Sérgio Ricardo faleceu em 23 de julho, aos 88 anos. Deixou uma marca indelével na cultura brasileira, especialmente como compositor. Canções como Zelão e Pernas ajudaram a definir a era da Bossa Nova e a história da música brasileira como um todo, assim como aquele momento antológico em que, impossibilitado de cantar Beto Bom de Bola, quebrou o violão no palco do 3º Festival de Música Popular da TV Record, em 1967. Sem falar, claro, da trilha sonora incontornável que compôs para servir de narração a Deus e o Diabo na Terra do Sol, com letras escritas pelo diretor Glauber Rocha. O que muitos não sabem é que Sérgio também foi cineasta. Dirigiu, escreveu e musicou curtas e longas-metragens que integraram alguns dos momentos mais vibrantes da história cultural do Brasil. É justamente essa parte de sua obra que nós, da Limite, destacamos nesta retrospectiva. O título escolhido vem de uma de suas canções, Vou Renovar, na qual ele fala de sua arte, cuja fonte está no povo, uma prova de sua filiação e lealdade, constantes ao longo de toda a sua obra e de sua vida.

Sérgio Ricardo passed away on July 23, at age 88. He left an indelible mark on Brazilian culture, especially as a composer. Songs such as Zelão and Pernas helped define the Bossa Nova era and Brazil’s musical history as a whole, just like that anthological moment when, unable to sing Beto Bom de Bola, he destroyed his guitar onstage at the 3rd TV Record Popular Music Festival, in 1967. Not to mention, of course, the inescapable soundtrack he composed to serve as narration for Black God, White Devil, with lyrics written by director Glauber Rocha. What many don’t know is Sérgio was also a filmmaker. He directed, wrote and scored shorts and feature films which were part of some of the most vibrant moments in Brazil’s cultural history. It’s that part of his work that we at Limite are focusing on in this retrospective. The title we chose came from one of his songs, Vou Renovar, in which he speaks of his art, “whose source is in the people”, a proof of his affiliation and loyalty which is constant in all of his work as well as his life.

Menino da Calça Branca (1962)
Dirigido por Sérgio Ricardo
O curta-metragem de estreia de Sérgio Ricardo, Menino da Calça Branca, teve sua inclusão negada no influente longa-metragem coletivo Cinco Vezes Favela (1962) por conta de seu “excesso de lirismo”. Em retrospecto, é justamente essa natureza lírica que nos permite retornar ao filme hoje com tanto prazer. A obra reúne duas forças artísticas (irmãos, vale lembrar) no início de suas trajetórias criativas: Dib Lutfi, que se tornaria um dos grandes diretores de fotografia do cinema brasileiro, e o escritor, diretor, ator e compositor Sérgio Ricardo. Ao contar a história de um jovem morador de favela cujo único desejo é conseguir uma calça branca impecável, Menino da Calça Branca evidencia as barreiras extremas entre a vida na cidade e na favela. Mais do que um vislumbre do que viria a se consolidar nas carreiras de Ricardo e Lutfi, Menino da Calça Branca é um filme sensível que merece, por si só, uma nova atenção crítica.
Esse Mundo e Meu (1964)
Dirigido por Sérgio Ricardo
Para seu primeiro longa-metragem, Sérgio Ricardo voltou a escolher a favela como cenário, desta vez concentrando-se nas lutas de dois trabalhadores das classes populares: Toninho, interpretado por Antônio Pitanga, e Pedro, vivido pelo próprio Sérgio Ricardo. Desenvolvendo os temas de Menino da Calça Branca, os personagens de Esse Mundo É Meu lidam com a pobreza, a religião, o aborto e a luta pelos direitos dos trabalhadores. Tudo isso é complementado por belas canções compostas e interpretadas pelo próprio Sérgio Ricardo, com arranjos primorosos do maestro Lindolpho Gaya. Mais uma vez, há no filme um aspecto lírico, com uma referência ao clássico de 1958 de Roberto Santos, O Grande Momento.
Juliana do Amor Perdido (1970)
Dirigido por Sérgio Ricardo
Sérgio Ricardo uniu-se ao cineasta Roberto Santos (O Grande Momento) para escrever o roteiro de Juliana do Amor Perdido, uma história de tragédia lírica que remete tanto à música de Dorival Caymmi quanto a Barravento, de Glauber Rocha. Os pescadores de uma vila litorânea são devotos de uma jovem do lugar que acreditam ser uma santa. Supõem que é ela quem, de forma milagrosa, garante que continuem pescando, sem perceber a própria exploração pelas mãos de um empresário inescrupuloso que compra o peixe e mantém deliberadamente vivo esse mito. A mulher, Juliana, sonha em escapar. Todos os dias, ela vai até a ferrovia próxima para cumprimentar o maquinista de um trem sempre que ele passa. Um dia, os dois se apaixonam e decidem fugir. O filme conta com belas canções novamente compostas por Sérgio Ricardo e ótimas interpretações de Maria do Rosário, Francisco di Franco e Antônio Pitanga.
A Noite do Espantalho (1974
Dirigido por Sérgio Ricardo
O conceito de A Noite do Espantalho foi desenvolvido pouco antes da promulgação do repressivo AI-5, decretado pelo regime militar em dezembro de 1968. Temendo a forte censura que se seguiu, Sérgio Ricardo decidiu adiar o projeto, retomando-o em 1973. Com Alceu Valença (então um estreante) no papel-título, A Noite do Espantalho narra a história de uma comunidade rural pobre do Nordeste brasileiro explorada por uma autoridade local. O filme é contado de forma marcante, por meio das cores vibrantes dos figurinos e cenários, que incluem o maior teatro a céu aberto do mundo, Nova Jerusalém, localizado na região de Brejo da Madre de Deus, em Pernambuco. As canções, os diálogos e o estilo geral do filme são amplamente influenciados pela literatura de cordel, essa forma única e imaginativa de poesia típica do Nordeste, o que faz desta obra um dos musicais mais originais já exibidos na tela.
Pé sem Chão (2014)
Dirigido por Sérgio Ricardo
No Vidigal, no Rio de Janeiro, uma mulher e seu filho com deficiência veem sua casa ameaçada e são forçados a enfrentar a possibilidade de despejo. Em cerca de 14 minutos, o filme acompanha essa travessia com um foco íntimo e direto, com direção, roteiro e música assinados por Sérgio Ricardo, e atuações de Marília Coelho, Márcio Januário e Nino Batista.
Bandeira de Retalhos (2018)
Dirigido por Sérgio Ricardo
Bandeira de Retalhos é o último filme dirigido por Sérgio Ricardo antes de seu falecimento, em 2020. A obra reúne atores veteranos como Babu Santana e Antônio Pitanga com novos talentos como Kizi Vaz para contar a história real das tentativas de um prefeito corrupto do Rio de Janeiro de remover toda a comunidade da favela do Vidigal com o apoio das forças policiais.