O Mundo Visto e Sonhado: Uma coleção de filmes do Espírito Santo apresenta um panorama histórico do cinema produzido neste estado da região sudeste do Brasil, a partir da perspectiva de iniciativas de preservação. Os nove filmes selecionados desenham uma trajetória de pioneirismos em que se destacam alguns pontos incontornáveis, como as iniciativas de Ludovico Persici nos anos de 1920 e a geração do Movimento de Cinema Amador, na década de 1960. Deste ciclo de curtas-metragens, nós disponibilizamos os únicos filmes que atualmente encontram-se acessíveis. Sendo um deles o documentário: Cirurgia do Coração no Espírito Santo (1967), que está sendo exibido pela primeira vez em formato digital.Descobertas somente nos anos 2000 mas filmadas há quase cem anos, após serem restauradas, as imagens de Persici receberam o título de Cenas de Família. No entanto, o filme apresenta uma variedade de situações, paisagens e personagens, ao longo de uma viagem de trem pelo interior do Espírito Santo. O povo, a paisagem e a formação político-social da sociedade capixaba viriam a ser o tema de uma série de documentários dirigidos por Orlando Bomfim Netto, de quem exibiremos duas produções, filmadas na década de 1970 e restauradas em 2017. Apoiando-se em incentivos públicos, uma geração de jovens cineastas surgiria nos anos de 1980, de modo que ajudaram a desencadear novos estilos de linguagem cinematográfica, criando assim, novos modos de produção e a construção de uma filmografia autoral em 16 mm e 35 mm. Esses cineastas criaram as suas próprias carreiras através da participação dos seus filmes em festivais de curtas-metragens, nos anos 90 e 2000. Essa geração oitentista alcançou a realização de longas-metragens com outra geração emergente dos anos de 2010, cujas carreiras começaram durante o surgimento da tecnologia de produção de filmes digitais. Em nossa atual programação, exibiremos três filmes icônicos dessa geração de cineastas. Obras que marcaram presença em três décadas diferentes e que reafirmam a posição do Espírito Santo na trajetória do cinema brasileiro.

The World Seen and Dreamt: A Collection of Films from Espírito Santo presents a historical panorama of cinema produced in this state in Brazil’s southeastern region, viewed through the lens of preservation initiatives. The nine selected films trace a trajectory of pioneering efforts, highlighting key milestones such as the work of Ludovico Persici in the 1920s and the generation associated with the Amateur Cinema Movement in the 1960s. From this cycle of short films, we are making available the only works that are currently accessible. One of them is the documentary Heart Surgery in Espírito Santo (1967), which is being screened in digital format for the first time.

Discovered only in the 2000s but filmed nearly a century ago, Persici’s images were restored and given the title Family Scenes. Despite the name, the film presents a wide range of situations, landscapes, and characters, following a train journey through the interior of Espírito Santo. The people, the landscape, and the political and social formation of Capixaba society would later become the subject of a series of documentaries directed by Orlando Bomfim Netto, of whom we will screen two works, filmed in the 1970s and restored in 2017.

Supported by public funding, a generation of young filmmakers emerged in the 1980s, helping to trigger new cinematic languages and, in turn, new modes of production, as well as the construction of an author driven filmography on 16 mm and 35 mm. These filmmakers built their careers through the circulation of their films at short film festivals in the 1990s and 2000s. This generation from the 1980s went on to make feature films alongside another emerging generation in the 2010s, whose careers began with the rise of digital filmmaking technologies. In our current program, we will screen three iconic films from this generation of filmmakers, works that made their mark across three different decades and that reaffirm Espírito Santo’s place in the trajectory of Brazilian cinema.

Agradecimentos especiais:  Matheus Pestana, Mathew Plotnick, Diego Zon, Ramon Alvarado, NENNA, Luís Fernando Moura, Margarete Taqueti, Erly Vieira Jr., Paulo Scarpa, Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), Vitor Graize, Acervo Capixaba, and Pique-Bandeira Filmes.

Cenas de Família (1926-1929)
Dirigido por Ludovico Persici
Cenas de Família de Ludovico Persici, foi realizado ao longo de três anos no estado brasileiro do Espírito Santo. O título de Cenas de Família foi atribuído por aqueles que restauraram o filme em meados dos anos 2000. Persici foi um dos pioneiros realizadores de cinema no Brasil, tendo inventado a sua própria câmera com a ajuda de plantas de relógios rotativos. Em Cenas de Família, o cineasta percorre o estado do Espírito Santo de carro e de trem, entusiasmado com as possibilidades e tecnologia da sua própria câmera. Persici registra tanto os momentos pessoais lúdicos, quanto os acontecimentos do dia-a-dia em todo o município de Castelo. Hoje, Cenas de Família, o único filme sobrevivente de Persici, é considerado um dos mais importantes documentos históricos dos primórdios do cinema brasileiro.
Kaput (1967)
Dirigido por Paulo Torre
Kaput (1967), curta-metragem de Paulo Torre, está entre os filmes brasileiros mais revolucionários do período, ao afrontar de modo direto a censura e a violência da Ditadura Militar iniciada em 1964. Situado no espírito de contracultura da juventude capixaba, o filme parte de drogas, amor, dança e rock para acompanhar o despertar político de seu protagonista, que, após ler Fidel Castro, escreve um texto contra a lei Suplicy e a guerra no Vietnã e acaba alvo da polícia militar quando ele circula no jornal escolar. Em uma época em que criticar o regime podia custar caro, Kaput se impõe pela coragem rara de nomear a opressão sem rodeios e permanece como uma chamada à ação diante de forças autoritárias.
Cirurgia do Coração No Espírito Santo (1967)
Dirigido por Ramon Alvarado
Cirurgia do Coração no Espírito Santo é um dos principais filmes do Ciclo de Cinema Amador do Espírito Santo. A cópia deste filme foi recentemente descoberta por Vitor Graize, o pesquisador do projeto Acervo Capixaba da Pique-Bandeira Filmes. A convite de seu irmão, o médico Luis Alvarado, o cineasta Ramon Alvarado registra duas cirurgias inéditas realizadas no Hospital das Clínicas, em Vitória. Com cinco minutos de duração, filmado em cores e editado pelo próprio cineasta, essa produção mostra o olhar de um diretor de fotografia em treinamento e o interesse de Alvarado pelos avanços tecnológicos e o progresso da ciência.
Ponto e Vírgula (1969)
Dirigido por Luiz Tadeu Teixeira
Dirigido por Luiz Tadeu Teixeira e filmado por Paulo Torre (diretor de Kaput), Ponto e Vírgula é um filme experimental cheio de tensão que cede a ansiedade e a instabilidade mental dos que vivem no Brasil pós AI-5. Portas fechadas, longos corredores cheios de luz (lembrando instituições mentais), insetos esmagados e uma figura de Jesus, compõem o panorama vertiginoso de imagens que podem ser encontradas no filme. Como um retrato de seis minutos da decadente saúde mental de uma sociedade sem as liberdades básicas inerentes, Ponto e Vírgula é um trabalho extremamente eficaz e poderoso. O filme parece um protesto de artistas em crise política e pessoal, incapazes de expressar os seus sentimentos com palavras, mas apenas gritos.
Tutti Tutti Buona Gente, Propriamente Buona (1975)
Dirigido por Orlando Bomfim Netto
Em Tutti Tutti Buona Gente, Propriamente Buona, o lendário cineasta Orlando Bomfim Netto utiliza imagens de arquivo como forma de dar a conhecer a história dos imigrantes italianos que há muito tempo vieram para o estado do Espírito Santo e ali se estabeleceram. Em Tutti Tutti Buona Gente, Propriamente Buona Bomfim viaja pelo município de Santa Teresa, a região serrana do Espírito Santo, onde imigrantes italianos vieram para fazer uma nova vida por si próprios. Durante essas viagens, Bomfim revela lindas paisagens capixabas e importantes tradições das comunidades ítalo-brasileiras.
Canto Para A Liberdade - A Festa do Ticumbi (1978)
Dirigido por Orlando Bomfim Netto
Durante centenas de anos, a população afro-brasileira da região norte do Espírito Santo tem celebrado o Ticumbi, uma comemoração composta por canções e danças revolucionárias. Em Canto Para A Liberdade - A Festa do Ticumbi , Orlando Bomfim Netto capta momentos deste festival anual que ocorre em Conceição da Barra, município do norte do Espírito Santo, há centenas de anos. Bomfim registra a música e a dança cerimonial local, apresentando um panorama histórico do Ticumbi e das pessoas que nele participam.
A Lenda De Proitner (1996)
Dirigido por Luiza Lubiana
A Lenda de Proitner, de Luiza Lubiana, é um curta-metragem mágico-realista de 21 minutos com tons de David Lynch e Peter Weir. O filme segue um rapazinho que foi preso em uma cabana por um casal instável, numa região não revelada do Espírito Santo. Com a partitura do lendário compositor brasileiro Jaceguay Lins (que também editou o filme), A Lenda de Proitner é um conto surrealista que exige repetições de olhares e está aberto a múltiplas interpretações.
No Princípio era o Verbo (2005)
Dirigido por Virgínia Jorge
Três histórias, que se desenrolam "simultaneamente" em um bar num dia de carnaval, se complementam e se fundem num vai e vem lírico e bem-humorado, que procura tecer uma reflexão sobre o conceito de verdade e nossa busca pelas explicações de fenômenos cotidianos, que não obstante estamos longe de compreender plenamente, como a invenção da roda, ou o modo de vida de outras culturas.
Das águas que passam (2016)
Dirigido por Diego Zon
Estreando na seção de curtas de 2016 do Festival de Berlim, Das Águas Que Passam retrata a vida cotidiana de Zé de Sabino, um pescador que trabalha e vive na deslumbrante vila de Regência, Espírito Santo (localizada perto do Rio Doce, que em 2015 foi palco de uma das maiores tragédias ambientais da história do Brasil). Sob os céus cheios de nuvens, a câmera com lente grande angular captura Zé em seu pequeno barco à pesca do Robalo, o peixe mais apreciado daquela região. Zé parece estar completamente integrado com a vasta e imponente natureza que o cerca, seja em terra ou no mar. Das Águas Que Passam é um filme sensorial. O diretor Diego Zon, em seu filme, permite que a natureza desempenhe o seu próprio papel como personagem.