40s and early 60s as the go-to Studio-era actor, Duarte would grace screens across Brazil in numerous commercially successful productions, becoming a major star in the process. Outside of his work as an actor (a vocation he continued to practice until the mid-80s), Duarte is perhaps best known for his Palme d’Or winning 1962 film O Pagador de Promessas, as well as his stylistic and ideological feuds with director Glauber Rocha. However, with From the Studio to the Sertão: Four Films by Anselmo Duarte Cinelimite would like to spark a new conversation about the artist Anselmo Duarte, whose directorial work throughout the late 50s and late 60s we believe to be among the most accomplished and diverse of any Brazilian director during this period. Throughout the four films in this retrospective, which include Absolutamente Certo (1957), O Pagador de Promessas (1962), Vereda da Salvação (1965), and Quelé do Pajeú (1969), viewers will notice Duarte’s sharp attention to detail in mise-en-scène, his inventive uses of film editing, gorgeous cinematography and camera movements, and stories deeply rooted in Brazilian culture. Across these four films, viewers will also encounter a filmmaker undergoing a major transformation from lighthearted themes around a game-show in Absolutamente Certo to religious occultism and sacrifice in Vereda da Salvação.

With the first four films directed by Anselmo Duarte now translated into English, those looking to discover more about Brazilian cinema of the 50s and 60s beyond the Cinema Novo movement should look no further than the work of Anselmo Duarte in this new retrospective.

Agradecimentos especiais: Instituto Anselmo Duarte, Daphne Duarte, Ricardo Duarte, Paulo Wences Duarte, Octavio Monteagudo, Paulo Scarpa, and Matheus Pestana.

Absolutamente Certo (1957)
Dirigido por Anselmo Duarte
Anselmo Duarte, então um dos atores mais famosos do país, dirigiu e estrelou Absolutamente Certo!, uma comédia musical que parte da fórmula da chanchada, mas, como aponta o crítico Luciano Ramos, funciona também como síntese entre as chanchadas da Atlântida, o apuro técnico e formal da Vera Cruz (de onde Duarte trouxe técnicos) e o incipiente Cinema Novo, por ser uma história popular, bem-humorada e crítica; na trama, Zé do Lino, um bom-moço de São Paulo que precisa de dinheiro para se casar e cuidar do pai doente, ganha a chance de mudar de vida ao participar do quiz show Absolutamente Certo, mas vira alvo de apostadores sem escrúpulos que tentam forçar sua derrota, num roteiro pensado para conduzir as reações do público do riso à tensão, com atuações marcantes de Dercy Gonçalves, Odete Lara e Aurélio Teixeira.
O Pagador de Promessas (1962)
Dirigido por Anselmo Duarte
O Pagador de Promessas acompanha Zé do Burro, que após fazer uma promessa a Iansã num terreiro para salvar seu burro, caminha até Salvador carregando uma cruz para entregá-la à igreja de Santa Bárbara, mas é barrado pelo padre por causa do candomblé e vira alvo de uma multidão e de oportunistas, enquanto Rosa se envolve com o cafetão Bonitão; vencedor da Palma de Ouro de 1962, o filme marcou a história do cinema brasileiro, gerou polêmica com críticas de Glauber Rocha e hoje é um clássico de grande impacto emocional, impulsionado pela atuação inesquecível de Leonardo Villar e por um elenco estrelado.
Vereda da Salvação (1965)
Dirigido por Anselmo Duarte
Vereda da Salvação (1965), de Anselmo Duarte, adapta a peça de Jorge de Andrade e reencena um caso real de 1955 em Minas Gerais, quando camponeses liderados por um místico tomam uma terra e mergulham num fanatismo religioso que leva a um desfecho trágico. Fracasso de público e crítica na época, o filme virou “maldito”, ganhou status cult e foi defendido pelo próprio Duarte como seu melhor trabalho. Com fotografia de Ricardo Aronovich, marca a fase mais sombria e brutal do diretor e segue como um dos títulos centrais do cinema brasileiro dos anos 60, apesar de circular hoje em cópia digital precária.
Quelé do Pajeú (1969)
Dirigido por Anselmo Duarte
Quelé do Pajeú (1969–70), de Anselmo Duarte, é uma superprodução do Ciclo do Cangaço que acompanha a caçada implacável de Quelé (Tarcísio Meira) pelo sertão, movida por um código de honra e atravessada pelo encontro com Maria do Carmo (Rossana Ghessa) e pelo confronto com a violência que estrutura aquele mundo. Filmado em 35mm e lançado em 70mm, o filme foi considerado perdido por décadas e só sobrevive hoje em uma cópia encontrada na Itália, com legendas em italiano.